sábado, 7 de setembro de 2019

Cadê o emprego?

O ministro da Economia, Paulo Guedes, deu um banho de água fria em quem esperava para logo o lançamento do pacote de medidas para combater o desemprego. No Rio de Janeiro, Guedes declarou ontem que o pacote de incentivos para o emprego “é bem para frente”.

As medidas em estudo já foram apresentadas para a Casa Civil e um grupo de empresários e banqueiros. O que se contava agora era que o ministro desse sinal verde para acioná-las imediatamente diante da crise estrutural de emprego no Brasil.

Ainda falta trabalho no País para 28,10 milhões de pessoas. O total de trabalhadores informais alcançou o patamar recorde de 38,683 milhões em agosto, o equivalente a mais de 40% da população ocupada.


Diante da demora anunciada, ficam algumas perguntas no ar: Guedes não gostou das propostas que seus auxiliares desenharam? Tem dúvida da hora certa de fazer o lançamento? O ministro está titubeando? Por que esperar mais para botar o bloco na rua?

Há um evidente descompasso não resolvido na cabeça do ministro sobre o alcance das medidas para o emprego, algumas mais liberalizantes do que as outras e de difícil implementação.

Mas está cada vez mais claro que o que retarda a decisão do ministro é a dúvida sobre como fazer a desoneração da folha de pagamentos das empresas – promessa da campanha eleitoral.

O caminho via compensação da desoneração com a criação de novo imposto na reforma tributária, nos moldes da extinta CPMF, traz riscos fiscais e tem rejeição do Congresso e da sociedade. Outro obstáculo a ser vencido é a rejeição do presidente Bolsonaro à recriação da CPMF.

Guedes não pode politicamente apresentar uma proposta de reforma tributária, com a nova CPMF, que já chegaria ao Congresso derrotada. Só vai levar adiante, se tiver chance real de ser aprovada. Ainda não tem. Por isso, a demora para enviar o projeto de reforma tributária.

O ministro, que tem medo de perder arrecadação com a desoneração, pode optar antes em abrir o caminho de forma mais gradual. Uma das propostas apresentadas a ele é desobrigar as empresas de pagarem impostos sobre a folha de pagamento na contratação de jovens e pessoas que estão sem carteira assinada há mais de dois anos. A proposta é que a desoneração seja bancada com recursos do Sistema S. Um passo inicial que está no leque de medidas para estimular o emprego.

Da transição de governo até agora, já se passaram mais de dez meses. Já deu tempo para o governo elaborar um plano de ação. Nada nesse momento pode ser mais importante e urgente do que o enfrentamento do que o pontual do problema do desemprego.

A reforma da Previdência, apontada como essencial para a recuperação da economia, já está próxima de ser aprovada. A promessa da equipe econômica era de que logo após a aprovação na Câmara as medidas para estimular retomada seriam acionadas. O que se viu até agora é a área econômica enrolada até o pescoço com os problemas de gestão do Orçamento e a negociação das mudanças das regras fiscais.

Os gatilhos são os mecanismos que permitem ao governo reduzir despesas obrigatórias, entre os quais suspender aumentos salariais dos servidores, conceder benefícios e dar reajustes de despesas acima da inflação, inclusive do salário mínimo.

A coluna já havia apontado que boa parte da agenda econômica do segundo semestre seria voltada a arrumar soluções para bloqueio forte de quase R$ 34 bilhões esse ano, que promove um quase “apagão” da máquina esse ano.

Para 2020, o problema é maior ainda com projeto de Orçamento apertado por conta das restrições impostas do teto de gasto. Ele pode não ser cumprido no ano que vem e abriu uma pressão dentro do governo para sua flexibilização.

Bolsonaro apoiou inicialmente a mudança do teto, posição que foi revista após conversa com Guedes. Depois do vaivém, o que se viu de verdade são os sinais de impaciência do presidente com a falta de recursos e a demora da equipe econômica em apresentar soluções.

O presidente e seus aliados mais próximos estão angustiados com a demora da retomada do emprego. Os desdobramentos dessa angústia crescente na agenda da equipe econômica, por ora, são uma incógnita.

Machista, egocêntrico e misógino

Jair Bolsonaro, o capitão, é machista, misógino e egocêntrico. Desrespeita as mulheres de forma cabal, a ponto de dizer que foi numa fraquejada que engravidou sua terceira mulher de uma menina.

Outro exemplo: qual o motivo para Raquel Dodge não ser reconduzida à chefia da Procuradora Geral da República, segundo o capitão? Segundo ele, o fato dela ser mulher!

Enquanto esse traço de seu caráter só incomoda aos brasileiros, por desagradável, triste e burro, sem alternativa, toleramos. Mas quando começa a fazer do Brasil um país menor, diminuto, ignorante, estúpido, aí o problema torna-se muito grave.

E é isso o que tem acontecido.

Ele vem comprando problemas absolutamente inúteis, idiotas mesmo, com mulheres de personalidade forte que representam com valor os países com os quais o Brasil não tem problemas, mas que o capitão quer ferir.

O que é que ele consegue com os comentários ofensivos que fez a Brigitte Macron, a Michelle Bachelet, a Angela Merkel? Ou com o extremamente ignorante comentário de que ele não quer ser uma Rainha da Inglaterra em seu governo? Coitado, nem que pudesse, ele não teria a força, a sabedoria e o amor de seu povo que Elizabeth II recebe.

Emmanuelle Macron, o presidente da França, segundo o capitão se intromete nos assuntos internos e na soberania brasileira porque sua mulher é feia! Isso já seria o cúmulo, mas tem pior: esse tipo de grosseria é contagioso e ontem o seu ministro da Fazenda repetiu a gracinha do chefe, tendo recebido da plateia que ouvia sua palestra em Fortaleza, muitas palmas e risadas.

Mas Bolsonaro não se conforma com desaforos que não prejudiquem o Brasil. É pouco. Por isso, dispensou a caneta BIC que usou para se exibir como homem modesto. Imaginem se a França resolvesse fechar a fábrica da BIC em Manaus, o horror que isso seria para aquele estado!

Michelle Bachelet, como Alta Comissária dos Direitos Humanos das Nações Unidas, disse que se preocupava com a “diminuição do espaço cívico e democrático” no Brasil. Ela observou o aumento expressivo no número de mortes cometidas pela polícia no Rio de Janeiro e em São Paulo, principalmente contra negros e moradores de favelas. Mentiu? Ou disse somente a verdade que nós, brasileiros, testemunhamos diariamente?

O capitão se queimou, achou um desaforo essa vergonha ser revelada e resolveu que uma boa resposta seria elogiar o bárbaro regime Pìnochet e ainda acrescentar que o pai da ex-presidente, que morreu torturado num presídio, era um comunista cujo grupo só não conseguiu transformar o Chile numa outra Cuba graças aos militares de Augusto Pinochet!

Com Angela Merkel, Jair Bolsonaro foi ao auge da burrice: foi ignorante ao dizer que ela que pegasse o dinheiro que costumava enviar para o Brasil cuidar da floresta amazônica e tratasse de reflorestar a Alemanha! Resultado, o dinheiro vai nos fazer muita falta, pois estamos falidos. E não vai reflorestar o país que já tem algumas das mais lindas e viçosas florestas europeias! Outra canelada inútil!

O que Bolsonaro vai conseguir com esse tipo de comportamento? Uma coisa já conseguiu: o Brasil está sendo visto como um país sem classe, grosseiro, que trata mal as mulheres.

Como nem todos os turistas desprezam as mulheres, é possível que o turismo vá sofrer ou uma grande queda ou uma baixa em qualidade.

Sabemos que o capitão não vai se calar tão cedo, pois que além de machista é teimoso. Mas o que mais virá por aí, não sabemos.

Nem ele, posto que não pensa, fala.

Prova de lealdade

Para além da grosseria, o comentário do ministro da Economia Paulo Guedes sobre a primeira-dama francesa Brigite Macron revela um dos lados mais perversos do governo, a necessidade de prestar vassalagem a Bolsonaro.

Demonstrações de lealdade, no entendimento do presidente e sua família, requerem ações públicas de concordância. Auxiliares que tentam contemporizar são considerados desleais, marginalizados ou demitidos.

As Forças Armadas, principalmente o Exército, de onde é oriundo, viram na ascensão política de Bolsonaro a chance de retornar ao poder num governo democrático. A nomeação de cerca de 130 militares, sendo sete ministros de Estado, deu a impressão de que tutelariam Bolsonaro.

Aconteceu o contrário, Bolsonaro os enquadrou. A obediência à hierarquia e a suposta habilidade política de Bolsonaro, numa carreira de 28 anos no Congresso que o levou à Presidência da República, fizeram dele um parâmetro de comportamento.

As decisões políticas não são divididas com assessores, mesmo os fardados mais próximos, como o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que parecia credenciado a ser uma espécie de conselheiro: “Quem entende de política aqui sou eu”.

O general Santos Cruz, amigo de Bolsonaro há 40 anos, foi demitido quando se revelava um importante interlocutor de políticos e empresários na Secretaria de Governo. Caiu na desgraça com Carlos Bolsonaro, o internauta da família, e do ideólogo Olavo de Carvalho, que xingou o general pelo twitter.

Era o mais ponderado dos assessores. Foi substituído pelo general Luiz Eduardo Ramos, comandante do Sudeste, outro amigo de Bolsonaro. Homem do diálogo, tinha boa relação com o PT e o PSOL em São Paulo. No governo, já sentiu o peso do veto presidencial.

O jornalista Paulo Fona, convidado para secretário de imprensa por Fábio Wajngarten, chefe da Secretaria de Comunicação, e pelo próprio general Ramos, foi vetado por Bolsonaro. Não gostou de ter no Palácio do Planalto um profissional que já trabalhara para PSDB, PSB, PMDB e DEM.

A demissão de outro ministro da Secretaria de Governo, Gustavo Bebianno, deveu-se a intrigas familiares sobre uma audiência que daria ao vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Globo em Brasília.

Tanto Bebianno quanto Santos Cruz envolveram-se em uma disputa de WhattsApp com Carlos Bolsonaro, com direito, no caso de Santos Cruz, a uma mensagem forjada em que o então ministro falaria mal de Bolsonaro.

O ministro-chefe do GSI, general Heleno, aderiu à diplomacia bolsonariana e resolveu apoiar o ataque ao presidente francês Emmanuel Macron: "Ele é um moleque”.

Anteriormente, havia tido um assomo público ao criticar Lula para defender Bolsonaro. Pediu a prisão perpétua para um presidente ladrão. Com direito a soco na mesa do café da manhã na frente de diversos jornalistas.

Ao rejeitar a discussão sobre as queimadas na Amazônia nos termos em que Macron colocou, dando mais peso à bravata sobre a internacionalização da região, Bolsonaro apertou o botão do nacionalismo, muito caro aos militares.

O general Villas Boas, talvez a maior liderança militar hoje, usualmente ponderado, fez um pronunciamento exaltado, repelindo o que chamou de “ataques diretos à soberania brasileira, que inclui, objetivamente, ameaças de emprego do poder militar”.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, deu sua demonstração de lealdade chamando Macron de “um calhorda oportunista”.

Outra vítima dessa necessidade de acatar ordens foi o secretário de Cultura, Henrique Medeiros Pires, que pediu demissão por não concordar com a decisão de Bolsonaro, acatada pelo ministro Osmar Terra, de filtrar politicamente os financiamentos de projetos culturais.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, já havia dado demonstração de lealdade cabal ao demitir o presidente do BNDES, o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, que se recusara a tirar o diretor de Mercado de Capitais do BNDES, Marcos Barbosa Pinto. Os dois trabalharam nos governos Lula e Dilma, o que é inaceitável para os Bolsonaro.

Para o BNDES, Guedes nomeou um amigo de infância de Flavio e Eduardo Bolsonaro, o economista Gustavo Montezano, que já deu demonstração de lealdade cometendo uma ilegalidade, tornando públicos contratos de empréstimos para compras de jatos particulares, como se fosse um crime.

Pátria amada, Brasil!


Bolsonaro age como ditador e pensa(?) que pode blindar o filho Flávio e o assessor Queiroz

O presidente Jair Bolsonaro tem um comportamento bipolar à frente do governo. Ao mesmo tempo em que se omite sobre os principais temas da gestão, dizendo que as soluções cabem exclusivamente aos ministros, que serão substituídos caso não deem certo, o chefe do governo agora passou a interferir nas nomeações das autoridades que lidam diretamente no combate ao crimes de corrupção.

Antes de assumir, quanto tudo ainda eram flores, Bolsonaro tinha postura diferente e determinou que passasse para o Ministério da Justiça (leia-se: Sérgio Moro) a gestão do mais importante órgão público para identificar casos de lavagem de dinheiro – o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que até então era gerido pelo Ministério da Fazenda.

Como diria Vinicius de Moraes, de repente, não mais que de repente, as coisas mudaram. O ministro Sérgio Moro foi perdendo a autonomia, o governo deixou para segundo plano o combate à corrupção, o pacote de medidas anticrime passou a caminhar vagorosamente no Congresso, que deu preferência à célere aprovação de uma esdrúxula Lei do Abuso de Autoridade.

E o presidente do Supremo, Dias Toffoli, entrou roubando a cena, ao criar um inquérito totalmente ilegal, destinado a interromper investigações do Coaf sobre autoridade com movimentações financeiras atípicas ou inconsistências nas declarações de renda e bens, como o próprio Toffoli, seu companheiro Gilmar Mendes e as respectivas mulheres.

Com a entusiástica conivência de Bolsonaro, o Coaf voltou a ser gerido pela área econômica, mudou de nome e qualquer pessoa agora pode participar do Conselho, por indicação política, os auditores fiscais não têm mais exclusividade funcional.

Além disso, o solícito e criativo Toffoli deu um jeito de interromper centenas de investigações do Coaf, da Receita e do Banco Central, e “blindou” expressamente o senador Flávio Bolsonaro e seu ex-assessor Fabrício Queiroz, fazendo o presidente da República vibrar: “Toffoli é nosso!” – proclamou Bolsonaro.

Simultaneamente, chefe do governo começou a intervir pessoalmente para demitir o diretor da Polícia Federal e o superintendente no Rio, disposto a completar a blindagem, e vai também nomear um procurador-geral da República esculpido sob medida, digamos assim.

Em tradução simultânea, fica claro que Bolsonaro pensa (?) que, ao mudar os técnicos, pode alterar as regras do jogo. Em seu delírio de poder, não percebe que as coisas não funcionam assim, ninguém jamais conseguirá imobilizar auditores, juízes, procuradores e policiais em regime de plena democracia.

Qualidade e quantidade

Meteu-se um mono a falar numa roda de sábios e tais asneiras disse que foi corrido a pontapés.

– Quê? Exclamou ele. Enxotam-me daqui? Negam-me talento? Pois hei de provar que sou um grande figurão e vocês não passam duns idiotas.

Enterrou o chapéu na cabeça e dirigiu-se à praça pública onde se apinhava copiosa multidão de beócios. Lá trepou em cima duma pipa e pôs-se a declamar.


Disse asneiras como nunca, tolices de duas arrobas, besteiras de dar com um pau. Mas como gesticulava e berrava furiosamente, o povo em delírio o aplaudiu com palmas e vivas – e acabou carregando-o em triunfo.

– Viram? – resmungou ele ao passar ao pé dos sábios. Reconheceram a minha força? Respondam-me agora: que vale a opinião de vocês diante desta vitória popular?

Um dos sábios retrucou serenamente:

- A opinião da qualidade despreza a opinião da quantidade.
Monteiro Lobato

Bolsonaro se recusa a olhar para o futuro do país

Ninguém pode dizer que Jair Bolsonaro é incapaz de criar fatos. Desde que começou seu governo, ele já falou dos mais diversos e inusitados assuntos, mexeu em políticas públicas e instituições até então estáveis, brigou com atores políticos nacionais e internacionais, em suma, o presidente dá a impressão que está fazendo uma enorme transformação. Enquanto isso, a mídia e os analistas procuram saber como o povo está reagindo a esta tempestade. Mas talvez seja importante ir além do dia a dia e perguntar: de que maneira Bolsonaro trata o futuro do país?

O debate político tem se concentrado principalmente nas consequências imediatas dos atos e palavras do presidente. É evidente que a discussão sobre a conjuntura é importante. O entendimento do país passa pelo acompanhamento de temas como o andamento da reforma da Previdência, a escolha do novo procurador-geral da República, a indicação do filho do presidente - o zero três - para a embaixada brasileira nos Estados Unidos ou a briga com o presidente Macron.

Só que uma boa análise política é aquela capaz de fazer a ponte entre o presente e o futuro. No campo do embate político, obviamente que Bolsonaro já está pensando em sua reeleição. Suas pancadas em Doria e Huck, num tom que só era usado contra o PT, revela que o presidente pretende queimar todas as candidaturas que venham do centro ou da centro-direita. Quer continuar como o paladino antipetista que permitiu sua eleição em 2018, mantendo a polarização como a lógica do sistema político.

Mas a leitura das tendências futuras da competição política deve ir além de nomes e brigas. O que será a agenda da reeleição de Bolsonaro? O que pretendem trazer de novo os candidatos que lutam para reorganizar o centro? E as esquerdas, que programas irão apresentar no cenário do pós-lulismo?


Sabe-se pouco ainda sobre os projetos e ideias para 2022. No entanto, já é possível analisar os possíveis efeitos das políticas públicas de Bolsonaro para o futuro do país. No plano econômico, seu governo é, em boa medida, continuidade da gestão de Temer na Presidência, tendo como foco principal o ajuste fiscal e a reforma da Previdência, uma medida necessária para que nossos filhos e netos tenham esse benefício.

Não há, contudo, uma agenda clara para recuperar o crescimento da economia. Muitas ideias aparecem, projetos são propostos, outros são cancelados ou desmentidos, e, ao final, ainda há muitas dúvidas sobre o que o bolsonarismo pretende fazer para mudar o estágio de estagnação econômica que tomou conta do Brasil desde a era Dilma. A ideia da carteira verde e amarela, bem como outras medidas de reformulação trabalhista, não apresentam com clareza qual será a fórmula para retirar mais de 11 milhões de pessoas do desemprego, afora a enorme massa de trabalhadores informais.

É muito cedo ainda para prever os caminhos econômicos do país nos próximos quatro anos. A recuperação tem sido lenta e difícil e a aposta ultraliberal do governo é uma incógnita, pois nunca foi testada na nossa história recente. Duas possibilidades se colocam na disputa ideológica. De um lado, os que acreditam que o aumento da liberdade econômica das empresas e a redução da intervenção estatal vão gerar um novo ciclo de prosperidade. De outro, perfilam-se aqueles cuja visão é a de que Bolsonaro tem como projeto a criação de um modelo econômico selvagem, num estilo "Mad Max". Provavelmente a verdade está em algum ponto entre essas duas visões, embora não se saiba em que ponto entre ambos ficaremos.

Maior certeza há sobre os efeitos de outras políticas bolsonaristas para o futuro do país. O seu projeto para a educação tem significado um atraso em uma série de reformas que vem sendo defendidas pelos especialistas da área nos últimos anos. Em lugar de acelerar mudanças na formação docente, na utilização dos instrumentos pedagógicos ou na cooperação federativa, o governo tem apoiado propostas que não se baseiam em evidências científicas ou em casos bem-sucedidos pelo mundo ou mesmo no Brasil. Pior do que isso, tem reduzido os recursos do setor sem apresentar medidas que aumentem efetivamente a eficiência e a qualidade do gasto educacional.

Quando se erra feio na educação, o custo para o futuro de um país é igual ou maior do que as grandes crises econômicas. Mesmo tendo ainda uma série de defeitos, a política educacional brasileira passou por uma verdadeira revolução nos últimos trinta anos em termos de expansão da rede, inclusão dos alunos e organização do sistema escolar. Recuperou-se mais de um século perdido de descaso das elites com o ensino, pois o antigo modelo de desenvolvimento, mesmo quando gerou aumento da riqueza, não o fez por meio da ampliação qualificada do ensino para todos.

Tendo esse diagnóstico como base, o que propõe a ministra Damares? Ela orientou que Conselhos Tutelares deixem de registrar como abandono escolar casos que podem ser caracterizados como "homeschooling". Esse é o primeiro passo para restringir o acesso ao ensino pelos mais pobres e perpetuar a ignorância. A consequência disso é que milhões de pessoas não terão qualificação para conseguir empregos, gerando um circulo vicioso de baixa produtividade e aumento da desigualdade.

O caminho para o abismo no futuro passa também pela visão anticientífica que alimenta o governo Bolsonaro. Por diversas vezes os dados e as evidências científicas foram ignorados em nome de um senso comum lastreado na ignorância de quem não entende do assunto. Essa postura obscurantista foi além do discurso: o enorme corte nos gastos com ciência e tecnologia irá cobrar um enorme preço ao longo dos próximos anos.

O Brasil tinha conseguido, após aumento do investimento e, sobretudo, muito esforço dos pesquisadores, entrar no primeiro time da produção científica mundial. O que está ocorrendo agora é um rápido desmonte dessa engrenagem bem-sucedida. Se continuarmos nesta toada, o país perderá todo o dinheiro investido por mais de uma década em talentosos cientistas. Haverá uma fuga de cérebros para o exterior e ficaremos com uma menor quantidade de capital humano no país. Em outras palavras, a política científica de Bolsonaro está semeando a perda do dinamismo do desenvolvimento no futuro.

Um futuro sombrio também nos espera mais adiante caso seja mantida a atual política ambiental. Ela ignora os dados científicos, baseia-se no enfraquecimento de órgãos e quadros técnicos e cria uma falsa dicotomia entre preservação e desenvolvimento. Mais do que isso, esse modelo bolsonarista está alimentando uma enorme crise ambiental na região amazônica. Em vez de ficar brigando com ONGs e governantes estrangeiros, o presidente deve buscar cooperação internacional para reafirmar nossa soberania.

Mas soberania para quê? Em última análise, nossa independência depende da capacidade de garantir um mundo melhor para nossos filhos e netos. E isso só será possível caso consigamos explorar de forma racional e sustentável os recursos naturais brasileiros, principalmente os da floresta amazônica. Propor o uso imediato do subsolo da região para obter minérios a qualquer custo, inclusive colocando em risco a vida dos indígenas, nos levará à perda de poder político no plano internacional, ao boicote de nossos produtos e à destruição da biodiversidade, algo muito mais importante do que exportar ferro para os outros se desenvolverem.

Outro legado negativo que o bolsonarismo está deixando para o nosso futuro é o do enfraquecimento da estabilidade institucional. Um bom exemplo disso é a bagunça criada em várias agências reguladoras, o que logo gerará um aumento da insegurança jurídica para os investimentos. O interessante é que esse processo está ocorrendo nas barbas de uma equipe econômica que, em tese, defende ideias liberais. Ou será que o ultraliberalismo de Paulo Guedes prescinde de controles regulatórios sobre a atividade econômica?

Os exemplos aqui expostos estão semeando um futuro pior para o país, embora não necessariamente sejam percebidos como as questões mais importantes no debate político conjuntural. Fica a pergunta: por que Bolsonaro toma tantas decisões que colocam em risco a vida das próximas gerações? Há várias explicações para esse fenômeno, mas uma coisa chama a atenção: uma parcela das escolhas erradas do presidente se deve ao fato de que ele está mais preocupado com o passado do que com o futuro.

Jair Bolsonaro está sempre olhando para o passado: glorifica o regime militar, procura comunistas em todos os cantos, critica continuamente o PT para manter viva a polarização que alimenta seu poder político, expõe seus ódios contra vários comportamentos morais contemporâneos. Ele não está muito preocupado com o futuro porque quer manter todos no passado, onde se sente seguro e confortável.

O problema é que o Brasil só sairá da enorme crise instalada no país desde 2013 caso seja capaz de formular claramente um projeto de futuro. O melhor presidente em 2022 seria aquele capaz de olhar para frente, algo que Bolsonaro se recusa a fazer, embora seus atos estejam criando perspectivas piores para nossos filhos e netos nos campos da educação, cultura, meio ambiente e instituições democráticas.

Um país com governo extremista, atrasado e mal educado

Em um país com governantes extremistas, atrasados e mal educados, o presidente da República celebra uma ditadura sanguinária responsável pela morte de milhares de pessoas e ataca a alta comissária de Direitos Humanos da ONU, cujo pai foi torturado e morto por este mesmo regime ditatorial.

Em um país com governantes extremistas, atrasados e mal educados, o ministro da Economia decide copiar o presidente da República e insulta a primeira-dama da França para uma plateia que bate palmas e dá risadas.

Em um país com governantes extremistas, atrasados e mal educados, o ministro do Meio Ambiente concede entrevista para um youtuber canadense conhecido por suas posições supremacistas brancas.

Em um país com governantes extremistas, atrasados e mal educados, o prefeito de uma das maiores cidades manda recolher livros de histórias em quadrinhos porque há a imagem de um beijo gay e isso "seria impróprio".
Em um país com governantes extremistas, atrasados e mal educados, o governador do Estado mais importante manda retirar de apostilas a explicação do que é identidade de gênero.

Em um país com governantes extremistas, atrasados e mal educados, todos estes episódios ocorrem em apenas uma semana.

Pra frente, Brasil

O triunfo do poder pequeno

As eleições de 2018 confirmaram a vitória do poder pequeno, o que começou a ficar visível com as denúncias do mensalão, em 2004. O poder pequeno vem robustecendo-se e apoderando-se lentamente do poder do Estado nos últimos quase 20 anos. Uma novidade silenciosa, que nos torna politicamente ínfimos. Com ele, abriu-se o caminho para a ascensão política e a tomada do poder pelo pequeno homem do poder pequeno.

O pequeno protagonista do poder pequeno revela-se em sua notória incapacidade de usar as vestes apertadas do grande poder, o da pluralidade e da diversidade do que é consagrado pela Constituição. O pequeno homem do poder pequeno é o que briga todo o tempo com o poder do Estado porque pretende ajustá-lo à sua pequenez. Não sabe lidar com o tamanho próprio das instituições políticas e com os poderes da República, não os compreende.


Gente originária dos redutos do poder pequeno, que são os quartéis, as igrejas, os movimentos sociais, os grupos de pressão, os lobistas, as variantes do que o canadense Erving Goffmann definiu como instituições totais. As que respondem pela ressocialização redutiva e minimizante dos sujeitos, não raro com o explícito intuito de fazê-los instrumentos da sujeição do Estado às concepções e aos ditames do poder que representam. É o que estamos vivendo no Brasil neste momento: o triunfo do poder pequeno.

Esse poder começou a se constituir e a ter alguma eficácia nas contradições do regime militar de 1964. Com o enquadramento da limitada ação política no bipartidarismo: um partido do Brasil da ditadura contraposto a um partido residual do Brasil da democracia, que reunia até mesmo grupos populistas e fisiológicos, democráticos apenas por oposição.

O verdadeiro e invisível partido antiditatorial teve a existência e o perfil identificados e apontados, em 1980, pelo general Golbery do Couto e Silva, intelectual do regime, em conferência na Escola Superior de Guerra, no mesmo dia da primeira visita do papa João Paulo II ao Brasil. Justificou ele aos oficiais ali presentes as razões da abertura política gradual.

Reprimidos os partidos, a sociedade criara seus canais de expressão e contestação nos grupos e movimentos sociais antagônicos ao regime e no deslocamento da militância política para o abrigo de igrejas. Referia-se ele à conversão das demandas sociais em demandas políticas, sobretudo pela Igreja Católica. A abertura devolveria a política ao seu leito natural e anularia a função partidária que a igreja passara a desempenhar.

O general não explicou, e talvez nem soubesse, que já era tarde demais para essa providência. O regime derretera os partidos e propiciara uma espontânea ressocialização política da população, reduzida ao que estou aqui definindo como política do poder pequeno. Nos grupos e movimentos que proliferaram naquele período, tornou-se agente subterrâneo da política o pequeno homem, ou seja, a pessoa cujos horizontes eram o da vida comum, das necessidades e concepções da vida cotidiana, não raro da cozinha, da roça, da fábrica e da moradia. Aquelas para quem o controle do próprio fogão doméstico já era um poder. A vida cotidiana começava a revelar a força social e política de suas ocultações.

A grande política se tornava pequena. Tudo muito aquém dos marcos políticos da cultura erudita. Uma concepção abstrata de pobreza e da cultura popular tornou-se referência dessa redutiva reorientação da política brasileira. Tornamo-nos pobres de espírito, dotados de uma alienação peculiar, a do grande poder concebido na perspectiva do poder pequeno.

Com o discurso sobre o pobre veio uma compreensível ideologia do ressentimento contra as adversidades decorrentes da falta de liberdade política, que se estendeu ao questionamento da própria história brasileira. Como se viu nas manifestações contra as comemorações do quinto centenário do Brasil, na Bahia, em 2000. O passado vazio como idade de ouro de referência para compreensão e expressão de um generalizado sentimento de perda. Não o possível, o concreto amanhã prenunciado nas contradições de hoje.

Enquanto o pequeno poder esteve oculto nas dobras da sociedade, tudo parecia bem. Mas o efeito devastador de sua pequenez, nos gestos, nos discursos, nas ações, começou a mostrá-lo como o que é, aquém, incapaz e impatriota, redutivo e alienador. O pequeno poder do homem pequeno é o das "fake news", dos fake políticos, dos fake filósofos do poder. A autenticidade relativa do poder pequeno dos tempos iniciais metamorfoseou-se no inautêntico de homens pequenos de agora porque são um tanto vazios dos atributos de que carecem aqueles aos quais toca governar um país da importância histórica do nosso.
José de Souza Martins

Trégua?

No mais recente episódio do Brexit, o primeiro-ministro Boris Johnson sofreu derrota acachapante após a tentativa de fechar o parlamento britânico por cinco semanas, o que provavelmente resultaria no “no-deal Brexit”, ou a saída da Grã-Bretanha da União Europeia sem qualquer acordo, em outubro. Em 2016, pouco antes da votação do fatídico referendo, Nigel Farage, o engenheiro do Brexit e membro do partido nacionalista UKIP, afirmou que o Brexit seria a placa de Petri para a vitória de Trump nos Estados Unidos. Amigo de Steve Bannon, o homem que inventou o Movimento — o agrupamento de líderes e partidos populistas-nacionalistas —, Farage foi arroz de festa nas comemorações que seguiram a vitória de Trump. De lá para cá, Brexit e Trump têm sido vinculados à disseminação de uma ideologia de extrema-direita sustentada pelos pilares do nacionalismo, do conservadorismo retrógrado, de uma interpretação particular do que significa ser cristão no mundo moderno e diverso do século XXI, da supremacia racial, da negação das mudanças climáticas.


Comentei no artigo da semana passada que a linguagem usada por esses “novos” nacionalistas é muito parecida — não importa se estamos tratando do Brasil, da Turquia, dos EUA, da Hungria, da Itália. As lideranças desses países ou dos partidos da extrema-direita nacional-populista dizem mais ou menos as mesmas coisas sobre esses temas, usando às vezes as mesmas palavras. Pode ser que o repeteco seja falta de imaginação. Mas o mais provável é que as mensagens simples sobre assuntos complexos exerçam um hipnotismo entre camadas da população mais, digamos, vulneráveis. Essas camadas, que incluem as supostas elites em muitos casos — vejam o Brasil que elegeu Bolsonaro —, rejeitam as evidências científicas e aceitam as estultices que lhes são enfiadas goela abaixo pelas redes sociais e tribos às quais pensam pertencer. Para todos os que trabalham com fatos, o que acabo de escrever provoca tanto uma desilusão profunda quanto a intensa vontade de ocupar o vácuo deixado pelo anti-intelectualismo.

Nos últimos dias testemunhamos o cerco a Boris Johnson, a derrota de Matteo Salvini, a queda de popularidade de Jair Bolsonaro. Também vimos a guerra comercial entre os EUA e a China mostrar os primeiros efeitos sobre a indústria americana: pela primeira vez em três anos, o índice ISM, que mede o estado da indústria nos EUA, caiu abaixo dos 50 pontos. Quando isso acontece, normalmente é sinal de que uma recessão desponta no horizonte. Trump prometeu proteger a indústria nacional quando foi eleito em 2016 e trazer de volta empregos que haviam sido “roubados” pelos competidores internacionais. Eis que a notícia de que a indústria pode estar prestes a encolher não é nada boa para sua reeleição.

É demasiado cedo para saber se alguns desses sinais são indício de que o ciclo do nacionalismo populista pode se esgotar mais rapidamente do que se imaginava. Afinal, entre outros temas, vimos novamente a ascensão da extrema-direita alemã nas eleições regionais. A Índia está perseguindo muçulmanos na Caxemira e ameaçando retirar a cidadania dos que não professam o hinduísmo. A coalizão do 5 Estrelas de Beppe Grillo com os Democratas provavelmente se esfacelará. O Brexit, quem se arrisca? Foram tantas reviravoltas que é impossível saber se ao final teremos ou não ilha flutuante — e, é claro, penso na versão francesa do creme inglês. Por fim, Trump. Vencendo ou não as eleições, a verdade é que o construtor de muros transformou não apenas o Partido Republicano como também o Democrata. O grupo de candidatos à Presidência no campo dos democratas encolheu nas últimas semanas, o que não é surpresa. Contudo, difícil é encontrar um candidato ou candidata com posições mais próximas do que costumava ser o centro político americano. Alguns, como Bernie Sanders, não têm qualquer inibição em mostrar seu lado populista com viés nacionalista. Ele é contra o livre-comércio, ele é a favor de políticas que ponham os EUA em primeiro lugar — o America First —, ele defende que os empregos devam retornar para os EUA e que se danem as cadeias de valor. Elizabeth Warren é a versão tímida de Bernie Sanders. Não fala em America First, mas em planos para a prosperidade. Contudo, seus planos econômicos são muito parecidos com os de Trump. Joe Biden e Kamala Harris são mais “moderados”, mas flertam ou defendem a ideia de transformar o sistema de saúde de modo radical e fiscalmente insustentável. É claro que todos esses candidatos têm uma visão mais humana e esclarecida sobre outras questões fundamentais, como o clima, os imigrantes, o segregacionismo racial e por aí vai. Mas o ponto é que, ao menos na área econômica, Trump implodiu o centro para valer.

Que dure ao menos um pouquinho a trégua. Afinal, o que virá depois do ciclo nacionalista de extrema-direita em nada se parecerá com o mundo que muitos de nós vimos surgir após a queda do Muro de Berlim.
Monica de Bolle 

Voz armada

Além de reerguer moral e economicamente o país, o novo presidente precisaria pacificar o Brasil. Mas Bolsonaro parece desperdiçar a sua hora. Deveria fornecer trabalho e resultados. Preferiu industrializar a raiva. O governo seria outro se o presidente retirasse a raiva do pudim
Josias de Souza

O que os ingleses têm que nós não temos?

Amo o Rio de Janeiro. E Salvador e São Paulo. O Brasil inteiro. Por isso, estou com o coração partido e a alma dolorida, por minhas filhas, netos, bisneto, sobrinhos, minha mulher, meus colegas. Por todos os amigos e desconhecidos, e até por quem não gosta de mim. Me sinto quase culpado por estar feliz em Londres, às minhas custas, enquanto os brasileiros sofrem e lutam para sobreviver à insanidade que, como uma maldição, nos devasta corpo, alma e esperanças desde 2014.


Na Inglaterra, a tradição e o passado se harmonizam com o mundo moderno e as vanguardas tecnológicas, científicas e artísticas. Somos muito mais ricos em território, recursos naturais, quase tudo. O que os ingleses têm que nós não temos, além da história? Será a água? O álcool? Sim, eles também têm políticos sinistros, ladrões, corruptos, embora em menor número e voracidade. Mas ao menos não são toscos, grosseiros, intolerantes e ignorantes.

Conservadores são tão respeitados como socialistas. Falando em socialistas, hoje o Imposto de Renda para quem ganha mais de 200 mil libras por ano (pouco mais de um milhão de reais ) é de 50%. E sem reclamar, porque o país passa por crise econômica e quer evitar uma recessão. Antes do governo Thatcher, que reduziu os impostos, com os trabalhistas no poder chegou a 90% da renda além de um certo limite.

No Brasil o atraso e a ganância não têm ideologia. Nem classe social ou escolaridade.

Na Inglaterra, os 10% mais ricos têm renda 13 vezes maior do que os 10% mais pobres, mas no Brasil a diferença é de 40 vezes. Alguém tem que pagar pelo melhor sistema de saúde pública da Europa, pelo sistema de educação e cultura que produz mão de obra qualificada e cidadãos civilizados que convivem e discordam na maior democracia europeia, mesmo sendo uma monarquia.

Sairia muito mais barato bancar uma família real do que uma república imperial à brasileira.

Nelson Motta 

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

O novo 'escolhido'


Não posso, como cidadão que conhece a vida, como sexagenário, estudioso, professor, aceitar ideologia de gênero
Augusto Aras, indicado por Bolsonaro para a Procuradoria Geral da República

Autonomia mandada às favas

Se nem ao povo que o elegeu o presidente Jair Bolsonaro deve lealdade cega, como ele mesmo disse ontem, a quem de fato deve? Às suas escassas e controversas ideias a respeito de como governar bem? Aos que o cercam? Ou somente àqueles que o cercam sempre dispostos a concordarem com ele em tudo e por tudo?

A escolha do novo Procurador-Geral da República foi mal recebida até por uma parcela dos devotos fanáticos de Bolsonaro – algo como 12% que o apoiam incondicionalmente, segundo o Datafolha. Augusto Arias, o escolhido, foi acusado de ser petista, ou de ter sido porque reuniu petistas para uma festa há muitos anos.

Bolsonaro replicou com a ameaça de mandar apagar os comentários contra Arias em suas páginas nas redes sociais. Nelas só serão acolhidos comentários elogiosos ao seu dono e ao que ele faça. Vão brincar de expressar livremente suas opiniões nas páginas dos outros, na do capitão, não. Ali, ele cobra acatamento.


Pouco se lhe dá que a escolha de Arias tenha sido rejeitada pela maioria dos nomes de peso entre os procuradores da República que se recusam a trabalhar com ele – ou que dizem que se recusarão, a conferir mais adiante. Bolsonaro fez o que prometeu: optou por um nome que julga 100% alinhado com seus propósitos.

Tais propósitos resumem-se num só: fazer o que ele mandar. Se ele quiser que determinados processos sejam arquivados, serão. Se quiser que outros sejam abertos para embaraçar seus adversários, serão também. Não precisa que Arias seja “terrivelmente evangélico”. Basta que seja “terrivelmente obediente”.

O mesmo critério será aplicado à escolha do novo diretor-geral da Polícia Federal – obediência acima de tudo, só abaixo de Deus, e olhe lá. A Pátria corre riscos. O mundo quer tomar a Amazônia. Os terroristas estabelecidos na região da tríplice fronteira podem aprontar um atentado a qualquer momento. E a família...

Pois é. No caso, a nova família imperial brasileira formada por Bolsonaro, seus filhos e agregados terá de ser protegida. O mal costuma assumir várias formas. As milícias, por exemplo, nem sempre foram uma das faces do mal. Serviram para defender a população dos traficantes de drogas, segundo Bolsonaro.

Mas os inimigos do presidente, dos seus filhos e agregados querem ligá-los às milícias pelo lado mal das milícias, não pelo lado bom ou tolerável. Daí a necessidade da proteção reclamada por Bolsonaro. Sérgio Moro já não lhe inspira tanta confiança. Melhor pôr um homem de sua confiança no comando da Polícia Federal.

Isso significa desrespeito à autonomia que sempre desfrutaram a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal? Claro que sim, mas Bolsonaro está pouco se lixando. O Procurador-Geral da República dos governos do presidente Fernando Henrique Cardoso foi na prática um engavetador de processos. Esqueceram?

Bolsonaro continuará testando todos os limites oferecidos pela lei e pelos costumes com o objetivo de alargá-los ao seu gosto, ou, se for o caso, rompê-los. Assim será até o último dos seus dias na presidência. Resta aos que se preocupam com a democracia impedir que ela se deteriore a um ponto de não retorno.

Ingenuidade pode levar à câmara de gás

O cônsul alemão Hertz adorava as artes plásticas modernas, os cavalos azuis de Franz Marc, as alongadas figuras de Wilhelm Lehmbruck. Era uma pessoa sensível e romântica, um judeu com séculos de herança cultural. Certa vez perguntei-lhe:

- E esse tal Hitler, cujo nome aparece de vez em quando nos jornais, esse chefete anti-semita e anticomunista, não acha que poderá chegar ao poder?

- Impossível - respondeu.

- Como impossível, com todos os absurdos que vemos nas história?

- É que o senhor não conhece a Alemanha - sentenciou - Lá é impossível que um agitador louco como aquele chegue a governar ao menos uma aldeia.

Pobre amigo, pobre cônsul Hertz! Aquele agitador louco por muito pouco não governou o mundo. E o ingênuo Hertz deve ter terminado em uma anônima e monstruosa câmara de gás, com toda sua cultura e seu nobre romantismo.

Pablo Neruda, "Batávia"

Isso passa

As pesquisas sobre a atuação do presidente Jair Bolsonaro mostram claramente que o nível de expectativa em torno de um presidente é mais alto do que se supõe.

Bolsonaro não acredita em pesquisas. Ele acha que sabe o caminho, não se importa muito com o que acontece na realidade. Navega com otimismo sobre a economia com base, sobretudo, na reforma da Previdência. Ignora, talvez, que seus frutos demoram. E que o momento é muito delicado.

Lendo a história da renúncia de James Mattis, secretário da Defesa de Donald Trump, sinto que é possível estabelecer um paralelo com a figura de Bolsonaro. Mattis é um general da Marinha, o mais respeitado dos Estados Unidos. Discordava de Trump e de sua política de afastamento de alianças tradicionais.

Trump disse que Mattis estava parecendo democrata e que entendia da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mais do que seu secretário da Defesa. Acontece que Mattis já foi o chefe supremo das forças da Otan.

Mattis teria dito a amigos que Trump tem dificuldades cognitivas. Mas talvez uma causa dessa dificuldade seja exatamente supor que saiba o que não estudou, não ouviu.

Para Mattis, o modelo é George Washington, para quem era necessário ouvir, aprender, ajudar e, depois, liderar. Na verdade, esse modelo de certa forma prevalece até a ascensão de líderes populistas. Hoje está em frangalhos, tanto aqui como nos EUA.

Bolsonaro anunciou que pretende anistiar os autores dos massacres do Carandiru e de Carajás. Vai se chocar com a lei. É um ato simbólico, pois há poucos presos.

No entanto, isso vai afundar mais a imagem do Brasil no exterior. Não porque as pessoas sejam defensoras ardorosas de direitos humanos, ou mesmo de esquerda ou de direita. É porque um marco civilizatório é rompido, entramos na fronteira da barbárie.

Segurança jurídica não significa licença para matar. De que adiantam a lei e o júri, se o presidente anistia?

Bolsonaro não vai mudar. Tenho lido notas em que ministros dizem que ele é assim mesmo, uma pessoa que diz o que pensa. Alguns afirmam que a economia está deslanchando e frases ditas aqui e ali não têm importância. Ignoram o peso dessas frases na própria economia. E seguem no barco.

Mattis percebeu que era impossível manter a política de alianças dos Estados Unidos e simplesmente caiu fora. Não queria legitimar uma política que, apesar das aparências, enfraquecia o seu país.

Aqui, o governo marcha coeso para o isolamento. E escolheu, agora, a Amazônia como tema e a Igreja Católica como adversária.

O sínodo sobre a Amazônia traria como grande novidade a permissão para que padres casados atuassem na região. Mas o governo quer manter o foco em sua política ambiental, neste momento em que as chamas consomem parte da floresta.

A tese da ameaça à soberania pressupõe que a Europa não acredita no aquecimento global e viria explorar os recursos minerais da Região Amazônica. São bilhões de euros investidos numa economia de baixo carbono, dificilmente seu projeto estratégico seria liberar carbono na Amazônia. Seria execrado pelos eleitores.

Verdade é que Emmanuel Macron, presidente da França, em certo momento autorizou a exploração de ouro na Guiana Francesa, mas recuou diante da resistência local.

A formulação brasileira sobre o desenvolvimento da Amazônia prevê que seja sustentável e inclusivo. Isso poderia perfeitamente ser feito com a cooperação internacional, sem perda de soberania.

No momento, fala-se em mineração, avanço sobre as terras indígenas. E o fogo das queimadas revela também o efeito de um intenso desmatamento.

O Brasil é soberano para adotar uma política de devastação da Amazônia. Mas haverá consequências, internas e externas. Não me parece razoável que os defensores de outro modelo sejam considerados adversários da soberania nacional.

Vamos enfrentar a realidade. Não se questiona a soberania, mas precisamente o que o governo está fazendo dela, como a exerce na prática. Trata-se de um processo difícil, porque a tese da soberania desconfia de pesquisadores, cientistas, e os remete para o outro lado da trincheira.

Voltamos à questão da dificuldade cognitiva na sua plenitude. É uma soberania que dispensa o conhecimento como uma das suas ferramentas. Ela se exerce na doutrina.

O mundo mudou e é impressionante como o exercício mais comum no debate amazônico é apontar interesses ocultos dos atores. A Amazônia tem mesmo sua importância para o mundo numa era em que se expandiu a preocupação ambiental – mas tudo isso fica em segundo plano. Se o Brasil levasse em conta essa realidade como um dos pontos centrais de sua posição no mundo, as coisas seriam bem melhores.

Mas não são.

O fato positivo é que as pessoas percebem, por diversas razões, que não estamos num bom caminho. Esse dado valida a tese de que é importante sempre apontar os erros sem buscar conflitos, pois é exatamente esse o estilo que favorece tanto Trump como Bolsonaro. E, enfim, acreditar na inteligência popular e no seu aprendizado, na possibilidade de as maiorias mais tolerantes retomarem as rédeas do País.

Há conservadores que dizem que a política é a arte de confortar as pessoas diante da desolação do real. O estilo de Trump e de Bolsonaro vai na direção oposta: tornar o real insuportável. São fenômenos novos, mas que as duas sociedades têm condições de tornar passageiros.

Aliás, para dizer a verdade, esta é uma frase que tenho ouvido com frequência, sobretudo entre pesquisadores e cientistas que sabem o valor do conhecimento: “Isso passa”.

E nem sempre essa frase conota resignação. Ao contrário, anima.

Brasil emporcalhado


Metralhadora giratória

Quanto mais atordoado, mais o presidente Jair Bolsonaro dá asas ao que há de pior na sua personalidade e mais amplia suas frentes de batalha, internas e externas. O ambiente é de perplexidade com o presente e de dúvidas quanto ao futuro, enquanto vai ficando gritante o fosso entre um presidente que só cria problemas e um Congresso afinado com a área econômica para resolver problemas.

Depois de França, Alemanha, China, mundo árabe, Argentina, Cuba, Noruega, Dinamarca e mais uns tantos, Bolsonaro desvia sua metralhadora giratória para o Chile, onde uniu governo e oposição, direita e esquerda, contra ele. A imagem brasileira no exterior se deteriora na mesma proporção da popularidade do presidente.

Bachelet é presidente eleita e reeleita no Chile, tem biografia admirável, é filha de um militar respeitável e atual alta-comissária para Direito Humanos da ONU. Engana-se Bolsonaro ao dizer que se trata de um carguinho para quem não tem o que fazer. Ao contrário, tem prestígio e não é para qualquer um – ou uma.


O ataque a Bachelet, inoportuno em si, carrega agravantes. O pior é o conteúdo. Assim como remexeu a profunda dor do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, cujo pai foi torturado até a morte e é listado como “desaparecido”, Bolsonaro comemora o fato de o pai de Bachelet, de alta patente, ter sido torturado e morto pela ditadura chilena, que depois torturou também sua filha.

Os “crimes” do general Bachelet – “comunista”, segundo Bolsonaro – foram patriotismo, legalismo, respeito à democracia e coragem pessoal para reagir a um golpe de Estado que se transformou no circo dos horrores, como se viu. Bem, os ídolos do presidente brasileiro são Brilhante Ustra, Pinochet e Stroessner. (Sem falar em Trump, caso bem diferente.)

Outro agravante é que, ao atingir Bachelet, Bolsonaro mexeu com os brios e as cicatrizes do Chile e empurrou o presidente Sebastián Piñera para o campo de batalha. Em pronunciamento formal, com a bandeira do país, ele declarou que não concorda, em absoluto, com o tratamento dispensado a sua antecessora (e, diga-se, adversária). E quem é Piñera? Inimigo? Esquerdista? Não, simplesmente um presidente de centro-direita que vinha tentando mediar o conflito Bolsonaro-Macron. Logo, Bolsonaro acaba de perder uma peça importante na sua mesa de operações de guerra.


Por fim, Bachelet é alta-comissária da ONU e o presidente disse que vai abrir a assembleia-geral da organização no dia 24, mesmo após a cirurgia deste fim de semana. Ele, portanto, se encarregou de desmatar as boas-vindas e de queimar o clima para seu discurso. Autossabotagem. Já imaginaram se houver boicote? Os diplomatas brasileiros nem conseguem imaginar.

No front interno, o alvo é Sérgio Moro. O presidente parece sentir um prazer mórbido em manipular publicamente seu ministro, que continua sendo a estrela do governo, mas perde em imagem e ganha a desconfiança de seus velhos aliados de Lava Jato, ao assistir passivamente à fritura grosseira do delegado Mauricio Valeixo, diretor-geral da PF.

Valeixo é servidor público, com uma cultura e uma lógica muito diferentes do economista Joaquim Levy. Atacado por Bolsonaro, Levy jogou a toalha de cara. Atacado uma, duas, três vezes, Valeixo reage com a altivez que sua instituição requer de seu diretor e joga a bola para Moro, seu chefe direto, que só tem duas alternativas: ou demite o companheiro e se demite da Lava Jato, ou sai junto com ele de onde, segundo muitos, jamais deveria ter entrado.

Uma boa pergunta é o que Bolsonaro e o Brasil ganham com tantas guerras ao mesmo tempo, mas essa tem resposta na ponta da língua. A grande, enorme, dificílima questão é aonde tudo isso vai parar. Ou melhor: para onde vai nos levar.

Os limites do bolsonarismo

A vitória de Jair Bolsonaro foi vista por muitos como o início de um novo ciclo de longa duração, em sintonia com a onda nacional-populista que varre o mundo. Um dos líderes petista, José Dirceu, com boa dose de realismo, alertou seu partido quanto à longevidade da hegemonia da extrema-direita estabelecida com a assunção do bolsonarismo.

O céu parecia ser o limite para sua expansão. Previa-se que Bolsonaro avançaria nas fortalezas do lulopetismo estabelecidas no Nordeste e nos bolsões de miséria dos grandes centros urbanos. Seria também o grande eleitor das eleições municipais e chegaria em 2022 na condição de imbatível.

No oitavo mês do seu mandato, o Datafolha e outros institutos de pesquisa indicam uma reversão das expectativas, com a desidratação significativa do apoio ao seu governo. Até o ex-presidente Fernando Collor de Mello, com confisco da poupança e tudo, teve, em oito meses de governo, uma desaprovação menor do que a de Bolsonaro. Como entender uma reversão tão brusca?


A explicação talvez esteja na superestimação do peso da extrema direita na eleição do presidente. Ela se deu menos ao tamanho do seu eleitorado puro sangue e mais pelo antipetismo espraiado pela sociedade. O próprio presidente pensou que era tudo a mesma coisa. Não é. O eleitorado de centro que apoiou sua candidatura para se livrar do PT começa a fazer o caminho de volta.


Por uma razão simples. A estratégia da radicalização satisfaz a sede de sangue de seu nicho, mas não dá respostas às reais necessidades da sociedade, sobretudo dos mais pobres. E afugenta o amplo espectro do eleitorado situado entre os dois extremos.

Uma leitura cor de rosa, da qual o presidente compartilha, é que há um núcleo irredutível ao seu redor, em torno de 30%, como as pesquisas constatam hoje. Mas será esse mesmo seu fundo do poço, ou o piso é mais embaixo? Bolsonaro não só acha que sim, como acredita que ele será anabolizado pela retomada da economia. Daí dobrar a aposta na radicalização, comprando briga contra tudo e todos. Até com a Santa Madre Igreja, com quem político que se preza não entra em rota de colisão.

Há uma boa dose de otimismo exagerado nos seus cálculos. A extrema direita, assim como a extrema esquerda, são correntes minoritárias. Estão bem abaixo de ser um terço do eleitorado. Só se tornam robustas quando ampliam seu discurso para a maioria da sociedade.

Como o presidente mantém-se inflexível na rota traçada, a tendência é de mais desidratação da sua base de apoio. Para reconquistar os 25% dos eleitores que votaram nele e hoje desaprovam seu governo, teria de moldar o seu discurso. Mantida a atual estratégia, afugentará novas parcelas que ainda lhe dão algum crédito. O tempo é seu adversário. Quanto mais ele passa, menor o apoio ao governo.

O cenário econômico tampouco ajuda. O panorama internacional é de estagnação e a perspectiva é de baixo crescimento aqui dentro, nos próximos dois anos. Quanto mais se aproxime sua sucessão, mas resultados cobrará de Paulo Guedes, seu Posto Ipiranga. Como não há muito coelho na cartola do ministro da Economia, Bolsonaro pode dar um cavalo de pau, adotando medidas populistas. Essa tentação sempre aparece quando um mandatário tem a caneta na mão e tem dificuldades para se reeleger. Ora, se Maurício Macri, um liberal convicto, acaba de fazer isso na Argentina, o que dirá Bolsonaro, um cristão novo do credo liberal?

A frustração com Bolsonaro pode levar água para o moinho do populismo de esquerda. O passadismo é sempre um sentimento que viceja em momentos de crise. Vide a Argentina, onde a sensação de que “a vida era melhor tempos de Cristina” ressuscitou o kirchnerismo.

O fracasso de Bolsonaro pode gerar a onda semelhante, como se os anos do lulopetismo tivessem sido o paraíso. Esse sentimento apareceu no último Datafolha, quando se indagou em quem votaria caso se reproduzisse a polarização Bolsonaro/Haddad.

Não estamos condenados a ficar entre o diabo e o demônio. Os limites do bolsonarismo abrem possibilidades de rearticulação do centro democrático por meio de uma proposta não saudosista, que seja liberal na economia, progressista no campo social e radicalmente comprometida com os valores democráticos.

Em política, nada acontece por geração espontânea. Uma saída virtuosa só acontecerá se os sujeitos que fazem a História arregacem as mangas e a façam acontecer.

Guedes demora a converter gogó em resultados

Agora é Paulo Guedes quem ofende Brigtte Macron. Mimetizando o comportamento de Jair Bolsonaro, a mulher do presidente da França, Emmanoel Macron. Numa palestra para empresários, no Ceará, ele esticou o deboche: "Não existe mulher feia. O que existe é mulher vista pelo ângulo ruim". Pobres mães e pais. Há cada vez menos exemplos para dar aos filhos —"Não minta, meu filho. Ou você acaba virando ministro da Economia. Ou morando no Palácio da Alvorada".

Quando Bolsonaro declarou que havia encontrado um Posto Ipiranga para abastecer sua ignorância econômica, faziam-se apostas sobre qual das diatribes do capitão produziria a crise que faria o ministro jogar tudo para o alto e cumprir a ameaça que repetiu há três meses: "Pego um avião e vou morar lá fora". Sabia-se que Guedes não consertaria Bolsonaro. O que ninguém imaginava é que Bolsonaro pudesse estragar em tão pouco tempo um economista egresso da escola de Chicago.

Guedes encaixou Brigitte em sua prosa a pretexto de criticar a imprensa. Empilhou iniciativas adotadas pela equipe econômica. E lamentou que, a despeito de enxergar "progressos em várias frentes", os meios de comunicação preferem pendurar nas manchetes as polêmicas que brotam dos lábios de Bolsonaro: os ataques à ex-presidente chilena Michelle Bachellet, as referências à idade e feiúra da mulher do Macron... Questionado pelos repórteres, classificou sua própria descortesia de brincadeira.

Horas depois, Guedes mandou sua assessoria soltar uma nota oficial. Nela, está escrito que "a intenção foi ilustrar que questões relevantes e urgentes para o país não têm o espaço que deveriam. Não houve qualquer intenção de proferir ofensas pessoais". A emenda conseguiu piorar o soneto.



Supunha-se que o ministro já tivesse notado que a crise está na ponta da língua de Bolsonaro, não no noticiário que reproduz suas barbaridades. Se o presidente trouxesse suas palavras na coleira e o ministro convertesse gogó em resultados, a imprensa mudaria de assunto instantaneamente.

O problema é que Bolsonaro não para de produzir insensatez. A penúltima foi o vaivém sobre o teto dos gastos. Num dia, a revisão do teto é um imperativo matemático. O porta-voz do Planalto ecoou o chefe, endossando-o. Na manhã seguinte, o recuo nas redes sociais. E o país fica autorizado a suspeitar que Bolsonaro está mais preocupado com as urnas de 2022 do que com os cofres de 2019. Cofres que Guedes prometera sanear no primeiro ano de governo.

O governo entrou no nono mês. E o ministro da Economia ainda não levou ao Congresso uma proposta lapidada de reforma tributária. O fim dos subsídios? Nada. A facada na mamata do Sistema S? Nem sinal. A coleta de R$ 1 trilhão com a venda de estatais e imóveis públicos? Necas. A desvinculação de gastos obrigatórios do orçamento? Lhufas. Por enquanto, há uma reforma previdenciária saindo do forno, um presidente que produz crises diárias na saída do Alvorada e um ministro da Economia com uma garganta enorme.

Os governos do Brasil tem convivido com ministros econômicos que se consideram extraordinários. Alguns têm o prestígio de super-ministros. No final das contas, vários apresentam um defeito comum. Costumam encontrar as verdadeiras soluções para os problemas econômicos do país quando se transferem do palco para a crítica. Para evitar a sina dos ex-ministros geniais, Paulo Guedes deveria adotar como prioridade serenar a retórica do presidente, não aderir à mesma incivilidade.

Pensamento do Dia


A injustiça global da crise climática

Nos últimos anos, ambientalistas e cientistas vêm alertando que os países mais pobres, que têm pegadas de carbono muito baixas, estão sofrendo o impacto das emissões de dióxido de carbono da fatia mais rica do mundo. Um relatório da agência beneficente britânica Christian Aid mostra essa disparidade.

O relatório Greve de fome: o índice de vulnerabilidade climática e alimentar aponta que os dez países que registram os maiores índices de insegurança alimentar no mundo geram menos de meia tonelada de CO2 por pessoa. Combinados, eles geram apenas 0,08% do total de CO2 global.

"O que realmente me surpreendeu e me chocou foi a forte correlação negativa entre pobreza alimentar e a baixíssima emissão per capita", diz a autora do relatório, Katherine Kramer. "É muito maior do que esperávamos."

No topo do ranking está o Burundi, na África Central, que registra 0,027 toneladas, a menor emissão de CO2 per capita entre todos os países. O número é tão baixo que é muitas vezes arredondado para zero. Em comparação, os alemães, americanos e sauditas geram, em média, a mesma quantidade de CO2 que 359, 583 e 719 burundeses, respectivamente.

Conforme destacado no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a insegurança alimentar é uma das principais ameaças à vida humana que podem ser provocadas pelas mudanças climáticas. Esse risco é especialmente maior no Hemisfério Sul, onde as pessoas dependem da agricultura em pequena escala e são mais vulneráveis a secas, inundações e condições climáticas extremas.

No Burundi, que já vem enfrentando insegurança alimentar como resultado da instabilidade política – e onde a prevalência de desnutrição crônica é a mais alta do mundo – a mudança dos padrões climáticos é encarada com preocupação.

As chuvas no país africano foram muito esporádicas nos últimos três anos, particularmente em algumas regiões dependentes da agricultura. E o relatório prevê que inundações e secas extremas resultarão em um declínio da produção de entre 5% e 25% nas próximas décadas.

"O Burundi é uma testemunha vivo da injustiça da crise climática", diz Philip Galgallo, diretor do braço da Christian Aid para o Burundi. "Apesar de produzirmos quase nenhuma emissão de carbono, nos encontramos na linha de frente das mudanças climáticas, sofrendo com temperaturas mais altas, produção mais baixa das colheitas e chuvas cada vez menos regulares."

Vidas mais secas no Nordeste brasileiro
É uma história parecida com a do segundo país com maior índice insegurança alimentar do mundo: a República Democrática do Congo (RDC), que também tem a segunda menor pegada de carbono. A elevação rápida das temperaturas implica um risco ainda maior de disseminação de doenças entre os animais e nas lavouras. Além disso, os padrões de chuva estão mudando, deixando os agricultores congoleses inseguros sobre quando plantar e quando colher.

As mudanças climáticas não afetam apenas a produção das plantações e a capacidade de cultivar alimentos. O CO2 também afeta diretamente os nutrientes presentes nas colheitas.

Um estudo recente da revista científica Lancet Planetary Health analisou como as mudanças climáticas e os níveis crescentes de dióxido de carbono na atmosfera estão reduzindo a prevalência de nutrientes em alimentos básicos, como arroz, trigo, milho e soja. Cerca de 50% das calorias consumidas do mundo vêm desses grãos.

O estudo constatou que, nos próximos 30 anos, a disponibilidade de nutrientes críticos para a saúde humana, incluindo ferro, proteína e zinco, poderá ser significativamente reduzida se o planeta continuar a produzir emissões de CO2 no mesmo ritmo.

"Vamos enfrentar uma redução de 14% a 20% na disponibilidade global de ferro, zinco e proteína em nossa dieta", prevê o autor do estudo Seth Myers.

E as implicações dessa redução são muito significativas.

"A deficiência de ferro e zinco nos alimentos hoje já faz com que cerca de 60 milhões de anos de vida sejam perdidos anualmente. Então essas deficiências já provocam grandes cargas globais de doenças", afirma Myers.

"Como resultado do aumento dos níveis de CO2, centenas de milhões de pessoas vão passar a correr risco de morrer por causa de deficiências de zinco e proteínas. E cerca de um bilhão de pessoas que já têm essas deficiências vão vê-las serem exacerbadas", diz.

Tais deficiências aumentam a mortalidade infantil por doenças e enfermidades como malária, pneumonia e diarreia.

As pessoas mais afetadas estarão no Hemisfério Sul, diz Myers. Isso porque aquelas que correm maior risco de sofrer com essas deficiências nutricionais já contam com dietas menos diversificadas e um menor consumo de alimentos de origem animal, como carne, leite, ovos, queijo e iogurte.

"E isso não deixa de ser meio irônico, já que essas são as pessoas que têm menos responsabilidade pela emissão de dióxido de carbono que está tornando os alimentos menos nutritivos", explica Myers. Ele descreve a situação como uma emergência de saúde pública e uma crise moral.

"Não há desculpa para não agir com a máxima urgência quando são as emissões da parte mais rica do mundo que estão colocando as pessoas mais pobres do planeta em perigo", afirma.

Kramer, da Christian Aid, por sua vez, diz que existem várias medidas que o mundo desenvolvido precisa adotar para combater a insegurança alimentar e ajudar a combater as mudanças climáticas.

"A primeira e mais importante é reduzir drasticamente e muito rapidamente suas próprias emissões", diz ela. "Podemos continuar a nos refugiar em ambientes fechados, com nossos ventiladores e ar-condicionado. Temos acesso a estoques de água para nos refrescar. As mudanças ainda não nos atingiram da mesma maneira, mas já estão afetando o mundo em desenvolvimento."

Myers concorda. "Temos que parar de queimar combustíveis fósseis. Precisamos fazer a transição para fontes renováveis e evitar as emissões de dióxido de carbono o mais rápido possível. Precisamos também ter um senso de urgência moral para essa transição", afirma.

Outro passo importante é dar apoio aos países em desenvolvimento. Kramer diz que isso pode ser feito com incentivo financeiro ou com o fornecimento de tecnologia e educação, principalmente para a instalação de sistemas de alerta prévios que permitam que os países prevejam quando um desastre natural está prestes a acontecer e possam se preparar adequadamente.

Ainda segundo Myers, também é preciso ajudar os países em desenvolvimento a melhorar sua produtividade e resiliência (capacidade de resistência e recuperação de um ecossistema).

Por meio do Acordo de Paris sobre o clima, quase todos os países desenvolvidos do mundo já se comprometeram a fornecer recursos para ajudar países em desenvolvimento a combater os efeitos das mudanças climáticas, mas não estão previstas penalidades para aqueles que não cumprirem suas promessas.

É por isso que Kramer acredita que as pessoas precisam pressionar seus governos a cumprir as metas. "Se não diminuirmos nossas emissões e resolvermos a crise climática como uma comunidade global, os impactos serão cada vez piores, e milhões de vidas estarão em risco", conclui.
Deutsche Welle

Língua grande atrasa o país

Tomo a liberdade de sugerir ao Presidente: cuide mais do seu país, mais de seu povo. Menos briga, menos confusão, menos agressões. Invista seu tempo cuidando de seu povo, de seu país. Temos 13 milhões de desempregados, 7 milhões subempregados. 60 milhões votaram no presidente na esperança dele mudar o país
João Doria, governador de São Paulo (PSDB)

Somos atacados pelo governo

Nós estamos sendo atacados. Quem somos nós? É difícil nos definir. Temos tipos diferentes. Somos de raças e idades diferentes. Nossos cortes de cabelo, formatos do nariz, formatos de orelhas, gostos musicais, manias, interesses, preocupações, alergias, saldos bancários e cheiros corporais são variados, e torcemos por times diferentes. Mas, no momento, o que deve nos unir é o fato, agora inegável, de que estamos sendo violentamente atacados pelo nosso próprio governo. Temos que esquecer nossas diferenças e nos concentrarmos nesta verdade nua e crua: que isto não é um país, isto é uma zona de guerra. E eles atiraram primeiro.


Cada novo pronunciamento do Bolsonaro é um morteiro que nos atinge. Cada nomeação esdrúxula para o governo mais estranho da nossa História parece ter sido feita especificamente para nos obrigar a usar a palavra “esdrúxula”, o que inibe qualquer reação mais séria. Temos o governo civil mais militar que o país já conheceu, para nos confundir. Aguarda-se a explicação que nosso futuro embaixador em Washington dará para isso, e em que língua.

A campanha mais intensa deles contra nós é a que está começando agora, com um ataque frontal à inteligência brasileira. Verbas para a pesquisa estão sendo cortadas — às gargalhadas, não duvido — e isso é apenas o começo de cortes que virão em todo o sistema educacional, o primeiro sacrificado onde quer que “o mercado” derrote o bom senso. Para ganhar esta guerra pelos cérebros da nação, um lado tem a força e a tesoura; e o outro tem só a indignação estéril — mas que pode surpreender. Os estudantes estão voltando às ruas.

Pelas pesquisas de avaliação, a popularidade do Bolsonaro e a aprovação do seu governo estão caindo. Pesquisas de opinião são enganosas, podem refletir o entusiasmo de um momento e nada mais. De qualquer maneira, nós, mesmo desorganizados, estamos começando a nos mobilizar.
Luis Fernando Verissimo

O pândego perigoso

Num único dia do início deste mês de agosto, a Gronelândia perdeu 12,5 mil milhões de toneladas de gelo, por causa das temperaturas elevadas, provocadas pela passagem de uma vaga de calor que, anteriormente, já tinha atingido grande parte da Europa Central. Nas contas feitas pelo cientista climático Martin Stendel, essa quantidade de gelo, depois de derretida, seria suficiente para cobrir toda a superfície da Alemanha (360 mil km2) por uma camada de água com sete centímetros de altura.

Embora este tenha sido um fenómeno extremo, não é um caso único. Na última década, os episódios de degelo têm-se intensificado na maior ilha do planeta, aquela onde os fenómenos meteorológicos e climáticos são mais bem estudados, com medições permanentes através de sondas no terreno e por satélite. Graças a esses instrumentos, os cientistas são capazes de registar, com uma precisão milimétrica, as variações da camada de gelo e a quantidade precisa de água doce que a Gronelândia vai “despejando”, nas estações quentes, para os oceanos. Todos os anos, a Gronelândia ganha gelo no inverno, devido à acumulação da neve, e perde-o no verão, através do degelo e da libertação de icebergues. Só que, de forma consistente, desde 2003, ano após ano, a Gronelândia tem visto a sua quantidade de gelo diminuir. Entre 2003 e 2017, precisam os cientistas, a ilha perdeu mais de 3 mil milhões de toneladas de gelo.


Estes números indicam que a Gronelândia está a perder gelo a um ritmo muito superior àquele que, ainda há bem pouco tempo, era previsto pelos cientistas. Aquilo que, em alguns cenários, se pensava que iria ocorrer apenas daqui a quatro ou cinco décadas, começa já a ser observado na ilha que, para a Ciência, funciona quase como um laboratório ao vivo do impacto do aquecimento global, uma espécie de “canário na mina de carvão” das alterações climáticas.

Toda esta quantidade de gelo a derreter, em especial ao ritmo dos últimos meses, fez disparar os alarmes na comunidade científica, temendo-se que a subida do nível médio dos mares, até ao final do século, possa ser muito superior ao que tinha sido indicado no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas: em vez de uma subida “prudente”, não superior a 98 centímetros, é melhor começarmos a preparar-nos para um cenário com mais de dois metros, se continuarem as atuais emissões de gases com efeito de estufa, inundando vastas áreas do planeta, algumas das cidades mais emblemáticas, e criando cerca de 200 milhões de refugiados climáticos.

Perante estes sinais de alarme, em vésperas de uma Assembleia Geral das Nações Unidas que, em setembro, por iniciativa de António Guterres, pretende marcar um ponto de inflexão da Humanidade na luta contra as alterações climáticas, Donald Trump apenas viu uma oportunidade de negócio: a compra da Gronelândia (tal como os EUA fizeram, no passado, com o Alasca e o Louisiana, entre outros casos), animado pelo seu interesse geostratégico, num Ártico cada vez mais navegável, e pela possibilidade de exploração dos seus recursos naturais, como o carvão e o urânio.

Sobre a urgência de combate ao aquecimento global, o Presidente da única nação que quis abandonar o Acordo de Paris não pronunciou uma única palavra. Preferiu declarar que via aquela compra como “um grande negócio de imobiliário”.

O interesse de Trump na compra da Gronelândia fez soltar gargalhadas por esse mundo fora, como se fosse apenas mais um desvario do pândego, a que não se deve dar importância. É errado: mais do que rir de Trump, os líderes mundiais deviam ter-lhe pedido responsabilidades pelo degelo na Gronelândia e o seu compromisso, como líder de um dos países mais poluidores do mundo, no esforço global para impedir que a situação piore. Até porque é esta postura de Trump que, por exemplo, dá gás a Bolsonaro para também encarar a Amazónia como um negócio privado do Brasil, e não como um património essencial para a sobrevivência da Humanidade. Se ninguém os enfrentar, arriscamo-nos a que se multipliquem os pândegos, cada vez mais perigosos.
Rui Tavares Guedes - Editorial Visão