Israel não deseja a paz. Nunca quis tanto que estivesse errado o que escrevo. Mas as evidências se acumulam. Na verdade, pode-se dizer que Israel nunca desejou a paz – uma paz justa, ou seja, baseada num acordo justo para ambos os lados. É verdade que a saudação rotineira em hebreu é Shalom (paz) – shalom quando alguém se despede e shalom quando alguém chega. E quase todo israelense dirá sempre que deseja a paz, claro que sim. Mas ele não se refere ao tipo de paz que traz justiça, sem a qual não há paz e não haverá paz. Os israelenses desejam paz, não justiça; certamente nada que se baseie em valores universais. Nos últimos dez anos, aliás Israel afastou-se até mesmo da aspiração de construir a paz. Desistiu completamente dela. A paz desapareceu da agenda, seu lugar foi tomado por ansiedades coletivas, fabricadas sistematicamente, e por questões pessoais, privadas, que agora têm prioridade sobre todas as outras.

Os israelenses que ansiavam pela paz aparentemente morreram há cerca de uma década, depois do fracasso da reunião de Camp David em 2000, da disseminação da mentira de que não há um parceiro palestino para a paz e, claro, do terrível período da segunda intifada, encharcado de sangue. Mas a verdade é que, mesmo antes disso, Israel nunca desejou realmente a paz. Nunca, nem por um minuto, Israel tratou os palestinos como seres humanos com direitos iguais. Nunca viu seu sofrimento como um sofrimento humano e nacional compreensíveis.
Também o movimento israelense pela paz – se é que chegou a existir – morreu uma morte lenta, em meio às penosas cenas da segunda intifada e à mentira da falta de parceiros. Tudo o que restou foi um punhado de organizações tão empenhadas quanto ineficazes, face às campanhas de deslegitimação montadas contra elas. Logo, Israel foi deixada em sua postura isolacionista.
A evidência mais esmagadora da rejeição da paz por Israel é, claro, o projeto das colônias de ocupação da Palestina. Desde o início de sua existência, nunca houve um teste mais seguro ou mais preciso para as verdadeiras intenções de Israel do que esse empreendimento particular. Em linguagem clara: os construtores das colônias desejam consolidar a ocupação, e quem deseja consolidar a ocupação não deseja a paz. Esse é o resumo da ópera.
Considerando que as decisões de Israel são racionais, é impossível aceitar que a construção nos territórios e a aspiração pela paz possam coexistir mutuamente. Cada ato de construção em colônias de ocupação, cada casa móvel e cada varanda transmitem rejeição. Se Israel quisesse alcançar a paz através dos Acordos de Oslo, teria ao menos parado, por iniciativa própria, de construir as colônias. O fato de que isso não aconteceu prova que Oslo foi uma fraude, ou, na melhor das hipóteses, a crônica de um fracasso anunciado. Se Israel desejava construir a paz em Taba, em Camp David, em Sharm el-Sheikh, em Washington ou em Jerusalém, seu primeiro passo teria sido acabar com toda ocupação nos territórios. Incondicionalmente. Sem exigir nada em troca. O fato de Israel não tê-lo feito é a prova de que não quer uma paz justa.
Mas as colônias são apenas um dos indicadores das intenções de Israel. Seu isolamento está entranhado bem mais fundo – em seu DNA, sua corrente sanguínea, suas crenças mais primordiais. Lá, no nível mais profundo, está o conceito de que esta terra está destinada apenas aos judeus. Lá, no nível mais profundo, está entrincheirado o valor de “am sgula” — os escolhidos por Deus.
Na prática, isso se traduz na noção de que, nesta terra, os judeus estão autorizados a fazer o que aos outros é proibido. Esse é o ponto de partida, e não há como chegar a uma paz justa a partir daí. Não há nenhuma maneira de alcançar uma paz justa quando o nome do jogo é desumanização dos palestinos. Não há forma de conseguir alcançar a paz quando sua demonização é martelada na cabeça das pessoas dia após dia. Quem está convencido de que cada palestino é um suspeito e quer “jogar os judeus no mar” nunca vai construir a paz com os palestinos. A maioria dos israelenses estão convencidos de ambas as afirmações.
Na década passada, as duas populações foram separadas uma da outra. O jovem israelense médio nunca se encontrará com seu par palestino, a não ser durante seu serviço militar (e, mesmo assim, apenas se servir nos territórios ocupados). Nem o jovem palestino médio encontrará um israelense da sua idade, a não ser o soldado que o hostiliza no checkpoint, ou invade sua casa no meio da noite, ou o colono que usurpa sua terra ou queima seus bosques.
Em consequência, o único encontro entre os dois povos é entre os ocupantes, que são armados e violentos, e os ocupados, que são desesperados e também se voltam para a violência. Foram-se os tempos em que palestinos trabalhavam em Israel e israelenses iam fazer compras na Palestina. Foi-se o período de relações meio-normais e um-quarto-iguais, que existiram por poucas décadas entre dois povos que dividiam o mesmo pedaço de território. É muito fácil, nesse estado de coisas, incitar e inflamar um contra o outro, espalhar medos e instigar novos ódios sobre os já existentes. Essa é, também, uma receita certa de não-paz.
Foi assim que um novo anseio israelense surgiu: o desejo de separação: “Eles ficam lá e nós ficamos aqui (e lá também)”. Num momento em que a maioria dos palestinos – avaliação que me permito fazer, após décadas de cobertura nos territórios – ainda quer coexistência, mesmo que cada vez menos, a maioria dos israelenses quer não-envolvimento e separação, mas sem pagar o preço. A visão de dois estados ganhou adesão generalizada, mas sem qualquer intenção de implementá-la na prática. A maioria dos israelenses é a favor, mas não agora e talvez nem mesmo aqui. Eles foram treinados a acreditar que não há parceiro para a paz – isto é, um parceiro palestino – mas há um parceiro israelense.
Infelizmente, a verdade é quase o oposto. Os palestinos não-parceiros não têm mais nenhuma chance de provar que são parceiros; os não-parceiros israelenses estão convencidos de que são interlocutores. Começou então um processo em que as condições, obstáculos e dificuldades impostas por Telaviv se amontoaram, mais um marco no isolamento israelense. Primeiro, veio a exigência de acabar com o terrorismo; em seguida, a demanda pela troca da liderança (Yasser Arafat visto como uma pedra no caminho); e depois disso o Hamas tornou-se o obstáculo. Agora é a recusa dos palestinos em reconhecer Israel como um Estado judeu. Israel considera legítimo cada passo que dá – de prisões políticas em massa à construção nos territórios –, enquanto todo movimento palestino é considerado “unilateral”.
O único país sem fronteiras do planeta não quis, até aqui, delimitar sequer as fronteiras que estaria pronto a aceitar num acordo. Israel não internalizou o fato de que, para os palestinos, as fronteiras de 1967 são a mãe de todos os acordos, a linha vermelha da justiça (ou justiça relativa). Para os israelenses, elas são “fronteiras suicidas”. Essa é a razão pela qual a preservação do status quo tornou-se o verdadeiro alvo, o objetivo primordial da política de Israel, quase seu tudo ou nada. O problema é que a situação existente não pode durar para sempre. Historicamente, poucas nações aceitaram viver sob ocupação sem resistência. E também a comunidade internacional estará apta, um dia, a proferir um pronunciamento firme, acompanhado de medidas punitivas, sobre este estado de coisas. Segue-se que o objetivo de Israel é irrealista.
Desconectada da realidade, a maioria dos israelenses mantém seu estilo de vida normal. A seus olhos, o mundo está sempre contra eles, e as áreas de ocupação à sua porta estão fora de sua esfera de interesse. Quem ousa criticar a política de ocupação é rotulado de anti-semita, cada ato de resistência é percebido como uma ameaça existencial. Toda a oposição internacional à ocupação é lida como “deslegitimização” de Israel e como um desafio para a própria existência do país. Os sete bilhões de pessoas do mundo – a maioria das quais contra a ocupação – estão erradas, e seis milhões de judeus israelenses – a maioria dos quais apóia a ocupação – estão certos. Essa é a realidade na visão do israelense médio.
Some a isso a repressão, a ocultação e a dissimulação, e você tem uma outra justificativa para o isolamento. Por que alguém deveria lutar pela paz, desde que a vida em Israel seja boa, a calma prevaleça e a realidade se mantenha oculta? A única maneira de a Faixa de Gaza, sitiada, lembrar as pessoas de sua existência é atirando foguetes, e, atualmente, a Cisjordânia só entra na agenda quando há sangue derramado por lá. Da mesma forma, o ponto de vista da comunidade internacional só é levado em conta quando tenta impor boicotes e sanções, que por sua vez geram imediatamente campanhas de autovitimização cravejadas de contundentes – e, às vezes, também impertinentes – acusações históricas.
Este é, pois, o quadro sombrio. Não contém um raio de esperança. A mudança não vai acontecer por si mesma, a partir do interior da sociedade israelense, caso continue a se comportar como se comporta. Os palestinos cometeram mais do que um erro, mas seus erros são marginais. A justiça de base está do seu lado, e o isolamento de base é o limite dos israelenses. Eles querem ocupação, não paz.
Tenho a esperança de estar errado.
Os democratas podem se confortar pensando que os freios e contrapesos da América são fortes, e que Trump está destinado a fracassar, mas isso seria um erro. Existem duas Américas agora, e muito pouco as conectaAlon Pinkas
Anne Applebaum é uma consagrada jornalista (ex-editora das revistas The economist e The Spectator ) escritora (prêmio Pulitzer, em 2003, com a obra Gulag – Uma história dos campos de prisioneiros soviéticos ) que consolidou seu prestígio internacional como historiadora e uma destacada pensadora sobre o fenômeno do autoritarismo que tem ampliado seus domínios ao longo da história política contemporânea.
Em 1988, como correspondente internacional, na Polônia (onde veio a casar, em 1992, com Radoslaw Sikorski, Ministro das Relações Exteriores da Polônia, ex-membro do Parlamento Europeu) vivenciou, de perto, os estertores da guerra fria, o colapso da União Soviética o que lhe conferiu experiência profissional com visão privilegiada sobre ascensão e declínio das democracias ocidentais bem como a crescente onda do populismo autoritário que vem ampliando espaços na geopolítica global.
Sua aguda percepção, rechaça, de plano, visões simplistas e conclusões apressadas, salientando que não há nações condenadas a viver sob uma ordem autoritária, tampouco existem garantias irremovíveis para a existência dos sistemas democráticos. Vai além ao afirmar que, atualmente não existe um campo democrático e um campo autoritário: “São vários tons de cinza. Há muitos países no meio e, há muitas práticas autocráticas dentro das democracias. Há, também, países que são, nominalmente, parte do mundo democrático, mas se alinham, cada vez mais, às autocracias tentando importar seus métodos […] cujo exemplo mais famoso é Viktor Orban que é membro da União Europeia e da Otan e, mesmo assim, está abertamente alinhado com a Rússia em sua política externa” (Entrevista na Folha de São Paulo, Edição de 04/11/24).

No livro O Crepúsculo da Democracia, o subtítulo oferece ao leitor mensagem central do autoritarismo: seduz e, ao mesmo tempo, desfaz os laços de amizade em nome da política. O ponto de partida é o relato de uma prosaica festa de confraternização na passagem do século de uma centena de amigos e companheiros que, progressivamente, se deram às costas diante da possibilidade de divergir. Em duas décadas, o contágio do ódio eliminou a possibilidade do pluralismo das ideias, ensejando a relação conflituosa amigo/inimigo. A autora sentiu na própria pele, por conta da origem judia, as chibatadas do antissemitismo.
Em seis capítulos, respaldada em fatos e nas lições da história, Applebaum ao tempo que alerta para a escalada do populismo e autoritarismo no mundo, não subestima a força do movimento e aponta para as fragilidades das democracias, incapazes de superar e vencer o descontentamento, a insatisfação das pessoas com os rumos da vida moderna, as dramáticas mudanças sociais, demográficas e tecnológicas que alimentam o apelo salvador dos líderes autocráticos.
Como resultado da experiência profissional, estudos e reflexões sobre o fenômeno do autoritarismo, a Anne Applebaum identifica um novo modelo de organização das forças que têm por inimigo comum a democracia ocidental: a Autocracia S.A.
Superado como regra, o argumento da força deu lugar às formas mais sutis de destruição das instituições democráticas e ao contrário das alianças militares ou policiais de outras épocas e lugares, assinala a autora: “esse grupo opera não como um bloco, mas como um aglomerado de empresas unidas não pela ideologia, mas pela brutal e obstinada determinação de preservar sua riqueza e seu poder. É isso que chamo de Autocracia S.A.”
Acrescenta: “Em vez de ideias, os tiranos que lideram a Rússia, China, Irã, Coreia do Norte, Venezuela, Nicarágua, Angola, Mianmar, Cuba, Síria, Zimbábue, Mali, Bielorússia, Sudão, Azerbaijão, e talvez outras três dezenas de países compartilham a determinação de privar seus cidadãos de qualquer influência ou voz pública reais, de resistir a todas as formas de transparência ou prestação de contas e de reprimir qualquer um, no âmbito, doméstico e internacional que os desafie”.
O modus operandi da organização oferece aos seus membros poder, dinheiro e “algo menos tangível: a impunidade”. A rigor, esta rede ampla e diversificada, sob as bênçãos da Rússia putinista celebrou uma terrível aliança com o moderno casamento da cleptocracia com a ditadura que protege as tenebrosas transações no universo paralelo do circuito dos crimes financeiros. Todos os déspotas dos diversos continentes são corruptos, bilionários e solidários na luta contra os valores das sociedades abertas e democráticas.
De fato, a sólida e minuciosa narrativa se estende por cinco densos capítulos e revela uma realidade assustadora. A ambição dos ditadores é dominar o mundo. Na entrevista dada à Folha um dia antes da eleição de Trump, a autora não fez previsão. Talvez, pressentira a derrota.
E quando indagada quanto às formas de lutar pela democracia, enfatizou o ativismo democrático da cidadania e, no epílogo do livro, “Democratas Associados”, conclui com uma convocação: “Elas (as democracias) podem ser destruídas a partir de fora para dentro, por divisões e demagogos. Ou podem ser salvas. Mas somente se aqueles que vivem nelas estiverem dispostos a fazer o esforço de salvá-las” .
Estonteado desde a derrota de 5 de novembro, o Partido Democrata americano nem sequer teve tempo de lamber as feridas pela perda tríplice da Casa Branca, da maioria no Senado e da maioria na Câmara. A cada dia Donald Trump oblitera um pouco mais os vestígios restantes da infeliz candidatura de Kamala Harris. O tratamento de choque é ardilosamente calibrado. Todo dia o ex e futuro presidente anuncia novo indicado para compor o primeiro escalão de seu governo.
A lista inicial é puro-sangue, de lealdade irrestrita e obrigatória ao chefe. De resto, os indicados são ecléticos, e pessoas minimamente sensatas fariam bem em deles manter distância. A seguir, algumas pinceladas, começando pelo mais polêmico e insustentável dentre eles — Matt Gaetz, designado por Trump para procurador-geral/ministro da Justiça dos Estados Unidos.
— Equivale a nomear um serial killer para o cargo de cirurgião-geral [responsável pela saúde pública do país] — escreveu a jornalista Bess Levin na Vanity Fair.

Gaetz, de 42 anos, queixo e cabeleira kennedyanos, mas olhar de Jack Nicholson em “O iluminado”, pouco exerceu a advocacia antes de se tornar deputado federal pela Flórida. Na quarta-feira, renunciou abruptamente ao mandato, antecipando-se à divulgação de um dossiê “altamente comprometedor” pelo Comitê de Ética da Câmara, que há três anos o investiga por tráfico sexual e uso de drogas. Ao renunciar, Gaetz conseguiu abortar a jurisdição da comissão parlamentar, mas dificilmente evitará que o relatório venha a púbico. Até porque o escolhido de Trump também já foi acusado de promover um campeonato de sexo entre legisladores — vencia quem mantinha o maior número de relações com estagiárias, virgens e universitárias. Gaetz talvez seja o único com chances mínimas de sobreviver à sabatina no Senado — mesmo um Senado de maioria republicana.
A republicana Kristi Noem governa o estado de Dakota do Sul há cinco anos. Foi pinçada por Trump para chefiar o pantagruélico Departamento de Segurança Interna, composto por 22 agências federais, com a missão de “executar uma das operações de deportação mais maciças da história americana”. Sua biografia pouco tem de notável, exceto por um episódio que narra em seu livro de memórias, “No Going Back...” (Sem volta): como e por que ela levou Cricket, o filhote de 14 meses da família, até uma pedreira e ali o executou com um tiro à queima-roupa. O pointer era desobediente, não aprendia a caçar. Odiava-o, explicou. (Também contou ter matado uma cabra pelo mesmo método.) Trump, que notoriamente também detesta caninos, gostou do episódio.
A indicação de Mike Huckabee para a embaixada americana em Jerusalém é o que se poderia chamar de encontro de almas. Ele governou o estado do Arkansas por quase uma década, é ministro da Igreja Batista, milita no sionismo cristão, tentou por duas vezes ser o candidato republicano à Casa Branca. Huckabee não chegou nem perto, mas fez história ao afirmar que “na verdade, não existe o que chamam de palestino” e “tampouco existe a Cisjordânia — o que existe é Judeia e Samaria”. Aos assentamentos ilegais de israelenses na Cisjordânia Ocupada ele dá o nome de “comunidades”. Cessar-fogo em Gaza? Nem pensar. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, deve estar contando os dias para a chegada do novo embaixador.
Entre os que dependem de confirmação pelo Senado também está Robert Kennedy Jr., um fio desencapado na política que seduziu Trump não apenas pelo sobrenome da cultuada dinastia. Negacionista feroz da eficácia das vacinas, promotor de inúmeras teorias da conspiração e adversário combativo dos alimentos ultraprocessados, Kennedy é um poço de esquisitices. Mais de uma década atrás, ao perceber uma aguda perda de memória somada a outros efeitos de cognição, submeteu-se a uma bateria de exames de imagens que apontavam para um tumor cerebral. Às vésperas de ser submetido à cirurgia, conta o New York Times, percebeu-se que o cisto em questão era um parasita que havia conseguido penetrar no seu cérebro, dele se alimentado e morrido. O raro fenômeno atende pelo nome de neurocisticercose.
Kennedy também já foi diagnosticado com envenenamento por mercúrio, fibrilação atrial e sofre de disfonia espasmódica nas cordas vocais, o que torna a sua fala um tanto agoniada e rouca. Sem falar numa doentia, e autodeclarada, compulsão por sexo. Trump não apenas o quer na chefia do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, como quer que dê vazão a suas ideias mais extravagantes.
Há os que não dependem de confirmação pelo Senado, como a dupla de bilionários desiguais — Elon Musk, cuja fortuna beira os US$ 309 bilhões, e Vivek Ramaswamy, com seu mísero US$ 1 bilhão — elencados para codirigir um fantasioso Departamento de Eficiência do Governo. Como primeiras ideias da dupla, a eliminação do Departamento de Educação, da Receita Federal e do FBI. Deles falaremos noutra ocasião.
Por ora, ficamos com uma frase do escritor Ben Tarnoff para a New York Review of Books:
— Um império em decadência é um animal perigoso.
O mundo abre os olhos na direção do horizonte e tenta enxergar as retas e curvas do caminho. Quer ver se consegue descobrir o quê e o porquê os nossos irmãos do Norte, que habitam a maior potência econômica e militar do planeta, escolheram para liderá-los um empresário da área do entretenimento, conhecido por sua expressão misógina e machista, dando a ele um superpoder, eis que seu retorno ao assento no Salão Oval da Casa Branca pode ser considerado o mais retumbante da história norte-americana.
O impacto da vitória de Donald Trump abre expectativas no centro e nos fundões do planeta. Perguntas que emergem: conseguirá ele abrir uma “era de ouro” na terra americana, como anunciou em seu discurso de vitória? A promessa bate no sistema cognitivo da população como a implantação de uma Shangri-la, o paraíso tão sonhado pelos mortais. Conseguirá ele fechar as fronteiras do país, e fazer voltar para seus países milhões de imigrantes que buscaram realizar seus sonhos na terra de Abraham Lincoln? Conseguirá ele agradar seus eleitores com uma economia sem inflação e lhes garantindo um sólido poder de compra? Enfim, conseguirá Trump proporcionar aos eleitores o tão almejado conforto e bem-estar?
Este escriba tem lá suas dúvidas. Puxo um fio da história. Há 193 anos, em abril de 1831, Alexis de Tocqueville e seu amigo Gustavo Beaumont embarcaram no Havre (França) com destino à Nação do norte. Os dois jovens magistrados se investiam de uma missão: conhecer e examinar a solidez das instituições penitenciárias. Cumpriram a tarefa. Tocqueville produziu o clássico A Democracia na América, onde pontuava sobre o que viu na jovem Nação: “Existe um amor à pátria que tem a sua fonte principal naquele sentimento irrefletido, desinteressado e indefinível que liga o coração do homem aos lugares onde o homem nasceu. Confunde-se esse amor instintivo com o gosto pelos costumes antigos, com o respeito aos mais velhos e a lembrança do passado; aqueles que o experimentam estimam o seu país com o amor que se tem à casa paterna”.
Entremos nos dias de hoje. Espraia-se por todos os lados o desencanto. A desesperança. O país que elegeu, neste 5 de novembro, seu presidente, está coberto por uma camada de ódio, violência e medo. Pergunta-se: que amor à Pátria pode existir em espíritos tomados pelo pavor, pela violência de tiros a esmo (um quase matando o próprio candidato Trump)? Qual o motivo da vitória de alguém que expressa posições misóginas, racistas, disposto a expulsar do território milhões de imigrantes? Que espírito público é este da população, quando a conflituosidade se expande no seio da maior democracia mundial?
O sonho americano é uma utopia. Ontem, ouvíamos o lamento de Simón Bolívar, o grande timoneiro, ao retratar a sofrida América Latina: “Não há boa fé na América, nem entre os homens nem entre as nações; os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida um tormento. A única coisa que se pode fazer na América é emigrar”.
Hoje, vemos a ameaça de uma espada sobre a cabeça daqueles que se abrigaram na “terra dos sonhos”. Emigrar foi a opção de massas carentes de regiões do planeta que escolheram a grande Nação para viver. Muitos pensam em retornar à antiga casa sob medo de o braço de um comandante que transpira vingança cair sobre suas cabeças.
Afinal, o que explica a eleição do tempestuoso dono do império Trump?
A resposta aponta para um mundo em conflito. O planeta vive uma era de dissonâncias. Guerras explodem em regiões. Os povos olham para os céus e não encontram faróis. As multidões continuam a querer se embalar com os sonhos de outrora. O gosto suave de passear pelas ruas, andar à noite, conversar com os vizinhos, buscar o calor da convivência, reforçando os vínculos de solidariedade, destruídos pela explosão populacional das grandes e médias cidades e pela deterioração da infraestrutura de serviços. A violência irrompe nos centros maiores e menores, empurrada pelo fluxo centrífugo de bandos incontroláveis que governos não conseguem deter.
As desigualdades afloram com força. Os ricos ficam mais ricos. Os pobres, mais pobres. As doenças se tornam pandêmicas. E assim, a chama telúrica se apaga sob o violento sopro da expansão desordenada das margens sociais. Os governos se tornam entes ineficientes. O blablablá se expande. Nuvens plúmbeas tornam sombrios os horizontes. Novos e imensos grotões de miséria se abrem. Tristes tempos.
A cosmética das ruas ganha enfeites esquisitos. A imagem mais parece a de um jogo de futebol, disputado com a melhor bola da Fifa e os uniformes mais bonitos. Mas o campo é esburacado. Até os jogadores exibem sua “moderna” estética em cabeças trabalhadas por tesouras que fazem veredas no cabelo. As pinturas chamam a atenção. Um colorido extravagante comprova que os jogos de futebol passaram a ser desfiles mambembes de cabeças ocupadas por nova arte da tesoura, e onde tronco e membros são tomados por berrantes tatuagens. Frases de poesia bicuda e demônios desenhados é o que não faltam. Tudo parece um festival de assombração.
Nas prateleiras do poder, chegam reclamações sobre a eficiência dos serviços públicos, tocados por burocracias lentas e paquidérmicas, quadros funcionais ineptos e desmotivados. Explodem denúncias sobre negligências, malhas de corrupção. A realidade é amarga.
Desde o início da guerra Israel-Hezbollah, centenas de milhares de libaneses fugiram de suas casas por causa da luta. Mas os moradores de uma cidade bem na zona de combate decidiram ficar.
Rmeish, a apenas 2 km da fronteira, abriga 7.000 cristãos maronitas e está cercada por tiros por todos os lados.

“Há muitos danos. Talvez 90% das casas tenham algum tipo de dano, vidros quebrados e rachaduras nas paredes. Não sei o que vai acontecer quando o inverno chegar”, diz Jiries al-Alam, um fazendeiro que também trabalha como agente funerário na igreja da cidade.
“Estamos determinados a ficar, mas quase ninguém dorme à noite por causa dos ataques aéreos. Felizmente, não houve mortes entre os moradores até agora, mas 200 do meu gado morreram por causa dos sinalizadores militares”, ele acrescenta.
Um dia após o Hamas lançar seu ataque sem precedentes ao sul de Israel a partir de Gaza em 7 de outubro de 2023, seu aliado libanês Hezbollah começou a lançar foguetes ao norte de Israel, que por sua vez, começaram a atingir o Líbano.
Os moradores de Rmeish começaram a ver foguetes voando em ambas as direções acima deles.
“Muitas famílias ergueram bandeiras brancas em suas casas e carros para dizer que estão em paz e não têm nenhuma ligação com o que está acontecendo”, diz o padre George al-Ameel, 44, padre e professor da cidade.
“Queremos ficar em nossas casas e não queremos nenhuma guerra em nossa cidade.”
Depois que Israel iniciou sua invasão terrestre ao Líbano em 1º de outubro deste ano, a guerra se aproximou de Rmeish, com combates intensos ocorrendo em duas aldeias, ambas a menos de 1,6 km de distância.
“Ficamos em casa por meses, então os ataques aéreos começaram a chegar muito perto e, de repente, nossa casa foi atingida, fomos forçados a sair no meio da noite”, diz Rasha Makhbour, 38.
“O trabalho das pessoas parou e ninguém sai, a escola dos nossos filhos está fechada, tudo mudou.”
A família de seis pessoas de Rasha mudou-se para outra casa no centro da cidade depois que a deles ficou inabitável.
“Acreditamos que os foguetes que atingiram nossa casa vieram do sul, não do nosso país”, diz ela.
As Forças de Defesa de Israel disseram à BBC que não houve "nenhum ataque conhecido das IDF" em Rmeish durante as datas em que a casa de Rasha Makhbour foi danificada, alegando que foi um "lançamento fracassado do Hezbollah".
Israel emitiu uma ordem geral de evacuação para o sul do Líbano desde que sua invasão terrestre começou. A ONU diz que mais de 640.000 pessoas foram deslocadas de lá enquanto fugiam dos combates.
O governo israelense diz que seus objetivos militares no sul do Líbano são repelir o Hezbollah e devolver 60.000 israelenses deslocados de suas cidades fronteiriças ao norte para suas casas.
Na fronteira com Israel, Rmeish é a única cidade libanesa que não recebeu ordens diretas de sair.
Embora nenhum dos lados tenha ameaçado diretamente os moradores de Rmeish durante o conflito, sua lealdade ao Líbano foi questionada.
“Houve vozes por baixo da mesa espalhando rumores de que nossa presença aqui é evidência de nossa colaboração com Israel, o inimigo. Rejeitamos isso completamente”, diz o Padre al-Ameel.
É uma mensagem reiterada pelo prefeito de Rmeish, Milad al-Alam.
“Não tivemos garantias de segurança de nenhum lado”, ele diz. “Nossa cidade é pacífica, e nossa única causa é ficar por nossa identidade e nosso país.”
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Até o início da invasão terrestre de Israel, uma unidade do exército libanês permaneceu em Rmeish e ajudou a organizar o movimento para dentro e para fora da cidade. Mas, conforme as forças israelenses se moviam para cruzar a fronteira, o exército libanês – que não está diretamente envolvido na guerra – decidiu se retirar de Rmeish, para grande aflição dos moradores locais.
O exército libanês disse que rejeitou a descrição de que eles "se retiraram" de locais de fronteira, referindo a BBC a uma declaração de que o exército está "reposicionando" uma série de unidades militares no sul.
Então, no final de outubro, a rota principal para fora de Rmeish foi atingida – deixando os moradores se sentindo ainda mais isolados e vulneráveis. Desde então, apenas um comboio de ajuda chegou à cidade com a coordenação das forças de manutenção da paz da ONU, disse a missão da Unifil.
“Temos necessidades de combustível, alimentos e medicamentos, havia uma entrega vinda de Tiro que teve que retornar”, diz o Padre al-Ameel. “Se alguém se machuca, não há hospital para cuidados médicos sérios.”
O prefeito Al-Alam nos disse que está otimista de que a rota para fora da cidade estará disponível novamente em breve, para que eles possam abastecer suas reservas de combustível, mesmo que a rota através de uma zona de guerra ativa seja perigosa.
Outros na cidade continuam ansiosos.
“A situação está realmente ruim. Não há mercadorias, comida ou combustível chegando. Estamos começando a ver itens sumindo das prateleiras”, diz Jiries al-Alam, o agente funerário da cidade.
“Mas encontraremos um jeito. Agora é a temporada das azeitonas e, no pior dos casos, podemos simplesmente comer azeitonas. Queremos ficar em nossas casas e, portanto, morreremos em nossas casas se for preciso.”
Em 2002, é traduzido no Brasil O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia, de John B. Thompson (Vozes). Não se trata de um ataque gratuito aos que comercializam os escândalos, mas do estudo sobre um fenômeno influente nas disputas que emergem no século XXI. A tecnologia comunicacional para informar, desinformar ou omitir vem de longe. Roberto Marinho elegeu o “Caçador de marajás”, depois o apeou da Presidência. As redes cibernéticas não inventam a roda.
O professor de Cambridge foca três escândalos: “abuso de poder” (Richard Nixon/Watergate); “político-financeiro” (Parlamento Europeu/ Catar); politicossexual (Bill Clinton/ Mônica Lewinski). No Brasil, apelos aos quartéis ignoram violações dos direitos humanos jogadas debaixo do tapete (Vladimir Herzog/ Tortura). Ocorrências sofrem de espancamentos e choques elétricos no pau-de-arara para proteger as Forças Armadas. Os desaparecidos aguardam ainda agora, pela justiça.
O ruim fica pior com as fake news para enxovalhar a imagem dos adversários, o que envolve um conluio da mídia com o judiciário. A situação evoca o compromisso para, com novos mecanismos, corrigir os desvios de agentes públicos. A encenação serve de palco aos palhaços sociopatas sem noção republicana tipo o italiano Silvio Berlusconi, o brasileiro Jair Bolsonaro e o argentino Javier Milei. O circo é cosmopolita. A reprodução dos escarcéus sobrevive à demagogia institucional, que propaga a antipolítica, o livre mercado e criminaliza a esquerda — bode expiatório do desconforto.

A máquina de triturar do lawfare aciona episódios fictícios. As denúncias forjadas desmontam as empresas nacionais de engenharia, a indústria naval, o pré-sal, a Petrobras. A solapa dos vira-latas obedece a ditames estrangeiros. O livro Lava Jato: O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, de Vladimir Netto, elogia o homem sem qualidades ungido herói pela Rede Globo. Difícil saber onde termina a ausência de reflexão crítica da imprensa corporativa, e onde começa o cinismo de quem engana sem a discrição dos hipócritas, permitindo que a impostura seja flagrada pelos observadores. No teatro de falsidades, a verdade desce o ralo; ratazanas vêm à tona.
A mídia não é a democracia, senão o espetáculo no ato de produzir sentido. Para tal: (a) substitui o uso da razão “pela expressão em público de sentimentos”; (b) substitui o direito de cada um e todos de expressar um parecer pelo “formador de opinião”. Em Simulacro e poder: uma análise da mídia, Marilena Chaui insere a pantomima na “destruição da esfera da opinião pública”.
Nas enchentes do Rio Grande do Sul, os repórteres perguntam aos moradores o que sentem diante das inundações, ao invés de indagar o que pensam sobre a vergonhosa inoperância da Prefeitura. O desastre reduz-se a uma fatalidade doméstica, sem encadear as incúrias governamentais. A manobra blinda o prefeito do “kit-covid” de cloroquina e ivermectina distribuído durante a pandemia, na triste capital gaúcha.
Escândalos abalam o poder e, às vezes, geram flagelos pessoais; vide o destino do “pai dos pobres” Getúlio Vargas e do reitor da UFSC Luiz Carlos Cancellier — um inocente acusado por “convicções” sem PowerPoint. Não que os erros desconstruam a confiabilidade sistêmica, em si. O Congresso está repleto de aventureiros que surfam em campanhas caluniosas e difamatórias. Vale tudo no pé de goiabeira de emendas parlamentares em causa própria, ilustrativas da grave crise de dedicação à res publica por amor à filosofia da avareza, que ergue o deus-dinheiro no altar do hiperindividualismo.
A missão do jornalismo de fiscalizar os governos, revelar as falhas e erradicar os males — em nome do interesse público — é subvertida. Há desrespeito ao ethos da profissão inspirada nos princípios iluministas, com a nobre incumbência de diagnosticar as enfermidades sociais. No oligopólio das comunicações, a dita independência dos jornalistas é canibalizada pela alta hierarquia. Mentiras, a soldo, são ecoadas por paladinos da moral e costumes para esconder a responsabilidade das “elites”.
Já as mudanças nas relações trabalhistas levam à busca por sustentação nas urnas, além das antigas classes sociais. Com divisões ideológicas atenuadas, progressistas compõem com outros segmentos para vencer as eleições, e potencializam as manchetes negativas fruto de alianças não programáticas com parcerias dúbias. Haja equilíbrio na balança das práticas, desejos, expectativas e resultados.
John B. Thompson aborda eventos do hemisfério Norte, ao esmiuçar a tríade dos escândalos. Entre nós, o desafio está em desbravar acontecimentos acobertados pelo silêncio da mídia. Seguem cases que travam “lutas pelo poder simbólico, em que a reputação e a confiança estão em jogo”, na dura realidade. São metáforas de reatualização da dialética colonialista para a dominação/subordinação.
(i) Escândalo politicossexual (e racista). O Projeto de Lei (PL 1.904/2024) proíbe o aborto após a 22ª. semana, inclusive por estupro, e estipula às transgressoras uma pena de homicídio superior ao previsto na legislação para estupradores. A mobilização de diversos grupos feministas nas principais metrópoles impede a tramitação na Câmara Federal. A mídia enfatiza o nonsense da penalidade e confina o assunto à dosimetria. Não investiga os partidos e os políticos com mandato que cometem a violência sexista (e racialista). A lei atinge as meninas pretas e pobres de 8 a 12 anos, as grandes vítimas nas estatísticas ao longo do tempo. A bandeira do direito natural da mulher ao corpo não é hasteada. E o medievalismo bolsonarista sai incólume do golpe contra os valores da modernidade.
(ii) Escândalo político-financeiro. O crime de lesa-pátria da Taxa Selic do Banco Central retira do Erário R$ 816,2 bilhões, em 2023. Para comparar, o orçamento do Ministério da Saúde é R$ 231 bilhões; da Educação, R$ 180 bilhões. Alvo de acusações por investimentos em offshores em conflito com a função, o presidente do Bacen obtém dividendos pessoais com os juros elevados. Estes incentivam a desindustrialização e o modelo neocolonial-exportador, que incendeia biomas e florestas. A política monetária em curso inibe o crescimento da nação com geração de empregos e distribuição de renda. Os rentistas e os extrativistas agradecem a gentileza, com os bolsos cheios. E o neoliberalismo bolsonarista sai imune do golpe contra os valores do Estado de bem-estar social.
(iii) Escândalo de abuso de poder. No desgoverno, a criação na Associação Brasileira de Inteligência de uma “ABIN paralela” visa um órgão de vigilância típico dos regimes de exceção. À revelia do processo legal, a invasão de privacidade alcança trinta mil cidadãos; sequer são poupados os amigos da famiglia miliciana. Ao contrário do famoso triplex que não era do Lula, a conspiração direitista não recebe atenção no noticiário. Ninguém é preso. Passa-se pano na articulação terrorista entre o fascismo sociopolítico, o laissez-faire econômico e o conservadorismo cultural. E o totalitarismo bolsonarista sai ileso do golpe contra os valores civilizatórios do Estado de direito democrático.
“O mistério das coisas, onde está ele?/ Onde está ele que não aparece/ Pelo menos para mostrar que é mistério?”, lê-se no poema de um heterônimo de Fernando Pessoa. Os escândalos proibidos movem o moinho do populismo extremista, na exata medida em que a ideologia empreendedorista individual apaga a dimensão do público, no imaginário social. A utopia pode e deve ser antecipada com a desconstituição das ilusões atomizadas em templos neopentecostais ou apostas digitais em BETs. Só a participação e a cooperação formam os sujeitos transformadores da ordem estabelecida.
Norberto Bobbio, autoproclamado “liberal-socialista”, considera a mídia uma ameaça à democracia por pasteurizar as consciências e manietar o juízo autônomo dos indivíduos. A circunstância possui um agravante no abandono de áreas essenciais: água, luz, saneamento, transporte. A privatização converte direitos em mercadorias acessíveis apenas para quem paga. Sebastião Melo (MDB-RS) e Ricardo Nunes (MDB-SP) sequestram os equipamentos públicos para prestação de serviços; nem parques escapam da fúria privatista. Terceirizam as obrigações funcionais e também o que não lhes pertence, como fazem os gestores sem competência para administrar. Melhor devolvê-los aos seus donos, trocá-los pelo Orçamento Participativo (OP). Sem medo de ser feliz. Com gana de vencer.
O Brasil arde. Portugal também. Em ambos os casos existem mãos criminosas por detrás de muitos destes incêndios. Há sempre canalhas dispostos a lucrar com a desgraça de todos. Por outro lado, a situação de emergência climática em que vivemos facilita a propagação dos fogos.
— É a natureza! — afirmam alguns.
Mas não, não é a natureza. O aquecimento global resulta da ação humana. As mãos criminosas que ateiam incêndios são as mesmas que derrubam florestas, que exploram os recursos até a exaustão, que desregulam a natureza. São as estúpidas mãos da ganância.
Enquanto o Brasil arde, a Europa central, a Ásia e o norte de África enfrentam chuvas torrenciais. No Sudão do Sul quase um milhão de pessoas foram forçadas a abandonar as suas terras, talvez para sempre, pois algumas áreas ficarão submersas por longos anos.

Nenhum lugar do planeta está a salvo. Todos sabemos que a partir de agora cada inverno será mais invernal e cada verão mais infernal. Pior: os dias de inverno podem irromper a qualquer momento, inclusive no pino do verão, e vice-versa.
As diferentes sociedades humanas aprenderam a harmonizar-se com os ciclos da natureza. Nem poderia ser de outra forma. Todas as formas de vida se desenvolveram no rigoroso respeito por esses ciclos.
O caos climático foi criado por nós. Ou conseguimos revertê-lo, ou teremos de nos adaptar. Reverter o aquecimento global será muito difícil, mas podemos pelo menos procurar abrandá-lo enquanto nos adaptamos. O que não pudemos é ignorar o desastre, insistindo na tese de que não passa de um fenômeno natural.
Povos cujas línguas não produziram uma única palavra para exprimir a ideia de tufão ou furacão, agora enfrentam vários todos os anos. Terras que foram sempre férteis e bem irrigadas estão hoje inertes e ressequidas. Florestas que se formaram há centenas de milhares de anos acham-se ameaçadas.
O negacionismo climático não é uma simples e inofensiva divergência política e filosófica; uma teimosia de pessoas desinformadas; um disparate risível, como o terraplanismo. Não: vejo-o como um ato de sabotagem. O negacionista conspira contra o esforço coletivo para enfrentar o apocalipse ambiental.
Comprei e estou reformando um casarão do século XVIII, que une, de forma harmoniosa, a arquitetura tradicional swahili, árabe e portuguesa (terraços magníficos, sustentados por grossas traves de madeira, imensas cisternas, frescos pátios interiores). São assim os edifícios da Ilha de Moçambique, reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Mundial. O desafio consiste em respeitar a arquitetura tradicional, e os seus saberes, ao mesmo tempo que deixamos o casarão preparado para resistir a ventos ciclônicos e a chuvas diluvianas.
Contudo, de pouco me servirá preparar o casarão para enfrentar ciclones se o aquecimento global não for interrompido, levando a uma enorme subida do nível do mar. Nesse caso, toda a ilha acabará submersa.
É neste ponto que estamos. Ou nos unimos todos, ou naufragamos todos. Não pode haver tolerância para quem coloca os seus interesses efêmeros acima dos interesses da Humanidade.
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade, "A Rosa do Povo"
Na sequência da vitória de Trump e da influência de Elon Musk na campanha eleitoral e agora na Administração, o The Guardian tomou uma decisão drástica: o jornal britânico abandonou a plataforma X (o antigo Twitter, redenominado desde que Musk passou a ser proprietário da rede). De acordo com o jornal, o X transformou-se numa rede tóxica, promotora de conteúdos racistas e de teorias da conspiração, e o seu proprietário tem utilizado a plataforma para formatar o discurso político. O The Guardian reconhece que as redes sociais são importantes para os meios de comunicação, enquanto tornam possível alcançar novas audiências. No entanto, neste momento a direção editorial considera preferível que os leitores se dirijam diretamente ao site do jornal, onde o jornalismo está disponível para todos.
O The Guardian é o caso mais significativo de uma tendência que se tem feito sentir nos últimos tempos. Desde que Musk adquiriu o X, os utilizadores têm diminuído – nos EUA, a queda é da ordem dos 30% – e só no dia seguinte às eleições norte-americanas, 280 mil pessoas abandonaram a plataforma. Os resultados financeiros também estão longe de ser famosos: pese embora a obscuridade das contas da empresa, o valor do X terá caído 75% nos últimos dois anos. O que pouco importará a Musk, beneficiário de contratos de milhares de milhões com o Estado norte-americano e agora transformado num gigantesco conflito de interesses ambulantes.

Existem de fato boas razões para abandonar o X, hoje uma miragem do que foi o Twitter. Há cerca de 15 anos, quando abri a minha conta, a informação chegava mais cedo no Twitter, com opiniões livres e com ângulos mais provocadores e interessantes do que os dos media tradicionais. A combinação de agilidade com liberdade tornou a plataforma influente e contrastante com a tendência da comunicação social para arrastar os pés.
O tempo encarregou-se de revelar, desta feita no Twitter, quão insólita é a ideia de que a liberdade medra sem freios. Como a história demonstra, a liberdade consolidou-se com instituições de intermediação e formas de regulação. Por isso, a comunicação social tem critérios editoriais e obrigações deontológicas e as leis limitam o que pode ser dito e escrito. Hoje, o X é um espaço aberto aos trolls, à insídia e raramente se vislumbra qualquer debate produtivo. Mais, o algoritmo empurra-nos de forma imparável para conteúdos violentos, notícias falsas e revela um evidente enviesamento político, distante do espírito liberal fundador.
Foi este o contexto que levou o The Guardian a abandonar a plataforma. O que só acontece porque, com mais de um milhão de assinantes, provenientes de 180 países, o jornal britânico é um media global, com músculo financeiro para fazer esta escolha. Em parte, o The Guardian sai do X, porque pode gerir os custos de uma saída. Dificilmente um meio de comunicação social de base nacional poderia abdicar desta fonte de tráfego.
Mas quais seriam as consequências, se outras vozes acompanhassem o The Guardian no cancelamento do X? O resultado agregado seria mais um passo rumo ao acantonamento, ao fechamento face a outras visões do mundo e ao fim de um espaço comum de informação, mesmo que o debate seja hoje praticamente inexistente. O X pode ter-se transformado numa rede social bem menos recomendável, mas cancelar a plataforma corresponderia a uma entrega de território e a mais uma capitulação das vozes progressistas, que abdicariam de estarem presentes nas redes sociais com influência e impacto real.
Pedro Adão e Silva
Subia todos os dias as escadas de madeira até ao quarto andar. O velho edifício era como um barco. Do topo avistava-se o Tejo e em cada piso remavam tripulações nem sempre articuladas. Vivemos aí muitas tempestades. E, tendo passado antes por outras redações, foi aquela em que primeiro me senti parte de uma grande família disfuncional, com amores e ódios, muitas noitadas, zangas, gritos, gargalhadas e piadas que mais ninguém entendia. É difícil explicar a quem nunca viveu numa redação (porque se vive lá dentro) o que é esta coisa de ser jornalista. Visto de fora, parece insano. E é.
A um jornalista que se preze nunca ninguém precisa de mandar trabalhar. Nunca paramos. Alguma coisa nos agita as antenas e aí vamos nós, lançados, atrás da magia da notícia. É um vício. Às vezes não dá para pagar as contas. E quem está de fora pergunta muitas vezes porque é que insistimos nesta relação tóxica. Mas é difícil sair. Na verdade, sai-se da profissão sem nunca se deixar de ser jornalista. É uma coisa que nos fica colada à pele, um instinto, uma maneira de ver o mundo.
As paixões são incompreensíveis e ridículas. E, por isso, estas linhas não dizem nada a quem não está apaixonado por fazer jornalismo. Soam a uma excentricidade fora de moda, uma arrogância fora de tempo, uma irracionalidade fora de pé. E é mesmo assim. É isso tudo. E é por isso que talvez não devesse tornar pública esta declaração de amor. Os amores segredam-se. Não se gritam.

Talvez não devêssemos deixar que soubessem o quanto amamos esta profissão. “Não é uma profissão, é um ofício”, dizia-me ontem uma camarada (porque é camaradas que somos). E tem razão. Nem sei se não será mais do que um ofício, uma forma de ser. Porque ninguém pode deixar de ser o que é, porque um vício é uma coisa que nos comanda, porque a paixão nos faz pairar acima das coisas comezinhas, tira-nos o sono e a fome. E, afinal, porque é que nos deviam pagar para fazer uma coisa destas? Uma coisa que não conseguimos parar de fazer?
Naquele edifício nau, estive várias vezes à beira do naufrágio. Em todas as redações que se seguiram, cada vez mais encolhidas, cada vez mais vergadas, encontrei o mesmo amor e as mesmas tempestades. A nave vai, mas adornando.
Sim, não devia insistir nesta imagem quixotesca, que nos faz parecer antiquados, obsoletos, desligados do mundo, convencidos de termos sido ungidos por uma força maior. E, sobretudo, incapazes de autocrítica, quando na verdade nos consumimos tantas vezes na frustração e no desespero dos amores que não conseguem ser perfeitos e sucumbem à realidade.
Há nas fábricas operários que resistem quando a empresa ameaça falir. Há amor em quem faz sapatos. Há nas caixas de supermercado quem encontre camaradagem nos colegas de trabalho. Há paixão cega em quem ensina. Há esforço e dedicação em quem trabalha em hospitais, limpa casas, monta janelas e caixilharia. Não há nada de tão especial assim em quem faz jornalismo. O amor só é especial para quem o vive por dentro. Visto de fora, é tão banal.
Os tecnocratas assépticos que desenham folhas de Excel, os que vivem deslumbrados com a magia dos algoritmos e da inteligência artificial, os que não querem saber porque já sabem tudo, os que querem que os outros não saibam nada, os que vivem enrolados dentro seu umbigo, os que deixaram de saber questionar-se, os que seguem a manada, os que perderam a fé na Humanidade e no fundo anseiam ser substituídos por androides sem paixões… Esses não precisam de nós. Espera-os um amanhã feito de verdades alternativas e trevas, com tribos desavindas incapazes de comunicar entre si.
O futuro não tem de ser assim. Nada do que ainda não aconteceu está escrito. Assim tenhamos nós a força e a coragem para resistir, porque a paixão não nos falta.
Tragédias estão se abatendo sobre Israel uma após a outra. A próxima iminente ocorrerá em 20 de janeiro, quando Donald Trump tomar posse como presidente. Se o Secretário de Estado, o Secretário de Defesa, o Conselheiro de Segurança Nacional e o embaixador dos EUA em Israel mantiverem suas palavras, os próximos anos significarão desastre para Israel. O próximo período determinará seu destino como um estado de apartheid perene graças a seus amigos ostensivos, que não são mais do que mercadores de sangue, traficantes que aprofundarão o vício de Israel em ocupação, derramamento de sangue e poder.

Nas próximas semanas, tudo indica que Donald Trump irá dar um indulto aos invasores do Capitólio, enquanto centenas de processos vão ser arquivados. Tudo que existe contra ele por conta de uma suspeita de envolvimento em atos antidemocráticos será abafado. Enquanto isso, grupos extremistas voltam a circular, com um sentimento de revanche.
Vejo ainda como, com recursos públicos, parlamentares brasileiros viajam aos EUA para articular com a extrema direita americana uma aliança para pressionar as instituições brasileiras a partir de falsas narrativas e manipulações.
Mas a realidade é que o Brasil tem agora uma oportunidade única: mostrar ao mundo como se socorre uma democracia, depois de tentativas de golpe, mortes, mentirosos no poder que se passam por colunistas de jornais e uma operação de desinformação sem precedentes.
Mas, para isso, só existe um caminho: a rejeição a qualquer ideia de anistia.
A inelegibilidade de Jair Bolsonaro abriu aquela esperança típica dos sonhadores de que isso significará o fim da sua carreira política, usada como plataforma para interesses pessoais. Mas isso não basta, ainda que possa ser uma decisão importante para a saúde das instituições nacionais.
Eu, particularmente, vou cobrar três outros destinos para nossa história: verdade, memória e justiça.
Quero a verdade, para que a história recente do Brasil não se repita. Nem como tragédia e nem como farsa.
Verdade, a tradução da capacidade de a população saber o que de fato ocorreu enquanto um grupo usou o poder para se apoderar de instituições de estado. O que de fato foi considerado quando foram tomadas decisões que resultaram na morte de pessoas durante a pandemia. O que estava em jogo quando, debochando do sofrimento de milhões de pessoas, buscava-se apenas a reeleição.
Trata-se do direito à integridade de uma pessoa, a saber o que ocorreu diante da angústia instalada. Num cenário pós-guerra, as famílias querem a verdade sobre o destino dos corpos de seus filhos, quem disparou a bala, por qual ideal padeceram.
No Brasil, exigimos saber por qual motivo vidas foram criminosamente abreviadas.
Mas também qual era o objetivo quando a democracia foi estilhaçada no planalto central em 8 de janeiro de 2023. Nesta semana, os ecos daquelas bombas ainda soaram pela capital e num sinal de que o desafio não foi superado.
Quero também preservar a memória, para que a história recente do Brasil não se repita. Nem como tragédia e nem como farsa.
Para que as próximas gerações saibam exatamente o que ocorreu no Brasil entre 2019 e 2023, para que os livros de história tragam o isolamento que se estabeleceu para o país no mundo e para que cada cova cavada não seja a história de uma inevitabilidade.
Há sete décadas, a Alemanha destina milhões de euros para se desnazificar. Todos os dias. E parte desse trabalho é conduzido nas escolas e na conscientização do que representam as ideias que chegaram ao poder, nos anos 30.
A busca pela memória promove o debate, sem tabus. E, sem atalhos, esse é o caminho para promover uma reconciliação e fechar feridas.
Mas isso tampouco basta.
Precisamos, portanto, de justiça para que a história recente do Brasil não se repita. Nem como tragédia e nem como farsa.
Justiça, que Freud chamava de “o primeiro requisito da civilização”, não é erguer um picadeiro para que revanche seja feita. Justiça é, sobretudo, um reconhecimento da existência de vítimas e a proteção do futuro.
A democracia não morre apenas no escuro ou num noite chuvosa.
Ela também morre em plena luz do dia, em publicações obscuras no diário oficial, em invasões de terras, na circulação de um vírus, na propagação do ódio, no uso da mentira como estratégia de poder. E ela morre quando não lidamos com seus detratores e quando a impunidade vence.
Desta vez, a anistia não tem lugar.
Não estamos falando sobre o passado. Mas sobre a construção do futuro.
No dicionário da democracia, os conceitos de memória, verdade e justiça estão todos no mesmo capítulo. Aquele escrito com sangue e que tem como objetivo resgatar sociedades mergulhadas num ciclo de violência, recolocando-as num longo caminho de uma cultura da paz.
Sem Anistia.
Na ressaca das eleições norte-americanas de 2016, a rede social mais falada foi o Facebook. O mundo acordava para a influência subterrânea que as redes podiam ter nas democracias, especialmente pela forma como a rede de Mark Zuckerberg tinha servido de veículo para interferência russa, ajudando Donald Trump a vencer.
Oito anos depois, não poderíamos estar mais longe desse espanto inicial com que entramos na era da “pós-verdade”. Como escreve Carole Cadwallader, jornalista do The Guardian que desvendou os segredos da Cambridge Analytica, “2016 foi o começo do começo”. Depois disso, algumas redes, como o Facebook, diminuíram a propagação de conteúdos políticos (apagando os “media” pelo caminho), a direita contra-atacou as tentativas de regulação com o argumento da “liberdade de expressão” e o X ergueu-se como o megafone de que Trump precisava para a sua reeleição.
Hoje não é preciso procurar influências encobertas. Elas são completamente visíveis na forma como o proprietário desta rede, Elon Musk, a colocou ao serviço do candidato republicano de que ele é o primeiro arauto. Só entre os dias 5 e 7 de novembro, fez mais de 400 publicações saudando a sua vitória e dando indicações sobre o futuro. Doou para a campanha pelo menos 119 milhões de dólares e transformou a própria eleição numa loteria, oferecendo um milhão por dia aos eleitores que aderissem a alguns princípios do ideário de Trump.

Não é possível deixar de olhar com algum cinismo a ideia de que Trump vence ao dar voz aos desapossados pelas elites, quando o homem mais rico do mundo se ergue como um dos seus mais poderosos aliados e, quem sabe, um dos seus principais conselheiros.
Também não vale a pena assumir a posição de virgem ofendida quando sabemos que os ricos e poderosos sempre procuraram influenciar em seu proveito os caminhos da política. Agora, foi só mais descarado e com novas e mais influentes ferramentas. Um dia após a vitória de Trump, graças à subida das acções da Tesla, Musk adicionou quase 20 mil milhões de dólares à sua fortuna. Seja por contratos federais que esperará ganhar, seja graças à desregulação que quer ver em vários sectores onde tem interesses, Musk irá ter muitos mais milhões a arrecadar.
O que vale mesmo a pena sublinhar é que não será só Trump a ser imitado em todo o mundo. Com Musk, abriu-se uma nova era para a capacidade que os super-ricos têm para influenciar os destinos da política e da sociedade. As democracias que se cuidem.
David Pontes
O bolsonarismo mata! E no limite, é capaz de matar-se para alcançar seus fins. Ainda não se sabe se Francisco Wanderley Luiz, autor das explosões na noite do 13/11 em Brasília, apenas tentou matar o ministro Alexandre de Moraes como planejara, e uma vez impedido, suicidou-se. Saberemos no decorrer das investigações.
Mas isso não fará diferença. Importa que o que ele fez comprovou que a semente do ódio plantada pelo bolsonarismo, e regada pelo jardineiro-mor, segue viva graças, em parte, à lentidão da justiça. Ela agiu com rapidez para punir os bagrinhos do golpe fracassado do 8/1; quanto aos peixões, sequer foram denunciados até hoje.
Foi bonita a festa, e ilusória. Deu-se a democracia como salva, exaltando-se a solidez das instituições. Os chefes dos três Poderes desfilaram de mãos dadas para celebrar a vitória robusta do bem contra o mal. Golpe nunca mais! Os culpados serão condenados e presos, e a paz restabelecida. Então, bola pra frente.

Vê-se que por um breve período não mais se falou que a democracia é uma planta frágil que precisa ser regada o tempo inteiro; e que o golpismo não morreu, jamais morrerá em lugar algum como meio de se conquistar o poder, muito menos em terras em que se plantando tudo dá e viceja com exuberância.
Foram quatro anos de pregação quase diária a favor do uso velado ou acintoso da força como solução para os problemas do país. Nem os generais-presidentes do ciclo de 64 ousaram chegar a tanto; quando nada, preservaram certos ritos da democracia suspensa para que a ditadura não fosse chamada pelo seu próprio nome.
O ato protagonizado por Francisco Wanderlei Luiz de tentar incendiar o prédio do Supremo Tribunal Federal se encaixa perfeitamente na série de episódios violentos que precederam o 8/1. A saber:
* a depredação por bolsonaristas da sede da Polícia Federal em Brasília na noite da diplomação de Lula como presidente;
* na mesma noite, a queima de ônibus no centro de Brasília;
* e na véspera do Natal de 2022, a bomba afixada num caminhão de combustível para explodir uma ala do aeroporto de Brasília.
Ao meu sentir, o que disseram, ontem, os ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes foi a penúltima pá de cal jogada na cova onde será enterrada a pretensão de Bolsonaro de ser anistiado para poder se candidatar novamente em 2026.
A última pá de cal será jogada pela maioria dos ministros do tribunal quando julgar e condenar em definitivo Bolsonaro à pena máxima pelo crime de atentar contra o Estado Democrático de Direito. Não há crime mais grave. Que não se demore a virar a página. O país está cansado.
Por graça ou interesse, as igrejas se valem dos meios de comunicação para ganhar fiéis. Sabemos disso há coisa de cem anos. Foi nos Estados Unidos, pelas ondas do rádio, que a prática se tornou um expediente assíduo, ainda na primeira metade do século 20. Na década de 1960, os televangelizadores, à imagem e semelhança de Billy Graham, cresceram e se multiplicaram em escalas miraculosas. O cristianismo de raízes protestantes e feições evangélicas se apossou de um filão inteiro das redes de TV, num empuxo que se replicou mundo afora. Então, o linguajar plangente, a cenografia ambientada em templos vastos, o figurino em traje passeio completo e a coreografia expressionista fincaram seus púlpitos em plagas longínquas – algumas verdadeiramente remotas, como as brasileiras. Por aqui, quando baixa o horário nobre, pregadores oram e peroram em quase todos os canais abertos. Todas as religiões, ou virtualmente todas, requisitam os préstimos e os auxílios das tecnologias midiáticas em prol da fé. O divino é um campeão de audiência. O demônio também – depende do ponto de vista do freguês.

Mas disso tudo já sabemos, e não é de hoje. O que não sabemos e teimamos em não saber é que, no instante em que invocaram as energias gentis do entretenimento para arrebatar assembleias maiores, as igrejas selaram um pacto, se não com o satanás em pessoa, com entidades que desconheciam e que podiam devorá-las por dentro. Tanto podiam que devoraram.
O resultado está aí, diante dos nossos olhos incrédulos. Não foi o espetáculo televisivo que atendeu com diligência às demandas das múltiplas profissões de fé – estas é que serviram, sem se dar conta, aos desígnios do espetáculo. Quem tomou vulto ao longo das décadas não foi a caridade, não foi o amor ao próximo, não foi o recolhimento pio, não foi a fraternidade, não foi o retiro espiritual, não foi o voto de pobreza – foi, isto sim, o transe do showbiz, foi o êxtase das receitas publicitárias, foi a indústria do sagrado lucrativo, foi o mercado do pastoreio próspero e galante.
Não importa o tema da programação, importa somente a forma da diversão catártica – a religiosidade está na forma, não no conteúdo. Você pode achar que estamos em meio ao politeísmo pluralista de credos distintos que convivem entre si num ambiente ecumênico. Você pode acreditar que os megaeventos na cidade comprovam o que temos chamado de diversidade. Você pode até argumentar que a Marcha para Jesus lança mensagens opostas às da Parada Gay, e vice-versa. No entanto, por trás do aparente “multiculturalismo”, imperam as leis ocultas do espetáculo, que a tudo igualam, padronizam e uniformizam. Olhe e comprove. Na sua forma, a Parada Gay e a Marcha para Jesus são, mais do que equivalentes, idênticas: ambas se espelham como gêmeas siamesas e simétricas. As duas, supondo tirar proveito das turbinas do entretenimento, ofertam a essas turbinas, em sacrifício, o combustível precioso das almas fervorosas e dos corpos ferventes.
O entretenimento é o altar dos altares: não é uma ferramenta pronta para entregar as encomendas que lhe chegam das seitas – ele é, antes, a forma social da religião, de qualquer religião possível no nosso tempo. Toda espécie de religação – seja como vínculo identitário, seja como laço comunitário – só se realiza se passar pela mediação da malha comunicacional orientada para o mercado e apenas para o mercado. É como empresa privada que uma igreja se faz ativar pelos meios de comunicação.
As religiões não têm o poder de impor nenhuma liturgia às telas eletrônicas – estas é que plasmam sua liturgia vaga sobre o ser etéreo das religiões. Isso significa que, quando fala a língua do rádio, da TV ou da internet, uma agremiação mística se converte à cosmogonia barata do rádio, da televisão e da internet.
Fundamentalista, o entretenimento rege os seres humanos com a força de um monoteísmo sem deus. Mesmo quando não trata de santos ou de orixás, mesmo quando não fala sobre Jesus ou sobre Jeová, mesmo quando só se ocupa de mercadorias banais, de atrizes sorridentes, de cantoras estridentes e de jogadores de futebol, o entretenimento impera com seus cânones draconianos (a sujeição à imagem, por exemplo), seus hábitos regulares (as togas dos ministros do STF são envergadas como se fossem a capa do Batman), seus ritos rígidos (os celulares de luzes acesas ondulando nos estádios) e seus códigos aparentemente profanos, mas dogmáticos (vigaristas fazendo coraçãozinho com as duas mãos juntas).
O cardápio dos sentimentos e o contorno dos afetos foram consolidados pela indústria da diversão. Ela definiu o sentido do amor, da justiça, da beleza, da comiseração e do ódio. O sujeito que vê em Donald Trump um herói destemido projeta nele o que aprendeu nos filmes de Bruce Willis. Apenas isso.
A religião do entretenimento fez do público uma plateia fanática, para a qual a democracia é só mais uma atração. Não adianta pedir que a plateia pense sobre o que faz. Na doutrina que ela abraçou com devoção, o pensamento é o maior dos pecados mortais. Talvez seja o único.
Quando Viktor Orbán regressou ao poder na Hungria em maio de 2010, ninguém atribuiu enorme significado ao acontecimento. É comum, nomeadamente em regimes parlamentares, a reeleição de políticos que tenham sido derrotados numa eleição anterior.
Orbán fora antes primeiro-ministro por um mandato, entre 1998 e 2002, e poucos fora da Hungria conheciam o discurso amargo que ele fizera ao perder as eleições no fim desse mandato. "A nação não pode estar na oposição!", disse na ocasião, deixando claro que, para ele, apenas o seu partido representava a verdadeira Hungria e que qualquer outro partido que estivesse no poder em seu lugar seria composto por traidores e, no fundo, usurpadores.

Toda a gente achou até normal que Orbán tivesse conquistado um pouco menos de metade dos votos —tendo em conta que tinha havido um escândalo com o governo socialista anterior— e não se preocupou demasiado com o fato de esses votos terem dado direito a dois terços dos deputados, permitindo a Orbán mudar a Constituição e votar leis de valor reforçado a seu bel-prazer.
Os primeiros sinais de alarme tocaram no segundo semestre de 2010, quando Orbán fez aprovar três leis de controle da mídia que foram imediatamente consideradas das mais restritivas da Europa —incluindo a criação de uma nova autoridade capaz de impor multas que poderiam atirar para fora do mercado os títulos de imprensa cuja cobertura fosse considerada desequilibrada.
Essas leis foram seguidas por uma nova Constituição, que por sua vez foi seguida por inúmeras alterações legais e institucionais, todas num sentido de concentração de poder. Orbán tinha voltado com foco na vingança —e com um plano. E a sua tomada do poder foi célere.
Quando visitei Budapeste numa delegação do Parlamento Europeu, em setembro de 2012, todos os partidos de oposição nos alertaram para mudanças nas leis eleitorais que nem nos briefings mais atualizados apareciam. Pudera: a nova lei eleitoral tinha sido introduzida na sexta-feira anterior para ser votada (e aprovada, como foi) na semana seguinte.
A partir daí, seria praticamente impossível a Orbán perder eleições —ou mesmo não ganhá-las com uma quase permanente e muito conveniente maioria de dois terços. A partir de 2018, as eleições na Hungria deixaram de ser consideradas "livres e justas", e a partir de 2019, o país deixou de ser considerado uma "democracia plena" pela Freedom House.
O caso de Orbán é apenas um dos vários em que líderes autoritários se tornam ainda mais vingativos e repressivos quando regressam ao poder após uma derrota eleitoral. São outros casos o de Binyamin Netanyahu, que em Israel saiu do poder em 1999 e voltou em 2009; Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, que saiu de primeiro-ministro para presidente em 2014; e até Vladimir Putin, que deixou de ser presidente em 2008 para voltar em 2012.
Veremos o que acontece com Donald Trump, que tentou dar um golpe para não sair em 2021 e vai regressar agora.
Mas o padrão é claro: líderes autoritários quando perdem eleições e regressam depois ao poder são mais perigosos, vingativos e organizados. É um padrão pelo menos claro o bastante para que todos os outros países em risco de lhes acontecer o mesmo possam começar a tirar apontamentos.
Foi notável como, assim que soube da vitória de Donald Trump, na semana passada, Jair Bolsonaro se transformou. Deixou de ser o homem que os serviçais flagravam chorando pelos cantos, a cada passo das investigações que o deixam mais perto de ser preso, e voltou a ser o velho bazófio e arrogante de seu palanque presidencial. Seu primeiro ato foi convidar-se para a posse de Trump e se julgar no direito de ter de volta o passaporte para viajar. "O STF", leia-se Alexandre de Moraes, "não terá a ousadia de negar. Quem vai contrariar o homem mais poderoso do mundo?", disse.

É a ideia que Bolsonaro faz do Brasil: um país tão babão diante de uma potência quanto ele, que se acapacha aos pés de alguém que considera seu superior —como se representasse alguma coisa para esse alguém. Lembra uma sequência do clássico "Casablanca", filme de 1943, em que Peter Lorre, fazendo um personagem viscoso e insignificante, pergunta a um inatingível Humphrey Bogart: "Você me despreza, não é?". E Bogart, sem sequer olhar para ele: "Se eu pensasse em você, provavelmente desprezaria". Há alguns anos, Bolsonaro viveu esse diálogo com Trump na Flórida. Ao gemer para Trump "eu te amo!", ouviu de volta: "Prazer em te ver".
Tal subserviência de Bolsonaro é uma ameaça até à soberania nacional, como se provou na sua reunião em 2022 com os embaixadores estrangeiros, que convocou para denunciar supostas fraudes do nosso sistema eleitoral. O que queria com aquilo? Desmoralizar a democracia brasileira aos olhos de quem, para ele, poderia interferir nela.
Bolsonaro é um covarde. Correr para trás das calças de Trump não o tornará reelegível nem o livrará da Polícia Federal, nos processos às vésperas de conclusão por desvio de joias da Presidência e tentativa de golpe de Estado. As grades o esperam.
Em 2017, outro ex-presidente brasileiro foi processado. Compareceu a todos os interrogatórios, foi condenado e teve a prisão decretada. No dia em que foram buscá-lo, não resistiu à prisão nem tentou fugir. Ficou à espera dos agentes. Não precisou ser conduzido à força. Portou-se como um homem.
Trump transformou-se no grande profeta da nova religião. Alguns dos seus fiéis tratam-no mesmo como o filho de Deus. O presidente-eleito é muito mais do que um líder político carismático pois tornou-se ele mesmo num novo culto para milhões de americanos.
Trump cometeu a proeza de conseguir afastar a direita religiosa evangélica do evangelho, das suas comunidades de fé e da Bíblia, tudo princípios até agora inegociáveis neste segmento religioso e que seria impensável deixar cair.
Só que este abandono tem um preço. Ao afastar os evangélicos da moralidade bíblica e fazer com que o sigam religiosamente, Trump toma o lugar da figura central da fé cristã, Jesus de Nazaré. Ao abandonarem o evangelho e a ética cristã os evangélicos substituíram o amor ao próximo, ao estrangeiro, ao necessitado e ao enfermo pelo ressentimento e sentimentos negativos aos quais ele apela constantemente.

Mas também substituíram a alegria da comunhão cristã pela liturgia MAGA (Make America Great Again), pelo que, em vez se continuarem a ser cristãos, ou seja, centrados em Cristo, agora serão magãos, isto é, centrados na ilusão de recuperar milagrosamente a grandeza perdida dos EUA. Além do mais deixaram de ir à igreja por que o seu messias também nunca vai, o que lhe interessa pois assim pode manipulá-los à vontade, distantes que ficam do capital espiritual e comunitário daí decorrente.
Por outro lado, as igrejas evangélicas nos EUA têm vindo a reduzir a sua assistência devido ao secularismo e outros fenómenos sociais a ele associados, por que as novas gerações já não aceitam a politização das suas lideranças nem o conservadorismo de algumas das suas posições, mas também pelo movimento geral de maior individualismo presente na sociedade americana.
Uma apoiante envergava recentemente uma T-shirt num evento da campanha republicana em Wildwood, Nova Jersey, que dizia: “Deus, armas & Trump”. “Deus fez Trump” declara a sua rede social, a Truth Social. O político é assim elevado à condição de profeta e ungido de Deus que está a edificar a sua igreja. Daí resulta que os fiéis já não necessitam de se manter nas suas comunidades de fé e muito menos precisam dos seus pastores, até por que eles já tinham dado a sua bênção ao novo profeta de forma explícita e entusiástica, iludidos que foram pelas promessas de conquista do poder político e judicial, bastando para isso apenas apoiar o novo profeta.
Não só não ganharam nada com isso, como quando se quiserem arrepender será tarde demais. Mesmo em relação ao aborto, com a revogação de Roe, as coisas ainda terão piorado devido ao aumento no número de interrupções voluntárias de gravidez devido à presente insegurança.
Os líderes religiosos quiseram ganhar vantagem política mas não esperavam que Trump se apresentasse aos fiéis como o novo Cristo, o ungido de Deus. Uma coisa era ser uma espécie de Ciro moderno, o imperador pagão que facilitou a vida aos judeus exilados na Babilónia para que regressassem e reconstruíssem os muros de Jerusalém, as suas casas e o templo, coisa diferente seria ele próprio se auto-erigir em messias, ele que é uma espécie de anticristo santificado pela direita religiosa.
É que ao pisar, pelo seu discurso e exemplo de vida, a ética e os valores cristãos, Trump concede aos fiéis o direito de também eles passarem a desprezá-los. De facto, agora já não é mais necessário seguir Jesus, uma personagem que a lógica trumpiana classificaria imediatamente como falhado (loser). Em vez disso os seus discípulos são atraídos pela lógica ilusória e o discurso inconsequente de vencedor que ele protagoniza.
O Maganismo tornou-se assim a mais recente religião americana, em linha com a tradição dos Estados Unidos como alfobre de inúmeras propostas religiosas sob a capa do cristianismo.
Receia-se que se repita agora nos EUA um fenómeno semelhante ao da velha Europa do pós-guerra, quando a fé cristã sofreu duramente as consequências do apoio de vastos sectores religiosos aos extremismos emergentes no período entre guerras, incluindo o nazismo alemão e o fascismo italiano. Desde aí nunca mais a fé cristã voltou a erguer-se ao nível anterior, embora devido também a outros factores.
Como sempre mais rápida no gatilho, a extrema-direita saiu na frente da construção de uma narrativa para explicar as explosões de ontem à noite, em Brasília, na Praça dos Três Poderes, palco em 8 de janeiro de 2023 da tentativa frustrada de um golpe de Estado.
Francisco Wanderley Luiz, o autor das explosões, foi chamado de “maluco” por Bolsonaro. Logo apareceu um deputado, Jorge Gootten (Republicanos-SC), conterrâneo de Francisco, que disse que ele aparentava “sérios problemas mentais”.
Desde quando? Segundo Gootten, desde que se separou da mulher, há dois ou três meses, e veio morar em Brasília. Não há relatos de que pirou a mais tempo. Há relatos abundantes, escritos por ele mesmo, sobre suas ações como um radical de direita.

Daí foi um salto para que Francisco nas redes sociais fosse apontado como o “Adélio Bispo da direita”. Adélio esfaqueou Bolsonaro em Juiz de Fora. Em dois ou três inquéritos, a Polícia Federal concluiu que Adélio era doente mental.
Até hoje, para Bolsonaro, Adélio era um militante de esquerda que o esfaqueou por encomenda e não sozinho. Francisco seguramente teria agido por conta própria, em decorrência da doença que sofria. É conveniente para a extrema-direita desvincular-se de Francisco.
De Roma, onde se encontra, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), disse que Francisco, “pelas informações da polícia, trata-se de um suicida”. A vice de Ibaneis, Celina Leão (PP), referiu-se a Francisco como “um lobo solitário”.
Àquela altura, o corpo de Francisco sequer fora removido do local onde ele morreu, em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal. Cuidadosa, a polícia confirmava que o carro repleto de explosivos era de Francisco, mas que o corpo poderia não ser. Era.
“Um homem morreu ao se explodir”, estampou um jornal de larga circulação com base no que declarou Ibaneis. Francisco pode não ter se suicidado, e sim ter morrido pela explosão de uma bomba que arremessou contra o prédio do Supremo.
Ou pode ter morrido por bala disparada por seguranças do prédio que ao avistarem correram na sua direção. Investigações em curso é que dirão de fato o que aconteceu. O certo é que no mínimo a anistia para os golpistas do 8 de janeiro ficou mais distante.
E isso é muito ruim para Bolsonaro que esperava beneficiar-se dela. O ministro Alexandre de Moraes, a quem caberá o comando das investigações sobre o 13 de novembro, a esta hora deve estar lambendo os beiços. Não só ele.