quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Faxismo nunca +

O desejo de mudarmos era antigo, mas demorou muito até conseguirmos trocar a modesta casa térrea pelo primeiro andar quase a estrear que – palavras dos meus pais – mandava ventarolas. Um morador dos bairros acima da linha dos caminhos de ferro que cortava Luanda em duas não encontraria diferenças significativas entre a casa velha e a nova, nas ruas de terra batida por que ambas eram servidas nada podia merecer atenção, mas para nós a casa nova era o prenúncio de que a partir dali tudo nos iria correr bem.

Mudáramos há menos de um ano, eu saltava à corda perto da igreja que se ia construindo com as contribuições dos fiéis, quando a Editinha magricelas apareceu afogueada com a notícia, Houve uma revolução na metrópole. Nem eu nem os meus amigos nos distraímos da brincadeira, a capital do Império era, para nós, tão irreal quanto o céu que, mesmo baixo de nuvens escuras, continuava lá longe. Aos sábados de manhã, cantávamos hinos ao Império com o mesmo desprendimento com que entoávamos os cânticos da missa de domingo. Dali a menos de três meses, eu faria dez anos.


Nesse meu aniversário, enchi-me de alegria infantil com os dois dígitos que desenhariam a minha idade para o resto da vida. Forrámos o quintal com folhas de palmeira, comprámos um barril de cerveja para acompanhar o churrasco, pusemos merengues a tocar, a festa durou até de manhã. Ter-se-ão ouvido tiros também nessa noite, a revolução da metrópole, que não parara as nossas brincadeiras, trouxera já os movimentos independentistas para Luanda, os soldados portugueses desleixavam-se com canhangulos e liamba, os novos donos da cidade patrulhavam as ruas armados até aos dentes, mas a nossa vida parecia poder seguir quase igual, o meu pai continuava a transportar café para os navios que atracavam no porto, a minha mãe tomava conta de nós e da casa, íamos à escola, almoçávamos no Vilela aos domingos. E eu continuava a brincar na rua.

No dia em que a revolução fez um ano, corriam já, há muito, boatos de que os comunistas da metrópole queriam deixar os colonos morrer às mãos dos soldados independentistas, não interessava se homens, mulheres ou crianças, eram todos fascistas, colonialistas e imperialistas, ia haver maca da grossa. O martelar de caixotes tornou-se ensurdecedor, os mais previdentes encafuavam dentro deles os seus haveres, despachando apressadamente as suas vidas para fora dali, o ouro esgotou-se nas ourivesarias, a modista Clotilde ofereceu à lavadeira as peças de bordado inglês que guardava para o enxoval da filha, as escolas fecharam, deixou de haver quem fizesse pão, o carpinteiro António queimou a oficina para que ninguém se ficasse a rir dele, a lista dos desaparecidos lida na rádio antes e depois do Simplesmente Maria era cada vez maior, o recolher obrigatório não era suficiente para nos proteger. Mesmo assim eu rezava todas as noites para que o meu pai não nos conseguisse arranjar lugar na ponte aérea de que todos falavam, cheguei até a ajoelhar-me em frente ao altar da igreja nova, para sempre inacabada, pedindo a Deus que nos deixasse ficar no único chão que eu conhecia e de que era pertença. Deus não me ouviu, a mitificada capital do Império revelou-se uma desilusão que me deixou sem palavras e recebi um nome que nunca mais me largou: retornada. O Império apodrecido de cinco séculos ruía, finalmente, mas apanhava-me na queda.

Quando fiz onze anos já não tinha casa nem infância. Os sítios onde depois fui vivendo, quinze semanas com uns avós desconhecidos, em Trás-os-Montes, dezassete meses no quarto 315 do Hotel Paris, onde os meus pais desesperavam com a falta de futuro e a minha irmã estudava Introdução à Política para se envergonhar deles e dos outros retornados, onze anos num T1 do sétimo andar do Lote 11 do J. Pimenta, um bairro de retornados tão mal afamado que os taxistas se recusavam a fazer serviços para lá, nunca foram a minha casa. E quando a História deixou de me ferir, já não havia infância a que regressar.

Ainda éramos retornados quando a revolução celebrou o seu décimo segundo aniversário. Eu era das poucas moradoras do desalentado Lote 11 que continuavam os estudos. Teria, nas palavras dos meus pais, uma enxada para a vida. Nesse ano, o 25 de Abril calhou num dia quente, Cascais encheu-se de veraneantes e eu passei a tarde encostada ao muro da praia dos Pescadores, a fingir que estudava as maçadoras lições de Direito. Ao regressar a casa, parei no café do Bento para comprar tabaco. Sendo o único café do bairro, estava sempre cheio de retornados que ali matavam a amargura do desemprego ou da velhice empobrecida, bebendo cervejas e comendo petiscos à moda de lá. Lá era sempre África. Nesse, como em todos os outros feriados do 25 de Abril, alguns velhos retornados exibiam um fumo no braço, em sinal de luto por si próprios, em luto por aqueles que tinham deixado de ser quando foram arrancados de lá. Nunca soube de onde vinha nem para onde ia a Nampula, a cadela que andava por ali quase todos os dias e cuja cauda fazia de chicote sempre que alguém chamava pelo nome da cidade em honra da qual fora batizada. O mais certo era ser uma cadela vadia, alimentada de restos por todos. Também nunca soube quem, naquela tarde, a envenenou e a fez morrer ali, à nossa frente.

Dali a dois anos, os meus pais conseguiram mudar-se, por fim, do J. Pimenta, mas eu era já adulta. Tornara-se impossível pertencer a outra casa que não uma que eu própria criasse, e pouco depois vim para Lisboa. Por essa altura, alguém escreveu em letras enormes, no prédio que ainda hoje continua a desdentar o primeiro quarteirão da Avenida da República, junto ao Saldanha, 25 de abril sempre, faxismo nunca mais. Faltavam mais de vinte anos para que a economia de carateres dos contactos virtuais com que passámos a estar ligados ditasse um novo acordo ortográfico, ainda achávamos sem x e não dispensávamos a sílaba inicial ao conjugarmos o verbo estar. Mas talvez já tivéssemos começado a esquecer.

País pária

Sim, Bolsonaro sempre foi assim. Mas está a cada dia mais Bolsonaro, menos presidente da República. A diferença é que nos 28 anos como deputado federal, as barbaridades que dizia ou fazia poucas vezes eram levadas a sério. Como quando elogiou o torturador Coronel Brilhante Ustra. Ou disse que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada por ser feia.

Raramente seus arroubos autoritários tinham repercussão na vida política do país, eram inócuos. Seu desassombro deixa de ser uma qualidade quando coloca o país em situação embaraçosa diante do mundo civilizado, ou defende teses que, na pessoa física, poderiam causar apenas revolta, mas, na jurídica, criam crises políticas que vão se avolumando.

Cometeu a mesma afronta contra a ex-presidente do Chile, Michele Bachelet, atual Delegada dos Direitos Humanos da ONU, que já cometera anteriormente com o presidente da OAB Felipe Santa Cruz. Além da gravidade em si, de desrespeito a líderes de instituições reconhecidamente representativas, demonstra um desprezo alarmante pela vida humana.

Respondeu a críticas políticas não com argumentos e fatos, mas com a apologia ao extermínio dos adversários de sua ideologia. No caso de Bachelet, ainda demonstrou uma visão enviesada, pois creditou a seu pai uma ideologia revolucionária que os historiadores negam.


Essa divisão rasa de amigos e adversários, que são todos comunistas, assim como o PT tacha de direitistas os seus críticos, só demonstra visão política deturpada, que torna impossível uma composição mais ampla com a sociedade.

A inviabilidade de uma coalizão não restrita à direita radical coloca o governo no isolamento interno, da mesma maneira que, no plano externo, estamos nos tornando párias com os controversos posicionamentos sobre o meio-ambiente e os direitos humanos.

Para os interesses políticos imediatos de Bolsonaro, o isolamento no plano interno não é mau negócio, já que ele estimula o choque contra o PT. Mas, no externo, traz prejuízos econômicos concretos e nos coloca à margem do mundo ocidental, com exceção dos Estados Unidos. Suas atitudes cada vez mais desabridas o levam a situações extremas com frequência. Quando recebeu aquela desazada benção do bispo Macedo, da Igreja Universal, Bolsonaro chorou.

Recentemente, repetiu que às vezes acorda à noite, angustiado, como já fizera anteriormente, ao lembrar-se da facada que levou na campanha presidencial. O fantasma do drama vivido naqueles dias não abandona o presidente que, como já escrevi aqui, pode estar sofrendo de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), que ocorre em pessoas que sofrem situações com risco de morrer.

Como decorrência do TEPT a literatura médica registra transtornos de ansiedade, de humor, anorexia nervosa, paranoia, narcisismo. Muitos desses fatores estão presentes no cotidiano de Bolsonaro. A paranoia vem marcando a ação cotidiana do presidente. Os limites que lhe são impostos pela democracia o estão irritando, descobriu que não pode tudo.

Ameaçou não passar a presidência para o vice-presidente Hamilton Mourão enquanto estivesse no hospital, mas teve que recuar. Disse que poderia deixar um interino na Procuradoria-Geral da República (PGR), mas vai anunciar o substituto de Raquel Dodge nos próximos dias, alertado de que poderia cometer um ato de improbidade administrativa se se omitisse.

Os permanentes atritos internos e externos podem ser atribuídos a transtornos de humor. Descobriu que sua caneta Bic (que agora abandonou por ser francesa) tinha muito poder. Anunciou em altos brados que quem manda é ele, mais ninguém. Comparou-se ao Rei no jogo de xadrez. Disse que elegeu sozinho boa parte do PSL, partido pelo qual disputou a eleição, e que pode deixar a sigla a qualquer momento. Um narcisismo que cultiva cada vez mais.

Democrata em carne, osso e chumbo

Presidente Jair Bolsonaro, os chilenos não aceitam suas palavras. A ditadura que você endossa e reivindica torturou milhares de pessoas, incluindo o pai da Presidente Bachelet, que acabou perdendo a vida. Às vezes você parece um ditador vestido com um traje democrata
Jaime Quintana, presidente do Senado chileno

Sobre a má sorte amazonense

O presidente deveria compreender que “ser presidente” depois de ter sido capitão e parlamentar — num Brasil no qual liberais e patrimonialistas trocam de lugar e todos são legalistas, mandões e familialistas — requer paciência bíblica.

Veja-se o caso amazonense. Falar em queimadas numa área na qual “derrubar e queimar” foi parte de uma milenar agricultura —sem tomar contato com as obras de gente como Artur César Ferreira Reis e, principalmente, com o trabalho de Charles Wagley e de Eduardo Galvão, que estudaram a Amazônia — é um erro, já que — desde a Fordlândia e outros empreendimentos — a floresta não homogênea sempre foi vista como um obstáculo para a ambição dos que confiaram na ignorância, como um meio para domesticá-la ou destruí-la, como estamos testemunhando.

Os livros “Uma comunidade amazônica” e “Santos e visagens” — escritos, respectivamente, por Wagley e Galvão no curso de uma investigação pioneira baseada no método que os antropólogos chamam de “observação participante” — são imprescindíveis. Eles mostram como o estudioso, paradoxalmente, combina o olhar distanciado da observação com a visada íntima da participação. Algo difícil sem cometer os enganos constitutivos de toda ponderação humana, essas apreciações são sujeitas aos erros somente descobertos depois de um certo tempo. O que foi virtude numa etapa ou lugar, torna-se vício quando lido com outras lentes...


O primitivismo de assumir que os “índios” não cabem no mundo moderno porque têm muita terra e não dão lucro tornase uma prova de desumanidade diante da devastação que a cobiça como valor produz numa região que, por culpa nossa, é tão imensa quanto desconhecida. E que, ironicamente, não foi incendiada justamente porque foi habitada por povos tribais —pelos “índios”.

Com efeito, quando Wagley publicou seu livro, em 1953, sabia-se mais de melanésios, nativos do noroeste da América no Norte e de sociedades africanas do que sobre o Amazonas. Somente os latifundiários podem ser poucos com muita terra — aos índios, nativos e donos de direito dessas florestas caberia o ralo da história. Cândido Mariano da Silva Rondon, reitero, foi esquecido e lembrado por Larry Rohter, um jornalista americano que correu o risco de ser expulso do Brasil por uma reportagem que falava dos abusos etílicos de um ex-presidente da República!

Apoiado nesses livros, escrevi sobre uma noção amazônica intrigante. Um caçador ou pescador que vai além de um certo limite e tira muito do rio ou da floresta acaba ficando azarado ou “panema”. Ou seja, o sucesso exagerado leva ao infortúnio: a uma temporada na qual a atividade do intruso é marcada pelo azar.

Alfredo Augusto da Matta, meu ilustre tio-avô paterno, senador e médico pioneiro no estudo e tratamento de doenças tropicais, indexou a expressão no seu “Contribuição ao estudo do vocabulário amazonense”, publicado em 1931 em Manaus. Se fosse etnólogo, iria atinar ao conceito que liga o que a nossa onipotente pós-modernidade tecnóloga e consumista desligou: a ideia de limite na relação entre a sociedade com seus interesses e a “natureza” concebida como igualmente viva e dotada de um agenciamento capaz de vingar-se de quem caçava ou pescava mais do que seria preciso para a sua manutenção. E, além disso, não cuidando do destino final da transformação de caça e peixe em comida. Caso esses produtos fossem consumidos por invejosos, a “mãe” daqueles seres fariam com que o abusado ficasse “panema”.

É irônico que justo nessa Amazônia —na qual a tradição faz um enlace entre os seres vivos, todos merecedores de compaixão e solidariedade —, os agentes do progresso tenham optado pela devastação incontrolada, correndo o risco de ficar “panema”. Aqui, como depois aprendi com Eduardo Viveiros de Castro e seus seguidores, a humanidade engloba o que chamamos de “natureza”. Meu estudo, um exemplo modesto de análise estrutural, foi publicado na revista francesa de antropologia “L’Homme”, em 1967, graças à generosidade de Claude Lévi-Strauss e reproduzido no meu primeiro livro, “Ensaios de antropologia estrutural”.

Anotem: qualquer coisa em demasia produz “panema”. Tudo tem, como aprendi com um mestre apinajé, o seu contrário.

Mente autoritária e seus métodos

Governantes de mentes autoritárias gostam de estimular a confusão entre governo e pátria, procuram sequestrar os símbolos e as datas nacionais. Eles tentam transformar críticas feitas à sua administração em ataques ao país. Era assim na ditadura militar brasileira, principalmente no período mais violento da repressão aos opositores, o do general Emílio Garrastazu Médici. O sentimento de amor ao país, as alegrias com as vitórias até do futebol, os momentos cívicos eram manipulados para serem vistos como apoio ao governo. Criticar o regime era apresentado como equivalente a trair o país.

Governantes de mentes autoritárias gostam de mentir sobre o passado, alterar fatos históricos comprovados, apostando que se a mentira for repetida, se os livros forem refeitos, se houver uma versão oficial todos passarão a acreditar na narrativa falsa dos eventos. George Orwell tratou disso como literatura na obra-prima “1984”. O passado insistentemente reescrito, para apagar fatos e nomes incômodos.


Bolsonaro disse que a ditadura brasileira foi nota 10 na economia. A verdade: ela deixou o país com uma superinflação crônica e o mecanismo da correção monetária que levava os preços sempre para cima. Ainda que os índices mais altos tenham sido atingidos nos primeiros governos civis, foi a democracia que conseguiu desarmar a bomba inflacionária jogada no colo da população pela administração econômica do regime militar. Não foi a única bomba que eles deixaram: os militares endividaram o país junto a 800 bancos, e a governos estrangeiros, e deram o calote. Essa dívida foi renegociada e paga na democracia, nos governos Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula da Silva. Houve também, na gestão de Henrique Meirelles no Banco Central, a acumulação de reservas cambiais que hoje nos permitem olhar para a Argentina sabendo que a situação aqui é bem diferente.

O período conhecido como “milagre econômico” foi curto e o modelo era concentrador de renda. Só para se ter uma ideia do que foi deixado de lado: ao fim desse forte crescimento do PIB, em 1980, 33% das crianças de 7 a 14 anos estavam for ada escola. A universalização do ensino fundamental foi obra da democracia.

Em qualquer governo pode haver erros na condução da economia ou nas decisões sociais e políticas. E presidentes, mesmo democráticos, costumam reclamar das avaliações negativas. A diferença é que a crítica aos erros governamentais não é tratada como crime, nem traição à pátria. A ideia de que só os governistas eram patriotas era mais uma das mentiras da ditadura. Repetir isso num período democrático é restringir o espaço das ideias, é manipular símbolos nacionais, é estigmatizar quem não se perfila entre os admiradores do governante.

O Brasil está em uma administração que foi eleita democraticamente, mas que tem tentado reduzir o espaço democrático, de livre circulação das ideias, e quer, especialmente nesta semana, usar o sentimento de país para tentar alavancar o apoio ao governo. As críticas feitas pela alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, estão respaldadas na realidade. Qualquer órgão multilateral tem o direito de fazê-las.

O presidente brasileiro reagiu atacando pessoalmente Michelle Bachelet, querendo atingi-la no drama pessoal que viveu muito jovem ao perder o pai, um militar, torturado e morto por seus companheiros de armas. Uma dor que ela conseguiu separar da sua atuação na esfera pública. No período em que foi ministra da Defesa, e nas duas vezes em que foi presidente, não usou os poderes que teve para fazer qualquer vingança pessoal. O ataque de Bolsonaro ao pai de Bachelet foi criticado até pelo presidente do Chile, Sebastian Piñera, que é de direita.

É patológica a compulsão de Bolsonaro pelas ditaduras e sua admiração ilimitada pelos regimes tirânicos, como o de Pinochet. É doentio seu prazer em ferir pessoas atingidas pelos crimes das ditaduras latino-americanas, como fez com o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. Mentir sobre o passado do Chile, ou do Brasil, na política ou na economia, não alterará a história real. Tentar apropriar para uma ideologia de extrema-direita os símbolos nacionais não dará certo agora, como não deu no passado. Os amigos e auxiliares que tenham qualquer influência sobre ele deveriam aconselhá-lo. O que ele falou sobre Michelle Bachelet jamais poderia ter sido dito. É sobretudo desumano.

Brasil do amanhã


À luz das queimadas

Fogo não apenas destrói, como gostam alguns, mas transforma em cinzas. A mais visível de suas qualidades é iluminar. E como ilumina! Basta seguir o clarão que faz nas florestas e campos amazônicos ou do Cerrado para se ver com mais claridade o que há por trás das queimadas.

Ninguém pense em encontrar a "soberania nacional", essa fica entre as cinzas. Nada mais fácil de se levar pelo vento.

O clarão ilumina a monstruosidade do que brasileiros fazem com sua própria terra, que "patrioticamente" defenderão a qualquer custo, e contra compatriotas da raça que forem. Expõe o pensamento da coivara mental. Incendeiam mentes.

O grande valor daquela região não está sobre a terra para produzir os alimentos para vender a granel, nem muito menos debaixo dela para estrangeiros esburacarem tudo, poluírem. darem os trocados e deixarem a sujeira para os que restarem cá limparem. O mais importante ali é o ar que permite purificação do carbono e auxilia as correntes de vento e chuvas. Por isso sua importância que dinheiro nenhum paga.

(Ou querem que Donal Trump ofereça um troco para a Amazônia desmatada completar o combo com a Groenlândia descongelada ?)

A luz do fogo clareou bem o arcaísmo de integrar para não entregar, pois a Amazônia é nossa. Sob essa bandeira de uma doutrina colonialista, lotearam grandes extensões depois derrubadas para plantações que não vingaram, cortaram árvores para as transamazônicas rodovias nunca acabadas, que mais serviram à grilagem e tráfico ilegal de madeira. Nada diferente do que portugueses começaram desde o litoral em 1500.

Nunca não houve governo interessado em verdadeiramente explorar a riqueza da floresta em pé. Prefiram como ainda preferem a floresta em toras. A riqueza farmacêutica, o lucro dos óleos aromáticos ou dos produtos exóticos, ou o turismo ecológico nunca foram implantados em larga escala, que podem fazer a independência econômica da região eternamente. Como os portugueses dos quinhentos, querem o lucro fácil da exploração mineral como em Minas Gerais levou o ouro para Portugal, que acabou na Inglaterra. Mas desta vez todo lucro em ouro deve parar em Fort Knox.

Agora que o Brasil tem seu próprio general George Custer, à moda caipira, querem de novo a Marcha para o Oeste. Só esquecem que o militar norte-americano, matador de índios, nunca se aventurou a destruir as florestas do Noroeste americano, que lá estão fagueiras e protegidas em grandes extensões, recobrindo reservas minerais que nem se imagina.

Aqui, bem aqui, se pode fazer toda desgraceira possível em nome da soberania. É só eleger alguém com cabeça de fósforo. 
Luiz Gadelha

Ribombo da mentirada

O silêncio da timidez é melhor que o barulho das mentiras
Congo Tales (Contos do Congo)

Bolsonaro se acha exemplo, falta informar de quê

O eleitor que enviou Jair Bolsonaro ao Planalto com a esperança de obter uma completa renovação dos costumes talvez não enxergue na sua Presidência um grande exemplo. Mas já se pode ver vários avisos ao redor. No penúltimo alerta, o capitão declarou não ver "nada de mais" na carona que o chanceler Ernesto Araújo deu em jato da FAB para sua mulher Maria Eduarda de Seixas Corrêa passar férias em Paris.

O brasileiro que está em dia com o Fisco e tem fome de limpeza precisa se benzer. Há no Planalto um inquilino de comportamento esquisito. Acha natural mobilizar um helicóptero da FAB para levar amigos e parentes ao casamento do filho. Considera normal quebrar lanças para dar ao mesmo filho o "filé mingnon" da embaixada em Washington. Se as luzes acendem sobre a movimentação bancária de outro filho, acha correto desligar o interruptor do Coaf. Ministro investigado? Normal. Ministro condenado? Nada de mais.



Foi nesse contexto que sobreveio a carona da mulher do chanceler. "Se um avião presidencial nosso vai para algum lugar a serviço, não vejo nada de mais levar alguém no avião. Não vejo nada de mais nisso aí", afirmou o capitão, antes de fazer uma concessão à dúvida: "Se está errado, se tiver alguma norma dizendo o contrário, eu vou conversar com ele".

Afora as regras do bom senso, há as normas contidas nos regulamentos da FAB (decreto 4.244/2002) e numa cartilha que o próprio Bolsonaro mandou distribuir dias antes da posse. Nela, está escrito que apenas ministros e membros do seu staff poderiam voar nas asas da Força Aérea.

Ernesto viajou em missão oficial. Sua mulher foi a passeio. Além da aeronave, Maria Eduarda dividiu com o marido, entre 20 e 25 de maio, o quarto de hotel. Tudo às expensas do erário. Assegura-se que madame tirou da própria bolsa a verba para a alimentação. Não há, por ora, vestígio de comprovantes.

Cabe perguntar: 
1) Num instante em que as finanças públicas se encontram no brejo, Ernesto não poderia ter embarcado num voo de carreira? 
2) Considerando-se que pernoitou numa hospedaria em que os preços variam conforme o número de ocupantes e as diárias oscilam de R$ 734 a R$ 2.250, Ernesto não teria molestado menos o bolso do contribuinte se estivesse sozinho?

Por um instante, Bolsonaro colocou-se dentro dos sapatos de Ernesto. Recordou o casamento do filho: "É a mesma coisa quando uma irmã minha, um primo, uns três ou quatro entraram em um helicóptero no Rio de Janeiro. Eu estava indo a um casamento e o helicóptero estava vazio. Eu apanhei para caramba de vocês. E o gasto ia ser feito". Meia verdade. O capitão foi num helicóptero. Os convidados, noutro. O gasto não deveria ter sido feito.

O capitão costuma fazer cara de enfado sempre que os repórteres desperdiçam o seu tempo com miudezas. "Nada de mais&..." "de novo?"; "se continuar, acaba a entrevista!" É como se dissesse: "Eu livrei o país da roubalheira do PT! Isso não basta?"

Se Bolsonaro ainda fosse um mero deputado do baixo clero, certos assuntos iriam para o gavetão das pequenas causas, repleto de velhas pendências. Por exemplo: a Wal do açaí, o auxílio-moradia para quem dispunha de imóvel próprio, a "rachadinha" na folha do gabinete do filho, as traficâncias radioativas do Queiroz...

O problema é que Bolsonaro agora é presidente da República. Seu comportamento diante de desvios hipoteticamente menores sinaliza o que será capaz de fazer diante de grandes escândalos. Presidente que não consegue enxergar essa obviedade costuma se deparar com uma grave incongruência: acha que é uma coisa e não se dá conta de que sua reputação é outra.

Bolsonaro imagina que chegou ao Planalto como exemplo. Falta esclarecer de quê. O capitão demora a notar. Mas a esperança que despertou na campanha presidencial é de vidro. E as pesquisas indicam que ela já trincou.

Guerra ao 'parlevu'

Em janeiro, Jair Bolsonaro assinou decreto sobre a posse de armas com uma caneta Bic e disparou enfáticas ameaças de que iria “usar a Bic” para fazer e acontecer. Agora, ao declarar guerra ao presidente francês Emmanuel Macron, anunciou que deixará de usar a Bic por ela ser francesa. Trocou-a pela Compactor, brasileira. Ao abandonar uma marca de caneta por ela representar a cultura de seu inimigo, embora a Bic esteja no Brasil há mais de 60 anos, Bolsonaro deveria estender esse boicote a outros produtos originários da França.


Não deveria, por exemplo, continuar indo ao toalete, ao lavabo e ao bidê. Seu —perdão— menu teria de cortar canapés, patês, baguetes, caviar, bombons, croissants, croquetes, omeletes, filés, suflês, purês, champignons e maioneses. E sua mulher, a bela, jovem, irresistível, incomparável e inútil Michelle, teria de deixar de usar sutiã, lingerie, robe, echarpe, maquiagem, bustiê, pompom, peruca, viseira, maiô, batom e bijuterias.

Bolsonaro teria também de suprimir palavras que simbolizam bem o seu estilo de governar: o deboche, a revanche, a chantagem, o complô. Seus filhos não poderiam mais usar boné, tomar champanhe ou ir a boates. Os desocupados que o aplaudem na porta do palácio —sua claque— seriam dispensados. Seus netos ficam proibidos de ter gripe ou coqueluche. E Bolsonaro deveria se preocupar com o Queiroz —seu ex-chofer. Mas o principal é que, como presidente, ele parasse de cometer gafes.

E é bom que Bolsonaro não brigue com a premiê alemã Angela Merckel. A caneta Compactor, que ele adotou, nasceu na Alemanha, fabricada pela Compaktor Fullhalterfabrik, e veio para o Brasil em 1952, produzindo canetas-tinteiro. Só aderiu às esferográficas —uma invenção da Bic —em 1984.

Mas, para que canetas? Para assinar qualquer coisa, basta a Bolsonaro enfiar um dedo na tinta e fazer um xis.
Ruy Castro

Pensamento do Dia


Populismo em verde e amarelo

Em agosto de 1992, Fernando Collor já estava com um pé fora do Planalto. A cada dia, apareciam novas provas de corrupção no governo. Nas ruas,
crescia o movimento a favor do impeachment.

Acuado, Collor resolveu transformar uma solenidade oficial em comício. Ao anunciar benesses para taxistas, ele apelou ao patriotismo e pediu ao povo que saísse de verde e amarelo no domingo.

“Vamos mostrar as cores que balançam o nosso coração”, bradou, entre juras de amor à “nossa pátria querida”. Deu tudo errado. Os brasileiros saíram de preto, em sinal de repúdio ao presidente.

Depois de 27 anos, Jair Bolsonaro repetiu Collor. Ontem ele incentivou a população a sair de verde e amarelo no 7 de setembro. “Eu lembro que lá atrás um presidente falou isso e se deu mal. Mas não é o nosso caso”, apressou-se. Ele reforçou o discurso com chavões como “Aqui é o Brasil” e “A Amazônia é nossa”.


Bolsonaro está com a popularidade em queda, mas ainda não é tão rejeitado quanto Collor em 1992. Mesmo assim, resolveu reciclar o populismo em verde e amarelo de quem dizia ter “aquilo roxo”.

A exemplo do antecessor, o presidente usa o patriotismo como arma de propaganda. Ao se apropriar dos símbolos nacionais, tenta vender a ideia de que seus críticos seriam inimigos do país.

Ontem o secretário de Comunicação Social, Fabio Wajngarten, apresentou uma campanha publicitária para exaltar “as cores da nossa bandeira”. Alegou que estaríamos vivendo “tempos difíceis”, de “ataques à nossa soberania e à imagem do nosso país”. Com essa desculpa, o governo vai gastar mais dinheiro público para tentar recauchutar a imagem do chefe dele.

Wajngarten anunciou a criação da “Semana do Brasil”, uma espécie de black friday bolsonarista. Numa cerimônia esvaziada, ele disse que a ideia vai aquecer a economia, mas não apresentou nenhum número que justificasse a previsão. Também faltou explicar se o consumidor terá que cantar o hino com a mão no peito, à moda do presidente, para conseguir um desconto no balcão.

Biblioteca naturais


Na selva espessa há um silêncio igual ao das bibliotecas, abstrato e úmido
Pablo Neruda

Uma cruel vitrine do Brasil que ainda celebra a tortura

Enquanto tenta implorar a seu algoz pelo fim do açoite, com gritos abafados por uma mordaça, o adolescente de 17 anos recebe chicotadas pelo corpo despido, seguidas de risos e intimidações de outro homem que filmava a cena que viralizou nesta terça-feira. De acordo com o boletim de ocorrência registrado em uma delegacia na zona Sul de São Paulo, o episódio aconteceu no mês passado, nas dependências de um supermercado da rede local Ricoy, onde o garoto foi acusado de ter furtado uma barra de chocolates. No vídeo com menos de um minuto, ele também é ameaçado de morte pelos dois agressores, que, segundo o inquérito, são seguranças do estabelecimento.


“Trata-se de uma situação de tortura, um crime hediondo e, ainda por cima, cometido com ares de sadismo”, diz Ariel de Castro Alves, integrante do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe), que acompanha as investigações. “Cobraremos punição aos responsáveis por esses atos bárbaros.” O Conselho Tutelar também se manifestou sobre o caso e promete prestar assistência psicológica à vítima, enquanto a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania lamenta “a ocorrência de fatos que ferem a dignidade humana e demonstram a intolerância da nossa sociedade com pessoas que deveriam receber atendimento civilizatório e adequado”.

Para o delegado José Luiz de Souza, responsável pelo encaminhamento da ocorrência, o crime deve ser enquadrado como tortura. “É uma cena chocante, de extrema violência, em que a vítima está completamente acuada”, afirma Souza. O adolescente relatou em depoimento que a sessão de tortura durou aproximadamente 40 minutos. Durante a filmagem, é possível ouvir um dos agressores dizendo “vai tomar mais uma pra gente não te matar”. A polícia pretende realizar a apreensão do chicote e do celular utilizado para gravar o vídeo. Os dois seguranças já foram identificados. Segundo a rede Ricoy, eles estão afastados de suas funções no supermercado. Em nota, a empresa informa que “não coaduna com nenhum tipo de ilegalidade e colabora com as autoridades competentes envolvidas na apuração do caso, a fim de tomar as providências cabíveis”. Caso sejam indiciados e condenados, os agressores podem pegar de dois a oito anos de prisão.

Embora remeta aos tempos da escravidão, a exposição de um jovem negro torturado por justiceiros tem se tornado parte de uma rotina dramática incentivada por apelos que pregam justiça com as próprias mãos. Em 2014, um adolescente de 15 anos foi amarrado ao poste com uma trava de bicicleta e espancado por um grupo organizado de justiçamento que atuava no Aterro do Flamengo, zona Sul do Rio de Janeiro. Ele teve parte da orelha arrancada pelos agressores. Dois meses depois, no Espírito Santo, Alaiton Ferreira morreu aos 17 anos depois de ter sido linchado por dezenas de pessoas na Serra, região metropolitana de Vitória, que o acusavam de estupro. No entanto, a Polícia Civil capixaba não registrou nenhuma ocorrência de violência sexual contra o adolescente.

No mesmo ano, uma pesquisa do Governo federal em parceria com o UNICEF apontou que adolescentes negros têm um risco de morte 2,88 vezes superior ao dos brancos. O relatório serviu como base para que o Brasil fosse notificado em 2018 pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), por causa da epidemia de violência que acomete a população jovem e negra. Porém, os brancos em situação de vulnerabilidade social também não escapam da onda de tortura patrocinada por justiceiros.

Em 2017, o caso do adolescente de 17 anos que teve a expressão “eu sou ladrão e vacilão” tatuada na testa como forma de punição por, supostamente, ter tentado furtar uma bicicleta em São Bernardo do Campo gerou ampla repercussão pelo país. Internado em uma clínica para tratamento de dependência química, ele passou por sessões de terapia a laser com intuito de remover a tatuagem realizada à força. Os dois tatuadores, que filmaram a agressão, ficaram oito meses presos. Entretanto, como não foram indiciados por tortura, progrediram ao regime semiaberto após condenação por lesão corporal e constrangimento ilegal.

A prática de tortura ainda é um problema recorrente sofrido por menores internados por atos infracionais. Em junho, a Defensoria de São Paulo denunciou a Fundação Casa por agressão de 22 adolescentes infratores. Cerca de duas dezenas de agentes teriam castigado os garotos com cassetetes e estilingues no Complexo Raposo Tavares. Em menos de uma semana, dois diretores da fundação, um de São José dos Campos e outra de Caraguatatuba, foram afastados dos cargos após denúncias de espancamentos. Em São José, um dos jovens agredidos perdeu o baço e parte do pâncreas devido aos golpes.

No sistema prisional, a dinâmica se reproduz de maneira endêmica. Especialistas em violência destacam a permanência de práticas de tortura que vieram da escravidão e jamais saíram das cadeias brasileiras, sendo ampliadas para alvos políticos inimigos durante a ditadura militar. O discurso de desprezo contra os direitos humanos encampados por Jair Bolsonaro em sua carreira política e o elogio que ele faz a um militar torturador condenado pela Justiça também são apontados como fatores preocupantes pelos estudiosos, por criarem um ambiente em tese mais permissivo às infrações.

Levantamento da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, divulgado no fim de julho, mostra que ao longo de 10 meses o órgão recebeu 931 denúncias de tratamentos desumanos praticados contra pessoas presas – mais de 70% delas negras – no Estado. Em média, três presos são torturados a cada dia. “Os números refletem a lógica de perpetuação das violações de direitos humanos, principalmente no momento da detenção”, explica o defensor público Fábio Amado. “Existe, infelizmente, uma naturalização dessa prática tão grave que é a tortura.”

Brasil, foguete midiático

Caros brasileiros,

será que um dia ainda vou agradecer ao presidente Jair Bolsonaro? É difícil imaginar isso, mas tenho que reconhecer que ele conseguiu o que poucos presidentes brasileiros conseguiram: colocar o Brasil no centro da atenção internacional.

Depois das queimadas na Amazônia e do debate sobre supostas atitudes colonizadoras de países europeus, todo mundo discute como salvar as florestas. Não somente na Amazônia. Ficou evidente que no mundo inteiro, seja na Europa, na África ou na Ásia, as áreas degradadas precisam de proteção e reflorestamento.

As ONGs também agradecem. "Nunca antes nesse país fomos tão valorizados por um presidente como o atual, que nos colocou em evidência, abriu espaço nas mídias pra mostrar nosso trabalho!", ironizou Caetano Scannavino, da ONG Projeto Saúde e Alegria, da Amazônia, num post recente. "Obrigado por algo que sempre tentamos mas nunca conseguimos como agora: nacionalizar a Amazônia e amazonizar o mundo!", escreveu.

Já faz dez anos que o Brasil se destacou mundialmente. Ainda se lembram da capa da revista Economist de novembro de 2009? A imagem do Cristo Redentor como foguete ficou mundialmente famosa.

Era euforia pura. Naquela época, o Brasil se preparava para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos e impressionava com um crescimento econômico e uma política social que tirou milhões de brasileiros da miséria.

Parecia que o Brasil finalmente ganhava a atenção e o destaque que merecia como quinto maior país do mundo. Somente na imprensa alemã, entre 1º de junho e 1º de agosto de 2014, foram publicados mais de 4 mil textos sobre o Brasil.

Em comparação com períodos anteriores, o Brasil de 2014 era um foguete midiático. Nos primeiros dois meses do governo Luiz Inácio Lula da Silva, de 1º de janeiro a 1º de março de 2003, por exemplo, o número de matérias publicadas sobre o Brasil na imprensa alemã foi de somente 737.


Mas a euforia durou pouco. A própria Economist derrubou o foguete brasileiro. Em setembro de 2013, ela colocou o Brasil novamente na capa. Desta vez, o Cristo não decolava, mas despencava. A manchete questionava: "Has Brazil blown it?" (O Brasil estragou tudo?). Considerando a crise econômica que veio depois, parece ter sido um ato vidente. Que lucidez!

Em setembro, a revista Economist deu sinais de que pode ser profética em relação ao Brasil novamente, em um artigo com uma ilustração de Bolsonaro e o título: "Os incêndios na Amazônia poderiam queimar Jair Bolsonaro".

Com Bolsonaro, o Brasil voltou a se destacar nas manchetes mundiais. Somente nos últimos dois meses, de julho até setembro, foram publicados 1.195 textos sobre o Brasil em jornais e revistas alemães. Mas infelizmente não foi para transmitir euforia e alegria.

O país recebeu atenção devido a aspectos negativos que agridem e arranham a imagem do Brasil no mundo e causam aflição e depressão. E o quinto maior país do mundo merece mais do que manchetes. A velha jogada de marketing "fale bem ou fale mal, mas fale de mim" não se aplica a governos.

Fazer um bom marketing não quer dizer que se faça um bom governo também. Por exemplo, a sugestão de Bolsonaro de reflorestar a Alemanha não traz nenhuma árvore de volta à Amazônia. Tampouco o acesso facilitado a armas transforma cidades brasileiras em lugares mais seguros.

A dispensa de médicos cubanos também não contribuiu para melhorar a saúde pública brasileira. Pelo contrário. Os médicos cubanos fazem tanta falta que o governo brasileiro decidiu regulamentar a concessão de residência para cubanos que participaram do programa Mais Médicos. E tem ainda os cortes drásticos na área da educação, que não vão ajudar a geração futura do país a sobreviver num mundo globalizado.

Então, mesmo reconhecendo que Bolsonaro "presenteia" jornalistas no mundo inteiro com manchetes, não vou agradecer ao presidente. Mesmo sabendo que ele tem que cuidar da própria saúde. Mesmo sabendo que ele mandou o Exército para a Amazônia para apagar incêndios. Pois nem o Exército pode apagar as chamas políticas que ele acendeu.
Astrid Prange de Oliveira

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Paisagem brasileira


O nome de Deus em vão, e a 'força única' das milícias

O juiz Marcelo Semer, escritor e ex-presidente da Associação Juízes pela Democracia, lembrou no Twitter o que Jair Bolsonaro pensava sobre milícias, em 2008: "O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes. E talvez, no futuro, legalizá-las".

O futuro chegou. 

Bolsonaro não mudou de ideia. Em sua vida pública, se fez algum movimento, foi de ré. Retrocesso é com ele mesmo. No que tange ao desrespeito, à discórdia, e teorias da conspiração, é craque. Em fevereiro de 2018, já como candidato, voltou a defender a milícia, em entrevista a Jovem Pan.

"Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”, prega, sem constrangimento.

Hoje, no Rio, a milícia é responsável pelo desaparecimento de uma pessoa a cada dois dias. Sem contar cemitérios clandestinos descobertos pela policia, com dezenas de ossadas. E, acredite se puder, os milicianos estão se unindo para formar uma “força única”. Não é vaticínio. É arremate, do delegado Gabriel Ferrando, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco).

A milícia sempre esteve por perto da família Bolsonaro. Flávio, o senador, empregou parentes de milicianos em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. Condecorou o major da PM Ronald Pereira, quando já era investigado como um dos autores da matança de cinco jovens na antiga boate Via Show, em 2003, na Baixada Fluminense.

Um dos milicianos que participou do assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, era vizinho de condomínio do presidente. O filho do capitão namorou a filha do assassino, que está preso.

As ligações do capitão e sua família com a milícia não só ameaçam a segurança da população. Envergonham o País. No final de maio, quando o tio da primeira-dama Michelle foi preso acusado de atuar com a milicia do Distrito Federal, a renomada The Economist contou aos seus leitores sobre os laços da família (que diz ter Deus acima de tudo), com milicianos.

O afamado Fabrício Queiroz, descoberto por Veja morando em São Paulo, faz elo entre os Bolsonaro e a milícia. Queiroz foi testa de ferro de Flávio. A Policia Federal no Rio de Janeiro avançou nas investigações sobre o ex-motorista do senador. Mas está de mãos atadas pelo “grande herói nacional” Sergio Moro.

Desmoralizado publicamente, Moro viu Bolsonaro trocar a superintendência da PF do Rio. Sem explicação. O sociólogo José Cláudio Souza Alves, autor de “Dos barões ao extermínio, a história da violência na Baixada Fluminense”, não tem dúvidas: “Queiroz é uma “peça de dobradiça”, que liga a política institucional às ações criminosas.

Há 26 anos, Souza Alvez estuda organizações que atuam como grupos de extermínio no Rio de Janeiro. Esses criminosos são os principais suspeitos pelo assassinato da vereadora e seu motorista. Essa semana, completam-se 540 dias desde o assassinato. Até hoje não se sabe quem mandou matá-los.

As milícias crescem e se multiplicam no governo Bolsonaro. Há fermento para isso: pregação oficial da violência na cidade e no campo, desgoverno, o pacote de segurança do mal-afamado Moro, que defende a ampliação da letalidade policial com o excludente de ilicitude, e o discurso enfurecido do capitão: bandido bom é bandido morto.

O doloroso relato da mãe que teve o filho assassinado pela milícia no ano passado, em Nova Iguaçu, é, sem dúvida, a face mais atormentada da cruel realidade brasileira e sua “força única” paramilitar. “Antes, tínhamos medo dos filmes de terror na televisão. Hoje, vivemos o terror ao vivo”.

Caminhamos rapidamente para a República das Milícias. 
Mirian Guaraciaba

Por causa de índio, não

(Brasil) está quase na ingovernabilidade no tocante às reservas. A intenção dessas grandes reservas, e isso sempre se discutiu na ONU, é que, pela autodeterminação dos povos indígenas, seriam novos países no futuro
Jair Bolsonaro

Cabeça fria, apesar das chamas

Estou na Amazônia para mais uma viagem de aprendizado na região. Ela é vastíssima, e minha capacidade de aprender é lenta e sinuosa. A floresta tem cem mil espécies animais, 43 mil vegetais. As queimadas devem arder até outubro, a julgar pela experiência dos últimos anos.

Os ânimos parecem ter se acalmado. Angela Merkel deu o tom no G7 ao afirmar que é preciso fazer alguma coisa, sem dar a impressão de ser contra Bolsonaro.

Não se trata de um exercício de psicologia individual. Merkel é uma estadista, tem objetivos maiores, lida com pessoas complicadas como Trump. Percebeu talvez que Trump e Bolsonaro são frutos de uma época e que não podem ser tratados com os mesmos critérios do passado.

Bolsonaro anunciou que apresentaria uma política para a Amazônia. Mas, até o momento, afirmou apenas, em reunião com governadores, que era preciso explorar as terras indígenas.


Essa história de Bolsonaro com os índios brasileiros esbarra na Constituição. Para avançar sobre a superfície, precisa de emenda constitucional, e para avançar no subsolo indígena é necessária uma lei complementar, que Romero Jucá não conseguiu aprovar ao longo desses anos.

Algumas repercussões negativas ainda estão no horizonte: fundos suecos planejam deixar de investir no Brasil, compradores de couro, como a Timberland, querem se fechar para a nossa produção.

Importante lembrar que boicotes e sanções contra governos —pelo menos é a impressão que tenho ao longo dos anos que acompanhei — atingem as pessoas comuns e acabam fortalecendo os próprios governos visados.

As pessoas vivem grandes paixões políticas. O único caminho é mostrar a importância da floresta em pé, pelos seus serviços ambientais e pela riqueza de sua biodiversidade. Nada contra ninguém, é apenas prioritário divulgar o conhecimento científico sobre a floresta, os serviços ambientais que presta na regulação do clima, na segurança hidrológica, na captura do carbono.

No meio da semana, visitei o mercado Ver-o-Peso. É impressionante como convergem para ele os diferentes produtos amazônicos. Há 80 barracas de ervas medicinais e perfumes. Essas propriedades não são ainda comprovadas cientificamente. Mas a verdade é que a floresta e a sabedoria tradicional encontram um caminho suplementar para atenuar sofrimento e oferecer cuidados que nem o SUS pode oferecer.

O Itamaraty seguiu um novo rumo ao cobrar, no contexto do Acordo de Paris, o pagamento pela captura do carbono, já previsto. É muito melhor que pedir ajuda em horas difíceis. Não que a ajuda deva ser rejeitada. Mas, pensando bem nas dimensões do problema, 20 milhões de euros é o preço de dois apartamentos de luxo em Paris.

O importante é buscar os caminhos previstos no acordo. O governo Bolsonaro acha que o aquecimento global é uma invenção do globalismo marxista. É um pouco contraditório apoiar-se num acordo internacional de redução de emissões, considerando-a uma tarefa desnecessária.

Mas Bolsonaro decidiu continuar no Acordo de Paris. Por que não buscar também os benefícios que oferece? Um pouco de incoerência não faz mal a ninguém. Trump também não acredita no aquecimento global. Mas quer comprar a Groenlândia porque a região se tornará mais explorável com a temperatura em ascensão.

Existe hoje uma hostilidade populista às descobertas da ciência. No entanto, o caminho do conhecimento e da informação é essencial. Mesmo porque a maioria dos corações já deseja a floresta em pé. As manifestações no mundo inteiro demonstram isso. Mas revelam ainda pouca informação.

Os políticos brasileiros viajam muito para o exterior. Mas muito pouco para a Amazônia. A própria imprensa internacional é muito centrada em conflitos e pouco em universos ainda desconhecidos.

A sociedade brasileira está diante de um desafio. Certas escolhas, como já mostrou em livro Jared Diamond, podem selar o êxito ou o fracasso de um país.

A ideia básica é desenvolver a Amazônia de forma sustentável e inclusiva. O fato de não termos ainda conseguido esse objetivo não pode significar que é um erro.

Na verdade, isto está expresso em todos os planos regionais que o país destinou à Amazônia.

Bolsonaro acha que as pessoas o seguem em tudo. Não acredita nas pesquisas.

Curto-circuito

Não parece complicado. Coaf era para controlar atividades financeiras. Identificar operações atípicas e dar alarme. A Receita confere e cruza informações. Cada vez que um de nós se equivoca ou confunde dados na declaração de renda, recebe uma notificação e tem de provar com documentos o que informou. Nada de mais.


É bom que funcione assim, e todos os contribuintes sejam tratados de igual maneira. São mecanismos de controle. De compartilhamento de informações, inclusive com autoridades estrangeiras. Não de investigação. Quem investiga são outros canais. Mas estes, por vezes, só sabem que devem investigar ao receber sinais de alerta. Sem saber que há razões para isso, não pedem licença antes. Não adivinham.

Quando o STF obriga a sustar esse processo, ou políticos se alarmam porque houve sinais de alerta e as investigações começaram sem pedir licença, há uma mistura de canais. Um curto-circuito. É da mais elementar lógica: um órgão que existe para controlar tem de dar o alarme se algo parece estranho. E órgãos que existem para investigar então passam a investigar.

O que não se pode admitir, jamais, é que essas informações se tornem públicas antes da comprovação de que realmente houve má-fé ou delito. Isso é que é errado. Mas nunca vemos punição por vazamento de informação sigilosa, seja verdadeira ou falsa.

Aí ocorre outro curto-circuito. Fomos anestesiados pela distorção que recobre o delito do vazador sob o manto da proteção à fonte jornalística, assegurada pela Constituição. Esquecemos que há dados sigilosos. Vazá-los é crime. Apenas se a informação for falsa o jornalista passa a ser cúmplice ao divulgá-la — sob punição prevista em lei. Por isso, o bom profissional trata de investigar por conta própria. Mas quem vazou precisa ser punido logo, antes que o mal se espalhe.

O livre fluxo da energia democrática, essencial ao funcionamento das instituições, não pode ser confundido com curto-circuitos. Sobretudo quando se aproxima de poderosos, filhos e esposas.

Brasil de lixo


Seu garçom, faça o favor

Mesmo que o amemos com paixão, o Brasil é um país pouco fácil de se elogiar. Os tolos sempre acreditaram no marketing que nos vende como um paraíso tropical, onde tudo é belo e prazeroso, onde não há conflitos a encarar. Já os mais espertos perceberam a falácia do país da cordialidade e do risonho rosto ao sol, e protestam contra nossas dificuldades, das mais fundamentais às mais prosaicas, para o exercício do amor. O mestre Antônio Vieira, por exemplo, reclamava de nossos mosquitos que não paravam de picá-lo; assim como dom João VI ordenou a mudança para o Rio de Janeiro, porque não aguentava mais o mau cheiro nas ruas da Bahia.

Hoje, parte de nós, ao comentar o que somos, exerce uma lógica peculiar e muito original do que podemos chamar de “cultura de botequim”, que hoje domina a cultura brasileira em geral, depois de longo silêncio cuidadoso de desvalorização e de vergonha do que podíamos ser. Ou vir a ser.

A cultura de botequim se manifesta através de outra especialidade nacional, a “conversa de botequim”, à qual se dedicaram, com diferentes posturas e valores, poetas, romancistas e pensadores sobretudo cariocas. Entre eles, Noel Rosa pode ser considerado o pai da expressão. Grandes artistas como João do Rio, Marques Rebelo ou Nelson Rodrigues, entre tantos outros, nos fizeram conhecer bem esse mundo, em outros momentos do país. Pois, como toda criação dessa natureza, a cultura de botequim se transforma no tempo, conforme o que acontece e a influencia do lado de fora do botequim.

A conversa de botequim se caracteriza pela irresponsabilidade tóxica de seus praticantes, pela impertinência com que tratam assuntos pertinentes. No botequim, não se pensa duas vezes ao preferir a piada à verdade sem graça. Ninguém vacila em inventar um argumento falso para justificar o que pretende afirmar. Não se dá crédito ao que não serve para impor uma razão pouco razoável. Ganhara discussão é a prioridade, mesmo que não se saiba o que está certo ou errado, que não se dê muita importância à vitória. Mesmo que estejamos a espremer uma barata na sola do sapato, faremos isso porque é assim que se faz no mundo real dos heróis. Com um sorriso nos lábios, ainda que disfarçadamente triste.

No botequim, o valor de quem fala mais alto, de preferência aos gritos, será sempre superior ao de quem é capaz de raciocinar sem muito escândalo. No botequim, o que vale mesmo é o tapa lerdo nas costas e o sucesso junto a um público que busca diversão na absoluta normalidade.

O botequim é, antes de tudo, o lugar de seres normais; dos que serão sempre de um só jeito, os que não querem surpreender e não se surpreenderão. O lugar da paz conquistada pela ignorância.

O julgamento de nós mesmos é o da auto desvalorização, ainda que disfarçada pelo galicismo literário a nos garantir que essa é a arma mais poderosa contra quem não acredita em nós. Há sempre uma versão pejorativa para cada virtude que por ventura se descubra em nós.

Hoje, mais do que nunca, o cara no botequim é um machista que coça o saco e cospe no chão, a cultivar linguagem vagabunda e misógina como suprema demonstração de poder e grandeza. Ele não admite mulheres no botequim, porque elas só existem para serem usadas e injuriadas de diferentes modos. A mulher do outro será sempre mais passada, além de suspeita; enquanto a nossa, uma bênção de perfeição e virtude. A conversa de botequim não admite autocrítica, nem revisão da qualidade de matrimônios desgastados.

A cultura de botequim é o clímax da masculinidade tóxica, o supremo instante de humilhação do outro. O cara no botequim é capaz de considerar a morte de uma esposa querida como a libertação do viúvo para a gandaia. A doença fatal não passa de um pretexto para a traição (“sempre desconfiei desse aneurisma, ele nunca me cheirou bem”). E se a vítima chorar no enterro, o botequim dirá que é apenas mimimi, puro disfarce. O importante é uma fodinha por semana; e, se a mulher do outro for menos apetitosa ou sei lá o quê, dizer simplesmente: “Não humilha cara, kkkkkk”. O botequim pensará que vamos aprender e nos acostumar ao sofrimento.

'Civilizados'

Todas as guerras e civilizações não prestam para nada, não fizeram nada de bom. Só uma sangueira danada e gente de joelhos rezando pela paz
Henry Miller "O colosso de Marússia"

A tradição da mentira no Brasil

No editorial “Os Problemas da delação” (29/8) o jornal O Estado de S. Paulo endossou o “viés formalista” da tese do STF (na verdade, a meu ver, ela é bem mais que só isso) que resultou na libertação de Aldemir Bendine, o elemento que o PT instalou na presidência da Petrobras e do Banco do Brasil em boa parte do período em que passaram pelo “maior assalto consentido já registrado na historia da humanidade”. Não existe qualquer dúvida quanto à culpabilidade de Bendine nem dos seus comparsas mas o precedente poderá resultar na libertação de praticamente todos os envolvidos, a começar pelo ex-presidente Lula, sobre cuja culpabilidade também não paira a menor dúvida.

Vem de muito longe o processo de domesticação do brasileiro para deixar-se cavalgar pelo absurdo sem reagir. O sistema de educação jesuíta, a ordem religiosa que por 389 anos teve o monopólio régio da educação no Brasil, não partia de perguntas nem visava a aquisição de conhecimento. Era um sistema defensivo criado para sustentar a qualquer preço a “verdade revelada” que fundamentava o sistema de poder e de organização da sociedade em castas detentoras de privilégios hereditários ameaçados pela revolução democrática.


O truque consiste em despir toda e qualquer ideia a ser discutida da sua relação com o contexto real que a produziu para examiná-la como se existisse em si mesmo, desligada dos fatos ou pessoas às quais se refere. Sem sua circunstância, a ideia transforma-se num corpo inerte, ao qual não se aplicam juízos de valor. Assim esterilizado, o raciocínio é, então, fatiado nos segmentos que o compõem, sendo a coerência interna de cada um examinada isoladamente nos seus aspectos formais, segundo as regras da lógica abstrata, as únicas que podem ser aplicadas a esse corpo dissecado.

Se qualquer desses segmentos apresentar a menor imperfeição lógica ou puder ser colocado em contradição com qualquer dos outros, a imperfeição “contamina” o todo e o debatedor fica autorizado a denunciar como falso o conjunto inteiro, mesmo que, visto vivo e dentro do seu contexto, ele seja indiscutivelmente verdadeiro.

Como nenhuma proposição humana é capaz de passar incólume por esse exercício de dissecação a pessoa começa a duvidar da própria capacidade de discernimento. Desclassificados o senso comum (até hoje a base do sistema jurídico anglo-saxônico) e a razão como instrumentos bastantes para dirimir controvérsias, tudo acaba tendo de ser decidido por um juiz segundo uma regra artificial que deve ser vaga o bastante para permitir as mais variadas interpretações, de modo a conferir a esse juiz uma virtual onipotência.

Invocar o límpido preceito do “na dúvida, a favor do réu” para justificar o movimento que, visto no conjunto tem o óbvio propósito de manter a impunidade dos representantes do povo que traem seus representados — a própria negação do sentido de “democracia” — é um exemplo prático de como esse sistema põe a verdade a serviço da mentira e a lei a serviço do crime. Seguido à risca ele garante que nenhum réu com dinheiro suficiente para pagar advogados possa ser condenado em definitivo e nenhum “direito adquirido” pela privilegiatura (são estes que estrangulam economicamente a nação; o que nos roubam sem o recurso à lei é apenas troco) venha a ser desafiado.

O esquema de Antonio Gramsci é um aggiornamento da dialética defensiva jesuíta. Ele marca o momento da rendição da utopia socialista e o decidido abraço da casta que ela pôs no poder pelos caminhos do privilégio na luta contra a meritocracia, o pressuposto essencial da democracia. A paulatina conversão dessa luta de uma disputa entre verdades concorrentes para a destruição do próprio conceito de verdade (a “pós-verdade”) inclui o reconhecimento da relação indissolúvel entre democracia e verdade (cujo agente intermediador é a imprensa que não sobreviverá se não reassumir esse papel). E a admissão do fato de que onde está bem plantada ela só pode ser destruída por dentro, a partir de uma deliberação da maioria contra si mesma, e que só uma trapaça pode produzir esse efeito homenageia a superioridade moral que os seus inimigos sempre negaram à democracia ao longo de todo o século 20.

A apropriação pelas ditaduras socialistas dos métodos do capitalismo pré-democrático, o ataque maciço contra os direitos do consumidor, o esmagamento do indivíduo e a concentração extrema da riqueza frutos da volta dos monopólios, a globalização da censura gramsciana agora deslocada para o campo do comportamento, os ensaios de Vladimir Putin para o falseamento da eleição americana, as primeiras ações de censura das mega-plataformas da internet, os movimentos coordenados de militâncias internacionais contra e a favor de governos nacionais tendo a Amazônia (e não somente ela) como pretexto, desenham os contornos que terá a guerra no novo mundo hiperconectado. As UTI’s serão invadidas, os cateteres de sustentação da vida (no caso brasileiro o do agronegócio) serão implacavelmente arrancados das veias das economias moribundas, os interesses de casta da privilegiatura estarão sempre acima de tudo. Mas os únicos remédios conhecidos seguem sendo os mesmos de sempre: a exposição da verdade e o culto ao merecimento.

O Brasil não precisa de “um novo pacto social”. O Brasil precisa do seu primeiro pacto social. Fazer a revolução democrática que saltou. Mudar o poder de dono pela primeira vez em sua história. E a única maneira conhecida de consegui-lo sem que a tentativa degenere num sistema de opressão da maioria sobre a minoria é com a velha receita dos iluministas. Uma democracia efetivamente representativa, o que só o sistema de eleições distritais puras proporciona, com uma cidadania armada de recall, referendo, iniciativa legislativa e a prerrogativa de reconfirmação periódica dos poderes dos seus juízes, pela razão muito elementar de que fora dos contos da carochinha, só tem algum controle sobre o seu destino e condição de proteger o que é seu quem tem o poder de demitir.

Bolsonaro prova que erro pode ser aperfeiçoado

A decisão de Jair Bolsonaro de falar na abertura da Assembleia Geral da ONU sobre Amazônia é uma evidência de que há males que vêm para pior. Um acerto dificilmente pode ser melhorado. Mas não há sob Bolsonaro erro que não possa ser aperfeiçoado. A despeito da nova cirurgia a que será submetido, o presidente disse que irá à ONU mesmo que seja sentado numa cadeira de rodas ou deitado numa maca.

Bolsonaro antecipou as linhas gerais do discurso que pretende fazer na ONU. Quer mostrar, com "muito patriotismo", que a Amazônia "foi praticamente vendida para o mundo". Deseja deixar claro que não vai "aceitar esmola de país nenhum a pretexto de preservar a Amazônia". Resistirá porque é por meio desse auxílio externo que, segundo ele, a floresta "está sendo loteada e vendida".


Por trás desse discurso do presidente Bolsonaro estão velhas obsessões do ex-deputado Bolsonaro. Hoje, o presidente se queixa do excesso de reservas indígenas. Em abril de 1998, quando ainda era um deputado do baixíssimo clero, disse na Câmara que a cavalaria brasileira foi muito incompetente. "Competente", segundo ele, "foi a Cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país".

Desde que assumiu o trono, Bolsonaro tenta conciliar duas exigências conflitantes: ser Bolsonaro e exibir o bom senso que a Presidência exige do seu ocupante. Quando fala de Amazônia, o presidente se enche de tambores e clarins. Se disser na ONU 10% do que anuncia, Bolsonaro mostrará que é errando que se aprende ... A errar. Fornecerá material para a retaliações contra exportadores brasileiros. Ficará demonstrado que o patriotismo também pode ser uma forma de suicídio comercial.

Pensamento do Dia


Brasil, campeão em consumo de cocaína e em violência

O Brasil é o sexto país mais populoso do mundo, a sexta economia mundial e, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o quinto maior exportador de alimentos. Isso é o que todos sabem. O que se desconhece é que essa nação da América do Sul, com pouco mais de 209 milhões de habitantes, é a segunda em número de consumidores de cocaína, só atrás dos Estados Unidos, segundo as próprias autoridades deste país.

Além disso, com 30 homicídios dolosos para cada 100 mil habitantes, é um dos países mais violentos: só em 2018, 60 mil pessoas foram assassinadas, quase o dobro das executadas na guerra dos narcocartéis no México, no mesmo ano.

Ampliar a visão da atividade do crime organizado em outras partes do mundo permite ver de outra perspectiva a problemática do que sucede no próprio país, e conectar pontos, já que nenhum desses fenômenos é realmente isolado.

A complexa situação do Brasil é um caso de estudo que mereceria interesse global: tem tanto impacto nos EUA, devido à quantidade de armas importadas desse país, quanto na Europa, pois organizações criminosas como a 'Ndrangheta, da Itália, ou o Cartel de Juárez, do México, encontraram solo fértil para lavagem de dinheiro e para usá-lo como trampolim para o tráfico de cocaína na Europa.


De 20 a 22 de agosto, fui convidada a participar do seminário interdisciplinar Atividade de inteligência e confrontação com organizações criminosas, organizado pela Polícia Federal do Brasil (PF). A prestigiada corporação que realizou a Operação Lava Jato, desmantelando uma rede de corrupção entre a companhia majoritariamente estatal Petrobras e empresas privadas – como a Odebrecht, que aplicou o mesmo esquema de corrupção em outras partes da América Latina e na África.

Para situar melhor: a Lava Jato colocou na prisão o ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, em meio a protestos por parte do Partido dos Trabalhadores (PT), segundo o qual se tratou de uma operação política para impedir que o ex-sindicalista concorresse nas eleições presidenciais de 2018.

Agora a PF parece ter um novo objetivo. Com base na experiência de outros países como México e Itália, sua meta é entender o funcionamento das três principais organizações criminosas do país: o Primeiro Comando Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as dezenas de milícias.

Elas representam o maior risco de segurança nacional, pela violência que geram, o tráfico e distribuição de drogas para consumo interno, e o controle territorial. As milícias, integradas em sua maioria por policiais militares, têm presença em diversas partes do país, inclusive a Amazônia, que por estes dias se consome em chamas diante dos olhos indignados da comunidade internacional. Mas sem dúvida a Amazônia não é a única coisa que arde no Brasil, e sim uma decomposição criminosa de prognóstico reservado.

Esta é a primeira de uma série de reflexões sobre a situação do crime organizado no Brasil, de acordo com os diagnósticos da própria PF e de acadêmicos como Gabriel Feltran, o sociólogo Sergio Adorno e Camila Nunes Dias.

Quando, numa reunião privada, um dos diretores da Polícia Federal falou do nível de consumo de cocaína no Brasil, o dado causou espanto: "O segundo país consumidor do mundo?" "Sim", confirmou o diretor. "E como isso aconteceu?"

Em primeiro lugar, o país partilha uma fronteira de mais de 11 mil quilômetros com dez outros. Três deles, Bolívia, Peru e Colômbia, são os provedores de cocaína do mundo, com uma participação de 10%, 20% e 70%, respectivamente, segundo o último informe do Escritório das Nações Unidas contra Droga e Crime (UNODC).

A produção na região cresce constantemente, enquanto o mercado de consumo nos EUA míngua: embora em 2017 se tenham registrado 5,9 milhões de consumidores, ou 2,2% da população, em 2006 essa proporção era de 2,6%.

Já no Brasil, o consumo aumenta a cada ano: 1,46 milhão, ou 0,7% dos cidadãos, consomem cocaína. Levando em conta todos os derivados da droga, como o crack, a cifra chega a 5,6 milhões de usuários.

A explicação dos funcionários da PF é que nos três países produtores um grama de cocaína-base tem um preço médio de venda de um dólar, e no Brasil, de cinco dólares – quase o mesmo que uma embalagem de cigarros. Enquanto isso, nos EUA esse preço oscila entre 30 e 50 dólares o grama, e na Europa, de 58 a 180 dólares.

Uma das razões é que o custo de transporte é muito menor entre os dois lados da porosa fronteira sul-americana, e a produção na zona aumentou vertiginosamente. Em muitos países os usuários tendem a ser de classe média-alta, por conta do preço da cocaína; no Brasil todo mundo tem acesso econômico à droga e seus derivados.

O investimento e o risco dos grupos criminosos no Brasil, para comprar e traficar cocaína, é mínimo, e um dos mais bem articulados nesse ponto é o PCC. Como observa o professor Gabriel Feltran, a matemática é assustadoramente simples.

É alto no Brasil o índice de roubo de veículos para financiar a compra de cocaína e armas. Em sua grande maioria os veículos são vendidos, completos ou em partes, no mercado negro do Paraguai, onde, até muito recentemente era fácil legalizá-los e em seguida traficá-los a outras partes do país ou do continente.

Por exemplo: uma camionete Toyota de modelo recente roubada no Brasil pode ser vendida no Paraguai por 3 mil dólares, com os quais se compram três quilos de cocaína na Colômbia, Peru ou Bolívia. Vendida no Brasil, ela traz um lucro de 15 mil dólares, que costuma reverter na compra de mais cocaína, armas e contrabando de cigarros.

O PCC foi criado em 1993, em São Paulo, por um grupo de réus de alta periculosidade que protestavam contra as condições de encarceramento. Embora seus líderes estejam na prisão há mais de 20 anos, ainda comandam a organização criminosa que controla a grande maioria dos presídios em São Paulo e outros 21 dos 27 estados brasileiros. Segundo as autoridades, o comando soma mais de 20 mil integrantes, que têm uma visão "ideológica" e empresarial e faturam 200 milhões de dólares ao ano.

Embora os mesmos cárceres onde nasceu o PCC sejam um de seus mais importantes centros de distribuição de droga, a organização está ampliando seus horizontes: há apenas algumas semanas a Polícia Federal deteve em São Paulo Nicola Assisi, um importante atravessador, através de quem a organização criminosa 'Ndrangheta, da Calábria, traficava cocaína para a Europa. Seu fornecedor era o PCC, gerando-lhe lucros multimilionários.

Quem com Bic fere com Bic será ferido

O embaixador francês no Brasil, Michel Miraillet, caiu em desgraça no Palácio do Planalto por causa de uma resposta que deu ao presidente Jair Bolsonaro.

Na última quinta-feira, em sua transmissão semanal ao vivo no Facebook, Bolsonaro anunciou que doravante não usaria mais a caneta BIC para assinar seus despachos.

Por quê? Ora, porque BIC é uma marca francesa. E Bolsonaro se acha em guerra com o presidente francês Emmanuel Macron por conta da devastação da Amazônia.

Na sexta-feira, sem desrespeitar as normas de elegância que orientam a atuação de diplomatas em qualquer parte do mundo, Miraillet postou no Twitter:

Sim, o BIC é francês, mas ele também é brasileiro! O BIC é um dos principais empregadores de Manaus e provavelmente centenas de colaboradores ficarão surpresos com o fato de essa realidade ainda não ter atingido o Planalto.

Diplomatas experientes do Itamaraty comemoraram a resposta sem fazer alarde. Por ali, desde que o embaixador neófito Ernesto Araújo assumiu o Ministério, as normas da boa educação estão em baixa.

No site oficial da BIC consta que a empresa está no Brasil desde 1956 e que emprega mais de 1.200 pessoas em diversas regiões do país produzindo itens de papelaria, lâminas e isqueiros.

Presidente ungido por Deus

Deus escolheu Bolsonaro para liderar 210 milhões de brasileiros
Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, ao ungir o presidente

Bolsonaro inventa o 'desacato da autoridade'

O Prêmio Esso deste ano deveria ser entregue ao grupo de repórteres que toda manhã se junta à porta do Alvorada e espera atrás de grades que o presidente da República cumpra o protocolar desjejum de desaforos, caras enfezadas, perdigotos, dedo em riste e ameaça contra eles, suas empresas e o futuro do jornalismo. Todo dia, tudo sempre igual. Os repórteres matutinos do Alvorada comem o pão que o diabo amassou.

Sua excelência borra a manteiga de ódio na torrada das desconfianças e, quando não ofende os profissionais, joga café rancoroso na cara de algum novo inimigo que a noite mal dormida lhe revelou. Sua santidade, o Papa, não perde por esperar. Os jornalistas nada comentam. Nem o excesso de bromato, o leite derramado na toalha da civilização ou o breakfast servido em pé. Seguem os rigores da profissão. Perguntam. Anotam. Publicam.

O americano Hunter Thompson, um dos inventores do jornalismo gonzo, que incentivava o repórter a se intrometer na matéria, tinha uma tática peculiar de esquentar as pautas. Diante de uma entrevista meia boca, que levaria o leitor ao sono imediato, Thompson, sempre com alguma droga na cuca, partia para o desacato. Mandava um esculacho no quengo da vítima. O entrevistado reagia, dizia um palavrão, fazia-se o escarcéu - e, pronto, Hunter Thompson tinha uma gonzo-matéria.

Viver no Brasil ficou assustador. A floresta queima, os radares saíram das estradas e na semana passada o presidente relinchou orgulhoso, misto de vaqueiro e jegue, na live da rede social. Os jornalistas não reclamam. Basta abrir o microfone e a matéria, como um café solúvel, se faz por si própria. Antes, após alguma pergunta mais contundente, eram processados por "desacato à autoridade". Bolsonaro xinga, humilha, vira as costas. Inventou o "desacato da autoridade".

Por falar em chifradas, ponha-se nesta arena o americano Ernest Hemingway, que tinha como sonho ver todas as touradas e não precisar escrever uma linha sobre elas. O jornalista Joel Silveira encontrou-o num bar de Paris. Sabia que o escritor não estava para entrevista, mas seguiu o instinto de repórter. Joel tinha a esperança de levar pelo menos um soco no meio dos cornos e ganhar o lead. Perguntou ao autor de "Paris é uma festa" se toparia um safari entre os touros da ilha de Marajó. Hemingway sequer bufou. Jogou na mesa o dinheiro do martini e, rápido, picou a mula. Tudo com discrição forçadamente exagerada para não deixar uma linha sequer para a matéria do brasileiro.

Os jornalistas acampados na porta do Alvorada não precisam provocar. Além dos bons princípios da profissão, acrescentaram às qualificações de cada um o exercício quase budista de controlar os instintos primitivos. Respiram fundo, tampam o nariz e a cada espanto que ouvem deixam de gritar de volta que o rei não só está nu, mas doido varrido. Por isso se faz meritório o Prêmio Esso a esses pacientes repórteres nas grades do Alvorada. Eles contam até dez, não topam o chamamento diário à briga. Levam os desaforos para a redação e, como é da espécie, simplesmente publicam. Deixam que o touro presidencial faça o trabalho inédito de se espetar ele próprio com as bandeirolas do ridículo.