quarta-feira, 5 de março de 2025

O que Orwell pensaria da briga de Trump e Zelenski?

Quem leu "1984", de George Orwell, lembra-se do ambiente de permanente vigilância e opressão, do medo e da lavagem cerebral, da novilíngua e do Grande Irmão. Mas em geral esquece a lição de geopolítica que o romance encerra.

Em "1984" há três blocos. O primeiro, dominado pelos Estados Unidos da América, é a Oceânia, e inclui todas as Américas mas também as Ilhas Britânicas. O segundo bloco é a Eurásia, dominado pela União Soviética e que vai, como o ex-presidente Dmitri Medvedev gosta tanto de dizer ainda hoje, de Lisboa a Vladivostok. O terceiro é a Lestásia, e é dominado pela China, incluindo o Extremo Oriente e parte do Sudeste Asiático.

Donald Trump não leu "1984". Mas o mundo de que ele gosta é quase igual ao do romance. Há três potências que têm supersoberania: ele, Vladimir Putin e Xi Jinping. Os outros que se adaptem. As redes sociais, os algoritmos e a inteligência artificial tratam da hipervigilância. E a democracia dissolve-se num permanente espetáculo narcísico.

Foi em 1948 que George Orwell escreveu "1984" (o título é uma mera inversão do ano em que estava). O romance foi o seu diagnóstico de pesadelo para o mundo que antevia antes de morrer, no ano seguinte. Mas também em 1948 Orwell escreveu um ensaio político, que quase ninguém leu, no qual expunha o seu otimismo da vontade em relação à alternativa política ao mundo que temia.

Esse ensaio tinha por título "Sobre a Unidade Europeia" e desenhava a proposta de uma federação continental, com um forte viés socialista democrático, uma sociedade pluralista e de bem-estar que assegurava a sua independência por meio da integração de países médios e pequenos. A construção da unidade europeia era a forma de evitar o esmagamento do continente entre o imperialismo do Kremlin e o da Casa Branca, que acabaram por dividir a Europa a meio.

Pergunto-me como teria Orwell visto aquele vergonhoso momento de agressão verbal de Trump e seu vice, J. D. Vance, a Volodimir Zelenski, no Salão Oval, na semana passada. Por um lado, creio que não teria ficado surpreendido, ele que uma vez escreveu que "se quereis uma visão do futuro, basta imaginar a imagem de uma bota a pisar um rosto humano, para sempre".

Ele entenderia que a brutalidade para o novo fascismo do século 21, tal como para o original do século 20, é uma parte essencial da natureza política do movimento, não apenas um subproduto.

Por outro lado, Orwell ficaria ainda mais assustado, porque o que está em cima da mesa agora não é Trump e Putin dividirem a Europa a meio, mas partilharem-na entre si. E ficaria ainda mais preocupado porque os instrumentos tecnológicos de vigilância que existem hoje são ainda mais perigosos do que aqueles que ele imaginou para o seu romance.

Perante isso, o que fazer? O episódio do Salão Oval teve ao menos a vantagem de deixar claro perante os europeus que a sua unidade não é apenas uma ideia bonita, mas uma necessidade prática.

Os desafios atuais transcendem as fronteiras da Europa. Faz sentido hoje reinventar o mundo livre, e incluir todas as democracias que ainda não soçobraram, para reformar as Nações Unidas e refazer a globalização. Para grandes males, grandes remédios.

Trump abandonar Ucrânia evoca pacto de 1938 com nazistas

"Não posso deixar de me perguntar: já estivemos aqui antes? Tchecoslováquia, 1938. Temos um agressor às nossas portas, com a intenção de tomar território que não é dele. E os negociadores [...] já estão entregando suas fichas de barganha antes mesmo de as negociações começarem. Essa é uma tática desastrosa. E estamos caminhando a toda velocidade para o desastre."

Essas observações foram feitas em fevereiro por Kaja Kallas, ex-premiê da Estônia e atual alta representante da União Europeia para Exterior e Segurança, durante a Conferência de Segurança de Munique.

O local do discurso não poderia ser mais simbólico: a poucas centenas de metros do prédio no qual, há 86 anos, líderes da França e do Império Britânico assinaram o Acordo de Munique, que marcou o clímax da política de apaziguamento dos anos 1930, quando potências ocidentais concordaram em ceder a ambições territoriais da Alemanha nazista na esperança de que isso serviria para evitar um novo conflito mundial.

Como parte do acordo, em 1938, líderes franceses e britânicos decidiram abandonar aos nazistas a antiga Tchecoslováquia (hoje dividida entre República Tcheca e Eslováquia), permitindo que o regime de Adolf Hitler anexasse, sem luta, parte considerável do país da Europa Central. Em nenhum momento os tchecoslovacos foram ouvidos, enquanto as potências da época decidiam seu destino.

No entanto, longe de satisfazer os nazistas, o acordo foi rapidamente rasgado por Hitler, que, bastante reforçado pelo domínio do novo território, anexou o restante da Tchecoslováquia e depois voltou seus olhos para a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Entre os tchecos, o acordo ficou conhecido como "A traição de Munique". E para vários líderes se tornou um paradigma de que a política de apaziguamento, quando aplicada a regimes expansionistas e agressivos, está fadada ao fracasso.

"Como historiador e político, a única coisa que posso dizer hoje é: Munique nunca mais”, disse o premiê polonês Donald Tusk, na mesma conferência em fevereiro de 2025, ecoando a visão da estoniana Kallas.

Os dois políticos do Leste Europeu não estavam apenas citando um acordo que é considerado um dos maiores desastres da história da diplomacia, mas também manifestando temor de que a história possa se repetir agora com a Ucrânia, há três anos está sob ataque da Rússia sob Vladimir Putin.


Tusk e Kallas evitaram mencionar nomes, mas entre os participantes da conferência estava claro que o temor era que os EUA, desde janeiro novamente sob o comando de Donald Trump, reencenassem o papel dos britânicos e franceses em 1938, abandonando os ucranianos frente aos russos.

E, ao longo de fevereiro, o temor entre os europeus apenas foi reforçado. Trump revelou que havia começado a conversar diretamente com Putin, e negociadores americanos e russos se reuniram na Arábia Saudita para falar sobre a guerra – os ucranianos e seus aliados na Europa não foram convidados.

Em seguida, Trump declarou que não achava "importante” que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, participasse das negociações, e começou a condicionar a continuidade da ajuda militar e financeira dos EUA aos ucranianos à assinatura de um bilionário acordo de exploração mineral, classificado por alguns analistas como uma "extorsão”. Posteriormente, chamou o líder ucraniano de "ditador" e fez elogios a Putin.

A virada na posição americana ficou mais clara quando representantes do governo Trump começaram a falar abertamente em pressionar os ucranianos a fazerem concessões territoriais ao Kremlin para pôr fim ao conflito – atualmente, os russos ocupam 20% do território ucraniano.

"Esta guerra precisa acabar e isso exigirá concessões territoriais", pontificou Mike Waltz, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, nesta segunda-feira (03/03), horas antes de a Casa Branca suspender novos pacotes de ajuda aos ucranianos. Ao mesmo tempo, acrescentou que "isso exigirá concessões russas em termos de garantias de segurança".

No entanto, como lembram historiadores, Hitler também ofereceu em 1938 ao então premiê britânico Neville Chamberlain garantias semelhantes de que se contentaria com uma fatia da Tchecoslováquia, antes de ocupar completamente o país e direcionar suas tropas para outros alvos.

"Em comparação com as concessões de Donald Trump a Vladimir Putin, até mesmo a política fatal de apaziguamento de Neville Chamberlain em relação a Hitler parece um realismo corajoso e baseado em princípios. Afinal de contas, Chamberlain, então primeiro-ministro britânico, estava tentando evitar uma grande guerra na Europa. A manobra de Trump, por outro lado, ocorre quando a guerra já está em andamento”, apontou o historiador britânico Timothy Garton Ash, em artigo publicado no semanário alemão Die Zeit.

Entre 1933 e 1938, o regime nazista de Adolf Hitler adotou uma política rearmamento e de violação de tratados assinados pela Alemanha na esteira da derrota na Primeira Guerra Mundial. Vários desses passos, como a remilitarização da região ocidental alemã da Renânia em 1936, e a anexação da vizinha Áustria em 1938, provocaram pouca comoção entre a França e o Império Britânico.

Na segunda metade de 1938, Hitler começou a voltar suas atenções para a região montanhosa dos Sudetos, uma fatia da Tchecoslováquia com 3 milhões de habitantes, na maioria de etnia alemã, e que representava 25% do território do país. Sob Hitler, que via a Tchecoslováquia como um estado "artificial" e "fraudulento", a propaganda nazista começou a inundar a Alemanha, denunciando que os alemães dos Sudetos estavam supostamente sofrendo atrocidades nas mãos dos eslavos tchecoslovacos. Os nazistas então começaram a deslocar tropas para a fronteira.

Criada em 1918, após o colapso do Império Austro-Húngaro, a Tchecoslováquia era oficialmente aliada da França e possuía relações amistosas com os britânicos. E a região dos Sudetos, que estava na mira de Hitler, era peça primordial da estratégia de defesa tchecoslovaca, possuindo uma rede reforçada de fortalezas e bunkers. O país possuía ainda um dos parques industriais mais formidáveis da Europa.

No entanto, franceses e britânicos decidiram não agir para defender a Tchecoslováquia. Diante das ameaças de Hitler, o então premiê britânico Neville Chamberlain solicitou uma reunião com o ditador, na esperança de que se encontrasse uma solução diplomática para evitar a guerra. Uma série de encontros entre ambos se sucedeu em setembro de 1939.

Historiadores apontam que Chamberlain era motivado tanto pelo trauma da participação britânica na Primeira Guerra Mundial, quando seu país perdeu mais de 800 mil soldados, quanto pelo temor de que suas tropas ainda não estivessem prontas para um novo conflito.

Os encontros culminaram numa reunião final em Munique, na Baviera, com a assinatura de um acordo entre a Alemanha nazista, a Itália fascista, a França e o Império Britânico. Em troca de garantias de paz, Hitler recebeu sinal verde para anexar os Sudetos.

Em nenhum momento das negociações os tchecoslovacos foram ouvidos. O mesmo ocorreu com a União Soviética, que à época também era aliada da Tchecoslováquia. "Sobre a gente, sem a gente”, dizia sobre Munique um slogan tchecoslovaco da época. Chamberlain voltou a Londres no fim de setembro de 1938 afirmando que o acordo garantia a "paz para o nosso tempo".

Houve alívio no Império Britânico e na França de que os países teriam evitado se envolver numa guerra, mas também surgiram críticas. As principais vieram de Winston Churchill, que viria a suceder a Chamberlain como premiê em 1940, quando- resumiria a política de apaziguamento como um homem que "alimenta um crocodilo” na esperança de que o animal "vá comê-lo por último".

Apesar do discurso triunfal de Chamberlain, seria uma questão de poucos meses para os nazistas rasgarem completamente o acordo. Horas após a assinatura, o próprio Hitler manifestou ao seu círculo próximo que aquela seria a última vez em que aceitaria participar desse tipo de conferência, e repetidamente expressou desprezo pelos esforços franco-britânicos.

"Nossos inimigos são homens abaixo da média, não são homens de ação, não são mestres. Eles são pequenos vermes. Eu os vi em Munique", disse o ditador nazista em 1939 a um grupo de generais.

No fim da primeira quinzena de março de 1939, meros cinco meses após a conferência, Hitler enterrou qualquer ilusão de que pretendia garantir o restante da integridade da Tchecoslováquia, ao convocar o então presidente, Emil Hácha, e forçá-lo, num encontro marcado por ameaças e intensa pressão, a aceitar a ocupação do restante do território.

Sem as fortificações dos Sudetos e abandonado pelas potências ocidentais, Hácha capitulou. As tropas nazistas ocuparam sem luta o território em 16 de março. Boa parte do país foi renomeado "Protetorado da Boêmia e da Morávia”, enquanto a fatia eslovaca foi transformada num estado-cliente da Alemanha nazista e confiada a um grupo de fascistas-católicos eslovacos.

Pouco menos de seis meses depois, em setembro, Hitler, sem precisar se preocupar com uma ameaça militar da Tchecoslováquia e com seu exército reforçado por armamentos produzidos pela indústria pesada do novo território anexado, voltou seus olhos para a Polônia, ordenando a invasão do país. Desta vez, no entanto, a França e o Império Britânico reagiram. Era o início da Segunda Guerra Mundial, que só terminaria em 1945, deixando mais de 50 milhões de mortos.

Mais de 80 anos depois do Pacto de Munique, o historiador americano Timothy Snyder apontou que, se a Tchecoslováquia tivesse resistido em 1938 e recebido assistência dos franceses e britânicos, o século 20 teria sido bem diferente.

"Se os tchecos resistissem, e os franceses, os britânicos e talvez os americanos começassem a ajudar, haveria um conflito, mas não haveria uma Segunda Guerra Mundial”, disse o historiador em entrevista ao jornal The Guardian em 2024. "Em vez disso, quando a Alemanha invadiu a Polônia em 1939, ela estava invadindo a Polônia com a indústria de armamentos tcheca, que era a melhor do mundo. Estava invadindo com soldados eslovacos. Estava invadindo a partir de uma posição geográfica que só conquistara por haver destruído a Tchecoslováquia.”

Snyder traçou ainda paralelos com a situação atual da Ucrânia: "Se os ucranianos desistirem, ou se nós desistirmos da Ucrânia, então será a Rússia fazendo guerra no futuro. Será a Rússia fazendo guerra com tecnologia ucraniana, numa posição geográfica diferente. Nesse ponto, estaremos em 1939. [Mas] estamos em 1938 agora. Na verdade, o que os ucranianos estão nos permitindo fazer é estender 1938."

Oscar 2025: Meio século numa noite

Entre a noite em que Walter Salles recebeu o Oscar, em Los Angeles, e o dia, no Rio de Janeiro, em que Rubens Paiva foi sequestrado pela ditadura militar do seio da sua família, passaram-se 54 anos, um mês e dez dias. Nesse tempo, Eunice e seus cinco filhos enfrentaram tudo à espera do corpo que não veio. Hoje o país está imerso nessa história como se ela tivesse acontecido ontem. Não esquecer foi a grande virtude do Brasil. Tornar a história conhecida do mundo foi o maior prêmio que o filme deu a nós e à democracia brasileira. A estatueta de “Ainda estou aqui” chega no momento exato em que precisamos dela.


Assisti à cerimônia do Oscar com minhas netas mais novas, Manuela, 13, e Isabel, 11. Quando Rubens Paiva morreu, o pai delas, Vladimir, não havia nascido. Elas viram o filme, falam com intimidade sobre Eunice, Rubens e seus filhos, como se os conhecessem. O fio que trouxe a história até nós foi tecido, primeiramente, pelas mãos de Eunice. Depois, pela literatura de Marcelo Rubens Paiva. Por fim, pelo cinema brasileiro. Mais de cinco milhões de pessoas viram o filme, incontáveis famílias conversaram sobre esse tema nos seus encontros. Isso não é pouco num país em que o desmonte da memória é uma estratégia para escapar dos temas incômodos.

Depois do seu breve e discreto discurso, em que jogou luz sobre Eunice e as Fernandas, Walter Salles, na sala de imprensa, alertou para a fragilidade da democracia, “tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos”. E foi ao ponto central. “Vivemos um momento em que a memória está sendo apagada, como um projeto de poder, então criar memória é extremamente importante.”

Fernanda Torres não ganhou o Oscar de melhor atriz e, das seis indicadas, ela é a melhor. A história exigia uma interpretação com sensibilidade e maestria técnica. Ela construiu a personagem com delicadeza. Neste tempo em que acompanhou a caravana “Ainda Estou Aqui” até o palco do Dolby Theater, o Brasil esteve em diálogo constante com Fernanda Torres. Ela conta que a mãe, a monumental Fernanda Montenegro, a orientou sobre como interpretar tragédias gregas. Com mais intensidade do que desespero, porque o sofrimento será longo. Foi o que ela fez na sua Eunice. “É uma família normal, mas enfrentando algo como Antígona, algo do tamanho de um destino grego, uma tragédia grega”, disse ela em uma de suas entrevistas.

Fernanda Torres volta ao Brasil coberta de glória após ter sido, como ela definiu, “abduzida por uma nave espacial para uma realidade paralela”. Ela fez por merecer nosso amor. Moveu-se no palco do mundo com uma naturalidade que nos orgulhou. Não se deslumbrou, não esqueceu a personagem e sempre lembrou do seu país. Numa de suas melhores entrevistas, disse que o Brasil tem pena de que o mundo não nos conheça. Nas ruas desse carnaval, o espírito lúdico e irreverente usou a Fernanda Torres como seu principal motivo para brincar.

Isso não conflita com a carga emocional da história contada no filme. Foram muitos os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar. Ulysses Guimarães, no momento constituinte da democracia, escolheu Rubens Paiva como o símbolo da sociedade que venceu os facínoras.

A Lei da Anistia pela qual Eunice lutou nos trouxe de volta quem fazia falta ao país, mas foi envenenada pela imposição da impunidade dos criminosos. A luta pelo direito dos povos indígenas ganhou musculatura com a sua militância jurídica e política, mas requer cada vez mais vigilância.

“O nome dela é Eunice Paiva”, disse Walter Salles ao receber o prêmio visto por um bilhão de pessoas. Como é forte essa história. O marido é preso e seu corpo desaparece por ação do governo. Eunice volta para a faculdade, se forma em Direito, educa os filhos, se une às lutas do seu povo, espera 25 anos por uma certidão de óbito, mantém acesa para o país a memória do marido até que a sua memória se esvai. Seu filho, atingido por um acidente que o deixa numa cadeira de rodas, resgata toda a história com a sua envolvente literatura. O cinema brasileiro leva o drama às telas no exato momento em que o horror volta a rondar o país. Selton Mello, que dá vida ao personagem cujo corpo foi sonegado à família — de novo a tragédia grega nos lembra do direito sagrado de as famílias enterrarem seus mortos — disse que entendeu nessa caminhada que o filme era o “corpo de Rubens Paiva”. Como disse Fernanda Torres ao receber o Globo de Ouro: “Que história, Walter!”.

Nação, Democracia e uma certa ideia de refúgio

Há uma frase atribuída ao escritor inglês Samuel Johnson, nascido no início do século XVIII, que correu mundo, sendo citada até por Vladimir Lenin, o líder da Revolução Russa de 1917. Ela diz o seguinte: "O nacionalismo é o último refúgio dos calhordas". Ou seja, o ditador manda matar, manda torturar, desdenha as instituições, rouba ou deixa roubar, mas é um nacionalista. Está desculpado. Ama o seu país e ponto final.

Mas… de que nação estamos mesmo falando? De uma nação sem povo, só com hino e bandeira, muito provavelmente. Aí reside justamente a calhordice. Vários ditadores apelaram para essa fórmula, uma espécie de "mata, mas ama". Benito Mussolini, Juan Perón, Muammar Gaddafi são alguns desses ditadores. Quase todos acabaram mal. A vida deu o troco. Alguns políticos de várias partes do mundo pegaram carona nessa fórmula, com uma certa adaptação. Ou seja, procedem chantageando a população, querendo fazer crer que a polarização é inerente a toda e qualquer situação eleitoral e que, se ele, o bem-aventurado, perder as eleições, o seu amado país vai mergulhar nas trevas. Ou de uma forma menos metafórica: resvalar para uma ditadura, pura e simplesmente. Trata-se de uma atualização ou até "enriquecimento" da frase do pensador inglês, que poderia ficar assim: "a Democracia como último refúgio dos calhordas". Democracia nenhuma merece.


Estamos diante de uma espécie de etapa superior da calhordice. Não há vida útil sem o nosso herói e não dá para imaginá-lo fora do poder. E os calhordas têm uma atração toda especial pelo poder.

Quem procede dessa maneira geralmente não possui projeto algum, além da sua própria perpetuação nas esferas de dominação.

Triste, mas real. Quem perde com isso é a Democracia, que vive de alternância, seriedade e transparência. Toda vez que a polarização se instala, aumenta - aí sim - o risco de aventuras autoritárias. Estamos vendo isso em muitos lugares. Todo cuidado é pouco. 
Ivan Alves Filho

O legítimo herdeiro de Bolsonaro saúda o povo e pede passagem

É por isso que Bolsonaro cogita lançá-lo candidato a presidente da República no próximo ano, uma vez que poderá estar preso e impedido de concorrer. Afinal, quem puxa aos seus não degenera, embora já possa ter nascido degenerado.

Tarcísio de Freitas (Republicanos), militar e engenheiro por formação, costuma usar as redes sociais para comemorar feitos de brasileiros em competições internacionais. Do tenista João Fonseca, campeão do ATP de Buenos Aires, ele disse:

“É mais um talento brasileiro despontando para o mundo, carregando as cores da nossa bandeira”.

Durante as últimas Olimpíadas, a ginasta Rebeca Andrade e a judoca Beatriz Souza, ambas medalhistas de ouro, também foram homenageadas por Tarcísio, que ontem parabenizou a escola de samba Rosas de Ouro, campeã do carnaval paulistano.


Mas sobre o primeiro Oscar conquistado pelo Brasil com o filme “Ainda estou aqui”, que conta a história do desaparecimento do ex-deputado Rubem Paiva à época da ditadura militar de 64, não se leu nem se ouviu até aqui uma única palavra de Tarcísio.

O mesmo comportamento tiveram outros governadores bolsonaristas, como Romeu Zema (Novo), de Minas, Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Jorginho Melo (PL) de Santa Catarina. Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás, aplaudiu o o filme.

Os bolsonaristas de destaque silenciaram ou só abriram a boca para criticar o filme. Bolsonaro sempre defendeu a ditadura militar e, quando deputado federal, mantinha em seu gabinete uma foto do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, de triste memória.

Brilhante Ustra foi comandante do DOI-CODI do Exército em São Paulo, onde morreram debaixo de pancadas diversos oponentes da ditadura. Ao dar seu voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), Bolsonaro invocou Brilhante Ustra.

O legítimo herdeiro de Bolsonaro, porém, não titubeou em criticar o filme, e foi além. Atacou duramente Eunice, a viúva de Rubens Paiva, símbolo da resistência democrática ao regime militar, e ameaçou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal.

Em linha com o pensamento do pai e desconectado com a verdade, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o Zero Três, devoto confesso de Donald Trump, escreveu nas redes sociais:

“Insurgir-se contra uma ditadura inexistente é fácil, rende bastante bajulação da ‘elite’ plutocrata, superficial e niilista. Difícil é ter coragem para se insurgir contra a ditadura real, que está por aí prendendo mães de família, idosos e trabalhadores inocentes. Ah…, isso exige fibra moral e coragem para arcar com os altos custos envolvidos”.

E acrescentou, pomposo e arrogante, como se falasse para a História:

“Esse silêncio, de vocês, cúmplices, não será quebrado. Mas o nosso, com toda firmeza moral, eu quebro, estou disposto a arcar com esse custo: Alexandre de Moraes, iremos punir você. Acredite, você irá pagar por toda maldade que cometeu, custe o que custar”.

O pai deve ter babado de satisfação com o garoto que, no passado, quis ser embaixador do Brasil em Washington, e que agora poderá sucedê-lo como líder da extrema-direita.

terça-feira, 4 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Melhor ser 'fraca'

Costuma dizer-se que as democracias são frágeis. Mas ainda bem que são, porque fortes são as ditaduras!
Bruno Vieira Amara

'O Conto da Aia': 40 anos da distopia de Margaret Atwood

Em 1985, Margaret Eleanor Atwood publicava O Conto da Aia (Handmaid’s Tale) no Canadá, pela Editora McClelland and Stewart – distopia que receberia diversos prêmios literários de relevo internacional nos anos seguintes. Não será por mera coincidência que em março deste ano (2025), a série homônima televisiva levará ao ar a sexta e última temporada da história protagonizada por June Osborne.

Para quem não está familiarizado com o enredo do romance, a elite de Gilead (vasto território localizado em partes dos outrora Estados Unidos) submete um grupo de mulheres à condição de gerar filhos para casais de Comandantes e Esposas. As Aias são coagidas mediante variadas formas de violência: física, emocional e psicológica. Na residência de cada família, encontram-se as Marthas (a dar conta do inesgotável trabalho doméstico) e os Guardiões (que servem especialmente aos mandos e desmandos dos Comandantes).

Como o topônimo sugere, a vida em Gilead é pautada pelas escrituras (o nome do território remete ao Gênesis). Estruturado de modo rigorosamente hierárquico, esse regime patriarcal e fundamentalista conta com a severa cumplicidade das Esposas e a tirânica intervenção das Tias (instrutoras/supervisoras que, aparentemente, ensinam como as Aias devem se portar, ao frequentar tais propriedades) e Olhos (observadores cuja função é reportar desvios de conduta aos Comandantes). Destituídas de sua antiga identificação civil, as Aias são chamadas pelo nome do Comandante a que estão subordinadas. Para citar apenas um exemplo, Offred nomeia uma Aia pertencente a Fred = Of Fred, de Fred.

O que está por detrás dessa história que evoca o período inquisitorial? Como a escritora reconheceu em mais de uma ocasião, o desejo de produzir ficção deve seu tanto a obras literárias que leu e releu desde a infância: O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (1847); Nós, de Evgéni Zamiátin (1924); Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932); O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler (1940); A Revolução dos Bichos e 1984, de George Orwell (publicados respectivamente em 1945 e 1949), entre outros. Graças à coletânea Alvos em Movimento (traduzida e lançada no Brasil em 2023), que reúne vários textos críticos da autora, essas e outras informações estão ao alcance do público leitor interessado.

Comparado às distopias de Huxley e Koestler, Atwood supõe que o romance 1984 lhe “pareceu mais realista, provavelmente porque Winston Smith era mais parecido” com ela – tanto por conta de seus atributos físicos, quanto pelo fato de o protagonista sobreviver “em conflito com as ideias e o estilo de vida proposto para ele” e, dentre outras ações, “escrever seus pensamentos proibidos em um caderno em branco e secreto, deliciosamente tentador”.

De algum modo, as obras de George Orwell acompanharam Margaret Atwood ao longo da vida, pois, ele “passou a ser um modelo direto” para a escritora “no verdadeiro 1984”, ano em que ela começou a redigir o próprio romance, narrado por June. A autora desejava “escrever uma distopia da perspectiva feminina – o mundo segundo Julia, por assim dizer. Mas isso não faz de O Conto da Aia uma ‘distopia feminista’.” A despeito da diferença de enfoque, Atwood ressalta diversos paralelos entre 1984 e O Conto da Aia, tanto por conta dos regimes totalitários, quanto pela perversa utilização da linguagem por reduzidos grupos formados por sujeitos megapoderosos (quase todos hipócritas).

Um dos excertos mais reveladores do drama por vir se encontra no terceiro capítulo da segunda parte (“Compras”). Nele, Offred descreve a parte externa da residência dos Waterford: “O jardim é o domínio da Esposa do Comandante. Olhando para fora por minha janela com vidro inquebrável, com frequência a vejo nele, os joelhos sobre uma almofada, um véu azul atirado sobre as abas largas do chapéu de jardineiro, uma cesta ao lado com podadeiras e pedaços de barbante para amarrar as flores no lugar. Um Guardião destacado para servir o Comandante faz o trabalho pesado de cavar, a Esposa do Comandante dá instruções, apontando com sua bengala”.

Afora a simbologia das cores (Aias usam vermelho; Esposas vestem azul), o fato de as Esposas manterem as “flores no lugar” parece aludir à condição das próprias Aias, cuja indumentária (em branco e vermelho) leva a protagonista a associá-las a tulipas. Dentro ou fora da residência dos Waterford, o clima é de opressão quase absoluta. Na ausência do Comandante – que passa a maior parte do tempo fora de casa devido a compromissos políticos –, o regime doutrinário de Gilead repercute com desmedida violência sob a batuta de Serena Joy.

A questão é que, antes mesmo de integrarem a casa de uma família, as Aias passam maus bocados no Centro Raquel e Lia, liderado com mãos de ferro pela Tia Lydia. Após o “treinamento” das Aias, a residência para onde elas são levadas se revela como um ambiente igualmente inóspito, onde as Esposas reproduzem o autoritarismo de seus maridos. Nem mesmo as saídas diárias para fazer compras oferecem maior sensação de liberdade, pois as Aias percorrem o trajeto em duplas, de maneira que uma vigie as palavras, os gestos e as atitudes da outra.

Por esses e outros motivos, O Conto da Aia ultrapassa em muito o que se espera da chamada “literatura de entretenimento”. Como sugere a autora, trata-se de uma “ficção especulativa” que estimula a reflexão e, em certa medida, alerta-nos sobre a propagação de pseudoargumentos extremistas empunhados por homens e mulheres de suposta boa-fé. Feito o lembrete, suspendo a palavra e reforço o convite para que os leitores experienciem a poderosa distopia de Margaret Atwood.

A nossa metade não humana

Cerca de metade das células do nosso corpo não são humanas. Pertencem a bactérias, fungos, vírus e outros seres invisíveis aos nossos olhos — o microbioma.

Desconfio que a melhor parte de alguns humanos é a sua metade não humana. Outros talvez não sejam bons (ou felizes) porque têm um mau microbioma. O microbioma influencia o nosso comportamento através do eixo intestino-cérebro. Certas bactérias intestinais produzem dopamina, serotonina e outras substâncias que ajudam a regular o humor e a ansiedade. Um microbioma desequilibrado pode provocar situações de ansiedade e depressão. No limite, até doenças neurodegenerativas.



A cada avanço do conhecimento, a arrogância humana recua — ou deveria recuar. Não somos o centro do Universo. Somos parte dele. Não estamos apartados da natureza. Somos a natureza. Não somos uma forma de vida superior. Somos a conjunção harmoniosa de inumeráveis formas de vida.

Os avanços da ciência parecem confirmar o que muitas filosofias antigas já sugeriam. Por exemplo, que a ideia do eu é falsa, uma teimosa ilusão — algo defendido desde há longos séculos pelo budismo.

O animismo — essa cosmogonia ou visão do mundo, desenvolvida por povos indígenas em diferentes regiões do planeta, da África às Américas, passando pela Austrália — também defende a ideia de que o ser humano é um organismo coletivo, uma comunidade, uma constelação de vidas. Mais uma vez se comprova a extraordinária atualidade de muitas culturas consideradas arcaicas, que, durante séculos, a “modernidade ocidental” desprezou e humilhou.

Se alguns dos nossos estados emocionais, e até eventuais decisões, resultam da atividade de vírus e bactérias, organizados em vastas e complexas redes, então somos menos seres individuais e muito mais um produto do diálogo e da interação. O que nos define não é tanto uma identidade única, uma alma singular, mas sim a relação dinâmica entre múltiplas forças biológicas, sociais e ambientais. Admitindo que a nossa identidade pode ser moldada por uma infinidade de minúsculas criaturas, isso significa que é fluida — ou seja, estamos, a cada instante, nos tornando outros.

Não sou hoje quem fui ontem, nem serei amanhã quem sou agora, porque o meu microbioma mudou, o meu corpo mudou, as minhas conexões e experiências mudaram. Além disso, a minha capacidade para apreender a realidade também vai mudando.

Esta ideia parece-me mais libertadora do que assustadora. Em vez de nos agarrarmos a uma identidade fixa, imutável, seríamos mais felizes se fôssemos capazes de aceitar que a mudança é parte essencial do que significa ser humano — ser vivo. Assim como o microbioma, a identidade é um equilíbrio dinâmico, um jogo festivo entre diferentes formas de experimentar a vida. A identidade faz-se caminhando. Somos seres em mutação.

Fernando Pessoa ficaria feliz com esta conclusão. “Sou mais variado que uma multidão de acaso”, escreveu o poeta: “Sou mais diverso que o universo espontâneo,/ Todas as épocas me pertencem um momento,/ Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim.”

'2025 pode ser como 1968 e 1989: um ano em que a história uda e nada mais é mais como antes'

Há anos em que o mundo passa por alguma mudança fundamental e convulsiva.

Um deles foi 1968, marcado pela invasão da União Soviética à Tchecoslováquia, a revolta estudantil em Paris, e protestos contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos.

Outro foi 1989, ano do massacre da Praça da Paz Celestial, da queda do Muro de Berlim e da implosão do império soviético.

Eu vivenciei cada um destes acontecimentos e, a partir desta perspectiva, me parece que, após apenas algumas semanas, 2025 pode ser um ano deste tipo: um momento em que os pressupostos básicos sobre a maneira como nosso mundo funciona são colocados no triturador.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, cada um dos 13 presidentes americanos anteriores a este segundo mandato de Trump defendeu, pelo menos da boca para fora, um conjunto de princípios geopolíticos fundamentais. Entre eles, que a própria segurança dos Estados Unidos dependia de proteger a Europa da Rússia, e os países não comunistas da Ásia, da China.

Trump mudou essa abordagem. Ele diz que está colocando os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar, antes de qualquer outra coisa. Na maioria das vezes, isso se resume à questão de quanto custa para os Estados Unidos proteger a Europa e a Ásia da Rússia e da China, respectivamente.


Isso, por si só, é muito difícil para os países aliados dos EUA, especialmente na Europa. Mas se torna muito mais difícil devido à própria personalidade de Trump. Nenhum presidente dos EUA nos tempos modernos, nem sequer Richard Nixon, deixou suas características pessoais influenciarem suas políticas como Trump faz.

"Ele é como Luís 14", me disse um diplomata americano aposentado, referindo-se ao pretensioso rei Sol da França.

Críticos como este acreditam que Trump é incrivelmente vaidoso e, ao mesmo tempo, incrivelmente sensível. Como resultado, os indicados para cargos que o cercam, pessoas como Elon Musk e J.D. Vance, talvez pensem que sua posição depende inteiramente do quanto eles o elogiam e apoiam suas opiniões.

Quando o presidente Trump afirma, sem nenhuma evidência, que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, é corrupto e tem um baixo índice de aprovação, Musk vai mais além: ele acrescenta que Zelensky é desprezado pelo povo ucraniano, e está se alimentando dos cadáveres dos soldados ucranianos.

Ninguém no círculo de Trump hoje, ao que parece, vai tossir discretamente e dizer: "Presidente, talvez o senhor devesse considerar voltar atrás nessa declaração".

A julgar por seu mandato anterior, podemos ter certeza de que cada uma das pessoas ao seu redor sabe como ele detesta que discordem dele. Elas também sabem que muitos eleitores apoiam incondicionalmente a abordagem de Trump, e sentem que estão financiando a segurança em um continente distante.

Ele se comprometeu a acabar com a guerra na Ucrânia até a Páscoa. E tem toda razão quando diz que o presidente russo, Vladimir Putin, está interessado nisso.

Embora as tropas russas estejam avançando lentamente no leste da Ucrânia, graças ao seu enorme número, suas perdas humanas são imensas.

Se a guerra continuar, a Rússia pode ter que recorrer ao recrutamento obrigatório, o que seria perigosamente impopular, e poderia até desestabilizar o regime de Putin. Tudo o que Trump diz sobre alcançar a paz é música para seus ouvidos.

John Bolton, o nada subserviente conselheiro de segurança nacional de Trump durante seu primeiro mandato, disse outro dia que o Kremlin deve ter estourado um champanhe quando ouviu sobre o plano de paz do governo Trump. Sem dúvida, pareceu um momento histórico — não apenas em Moscou, mas em todo o mundo.

Putin apoiou claramente a ideia de que Trump realmente venceu a eleição de 2020. Pode não ser verdade, mas Putin sabe que Trump favorece qualquer um que apoie sua visão das coisas.

Por que, em contrapartida, Trump e as pessoas que o cercam pegaram tão pesado com Zelensky? Em parte, deve ser porque Zelensky não faz obedientemente o que pedem a ele, como voltar à mesa de negociações e fechar um acordo para que os Estados Unidos possam ter acesso a minerais essenciais da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, Trump entende que Zelensky é o elo mais fraco do trio formado por Estados Unidos, Rússia e Ucrânia — e pode ser pressionado de uma forma que Putin não pode. Quanto mais pressão for exercida sobre Zelensky, mais rápido será o acordo de paz.

Trump nunca parece, pelo menos em público, demonstrar muito interesse nos detalhes de qualquer acordo. O que importa para ele é o acordo em si, mesmo que a Ucrânia e seus aliados acreditem que seja claramente injusto, e permita que a Rússia volte em uma data futura e recomece a guerra.

Diplomatas britânicos e alemães que eu conheço ficaram furiosos com a forma como Trump agiu para levar a Rússia à mesa de negociações. "Ele tinha duas cartas importantes na mão", afirmou um deles. "A primeira era o isolamento da Rússia. Putin teria feito muitas concessões para poder participar das negociações com os Estados Unidos — só que Trump não insistiu em nenhuma concessão. Ele simplesmente o deixou sentar (na mesa de negociações) e começar a falar."

A outra carta, segundo o diplomata, era insistir que a Ucrânia deveria ter permissão para aderir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). "Trump poderia ter discutido sobre isso, e extorquido todos os tipos de acordos de Putin, antes de finalmente dizer: OK, a Ucrânia não vai entrar para a Otan neste caso." Nas capitais europeias, há a sensação de que ele jogou fora estas duas cartas essenciais antes mesmo de as negociações começarem, sem nenhuma condição prévia.

No entanto, alguns diplomatas europeus com experiência em política americana já estão advertindo seus governos de que esse período monárquico na presidência de Trump, em que seus assessores acatam suas opiniões (ele literalmente se referiu a si mesmo como um "rei" na semana passada), não vai durar muito.

Atualmente, Trump tem o controle de um Congresso maleável e de uma Suprema Corte conservadora — mas daqui a apenas 20 meses, em novembro de 2026, haverá eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Há sinais de que a inflação está começando a subir no país, e é bem possível que haja gente suficiente afetada para querer punir o partido Republicano de Trump nas urnas.

Se ele perder o controle de uma ou de ambas as casas do Congresso, o poder que ele tem no momento de fazer aprovar todos os planos e políticas, por mais controversos que sejam, vai diminuir.

Mas muita coisa pode acontecer nos próximos 20 meses. O expansionismo de Trump pode encorajar a China. Uma grande guerra comercial internacional, desencadeada pelas tarifas de Trump, pode começar. E parece provável que a União Europeia se torne política e economicamente mais fraca do que nunca.

Fechar um acordo de paz na Ucrânia nos termos da Rússia será algo totalmente novo para os Estados Unidos. Na grande maioria das negociações desde 1945, a Rússia teve dificuldades para conseguir o que queria devido à força econômica e militar americana.

Agora, Putin, que tomou a decisão onerosa de invadir a Ucrânia há três anos, parece que vai se safar, e prosperar.

Se isso acontecer, então 2025 será de fato lembrado como um ano chave: um momento em que a história do mundo mudou, e nada mais foi como antes.

John Simpson

Uma lição de dignidade

Acho que a discussão entre Zelensky, Trump e Vance na Casa Branca vai ficar na História e até na Mitologia como uma lição de dignidade.

Falamos muito em bullying mas faltam-nos exemplos que se possam ensinar.

No caso de Zelensky, temos um dois contra um, em que os dois são quem mais manda no país mais rico e poderoso do mundo. Têm a faca e o queijo na mão. E estão em casa, na sede desse poder.

Pode até dizer-se que não são dois, antes três contra um. Porque também está presente o imperador da Rússia, exultando com o serviço que lhes prestam os imperadores americanos.


Nos pesadelos dos ucranianos, muito antes da invasão russa, a figura que mais aparece é um monstro bicéfalo, em que uma cabeça é a do pistoleiro do Oeste e a outra é do pistoleiro do Leste, ambas cheias de apetite para comer tudo o que a Ucrânia tem.

Na Casa Branca, este horror tornou-se tricéfalo – e Zelensky não estava a dormir. Ninguém acredita que Trump e Vance eram anfitriões.

Ninguém acredita que não saibam as regras mais elementares da educação. Não há no mundo uma única sociedade, do passado ou do presente, tribal ou cosmopolita, em que Trump e Vance não tenham sido as duas pessoas mais malcriadas, mal-formadas e mal comportadas de toda a história da humanidade.

Perante aqueles dois broncos inchados, Zelensky não pestanejou.

Foi buscar força a todos os ucranianos que morreram por causa da invasão russa. Foi buscar força ao fato de estar em guerra, comparando essa violência e esse medo à mera truculência verbal daqueles dois pavões obesos à frente dele.

O homem pequenino mostrou que não se curva – e que foi por não se curvar que a Ucrânia continua a lutar contra o monstro que o invadiu.

O homem pequenino e vestido de preto fez pouco daquelas fatiotas empoderadas, daqueles cabelos esticados, daquelas gravatas intermináveis que escondem tanto a barriga como uma fila de cabras esconde os Alpes.

Deu-nos uma lição de dignidade que jamais será esquecida.
Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, 3 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


"Empatia', moda dos tempos

Essa questão da “empatia” é uma história que as pessoas contam para se sentirem bem consigo próprias. Não muda rigorosamente nada na vida das pessoas pelas quais dizem sentir empatia. “Ah, condoo-me com o sofrimento do outro.” E então?! E depois disso? Caímos quase no cliché do “coitadinhos dos pretinhos…”. Isso serve exatamente para quê? Para anunciares que és uma pessoa muito empática? O que muda na realidade?
Bruno Vieira Amaral, escritor português 

Tempos de Trumpulência

Hora de lembrar José Ingenieros, em seu monumental O Homem Medíocre.

A vulgaridade, ele nos ensina, só floresce quando as sociedades se desequilibram em prejuízo do idealismo. “É a renúncia do pudor do ignóbil… os homens vulgares ousam denominar ideias a seus apetites, como se a urgência de satisfações imediatas pudesse ser confundida com a ânsia de perfeições infinitas”.

Fixemos, agora, nossa visão sobre o arrogante governante, de topete alourado, que comanda a Nação da maior democracia ocidental. O que se distingue em suas feições, acentuadamente caracterizadas para parecer um feroz leão do planeta Terra, urrando para assustar aliados, impor medo aos adversários e apagar o simbolismo representado pela estátua da Liberdade, com seu facho iluminando o sonho de uma Pátria livre e democrática para milhões de imigrantes?

Tempos de truculência! Tempos de Trumpulência!

Tempos de mercantilização de valores.

Cidadania?

Você, imigrante, quer ganhar um título de cidadão americano? Pois se dirija ao nosso balcão de negócios e aproveite os descontos. Hoje, o título está custando 5 milhões de dólares. Se não possuir essa grana, providencie com urgência seu êxodo da terra americana, sob pena de ser deportado.

Em menos de dois meses, desde 20 de janeiro passado, quando Donald Trump tomou posse, a Pátria americana ganha novos contornos. Está deixando de ser o berço dos valores espirituais – o direito de ir e vir, o livre debate entre os contrários, a livre expressão – para se transformar num grande balcão de negócios.

Ingenieros volta a lembrar: “os países são expressões geográficas e os Estados são formas de equilíbrio político. Uma Pátria é muito mais que isso, e é outra coisa: sincronismo de espíritos e corações, têmpera uniforme para o esforço, e homogênea disposição para o sacrifício, simultaneamente na aspiração à grandeza e no desejo da glória. Quando falta esta comunhão de esperanças, não há, nem pode haver Pátria. É preciso que haja sonhos comuns, anelos coletivos de grandes coisas”.

E o que se vê na terra dos americanos? O refrão nos bonés vermelhos: fazer a América grande novamente. Como? Deportando milhões de imigrantes? Vendendo títulos de cidadania para imigrantes que tenham 5 milhões de dólares para comprá-los? Anexando o Canadá, cujo primeiro-ministro, Justin Trudeau, acaba de ganhar o título de governador do 51º Estado dos EUA? Querendo puxar a Groelândia para o balcão de negócios? Ora, nosso território não está à venda, replica o governo da Dinamarca.

Será que o desprezo e o deboche do senhor Donald sobre seus aliados europeus contribuirão para engrandecer a América? Será que escantear a Ucrânia nas negociações de paz com a Rússia, quando é a própria Ucrânia que luta contra o invasor, é um gesto de respeito à soberania das Nações? As leis de outros países podem ser jogadas no lixo pelo impetuoso governante norte-americano? Traduzindo: empresas americanas, que operam no Brasil, não devem respeitar os ditames legais do país, com registro de seus negócios e de seus dirigentes?

“Fazer a América grande novamente” requer decisões como a de retirar os EUA da Organização Mundial da Saúde, e também retirar o país do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas?

Como é possível que o empresário mais rico do mundo, o senhor Elon Musk, detenha poder para ordenar a milhões de americanos que respondam a seus emails, dando conta do que fazem, sob pena de irem para o olho da rua? O senhor Musk, com seu gesto de levantar o braço direito, com a palma da mão aberta, em clara alusão ao nazismo, se não é membro oficial do governo, pode dar ordens aos funcionários públicos? Pode participar de reuniões com os secretários do Governo Trump? É legal que um homem de negócios tenha acesso a dado sigilosos dos americanos? Todas essas perguntas remetem à outra indagação: será que o senhor Trump considera a Casa Branca e as instituições nacionais como extensão de seu resort Mar-a-Lago, em Palm Beach?

O fato é que o mundo vive um momento borrascoso. A comunidade mundial está assombrada com a avalanche de decretos assinados pelo senhor Donald Trump, que, tempos atrás, ficou famoso, com o programa de TV “The Apprentice” (O Aprendiz), do qual era apresentador.

Até quando o freio do bom senso fará o 45º e o 47º presidente dos Estados Unidos da América cair na realidade e deixar de rugir, como o rei dos animais, ameaçando o planeta? Seus eleitores continuarão a lhe dar apoio ou repetirão o dito que marcou sua imagem: “você está demitido”?

O crime na legalidade

No que se tornou uma das passagens mais importantes de "O Poderoso Chefão", a família Corleone decide que um de seus garotos precisa levar uma vida correta, longe do crime, formar-se em direito e se tornar um advogado para, se for o caso, defendê-los na Justiça. É o que os americanos chamam de "go legit", entrar na linha, legitimar-se. Os criminosos descobriam que, quanto mais se infiltrassem formalmente na sociedade, menos precisariam de usar a metralhadora. Enxergaram longe.


Não sei o grau de enraizamento do crime organizado na sociedade dos EUA, mas, no Brasil, as facções criminosas já lucram mais com certas atividades comerciais —compulsórias para os usuários— do que com o tráfico. Entre essas atividades, contam-se o comércio paralelo de gás, energia elétrica, transportes, combustíveis, lubrificantes, cigarros e bebidas, extração e produção de ouro, construção de imóveis em terrenos ocupados, golpes pelo celular e, num resquício das velhas práticas, roubo de cargas e furto de celulares. Atrevem-se até a operar atividades legais, como postos de gasolina e usinas de etanol.

Essas informações estão num relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo ele, o crime já é também o principal empregador da região amazônica —controla o território, a população e uma das principais atividades da região, a pesca. Uma rápida espiada num mapa prmite constatar o quanto do Brasil está em suas mãos. E a defesa legal desse complexo não se limita aos vendedores de sentenças nos tribunais. Estende-se a vereadores e deputados.

Todos os governos brasileiros —repito, todos—, da redemocratização para cá (foi quando o crime começou a se organizar) são culpados por isto. Ocupados com suas políticas de desenvolvimento, nacional ou próprio, fizeram vista grossa a um processo que crescia bem sob seus narizes.

É besteira continuar trocando tiros nos morros. O criminoso pode estar no escritório vizinho ao nosso.

​Turismo, para que te quero?

O turismo é a indústria mais depredadora e com maior impacto de sempre. Com esta afirmação não quero pôr em causa a mais importante e significativa atividade económica, social e cultural do nosso tempo.

É nesta altura do ano que a Europa (agências de viagens, operadores e turistas) corre às principais feiras onde o turismo para 2025 se vende e compra. A regra é só uma: o máximo (do que quer que seja) pelo mínimo (custo). Ninguém acredita que a atual bolha vai crescer infinitamente, como se nada fosse, sem rebentar como todas as outras; apesar disto, por cá, mantemo-nos eufóricos com os sucessivos recordes de número de turistas, dormidas, receitas, etc., como se não houvesse amanhã e este fosse igual.

A alma de Veneza perdeu-se, a cidade converteu-se num parque temático tipo Disneylândia onde chineses vendem a outros chineses, por um euro, máscaras venezianas fabricadas na China. Um exército de dezenas de milhões de turistas por ano torna a cidade dos sonhos românticos um inferno e os poucos venezianos que restam estão saturados e desiludidos. Os voos baratos e os cruzeiros levaram à extinção da cidade e as autoridades italianas não sabem o que fazer.


Por cá ainda estamos longe deste desolador cenário, mas vamos no “bom” caminho, Lisboa que o diga, onde todos os dias se ouve o grito: “Olhe, desculpe eu vivia aqui.” Na verdade, já se torna complicado passear nos caminhos da encantada Sintra. E o que nos fica? Muito pouco.

Por muito que custe admiti-lo, o turista vive apenas o imediato: o objetivo é viajar cada vez para mais longe em menos tempo com a intensidade máxima, cumprindo o “quanto mais, melhor”. Acresce ainda que, depois da viagem em low cost, o turista no destino exige e consome sem limites – “faz e leva o que quiseres desde que pagues”, o quanto basta para o nosso contentamento. Acresce ainda que turismo, além de persistir na sazonalidade, é profundamente assimétrico; enquanto os clássicos destinos estão saturados, o Portugal vazio permanece vazio à espera de alguns turistas. Esta é a perfeita indústria insustentável.

Enquanto nada se passa, a expectativa é a de continuar a crescer no mesmo contexto (como se nada se alterasse…) e bater os números do último ano. Ora, como em tantas outras matérias, enquanto é tempo, o País deve refletir estrategicamente sobre o turismo que quer; para todos os efeitos, qualquer coisa melhor do que o presente.

Apesar de alguma degradação ecológica, sempre negada pelo Ministério do Ambiente, e exagerada por ecologistas, Portugal goza de um conjunto de patrimónios únicos e de grande valor, positivamente distintivos quando comparados com a concorrência. Entre eles, destaca-se o património natural, que nos dá uma enorme riqueza, não quantificada e ignorada. Aqui, sim, está o nosso valor distintivo, pois temos uma geobiodiversidade única e há muito perdida na Europa.

Podemos e devemos estruturar produtos turísticos que abranjam franjas do mercado de alto valor e baixa pegada ecológica, exatamente o contrário do que hoje temos. Todos os nossos vizinhos, concorrentes, e também origem de grande parte dos nossos turistas, têm mais grandiosos castelos e palácios, igrejas e monumentos romanos, árabes ou gregos. Mas Natureza temos nós melhor.

No que respeita aos principais desafios, já os sabemos e lemos muitas vezes: combate à sazonalidade, valorização do património e da cultura, desconcentração da procura, qualificação e valorização dos recursos humanos, estímulo à inovação e ao empreendedorismo, e envolvimento da população e dos atores locais. Como não?

A cultura na era Trump

Em seu primeiro mandato, nas noites de gala do Kennedy Center, Trump sempre deixara vazio o camarote reservado ao chefe da nação. Talvez por receio de ser vaiado, de não saber quando e se aplaudir ou por falta de apetite mesmo

Uma imagem gerada por inteligência artificial mostra Donald Trump em roupa de maestro e expressão enlevada, regendo uma orquestra de magnitude sinfônica. Foi postada recentemente por ele mesmo em sua plataforma Truth Social. Continha um anúncio: “Por unanimidade, o presidente Donald J. Trump foi eleito presidente do Conselho do prestigioso John F. Kennedy Center for the Performing Arts em Washington, D.C. Faremos [da instituição] um lugar muito especial e animado!”.

Achou desnecessário mencionar que, para isso, rompeu uma tradição de 53 anos ao defenestrar os 18 democratas do corpo gestor de 36 integrantes. Desde sua fundação em 1971, este oásis cultural era uma das poucas instituições federais equanimemente dividida entre republicanos e democratas, com mandatos de 6 anos.


O choque no mundo das artes foi brutal — para estes tempos de carnaval no Brasil, algo como Jair Bolsonaro comunicar aos cariocas que se tornara, numa virada de mesa, presidente da Portela ou da Mangueira. Em seu primeiro mandato, nas noites de gala da casa, Trump sempre deixara vazio o camarote reservado ao chefe da nação. Talvez por receio de ser vaiado, de não saber quando e se aplaudir ou por falta de apetite mesmo. No palco ou na plateia, a turma não era a dele. Vale lembrar que o Kennedy Center foi inaugurado com nada menos que uma missa composta especialmente por Leonard Bernstein, com canto, dramaturgia, e balé de Alvin Ailey.

Deborah Rutter, a presidente do Conselho agora defenestrada, lançou um alerta na despedida. “Artistas mostram a gama de emoções da vida — as maiores alturas da alegria e as profundezas do desespero. Eles seguram um espelho para o mundo, refletindo quem somos e ecoando nossas histórias. O trabalho deles nem sempre nos faz sentir confortáveis, mas lança luz sobre a verdade”, escreveu. “Assim como nossa própria democracia, a expressão artística deve ser nutrida, fomentada, priorizada e protegida. Não é uma empreitada passiva.”

Não mencionou o presidente, claro, nem precisava. O próprio Trump já havia oficializado o motivo para ocupar nominalmente o cargo (indicando um preposto para realizar o trabalho). Esbanjando maúsculas, garantiu a seus 91,2 milhões de seguidores na plataforma X ter “uma visão de ERA DE OURO para a Cultura e as Artes americanas. CHEGA DE SHOW DE DRAGS, OUQUALQUER OUTRA PROPAGANDA ANTI-AMERICANA – APENAS O MELHOR. BENVINDO AO SHOW BUSINESS”. (O uso indiscriminado de maiúsculas continua sendo sua grande marca literária.)

Poderia, igualmente, ter escrito a frase: “Doravante travaremos uma Implacável Guerra de purificação contra os últimos elementos de nossa decadência Cultural!” . Só que essa última, lembrou o escritor americano Ed Simon na Hyperallergic, não seria original. Já foi pronunciada na abertura, em Munique, da Grande Exposição de Arte Alemã em 18 de julho de 1937 — por Adolf Hitler.

À primeira vista, a vontade de Trump de ocupar um assento no Kennedy Center pode parecer mero narcisismo e impulso vingativo. “Mas o fascismo”, escreve Simon, “por sua própria natureza, tem obsessão por controle cultural”.

Medíocre aquarelista de paisagens rejeitado pela Academia de Belas Artes de Viena, Hitler foi incapaz de representar a figura humana. Contudo, ou por isso mesmo, conhecia a força de uma representação estética totalizante. Junto a Albert Speer, seu arquiteto de todas as horas, soube impor o ideal ariano a uma Alemanha em busca do orgulho perdido. Em ensaio de 1975 citado por Simon, a escritora Susan Sontag explica como o fascismo não é apenas “uma ideologia, mas uma forma estética de fazer política, contrastando o limpo e o impuro, o incorruptível e o infectado, o físico e o mental”. Simultaneamente à exposição citada, que continha obras encomendadas de cenas militares e muito kitsch neoclássico, o próprio partido nazista achou educativo organizar também uma mostra da “Arte Degenerada” a ser exorcizada. Nesse balaio entrou, como se sabe, toda uma geração de mestres do surrealismo, do expressionismo e do cubismo europeus.

Trump ainda é amador nessa área. Mas promete uma Kulturkampf à altura de seu alcance.

Para não concluir esta coluna em desalento, fica o convite para quem quer começar bem o domingo antes de cair na batucada. O link (
https://www.youtube.com/watch?v=8cF0tf35Mbo) mostra a apresentação da diva Aretha Franklin homenageando Carole King em noite de gala no Kennedy Center, nos últimos dias do governo Barack Obama. São quatro minutinhos apenas. À época, a cultura estava no poder.
Dorrit Harazim

sábado, 1 de março de 2025

Pensamento do Dia

 


Divórcio à americana

Num filme famoso – e escandaloso – do início dos anos 1960, o realizador Pietro Germi conseguiu sintetizar, numa hilariante sátira, o machismo ridículo que vigorava então nos países do Sul da Europa. A comédia, intitulada Divórcio à Italiana, contava a história de um decadente aristocrata siciliano, interpretado pelo inesquecível Marcello Mastroianni, que, ao apaixonar-se por uma prima mais jovem, durante umas férias de verão, procura um estratagema para se livrar da mulher com quem era casado – no tempo em que o divórcio era proibido em Itália. Elabora, para isso, um plano que pensa ser infalível: arranjar um amante para a mulher e apanhar os dois em “flagrante delito”. Em seguida, simulando um “ataque de fúria”, poderia aniquilá-los, ciente de que, nessa época, os homicídios por “honra” eram perdoados pela justiça e aceites pela sociedade.

A sátira à autoridade omnipresente da Igreja Católica e aos “bons costumes”, que tornavam socialmente mais admissível matar o cônjuge do que aceitar o divórcio, era uma “carga” demasiado pesada para os censores do Portugal salazarista. Por isso, aqui, o filme só foi exibido muitos anos depois, após o 25 de Abril, apesar do êxito internacional que obteve, tendo inclusive conquistado o Oscar de Melhor Argumento Original, além de outros prémios em diversos festivais.

Salvaguardadas as devidas distâncias, estamos agora a assistir a uma espécie de remake ao vivo de algo semelhante nas relações internacionais, com muitas alianças a desmoronarem-se, sem que o divórcio seja declarado. E sem que faltem, nalguns casos, até algumas ameaças de assassínio, sempre justificadas por questões de honra ou de interesse próprio.


Após décadas de casamento, com muitas celebrações pelo meio, a Europa e os Estados Unidos da América estão, desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, numa separação de facto. As diferenças entre os dois são cada vez mais acentuadas, há desacordo em quase tudo e, na verdade, já não têm o mesmo interesse em continuar juntos.

Donald Trump, como Marcello Mastroianni no filme, já só pensa em arranjar formas de poder livrar-se dos antigos aliados europeus. Seja através de ameaças de invasão da Gronelândia, administrada pela Dinamarca, do anúncio de novas tarifas para enfraquecer a economia ou patrocinando os radicais e extremistas que querem destruir a União Europeia por dentro. E já nem sequer esconde o seu desejo antigo por um relacionamento mais permanente e estável com Vladimir Putin, que representa a maior ameaça à paz europeia.

O romance entre os dois já é assumido e visível para o mundo. Prova disso foi dada esta semana na Assembleia Geral das Nações Unidas, quando, pela primeira vez, os representantes de Moscovo e de Washington estiveram do mesmo lado, contra a maioria, na recusa em condenar a Rússia pela invasão da Ucrânia.

Os factos são já mais do que evidentes. A Europa não pode, então, continuar a iludir-se com a aliança e a proteção dos EUA. Precisa de quebrar a relação de décadas de dependência e assumir o divórcio. E deve fazê-lo sem planos maquiavélicos nem subterfúgios, mas antes com frontalidade – a única maneira que tem de ganhar força perante o resto do mundo.

Só há uma forma de o fazer: com uma liderança inequívoca e a firmeza de convicções que nortearam a criação do projeto europeu. Uma convicção assente num Estado social forte e solidário, na defesa da democracia e da liberdade, no respeito escrupuloso pelos direitos humanos e numa ideia de progresso para todos os cidadãos, sem exceções.

Neste processo, ninguém pode dizer que foi apanhado de surpresa. Tudo o que Trump está a fazer é exatamente o que tinha prometido. Não adianta, por isso, continuar a tentar adiar o divórcio cada vez mais próximo e inevitável. Está na hora de começar a fazer as partilhas, como avisou o próximo chanceler alemão, Friedrich Merz, ao assumir que a sua “prioridade absoluta” é garantir “a independência em relação aos EUA”. E, neste caso, é melhor um divórcio litigioso do que continuar a perpetuar crimes justificados pela “honra”.

Os interesses comerciais da família Trump no Oriente Médio

Os comentários do presidente dos EUA, Donald Trump, em 4 de fevereiro sobre investimentos imobiliários na Faixa de Gaza após o fim da guerra entre Israel e o grupo islamista Hamas reavivaram uma ideia anteriormente promovida por ele e seu genro, Jared Kushner.

O foco de seu plano para Gaza é o potencial imobiliário do enclave palestino em vez de sua situação humanitária ou política. Depois de afirmar que os EUA "assumiriam a Faixa de Gaza" e "a possuiriam", Trump afirmou que os EUA teriam "a oportunidade de fazer algo que poderia ser fenomenal. A 'Riviera do Oriente Médio' poderia ser algo magnífico."

Com essa declaração, o presidente ecoou sentimentos expressos por Kushner em uma entrevista na Universidade de Harvard, em fevereiro de 2024, quando ele disse que as propriedades à beira-mar de Gaza poderiam ser "muito valiosa se as pessoas se concentrassem em construir meios de geração de renda". Ele acrescentou que, da perspectiva de Israel, o melhor seria "tirar as pessoas e depois limpar tudo".


Trump desde então dobrou a aposta. Em entrevista à emissora americana Fox News nesta segunda-feira, sugeriu que os palestinos não deveriam retornar a Gaza porque eles teriam "moradias muito melhores" em outro lugar, contradizendo autoridades de seu governo que argumentaram que ele estava apenas pedindo a realocação temporária da população.

"Construiremos comunidades seguras, um pouco longe de onde eles estão, de onde todo esse perigo está", disse Trump. "Nesse meio tempo, eu possuiria isso. Pense nisso como um empreendimento imobiliário para o futuro. Seria um lindo pedaço de terra. Não precisaria de muito dinheiro."

Esse é um lembrete de que, para Trump e sua família, o Oriente Médio é um interesse comercial como qualquer outro.

A região se tornou cada vez mais atraente para as Organizações Trump, o conglomerado imobiliário e de hotelaria da família atualmente administrado pelos filhos do presidente Eric e Donald Junior.

Nos últimos anos, o grupo fechou vários acordos com a empresa imobiliária saudita Dar Global, o braço internacional da Companhia de Desenvolvimento Imobiliário Dar Al Arkan da Arábia Saudita.

Um luxuoso hotel e resort de golfe da marca Trump está em fase desenvolvimento em Omã, e as Organizações Trump e a Dar Global anunciaram planos para a construção de dois edifícios Trump Tower em Jedá, na Arábia Saudita, e em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Uma outra Trump Tower em Dubai, que incluiria um hotel e apartamentos residenciais, havia sido anunciada em outubro de 2005, mas o projeto foi cancelado em 2011 devido à crise financeira global.

Trump já possui um clube de golfe em Dubai, inaugurado em 2017. O local foi construído em parceria com a Damac Properties, administrada por Hussain Sajwani. Em janeiro de 2025, Sajwani apareceu ao lado de Trump numa entrevista à imprensa para anunciar que a Damac investiria "pelo menos" 20 bilhões de dólares (R$ 115 bilhões) para construir novos centros de dados nos EUA.

Os novos acordos em Omã, Jedá e Dubai farão com que as Organizações Trump projetem, gerenciem e deem nome às torres e ao resort de luxo. Os acordos são principalmente sobre o uso da marca em vez de propriedade, rendendo milhões à família em troca do uso de seu nome.

Trump e membros de sua família, de Kushner a seus filhos, têm falado repetidamente sobre a relevância cada vez maior do Oriente Médio para seus interesses comerciais. "Definitivamente faremos outros projetos nesta região. Esta região tem um crescimento explosivo, e isso não vai parar tão cedo", disse Eric Trump ao jornal britânico Financial Times pouco antes do acordo de Jedá ser anunciado.

A Arábia Saudita, um importante aliado dos EUA no Oriente Médio, é cada vez mais fundamental para os interesses da família Trump na região.

Além da Dar Global, as Organizações Trump também colaboraram com o torneio de golfe LIV Golf, um dos investimentos esportivos mais badalados e controversos do reino saudita. A empresa dos Trump possui vários campos de golfe ao redor do mundo e foi paga pelo LIV para sediar várias partidas em suas instalações nos EUA.

Enquanto isso, a empresa de capital privado de Kushner, a Affinity Partners, que é separada das Organizações Trump, desenvolveu laços estreitos com a Arábia Saudita e seu fundo soberano, conhecido como Fundo de Investimento Público (PIF).

O PIF, que é presidido pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, investiu 2 bilhões de dólares na Affinity. Vários outros grandes investidores do Golfo também despejaram dinheiro no projeto de Kushner, incluindo a Autoridade de investimentos do Catar (o fundo de investimentos catari) e a gestora de ativos Lunate, sediada em Abu Dhabi.

Kushner também tem investimentos substanciais em Israel, em especial na seguradora Phoenix Holdings e no Grupo Shlomo.

Os extensivos interesses comerciais levaram a críticas de que poderia haver múltiplos conflitos de interesses envolvendo o presidente.

Embora Trump tenha renunciado a todos os cargos de gestão em seus negócios quando foi eleito pela primeira vez para a presidência dos EUA, em 2016, sua família desempenhou um papel proeminente em atividades políticas e campanhas eleitorais mesmo à frente dos negócios.

Kushner usou os contatos que fez durante sua função anterior de consultor no primeiro governo Trump para construir seu portfólio de investimentos no Oriente Médio. Isso foi alvo de críticas, em especial pelo seu relacionamento próximo com a família real saudita.

Ele se defendeu no início de 2024 numa entrevista ao site de notícias americano Axios, afirmando que "se você me perguntar sobre o trabalho que fizemos na Casa Branca, o que eu digo para meus críticos é: aponte uma única decisão que tomamos que não fosse do interesse dos Estados Unidos".
Gaza como potencial negócio imobiliário?

Trump e Kushner estão claramente interessados na ideia de desenvolver Gaza sob a perspectiva de um projeto imobiliário em vez de um lar para os mais de 2 milhões de palestinos que vivem no enclave.

"Pessoas do mundo todo viverão lá", disse Trump, na entrevista ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu. "Fazer disso um lugar internacional, inacreditável. O potencial da Faixa de Gaza é inacreditável."

As declarações de Trump provocaram reações furiosas dos palestinos e foram condenadas imediatas por um grande número de governos. Há também grandes dúvidas sobre sua viabilidade em diversos aspectos.

No entanto, levando em conta os crescentes interesses comerciais imobiliários das Organizações Trump na região e os comentários inequívocos do próprio Trump e de seu genro, parece que eles estão levando essa ideia a sério.

Anomalias dinásticas na política

Dos muitos subentendidos da estrutura do Estado brasileiro e da decorrente política que o caracteriza é possível destacar que o sujeito indireto do processo político não é aqui o cidadão. É cada família dos poderosos. Herdados do Império, a República perfilhou nosso familismo político e o oligarquismo interiorano e rural. Colocam nosso regime anômalo num permanente limiar do atraso.

Pais legam a filhos e parentes um suposto direito de sucessão na política através dos muitos mecanismos que entre nós contaminam e usurpam o protagonismo democrático do cidadão. Muitos candidatos são voz e vontade de parentelas, distribuídos por diferentes níveis da organização política. O eleitorado formalmente moderno manipulado para a farsa do poder do atraso.


Novos e emergentes protagonistas enfrentam de maneira desigual e desfavorável quem já está no poder, os que têm a seu favor o direito a recursos do Estado, que os demais não têm.

Uma das expressões da desigualdade de direitos, num país em que a Constituição diz que todos são iguais perante a lei, está no crescente apelo aos chamados nomes de urna nas eleições. Acobertam a identidade e o nome civil de seu portador. A mentira identitária aparece no desempenho circense de alguns membros do legislativo, que se fantasiam do que querem fazer supor que são, em vez de trajar-se como o que são.

Assumem como normal a designação pelos estigmas que os tornam seres excluídos e da exclusão social e política. Parasitam a cidadania e os direitos do cidadão. Dos que chegam ao poder, como infiltrados na ordem política, teatralizam e caricaturizam, no desempenho melancólico, o que a política não é. Servem apenas para agregar votos na conta de quem não foi diretamente votado.

Emblemática foi a eleição de Tiririca, nome popular de uma planta daninha. Sua campanha veio com este esclarecimento antipolítico e antidemocrático: “Vote em Tiririca, que pior não fica”. Foi eleito porque no imaginário popular personificava a nulidade. Com sua votação, Tiririca arrastou consigo para o poder vários fantasmas eleitorais. O oportunismo elege mais do que o eleitorado.

Nas ascensões políticas da era pós-ditatorial, lentamente gestados, os Bolsonaros são a mais radical configuração dos novos protagonistas políticos de nossa pós-modernidade antipolítica e antidemocrática, a do sujeito que subsume o que deveria ser a figura jurídica do sujeito-cidadão.

Uma “firma política”, sob a configuração de uma família normal, chegou ao poder dependurada no pescoço do pai de família. Diferentemente do que já é a anomalia da dominação oligárquica na sucessão dos mesmos, surge aí a dominação da simultaneidade dos mesmos, o poder da família em penca.

O festejo em palácio pela aprovação, para o STF, do nome de um pastor protestante com quem a primeira-dama de então se identificava, um “irmão de fé”, mostra que tudo converge para um projeto de poder que nada tem a ver com as instituições republicanas. Trata-se de uma casta de gente que se concebe como dinastia e como dinastia atua, com base em direitos de parentesco, de sucessão simultânea e de pertencimento vicário, seja pelo casamento seja pelo compadrio simbólico.

Os documentos de denúncia contra Bolsonaro, encaminhados pela PGR ao STF, mencionam que uma das vozes radicais no interior do Palácio da Alvorada a favor do golpe de Estado foi justamente a da primeira-dama.

Os envolvidos nessa ordem anômala agem com a naturalidade de que o regime constitucional não é o da letra da lei, mas o de sua interpretação com base nas brechas que vêm de um passado que a legitima.

Aquele Artigo 142 da Constituição, para colocar o país sob tutela das Forças Armadas e dar sobrevida à ditadura, disfarçou-a, na perspectiva do avesso ao lícito, com a intenção meramente subjacente de conter e atenuar a abertura política e seus efeitos democráticos. O STF interpretou o artigo, à luz do teor da Constituição, e desfez o estamentalismo da interpretação golpista.

A República de 15 de novembro de 1889 fora República para minorias que se julgam com privilégios estamentais, como os militares. A República não era republicana, mas excludente e antidemocrática. Excluiu mulheres, analfabetos, praças de pré, membros das instituições monásticas. Os tutelados por outrem, os destituídos de vontade própria. O povo brasileiro considerado como um povo de menores de idade.

Ao dizer-se inocente quanto às acusações de tentativa de golpe de Estado e invocar em seu favor supostas brechas da lei, o inconformado ex-presidente mostra que se concebe como senhor de direitos dinásticos e estamentais, um mandatário que se legitima pela exceção, e não pelas regras.

Trump assume a direção da escola de ditadores

A política dos EUA é agressiva e barulhenta. Trump adaptou a receita dos autocratas que estiveram e estão por aí, cada dia em maior número. Gatos que convivem bem no mesmo saco, apesar dos disfarces ideológicos. nicolas Maduro, Ortega, Bukele, Milei, Erdogan, Netanyahu, Putin, Bolsonaro formam uma escola de ditadores. Maquiados de democratas, corroem a máquina do Estado para controlá-la e utilizá-la como arma de repressão.

O roteiro trumpista inclui demissão em massa de funcionários públicos, substituindo-os por aliados; enfraquecimento de agências e mecanismos de controle; imposição de tarifas e adoção de ferramentas econômicas para incentivar certos setores (criptomoedas); assédio judicial; saída de organismos internacionais; ausência de cooperação em temas como aquecimento global.


Como não pode controlar as Forças Armadas, Trump se aliou aos plutocratas da tecnologia —hoje, com a força destruidora das redes, dá quase no mesmo. No grito, projeta um expansionismo típico. Afinal, o colosso norte-americano vem de territórios comprados, invadidos ou anexados. Está de olho no Canadá, Groenlândia, Canal do Panamá, Ucrânia e Faixa de Gaza. E mandou recado "decretando" que o golfo do México agora é golfo da América.

O Brasil que se cuide. Até porque já á muita gente com boné Maga (Make America Great Again) na cabeça expressando sua vassalagem. O governador do maior estado da federação o usa, orgulhoso.

A costa brasileira é quase toda lisa, uma baía aqui, outra ali, o que levou o alagoano Graciliano Ramos a apontar uma das razões de nosso fracasso. Segundo ele, toda grande nação tem golfo. Daí ter sugerido ao sergipano Joel Silveira, em conversa na livraria José Olympio, a ideia revolucionária de arrasar Sergipe e Alagoas, fazendo um golfo entre Pernambuco e Bahia, com o rio São Francisco desembocando no fundo. "O golfo das Alagoas!", exultou Graciliano. Ao que Joel protestou: "Por que não o golfo de Sergipe?".

Trump inventaria um terceiro nome, a seu gosto e dispor.

América corrupta ‘again’

Após o escândalo de Watergate, o Congresso americano decidiu enfrentar o tema sabido da corrupção de agentes políticos ou administrativos no exterior, como forma de obter ou manter negócios.

Lembra Mike Koehler ( The story of FCPA Act) que a Gulf Oil fez contribuições para a campanha política do presidente da República da Coreia; Northrop realizou pagamentos a general da Arábia Saudita; a Exxon e a Mobil Oil deram dinheiro a partidos políticos italianos. Por fim, Lockheed fez pagamentos ao primeiro-ministro japonês Tanaka e ao príncipe Bernhard – inspetor-geral das Forças Armadas holandesas e marido da rainha Juliana, dos Países Baixos.

Os pagamentos foram feitos para ganhar vantagens, especialmente na obtenção ou manutenção de contratos governamentais ou para influenciar qualquer ato ou decisão de funcionário estrangeiro.


De 1975 a 1977 foram realizadas audiências no Senado acerca da edição de lei incriminando a corrupção de autoridades estrangeiras. D. J. Haughton, presidente do conselho da Lockheed Aircraft Corporation, depondo no Senado, disse: “Parecia ser necessário efetuar tais pagamentos para competir com sucesso em muitas partes do mundo, sob pena de perda de competitividade”.

Como bem ressaltam Lee C. Buchheit e Ralph Reisner (Why Has the FCPA Prospered?), o Congresso sabia que a proibição do suborno colocaria empresas dos EUA em desvantagem competitiva com os seus homólogos estrangeiros, mas prevaleceu a busca do objetivo maior de promover relações internacionais transparentes.

Empresários também observaram que a proibição de pagamentos a funcionários de governos estrangeiros ajudaria as empresas a resistir às exigências de suborno em muitos países.

O senador Frank Church, presidente da comissão encarregada de estudo da proibição de suborno, de forma exata disse: “Há um amplo consenso de que o pagamento de subornos para influenciar decisões de negócios corrói a livre-iniciativa. O suborno provoca um curto-circuito no mercado. Onde os subornos são pagos, não prevalece o produtor mais eficiente, mas o mais corrupto”.

O senador Proxmire, por sua vez, destacou que com o suborno se tem custo mais elevado por produto de qualidade inferior. Para o senador Williams, há com o suborno uma interferência prejudicial ao país, pois mancha sua imagem e a dos empresários norte-americanos, minando objetivos importantes da política externa.

Para o presidente Ford, a prevenção e a repressão ao suborno de autoridades estrangeiras permitiriam que os EUA dessem exemplo vigoroso ao comércio, a parceiros e a concorrentes, quanto à necessidade imperiosa de acabar com práticas ilícitas na obtenção de negócios. Assim, era necessário que disposições antissuborno, como a do FCPA Act (Lei de Práticas Corruptas no Exterior), fossem aplicadas a cidadãos e corporações dos EUA, bem como a empresas estrangeiras cujos títulos estejam listados em bolsa nos EUA.

Na visão do presidente Carter, o suborno é eticamente repugnante e competitivamente desnecessário, além de minar a integridade dos governos. Assim, o FCPA Act, editado em novembro de 1997, exige, como prevenção, que se mantenham livros e registros precisos, bem como rigorosos controles contábeis, combinando à corrupção sanções civis aplicáveis pela Comissão de Valores Imobiliários (SEC) e criminais pelo Departamento de Justiça (DOJ).

O FCPA influenciou organismos internacionais, que assumiram a mesma orientação, gerando normativas de repressão ao suborno de autoridades estrangeiras, tais como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Houve desde 1997 investigações e punições de graves atos de corrupção, inclusive relativos ao Brasil.

Todavia, nos primeiros dias de mandato, Donald Trump ordenou ao Departamento de Justiça suspender a aplicação da Lei Antissuborno, o FCPA, com a seguinte desculpa: “Isso significará muito mais negócios para a América”; “Parece bom no papel, mas na ( prática) é um desastre”; “Isso significa que, se um americano vai a um país estrangeiro e começa a fazer negócios lá legalmente, legitimamente ou de outra forma, é quase uma garantia de investigação, indiciamento e ninguém quer fazer negócios com os americanos por causa disso”.

Para funcionário da Casa Branca, a “segurança nacional do país depende de a América e suas empresas obterem vantagens coerciais estratégicas ao redor do mundo”. O funcionário acrescentou: “O presidente Trump está interrompendo a aplicação excessiva e imprevisível do FCPA que torna as empresas americanas menos competitivas”.

No momento em que a luta contra a corrupção em favor da integridade alcança âmbito mundial, com a implementação dos fatores ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês), lançados pelo então secretário-geral da ONU Kofi Annan por via do Pacto Global, Trump despreza os argumentos tão incisivamente trazidos na discussão do FCPA Act contra a permissão da desonestidade para ganho competitivo, e agora visa a consagrar a ilicitude, que trará negócios para a América. Grana acima de tudo. •
Miguel Reale Junior