domingo, 8 de novembro de 2020

O que Trump prometeu e não entregou

Uma das lições a serem aprendidas a partir do resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos é a de que são inviáveis propostas políticas para solução da atual crise baseadas no populismo nacionalista.

O presidente Donald Trump foi eleito em 2016 porque prometeu devolver o emprego e a renda para o cidadão da classe média e a prosperidade para os negócios das empresas dos Estados Unidos. Esse programa protecionista, desenhado em pranchetas carregadas de xenofobia, foi empacotado sob o rótulo do make America great again.

A rejeição a Trump que se viu nos mapas eleitorais do chamado Cinturão da Ferrugem (do qual fazem parte os Estados de Michigan, Pensilvânia e Wisconsin) demonstra o desapontamento do eleitor médio com a administração Trump, que não entregou o que prometeu.

O presidente preferiu culpar a China e os imigrantes cucarachos pelo sumiço dos empregos e pela redução de salários. E apontou a União Europeia como grande responsável pela destruição dos negócios ligados à energia convencional (indústrias do petróleo, do gás de xisto e automobilística). Mas os lances da guerra comercial, os ataques aos fluxos migratórios e o pouco-caso com as aflições das minorias nem recompuseram a renda do cidadão médio e a renda familiar desidratada pelo juro negativo, nem devolveram os postos de trabalho.



Os analistas políticos vêm avaliando quanto o desleixo para com a pandemia e o menosprezo darwiniano diante do sofrimento alheio não se tornaram fator de derrota do presidente Trump.

Independentemente disso, por trás do colapso eleitoral também há uma falha de diagnóstico.O presidente Trump não entendeu que a globalização, a incorporação de mais de 600 milhões ao mercado de trabalho e de consumo na Ásia (e não só na China), as migrações, a rápida disseminação da tecnologia de informação (altamente poupadora de mão de obra) e a incorporação da energia limpa na matriz energética global vêm produzindo profunda transformação na economia e na natureza do trabalho. E não soube como lidar com essa novidade.

De mais a mais, o eleitor copiou do próprio Trump a resposta que este deu ao amador fracassado: “Você está demitido!”. Foi o que Trump repetiu, com notória satisfação, por 10 anos, no programa de reality show conduzido por ele levado ao ar pela rede de TV NBC, chamado O Aprendiz. Os aprendizes eram sistematicamente despachados por ele com um sonoro You’re fired. Ironicamente, essa experiência não serviu para prepará-lo para a derrota eleitoral, para a situação em que ele próprio se tornaria um “loser”, um dos qualificativos que o americano médio mais teme.

O desfecho da eleição nos Estados Unidos parece indicar algo mais do que a simples rejeição ao populismo nacionalista. Parece indicar que não há saída para a crise econômica e social dos nossos dias senão a cooperação, o diálogo, a negociação e a busca de saídas multilaterais.

Isso sugere que a administração Biden deverá não só abandonar as decisões unilaterais que marcaram o governo Trump, mas também deverá retomar os contatos com a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e acatar as disposições do Acordo de Paris rejeitadas pelo governo Trump.

Falta saber se, no país agora profundamente rachado e altamente polarizado, o Congresso e, especialmente, o Senado conseguirão dar apoio aos programas de recuperação da atividade econômica, que poderão lembrar os investimentos promovidos pelo governo do presidente Roosevelt nos anos 1930, o New Deal, com o objetivo de buscar a retomada e a saída do labirinto. Parte importante desse programa tende a ser os incentivos para substituição da energia de fonte fóssil pela energia renovável.

E o Brasil?

Se for confirmada essa guinada na condução da política econômica dos Estados Unidos, o governo Bolsonaro não poderá conduzir os interesses do Brasil com o espírito que prevaleceu até agora: o de aproveitar a confusão e a reclusão social da pandemia “para deixar passar a boiada”.

Mas essa reacomodação de um governo também contaminado pelo populismo, se houver, ainda está envolta em enormes incertezas. Essas incertezas se misturam a outras duas: à maneira como o País sairá da pandemia e à maneira como tratará o rombo fiscal, o flagelo que ameaça engolir a política econômica e desorganizar a vida social.

Alerta sobre o 'vermelho'


E vocês estão vendo as questões no mundo, como está a política no mundo. Cada um tem sua opinião, vocês têm que discutir. Tem que ver a América do Sul, vários países estão sendo pintados novamente de vermelho
Jair Bolsonaro

Três lições de Biden para a oposição a Bolsonaro

A certa altura, pareceu que Donald Trump ficaria no poder para sempre. O bilionário transformou a presidência dos Estados Unidos num palco de autopromoção permanente. Com sua oratória agressiva, ele eletrizou as redes sociais, dominou o noticiário e impôs a mentira como arma política. Inspirou uma onda reacionária que varreu democracias em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil.

Deslumbrado, o republicano chegou a anunciar que não se limitaria a buscar o segundo mandato. Já planejava o terceiro, o que exigiria rasgar a Constituição americana. Ontem o projeto autocrático foi interrompido pela vitória de Joe Biden. Trump ainda deve espernear por algum tempo, mas terá que deixar a Casa Branca.

A derrota do ídolo de Jair Bolsonaro pode ensinar algumas lições para o Brasil. A primeira: o populismo de direita não é imbatível. O discurso do ódio atrai votos, mas não resolve problemas concretos dos eleitores. Com o tempo, a realidade se impõe ao obscurantismo. Líderes que insistiram em negar a ciência, como Trump, foram atropelados pela pandemia.



Segunda lição: no confronto com um extremista, é preciso apostar na discussão de valores. Biden tem pouco carisma, mas cresceu ao se apresentar como antítese do rival. Conseguiu transformar a eleição num plebiscito sobre a democracia e a decência que se espera de um governante.

No último debate, o democrata se diferenciou ao mostrar solidariedade com as vítimas da Covid e do racismo. “Vocês sabem quem eu sou, e vocês sabem quem ele é”, disse, olhando para a câmera. “O caráter do país está em jogo. Nosso caráter está em jogo”, reforçou. Essa estratégia depende da realização de debates, que Bolsonaro boicotou em 2018.

A terceira lição está ligada à escolha do candidato e à união das forças democráticas. Biden já havia fracassado em duas tentativas de disputar a Presidência. No início da terceira, chegou a ser visto como carta fora do baralho. Moderado e conciliador, ele convenceu os democratas de que tinha o melhor perfil para derrotar Trump. Progressistas como Bernie Sanders e Elizabeth Warren deixaram a disputa para apoiá-lo. A vice Kamala Harris acrescentou diversidade e energia à chapa.

O sistema político brasileiro é muito diferente do americano, mas quem tem planos para o Brasil de 2022 precisará refletir sobre os EUA de 2020. “A vitória de Biden é uma vitória de frente ampla”, afirma o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). Ele sustenta que a esquerda só derrotará Bolsonaro se conseguir atrair forças de centro. “Quem não fizer isso não ganhará a eleição”, sentencia.

Na centro-direita, o triunfo democrata empolgou o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). “Biden é defensor da democracia e dos direitos humanos, e o Brasil tem falhado nos dois campos. A derrota de Trump mostra que os grandes absurdos têm um fim”, diz o tucano, que apoiou Bolsonaro em 2018 e hoje é inimigo do capitão.

O ex-presidenciável Fernando Haddad (PT) considera que a discussão de estratégia eleitoral ainda é prematura. Mesmo assim, ele festejou um efeito da derrota de Trump sobre o país. “Agora o Bolsonaro é um cachorro que caiu do caminhão de mudança”, ironizou.

Para a América voltar a ser grande

"Parece ter sido reservado ao povo deste país, por sua conduta e exemplo, o veredicto da importante questão: se as sociedades humanas são de fato capazes de estabelecer um bom governo a partir da razão e da escolha, ou se elas estão para sempre destinadas a depender do acaso e da força”.

As palavras de Alexander Hamilton, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, em seu artigo ‘O FEDERALISTA NÚMERO UM” (assim mesmo, em caixa alta), de 30 de outubro de 1787, se encaixam como uma luva para definir o que estava em jogo na disputa entre Joe Biden e Donald Trump.

Em última instância, os americanos foram às urnas para decidir se os Estados Unidos retornariam a ser um país fundado em ideias sacramentadas em sua Constituição – chamadas de “estas verdades evidentes” por Thomas Jefferson e Benjamin Franklin - ou se aprofundariam a divisão e o ódio entre os americanos.


A vitória de Joe Biden na eleição mais concorrida da história do país, indica que os Estados Unidos podem se reconciliar consigo mesmo. O democrata demonstra ter clara noção de qual será sua principal missão: unir os americanos, com base nos valores que fizeram dos Estados Unidos a democracia mais resiliente do mundo e por isso mesmo admirada mundialmente.

Sua liderança veio não apenas da sua pujança econômica, mas também do poder de seus ideais. Entre eles, o da liberdade e o que vem da afirmação da Constituição fundadora de que todos os homens nascem livres e têm direitos iguais.

Isso não faz da América uma sociedade perfeita e sem desigualdades. Mas a superação de suas mazelas e o papel positivo que pode desempenhar no cenário internacional dependem da sua coerência com valores que, de resto, são de toda a humanidade.

Seria ilusório acreditar que, com a vitória de Biden, o trumpismo – essa corrente anti-histórica – desapareceu. Tanto está vivo que Donald Trump subverte a democracia americana ao tentar fraudar a verdade das urnas por meio de um tapetão amplo, geral e irrestrito, onde perdeu para Biden. Em sua insanidade, Trump passa recibo de sua derrota e revela profundo desrespeito ao pronunciamento soberano de 160 milhões de eleitores americanos.

Difícil de crer que, sem qualquer evidência de fraude, a Justiça americana avalize uma chicana jurídica que faria dos Estados Unidos uma república bananeira. Isto jogaria o país em uma crise institucional sem precedentes.

A última eleição a não ser aceita foi a de Abraham Lincoln. A contestação levou à Guerra da Secessão, com muito derramamento de sangue e uma ferida que levou muito tempo para cicatrizar.

O trumpismo não está morto, mas recebeu um duro golpe. A derrota no chamado “Cinturão da Ferrugem”, onde venceu em 2016, é o maior atestado de que sua demagogia não resolveu os problemas dos Estados Unidos. Em vez de fazer a América Grande Novamente apequenou-a tanto no concerto das nações como internamente. Em seu governo, a vocação cosmopolita da América deu lugar à xenofobia e ao isolacionismo, abdicando, assim, da vocação americana de liderar o mundo em sintonia com os valores democráticos. Hoje a supremacia americana está seriamente ameaçada pela China.

Há quatro anos a vaga nacional-populista chegava ao auge com sua vitória na maior economia do mundo. A derrota de Donald Trump em 2020 tende a ser o marco do refluxo da onda que varreu o mundo na segunda década do século. Soma-se à derrota de Matteo Salvini na Itália, da Alternativa para a Alemanha no país de Ângela Merkel, e no isolamento da extrema-direita na Espanha.

Os “engenheiros do caos”, para usar a definição do livro de Giuliano da Empoli, estão sendo derrotados porque negaram a ciência na maior pandemia do mundo, em cem anos. No caso de Trump, seu negacionismo teve peso enorme para sua derrota, como evidenciam os resultados eleitorais nos grandes centros urbanos, exatamente onde a Covid 19 mais se espraiou e mais matou. A virada de Biden em estados decisivos se deu quando os votos por correio e antecipados foram abertos. Esse era o eleitorado que mais levou a sério a pandemia e mais percebeu o desastre do desempenho de Trump diante de uma doença que tirou até agora a vida de 230 mil americanos.

Sai derrotada também a política quântica, pautada na exacerbação da polarização, na disseminação de fake news, em teorias conspiratórias e na disseminação do ódio. Ela não desaparece, mas perde fôlego. Há uma chance para que a política deixe de ser a continuidade da guerra por outros meios, ou a guerra sem derramamento de sangue, para voltar a ser forma civilizada de as sociedades dirimirem seus conflitos.

Voltando a Alexander Hamilton: Joe Biden é a possibilidade dos Estados Unidos terem um bom governo pautado pela razão. Por aí a América voltará a ser grande. E admirada por todos os que amam a liberdade.
Hubert Alquéres

Pensamento do Dia

 


A possível derrota do trumpismo enfraquece ou fortalece o bolsonarismo?

Poucas vezes o Brasil acompanhou uma eleição norte-americana com tanta atenção e apreensão como desta vez. A pergunta que se impõe é como o trumpismo continua vivo em metade dos norte-americanos e que pelo visto levará tempo para morrer. Bolsonaro encolherá com a possível derrota de Trump ou ficará ainda mais encorajado com a tentativa de tomar hoje sua bandeira no continente? 

Assim como o histriônico presidente norte-americano não aceitou o resultado das urnas, não é impossível que Bolsonaro e seus filhos agora se sintam incitados a agarrar o bastão do trumpismo. É possível que Bolsonaro também continue alimentando seu pânico e sua obsessão em ver comunistas até debaixo da cama e que continue a combatê-los como moinhos de vento. Ainda será preciso explicar como Trump – com todas as suas estridências, com sua política incorreta, seu racismo comprovado e sua política de perseguição das minorias – ainda consegue manter tanta força eleitoral. A democracia no mundo está entrando em crise para voltar aos tempos do obscurantismo, das guerras e do olho por olho? É uma análise que está por fazer. 

A antropologia e a psicologia também deverão explicá-lo, pois está estreitamente ligado aos instintos mais primitivos, inconscientes e destrutivos do ser humano. O trumpismo, que não morreu, é um fenômeno cada vez mais difundido e está contagiando até países europeus como Hungria, Polônia e Itália, juntamente com o ressurgimento dos movimentos de extrema direita fascistas e até mesmo nazistas. 


Não podemos nos iludir que, com a derrota de Trump e com a volta dos democratas, desaparecerão o ressurgimento e o fortalecimento dos grupos extremistas cada vez mais vivos e ativos. É como um novo vírus que poderia se tornar uma pandemia sem a vacina de uma política democrática renovada e capaz de entusiasmar as pessoas, capaz de saber dialogar com todos ao invés de semear o ódio e as cizânias que o passado nos ensina que costumam acabar em guerra civil. E isso porque esses movimentos extremistas, autoritários e antidemocráticos não nascem do nada, mas de uma insatisfação geral com a política vista hoje mais como uma acumulação de privilegiados que se apropriam da riqueza universal. 

O  mundo estaria se cansando da democracia? O ser humano é instintivamente violento, egoísta, predatório, racista e acumulador. É um lobo para seu semelhante sem as barreiras impostas pela cultura, pela ciência e pela política de coexistência que contrabalançam esses instintos enraizados desde os tempos das cavernas. São sentimentos destrutivos, de medo, que nunca morrem e que veem o próximo como um possível inimigo. Basta despertá-los para que surjam com sua força primitiva. E é isso que os movimentos radicais estão fazendo com os fenômenos do trumpismo e do bolsonarismo.

 E quando falo em bolsonarismo não me refiro aos 57 milhões de brasileiros que deram seu voto nas urnas ao capitão aposentado, muitos deles hoje decepcionados e até envergonhados. Refiro-me ao chamado bolsonarismo raiz, que apela aos sentimentos mais primitivos da convivência pacífica e que se alimenta do pior que existe no homem e goza revirando as latrinas que sujam a convivência civil e pacífica. Todos esses movimentos destrutivos pertencem à ordem dos impulsos que para podermos conviver felizmente reprimimos. 

A guerra se baseia no medo do outro e na ambição de possuir, enquanto a paz se constrói com a cultura e com uma educação que ensina desde a infância a aceitação dos diferentes, o respeito pelo outro e pela natureza. Não é por acaso que o bolsonarismo, por exemplo, revela desprezo pela ciência, pela cultura, pelo ensino livre de imposições autoritárias e defende a política do enfrentamento, enquanto fomenta o politicamente incorreto, zomba da defesa da terra, arrasta para o negacionismo e se opõe aos avanços civilizatórios que contribuem para a convivência pacífica. 

Por tudo isto, esperar que a possível queda de Trump faça desmoronar automaticamente o bolsonarismo é uma vã quimera. Talvez o exacerbe ainda mais como sempre aconteceu com os ditadores que, quanto mais acossados estão, mais aumentam a dose de sua loucura, de suas paranoias e de suas frustrações reprimidas. Por isso as forças democráticas e progressistas brasileiras devem ser capazes de, nas urnas em 2022, colocar um freio ao perigo cada vez mais real de ver destruídos os valores da democracia que impedem entrar no túnel da barbárie. Desse bolsonarismo que acaba envenenando as relações sociais e humanas, empobrecendo o país, afastando-o do diálogo com os outros povos e fechando-se cada vez mais em si mesmo. 

O Brasil ainda tem tempo. Amanhã talvez seja tarde demais.

Vacina obrigatória

O obscurantismo bolsonariano faz-nos retroceder no tempo mais de um século. Em 1900 a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, era conhecida como empesteada, vítima de febre amarela, peste bubônica e cólera. Oswaldo Cruz, diretor de saúde pública no governo Rodrigues Alves, enfrentou as duas primeiras a partir de 1902 e em 1904 deu início ao combate à varíola, cuja imunização poderia dar-se pela aplicação de vacina já conhecida havia décadas.

Depois de muita discussão, foi aprovada no Congresso Nacional a Lei n.º 1.261, de outubro de 1904, que determinava a vacinação compulsória. Houve, então, já naquele tempo, tanto fake news, difundindo ser perniciosa a vacina, como exploração política de positivistas, seguidores de Augusto Comte, e florianistas, adeptos de Floriano Peixoto, que tomaram a questão da vacina como pretexto para tentar derrubar o presidente.

A contestação à obrigatoriedade, liderada por parlamentares, antes oficiais do Exército, ganhou cores gravíssimas, pois entre 10 e 20 de novembro as ruas foram ocupadas por revoltosos, com um saldo terrível de 30 mortos e mais de 900 presos, dos quais 450, por antecedentes criminais, foram enviados para o Acre. Muitos feridos.



Até Rui Barbosa se pôs contra a vacina, ponderando que, “assim como o Direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme”. A obrigatoriedade foi revogada. Em 1908 muitos morreram de cólera e a população acorreu, então, para tomar a vacina. Rui alterou sua posição e em 1917 homenageou Oswaldo Cruz, reconhecendo dever-se a ele a vitória sobre o flagelo e a diferença entre o “Brasil pesteado, que encontrou, e o Brasil desinfectado, que nos veio a legar”.

Em plena pandemia, antes do meio do mandato, Jair só pensa na reeleição. E por interesse político, como em 1904, lança suspeitas sobre a vacina e nega sua obrigatoriedade para contentar seguidores e atacar governadores, contrariando os valores básicos da Constituição e os termos da legislação específica por ele mesmo sancionada. E daí?

No campo legal, a Lei n.º 6.259/75 e o Decreto n.º 78.231/76 impõem a obrigatoriedade da vacina a todos os adultos, aos quais incumbe submeter à vacinação os menores sob sua guarda.

A prevenção da contaminação da covid-19 é, especificamente, disciplinada pela Lei n.º 13.979/20. No artigo 3.º da lei, dispõe-se: “Para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional de que trata esta Lei, as autoridades poderão adotar, no âmbito de suas competências, entre outras, as seguintes medidas: (...) III - determinação compulsória de (...) d) vacinação”. Essa conduta pode ser adotada, segundo o parágrafo 7.º desse artigo 3.º, pelos gestores locais de saúde, ou seja, pelos governadores, desde que cientificamente recomendada a providência.

Na Constituição da República consagra-se o valor da solidariedade no artigo 3.º, segundo o qual é objetivo fundamental da República construir uma sociedade livre, justa e solidária. Ser vacinado é ser solidário, pois não apenas se protege a si mesmo, mas todos da comunidade, visando a alcançar a imunização. A solidariedade, na expressão de Dworkin, vem a ser “considerar a vida dos outros como parte de suas próprias vidas” (Uma Questão de Direito, pág. 297), significando “a pessoa se abrir à outra, pensá-la, sofrer com”, no dizer de Arias Bustamante (Alternativa Ideológica: Comunitarismo, pág. 40), unidos todos por grande cordão umbilical.

Pela via da solidariedade social pode-se cimentar, orientar e construir concretamente nossa unidade como povo, surgindo em face desse objetivo da República o dever de solidariedade que a todos vincula (André Corrêa, Solidariedade e Responsabilidade, pág. 313).

Como transmissores, somos todos iguais perante o vírus. Ninguém, por nenhuma razão, pode colocar-se acima dos demais e negar-se a colaborar com a comunidade na precaução contra o malefício da infecção. Rejeitar a vacina, autorizada pela Anvisa, é atuar com desprezo pelo outro, em superioridade antissolidária.

Como elucida o Supremo Tribunal Federal (Oscar Vilhena, Direitos Fundamentais, pág. 388, reproduzindo votos de Celso de Mello), “a proteção à saúde representa um fator que associado a um imperativo de solidariedade social impõe-se ao Poder Público”, em qualquer plano da organização federativa, tomando medidas preventivas e curativas.

Em outro voto, Celso de Mello observa que a negação de qualquer tipo de obrigação a ser cumprida com base nos direitos sociais significa a renúncia a “reconhecê-los como verdadeiros direitos” (pág. 399), em arrepio ao princípio da solidariedade.

Assim, campanha contra futura vacinação, por motivação política, significa não reconhecer a precaução eficaz contra o vírus como um direito da comunidade, a ser explicado e exigido de todos pelo chefe da Nação. Tal conduta infringe o artigo 7.º da Lei n.º 1.079/50, ou seja, pode ser crime de responsabilidade consistente em violar o direito social à saúde, pois incita a impedir a imunização, objetivo solidário de todo o povo. Que flagelo!

Rastro de morte


Donald Trump deixa para trás um rastro de destruição. Sua forma de governar através da mentira causou danos duradouros à confiança nos processos e instituições democráticos

Metamorfose pela metade

Na noite eleitoral de 2016, muitos norte-americanos foram dormir sonhando com uma mulher na presidência. Despertaram de um sonho intranquilo, com o presidente metamorfoseado num Trump gigantesco. Quem achava que este 3 de novembro daria fim ao pesadelo, entrou em insônia prolongada.

E, em vez de sediar a ansiada marcha dos civilizados sobre os bárbaros, a quarta foi de cinzas, entre festa e ressaca. Na quinta, Biden, tudo indica, venceu; mudará a configuração política do planeta. Não é pouco. Mas foi por pouco. Governará no meio a meio, Câmara e Senado partidos, Suprema Corte adversa.

As urnas atestaram o tamanho do apoio à pessoa, aos valores e às atitudes do presidente. Depois de quatro anos sob sua égide, o inaceitável para a metade azul soou bom o bastante para a vermelha. Trump perdeu a rodada, mas o conservadorismo ostentou seu enraizamento.

A derrota é tranco para adeptos do "make my country great again" mundo afora, mas não é antídoto que reponha o Ocidente no jazz de Clinton-Blair. Embora Trump fosse sua face mais vistosa, uma rede internacional de extrema direita se desenvolve desde a valsa Reagan-Thatcher.



A internet está infestada com suas publicações, campanhas, movimentos. Há conspiratórios e patéticos, mas não faltam os astutos. Santiago Abascal é desta espécie. Embora trumpistas de carteirinha em momento barata tonta, os Bolsonaros não ficarão no desamparo. Como são bons em diversificar investimentos, já tinham incluído o líder do Vox em sua carteira.

Quem cuida da bolsa internacional da família é o 03. Depois de se enlaçar com os reacionários norte-americanos e organizar convenção internacional conservadora, aproximou-se da extrema direita espanhola. Em junho, Eduardo entrevistou Abascal no YouTube. Gentilezas de lado a lado, o espanhol se excedeu: elogiou o domínio do castelhano pelo brasileiro.

Em cinco anos, o Vox virou o terceiro partido no país. Segundo Eduardo, Abascal segue "el mismo camino exacto" de seu pai. De fato, embora mais elegante e informado que a família presidencial brasileira, compartilha a autodefinição como "patriota" e a imodéstia na avaliação do próprio peso.

Em entrevista, no fecho das eleições que fizeram do partido andaluz força incontornável, foi categórico: o Vox mudou o debate na Espanha. Como Trump e Bolsonaro, quebrou a cerca do politicamente correto: "O marxismo cultural tinha decretado quais eram os debates proibidos, diziam do que se podia e do que não se podia falar". Agora a agenda pública se disputa.

Abascal projeta a sua globalmente. Criou a Fundación Disenso e, mês passado, o "Foro de Madrid", para "frear o avanço comunista", o aborto e a "ideologia de gênero". Arregimentou para sua "Carta de Madrid" 17 líderes de direita de 15 países, entre gente de governos, partidos, think tanks, proselitistas, jornalistas e empresários, muitos na casa dos 40 e 50 anos. Trata-se de nova e aguerrida geração de conservadores.

A carta denuncia o "sequestro" de parte da "iberoamérica" por "regimes totalitários de inspiração comunista, apoiados pelo narcotráfico", que, liderados por Cuba, Foro de São Paulo e Grupo de Puebla, imporiam seu "projeto ideológico e criminoso" de "desestabilizar as democracias liberais."

É extremismo distinto dos parentes dos anos 1940. Seu lema é "Iberoesfera e liberdade". Não joga contra as instituições liberais, joga dentro delas. Em vez de destruí-la na base da quartelada, interpreta capciosamente regras e brechas da democracia. Luta por moldá-la à sua maneira, disputa seu sentido.

Os extremistas são muitos e estão em muitos países. Neste mundo kafkaniano, Trump não é um Gregor Samsa solitário, nem sairá de cena com a mesma discrição.

Como escolher um candidato

Houve tempo em que era fácil escolher candidato, pelo partido ou pensamento – esquerda ou direita. As transformações no mundo ocorreram mais depressa do que as adaptações dos partidos e dos blocos, deixando os eleitores sem referências. A globalização fez impossível dividir os políticos entre nacionalistas plenos ou totalmente globalistas. O fracasso do Leste Europeu fez com que a esquerda deixasse de se identificar com a estatização, que passou a significar fábrica de privilégios, desperdícios, ineficiência e corrupção, mas as sucessivas crises provocadas pelo liberalismo fizeram a direita perceber a importância do Estado na economia e mesmo na sociedade, adotando e até ampliando programas de transferência de renda que eram bandeiras progressistas. A impressão é que os partidos e os políticos ficaram todos parecidos.

Mesmo assim, eles são diferentes e não é difícil escolher em quem votar, se, sem apego às siglas que pouco significam, leva-se em conta três fatores, nesta ordem de importância.



Primeiro, o passado do político: corrupto ou íntegro. No mundo de hoje, estas são características fundamentais que diferenciam radicalmente os candidatos.

Segundo, se nas suas histórias pessoais e propostas eles são responsáveis ou irresponsáveis no uso dos recursos públicos, os recursos fiscais que o povo paga a cada ano ao Tesouro Nacional, e os recursos ecológicos que recebemos da natureza. A moral do comportamento - corrupto ou honesto – é fundamental, mas a ética da responsabilidade – populista ou responsável – é igualmente importante, porque os irresponsáveis provocam desastres ainda maiores e muito mais difíceis de corrigir. A inflação, consequência da irresponsabilidade, rouba cada pessoa, especialmente aos pobres que não dispõem de instrumentos de proteção.

Terceiro, entre os honestos e responsáveis, há a divisão entre os progressistas e os conservadores. Embora cada um destes dois blocos também se dividam, é possível escolher o candidato conforme suas posições em relação ao respeito às instituições democráticas, aos costumes, à garantia de liberdade, à defesa de direitos humanos, ao papel eficiente e social do Estado, às reformas estruturais, à defesa do meio ambiente, às prioridades no uso dos recursos públicos.

Ao eleitor, depois de identificar os honestos responsáveis, cabe escolher quais prometem para o futuro o que mais se aproxima dos seus sonhos para o país e para o mundo: conservar o que temos ou progredir a um país eficiente, justo e sustentável.
Cristovam Buarque

sábado, 7 de novembro de 2020

Imagem do Dia

 

Marian Kamensky (Áustria)

Um chamado às pessoas civilizadas

O presidente norte-americano, Donald Trump, não decepcionou seus mais fanáticos seguidores e fez o que prometeu há meses: contestou, nos mais rasteiros termos, a contagem de votos que indicavam a eleição de seu rival, o democrata Joe Biden, à presidência dos Estados Unidos. Em pronunciamento na Casa Branca, Trump declarou, sem apresentar qualquer dado concreto, que, se apenas os votos válidos fossem contados, ele seria declarado vencedor. Ato contínuo, exigiu a interrupção da apuração em Estados onde havia avanço da votação em Joe Biden e acusou os opositores de tentarem “roubar a eleição”.

Se Donald Trump seguiu um roteiro que foi exaustivamente anunciado, algo absolutamente inusitado aconteceu: três das principais emissoras de TV dos Estados Unidos, que mostravam ao vivo o pronunciamento de Trump, interromperam a transmissão e informaram seu público que a fala do presidente estava repleta de falsidades e imprecisões.

As redes sociais, por sua vez, haviam tomado providência semelhante ao longo do dia, classificando como “contestáveis” ou “incorretas” as mensagens de Trump que denunciavam fraude na eleição.

Isso mostra que há um limite concreto para a escalada do populismo niilista liderado por Trump e secundado por dedicados sabujos em várias partes do mundo, inclusive no Brasil: é o limite imposto pelo vigor dos sustentáculos da democracia – especialmente a imprensa livre, mas não só.

Ao mesmo tempo, o Judiciário norte-americano, demonstrando sua independência, rejeitou, por falta de provas, diversas demandas da campanha de Trump para interromper a contagem de votos ou para contestar a lisura do pleito, enquanto muitos parlamentares republicanos, correligionários do presidente, manifestaram seu inequívoco repúdio à tentativa de Donald Trump de colocar em dúvida o processo eleitoral.

A reação generalizada à farsa de Trump mostra a saúde da democracia norte-americana, apesar de tudo. Para funcionar, uma democracia depende da manutenção de uma base comum, sustentada na verdade dos fatos e nas leis aceitas por todos. É sobre essa base comum que a sociedade debate, no espaço público, as soluções para seus problemas, seja qual for a preferência ideológica ou partidária. Quando um presidente da República incita seus compatriotas a duvidar dos fatos e a desrespeitar a lei, destrói esse entendimento mínimo e ergue, em seu lugar, um mundo de absoluta desconfiança – nas instituições democráticas e entre os próprios cidadãos. Nesse mundo em que a verdade é hostilizada e a lei é para os fracos, só os delinquentes triunfam.

Por isso, é fundamental que as pessoas civilizadas, seja qual for sua preferência política, impeçam os vândalos da democracia de prevalecer, como está acontecendo nos Estados Unidos. O exemplo norte-americano nos é particularmente importante, pois neste momento o presidente Jair Bolsonaro, imitando seu mestre Donald Trump, reiterou suas dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro. Sem nenhuma evidência, Bolsonaro afirma que o sistema de votação nacional é suscetível a fraudes.

Em meio ao vergonhoso escarcéu causado por Trump e suas denúncias infundadas de manipulação de votos, Bolsonaro informou que vai patrocinar uma proposta de emenda constitucional destinada a acabar com o sistema eletrônico de votos e substituí-lo pelo voto em papel, que ele diz ser “confiável”.

Pode-se argumentar que o sistema que Bolsonaro considera mais “confiável”, o voto em papel, é justamente aquele que está sendo colocado em dúvida por Trump, mas é ocioso esperar qualquer discussão racional com quem deliberadamente estimula a irracionalidade. O fato a se tomar nota, e que deve alarmar todos, é a clara estratégia de Bolsonaro de estimular a farsa segundo a qual o sistema de votação não é confiável, alimentando um clima de suspeita permanente no País e preparando o terreno para, como Trump, desrespeitar o resultado da eleição presidencial de 2022, caso lhe seja desfavorável, alegando “fraude”.

O nome disso, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil, é tentativa de golpe.

Trump, o perdedor que odiava os perdedores

Em meados de 2015, a indicação do histriônico empreendedor imobiliário Donald Trump como candidato republicano à presidência dos Estados Unidos soava tão absurda que uma teoria conspiratória garantia que o magnata havia feito um conchavo com o casal Clinton para torpedear internamente a campanha dos conservadores e favorecer a vitória da ex-secretária de Estado. Mas Trump — que também carrega as qualificações de apresentador de reality show, filho de outro empreendedor bilionário e ilustre morador da Quinta Avenida de Nova York— chegou à Casa Branca apelando nada menos que à insatisfação da classe trabalhadora, a bordo de um discurso anti-imigração e antiglobalização. Quatro anos depois, não se saiu mal, recebeu mais votos dos cidadãos do que em 2016, mas a Casa Branca diz adeus ao vociferante inquilino. A vantagem do democrata Joe Biden nos votos pelo correio, ao invés de fazê-lo dar o braço a torcer, o mantém empenhado em bagunçar uma eleição a golpes de tuíte e recorrendo aos tribunais, apesar de até agora estes terem fechado suas portas às queixas dos republicanos.



Quando iniciou sua primeira campanha eleitoral, Trump mostrava-se exultante, ganhador antes de ganhar qualquer coisa, a mesma atitude que adotou inclusive quando os votos de 2020 já haviam sido depositados. “Parem a apuração”; “Fraude”, gritou nas redes sociais. Sua atitude fanfarrona não é uma surpresa: “Tenho as pessoas mais leais, poderia parar no meio da Quinta Avenida e atirar em alguém e mesmo assim não perderia votos”, chegou a dizer naquele mês de janeiro de 2016, quando ninguém acreditava seriamente que algum dia dormiria na Casa Branca. Não saiu atirando em ninguém, ao menos no sentido literal, mas insultava os imigrantes mexicanos, prometia suspender a entrada de muçulmanos no país, fazia do slogan “Para a cadeia”, contra Hillary Clinton, o lema preferido dos seus comícios e agredia a torto e a direito pela sua conta no Twitter. 

O historiador britânico James Bryce empreendeu, em meados de 1880, uma longa viagem para estudar aquele jovem país, os Estados Unidos. No livro resultante, The American Commonwealth, advertiu para o perigo de que a democracia norte-americana caísse vítima de “um tirano”, mas não “um tirano contra as massas”, observou, “e sim um tirano com as massas”. Hoje, editoriais de todo o mundo questionam o desfavor que Trump está fazendo à democracia do seu país.

Donald John Trump (Nova York, 1946) afinal ganhou as eleições de 8 de novembro de 2016. Muitos esperavam que, ao chegar à Casa Branca, adotasse uma atitude mais presidencial. O que aconteceu depois surpreenderia a esse grupo. Só que, quatro anos depois, os norte-americanos não quiseram mais do mesmo.

No dia da posse, 20 de janeiro de 2017, chovia. É fácil de lembrar. No meio do discurso do novo presidente, perante o imponente Capitólio de Washington, as gotas começaram a cair sobre as cadernetas dos jornalistas que acompanhavam o ato e rabiscavam anotações. À noite, no baile de gala, Trump comemorou com a imprensa: “A quantidade de gente foi incrível hoje. Nem sequer choveu. Quando acabamos o discurso, entramos, e aí sim caiu”. E assim, junto com sua presidência, teve início também a era dos “fatos alternativos” —conforme os batizou uma assessora de Trump—, ou seja, fatos diferentes dos reais.

Trump mente com frequência. O The Washington Post, que mantém uma contagem de todas as falsidades ou tergiversações do republicano, calculou que, até 27 de agosto, o presidente disse 22.247 coisas inverídicas. De todo tipo, desde atribuir declarações inexistentes a outras pessoas —como que o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, estava impressionado com sua capacidade de ação e disse que ninguém tinha feito tanto como ele—, até acusar Barack Obama de espioná-lo e declarar que, em comparação com a Europa, os Estados Unidos não estão indo tão mal com a pandemia. Na realidade, o país sofre mais contágios e mortes per capita que todos as grandes nações europeias, exceto a Espanha e a Bélgica. As mentiras não pararam. Nem as confusões. Nas últimas horas, ele não para de questionar um sistema eleitoral que em outro momento lhe deu a vitória.

O Twitter é sua via de comunicação mais imediata. Tuita sem cessar, de manhã cedo, de madrugada, a qualquer hora do dia, às vezes de forma frenética. Em 5 de junho, em plena onda de protestos contra o racismo depois da morte de George Floyd, bateu seu recorde de publicações em uma só jornada: 200. O pico anterior, no fragor do impeachment, em 22 de janeiro, era de 142. Pelo Twitter soubemos do seu contágio pelo coronavírus; no Twitter comunicou a demissão de altos funcionários, ameaçou a Coreia do Norte com “uma fúria e fogo que o mundo jamais viu” e rompeu um acordo no último momento, tachando o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, de “fraco” e “desonesto”. E o Twitter continua sendo o alto-falante da realidade paralela em que parece ter se instalado. Mas, desta vez, a rede social alerta junto às mensagens dele que suas palavras podem conter falsidades, para que ninguém se deixe enganar.

Porque insultar, e de forma feroz, tornou-se a nova normalidade da presidência mais poderosa do mundo. Uma assessora que o criticou após ser demitida, Omarosa Manigault, foi chamada de “louca”, “ralé” e “cachorro”. Embora o insulto mais recorrente do seu vocabulário, independentemente da falha que queira denunciar, seja o de loser (perdedor). Ainda nesta quinta ele disse: “Ganhar é fácil, perder não —não para mim”. Assim está demonstrando agora. Quando os resultados lhe dão as costas, se debate como um javali ferido, contra um sistema eleitoral talvez antiquado, mas em vigor.

No começo do seu mandato, e durante meses, analistas e cidadãos aguardavam o momento em que Trump deixaria o personagem valentão que o tinha levado a ganhar as eleições e assumiria finalmente o porte presidencial que se esperava, mas esse dia nunca chegou. Trump continuava sendo o juiz ogro do concurso de talentos O Aprendiz, o magnata que se lançou no mundo dos negócios cobrando de porta em porta os aluguéis atrasados em imóveis do seu pai, o sujeito capaz de se congraçar com os supremacistas brancos e de elogiar a credibilidade do presidente russo, Vladimir Putin, frente à dos seus serviços de inteligência.

Mas se Donald Trump é tão ruim como dizem, por que tanta gente vota nele? Por que foi premiado com mais de 69 milhões de votos? Se é tão tóxico, por que seus índices de popularidade entre os republicanos superam sua marca anterior? Além do pragmático voto conservador, que engole suas extravagâncias, por que, contra tudo e todos, há uma massa de trumpistas irredutíveis que o apoia em cada incêndio?

Quando se pergunta aos seus seguidos nos comícios por que gostam do republicano ou votam nele, a primeira coisa que respondem é que “não é um político”. Ser “um político”, no ecossistema trumpista, equivale a ocultar a realidade, viver do contribuinte e se render aos princípios do politicamente correto. E os ataques do presidente, suas estridências, lhes sugerem uma autenticidade da qual sentem falta na classe dirigente. Em suas críticas públicas a países aliados, apesar de tão grosseiras como as dirigidas daquela vez a Trudeau, veem uma porta raramente entreaberta para a cozinha das negociações diplomáticas.

Um dia, Emmanuel Macron foi perguntado sobre uma discussão que teria tido com Trump. O presidente francês se negou a responder, usando uma frase do chanceler Otto von Bismarck. “Nunca conto os bastidores. Porque, como dizia Bismack, se explicássemos às pessoas como as salsichas são feitas, não é certeza que continuaríamos a comê-las”. Trump, para seguir nessa analogia, faz seu público achar que, pela primeira vez, conhecerá a crua realidade de como essas salsichas são feitas. Se há algo que Trump consegue transmitir é espontaneidade. “Diz as coisas como são”, “com ele, o que você vê é o que existe”, costumam declarar seus eleitores. Mas milhões acreditam em falsos boatos que ele espalha nas redes sociais.

Como escreveu recentemente Lauren Collins na The New Yorker, “se a promessa de Obama é que ele era você, [na campanha de 2016] a promessa de Trump é que você é ele”.

Tudo, na verdade, vira show. Trump é obcecado pela atenção midiática, acompanha e divulga os índices de audiência de suas aparições televisivas como se fossem feitos políticos. Ataca com sanha a imprensa crítica, mas é viciado nos holofotes. Vê as entrevistas coletivas como shows de rock que às vezes se prolongam por mais de uma hora. Certa vez, na ONU, pediu aos jornalistas uma pergunta boa, como apoteose final. “Vocês se lembram daquilo que disse o Elton John? Quando você toca a última e é boa, não volte.” E houve situações insólitas, como quando, no Salão Oval, numa saudação protocolar ao presidente sul-coreano, Moon Jae-in, pressionou-o a responder a uma pergunta sobre a Coreia do Norte.

Não é que seja transparente, porque mente com frequência, mas não há lembrança de presidentes tão acessíveis e expostos. Muitas vezes, o que havia sido anunciado à imprensa como uma simples pose para as câmeras, ao início de uma reunião, se tornava uma coletiva improvisada, em que lavava toda a roupa suja.

Seus comícios foram longos monólogos, cheios de humor. Em junho, em Tulsa (Oklahoma), falou durante quase duas horas. Parodiou conversas com Angela Merkel, com a primeira-dama, Melania, e, naturalmente, espalhou o medo: “Se os democratas ganharem em novembro, os arruaceiros terão o poder, ninguém voltará a ficar seguro”, disse.

Na véspera das eleições de 2016, este jornal esteve no comício de encerramento da campanha de Trump no Estado de New Hampshire. Em seu apelo final para chegar à Casa Branca, prometeu: “Meu contrato com os norte-americanos começa com um plano para acabar com a corrupção, quero que todo o establishment corrupto de Washington saiba: vamos drenar o pântano”.

Àquela altura, na verdade, já se tinha negado a divulgar suas declarações fiscais, tinha problemas nos tribunais por desvio de recursos de sua fundação beneficente e enfrentava uma série de denúncias por negligência contra a Universidade Trump, um projeto educativo que acabou fechando após pagar uma indenização milionária aos prejudicados. Mas o volume do que seria toda uma trama de irregularidades com o fisco, delitos de campanha, conflitos de interesses, interferência na Justiça e amizades perigosas nestes últimos quatro anos ainda estava por ser revelado. Em 2019, o procurador especial Robert S. Mueller estava concluindo a investigação sobre a trama russa, ou seja, a ingerência do Kremlin na eleição de 2016 e os possíveis conchavos com o entorno de Trump. O presidente dos Estados Unidos já estava salpicado na época por até 17 investigações judiciais abrangendo os mais diversos âmbitos.

Um possível crime de financiamento ilegal de campanha para pagar duas mulheres, a atriz pornô Stormy Daniels (nome artístico) e a modelo da Playboy Karen McDougal, para evitar que revelassem seus supostos relacionamentos extraconjugais com o hoje presidente; outro inquérito, iniciado em Nova York, centrado na suspeita de evasão fiscal; uma série de suspeitas decorrentes da trama russa, tudo somado a investigações sobre o financiamento da cerimônia de posse em 2017. Além disso, havia as ações envolvendo seu hotel de luxo em Washington, cenário habitual da hospedagem de líderes estrangeiros, recepções diplomáticas e eventos republicanos, que levaram a denúncias de enriquecimento ilícito. Algumas foram arquivadas, outras prosperaram.

Porque o homem que prometeu tirar a Casa Branca da “classe política corrupta” e devolvê-la “ao povo” nunca se desvinculou da propriedade de suas empresas, apenas deixou a gestão nas mãos de seus filhos. E a presidência acabou sendo um bom negócio: segundo os cálculos do The Washington Post, entre atos oficiais e partidários, as propriedades de Trump receberam até 8,1 milhões de dólares (44,8 milhões de reais, pelo câmbio atual) de dinheiro público proveniente de doadores políticos desde 2017. Enquanto isso, conforme revelou uma investigação jornalística do The New York Times, ele quase não pagou impostos nos últimos anos, alegando ter tido prejuízos econômicos. Em 2016, ano em que foi eleito, só precisou desembolsar 750 dólares (4.143 reais pelo câmbio atual), mesma quantia que em 2017, seu primeiro ano de mandato.

Trump criou, como cunhou Martin Wolf no Financial Times, o “plutopopulismo”, um casamento perfeito entre a plutocracia e o populismo de direita.

A investigação da trama russa terminou sem consequências legais para Trump. Em 2019, o procurador Mueller deu por provada a ingerência de Moscou para prejudicar Hillary Clinton, mas não achou evidências suficientes de conluio com o entorno do presidente. Em relação à obstrução da Justiça, outro crime pelo qual foi investigado, Mueller alegou que um mandatário não pode ser processado, salvo pela via do impeachment (julgamento político).

De fato, o terceiro processo de impeachment na história dos Estados Unidos chegaria, meses depois, pelas mãos de um escândalo diferente, o da Ucrânia. O caso diz respeito às pressões de Trump sobre o Governo de Kiev para que a Justiça do país europeu anunciasse investigações que prejudicariam a seus rivais democratas, recorrendo inclusive ao congelamento de 391 milhões de dólares em ajudas militares já comprometidas. Uma das investigações tinha como alvo justamente Joe Biden e seu filho Hunter, por seus negócios na Ucrânia.

Os republicanos, maioria no Senado, absolveram o seu presidente, mas o processo deixou declarações para a história, como quando um embaixador norte-americano, Gordon Sondland, admitiu que tinha pressionado Kiev sob ordens do presidente. Ou quando outra diplomata, Marie Yovanovitch, relatou que chegou a ser advertida a “se proteger bem” e a ir embora de Kiev “no próximo avião”.
Normalização do caos

Aquele período do impeachment, entre o final de 2019 e começo deste turbulento 2020, transcorreu em meio a uma sensação de estranha calma. Escândalos presidenciais anteriores, como o julgamento de Bill Clinton em 1998 e o Watergate de Nixon, que renunciou antes de enfrentar a fase final do processo, eram lembrados como capítulos transcendentais na história do país, mas a Washington de Trump vivia instalada no desassossego. Com um líder tão insólito, que parecia sempre montado num touro mecânico, um impeachment se assemelhava a apenas mais um dia de trabalho.

Sua Administração se transformou, desde muito cedo, em um constante fluxo de demissões, afastamentos e exonerações, algumas delas ruidosas. Em dezembro de 2018, quando não tinha chegado nem sequer ao equador de seu mandato, já somava mais de 30 baixas em dois anos, um volume de despedidas que não se recorda em nenhum outro Governo.

O afastamento de John Bolton, seu segundo chefe de Segurança Nacional, foi comunicado pelo Twitter, com direito a bate-boca e sem avisar outros membros do Gabinete. O chefe do Pentágono, Jim Mattis, pediu demissão numa ácida e pública polêmica pela política de Trump na Síria. O assessor econômico Gary Cohn fez o mesmo por discordar da guerra comercial e, também, por estar aflito com a compreensão demonstrada pelo mandatário em relação aos supremacistas brancos. O secretário de Justiça, Jeff Sessions, foi posto na rua porque se recusou a ajudar Trump na investigação da trama russa e favoreceu a investigação independente do Ministério Público. A lista é longa.

Altos funcionários começaram a relatar de forma anônima como, no seu entender, a Casa Branca havia se tornado insana. Um deles, cuja identidade acaba de ser revelada (Miles Taylor, ex-chefe de pessoal do Departamento de Segurança Doméstica), publicou em setembro de 2018 um artigo no The New York Times intitulado “Sou parte da resistência interna da Administração Trump”, onde contava que vários membros do Executivo confabulavam para controlar os “impulsos” do republicano. “Trabalho para o presidente, mas, como outros colegas, prometi boicotar partes de sua agenda e suas piores inclinações”, afirmava, salientando a “amoralidade” de Trump. “Qualquer um que já tiver trabalhado com ele sabe que não está ancorado em nenhum princípio discernível que guie suas decisões”, acrescentava.

Pouco depois, o prestigioso jornalista Bob Woodward publicou Medo, um livro em que descrevia a vida na Casa Branca como um vaudeville de Halloween. Mediante fontes anônimas, relatava, por exemplo, que Gary Cohn roubou da mesa do presidente um documento que este pretendia assinar, rompendo um acordo comercial com a Coreia do Sul, e que o mandatário republicano nunca percebeu o sumiço. Também que o general John Kelly, ex-chefe de Gabinete, chegou a qualificar Trump como “desenquadrado”, e “um idiota”. “Isto aqui é um hospício”, afirmava.

Revelar as entranhas do Governo virou um subgênero literário. Bolton pôs seu grão de areia com um explosivo volume de memórias. Afirmava, por exemplo, que Trump pediu ajuda a Pequim para ganhar as eleições, detalhava situações incriminadoras sobre o escândalo da Ucrânia e expunha a falta de cultura geral do presidente, que certa vez teria lhe perguntado se a Finlândia pertencia à Rússia, e se surpreendeu ao saber que o Reino Unido é uma potência nuclear.

Trump muitas vezes ostentou essas lacunas intelectuais como virtudes, acostumado que está a identificar as elites acadêmicas ou burocráticas como símbolos de um sistema viciado. “Gosto de gente pouco formada”, disse em sua primeira campanha. A Woodward, poucos meses atrás, assim descreveu sua primeira cúpula com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, em 2018: “Você conhece uma mulher. Em um segundo sabe se vai acontecer ou não. Não leva 10 minutos, não leva seis semanas. É como: ‘Uau’. Ok. Sabe? Leva menos de um segundo”.

Na era Trump, o flerte com líderes autoritários e velhos rivais dos Estados Unidos, como Vladimir Putin, se tornou um hábito, mesmo que o Kremlin tenha sido acusado de atacar o sistema eleitoral norte-americano. Uma das figuras com maior influência sobre o presidente é Jared Kushner, marido de Ivanka Trump, a primogênita do presidente, e também nomeada assessora. O empresário, de 39 anos, disse a Woodward que para entender Trump é preciso pensar, entre outras coisas, no gato Cheshire de Alice no País das Maravilhas. “Se você não sabe para onde quer ir, qualquer caminho leva para lá”. Kushner tentava explicar que, mais do que o rumo, o importante é a perseverança. “A polêmica eleva a mensagem”, afirmou também.

Falava, afinal de contas, do mesmo presidente que não tinha problemas em ameaçar uma guerra termonuclear pelo Twitter. Era, em resumo, o mesmo sujeito que se apresentou às eleições convencido de que poderia dar um tiro em alguém na Quinta Avenida e as pessoas continuariam votando nele. Assim como naquela época, durante os primeiros anos do seu Governo muita gente se perguntava: como Donald Trump responderia à chegada de uma grande crise nacional?

Quando o coronavírus começou a se espalhar pelo mundo, Trump se instalou na negação. “Praticamente o paramos”, afirmava em 2 de fevereiro; “Um dia desaparecerá, como um milagre”, chegou a dizer em 27 daquele mês; “Nada vai fechar por causa da gripe”, insistia ainda em 9 de março.

Depois, quando a ferocidade do vírus se tornou evidente e uma pandemia foi declarada, impôs-se o instinto do animal televisivo e, durante semanas, ofereceu coletivas diárias, cada uma mais errática que a outra. A menos de um ano das eleições, e com uma crise insólita que jogava por terra seu principal argumento de campanha —a economia ia furiosamente bem—, decidiu vestir o traje de comandante-em-chefe perante uma nação em perigo, mas o fez tão embebido de si mesmo que deu lugar a alguns dos episódios mais estrambóticos de sua presidência.

Dia após dia, contradizia os próprios especialistas da Casa Branca, ao vivo e em cores, dava informação errônea sobre os tratamentos e rejeitava as recomendações de seu próprio Governo, como quando estimulou o país a reabrir no domingo de Páscoa, insuflou os protestos contra o confinamento e se empenhou em não usar máscara. Esse caminho atingiu o paroxismo em 23 de abril, quando propôs aos norte-americanos que se injetassem desinfetante. “Vejo o desinfetante, que leva [o vírus] a nocaute em um minuto, há alguma maneira de que possamos fazer algo assim mediante uma injeção? Porque a gente vê que ele entra nos pulmões e causa um dano tremendo nos pulmões, então seria interessante tentar”, disse. Dois dias depois, afirmou que estava brincando, mas suspendeu as entrevistas coletivas.

Logo retomou, isso sim, os grandes atos públicos com seus seguidores, em que não usar máscara era uma declaração de princípios, e redobrou sua agenda de atos oficiais. Enquanto isso, zombava do seu rival democrata, Joe Biden, por passar a campanha praticamente trancado em casa.

Na madrugada de 2 de outubro, comunicou que tanto ele como sua esposa estavam com covid-19. Aos 74 anos, o presidente era parte do grupo vulnerável ao vírus, por isso foi hospitalizado e tratado com fortes medicações. Quem, àquela altura de sua história na Casa Branca, achava que o episódio seria um ponto de inflexão em sua relação com a crise sanitária é porque ainda não havia entendido bem o personagem.

Quando deixou o hospital, gravou um vídeo fazendo da necessidade uma virtude: “Aprendi muito com a covid-19, aprendi indo de verdade à escola, esta é a verdadeira escola, e capto, entendo, é uma coisa muito interessante”, dizia. “Esta é a verdadeira escola”, insistia, fazendo-se de especialista. Em poucas semanas, retomou os grandes comícios sem máscaras.

Trump é natural ou interpreta um papel? Suas extravagâncias são espontâneas ou obedecem a uma estratégia pensada? Perguntado sobre isso, John Bolton respondeu em uma entrevista a este jornal: “Acho que é o seu jeito de ser, mas não sou psiquiatra, não vou explicar por que é assim, o que aconteceu com ele na infância, nem nada disso. Não me importa; o que importa é sua forma de se comportar, e sempre foi assim, segundo quem o conhece há décadas”.

O show chegou ao fim, mas os Estados Unidos descobriram com Trump uma nova normalidade que custarão a esquecer. Na convenção republicana deste ano, quando foi coroado candidato presidencial, sua filha Ivanka comemorou diante do público: “Washington não mudou Donald Trump, Donald Trump mudou Washington”. E não tinha como resumir melhor.

Pensamento do Dia

 


Hora de cair na real

Vinte e quatro horas passaram-se, e as eleições para a Presidência dos Estados Unidos continuam no rumo de uma crise institucional, porque Donald Trump não quer sair da Casa Branca como derrotado e, por isso, constrói uma narrativa de que a votação de Joe Biden foi fraudada. Desde ontem, a contagem dos votos estava 264 a 214, faltando apenas seis delegados para o desfecho já previsível — a vitória de Biden —, mas a chicana republicana, além de atrasar o resultado final e acirrar a tensão social, pode resultar na sobrevivência do trumpismo como robusta força de oposição, negacionista, ainda mais antidemocrática e reacionária. Não devemos subestimar esse fato aqui no Brasil, porque isso se reproduzirá como discurso da ala ideológica do governo Bolsonaro.

Amplos setores da sociedade e uma parte significativa do governo torcem por Biden, na esperança de que isso signifique uma mudança de rota na nossa diplomacia e na política ambiental. “O homem é o homem e a sua circunstância”, dizia o filósofo espanhol José Ortega e Gasset, 100 anos atrás. Bolsonaro precisa cair na real de que a situação na economia é perigosa e tanto a política externa quanto a ambiental complicam desnecessariamente a vida de nossos agentes econômicos. O Brasil está em apuros financeiros, a conta da pandemia do novo coronavírus está chegando a passos de ganso. O governo está desorientado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, parece enveredar pelo “quanto pior, melhor”, para prorrogar a “economia de guerra” e fugir à responsabilidade do ajuste nas contas públicas.



Ontem, o Tesouro teve dificuldades para rolar a dívida pública, nos relata Vicente Nunes, no Correio Braziliense. Da oferta de até 750 mil títulos indexados à taxa Selic, as chamadas LFTs, com vencimento em 2022 e em 2027, foram comprados 433,5 mil, ou seja, 49%. O Tesouro arrecadou R$ 4,7 bilhões, menos do que na semana passada, quando vendeu R$ 5,19 milhões em títulos. A taxa Selic (2% ao ano) está abaixo da inflação, que já passa dos 3%.

Para rolar a dívida pública, outra alternativa está sendo vender títulos pré-fixados, as chamadas LTNs, com taxas bem acima da Selic. Esses títulos são de curtíssimos prazo, com vencimentos em 2021, 2022 e 2024. Ontem, 8 milhões de títulos expirando em 2024 foram vendidos, com taxa de juros 6,39% ao ano, para o governo arrecadar R$ 6,6 bilhões. Mais R$ 1,8 bilhão foram arrecadados com a venda desses títulos com vencimento em 2022. Um terceiro lote, com vencimento no próximo ano, de 5 milhões de unidades, foi vendido que integralmente, arrecadando R$ 4,9 bilhões para os cofres do Tesouro.

O problema é que o governo está pagando uma taxa de 7,39% ao ano para títulos pré-fixados com vencimento em 2021. É um excelente negócio para quem tem dinheiro para investir, mas péssimo para um governo que não tem como pagar suas contas sem se endividar ainda mais, e terá de resgatar esses títulos no próximo ano. É onde mora o perigo, porque os sinais de afrouxamento fiscal vêm de todo lugar. Na quarta-feira, por exemplo, o Congresso derrubou o veto de Bolsonaro às desonerações trabalhistas, que foram prorrogadas por mais um ano, com uma impacto na queda de arrecadação de R$ 4,9 bilhões.

No lusco-fusco das eleições norte-americanas, foi aprovada pela Câmara uma garfada de R$ 1,4 bilhão dos recursos da Educação básica para obras de infraestrutura, uma reivindicação dos políticos do Centrão. Farinha pouca, meu pirão primeiro: tiraram do futuro das crianças para as obras indicadas pelas legendas que apoiam o governo, a cargo dos ministérios do Desenvolvimento Regional e da Infraestrutura. Não é à toa que Bolsonaro mantém seu périplo pelo Nordeste. Em vez de avançar nas reformas administrativa e tributária, caminha-se para romper o teto de gastos e implantar, a qualquer preço, o projeto Renda Cidadã. A discussão sobre o Orçamento da União, em que o pacto populista pode ser consolidado, é empurrada com a barriga, na surdina, para o recesso parlamentar.

Há sinais de recuperação da indústria, muito positivos, que poderiam apontar noutra direção, se fossem acompanhados de uma proposta efetiva de retomada da economia. Entretanto, o governo não tem prioridades, improvisa. A política de Bolsonaro é feita sem estratégia, na base da transa com objetivos eleitorais imediatos. Nesse aspecto, as eleições municipais estão mostrando um cenário em que os eleitores estão sendo bem mais pragmáticos e objetivos, estão refratários a aventuras e apostam nos políticos com propostas e bons serviços prestados.

Dica de caráter


Desafio da nação não é alimentar as chamas do conflito, mas resolver problemas.

(...)Temos problemas sérios, não temos mais tempo a perder em guerras ideológicas
Joe Biden

Bolsonaro ignora o que aconteceu no Brasil nos últimos anos

O bom governante é o que aprende com a história. Essa é uma máxima que deveria estar na porta de entrada de todos os palácios e sedes governamentais. Tal ensinamento se tornou ainda mais relevante com a eleição de 2018, quando venceu a ideia de que viria algo completamente novo que substituiria a velha política. Só que a mudança só se torna factível se a liderança política sabe o quê e como mudar, e apenas quem tem efetivo conhecimento histórico pode realizar essa transformação. O problema atual é que, a cada dia que passa, o presidente Bolsonaro mostra que não entendeu nada do que aconteceu no Brasil nos últimos anos, tanto no campo político como nas políticas públicas.

A própria definição de Bolsonaro como novidade, tal qual apareceu na última eleição presidencial, foi um engodo. É preciso desmistificar essa ideia, uma vez que ele foi deputado federal por quase 30 anos e não esteve na linha de frente de nenhuma proposta séria de transformação do país. No máximo, dizia que o regime militar errou por não ter fuzilado mais umas 30.000 pessoas.



Quando o país entrou numa enorme crise política e econômica, iniciada em 2013, 
a sociedade começou a rejeitar o sistema partidário que fora hegemônico por pouco mais de 20 anos, desde o impeachment de Collor. Foi aí que surgiu o espaço para uma liderança que defendesse a mudança completa do país. O eleitorado majoritário não olhou para o passado de Bolsonaro e acreditou que ele seria uma ruptura positiva. O fato é que essa massa enorme de eleitores, muitos com ódio do petismo e outros sentindo-se descontentes com as alternativas de centro-esquerda e centro-direita, comprou gato por lebre, como se diz popularmente. Na verdade, a melhor expressão para definir essa escolha eleitoral é outra: quem votou em Bolsonaro comprou o velho por novo.

O início do governo Bolsonaro foi marcado por duas tendências. De um lado, procurou se distinguir do passado trazendo nomes que não ocuparam cargos nos últimos governos, aparentemente abraçou o lavajatismo com a vinda de Sergio Moro para o Ministério da Justiça, não criou uma aliança explícita com o Congresso Nacional e os partidos tradicionais, e, como pretensa forma mais inovadora, buscou imprimir um ritmo alucinante de discussão pelas redes sociais, dando a impressão que governaria por meio delas.

Havia outro lado deste modelo, entretanto. Junto com uma agenda fortemente conservadora nos costumes, defendida com muita agressividade pelos bolsonaristas, o presidente da República pouco a pouco foi instalando uma agenda claramente autoritária. Uma das principais ações neste sentido foi enfraquecer os controles democráticos impulsionados pela Constituição de 1988, como os Conselhos de Participação Social, a Polícia Federal e o Ministério Público, escolhendo um procurador-geral que fosse completamente vinculado às ordens presidenciais. Este namoro de Bolsonaro com o autoritarismo teve seu auge em meio à pandemia, com ameaças aos outros Poderes e manifestações antidemocráticas comandadas por seus apoiadores.

A história não se repetiu nem como uma farsa nem como tragédia. Bolsonaro não percebeu que o país - e o mundo - estavam num ano diferente de 1964. A prisão de Fabrício Queiroz ligou o despertador para o presidente e ele, ainda bem, mudou de rumo. Os grupos de extrema-direita perderam força no governo, mas não foram desalojados por completo da aliança governista. De tempos em tempos, Bolsonaro abraça causas malucas e radicais, como no debate sobre a vacina, piscando para os autoritários de plantão.

A ambiguidade entre a democracia e o autoritarismo não acabou por completo, mas Bolsonaro optou por fazer um compromisso com a classe política, o que foi um alento para a governabilidade do país. O presidente finalmente descobriu que os parlamentares tinham tanta legitimidade quanto ele. Podia se abrir um novo capítulo, que garantisse estabilidade democrática e gerasse a aprovação de medidas importantes para a economia e a sociedade.

O problema é que o condomínio político montado junto ao Centrão se orienta apenas por uma perspectiva defensiva de governabilidade. Trocando em miúdos, esse casamento tem como objetivo básico salvar todos os sócios de qualquer pendência judicial - inclusive (ou principalmente) as relacionadas aos filhos do presidente. Vez ou outra surge uma afinidade ideológica ou o interesse em algum tema estrutural nessa aliança do Executivo federal com esse grupo parlamentar, mas, no geral, esse novo casal tem sido incapaz de gerar uma agenda sólida de propostas legislativas.

Se quiser dar maior efetividade a essa aliança, Bolsonaro tem de estudar mais a história recente. Claro que é preciso montar uma coalizão parlamentar para governar um sistema político marcado pelo multipartidarismo. Mas o presidencialismo de coalizão vai além disso. Para obter sucesso neste modelo, faltou ao bolsonarismo aprender três lições derivadas de outros governos: é necessário ter agenda clara, coordenação política e construir políticas públicas consistentes, capazes de gerar mais do que uma popularidade momentânea.

Uma aliança parlamentar só resulta em governabilidade efetiva caso tenha uma agenda que a oriente. Os bolsonaristas podem dizer que mandaram vários projetos ao Congresso Nacional, alguns de reconhecida relevância. Mas está claro que não há prioridades bem definidas nesta inflação de PECs e leis enviadas ao Legislativo. Na verdade, o próprio presidente da República não saberia dizer o que é mais importante, a reforma tributária ou a administrativa, alterar o pacto federativo ou a legislação penal. Bolsonaro, no fundo, não quer comprar briga com ninguém, não deseja apoiar nada que o indisponha com parcelas do eleitorado. Prefere comemorar a aprovação do Código Nacional de Trânsito e falar de medidas vinculadas à pauta dos valores, embora tais temáticas não tirem os cidadãos brasileiros do atual buraco econômico e social.

Falta ao Executivo federal, ademais, maior coordenação interna e externa. A briga entre os vários lados do governo é constante, com um grau de publicidade inédito. O presidente não tem sido capaz de acabar com essa balbúrdia. Quando arbitra, é para tomar decisões movidas pelo fígado e pelo desejo de eliminar os concorrentes eleitorais. As relações com o Congresso também são caóticas. A pauta das duas Casas mexe-se lentamente e muitas vezes contra os interesses do governo. Bolsonaro provavelmente não aprovará nenhum sucessor do auxílio emergencial e, o pior de tudo, as eleições de fevereiro para Câmara e o Senado continuam em aberto, gerando enorme incerteza para os dois anos finais do mandato.

O presidencialismo de coalizão, por fim, precisa se ancorar num caminho claro de políticas públicas. A popularidade inesperada cegou Bolsonaro, que botou o carro na frente dos bois: ele já está em campanha para a reeleição sem construir o que vai mostrar. E é exatamente no campo das políticas públicas que o presidente da República menos aprendeu com a história recente.

Primeiro, Bolsonaro não entendeu que cortes muito abruptos não dão certo. Fez mudanças em políticas públicas sem saber o que estava dando certo e o que estava no rumo errado, e jogou o governo no escuro. Como consequência, a maioria dos setores não entregará bons resultados até 2022 - a principal exceção, a área de infraestrutura, é a de maior continuidade em relação ao passado recente.

Também faltou colocar gente competente nos postos-chave, profissionais que entendam dos assuntos pelos quais são responsáveis. Este é um dos governos com mais gente amadora na história brasileira. Soma-se a isso o fato de que é necessário dialogar com os atores vinculados às políticas públicas, porque a interdição da conversa ou, pior, uma agenda completamente contrária a quem historicamente está ligado a uma área não produz uma mudança bem-sucedida. Se alguém tiver dúvida disso, acompanhe o que está acontecendo na Cultura, na Educação e na Saúde. É uma coleção de desastres.

A lógica do conflito, quando não da briga de rua, alimenta boa parte da dinâmica das políticas públicas bolsonaristas. A desarticulação federativa tem atrapalhado muito as políticas sociais. Menos Brasília não é, necessariamente, melhor Brasil, muito menos governo federal bem avaliado - vide as eleições nas capitais, majoritariamente antibolosonaristas. Bolsonaro não percebeu que é preciso fazer compromissos institucionais e políticos inclusive com adversários para apresentar resultados. Em vez disso, a maneira bélica de agir tem se espalhado até na Esplanada, gerando falsas dicotomias em seu governo, como a volta da luta entre ministros gastadores e fiscalistas. Nesta disputa, quem perde é o país e o presidente da República.

Ao repetir erros do passado e não aprender com os acertos, o governo Bolsonaro fica velho antes do tempo. Esse fracasso bolsonarista não quer dizer que o país não precise de lideranças e ideias novas. Renovação é fundamental para combater os problemas estruturais e colocar o Brasil novamente nos trilhos. Mas os que portarem a mudança em 2022 só terão sucesso se conhecerem bem a história e souberem utilizá-la a seu favor.

Manual de trampolinagem

Em 1983, o colunista Zózimo Barrozo do Amaral noticiou que o empresário americano Donald Trump e o libanês-brasileiro Naji Nahas estavam se associando numa empreitada. A firma ainda não tinha nome. Zózimo, conhecedor das vísceras da dupla e pela eufonia de seus nomes, sugeriu: "Trampolinagem". Você sabe: golpe, mentira, trapaça.

Era 1983, lembre-se. Seis anos depois, em 1989, os negócios de Naji Nahas quebraram a Bolsa de Valores do Rio. Ela nunca mais voltou a existir. E, agora, ao tentar ganhar uma eleição no grito, Donald Trump pode estar quebrando a espinha dos EUA.



Em Brasília, do banquinho onde se senta sobre as traseiras e saliva ao ouvir a voz do dono, Jair Bolsonaro acompanha, temeroso e extasiado, a eleição americana. Por um lado, o resultado das urnas o assusta --é uma amostra do que também pode esperá-lo por aqui, embora ele, precavido, esteja dedicando todo o seu primeiro mandato a fazer campanha com dinheiro público para assegurar um segundo mandato. Por outro, está recebendo uma aula de trampolinagem eleitoral, à base de coices na democracia.

Não é que Trump e Bolsonaro sejam contra a alternância do poder. Eles gostaram muito quando chegaram a ele pela via eleitoral e tiveram suas posses asseguradas pelos antecessores, com votos de boa sorte dos adversários que derrotaram. Só que, por seus atos no exercício do poder, não podem mais se dar ao luxo de largá-lo —para não serem processados por crimes contra as instituições, a inteligência e a vida.

Alguém ainda se lembra do papel carbono? Servia para se copiar um texto escrito à mão ou à máquina e, como só existia em função de um original, era usado uma vez e logo descartado, embolado e atirado à cesta. Bolsonaro é um reles carbono de Trump e, com o original em grave perigo, precisará copiar também as apostilas do pós-doc em trampolinagem que Trump está oferecendo.