quinta-feira, 17 de abril de 2025

Crise climática vai destruir o capitalismo

Além das milhões de vidas que já foram e serão destruídas pela crescente crise climática, também o capitalismo terá fim. O alerta não veio de um ecologista radical, mas de Gunther Thallinger, membro do conselho de uma das maiores seguradoras do mundo, a Allianz, e ex-CEO do seu braço de investimentos. A razão, segundo ele, é que o mundo se aproxima de níveis de temperatura tão elevados que as seguradoras não mais poderão oferecer coberturas para muitos riscos climáticos, o que tornará o setor financeiro incapaz de operar. A 3°C acima dos níveis pré-industriais, os danos serão tão grandes que nem os governos poderão fornecer resgates financeiros. Interessante lembrar que na ideologia econômica dominante há ampla condenação a intervenções governamentais, exceto quando os resgates são “necessários” para salvar empresas “grandes demais para quebrar”!


A gestão de riscos é o negócio central das seguradoras, e há anos elas levam a sério os perigos das mudanças climáticas. Os prejuízos decorrentes de extremos climáticos, nos últimos dez anos, somaram centenas de bilhões de dólares, e a tendência é aumentar! Uma grande seguradora britânica já estima em dois trilhões de dólares os prejuízos na última década!

Comentando a fala do Sr. Thallinger, um ex-secretário geral assistente da ONU para mudanças climáticas disse que o setor de seguros é o “canário na mina de carvão quando o assunto é mudanças climáticas”. A questão não é mais previsão: já é história, como exemplificado por muitas empresas que já não aceitam mais fazer seguros para casas na Califórnia, devido aos devastadores incêndios! A ausência de seguros afeta, além do setor imobiliário, a indústria, a agricultura, a infraestrutura, os transportes… Ou seja, uma crise de crédito que trava todos esses setores e leva a uma profunda crise civilizacional!

Sintetizando, ele diz: “A 3°C de aquecimento, danos climáticos não poderão ser segurados, ou cobertos pelos governos, ou passíveis de adaptação; isso significa não haverá mais hipotecas, empreendimentos imobiliários, nem investimentos de longo prazo nem estabilidade financeira. O setor financeiro como conhecemos deixará de existir e, com ele, o capitalismo como conhecemos cessará de ser viável”!

Não obstante avisos tão claros e incisivos, a maioria dos governos, parlamentares e empresários continua postergando ações mais firmes para acabar com a queima de combustíveis fósseis, razão primeira do desarranjo climático que vivemos e legaremos aos nossos filhos e netos.

Como disse Jared Diamond, que analisou colapsos de diversas civilizações, membros da elite, como se fosse grande vantagem, apostam que serão os últimos a morrer de fome!

Nessa crença banal, condenam a todos e a si próprios.

Nunca tive tanto medo pelo futuro do meu país

Tanta loucura acontece com o governo Trump todos os dias que algumas coisas absolutamente estranhas, mas incrivelmente reveladoras, se perdem no meio do barulho. Um exemplo recente foi a cena de 8 de abril na Casa Branca, onde, em meio à sua acirrada guerra comercial, nosso presidente decidiu que era o momento perfeito para assinar um decreto para impulsionar a mineração de carvão.

“Estamos trazendo de volta uma indústria que foi abandonada”, disse o presidente Trump, cercado por mineiros de carvão usando capacetes, membros de uma força de trabalho que caiu de 70.000 para cerca de 40.000 na última década, segundo a Reuters. “Vamos colocar os mineiros de volta ao trabalho.” Para completar, Trump acrescentou sobre esses mineiros : “Você poderia dar a eles uma cobertura na Quinta Avenida e um tipo diferente de emprego, e eles ficariam infelizes. Eles querem minerar carvão; é isso que eles amam fazer.”

É louvável que o presidente homenageie homens e mulheres que trabalham com as mãos. Mas quando ele destaca os mineiros de carvão para elogiar enquanto tenta zerar o desenvolvimento de empregos em tecnologias limpas de seu orçamento — em 2023, a indústria de energia eólica dos EUA empregava aproximadamente 130.000 trabalhadores, enquanto a indústria solar empregava 280.000 — isso sugere que Trump está preso a uma ideologia de direita que não reconhece empregos na indústria verde como empregos "reais". Como isso nos tornará mais fortes?

Todo esse governo Trump II é uma farsa cruel. Trump concorreu a outro mandato não porque tivesse a mínima ideia de como transformar os Estados Unidos para o século XXI. Ele concorreu para ficar longe da prisão e se vingar daqueles que, com provas concretas, tentaram responsabilizá-lo perante a lei. Duvido que ele já tenha dedicado cinco minutos a estudar a força de trabalho do futuro.

Ele então retornou à Casa Branca, com a cabeça ainda repleta de ideias dos anos 1970. Lá, lançou uma guerra comercial sem aliados e sem preparação séria — razão pela qual altera suas tarifas quase todos os dias — e sem compreender o quanto a economia global é hoje um ecossistema complexo no qual produtos são montados a partir de componentes de vários países. E então ele tem essa guerra travada por um secretário de comércio que acha que milhões de americanos estão morrendo de vontade de substituir trabalhadores chineses " aparafusando pequenos parafusos para fabricar iPhones ".

Mas essa farsa está prestes a atingir todos os americanos. Ao atacar nossos aliados mais próximos — Canadá, México, Japão, Coreia do Sul e União Europeia — e nossa maior rival, a China, ao mesmo tempo em que deixa claro que favorece a Rússia em detrimento da Ucrânia e prefere indústrias energéticas destruidoras do clima a indústrias voltadas para o futuro, que se dane o planeta, Trump está provocando uma grave perda de confiança global nos Estados Unidos.
Thomas L. Friedman 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Sonhos nos escombros

Enquanto bombas destroem escolas e futuros em Gaza, uma geração se apega determinadamente à tábua de salvação da educação em meio ao genocídio.

Uma geração inteira em Gaza foi roubada do seu direito a uma educação adequada pela guerra genocida que Israel trava contra a população civil há quase 17 meses consecutivos.

Bombardeios implacáveis ​​e ataques direcionados levaram à destruição total ou parcial de quase 500 instituições de ensino em toda a Faixa de Gaza. Escolas e universidades — antes refúgios seguros para o aprendizado — agora estão em ruínas, deixando os alunos sem onde estudar e sem uma normalidade para onde retornar.

Nessa realidade angustiante, o e-learning tornou-se o único caminho disponível para aqueles determinados a prosseguir seus estudos. Mas mesmo essa frágil linha de vida traz consigo desafios quase intransponíveis — os principais deles: deslocamento, instabilidade e a falta de acesso confiável à internet.


Sabreen, uma estudante de Literatura Inglesa de 22 anos da Universidade Al-Azhar, conseguiu concluir dois semestres on-line durante a guerra — uma experiência que ela descreve como "a pior de todas".

Somente neste semestre, Sabreen e sua família — sua mãe, cinco irmãs e dois irmãos — foram deslocados diversas vezes.

“Nos mudamos de Khan Yunis para Rafah e depois para Al-Nuseirat”, ela conta. “Como estudante, a parte mais difícil foi encontrar uma conexão de internet estável.”

Para acompanhar seus estudos, Sabreen caminhava longas distâncias a cada poucos dias, procurando desesperadamente por um sinal forte o suficiente para baixar suas palestras.

“Eu costumava salvar os vídeos para assisti-los mais tarde quando voltasse ao nosso abrigo”, disse ela.

Um momento permanece especialmente vívido em sua memória:

Lembro-me de ficar sentado na rua até as 20h, sob o rugido dos aviões de guerra israelenses, só para fazer um exame. Não tive escolha.

Quando tinha exames consecutivos, Sabreen deixava sua família para trás e ia para o abrigo de sua tia em Deir al-Balah na esperança de encontrar uma conexão um pouco mais estável.

“Foi um pouco mais fácil me inscrever para os exames lá”, disse ela.

Para Sabreen, a educação nunca foi apenas uma questão de notas ou diplomas, sempre foi uma paixão.

"Ao contrário de muitos estudantes, eu adorava ir à universidade. Adorava assistir às aulas e nunca perdia uma palestra", disse ela com um sorriso nostálgico.



É por isso que a adaptação ao e-learning foi especialmente difícil.

“No começo, recusei-me a me inscrever para as aulas online”, admitiu ela. “Eu dizia a mim mesma: vou esperar até a vida voltar ao normal. Depois, voltarei e receberei uma educação de verdade.”

Mas a guerra se arrastou. Os bombardeios não pararam. Os campi permaneceram fechados. E a realidade bateu à porta.

“Depois de muita pressão da minha mãe e da minha irmã mais velha, que me avisaram que as universidades poderiam ficar fechadas por anos, finalmente concordei em me registrar e continuar meus estudos.”

Apesar dos esforços heroicos de professores e alunos, a aprendizagem significativa continua sendo um sonho distante. O acesso à internet é escasso, as aulas são incompletas ou atrasadas, e os professores, muitos dos quais também estão deslocados ou em luto, lutam para ensinar nessas condições impossíveis.

"Estudantes e professores estão sofrendo o mesmo genocídio. Estamos todos juntos nessa, apenas tentando resistir."

Este ano deveria marcar a formatura de Sabreen. Ela sonhava em comemorar no pátio florido da Universidade Al-Azhar, usando sua tradicional túnica de formatura, cercada de amigos, posando para fotos e dançando de alegria.

Mas a realidade foi mais cruel.

Em novembro de 2023, a Universidade Al-Azhar, localizada no coração de Gaza, foi completamente destruída.

As bolsas de formatura estão destruídas. As fotos estão desbotadas. Amigos estão mortos, feridos ou desaparecidos. E Sabreen agora está em um abrigo, sem saber se o mundo algum dia lhe permitirá sonhar novamente.

Ela é uma entre milhares — mentes brilhantes enterradas sob os escombros, cujos futuros foram interrompidos indefinidamente pela guerra.


Infância Perdida das Crianças

Em violação a todas as leis internacionais e humanitárias, as crianças de Gaza estão enfrentando as infâncias mais duras e brutais imagináveis ​​— forçadas a carregar fardos muito mais pesados ​​do que deveriam suportar.

Já se foram os dias em que as famílias comparavam as conquistas dos filhos perguntando:

“Quem tirou as notas mais altas?”

“Quem foi o melhor da turma?”

“Quem nos trouxe orgulho?”

Agora, as únicas perguntas que importam são:

“Quem pode trazer água?”

“Quem pode coletar lenha?”

“Quem pode acender um fogo para cozinhar?”

Desde outubro de 2023, escolas foram reduzidas a escombros ou transformadas em abrigos superlotados para os deslocados. Crianças foram forçadas a trocar suas mochilas para sobreviver.

Em vez de aprender, brincar e sonhar, suas prioridades diárias agora giram em torno de encontrar comida, água e segurança.



“Sinto-me triste pela minha filha, Zaina, pelas tarefas que lhe foram impostas por causa da guerra”, disse sua mãe.

Quando a guerra começou, Zaina tinha quase seis anos e estava apenas começando sua jornada educacional.

"Ela estava tão animada para ir à escola. Sentia que tinha crescido", lembra a mãe. "Mas sua alegria não durou muito."

Agora, Zaina tem oito anos. Ela ainda não vivenciou um dia de escola de verdade. Seus sonhos de educação foram engolidos pela guerra e pelo deslocamento.

“Ela se acostumou a uma realidade sem escolas, sem professores e sem estrutura”, disse sua mãe. “Isso afetou sua disposição para aprender.”

Suas novas rotinas refletem essa normalização sombria. Quando solicitada a fazer trabalhos escolares ou participar de uma aula online, ela se recusa. Mas quando solicitada a buscar água, ela concorda entusiasticamente.

"Ela aproveita a oportunidade para sair e ver os amigos", disse a mãe. "As crianças perderam o senso de compromisso. A vida delas é um caos, e elas se adaptaram a isso."

Embora lamente a promessa perdida dos primeiros anos da filha, a mãe de Zaina ainda a considera sortuda.

"Ela não precisou enfrentar longas filas para assar pão ou enfrentar multidões para encher o tanque de água. O pai dela cuida disso, enquanto outras pessoas não têm pai", disse ela.

A guerra não destruiu apenas prédios. Ela destruiu mentes, futuros e o direito de uma geração de aprender, crescer e sonhar. Sejam estudantes universitários como Sabreen ou meninas como Zaina, as crianças e os jovens de Gaza estão sendo privados dos direitos mais básicos que definem uma infância e um futuro.

O que resta é um silêncio aterrorizante — de sonhos adiados, vozes silenciadas e futuros mantidos reféns.

Mas mesmo nos escombros, um lampejo de resistência persiste.

O desejo de aprender.

Crescer.

Estudo refuta ideia de que 'renda grátis' induza à preguiça

Uma renda básica universal – ou "dinheiro grátis" para todos, sem a necessidade de trabalhar – pode parecer um sonho irreal. Mas economistas têm refletido seriamente sobre as vantagens dessa ideia e desenvolvido modelos de como ela poderia funcionar. Figuras públicas que se declararam a favor do conceito vão de pensadores marxistas ao papa e ao bilionário Elon Musk.

Isso é algo que a Alemanha vem discutindo desde a década de 70. De certa forma, o país já oferece uma forma de renda básica para quem está desempregado.


Mas, diferentemente dos sistemas atuais de seguro-desemprego, a renda básica universal é concebida como um subsídio mensal pago sem quaisquer condições, independentemente da renda de outras fontes. Em outras palavras, as pessoas podem continuar trabalhando e ganhar mais dinheiro se quiserem.
Mas será que alguém continuaria trabalhando?

Essa é uma das grandes questões que pesquisadores alemães buscavam responder por meio de um estudo de longo prazo chamado Projeto-Piloto de Renda Básica – um dos estudos mais abrangentes do mundo para testar empiricamente o impacto da renda básica incondicional.

Os resultados foram agora divulgados, junto com uma série de documentários que acompanha alguns dos participantes do estudo, Der grosse Traum: Geld für alle (O grande sonho: dinheiro para todos), dirigido por Alexander Kleider.

Mais de 2 milhões de pessoas se inscreveram para participar do estudo, iniciado pela organização sem fins lucrativos alemã Mein Grundeinkommen (Minha renda básica) e conduzido por diferentes grupos de pesquisa, incluindo o Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW Berlin).

Entre os candidatos, 122 indivíduos foram selecionados aleatoriamente para receber 1,2 mil euros (R$ 7,9 mil) por mês durante três anos, a partir de junho de 2021. Um grupo de controle de 1.580 pessoas respondeu às mesmas perguntas da pesquisa ao longo do estudo, a fim de comparar como a renda afeta a vida dessas pessoas.

Para criar conjuntos de dados comparáveis, todas as pessoas no estudo tinham entre 21 e 40 anos, moravam sozinhas e tinham uma renda líquida mensal entre 1,1 mil euros e 2,6 mil euros.

A série documental acompanha cinco desses sortudos participantes, os pesquisadores que conduzem os estudos qualitativos e quantitativos, assim como os ativistas da associação Mein Grundeinkommen. A organização luta pela renda básica há mais de uma década, arrecadando doações por meio de financiamento coletivo e redistribuindo o dinheiro por meio de diferentes experimentos.

O primeiro episódio da série abre com Michael Bohmeyer, que fundou o Mein Grundeinkommen em 2014.

O diretor do documentário, Alexander Kleider, sentiu que o trabalho de Bohmeyer e o estudo de três anos eram material inspirador para um projeto de filme. "Sempre quis fazer um documentário sobre renda básica incondicional porque sou fascinado pelo tema e porque parecia que poderia ser uma resposta, uma espécie de terceira via entre o capitalismo e, digamos, o socialismo – uma abordagem completamente nova", disse Kleider. "Eu não queria fazer um filme de propaganda; eu buscava uma história pessoal. Em algum momento, conheci Michael Bohmeyer e descobri sobre o projeto-piloto, e então ficou evidente, é claro, que o que eles estavam fazendo é algo excepcional."

Até 2014, Bohmeyer foi diretor-geral de uma startup de sucesso. Ao deixar o cargo, permaneceu como um dos coproprietários passivos, por meio da qual recebia uma distribuição mensal de lucros de mil euros. Bohmeyer via isso como sua "renda básica pessoal" e acreditava firmemente que todos também deveriam ter acesso a uma mesada, o que o levou a se envolver profundamente nessa causa.

Enquanto isso, os cinco participantes retratados na série foram selecionados para representar diferentes tipos de personalidades e estilos de vida, sendo que dois deles moravam em Berlim e três em cidades alemãs menores.

Embora esse não fosse o objetivo principal do documentário, a série destaca o contraste entre o idealismo que motiva ativistas como Bohmeyer e as prioridades consumistas de alguns dos participantes. Afinal, eles de repente tinham 1,2 mil euros adicionais por mês à disposição, e alguns deles rapidamente gastaram esse dinheiro como se fossem os vencedores de um concurso de televisão.

Bohmeyer admite no documentário que "ficaria irritado" se o único resultado do experimento fosse que os participantes aumentam seu "consumo bruto, o que é irrefletido e, de alguma forma, serve como uma distração de outras questões".

Uma das principais descobertas do experimento de três anos é que as pessoas que recebiam a renda básica continuaram trabalhando em média 40 horas por semana, desfazendo o mito de que a renda básica tornaria as pessoas preguiçosas.

No entanto, um percentual significativamente maior de participantes do grupo de renda básica mudou de emprego em comparação com o grupo de controle. Saber que tinham um plano de reserva financeira provavelmente os ajudou a fazer a mudança.

Também foi constatado que mais pessoas no grupo de renda básica começaram a estudar, às vezes paralelamente ao trabalho.

As mudanças de emprego ocorreram principalmente nos primeiros 18 meses do período do estudo. Após o tempo em que receberam a renda básica, os beneficiários se descreveram como significativamente mais satisfeitos com sua situação de trabalho – independentemente de terem ou não mudado de ocupação.

Os participantes que receberam a renda básica sentiram que seu nível de satisfação com a vida aumentou, um dos aspectos que a psicóloga Susann Fiedler, chefe do Instituto de Cognição e Comportamento, considerou particularmente revelador.

Em 1º de maio, o Mein Grundeinkommen selecionará aleatoriamente outro grupo de pessoas que receberão renda básica por um ano. A organização está investindo mais de 500 mil euros, arrecadados de diferentes contribuintes que acreditam na ideia.

Mas como a renda básica incondicional poderia ser financiada na vida real?

A proposta é vista como uma redistribuição de riqueza por meio de impostos. Nos cálculos dos ativistas, os que mais ganham na Alemanha – 10% da população – acabariam contribuindo com parte de sua renda para todos os outros. Eles estimam que 83% da população teria, assim, acesso a mais dinheiro. Os 7% restantes, de renda média, não seriam afetados pelo esquema de redistribuição.

Em época de populismo crescente, os ativistas da renda básica acreditam que esta é uma forma de combater a insatisfação da população devido à desigualdade de renda.

Como eles apontam, o estudo demonstra claramente que a renda básica não leva as pessoas a pararem de trabalhar. "O que vemos é que a renda básica não é um retiro, mas um trampolim social. A renda básica empodera as pessoas", disse Klara Simon, atual líder da associação Mein Grundeinkommen, na coletiva de imprensa que apresentou os resultados. "E aqueles que conhecem esses resultados e ainda não estão fazendo nada estão se opondo ao potencial desta sociedade; contra o poder inovador que se encontra adormecido dentro dela; contra a igualdade de oportunidades e contra uma democracia mais forte."

Anistia a golpistas é salto no precipício

Minha simpatia por teorias do direito penal mínimo faz com que eu não seja o maior fã de penas de prisão. Sou, contudo, um defensor ardoroso de condenações. Autores de crimes graves precisam ser condenados especificamente pelos delitos que cometeram (o tipo e o tamanho da sanção são uma outra discussão), ou os efeitos dissuasórios do direito penal não se materializam.

Gosto de citar uma frase do cardeal de Richelieu que captura a essência do problema: "Fazer uma lei e não a mandar executar é autorizar a coisa que se quer proibir". Se parlamentares tiverem sucesso em aprovar uma anistia para os golpistas de 2022-23, estarão convidando futuros usurpadores a agir sempre que desgostarem dos resultados das urnas. Caberá à Justiça Eleitoral só organizar a fila das intentonas, a fim de que não ocorram duas ao mesmo tempo.


E a desmoralização da recente Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito (que entrou em vigor em 2021 para substituir a famigerada Lei de Segurança Nacional e foi ironicamente sancionada com as assinaturas de Jair Bolsonaro e dois de seus corréus) não seria o único efeito adverso da anistia.

O perdão seria contestado na Justiça e é enorme a probabilidade de o STF considerá-lo inconstitucional, o que colocaria o país à beira de uma crise entre Poderes, com Legislativo e Judiciário disputando para ver quem tem a última palavra.

Crises institucionais não são piores do que golpes, mas são bem ruins. O novo presidente da Câmara, Hugo Motta, fará bem se, valendo-se de suas prerrogativas legais de controle sobre a pauta, conseguir evitar que o Congresso pule nesse precipício.

Não duvido de que os deputados bolsonaristas estejam sendo pressionados por suas bases para aprovar a anistia, mas o quadro nacional é inteiramente outro. Como mostrou o Datafolha, 56% dos brasileiros são contra o perdão; os favoráveis são mais modestos 37%. Em relação especificamente a Bolsonaro, 52% acham que ele deveria ser preso.

Motta tem respaldo se quiser defender a democracia.

El Salvador é o 'gulag' de Donald Trump

George Sylvester Vierek era um imigrante alemão, cidadão dos EUA e agente nazi. A sua missão era clara: impedir que os EUA entrassem na Segunda Guerra Mundial e explorar o que os alemães designavam por “grãos de perturbação”. Viereck foi devidamente pago pela Alemanha nazi para espalhar a sua propaganda antissemita e isolacionista, segundo o mantra hitleriano: “A América para os americanos.”

O agente subornou para a sua causa congressistas e senadores, que faziam eco desta propaganda e a distribuíam usando os serviços postais do Congresso. Ao mesmo tempo, uma rede de agentes procurava as fissuras da sociedade norte-americana, para fazer com que os cidadãos desconfiassem uns dos outros e se odiassem, com base no princípio de que um país polarizado não seria capaz de “montar um esforço de guerra bem-sucedido na Europa”.


Rachel Maddow, em “América contra o Fascismo”, conta como, enquanto os nazis tentavam conquistar a Europa, agentes alemães operavam nos EUA, o governo de Hitler apoiava grupos de fascistas americanos que se armavam, membros do congresso facilitavam a propaganda das ideias nazis a uma escala nacional e como o Departamento de Justiça foi travado na sua tentativa de condenar os membros de uma conspiração que pretendia substituir a democracia por um regime autoritário baseado em Hitler.

Da conspiração faziam parte organizações com nomes como Camisas Prateadas, os Cruzados das Camisas Brancas, a comissão América Primeiro e entidades geridas por Vierek, como a comissão Fazer a Europa Pagar as Dívidas de Guerra.

Em comum tinham um discurso anticomunista e antissemita, a intenção de abolir os partidos e impor um sistema de partido único, abolir a liberdade de expressão, de imprensa, de reunião ou a “proibição da prisão sem causa”. A interferência do presidente Truman, em defesa de congressistas amigos, fez abortar o julgamento.

Oitenta anos depois da libertação de Auschwitz, os EUA confrontam-se com esse pesadelo, mas instalado dentro do próprio estado. Num dos seus últimos artigos de opinião no The New York Times, o ensaísta Thomas L. Friedman, judeu americano, recorda que o presidente continua a ser o mesmo “homem que, em 2017, defendeu os nacionalistas brancos e neonazista que protestaram em Charlottesville, Vírginia, como se fossem ‘algumas pessoas muito boas’ e que o vice-presidente “também apoiou o partido alemão AfD, simpatizante do nazismo e banalizador do Holocausto, cujos líderes pediram aos alemães que parassem de expiar os crimes nazis”.

Vierek gostaria de saber que, 80 depois da derrota nazi, a Academia Naval dos EUA retirou da sua biblioteca livros sobre antirracismo, mas deixou na estante o Mein Kampf.

Friedman faz o paralelo entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu para concluir que ambos são aspirantes a autocratas, que cada um deles trabalha para minar o Estado de Direito e se afastam dos seus aliados democráticos tradicionais. “Cada um afirma a expansão territorial como um direito divino — ‘Do Golfo da América à Groelândia’ e ‘Da Cisjordânia a Gaza?’.” Ambos estão a abandonar a sua identidade enquanto regimes democráticos, em nome de um autoritarismo que exige fidelidade acéfala.

Trump e Netanyahu sentem-se impunes e sem obstáculos éticos ou judiciais, cuja independência recusam, como se constata pelas deportações de inocentes para El Salvador ou pelo assassinato de 15 paramédicos e socorristas no sul de Gaza.

Trump tem utilizado o antissemitismo como pretexto para expulsar imigrantes, por delitos de opinião, justificar um regime mais repressivo, atacar a independência das universidades e a liberdade de expressão. Na diabolização dos imigrantes, o presidente dos EUA acrescentou os hispânicos aos ativistas da causa palestiniana. Kilmar Abrego Garcia foi detido e enviado para uma prisão de alta segurança em El Salvador, apesar de não ter sido acusado ou condenado por qualquer crime, pela simples razão de que é de origem hispânica.

Embora o Supremo Tribunal tenha ordenado o seu regresso, a Administração Trump recusa-se a corrigir o erro. Garcia não será caso único: cerca de 90% dos deportados (imigrante salvadorenho mostra que, nos EUA de hoje, é possível prender seja quem for numa prisão num outro país e alegar que nenhum tribunal federal tem autoridade para corrigir esses erros. Trump já tem o seu “gulag”. Quem se segue: palestinos para a Somália e afro-americanos para a Libéria?

Escreve Rachel Madow “um grande fator de atração do fascismo, se mais não houvesse, era a sua apologia descomplexada da crueldade. Crueldade para com os outros, associada à hipersensibilidade a qualquer desfeita a eles próprios”.
Amílcar Correia

A banalidade do mal em verde e amarelo: por que Déboras não são inocentes

Nos últimos meses, setores bolsonaristas têm tentado transformar os sediciosos do 8 de Janeiro em mártires da liberdade. O caso mais notório é o da cabeleireira Débora, condenada a 14 anos de prisão por participar da invasão da praça dos Três Poderes. "Ela só escreveu ‘Perdeu, mané’ com um batom", diz o deputado Nikolas Ferreira, que chegou a compará-la a Rosa Parks, a moça do Alabama que se recusou a ceder o lugar no ônibus por dignidade e virou símbolo da luta pelos direitos civis nos EUA.

A comparação, para além do insulto histórico, revela algo mais profundo: uma operação de limpeza moral que tenta apresentar os golpistas como "pessoas comuns" injustamente perseguidas por um Estado tirânico.

É aqui que a filósofa Hannah Arendt oferece uma chave precisa para pensar o mal na modernidade. Quando Adolf Eichmann, funcionário-padrão da burocracia nazista, foi capturado e julgado em Jerusalém, em 1961, Arendt cobriu o julgamento como enviada da The New Yorker e ficou impressionada: ele não parecia um monstro, nem um sádico, nem um fanático. Parecia apenas... um homem comum.


Eichmann era medíocre, burocrático, vaidoso em sua obediência às regras e incapaz de refletir eticamente sobre os próprios atos. Isso levou Arendt a formular a tese da "banalidade do mal" —não no sentido de inofensivo, mas porque pode ser cometido por pessoas comuns, sem intenções malignas, sem ódio e até sem crueldade, apenas por conformismo, carreirismo, covardia moral ou irreflexão.

Arendt afirma que o mal radical não está necessariamente na intenção destrutiva, mas na suspensão do pensamento. Para ela, pensar é julgar, é colocar-se no lugar do outro, é aplicar critérios morais. O homem comum de um sistema ou movimento autoritário abdica de pensar —e, assim, abdica da responsabilidade.

Eichmann é banal porque é fácil ser Eichmann. O mal deixa de ser algo que vem de indivíduos monstruosos e passa a ser uma possibilidade concreta quando se cultiva a obediência cega, o conformismo, o anti-intelectualismo e o desprezo pelo julgamento ético.

Débora não é um monstro. Nem é Bolsonaro, Braga Netto ou Mário Fernandes. Não planejou o golpe, não escreveu seus roteiros. Mas estava lá —e sua presença não foi decorativa. A mulher exaltada como símbolo de injustiça por setores bolsonaristas pode muito bem ser uma pessoa comum: uma mãe de filhos, uma cidadã religiosa, uma trabalhadora. Seu gesto —trivial e "lavável"— fez parte de uma encenação cuidadosamente orquestrada para legitimar uma intervenção militar. A questão aqui não é a dosimetria da pena —talvez 14 anos seja excessivo. Mas trata-se de reconhecer que não se trata de inocência.

Débora, a velhinha da Bíblia e outras mães de família que deixaram seus filhos para acampar diante de quartéis não foram vítimas ingênuas. Foram peças fundamentais de um projeto autoritário: sem a "pessoa comum" para dar rosto humano ao levante, não haveria narrativa de povo oprimido nem ilusão de resistência patriótica.

Não estavam no topo da hierarquia golpista, mas justificavam simbolicamente todo o sangue que se derramaria caso o golpe triunfasse. São responsáveis —não porque pensaram o golpe, mas porque se ofereceram à engrenagem que o faria parecer legítimo. Débora não precisava saber de todos os detalhes do plano —bastava estar ali, no lugar certo, na hora certa, fazendo o que se esperava dela.

Arendt ajuda a entender isso. Mas o bolsonarismo produziu dois tipos ainda mais específicos.

O "inocente útil" —figura consagrada desde a Guerra Fria— é aquele que, mesmo sem plena consciência, empresta sua presença a um projeto que não compreende. Já o "idiota motivado" —conceito que venho usando desde 2013— está um degrau acima: não apenas coopera mas se converte. Sua ignorância é mobilizada por causas simplificadas, narrativas morais e senso de missão. Sente-se parte de algo maior —e por isso atua com entusiasmo, sem se dar conta de que é apenas massa emocional de um projeto golpista.

Essas figuras, supostamente inofensivas, oferecem densidade humana a causas autoritárias. Se o plano golpista tivesse funcionado, haveria assassinatos, perseguições, cassações, prisões —como acontece em toda ruptura autoritária. Déboras não precisariam apertar gatilhos nem assinar decretos. Teriam feito sua parte: legitimar, com sua presença e seu gesto, a encenação do "povo contra as instituições".

Como ensinou Arendt, o mal nem sempre se veste de ódio. Às vezes, basta uma bandeira, uma oração —e uma convicção sem pensamento.

terça-feira, 15 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


O caso de ver para não crer

Sempre se achou que é preciso ver para crer. Mas Engels, o brilhante parceiro de Marx, ponderava que em ciência a visão como prova definitiva é apenas uma suposição do empirismo radical, pois relações abstratas como na geometria ou na matemática são formalmente comprobatórias. Na vida prática, a tendência, exceto na vida religiosa, é acreditar no que se vê, porque o predomínio das noções comuns impõe ideias adequadas à realidade imediata.

E quando se vê e não crê? Disso a vida pública brasileira passou a dar exemplos alarmantes para o senso comum. É o fato da tentativa de golpe de Estado, motivo para que pela primeira vez na história do país um ex-presidente da República, militares e ex-militares da mais alta patente tenham sido indiciados como réus pelo Supremo Tribunal Federal.

À medida que a anestesia política de setores ponderáveis da população vai perdendo efeito, vibram pensamentos e queimam as palavras atinentes à gravidade do ocorrido. No entanto, é largo o espectro dos que se recusam a crer no que veem. Algo como o caso extremo do juiz que zera um processo por excesso de provas.

Num primeiro plano, avultam a Câmara dos Deputados e o Senado. Da Câmara não há muito o que se esperar, tão heterogênea é a sua composição em termos de idade, educação política e compromisso com o que ainda resta de vinculação ideológico-partidária. O segundo, a se julgar pelo nome romano ("senatus", conselho dos mais velhos) sempre inspirava algum respeito pela suposição de senioridade política.

Resguardados uns poucos nomes, porém, acabou a seriedade. Há quem enxergue Cristo trepado na goiabeira, quem veja a depredação no 8/1 (danos orçados em R$ 50 milhões) como um piquenique de idosos aloprados, quem não reconheça a evidência boçal da tentativa de golpe. Um tipo de cegueira em que, no presente, só se enxergam dejetos do passado.

"Bem-aventurados os que não viram e creram", disse Jesus aos discípulos (João, 20:9). E os que não querem ver para não crer? Dirão ser esse um direito de cada um. Senão, uma excentricidade, que traz de volta um episódio da adolescência. Numa família tradicional, o velho patriarca recusava-se a ver televisão, então novidade cara, convicto de que não era verdadeira a transmissão da imagem. Denunciava o que lhe parecia fraude. Ante a insistência de um parente para que assistisse a uma fala de Jânio Quadros, ameaçou: "Mais uma asneira dessas e eu vou empunhar o meu bacamarte!"

Mas deputados, senadores e membros ditos razoáveis da sociedade civil não têm o direito de não ver dois fatos: primeiro, a trama dolosa nos escalões do poder, comprovada em atas e atos, para um golpe político que previa assassinatos das mais altas autoridades e, em segundo, a manipulação das massas com efeitos violentos de manada. Gado tresmalhado continua sendo aboiado em favor da impunidade. Só que não é caso de anistia. Se foi culposa, isto é, sem dolo, a delinquência de ignorantes como bucha de canhão golpista, a prova diferencial cabe só a advogados e juízes. Para bem ver, basta um pouco de lucidez.
Muniz Sodré

Faça-lhe justiça!


Deus ilumine cada um dos 513 deputados e 81 senadores em seus votos. Se, com nossas decisões, pavimentamos a nossa eternidade, esse voto tem um peso capital. 
Jair Bolsonaro

Ofensiva de Trump contra universidades de ponta

Desde que voltou à Casa Branca, Donald Trump tem colocado em risco a pesquisa universitária nos Estados Unidos por meio do bloqueio de financiamentos e de interferência na gestão de algumas das mais importantes instituições acadêmicas do mundo.

Com um Congresso submisso, controlado pelo Partido Republicano, e uma Suprema Corte dominada por conservadores, o presidente americano não tem tido dificuldade em cumprir sua promessa de campanha de recuperar as instituições educacionais americanas do que ele chama de "esquerda radical".

O governo Trump tem determinado nas últimas semanas a suspensão de centenas de milhares de dólares em financiamentos de diversas instituições de ensino superior, incluindo Harvard, Columbia, Princeton, Johns Hopkins e Universidade da Pensilvânia, e ameaçou ir além caso essas instituições insistam numa suposta "postura antissemita". Na visão da atual administração, isso inclui ações que questionem o governo de Israel, como acolher manifestações estudantis contra a guerra em Gaza.

O governo Trump mandou investigar cerca de 100 instituições de ensino superior por discriminação e antissemitismo. Algumas delas conseguiram recorrer na Justiça contra sanções mas, de forma geral, elas estão se curvando às pressões, já que não podem prescindir dos recursos federais.

Segundo levantamento da agência de notícias Associated Press, essas universidades, juntas, receberam 33 bilhões de dólares (R$ 188,4 bilhões) entre 2022 e 2023, o que representa, em média, 13% de seus orçamentos.

A Universidade de Harvard foi a primeira a se recusar a cumprir as exigências da Casa Branca, como acabar com programas de inclusão e diversidade que, segundo o governo Trump, "alimentam o assédio antissemita". Nesta segunda-feira (14/04), o Departamento de Educação anunciou, por isso, o congelamento de 2,3 bilhões de dólares em subsídios e contratos para a instituição.

Em uma carta enviada a Harvard, o governo americano havia exigido reformas amplas na administração da universidade, a adoção de políticas de admissão e contratação "baseadas em mérito", além da realização de uma auditoria com estudantes, professores e dirigentes.

O presidente de Harvard, Alan Garber, acusou as exigências de Washington de violar os direitos garantidos pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA – que garante as liberdades fundamentais, em particular a liberdade de expressão.

"Nenhum governo – independentemente do partido que estiver no poder – deve ditar o que universidades privadas podem ensinar, quem podem admitir ou contratar, e quais áreas de estudo e pesquisa podem seguir", escreveu Garber em uma carta.

Considerada a universidade com mais recursos do mundo, Harvard é acusada pela força-tarefa federal contra antissemitismo de não proteger seus estudantes judeus e de promover "ideologias divisórias através da livre pesquisa". Por conta disso, o órgão havia ameaçado cortar 9 bilhões de dólares (R$ 51,4 bilhões) da Harvard em contratos e subsídios federais.

A Universidade de Princeton foi punida com a suspensão de bolsas de pesquisa no valor de 210 milhões de dólares (R$ 1,1 bilhão). A medida afeta dezenas de projetos que recebiam verbas federais vinculados ao Departamento de Energia, à Nasa (agência espacial americana) e ao Departamento de Defesa.

O reitor da instituição, Christopher Eisgruber, descreveu as ações de Trump como a maior ameaça às universidades americanas em décadas. "Estamos comprometidos em combater o antissemitismo e todas as formas de discriminação e cooperaremos com o governo nesse esforço. Princeton também defenderá vigorosamente a liberdade acadêmica e os direitos ao devido processo desta universidade", disse Eisgruber em comunicado.

Columbia, epicentro dos protestos estudantis pró-palestinos que se alastraram pelos Estados Unidos no ano passado, foi uma das primeiras afetadas pela atual ofensiva. No início de março, o governo determinou o corte de 400 milhões de dólares (R$ 2,3 bilhões) à universidade. A partir de então, a instituição anunciou reformas institucionais, como regras mais rígidas para protestos em seus campi e maior vigilância sobre departamentos de estudos do Oriente Médio.

A Universidade Johns Hopkins, um dos principais centros de pesquisa científica do país, perdeu 800 milhões de dólares (R$ 4,5 bilhões) em financiamento. Segundo o governo, a instituição deveria rever sua postura em relação aos protestos em seu campus e garantir que alunos e professores respeitem as diretrizes do governo sobre antissemitismo e apoio a movimentos considerados vinculados ao Hamas. Como consequência, a universidade anunciou a demissão de mais de 2 mil funcionários.

As medidas do governo Trump têm sido comparadas às adotadas durante a Guerra do Vietnã ( de 1955 a 1976), período em que as universidades consideradas centros de ativismo antiguerra enfrentavam cortes de verbas federais. Professores que expressavam posições críticas ao governo, sobretudo durante a presidência de Richard Nixon, corriam o risco de perder financiamentos para pesquisas e até seus empregos por serem considerados antiamericanos ou comunistas.

No entanto, analistas avaliam que nenhum governo fez uso tão intensivo de ordens executivas– ações unilaterais do presidente – para atacar a oposição ao seu governo e ao de aliados. "Ordens executivas nunca foram concebidas para visar especificamente indivíduos ou atores não governamentais com propósitos de retaliação ou vingança", afirmou à Reuters o advogado Mark Zaid.

Suas ações têm despertado críticas até de aliados. "Ele [Trump] traçou essas amplas linhas de batalha, seja contra pessoas que ele acredita terem tentado arruiná-lo pessoalmente, seja contra aqueles que, em sua visão, tentaram destruir a civilização ocidental", afirma o estrategista republicano Scott Jennings. "Tudo o que ele disse que faria na campanha, ele está fazendo."

Manifestantes, incluindo alguns grupos judaicos, argumentam que o governo Trump erra ao equiparar as críticas à campanha militar de Israel em Gaza e a defesa dos direitos palestinos a antissemitismo e apoio ao grupo terrorista Hamas.

Essa pressão recai não só sobre instituições, mas também sobre estudantes, com prisões, perseguições e ameaças de deportação. É o caso da doutoranda turca Rumeysa Ozturk, que foi levada à força sob custódia por agentes federais em plena luz do dia, perto de sua casa em Massachusetts, e teve seu visto revogado.

Um ano atrás, ela assinou um artigo de opinião no jornal estudantil da Universidade Tufts, onde estuda, defendendo que a instituição deixasse de investir em empresas com vínculos com Israel em reconhecimento ao "genocídio palestino". Não está claro se esse foi o motivo da detenção, já que ela não estava diretamente envolvida em protestos. O governo fala em apoio de Ozturk ao Hamas.

Outro símbolo da repressão do governo americano nas universidades é Mahmoud Khalil, ativista palestino e aluno de pós-graduação de Columbia, detido em 8 de março em seu apartamento universitário em Manhattan. Khalil corre o risco de ser deportado, mesmo tendo green card e sendo casado com uma cidadã americana – que estava grávida de oito meses na época de sua prisão.

"Esta é a primeira prisão de muitas que virão", disse Trump em sua plataforma de rede social Truth Social à época, acusado de ser um "estudante radical a favor do Hamas".

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou ter revogado mais de 300 vistos de estudantes dentro da atual ofensiva do governo.

Entre os temas "proibidos" pela administração Trump estão ainda questões de diversidade, meio ambiente e direitos humanos.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa perseguição à qual o governo chama de "guerra cultural" foi a suspensão de 175 milhões de dólares (quase R$ 1 bilhão) para a Universidade da Pensilvânia devido a políticas esportivas para atletas transgênero.

No centro do caso está a nadadora Lia Thomas, que fez história ao se tornar a primeira mulher trans a vencer o campeonato universitário americano de natação feminina, competindo pela universidade. Sua vitória gerou uma onda de discussões e críticas, especialmente entre aqueles que acreditam que atletas transgênero têm uma vantagem injusta sobre mulheres cisgênero em competições esportivas.

O governo Trump alegou que a universidade não estava aderindo a políticas que o governo considerava necessárias para garantir a "equidade" no esporte feminino.
Sofia Fernandes 

Ditadura deixou o país falido

Eu já cansei de ouvir de todo tipo de pessoa a frase “No tempo da ditadura era melhor”, para na sequência, ouvir as justificativas de que “havia mais respeito”, “havia mais segurança”. Mas, quando pergunto sobre economia, os ombros dizem que não sabem ou a memória não se lembra. Pois é. Parece que a anistia além de política, foi econômica. Os militares entregaram um país falido.

Crise econômica, contexto internacional, cenário político interno. A democracia seria um sonho se o governo dos militares não estivesse tão enfraquecido. Nem o medo dos comunistas emocionava mais. Fica para uma outra vez descobrir por que ficou tatuado no imaginário o milagre econômico ao invés do salto dívida externa, o arrocho, os empréstimos no FMI e a inflação galopante. A gente lembra da inflação do Sarney, os planos econômicos posteriores e acha que aquilo surgiu do nada?


Alguns economistas dizem que o milagre foi um modelo insustentável. Mais que isso, irresponsável. Entre 1968 e 1973 o país cresceu de 11% ao ano em média, era um canteiro de grandes obras e expansão industrial, tudo às custas do aumento da dívida externa e da estagnação dos salários. A Crise do Petróleo entornou o caldo e exigiu ajustes, que não foram feitos.

Em 1964 a dívida externa brasileira era de US$ 3 bilhões. Em 1985, alcançou US$ 95,5 bilhões. O país se transformou no maior devedor do mundo em proporção ao PIB. A inflação rondou os 20% entre 1968 e 1973, chegou a 211% em 1983. A balança comercial acumulava déficits sucessivos. A retração da economia era comprovada pelo PIB, que teve uma queda 4,4% em 1981 e 2,9% em 1983. Os militares não tinham um dado positivo para apresentar à população ou ao mercado.

Em 1982, o país quase declarou moratória. O México havia quebrado em agosto desse ano. Os bancos estrangeiros pararam de rolar a dívida brasileira e as reservas de dólares estavam em colapso. Os militares tiveram que fazer um empréstimo de US$ 4,4 bilhões com o FMI. Em troca, a receita recessiva que se conhece: corte de gastos públicos, aumento de impostos., desvalorização da moeda.

Se houve um índice que cresceu no período de exceção foi a concentração de renda. O 1% mais rico ampliou sua fatia da renda nacional de 12% para 17%, enquanto 48% da população vivia abaixo da linha da pobreza em 1973. Era a ideia de “fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo” de Delfim Neto, estabilizar a economia antes de promover a distribuição de riqueza, o que a economista Maria Conceição Tavares chamava de falácia.

Contra argumentos, não há fatos

Fãs que somos do Iluminismo, gostamos de imaginar a História como um processo pelo qual a razão e a ciência avançam paulatina, mas irresistivelmente. Ao fazê-lo, vão banindo os preconceitos e as superstições que colonizam as mentes das pessoas, num jogo que culminará na emancipação da humanidade.

Isso, é claro, nunca passou de "wishful thinking". O homem não é nem nunca será um ser perfeitamente racional, e a própria razão tem seus limites. Não obstante, nos últimos dois séculos, obtivemos grandes conquistas civilizatórias baseadas em avanços científicos e filosóficos. Reduzimos drasticamente a mortalidade infantil e reconhecemos a existência de direitos humanos universais, para dar apenas dois exemplos.


E isso não ocorreu porque a maioria das pessoas se converteu ao Iluminismo. Já comentei aqui o ótimo livro de Jonathan Rauch ("The Constitution of Knowledge") em que ele mostra que, demograficamente, não chegamos nem mesmo a um consenso sobre quais são os fatos que precisamos considerar.

Dois terços dos americanos acreditam que anjos e demônios atuam no mundo; 75% creem em fenômenos paranormais; e 20% pensam que o Sol gira em torno da Terra. Num tributo à paranoia, um terço julga que o governo age em conluio com a indústria farmacêutica para esconder "curas naturais" que existem para o câncer.

Conhecimento e democracia avançavam apesar de ideias como essas estarem bem enraizadas nas mentes das pessoas. Mas não é tão grave. Não precisamos que haja unanimidade em torno de quais são os fatos que devem ser levados em conta, mas apenas que uma elite de políticos, cientistas e outros detentores de postos-chave estejam de acordo sobre o método para estabelecê-los.

O que preocupa neste segundo mandato de Donald Trump é que chegaram a esses postos-chave pessoas que rejeitam o método para reconhecer fatos. O novo secretário de Saúde, por exemplo, faz parte dos 33% que creem no complô para esconder as curas naturais, além de ser contra vacinas.

Inúmeros americanos próximos da aposentadoria ficarão próximos do pânico

Na semana passada, a Apple perdeu US$ 770 bilhões em valor de mercado. É consideravelmente mais do que vale a Tesla. Pegue todas as ações da Tesla, seja capaz de vender todas essas ações ao mesmo tempo pelo valor cobrado no momento do fechamento desta coluna, e dá mais ou menos isso. Uns US$ 640 bilhões. A Visa, operadora de cartões de crédito, está avaliada pelo mercado em algo próximo de US$ 610 bilhões. Essa dinheirama não é pouco. Valer mais que US$ 600 bilhões quer dizer estar entre as 20 maiores companhias de capital aberto nos Estados Unidos. Até a semana passada, a ação da Apple era considerada estável, segura. Investimento conservador para padrões americanos. Donald Trump, com suas tarifas, a fez sangrar.

Aposentadoria, nos Estados Unidos, é responsabilidade individual. Cada indivíduo pode abrir uma conta-corrente de tipo específico, a 401(k), e mensalmente passar para ela um percentual do salário. Esse valor, até um teto que varia de acordo com a idade do contribuinte, é isento de imposto de renda. É o contribuinte que decide como investir esse dinheiro. Todo americano tem parte de sua aposentadoria investida em Wall Street. É da natureza americana que os cidadãos tenham o hábito de investir suas economias no futuro das empresas americanas. Está entre as forças do país. O tombo gigante da Apple, que perdeu 23% do valor entre os dias 2 e 8 de abril, foi refletido em cada poupança voltada para a aposentadoria em todo o país.




Não foi só a Apple que viu dinheiro virar pó. Num país onde o futuro de cada cidadão está atrelado ao valor das empresas, a loucura de Trump custa muito para todos. Só ficam de fora os tão pobres que não conseguem acumular para o futuro.

Não foi à toa que Trump voltou atrás e isentou parcialmente smartphones, computadores e apetrechos digitais em geral. Foi porque a bomba cresceu rápido e explodiria em sua mão. Ainda assim, o imposto de importação saltou de nada para 20%. Não ser 110%, como a Casa Branca estabelecera até a sexta-feira passada, é pouco consolo.

A briga só está começando. Trump ainda não entendeu o tamanho do problema que criou. Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, anunciou que começou a estudar tarifas sobre serviços digitais americanos. Pois é. Na Casa Branca só fazem conta incluindo coisas que pegamos. Querem, num cálculo infantil, ter certeza de que cada país, individualmente, compre mais coisas dos Estados Unidos do que vende para os Estados Unidos. Só que um terço das exportações americanas não se pega com as mãos. São serviços.

Von der Leyen é uma política conservadora alemã para lá de experiente. Serviu como ministra num dos governos mais frios, pacientes e precisos que a Europa viu desde a unificação — aquele comandado por Angela Merkel. Seu último cargo foi como ministra da Defesa. O trabalho era lidar com gente tipo Vladimir Putin. A Europa taxar serviços quer dizer o seguinte: a publicidade vendida por Meta e Google sentirá. E pode sentir muito pesado. Publicidade na Europa corresponde a 25% do que fatura a Meta e a 30% do que vende a Alphabet, holding do Google. Se os Estados Unidos continuarem jogando pesado, e a Europa retrucar, algo que ainda não fez no nível dos chineses, outras duas gigantes americanas sentirão o baque. Feio. Isso quer dizer que inúmeros americanos próximos da aposentadoria ficarão próximos do pânico.

Um pedaço grande do Vale do Silício fez uma aposta: que, ao apoiar a Presidência de Donald Trump, teriam em Washington um parceiro para enfrentar a regulação do mercado digital no exterior. Esperavam que a Casa Branca pusesse todo o peso do Estado americano para forçar União Europeia, Austrália, Canadá, América Latina a não enfrentar as big techs. Ora, a China não quer enfrentar as big techs. A Apple sozinha representa, dentro da China, uma cadeia que pode chegar a algo como 3 milhões de empregos. (A conta é de Patrick McGee, autor de um livro por lançar chamado “Apple in China”.) Mas a União Europeia quer. E Trump parece facilitar o trabalho em vez de dificultá-lo. À medida que a UE avança, outros a copiarão. Se ficará mais caro exportar para os Estados Unidos, por que não fazer um troco nas costas do Vale do Silício?

Ainda não acabou.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Pensamento do Dia

 


Beira o abismo

Não seria o momento de uma frente discutir caminhos para evitar uma volta ao passado? Não seria a hora de descortinar o futuro diante de tantos desafios como mudanças climáticas, inteligência artificial, crise alimentar? Não entendo a acomodação diante do abismo.

Fernando Gabeira

O que está em risco nos EUA não é (apenas) a democracia, é o liberalismo

Visões subjetivas sobre como o mundo funciona — ou deveria funcionar — compõem o sistema de crenças de um país. Nos Estados Unidos, essa estrutura sempre foi alicerçada no liberalismo, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, quando o país se consolidou como seu principal expoente no mundo ocidental e propagador desses valores no cenário global.

Liberdade individual, competição, livre mercado, governo limitado, igualdade perante a lei e democracia foram os pilares que moldaram a ordem institucional americana. Essa crença liberal ajudou a sustentar um ciclo virtuoso de desenvolvimento econômico e estabilidade política, traduzido na ideia do “sonho americano”: esforço individual, trabalho duro e meritocracia como caminhos legítimos para o sucesso e a prosperidade. Enquanto essa crença foi dominante, os EUA operaram quase em “piloto automático”, com ajustes de rota marginais.


Contudo, quando os resultados políticos e econômicos frustram as expectativas da população — especialmente dos principais atores políticos e agentes econômicos —, a crença dominante torna-se maleável e suscetível a mudanças, especialmente diante de choques.

Abrem-se brechas, ou janelas de oportunidade, para a contestação do sistema de crenças vigente — e, por consequência, das instituições que o sustentam. Mudança de crenças, portanto, é a chave para se entender mudanças institucionais.

O retorno de Donald Trump à presidência não pode, portanto, ser interpretado como um acidente — algo esdrúxulo, escatológico ou estranho ao ambiente político americano. A defesa de valores antagônicos ao liberalismo — como nacionalismo, protecionismo, segurança, estranhamento com a diferença, muros, tarifas, barreiras comerciais, preconceito contra imigrantes — sinaliza um estágio explícito de competição entre crenças e valores sobre como o mundo deveria funcionar.

Mudanças estruturais costumam ser inquietantes e até assustadoras, pois ainda não está claro o que irá prevalecer: quais crenças e instituições permanecerão e quais se tornarão dominantes. Portanto, ainda é cedo para afirmar com certeza se os EUA estão atravessando uma transição estrutural de valores. Mas os sinais de desalinhamento entre expectativas e resultados produzidos pelas suas instituições são cada vez mais evidentes.

Mais do que a democracia em seu sentido minimalista — o regime em que partidos perdem eleições competitivas — o que hoje parece realmente em risco, com o novo governo Trump, é a própria base liberal que historicamente definiu o ethos americano e do mundo ocidental.
Carlos Pereira

‘Nunca vi um pobre’

Quando penso que já vi e ouvi de tudo um pouco, a vida insiste em surpreender. Fiquei estarrecida com o relato sobre a euforia e empolgação de um jovem da elite paulistana diante da miséria. "Nunca vi um pobre", disse o estudante de uma renomada instituição privada de ensino superior ao participar de uma ação institucional voltada a prestar serviços públicos à população carente e em situação de rua em São Paulo.

Tamanha falta de discernimento e compreensão da realidade brasileira me deixou chocada. Como pode um universitário "bem-nascido, bem-criado, de boa família" e que vive na maior cidade de um dos países mais desiguais do mundo nunca ter visto um pobre?


Não pode. Afinal, a miséria é explícita no Brasil. E, francamente, não deveria empolgar ninguém, mas causar constrangimento e desconforto generalizado (no mínimo). Em Sampa, para "ver um pobre" basta dar uma volta em qualquer quarteirão da avenida Paulista, cartão postal da cidade.

Nem a vida confortável e luxuosa numa mansão (nos Jardins, no Morumbi, na Vila Olímpia ou em qualquer outro bairro nobre) é capaz de "blindar" a elite do contato com a pobreza. Não dá para ignorar que são os pobres que trabalham como babás, empregadas domésticas, cozinheiras, motoristas, jardineiros, porteiros e toda sorte de "eiros" a serviço de quem tem dinheiro de sobra. Pobres e predominantemente negros —é bom que se diga.

Pelas ruas deste país, é impossível deixar de avistar um pobre miserável perambulando, dormindo ao relento, jogado no chão, pedindo esmola ou comida, vendendo alguma quinquilharia ou ‘chapado’ para tolerar a rudeza de um cotidiano privado de esperança.

É desalentador e vergonhoso constatar que a sociedade brasileira continua a formar futuros "líderes" incapazes de sequer enxergar a realidade nacional —que dirá promover a transformação social necessária para fazer deste um país mais justo e menos desigual.

O fim da globalização como a conhecemos

“A inveja do mundo”. Era assim que Simon Rabinovitch e Henry Curr, editores da publicação inglesa The Economist, descreveram o estado da economia dos Estados Unidos em outubro do ano passado. Na série de sete artigos, os jornalistas tecem loas à pujança econômica estadunidense. Afinal, a economia crescia quase 3% em 2024. No agregado, o PIB do país nunca tinha sido tão alto, deixando para trás a retração da pandemia. O trabalhador norte-americano seguia sendo o mais produtivo do mundo e a concentração crescente de riqueza, argumentavam, era apenas o preço a ser pago por uma economia vigorosa.

O crescimento foi possível tendo em vista a revolução energética do petróleo de xisto, cuja extração foi permitida por tecnologia nova, o fracking. Os combustíveis fósseis extraídos por fraturação hidráulica de rochas profundas trouxeram aos Estados Unidos a soberania energética que permitiu o deslanche econômico. A soberania do dólar e de Wall Street nas finanças internacionais permanecia inconteste frente ao yuan e ao mercado acionário chineses. Apenas obstáculos internos poderiam atravancar a situação econômica norte-americana. Apesar de encontrarem problemas no plano econômico de Kamala Harris, Rabinovitch e Curr viam mais defeitos no de Trump.


Para o dissabor dos editores do Economist, cujos textos foram tirados do ar, o resultado da eleição de novembro daquele ano implicou um cavalo de pau na política econômica de Washington. À frente de uma coalizão eleitoral que incluía amplas parcelas da população do Cinturão da Ferrugem, área cujo setor industrial foi dizimado com o processo de globalização e acirramento da competição comercial nos anos 1990, Donald J. Trump foi alçado pela segunda vez à presidência.

Os empresários e plutocratas que compareceram à posse de Trump na Rotunda do Capitólio em fevereiro deste ano não pareciam estar contentes com a situação econômica deixada por Biden. Talvez na esperança de serem poupados de medidas econômicas nefastas, puseram-se a bajular Trump com doações recordes ao fundo que financiara a cerimônia de posse. Custava US$ 1 milhão sentar-se à frente até mesmo dos membros do gabinete que seriam logo empossados, preço prontamente pago por figuras como Elon Musk, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg.

Se Musk já colhia os resultados negativos de imiscuir-se nos mais altos níveis da política do país com o boicote à Tesla, agora foi a vez não só de Bezos, Zuckerberg e diversos outros, mas de todo o mercado pagar o preço de alçar Trump a uma nova presidência. O anúncio de um tarifaço global sem precedentes nos últimos cem anos, a que o governo Trump batizou “Dia da Libertação”, levou o mercado financeiro ao colapso. O S&P500, índice composto de quinhentos ativos negociados nas bolsas de Nova York (NYSE e NASDAQ), perdeu US$ 2 trilhões em capitalização em 20 minutos, principalmente concentrados nos setores têxteis e de tecnologia, dependentes de cadeias de valor internacionais.

Michael Feroli, do JP Morgan, estima que as tarifas podem sobretaxar os consumidores norte-americanos em quase US$ 400 bilhões, acelerando significativamente a inflação e reduzindo a renda disponível, o que aumenta a chance de uma recessão. O Federal Reserve de Atlanta já projetava antes do anúncio das tarifas crescimento negativo da ordem de -3,7% no primeiro trimestre de 2025.

O que chama a atenção, no entanto, é a quase absoluta ausência de quesitos técnicos nas tarifas anunciadas. Os agentes econômicos levaram um tempo para processar qual teria sido o critério que a equipe econômica de Trump havia escolhido para atribuir as alíquotas a cada país.

Para começar, a lista de jurisdições tarifadas inclui peculiaridades geográficas dignas de jogos de curiosidade. O primeiro-ministro Anthony Albanese ficou surpreso porque territórios australianos como as ilhas Norfolk (população: 2188 habitantes), ilhas dos Cocos (ou Keeling) (população 630) e ilha do Natal (1692 habitantes) receberam alíquotas diferentes do território continental da Austrália, que se encontra na faixa tarifária mais baixa de 10%. Era como se Fernando de Noronha tivesse uma alíquota tarifária diferente do resto do Brasil.

Mais surpreendentemente ainda, as ilhas Heard e McDonald, também território australiano no inóspito Oceano Antártico e, portanto, não habitadas, receberam menção independente e tarifa de 10%. É desconhecida a reação dos pinguins que habitam a região e o impacto econômico da medida…

As tarifas também pareciam alheias a qualquer caráter geopolítico, até então aliados de Washington como Israel (17%), Japão (24%), Taiwan (24%) e Coreia do Sul (25%), receberam tarifas maiores que o Irã (10%) e Venezuela (15%), não só rivais, mas objetos de sanções da Casa Branca. Foi notada a ausência da Rússia e da Coreia do Norte da lista dos tarifados, enquanto a Ucrânia recebeu uma alíquota de 10%. Os únicos outros poupados dessa rodada de taxação foram os sócios do USMCA, acordo que sucedeu o Nafta, Canadá e México.

Ao desenrolar da noite confusa que sucedeu o anúncio, internautas curiosos conseguiram decifrar o enigma e revelaram o algoritmo por trás do plano de Trump. Os territórios economicamente irrelevantes na lista devem sua presença ali ao fato de que contam com um código de domínio na internet (como o .br que encerra sites brasileiros, ou o .uk dos britânicos). Descarta-se assim a possibilidade de que a lista foi previamente organizada por um departamento técnico, como o Tesouro ou Comércio, mas por assim dizer “agentes” mais afeitos ao mundo digital. A não soberania, status autônomo, ou até mesmo presença de população permanente não é requisito para ostentar as duas letrinhas. Mesmo a Antártida conta com o código (.aq) e é possível registrar um site com esse código apesar da ausência de governo organizado no território. Não se sabe porque o governo Trump decidiu não tributar o continente gelado.

O anúncio do governo associava as alíquotas atribuídas a cada país a uma proporcionalidade, atenuada pela magnanimidade de Trump, do nível de tarifas e outras barreiras não tarifárias impostas às importações de produtos Made in USA. Os números simplesmente não batiam. Singapura, campeã em abertura comercial, recebeu os mesmos 10% do que o Brasil, que tem mercado sabidamente mais fechado aos produtos estrangeiros.

Tuiteiros (usuários do X?) começaram a levantar a hipótese de que as tarifas não tinham nada a ver com a abertura ou fechamento dos mercados às importações norte-americanas, mas sim alguma relação rudimentar com o déficit que os Estados Unidos apresentavam com cada país. Para aqueles com o quais os norte-americanos apresentavam superávit, tarifa mínima de 10%. De hipótese esdrúxula, a possibilidade sustentada por engenharia reversa, a alegação foi posteriormente confirmada pelo escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), agência responsável pela negociação de acordos comerciais. Para dar ar científico à coisa foi publicada uma fórmula assim como citados alguns artigos. A única diferença para o que havia sido desvendado pelas redes eram dois fatores (representados pelas letras gregas ε e φ) cujos valores multiplicados anulam-se mutuamente (uma conta pueril de 4 × 0,25).

Um usuário do Twitter/X desenvolveu a fórmula utilizada pelo USTR para chegar às alíquotas de tarifas para cada país, demonstrando que as tarifas eram proporcionais ao déficit comercial sobre as importações. 

O rumor agora não era apenas que a abordagem do tarifaço era “crua” e que “carecia de lógica econômica abrangente”, focando apenas nos déficits comerciais de bens sem considerar o panorama econômico completo, como avaliou o economista George Saravelos, do Deutsche Bank. Todo o débâcle econômico parecia ter sido gerado por um plano criado de forma pouco sofisticada utilizando inteligência artificial. O ChatGPT e outras IAs retornam fórmulas muito parecidas quando perguntadas algo como “Qual seria uma maneira fácil de calcular as tarifas que deveriam ser impostas a outros países para que os Estados Unidos estejam em igualdade de condições quando se trata de déficit comercial? Defina o mínimo em 10%”. Caso não acredite, confira por si mesmo.

O tarifaço anunciado no “Dia da Libertação” não só surpreendeu pela forma improvisada, quase amadora, com que foi desenhado – mas também pelo grau de desconexão entre os seus objetivos declarados e os efeitos mais prováveis. A ideia de aumentar a produção industrial dos Estados Unidos e reduzir o déficit comercial em US$ 600 bilhões pode até funcionar no PowerPoint, mas na realidade das cadeias globais de valor, das interdependências logísticas e das estruturas produtivas transnacionais, ela parece deslocada no tempo.

Mais do que isso: ela ecoa uma estratégia que quase um século atrás teve consequências desastrosas. A Smoot–Hawley Tariff Act, sancionada em 1930 por Herbert Hoover, aumentou drasticamente as tarifas de importação norte-americanas em plena crise. O resultado foi um colapso do comércio internacional e a intensificação da Grande Depressão. A história, como se sabe, não se repete – mas às vezes rima. A diferença agora é o mundo em que se insere o novo protecionismo americano. Se nos anos 1930 os Estados Unidos ainda hesitavam em assumir o papel de hegemon global, hoje parecem, deliberadamente, abdicar dele. Desde 1945, os Estados Unidos foram os principais arquitetos – e garantidores – da ordem liberal internacional. Aceitaram os custos disso: abriram mercados, financiaram reconstruções, toleraram déficits bilaterais com aliados estratégicos, como Japão e Alemanha. Não por benevolência, mas porque entenderam que estabilidade global e liderança andavam juntas.

Essa lógica começou a ruir nos anos 2000. A OMC estagnou, a Rodada Doha fracassou, e os Estados Unidos passaram a mirar países como China, Índia e Brasil, exigindo que deixassem de ser tratados como “em desenvolvimento”. A crise de 2008 marcou um novo momento: do G7 ao G20, da unipolaridade à multipolaridade emergente. O comércio seguiu, mas com mais fricção. E agora, com Trump de volta, o que se vê é menos um ajuste e mais uma tentativa de desmontar as engrenagens do sistema.

A reação internacional à nova cruzada tarifária revela os limites da política de força bruta. Sem critério técnico, sem lógica estratégica clara, e com uma execução que parece ter saído de um prompt mal calibrado de IA, o plano gerou mais perplexidade do que temor.

A China, alvo preferencial da retórica trumpista, já não é mais a mesma de 2017. Aprendeu a jogar com as regras do sistema – e agora desenvolve ferramentas próprias para responder. Um novo kit de “coerção econômica”, nos moldes norte-americanos e europeus, foi anunciado por Pequim. Já no campo político, a China começa a costurar encontros com Coreia do Sul e Japão, dois parceiros estratégicos dos Estados Unidos, mas que se viram repentinamente tarifados com alíquotas de 24% e 25%, respectivamente. A simples imagem desses três países sentados à mesma mesa, como aconteceu recentemente em Seul, já é uma rachadura no bloco ocidental.

A Índia, que vinha se aproximando de Washington, também acusou o golpe. É um dos poucos países emergentes com crescimento sólido e ambições globais. Não aceitará ser tratada como ameaça econômica e, ao mesmo tempo, como aliada militar. Nova Délhi já iniciou conversas com a União Europeia e com os Brics sobre alternativas comerciais. E o Vietnã, outro país que Washington cortejava com afinco, se viu atingido em cheio. Sua indústria leve, centrada em manufaturas para exportação, é especialmente vulnerável a esse tipo de tarifação. Há sinais de reaproximação com a China, inclusive em temas sensíveis, como tecnologia e energia. Um realinhamento silencioso, mas significativo.

Entre os que escaparam do tarifaço com a alíquota mínima de 10%, o Brasil talvez tenha sido o maior beneficiado. A capitalização da bolsa disparou, o real se valorizou e as exportadoras brasileiras comemoraram. A primeira reação do governo foi de contenção: conseguiu a aprovação pelo Congresso o direito de retaliar nos setores em que se sentir vulnerabilizado. Ainda assim, dado o contexto geral, é provável que o governo busque estabelecer novas negociações com os norte-americanos e manter o objetivo de diversificar a pauta exportadora. A estratégia parece ser ocupar o espaço deixado por parceiros tradicionais dos Estados Unidos. A reabertura do diálogo com a União Europeia, inclusive no âmbito do acordo Mercosul-UE, provavelmente ganhará novo impulso.

No entanto, a bonança pode ser enganosa. Isso porque as tarifas desorganizam o comércio internacional, tornam as relações bilaterais mais imprevisíveis e expõem o Brasil a pressões por alinhamento político. Já se fala nos bastidores de Washington sobre condicionar a manutenção da alíquota reduzida à adoção de compromissos diplomáticos – o que colocaria Brasília em uma posição delicada, entre a neutralidade pragmática e a barganha geopolítica.

Nesse sentido, o Brasil se alinha à linha adotada pelo México de Claudia Sheinbaum: explorar oportunidades sem comprometer a estabilidade. Mas enquanto o México conta com a blindagem do USMCA, o Brasil precisa navegar com mais astúcia – e entender que sua posição vantajosa pode não durar. A questão é se o país conseguirá transformar esse momento em alavanca para maior protagonismo internacional ou se apenas assistirá à crise norte-americana como espectador privilegiado.

É tentador decretar o fim da globalização. Mas talvez o que esteja em curso não seja o seu colapso – e sim uma mutação. A crise deflagrada pelas tarifas de Trump não é exatamente um ponto fora da curva. Ela está mais para um ponto de inflexão dentro de um processo mais longo, iniciado há pelo menos uma década e meia. A verdade é que o ordenamento liberal construído no pós-1945 já vinha se esgarçando. Seu apogeu talvez tenha sido nos anos 1990, com a consolidação da OMC, a expansão dos tratados bilaterais e regionais, e a promessa de um mercado global cada vez mais integrado, onde normas, instituições e previsibilidade compensariam as assimetrias. Os Estados Unidos lideravam esse processo, com ganhos tangíveis: exportavam produtos, mas também regras, modelos de governança, contratos e valores.

A crise de 2008 abalou as fundações desse sistema. O colapso do Lehman Brothers, a quebra de bancos na Europa e a resposta coordenada do G20 expuseram tanto o poder de articulação dos Estados Unidos, quanto os limites da sua capacidade de manter a estabilidade por meios exclusivamente liberais. Foi ali, no epicentro de Wall Street, que a globalização revelou sua face mais assimétrica. Por isso, para muitos países emergentes, 2008 foi menos uma crise e mais uma revelação: o sistema era instável e enviesado, e mesmo os que o desenharam não conseguiam controlá-lo. Foi nesse contexto que começaram a germinar os primeiros sinais de multipolaridade sistêmica: a criação dos Brics, o fortalecimento do G20, a ascensão da China como investidora alternativa do mundo em desenvolvimento.

Desde então, o que se viu foi uma crescente dissonância entre os discursos em defesa da ordem e as práticas de seus principais fiadores. A OMC estagnou. A Rodada Doha fracassou. Os acordos plurilaterais perderam tração. E os Estados Unidos – que sempre alternaram protecionismo seletivo com retórica liberal – passaram a agir cada vez mais de forma unilateral, impondo sanções, abandonando tratados e esvaziando instituições.

A volta de Trump à Casa Branca apenas leva essa tendência ao extremo. O tarifaço não é só uma política econômica. É uma declaração de abandono das regras que sustentavam a hegemonia americana, não por falta de poder, mas por escolha. Em vez de liderar com instituições, os Estados Unidos ensaiam liderar pelo choque. E isso tem consequências. No mundo do pós-Guerra Fria, a hegemonia norte-americana não se baseava apenas em tanques e dólares. Ela dependia da percepção de legitimidade. As instituições – FMI, Banco Mundial, OMC, ONU – funcionavam como extensões do poder norte-americano, mas revestidas de uma capa de multilateralismo. Quando Washington desrespeita ou ignora essas mesmas regras, sinaliza que a ordem é apenas um instrumento, não um fim. E com isso, abre espaço para alternativas.

A China, hoje, não busca necessariamente destruir o sistema – mas moldá-lo à sua imagem. Lança bancos paralelos (como o AIIB e o Novo Banco de Desenvolvimento – do BRICS), consolida sua moeda como instrumento de trocas regionais, e oferece infraestrutura e crédito a países que já não veem no Ocidente sua única opção. A Índia, o Vietnã, a Indonésia e mesmo países africanos também emergem como polos de estabilidade relativa, com peso demográfico, crescimento econômico e capacidade de articulação regional. E para fechar a história, Japão e Coreia do Sul se encontram em Seul com representantes chineses para buscar alternativas para a abertura comercial conjunta.

O mundo pós-2025 pode não ter um hegemon claro. Mas terá centros de poder, interesses cruzados e coalizões flexíveis. A fragmentação da ordem liberal não significa o retorno ao caos — mas sim um novo tipo de ordenamento, mais contingente, mais regionalizado, menos hierárquico. A globalização não acabou. Mas deixou de ser dirigida por um só maestro.

O mundo em colapso

A imagem já foi usada em textos anteriores. Trata-se da imagem do relógio do Juízo Final. Que está se aproximando meia noite. Para quem desconhece a história. Em 1947, a artista norte-americana, Martyl Langsdorf, esposa do físico Alexander Goldsmith Jr, do projeto Manhattan (fabricação da bomba atômica), desenhou um relógio para a capa do Bulletin of the Atomic Scientists, da Universidade de Chicago.

O relógio faz uma analogia com a raça humana, mostrando que a Humanidade está a segundos da meia noite, hora em que o planeta será devastado por uma guerra nuclear. Todos os anos, a imagem é redesenhada no boletim dos cientistas atômicos, onde se anuncia o apocalipse. Pois bem, nesses primeiros meses de 2025, a meia noite da catástrofe chegará em 90 segundos.

E quem sugere essa proximidade são os dirigentes das grandes potências que têm se referido em suas falas sobre a possibilidade de usar armas de destruição do planeta para defender seus territórios.


Vejamos. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia ultrapassa os limites do bom senso. Fala-se em cessar fogo, mas o que se vê, a cada semana, é a expansão do poder destrutivo dos dois países. A Rússia promete agir contra o que chama de militarização da União Europeia, após os líderes do bloco concordarem em aumentar gastos com defesa.

Na Faixa de Gaza, a guerra entre Israel e os palestinos não dá sinais de arrefecer.

Guerras se multiplicam nos quadrantes do planeta. Além da guerra entre Rússia e Ucrânia e entre Israel e Palestinos, vivem situações de conflitos os seguintes países: Síria, Iêmen, Sudão, República Democrática do Congo, Etiópia, Afeganistão, Líbia e Mianmar.

Um estudo realizado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês) mostra que, no ano passado, houve um grande aumento no sofrimento humano e na intensidade das guerras e conflitos globais. Mais de 200 mil pessoas foram mortas em 134 guerras e outros conflitos armados, representando um aumento de 37% em relação ao número de vítimas registradas no período dos 12 meses imediatamente anteriores, quando o confronto na Ucrânia já estava em seu segundo ano.

O mundo vive um dos ciclos mais tensos de sua história, a ponto de se indagar se não estamos voltando aos tempos da Guerra Fria, período de tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos e seus respectivos aliados, o Bloco Oriental e o Bloco Ocidental, após a Segunda Guerra Mundial.

O Papa Francisco diz que o mundo está a viver um momento de “autodestruição” com conflitos por todos os lados. Na encíclica “Laudate Deum”, de 2023, afirmava: urge “desarmar as palavras, para desarmar as mentes e desarmar a Terra”. E fazia o alerta: o mundo está “entrando em colapso e talvez se aproximando de um ponto de ruptura“. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também alerta: a “Guerra Fria voltou”.

As tensões se acirram. Nas últimas semanas, a “guerra comercial” deflagrada pelo senhor do topete laranja, paira como ameaça sobre as já combalidas economias do planeta. A trégua de 90 dias dada pelo presidente czar americano, ao suspender o tarifaço que impôs a mais de 60 países e blocos comerciais (com exceção da China), é um alívio passageiro. O mundo pós-tarifaço do mandachuva do Império Norte já não é o mesmo.

A paisagem é tão cheia conflitos que até a interpretação do professor Samuel Huntington em seu livro “Choque de Civilizações”, escrito há 40 anos, parece atual para descrever o caos que o mundo vivencia: “quebra da lei e da ordem, Estados fracassados e anarquia crescente, onda global de criminalidade, máfias transnacionais e cartéis de drogas, declínio na confiança e na solidariedade social, violência étnica, religiosa e civilizacional e a lei do revólver.”

A violência se expande em todas as áreas. No Irã, os aiatolás se voltam contra as mulheres. Que vão às ruas para protestar contra o Estado religioso. Em diversas regiões do planeta, o trabalho escravo aumenta seus espaços. Aqui, em nossas plagas, o trabalho infantil desafia as forças da lei. A floresta amazônica é usada como um grande corredor para exportação de drogas. A Nação yanomami continua sendo invadida por garimpeiros.

A sensação é a de que o País navega nas ondas da impunidade. Habitamos um território da desobediência explícita, o que justifica o chiste sobre nossa sociedade: Há quatro tipos de sociedade no planeta: 1. a inglesa, liberal, onde tudo é permitido, exceto o que é proibido; 2. a alemã, rígida, onde tudo é proibido, exceto o que for permitido; 3. a ditatorial (Coréia do Norte), fechada, onde tudo é proibido mesmo o que for permitido; e 4. a brasileira, onde tudo é permitido mesmo o que for proibido.

Nada mais surpreende. O PCC constrói seu cofre de Tio Patinhas, onde esconde cerca de R$ 10 bilhões. Seus negócios se espalham pelo mundo. E onde estão seus comandantes? Em celas de segurança máxima, onde estão trancafiados.

Resumo desse relato: guerras armadas, conflitos, disputas, mortandade, guerra comercial, carteis de droga, Estados fracassados, Nova Guerra Fria, trabalho escravo, trabalho infantil, destruição do meio ambiente, violência contra povos originários, violência contra a mulher – são sinais de que o mundo está em colapso. O relógio do Juízo Final marca, hoje, 90 segundos para Meia Noite, o final dos tempos.