sábado, 6 de outubro de 2018

O que fizemos da democracia?

Oque fizemos para chegar a este ponto? Ter de escolher entre o péssimo e o menos mal?

Tudo começou lá atrás, quando as grandes maiorias resolveram silenciar sobre um tempo que findava. Já acontecera depois do Estado Novo, quando um manto foi jogado sobre os crimes do varguismo. Os resultados não foram edificantes — elegeu-se como presidente o general Dutra, ex-simpatizante do nazismo. Em seguida, o próprio ex-ditador retornou ao governo “nos braços do povo”. Nos anos 1980, prevaleceram orientações análogas: olhar para a frente, ignorar o espelho retrovisor. Na alegria da abertura, falar dos crimes da ditadura civil-militar era quase uma atitude de mau gosto. As consequências apareceram na Constituição de 1988.

Mesmo registrando avanços e inovações consideráveis nas áreas dos direitos civis, políticos e sociais, eram visíveis os legados densos —do período anterior. Permaneceu inalterado o modelo de sociedade construído — ou reforçado — pela ditadura: a hegemonia do capital financeiro; a predação do meio ambiente; as desigualdades sociais; a civilização do carro individual nas megalópoles hostis à vida; as empreiteiras e suas obras faraônicas; o agronegócio concentrador de terras e de rendas; a centralização do poder num Estado gigantesco; a mídia monopolizada; a preeminência das Forças Armadas, “garantidoras da lei e da ordem”, replicando tendências históricas, onde os funcionários públicos uniformizados transformam-se em tutores da nação, com suas corporações fechadas, fora do controle da sociedade.

O pior ainda viria.


As principais forças políticas reformistas, o PT e o PSDB, não foram capazes de se articular em torno de programas de mudanças. Preferiram o atalho das alianças com grupos conservadores, desfigurando-se e se corrompendo no sentido próprio da palavra, o que se evidenciou no abandono do que tinham de melhor —suas intenções originais e promessas de renovação. A que se associaram as bandalheiras em nome da Realpolitik e a mixórdia das cumplicidades com o mundo dos negócios.

É certo que nem tudo foram espinhos. Houve o controle do dragão da inflação, que parecia imbatível. E os anos eufóricos dos mandatos de Lula, a autoestima nacional lá no alto, os mais confiantes falando num país que poderia ser modelo civilizacional para o mundo. Como nos tempos sorridentes e democráticos de JK. (É triste saber que também houve euforia, vigiada embora pela repressão, nos anos prósperos da ditadura de Vargas e nos do milagre econômico sob o sinistro e popular general Médici).

A decantação do otimismo veio mais rápido do que se esperava.

Os êxitos não resistiram ao impacto da crise econômica, mostrando as mazelas cobertas pelos véus do otimismo: o caráter aristocrático e corrompido do sistema político. As desigualdades sociais. A massa dos desempregados. A concentração de renda e de poder. A insegurança das pessoas comuns. A falência dos projetos reformistas. A expectativa ainda depositada no PT e no PSDB tornou-se mais resultado da nostalgia do que houve de melhor em seus anos de governo do que de propostas de mudanças. No vácuo criado pela inapetência autocrítica destes partidos, no caldeirão de contradições em que se tornou o país, ganharam força apelos salvacionistas e autoritários, nostálgicos de regimes ditatoriais. É verdade que se formou em torno deles uma nebulosa conservadora, mais amarga e desesperançada do que “fascista”. No entanto, são assustadoras suas promessas e práticas intolerantes.

Resta-nos a opção do menor mal. Contudo, o voto só ganhará sentido caso a escolha seja apoiada no compromisso com o aperfeiçoamento das instituições. Este objetivo será alcançado não apenas através de eleições, mas da auto-organização das gentes e de sua participação permanente. As passeatas das mulheres indicaram um caminho. Sem negar as eleições, complementando-as, conferiram vitalidade e força a uma democracia que se quer renovada e não destruída.

Brasil da consciência


Silêncio do escárnio

Há um silêncio que perpassa toda essa mixórdia eleitoreira. E vai soar ainda muito. Não troarão as manifestações polarizadas, as palavras de ordem dos cabos eleitorais, os debates (?) na mídia. O que não passa nem passará será o silêncio de, e principalmente sobre, Dilma Rousseff. É uma das facetas dessa tal democracia à brasileira que adora abrir brechas na lei para coroar a bandidagem.

Em nenhum país de tanto orgulho democrático essa aberração seria sequer aventada. Mas aqui tudo pode e tem as bençãos escrachadas da Justiça, de duas caras e duas medidas, e os comparsas de sempre, inclusive togados.


A ex-presidente, condenada com o impeachment pelo Congresso por uma contabilidade fiscal de levar qualquer multinacional à bancarrota, e bem mais facilmente um país ao buraco, foi agraciada pelo jeitinho jurídico do ministro do Supremo, Ricardo Lewamdovsky, na camaradagem. O crime de ficha suja foi limpo com o pano de chão do escárnio e a ex, que inevitavelmente terá que enfrentar processos no futuro, será agraciada com a toga senatorial. Esse prêmio que exibirá com glória e aplausos camaradas depois de estuprar o país com sua incompetência gerencial e inconsequência.

É mais um escárnio com o país, em particular os pobres, os mais atingidos pela roubalheira dilmista. São essas mesmas vítimas que servem de estampa para as bandalheiras. E como a propaganda eleitoral não pode ser condenada no Procom, ainda se continuará a ouvir do Parlamento as atrocidades do poste que, em quase duas gestões, deixou o país na maior de suas crises econômicas.

Luiz Gadelha

S.O.S! S.O.S!

Angel Boligan
Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas!
Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio
e vinde salvar-nos!

Vinde salvar os homens
para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,
só a serem homens,
homens apenas,
homens sempre,
de manhã até à noite,
semi-homens,
infra-homens,
super-homens,
ex-homens...

E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos,
desta desistência
de já nem quererem ser deuses!
Nem de transformarem os cavalos em relâmpagos!

Iosé Gomes Ferreira

Apreço do eleitor à democracia é doce paradoxo

A democracia, ensinou o velho Churchill, é o pior regime possível com exceção de todos os outros. Num instante em que o eleitor brasileiro parece empenhado em implementar as piores alternativas, o Datafolha trouxe à luz um dado alvissareiro:69% dos eleitores consideram o regime democrático a melhor forma de governo para o país. Não se via um índice assim tão alto desde 1989.


O resultado é paradoxal, pois o mesmo Datafolha informa que continua na liderança da corrida presidencial, com índices de preferência cada vez mais vistosos, a chapa verde-oliva —na cabeça, o capitão Bolsonaro; na vice, o general Mourão. Ambos idolatram um torturador. E já defenderam intervenções militares. A boa notícia é que, mesmo entre os eleitores da chapa militar, a maioria (64%) considera a democracia o melhor regime.

Entre os eleitores do vice-líder Haddad, preposto do presidiário Lula, a opção pela democracia é ainda maior (77%). Muitos poderão dizer que a confirmação do apreço pela democracia serve apenas para demonstrar que o eleitor subverteu o brocardo. Segue a máxima segundo a qual é errando que se aprende… a errar. Mas seja como for, um erro democrático será sempre melhor do que um suposto acerto autoritário.

Semeando vento...

Impermeável a todos esses temores, a maioria do eleitorado, dividida em duas grandes e aguerridas hostes, à extrema direita e à extrema esquerda do espectro político, parece firmemente determinada a plantar vento nas urnas de domingo. Sem sombra de preocupação com o que poderá vir a ser colhido.
O Brasil não merece tamanha inconsequência
Rogério L. Furquim Werneck

Leis estaduais 'custam' até R$ 4 milhões e têm relevância duvidosa

Quando Leonardo Sales escutou no rádio, em 2017, que a Câmara Legislativa do Distrito Federal havia acabado de aprovar uma lei decretando o "Dia do Goiano", achou que valeria a pena pesquisar: o que fazem exatamente as Assembleias Legislativas do Brasil? Será que o dinheiro público investido nelas está sendo gasto de modo eficiente?

Sales, que fez mestrado em Economia na UnB, trabalha na Controladoria Geral da União e mantém um blog sobre análise de dados, se pôs a analisar os gastos das 27 Casas estaduais em 2016 e descobriu que, se dividida a despesa anual de algumas das assembleias pelo número de projetos aprovados, vê-se que a aprovação de uma lei chegou a "custar" R$ 4 milhões em dinheiro público.

Depois, ele fez uma análise qualitativa das leis aprovadas, e os resultados tampouco foram animadores: boa parte dos projetos dizia respeito a meramente criar datas comemorativas ou declarar ONGs como de utilidade pública.


"Eu já imaginava que a produtividade seria baixa, mas me surpreendeu a pouca importância e as amenidades dos temas tratados nas leis", opina Sales à BBC News Brasil. "O custo é muito alto - foram mais de R$ 9 bilhões em 2016 para as 27 assembleias -, e o que estão gerando de resultado é bastante questionável."

A eleição presidencial é o foco principal das atenções, mas é bom lembrar que em 7 de outubro votaremos também para eleger 1059 deputados estaduais ou distritais, para as 26 Assembleias Legislativas do Brasil e a Câmara Legislativa do DF.

A Constituição é vaga: deixa aos deputados estaduais tudo o que não é competência dos municípios ou do governo federal, o que acaba relegando às assembleias as atribuições menos claras, segundo especialistas. Ainda assim, há funções importantes a serem realizadas, como produzir leis estaduais e fiscalizar o trabalho dos governadores.

Para seu estudo, Sales levantou tanto dados orçamentários (despesas totais das assembleias, gastos com pessoal ativo, limite de despesas de gabinete de deputados, entre outros) quanto da atividade legislativa (número de deputados, número de leis ordinárias aprovadas, número de sessões ordinárias realizadas e conteúdo das leis aprovadas).

Em diversos indicadores, há uma grande disparidade entre os Estados.

Em São Paulo, por exemplo, onde 269 leis ordinárias foram aprovadas em 2016, o orçamento foi de R$ 1,1 bilhão, para custear o trabalho de 94 deputados estaduais. No Rio Grande do Sul, o orçamento e a aprovação de leis foram a metade disso: R$ 568 milhões para 55 deputados, com a aprovação de 136 leis.

Fazendo uma conta simples, chegou-se, nesses Estados, a R$ 4 milhões "gastos" para cada lei aprovada.

Em contrapartida, Goiás foi o Estado que, sob esses critérios, mostrou-se proporcionalmente mais produtivo: 380 leis, com um orçamento de R$ 323 milhões. Cada lei goianense custou "apenas" R$ 850 mil.

A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) afirma que tem reduzido os valores de seus contratos e que o trabalho dos deputados pode ser fiscalizado pelos cidadãos. A BBC News Brasil também consultou a Assembleia gaúcha, que não respondeu até a publicação desta reportagem.

Mas o próprio Sales aponta que o "custo" das leis é apenas uma entre diversas formas de avaliar a produção da assembleia. Afinal, do que tratam as leis aprovadas?
Lei do 'Dia de Equipamentos de Terraplenagem'

Montando uma base de dados com as 4,6 mil ementas de leis estaduais aprovadas no Brasil em 2016 e analisando-as com base em palavras-chave e padrões semânticos, eis o que o pesquisador descobriu: 35% das leis eram destinadas à regulação de programas ou serviços públicos, modificações orçamentárias ou tributárias. São as leis que, na avaliação de Sales, parecem ter o caráter mais relevante e inovador para a vida pública.

"Os 65% restantes se referem a amenidades, como atribuição de nomes a logradouros, criação de datas comemorativas e concessão de títulos a pessoas e entidades ou (ligadas à) própria gestão burocrática estatal, como reestruturação na carreira dos servidores e alterações na configuração dos órgãos públicos", escreve o pesquisador.

Entre elas estão a Lei 14.867, que determinou a criação do "Dia da Igreja Mundial do Poder de Deus", na assembleia gaúcha; a Lei 16.088, que instituiu o "Dia do Operador de Máquinas e Equipamentos para Terraplenagem" no território paulista; e a Lei 16.091, que deu o nome de José Ariovaldo Gava a um viaduto de uma rodovia no interior de São Paulo - cada uma delas àquele custo de R$ 4 mi que mencionamos acima.

No Distrito Federal, a lei que motivou a pesquisa de Sales, do Dia do Goiano, teve um "custo" de R$ 1,8 milhão.

Além disso, boa parte das leis "amenas" serve para um único propósito: declarar ONGs como sendo de "utilidade pública". É um tipo de lei aparentemente inócuo, mas que, na prática, permite que essas organizações recebam recursos públicos estaduais sem a necessidade de licitação, além de receberem algumas vantagens tributárias. Só em Minas Gerais, por exemplo, foram aprovadas 360 leis do tipo em 2016.

E quanto à fiscalização do Executivo, uma das atribuições mais importantes de uma Assembleia Legislativa?

Segundo Sales, há poucos indícios de que essa fiscalização tenha sido rígida no ano analisado (2016): em nenhuma das 27 assembleias as contas dos governadores foram reprovadas ou questionadas, por exemplo. Ele tampouco encontrou muitos exemplos de obras do Executivo estadual que tivessem sido paralisadas a pedido do Legislativo para se avaliar sua prestação de contas.

Paisagem brasileira

Manhã na serra, Mauro Ferreira

O que é pior?

O que é pior, populismo de direita ou de esquerda?

A história mostra que não faz muita diferença: o desastre é certo. A profundidade e a extensão dos danos variam de acordo com o país e o momento. É só olhar a história recente do Brasil.


Impossível não se lembrar do Plano Cruzado, que popularizou até Sarney e devastou o país, levando-nos à falência internacional e a muitos anos de sofrida recuperação, com a aplicação das medidas econômicas corretas, duras e impopulares, bombardeadas pelo populismo de esquerda. O PT foi contra o Plano Real.

O populismo econômico nacionalista provocou a falência do governo Dilma e arrasou o Brasil. O populismo de corrupção dos governos Lula e Temer criou Bolsonaro e a sede de vingança dos roubados.

O mais cruel é que tanto a direita quanto a esquerda populista, que cortejam “o povo” e fazem o que “ele” quer para ganhar popularidade e se manter no poder, têm sempre como grande vítima final justamente o seu amado “povo”. Os pobres indefesos e desinformados são os que mais sofrem, a classe média é massacrada, mas os ricos, na pior das hipóteses, se mudam.

No populismo ambidestro sempre são os que não produzem nada que impõem as regras para quem produz alguma coisa. São os amigos e companheiros que governam, não os melhores profissionais de cada área. Não se faz o que tem que ser feito, mas o que “o povo” quer. O histórico bordão humorístico “me engana que eu gosto” floresce no populismo.

O cientista político Manuel Castells já advertiu, a luta agora não é mais entre esquerda e direita, mas entre autoritarismo e populismo. O que é pior?

O que esperar da sórdida classe política brasileira, com suas raras e impotentes exceções, senão aderir ao vencedor e partilhar o butim? Como sempre, agora mais que nunca.

No caso do Brasil, a tragédia ganhou tons de farsa e chanchada, com um populista de esquerda na cadeia e um populista de direita recém-saído do hospital comandando as eleições e o destino do país: cadeia ou hospital?

É duro escrever ficção no Brasil.

Diferenças

O medíocre aspira ser confundido entre os que o rodeiam. O original tende a se diferenciar deles.
Enquanto um se conforma em pensar com a cabeça da sociedade, o outro aspira a pensar com a sua própria
José Ingenieros

Pais e filhos

Ao ser informado pelo repórter João Valadares de que Fernando Haddad era o candidato do PT à Presidência da República, o aposentado pernambucano José Paulino Filho, 75 anos , declarou: “Não sei o nome não, mas estou grudado em quem Lula mandar. Ele é filho de Lula, né? Escutei dizer que era”. A turma da região ainda não decidiu se o chama de Adraike, Adauto, Andrade, Alade ou Radarde, mas o suposto parentesco com Lula é suficiente para que se vote nele.

Bem, se Haddad é filho de Lula, a biografia do candidato terá de ser reescrita. Sai a ascendência árabe, de imigrantes vendedores de tecidos, e entra outra, de camponeses perambulando pela caatinga, entre esqueletos de vaca —muito melhor, aliás, para garantir votos na esquerda. Sai também o garoto que nunca andou descalço e teve todos os brinquedos que quis, e entra outro, ressentido, ambicioso e ladino, como seus irmãos —os filhos mais novos de Lula.

Ser filho de Lula foi duro para o jovem e estudioso Fernando. Um dia, ele disse a seu pai que era admirador da Escola de Frankfurt e fã de Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse. Lula mandou-o esquecer esse negócio de escola no estrangeiro, ele iria mesmo era para um colégio público em São Bernardo. E, em vez daqueles professores de nome complicado, ele tomasse umas aulas com o frei Betto e a Marilena Chauí, que estavam lá para isso.

Fernando achava que seu pai não o admirava muito. Lula nunca quis ler sua tese de doutorado em filosofia, “De Marx a Habermass — O Materialismo Histórico e seu Paradigma Adequado”. Em compensação, vibrava com os negócios duvidosos dos outros filhos envolvendo futebol americano, empresas de games e “consultoria” de tecnologias.

Mas é claro que Haddad não é filho de Lula. Hoje sabemos que, a exemplo das amebas, que, por um processo de bipartição, geram seus iguais, o verdadeiro filho de Lula é Bolsonaro.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O fanatismo eleitoral

A eleição está fanatizada. Tal qual uma peleja futebolística com suas torcidas raivosas, capazes até de partir às vias de fato. A disputa nas urnas virou guerra fratricida e fascista. Não é mais o mero exercício da democracia. Longe disso! Partiu-se ao pugilismo raso, à política da pior espécie. O bate-boca, a troca de denúncias, facadas e balas marcaram a corrida presidencial. Assuntos e projetos cruciais cederam lugar ao lero-lero das imprecações sem fundamento. A negação dos fatos, a desvirtuação deles e mesmo o ataque virulento a sua veiculação, seja por qual meio for, passaram a prevalecer entre candidatos extremistas e o seu séquito de eleitores/adoradores que tomam as ruas a protestar e a denunciar falsos complôs de adversários. A mentira entrou na ordem do dia, de maneira descarada e perigosa. Foi assim nos idos do nazismo, quando o então ministro da propaganda alemã, Joseph Goebbels, pregava que uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Muitos hoje atendem ao chamado, acreditam no que querem. Não no que é real. Como hordas de alienados prontos a serem aliciados. Uma foto publicada na grande imprensa é tachada de manipulação. Fake news. Os índices das pesquisas são desacreditados. Filmes, mensagens e imagens distorcidas ou espertamente sacadas de situações que não correspondem à realidade são incorporados ao arsenal de comunicação para turbinar esse ou aquele postulante. Ninguém aguenta mais a martelação infernal de memes, ataques sem qualquer cabimento e inverdades lançadas nas redes digitais para angariar votos e apoio – seja da maneira que for. O que vale é o irreal, o adequado à circunstância ou à ideia que se deseja transmitir. Tomam-se registros de velhas situações para lançá-los com outra roupagem e “comprovar” eventos que na verdade não existiram da maneira propagada. Faça o teste: ouse, atualmente, falar mal de um candidato admirado por seu interlocutor ou discordar do que ele diz. Logo receberá uma resposta atravessada, ou coisa pior. O patrulhamento ideológico tomou corpo e dimensão extraordinários. Se um grupo de mulheres reúne-se para criticar esse ou aquele presidenciável é tachado de adjetivos impublicáveis. Algo abominável, ridículo e totalitário. Nos últimos dias, na reta final da eleição, foram tantas as barbaridades que a onda chega a assombrar até os mais curtidos contendores. Ressurgido das cinzas da cadeia, José Dirceu, o petista empedernido, cupincha e capanga de Lula, disse que o PT tomaria o poder de qualquer jeito. O que seria, nas palavras dele, algo “muito diferente de ganhar uma eleição”. Questão de tempo, profetizou. No delírio insano das pragas, o esfaqueado Bolsonaro alardeou ser golpe ele não vencer a eleição contra o poste do lulopetismo, Fernando Haddad. Assim o embate entre o justiceiro e o pau-mandado promete novos desdobramentos, para além das urnas. Ao rejeitar as regras do jogo, ao negar a legitimidade dos adversários, ao incitar a violência por meio das armas e ao defender medidas que restringem direitos civis, como o controle da mídia, esses senhores flertam com o estrangulamento da democracia. Os líderes querem contestar o resultado nos tribunais. Enquanto isso, a Justiça também faz das suas. Na verdade, ela vem derrapando na politicagem não é de hoje, alimentando um verdadeiro pandemônio institucional sem precedentes. O que se assistiu nos últimos dias nesse sentido foi de cair o queixo. O amigo pessoal do petista Lula, nomeado justamento por ele para o Supremo, Ricardo Lewandowski, decidiu numa canetada autorizar uma entrevista do ex-presidente às vésperas da eleição, obviamente ciente do peso que suas palavras poderiam ter para influenciar o voto desse ou daquele indeciso. A decisão, se vingasse, seria de um casuísmo escrachado. O colega de STF, Luiz Fux, percebendo o absurdo da decisão e aproveitando um questionamento partidário, indeferiu a autorização e suspendeu o pedido. Lewandowski voltou à carga. Tornou a autorizar para, logo depois, ser desautorizado, dessa vez pelo presidente da Casa, Dias Toffoli. A interferência da Justiça no jogo eleitoral é, talvez, a face mais nefasta de um processo acelerado de deterioração das instituições. O País conflagrado, nas mãos de líderes também beligerantes, segue à deriva. Na esperança de logo encontrar um porto seguro, sem a hegemonia dos fanáticos.

Imagem do Dia

Cross River Pound Ridge (EUA) 

Uma ditadura

As eleições para escolher o novo presidente colocam o eleitor brasileiro numa situação que nunca aconteceu antes. Eleições, normalmente, são uma das ferramentas mais importantes da democracia — mas no pleito deste fim de semana um dos lados tem como objetivo, caso saia vencedor, acabar com o regime democrático no Brasil. É uma droga de democracia, como todo mundo está cansado de saber, mas, por pior que seja, ainda é menos ruim que uma droga de ditadura — e é justamente isso que o consórcio formado pelo ex-presidente Lula, PT e sua vizinhança quer fazer no país. Eles não falam assim, é claro. Mas os atos concretos que prometem realizar depois de assumir o governo vão deformar de tal maneira o poder público, os direitos individuais e a máquina do Estado que o resultado prático vai ser a construção de um regime de força no Brasil. Não se trata apenas, como já aconteceu tantas outras vezes, de eleger um presidente ruim. O problema, agora, é que um dos possíveis finalistas, pelo que dizem há meses as “pesquisas de opinião”, tem um projeto público de ditadura para o país.


Acabar com o Poder Judiciário, por exemplo, anulando o seu tribunal mais elevado e interferindo nas decisões dos juízes e desembargadores — isso é ou não é uma providência básica que toda ditadura, sem exceção, julga indispensável tomar? Sim, é. Então: o candidato a presidente do PT promete que se for eleito vai criar um negócio chamado “controle social na administração da Justiça”. Isso quer dizer que as sentenças dos magistrados estarão sujeitas, no mundo real, a comitês externos ao Poder Judiciário, com membros nomeados pelo governo. Promete-­se, também, “repensar” os conselhos nacionais da Justiça e do Ministério Público. Todo mundo sabe muito bem o que significa “repensar” alguma coisa neste país — é virar a mesa. No caso, querem criar “ouvidorias”, compostas de pessoas que representem a “sociedade”, para vigiar juízes e o MP. Querem, ainda, criar algum sistema de cotas para a escolha de juízes, de forma a “favorecer o ingresso e a ascensão” de “todos os segmentos da população” nas carreiras do Judiciário, sobretudo as “vítimas históricas de desigualdades”. A coisa vai por aí afora, de mal a pior, mas o ex-deputado José Dirceu achou uma boa ideia acrescentar um plus a mais: conforme disse, deveriam ser tirados “todos os poderes do Supremo Tribunal Federal”. Segundo o pensador-chefe do PT, o “Judiciário não é um poder da República”. Quem manda, diz ele, é o povo, através do voto. Além do mais, afirmou, o que interessa é “tomar o poder”. Eleição é outra coisa.

O futuro governo Lula também promete criar oficialmente a censura à imprensa no Brasil. (Isso mesmo, governo Lula: o ex-presidente está na cadeia, condenado como ladrão em primeira e segunda instâncias, mas toda a estratégia do PT é provar que quem vai mandar de verdade no país é ele, e não seu preposto nas eleições.) Como acontece em relação à democracia, não se utiliza a palavra “censura”, assim abertamente; o que anunciam é o “controle social dos meios de comunicação”. É exatamente a mesma coisa. Esse “controle” não vai ser exercido pelo Espírito Santo. Quem vai “controlar” são pessoas de carne e osso nomeadas pelo governo, e “controlar” significa decidir o que a mídia pode ou não pode publicar. Isso é censura — e o resto é conversa, sobretudo os desmentidos de que haverá censura. A partir daí, só fica pior. Falam em “fortalecer” a prodigiosa TV Brasil — que eles mesmos inventaram —, que consegue gastar 1 bilhão de reais por ano de dinheiro público e até hoje tem audiência próxima ao zero. Falam em dar concessões de TV e de rádio a sindicatos, “coletivos” e “movimentos sociais” — e mais do mesmo.

O projeto do PT inclui também uma “Assembleia Constituinte” paralela ao Congresso, como se fez na Venezuela, para implantar um novo regime político e social no país. O que será isso? Nada fica dito em português claro, mas nem é preciso — basta ouvir o que dizem todos os dias as lideranças do partido. Propõem-se orientação “política” para o ensino básico, parceria com governos criminosos, como os da Venezuela e da Nicarágua, e com ditaduras africanas, e um governo dos “povos do campo, das águas e das florestas”, seja lá isso o que for. Mais que tudo, a candidatura do PT quer a volta dos governos Lula-Dilma — que acabam de ser acusados pelo ex-ministro Antonio Palocci de gastar 800 milhões de reais em dinheiro basicamente sujo para se manter no poder na última campanha presidencial. Francamente, não é preciso mais nada
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Salve-se no Legislativo

Não sei o que sairá das urnas no pleito presidencial. Se não confio (embora não as desconsidere) nas pesquisas de primeiro turno, não vejo porque levar em grande conta as de segundo turno, se ele ocorrer.

Em todo caso, recomendo que o voto parlamentar seja cuidadosamente selecionado com vistas a uma saudável renovação e conferido a candidatos dignos, com perfil conservador e liberal. Em qualquer desfecho, eles serão indispensáveis
Percival Puggina

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Disparo esta rajada assim à queima roupa sem vírgula nem ponto

minhas frases. minhas regras,

Tenho meus trinta e oito carregados até a boca. Muito cuidado. Cidadão amado até os dentes. A qualquer momento, uma fala perdida pode atingir um inocente desavisado. Por favor, retirem as crianças do texto.

Se a vida começa mesmo aos quarenta (tenho fé que comece) faltam vinte e quatro meses para o início da minha verdadeira jornada. Ainda que eu já mal consiga parar em pé. Quer dizer que venho correndo, alucinadamente, por esses dias e noites, durante esse tempo todo, só para chegar ao ponto de partida? É isto, mesmo, produção?

(So)Corro, mas não corro sozinho. Benditas e amadas moças me acompanham. Marquei passo em alguns trajetos, é verdade. Tropecei. Escolhi infelizes atalhos. Muitas vezes perdi o rumo. Estive para desistir em diversos momentos. Provei a exaustão de músculos e nervos. Fui vencido em incontáveis batalhas. E busquei em seus carinhos a paz que me revigora a alma e me põe de pé, sempre e outra vez.

Com meus trinta e oito carregados, não posso mais cometer alguns enganos, nem correr certos riscos. Tampouco, desperdiçar munição. Já aprendi que espoleta molhada nega chumbo. Que bala dumdum não é guloseima. Que algumas verdades são barris de pólvora. Boatos, granadas de mão. Mentiras, morteiros. Falsas notícias são armas de destruição em massa. E que os olhares da minha senhoura são condutores elétricos e têm efeito anestésico sobre este pobre moço.

Mas o que eu queria, mesmo, pra enfrentar a guerra diária, como proteção pessoal, era um colete à prova de malas. Tipo legítima defasa, sabe? Os malas, que são diversos, variados, surgem nos locais mais improváveis e estão em todos os lugares, não me atingiriam com suas inconveniências letais. Livre do risco de um mala traçante, poderia abrir mão da estratégia usual: fazer-me de morto.

Da guarita das minhas lembranças, espio, agora, eu menino. Tenho o porte (autorização da justiça do meu pai) de uma funda de galho de goiabeira e um saco de bolinhas de cinamomo. Faço a patrulha do bairro com minha viatura discreta de aro vinte e buzina fon fon. Seguro. Altivo. Destemido. Muito mais leve e confiante. Mais relaxado. Trocava na hora, meus trinta e oito e esta corrida insana, por aquela forquilha certeira e minha bike com rodinhas.

Tiago Maria

Sentimento do Brasil


Uma campanha à deriva no mundo

Mais ou menos conforme previa, a situação internacional teve pouco peso na campanha de 2018. Não se parou para pensar na sua complexidade e nas consequências no futuro próximo do Brasil. O tema ficou reduzido às relações com os países vizinhos: a Venezuela ocupou o centro, uma vez que seu drama atravessa a fronteira.

É um debate desconfortável para a esquerda, que apoia Maduro, pois milhões de pessoas na estrada julgam com os próprios pés o governo bolivariano. Mas se olhamos um pouco mais amplamente, há outros traços que favorecem a esquerda. A ascensão de Donald Trump já se dava num quadro de relativo declínio da supremacia americana, atenuada pela tática do soft power de Obama.

Trump optou por um caminho isolacionista, cortando vínculos multilaterais e abrindo mais espaço para a China, que o ocupa com rapidez. Embora expresse o temor dos americanos com a globalização, Trump ainda vive um processo de aprendizado, cheio de erros.

Os chineses, a julgar pela visão de Henry Kissinger, planejam por gerações, a escala de tempo de seu projeto é algo que supera de longe os planos de um só presidente. Além de ocupar os espaços abertos pelos EUA, a China se aproxima da Rússia, que, por sua vez, ampliou seu poderio militar. Um dado dessa força foi o anúncio de Putin sobre as novas armas nucelares, em março de 2018.


Consegui perguntar a alguns candidatos sobre a relação com a China, que já é o maior parceiro comercial do Brasil e vive um momento de expansão. Existe um debate sobre o papel da China como investidora em países da África. Alguns consideram que ela exerce um forte poder político por meio da presença econômica, interferindo até nos marcos regulatórios. Outros afirmam que a fragilidade desses países não pode ser atribuída à ação chinesa, mas ao precário sistema jurídico local. Este argumento é interessante, porque os europeus parecem abertos e até felizes com a atração dos capitais chineses.

Essa questão ficou mais ou menos no ar, a partir de um consenso de que o capital chinês é bem-vindo. Bolsonaro afirmou que os chineses podem comprar e vender no Brasil, mas não comprar o Brasil. Não ficou claro se sua restrição é apenas à compra de terras ou se falava de um Brasil menos material do que o chão, matas e rios.

A verdade é que a correlação de forças muda no mundo e o peso econômico da China será cada vez maior. Mas não é conveniente subestimar não só o poder econômico, mas a influência cultural norte-americana.

Se olharmos a guerra cultural que se travou na campanha entre esquerda e direita, veremos que ela não é só influenciada pelos norte-americanos, como também se entrelaça com o debate de lá. Vários artistas americanos opinaram sobre a eleição brasileira por encontrarem pontos de identidade com a luta que travam contra Donald Trump.

China e Rússia não veriam com bons olhos manifestações de gays e mulheres em seu território. Nesse campo cultural, ambas se colocam num campo oposto ao que se chama de visão de esquerda no Brasil.

A esquerda soube se aproximar das lutas identitárias e carimbá-las como uma decorrência de sua visão de mundo. Pessoalmente, reconheço que tive um papel nisso.

Mas algumas dessas lutas em outro contexto, como o russo, por exemplo, nascem no reduto liberal. E é compreensível, porque quase todas elas tratam, no fundo, de liberdades individuais.

Na campanha brasileira as coisas não aparecem com nitidez. De um lado, uma aliança entre conservadores nos costumes e liberais na economia. É um encontro que tende a produzir faíscas. Em recente entrevista, Vargas Llosa criticou o economista liberal Paulo Guedes por se associar a Bolsonaro. Ele acha que são visões incompatíveis.

De outro, na esquerda, a análise da queda de Dilma parece ter concluído que era preciso não apenas ganhar as eleições, como tomar o poder. O que significa reduzir os poderes que a confrontaram: Justiça e imprensa. Dificilmente a tendência autoritária na visão de governo não se chocará com as pessoas que votaram apenas porque temiam Bolsonaro.

Para mim, todas essas peças que se juntam e se opõem precisam ser mais bem avaliadas. Minha conclusão momentânea é que, no poder, só uma direita soft ou uma esquerda soft evitariam a turbulência.

Li uma frase engraçada sobre eleições: são como um bufê, você não pode pedir um ovo frito. Mas depois das eleições, quem sabe? O vencedor será o presidente de todos os brasileiros. Nem todos cabem no figurino dos ideólogos.

Quanto à política externa, que ficará ainda por ser mais bem discutida, é essencial que seja compreendida como algo nacional e não definido por uma visão estritamente partidária. Não só porque a estreiteza exclui um consenso interno mais amplo. É que a complexidade do mundo assim o exige.

No passado, quase nunca discutíamos o papel do Brasil no mundo. Pelo menos, antes de avaliarmos que mundo é esse a que nos referimos. Se a campanha não fizer isso no segundo turno, certamente o problema reaparece no ano que vem.

Um dos pontos que devem ser muito bem pesados é a política ambiental. Bolsonaro tem proximidade com Trump nesse tema. Porém adotar a mesma política no caso brasileiro significa um grande impacto internacional.

Certamente foi grande o impacto da saída dos EUA do Acordo de Paris, por exemplo. A importância dos norte-americanos na política ambiental decorre muito de sua importância econômica, seu papel na redução de emissões. No caso brasileiro, qualquer passo atrás será visto com sobressalto. É como se uma potência ambiental deixasse de se unir ao esforço planetário para atenuar as mudanças climáticas.

Tudo isso em véspera de eleição fica um pouco em suspenso como uma camada de pó. Quando a poeira baixar... Vamos esperar o que dizem as vozes de domingo. São o farol que vai clarear o novo pedaço do caminho.

O bondage da bondade

Alguém escreveu numa rede social, “o mundo precisa de mais bondade”. Li a postagem e não comentei a não ser mentalmente. Pareceu-me de desconfiar. Que o mundo precisa é de bondade é a primeira de todas as verdades. Alguns comentaristas corajosos concordaram com o utilizador da rede social, por norma um criativo bem-humorado, cuja afirmação se estranhou. No dia seguinte, o mesmo utilizador esclareceu, “desculpem, o post de ontem resultou errado por causa do corretor ortográfico. O que eu queria dizer é que o mundo precisa de mais bondage.” Todos riram. Agora, sim, havia coerência. Bondage, sim. Vamos rir. Eu estou entre os que se riram.

A bondade deixou de ser uma qualidade. Não sei se alguma vez foi. É uma vergonha ser bom. Ser bom é ser mole, ser fraco e vencido. Há em nós uma bondade intrínseca contra a qual lutamos todos os dias, por não ser boa ideia evidenciá-la. Ninguém lhe acha graça. Há uma bondade que passamos a vida a calar, a controlar. E, contudo, se háalgo de que o mundo precisa é de bondade. Mais nada.

Isabela Figeuriredo

Um referendo sobre Lula

Seria surreal se não fosse verdade. Dois candidatos foram determinantes na fase crucial da campanha eleitoral, que agora se encaminha para o fim, sem sequer terem estado presentes nela. Todos os demais, que corajosamente se digladiaram de debate em debate na TV, não terão chance. A contribuição deles em termos de conteúdo não desempenhará papel algum.

Jair Messias Bolsonaro, um dos que não estiveram presentes, ficou internado durante quase todo o mês de setembro após ser esfaqueado. O outro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, permaneceu atrás das grades – assim como nos cinco meses anteriores. Neste ano de 2018, parece não ter importância se um candidato está ou não fisicamente presente na campanha eleitoral. Ou se ele – como no caso de Lula, barrado pela Justiça – pode ou não ser candidato oficialmente.

Em 7 de outubro, o Brasil vai decidir sobre Lula. Quem o considera um vilão e odeia tudo o que ele representa vota em Bolsonaro. Quem odeia tudo aquilo contra o que Lula se coloca – começando pelo presidente Michel Temer, passando pela Justiça, promotores e juízes, até os militares – vota em Lula. Ou seja, em Fernando Haddad. Agora depende de quem é retratado como mais odioso: o "fascista e racista" Bolsonaro ou o "comunista" Lula.


Em ambos os casos, trata-se da figura de Lula, e não da de Bolsonaro. Pois Bolsonaro só existe politicamente, sobretudo, por causa de Lula. Ele deve sua ascensão, em primeiro lugar, ao ódio que manifestou publicamente contra todas as mudanças que Lula e o PT trouxeram ao Brasil. Mais tarde, inflamou sua base com os apelos para que Lula fosse para a cadeia. Quando isso aconteceu, Bolsonaro reajustou suas mensagens em vídeo: agora se tratava de impedir que Lula fosse libertado por um presidente Haddad e continuasse seu plano de transformar o Brasil numa nova Cuba.

Enquanto isso, o candidato substituto do PT, Haddad, se apresenta como um outdoor ambulante de Lula. O ex-presidente pediu repetidas vezes que não fosse julgado pela Justiça – isto é, pelo juiz federal Sérgio Moro –, mas sim pelo povo brasileiro. Nas urnas, e não num tribunal. E é isso o que Lula receberá agora. No próximo domingo – ou no mais tardar no segundo turno, em 28 de outubro – o povo vai proferir a sentença sobre o ex-presidente.

Para alguns, Lula é o maior brasileiro de todos os tempos; para outros, o maior vilão. Ambos os lados têm suas opiniões reforçadas pelas redes sociais. Informações objetivas, soluções construtivas e contribuições sensatas para o debate não são oferecidas. Geralmente, há apenas veneno puro, pulverizado sem piedade sobre o arqui-inimigo político.

Há muito tempo não se trata mais de conteúdo, da política econômica acertada, de uma melhora da educação e da saúde. Nada disso vai decidir as eleições, nada disso é importante. O que conta é prejudicar o outro, com puro ódio. Não há espaço para mais informações nas postagens no Facebook, assim como não há vontade de debater.

Estas são as primeiras eleições no Brasil cujos temas não são mais norteados pela imprensa tradicional. Agora, dominam grupos anárquicos no Whatsapp e postagens no Facebook sobre o fluxo de (des)informação, e quase ninguém mais sabe o que é falso nas notícias. E isso também não interessa. Porque o fake está na moda, e a verdade foi há muito tempo substituída pelo instinto. As eleições serão vencidas por aquele que conseguir meter medo e pintar o inimigo de forma ainda mais odiosa do que ele próprio é visto pelo adversário.
Thomas Milz 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Paisagem brasileira


Agradeça a Lula

Não importa quem vá para o segundo turno. Não importa quem ganhe a eleição no fim do mês. O vitorioso terá de agradecer ao ex-presidente Lula pelos eu sucesso. Se Fernando Haddad se credenciara gora elevar o pleito do dia 28, o poste terá vencido graças à genialidade do seu criador e mentor. Se Bolsonaro ganhar, aproveitando a onda antipetista que varre o país, será graças à política insistente do “nós contra eles” de Luiz Inácio.


Esse discurso começou no já remoto mensalão. Primeiro, quando o furúnculo explodiu mostrando o carnegão do esquema de compra de partidos em troca de apoio político, Lula disse que não sabia de nada, que foi traído e mandou alguns dos seus velhos companheiros para a guilhotina, como Genoino, Gushiken, Dirceu, Delúbio e João Paulo. Depois, quando percebeu que podia ir mais longe, passou anegara existência do esquema que resultou na condenação e prisão de 24 pessoas, seis delas do PT.

Lula começou então a nomear o “culpado” pelo mensalão. Foram “eles”, na palavra do líder que cumpre pena em Curitiba. Foram “eles” que inventaram a história para impedir que o brasileiro continuasse a comer três vezes por dia e a andar de avião, repetia. No princípio, nem os próprios companheiros de Lula acreditavam naquela bobagem. Mas ela foi se consolidando entre políticos e militantes que se recusavam a enxergara verdade e precisavam de uma saída honrosa.

Nenhum pedido de desculpas jamais foi feito por este ou pelo outro grande escândalo da era petista, o petrolão. Afinal, eles não existiram mesmo, afirmava o líder de todos. A culpa era “deles”, que queriam acabar com as conquistas do povo obtidas durante o governo do PT. É incrível como tanta gente de esquerda, honesta e inteligente, se agarrou àquela explicação patética como se fosse verdade. Muitos nunca acreditaram na lorota, e alguns deixaram o partido envergonhados, é bom que se diga.

Lula não inventou a luta de classes, ao contrário, fez um documento em que pregou paz na política nacional, onde caberiam todos, e jurou aplicaras regras do mercado na economia. Mas ele inventou a guerra do “nós e eles”. O “nós” era Lula e todos os seus companheiros de PT e de partidos aliados, os que lutavam por um Brasil mais justo. Por um bom tempo, o “nós” abrigava também o PMDB de Temer, Jucá, Cunha e Renan. E o “eles” eram os demais, os inimigos do povo.

Como diz o ex-deputado petista Eduardo Jorge (PV), candidato a vice de Marina Silva, “o ódio foi plantado há muitos anos, não nasceu como um cogumelo, da noite para o dia”. Ele se refere a Lula e ao seu discurso diuturno contra os que pensam de modo diferente ou encontram soluções alternativas às do PT para o Brasil. Discurso amplificado após o impeachment de Dilma e que ganhou o após todo golpe”.

Essa retórica de Lula, que ainda aglutina quem acredita na inocência petista e que agora dá a Haddad mais de 20% do eleitorado, está da mesma forma transferindo muitos votos para o outro lado, o oposto do PT, o antipetismo absoluto. Por isso, Lula será responsável por qualquer resultado na eleição presidencial. Se Haddad é o poste de Lula, Bolsonaro é o resultado da sua obra, é a sua criação.

É verdade que Lula teve uma mãozinha do seu velho inimigo, o hoje quase irrelevante PSDB. O partido, que fez o Real e governou o país por dois mandatos, colocou as mãos na mesma massa suja em que o PT enfiara as suas. Sem um líder carismático como Lula, um mártir, um “inocente” preso, o PSDB naufragou com um discurso antiquado e um candidato água morna.

Ninguém tem bola de cristal, nem Lula. Mas se ele tivesse se dado conta há um ano da tormenta que agora se avizinha, certamente teria trabalhado para que o PSDB fosse o adversário no segundo turno. Ou teria proposto uma aliança em torno de outro partido e com outro candidato, Ciro Gomes, por exemplo.

O fato é que, se vencer no dia 28 de outubro, além dos inegáveis méritos próprios, sobretudo ode saber surfara onda na hora certa e ode usar de maneira eficiente as redes sociais( com mentira semeias verdades ), Bolsonaro terá de agradecera Lula pela alavancagem que lhe garantiu um tsunami de votos que nem o mais fiel seguidor do capitão poderia imaginar.

No reto final

Eu, Agamenon Mendes Pedreira, o maior jornalista morto-vivo do Brasil, já fui testemunha pessoal de muitos acontecimentos da nossa história. Vi com meus próprios olhos o assassinato do Titanic, o naufrágio de Kennedy e o autossuicídio de Getúlio Vargas. Mas nunca presenciei uma eleição tão conturbada como a que estamos vivendo desde o fim da ditadura, quer dizer, do Movimento de 64, como afirmou com descortino o presidente do Supremo Tribunal de Frango, José Dias PToffoli.

Estamos entre o SUS e a caldeirinha! Eu sei que esse trocadilho é péssimo, mas os candidatos que estão na frente das pesquisas são muito piores. Aliás, agora vai sair pesquisa todo dia. O cidadão brasileiro, que já não estava conseguindo dormir, agora também não consegue ficar acordado vendo a GloboNews. Essas pesquisas são que nem cocô: se faz todo dia e sempre tem que dar uma olhada pra ver a cara do “serviço”, mas o resultado é um só: é sempre uma merda. O Ibofe e o DataFoda-se transformaram a eleição num imenso Fla x Flu onde você torce pro seu time fanaticamente mesmo que ele seja uma bosta, o técnico seja horrível e o presidente do clube, um ladrão.

Escolher entre Jair Bolsonazi e Ferrando Retarddad é uma verdadeira escolha de Sofria. Eu sei que esse trocadilho é péssimo, mas já disse e reafirmo: os candidatos que estão na frente das pesquisas são muito piores. Pra deixar o país ainda mais inflamado, os ministros do STF estão brigando pra ver quem vai soltar primeiro o ex-presidente e atual presidiário Luísque Inácio Lula da Silva.

Estão tacando lenha na fogueira, e o Ibama não faz nada diante dessa devastação eleitoral-ecológica. E agora surgiram trechos da delação premiada de Antônio Palocci, que está preso há mais de dois anos. Em seu depoimento à Polícia Federal, Palocci revelou que tem o rabo preso e a língua também, mesmo porque no PT (Partido dos Trambiqueros) quem não tem a língua presa não sobe de vida no partido e, mesmo condenado, tem direito à cela especial em Curitiba. Isso é a maior carceragem! Eu sei que esse trocadilho é péssimo, já disse isso, mas vou repetir: os candidatos que estão na frente das pesquisas são muito piores.

Agamenon Mendes Pedreira é jornalista marrom, da cor dos candidatos que estão na frente das pesquisas

O sonho mirabolante

São espetaculares os termos da delação do ex-ministro Antonio Palocci cujo sigilo foi levantado pelo juiz Sérgio Moro. Não chegam a ser exatamente “revelações”, mas comprovam de maneira assombrosamente clara como foi produzido o desastre no qual se enfiou o Brasil. Catástrofe na qual o PT e seu chefão, Lula, tiveram papel de liderança e conduta, mas que envolveu amplos círculos do mundo da política, dos negócios, da economia e setores importantes da sociedade civil.

Não, não é a parte que fala de propina, ilicitudes, grana correndo por dentro e por fora e os mais variados crimes de corrupção. É a parte, no anexo 1 da delação, na qual Palocci relata como a descoberta do pré-sal levou Lula, em 2007, a ter “sonhos mirabolantes”. E como o governo vislumbrava um país riquíssimo, e, para isso, se determinava a construção de 40 navios sondas – e a consequente “fundação” de uma indústria naval completa – para a nacionalização e desenvolvimento do projeto do pré-sal, pelo seu interesse social e pela possibilidade de alavancar a indústria nacional.



Estão aí os elementos centrais (políticos, sociais e econômicos) do “nacional-desenvolvimentismo”, que é, talvez, o pior conjunto de ideias capaz de explicar a baixa produtividade, a baixa competitividade, o atraso relativo e a distância que o Brasil vê aumentar em relação às economias avançadas, tanto pelo ponto de vista das nossas relações de trabalho e sociais quanto à nossa capacidade de participar da era da geração do conhecimento.

O “nacional-desenvolvimentismo” dos militares ainda tinha um componente focado em infraestrutura e ocupação de território, enquanto o “nacional-desenvolvimentismo” do lulopetismo desandou para a “nova matriz econômica” dos subsídios, proteções, controle de preços (mais prejudicial à Petrobrás que a totalidade da grana desviada pelos companheiros do PT, PMDB e PP) e anabolizantes de consumo via crédito.


Impossível dizer que os “sonhos mirabolantes” do então presidente fossem delírios saídos de uma só cabeça. O “nacional-desenvolvimentismo” do PT vem de uma longa tradição que capturou também cabeças pensantes do mundo empresarial, acadêmico e político. É parte de um ideário nacional quase, infelizmente, “atávico” e com raízes já anteriores ao varguismo. E seu retrato 3 x 4 moderno só poderia ser o de Dilma Rousseff – para ser colocado na parede com a legenda: “esta é a cara do nacional-desenvolvimentismo”.

Nestas eleições, nas quais a corrupção (com razão) e a insegurança pública (com razão) ocupam um espaço tão importante na maneira como os eleitores encaram os candidatos, ficou em plano muito inferior qualquer debate sobre o conjunto de ideias, sobre o “sonho mirabolante” transformado em pesadelo – e nem estamos falando de seus aspectos éticos e morais. Por mais paradoxal que pareça, dadas a profundidade e a abrangência do fracasso econômico, uma relativamente gigantesca fatia da sociedade é sensível às mesmas promessas e aos mesmos postulados ligados ao atraso, à ineficácia, à estagnação.

Para muita gente, muita mesmo, é mais fácil encarar as mazelas do momento como o resultado da ação de políticos incompetentes, perdulários, corruptos e que agem apenas em benefício do próprio bolso ou de seus grupos. E que uma vez lavado tudo isso a jato, as coisas voltam a funcionar e o País a crescer e a gerar prosperidade. É um grave engano, mas quem disse que elites inteiras não se enganam?

Pensamento do Dia


Balzaquiana

Há poucas semanas, o general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, defendeu a elaboração de uma nova Constituição “sem os eleitos pelo povo” pois, afinal, “já tivemos vários tipos de Constituição sem ter passado pelo Congresso”. Nos últimos dias, o adversário de Bolsonaro e candidato do PT Fernando Haddad disse que alteraria a Constituição “se o Congresso assim entender”.

Embora a declaração do petista se enquadre nos moldes da democracia brasileira, ao contrário da declaração do general, é curioso que as campanhas dos dois candidatos favoritos a disputar o segundo turno neste momento tenham se referido à necessidade de mudar a Carta Magna do País justo quando ela completa 30 anos. A Constituição brasileira foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte em 22 de setembro de 1988 e promulgada em 5 de outubro do mesmo ano.

Trata-se, portanto, de uma balzaquiana. Mulher experiente e emocionalmente amadurecida, ainda que possa ter lá seus defeitos como qualquer outra balzaquiana.


Mulheres têm sido protagonistas nessas eleições tão estranhas. A elas fazem questão de se referir os candidatos nos debates na TV. Foram elas que organizaram o movimento #EleNão, que ganhou não apenas as ruas do País, mas também as páginas da imprensa internacional e a adesão de celebridades globais. A divisão dramática do País ficou evidente quando, um dia após os protestos contra Bolsonaro, houve manifestações apoiando o candidato da direita extrema em algumas cidades brasileiras. As pesquisas de opinião continuam a mostrar que, apesar do peso das eleitoras, o candidato rejeitado por grande contingente das mulheres brasileiras ganha novos adeptos e adeptas, todos aqueles eleitores que nele votarão para evitar o retorno do PT.

Que fique claro: o pior cenário eleitoral se consolida rapidamente. Essa eleição não deveria ter se transformado em referendo sobre a democracia versus referendo sobre a corrupção, mas essa é a escolha com a qual se defrontará a população, por mais que o instinto de negação queira demonizar o outro lado para evitar a dor dessa realidade. Realidade que é fruto de circunstâncias que escaparam do nosso controle.

Há os que querem se referir a Bolsonaro como “um fenômeno eleitoral”. Marketings e ingenuidades à parte, o candidato não é nada disso. Ao contrário, Bolsonaro é fruto do total desmantelamento institucional que o País vem atravessando nos últimos cinco anos. Começou com os protestos de 2013 que não tiveram resposta política para os anseios difusos da população que foi às ruas. Se intensificou com a má gestão econômica do governo de Dilma Rousseff e com a explosão da Lava Jato e suas revelações avassaladoras. Ganhou ainda mais impulso quando o PSDB decidiu se juntar ao abjeto PMDB para pedir o impeachment de Dilma, o impeachment de coalizão que tentou abortar uma crise econômica anunciada e desacelerar a Lava Jato, simultaneamente.

Dilma manteve seus direitos políticos, ao contrário do que manda nossa balzaquiana Constituição, e deve se eleger senadora por Minas Gerais. Se isso não desmascara a farsa que nos trouxe à convulsão institucional em sua plenitude, difícil é saber o que o faria.

Por fim, a candidatura de Bolsonaro, do homem que defende a tortura, a morte, e que acha a democracia espécie de brincadeira de mau gosto, foi selada pela ânsia de Lula e do PT. A ânsia de voltar ao poder como espécie de revanche, de vingança histórica. Não tivesse o PSDB participado do impeachment e do desde sempre moribundo governo Temer, hoje teria chances de eleger um candidato. Não tivesse o PT lançado uma candidatura nessas eleições, não haveria Bolsonaro.

Bolsonaro é o sintoma da indignação profunda, da raiva, da traição do PT que, prometera entregar prosperidade, mas se rendeu com facilidade às engrenagens da corrupção brasileira, assim alcançando patamares jamais vistos. Haddad até seria um bom candidato, não estivesse ele concorrendo pelo PT. Mas está. E, desse modo, viabilizou Bolsonaro.

Em meio ao abismo que se anuncia, ninguém haverá de comemorar a conquista de 30 anos de Constituição. Afinal, quem se importa ante a cegueira que acometeu o País?

O assalto ao Palácio do Planalto

A tomada do poder é um conceito do marxismo clássico associado a um ato por meio do qual uma força política destrói o velho Estado burguês e constrói um novo. Exemplos disso foram o assalto ao Palácio de Inverno da Revolução Russa, a tomada do poder por Mao Tsé-Tung na China e por Fidel Castro em Cuba. A ideia do “Assalto ao Palácio de Inverno”, sempre habitou a cabeça de nossa esquerda. Em 1935, pregava “Todo Poder a ANL (Aliança Nacional Libertadora)” e, nas vésperas de 1964, Luiz Carlos Prestes alardeava que não estava no governo, mas estava no poder. Uma bazófia, claro, mas os soviéticos acreditaram.

Formado na velha escola do stalinismo, José Dirceu ressuscitou a tese em entrevista ao jornal espanhol El País. Disse o comissário: “dentro do Brasil é uma questão de tempo para a gente tomar o poder, que é diferente de ganhar eleição”. E realmente é. Quem ganha eleição mas não se apossa do Estado, submete-se ao jogo democrático, respeita o pluralismo e a sagrada alternância do poder. Já quem toma o poder muda a ordem constitucional e procura se perpetuar.

Estaria o petista fazendo uma ameaça tipo a de Prestes? Difícil de crer. O PT sempre teve um projeto de poder, utilizando-se de expedientes como o Mensalão e o Petrolão para impô-lo ao país. Se não avançou mais o sinal e respeitou a alternância do poder foi porque a correlação de forças não permitia.

Mas quem disse que cometerá o mesmo erro novamente se voltar ao Palácio do Planalto legitimado pelo voto?


O próprio Zé Dirceu já disse em outras ocasiões que o PT não voltaria a cometê-los. Há um precedente preocupante. Os sandinistas submeteram-se à alternância do poder quando perderam a eleição para Violeta Chamorro. Aprenderam a lição. Quando voltaram respaldados pelas urnas, Daniel Ortega se perpetuou no poder, rivalizando com Nicolás Maduro em matéria de ditadura sanguinária em nosso continente.

O comissário não é uma voz isolada no PT. Resoluções do PT estão cheias de passagens sobre o controle social da mídia. Em outra delas, sua executiva lamentou por não ter promovido nas forças armadas oficiais com “compromissos democráticos e nacionalistas”. Acometido de sincericídio, o senador Lindemberg Farias alardeou o bordão “Haddad no governo, Lula no poder”. E seu presidenciável fala na convocação de uma Constituinte exclusiva.

Como a era das revoluções ficou para trás, o “Assalto ao Palácio do Planalto” não poderá se dar pela via leninista da insurreição das massas. Essa via está esgotada, mas há outra.

Em seu livro “Como as democracias morrem”, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, mostram que ditadores de esquerda e da direita usam a democracia para implodi-la por dentro. A tomada do poder não acontece mais por meio de insurreição das massas ou de golpes militares, mas sim pela via eleitoral. Por meio de mecanismos democráticos foram instaladas a ditadura de Erdogan na Turquia, Chàves/Maduro na Venezuela, Duterte na Filipinas, Ortega na Nicarágua.

Neste modelo, a democracia deixa de ser um valor universal para ser um expediente tático. O objetivo estratégico do PT é a tomada do poder, como confessa José Dirceu. A eleição é apenas a maneira para chegar lá.
Hubert Alquéres

Em risco constante

O jornalismo tropeça em armadilhas. Nossa profissão enfrenta desafios, dificuldades e riscos sem fim. E é aí que mora o desafio
Carlos Alberto Di Franco

Números do desastre petista

A trágica herança deixada pelos últimos anos da era lulopetista na economia fica evidente também nos dados sobre a demografia das empresas que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acaba de divulgar. Em 2016, último ano da desastrosa passagem de Dilma Rousseff pela Presidência da República, o Brasil perdeu 70,8 mil empresas, o que resultou na demissão de 1,6 milhão de trabalhadores. É o que mostra o estudo Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2016 divulgado pelo IBGE.


O fato de esse ter sido o terceiro ano consecutivo em que o saldo total de empresas em operação no País foi negativo comprova, com estatísticas expressivas sobre a deterioração do ambiente empresarial, o que outros indicadores já mostravam. A crise que afetou duramente o País começara efetivamente em 2014. Foi o ano em que, escondendo dados sobre a realidade da economia e das finanças públicas e fazendo promessas que jamais poderia cumprir, Dilma iludiu boa parte do eleitorado e conseguiu sua reeleição.

As mentiras com que Dilma e sua companheirada animaram a campanha eleitoral tinham pernas curtas, a recessão se instalou, as pedaladas fiscais com que o governo petista tentou esconder a gravidade da crise das contas públicas se evidenciaram e a presidente, afinal, foi definitivamente afastada do cargo no dia 31 de agosto de 2016. Os efeitos de sua danosa gestão, porém, persistiram por vários meses após seu impeachment. Desse modo, comprometeram o início do governo de seu sucessor legítimo, Michel Temer, a despeito do esforço deste para iniciar um severo controle das contas públicas destroçadas nos anos anteriores.

Em 2016, havia 4,5 milhões de empresas ativas, que ocupavam 38,5 milhões de pessoas, das quais 32,0 milhões eram assalariadas e 6,5 milhões, sócias ou proprietárias. Em relação ao ano anterior, o saldo total de empresas caiu 1,6% e o total de pessoal assalariado, 4,8%.

A taxa de entrada das empresas no mercado, que mede a proporção de empreendimentos iniciados no ano em relação ao universo total das empresas, por sua vez, caiu pelo sétimo ano consecutivo. Essa taxa fixou em 14,5% em 2016, o menor valor da série iniciada em 2008. Isso sugere que, no Brasil, os efeitos da crise financeira mundial de 2008 - que afetaram a disposição de empreender em todo mundo durante algum tempo - se estenderam por um período mais longo em razão das imensas dificuldades que a equivocada política econômica do governo Dilma impôs à atividade empresarial.

O impacto negativo dessa política econômica foi particularmente notável nas estatísticas sobre as empresas consideradas de alto crescimento. São as empresas que desempenham um papel socioeconômico mais relevante, pois estão nessa classificação aquelas que aumentaram o número de empregados em pelo menos 20% ao ano, em média, por três anos consecutivos e tinham 10 ou mais pessoas ocupadas assalariadas no ano inicial da classificação. Entre 2015 e 2016, o número dessas empresas diminuiu 18,6% e seu pessoal assalariado caiu 23,5%. Mesmo assim, embora representassem apenas 0,9% do total do universo das empresas, elas ocupavam o equivalente a 8,3% de todo o pessoal assalariado.

O forte impacto social negativo dos últimos anos do governo de Dilma é nítido também nas taxas de desocupação aferidas regularmente pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, também do IBGE. Essa taxa é a média do trimestre móvel encerrado no mês de referência. Ela começa a subir no trimestre encerrado em janeiro de 2015, primeiro mês do segundo mandato de Dilma, quando ficou em 6,8%. Um ano depois, já estava em 9,5%. A deterioração do mercado de trabalho em consequência da recessão provocada pelos equívocos da política econômica petista se acentuou nos meses seguintes, até alcançar seu ponto máximo em março de 2017, quando chegou a 13,7%.

São números que o eleitor deveria levar em conta quando for depositar seu voto domingo.

Vaquinha Brasil


Já passou da hora de se pensar no dia seguinte ao das eleições

No município de Petrópolis, em Pedro do Rio, onde estou desde sábado passado, não há quase nenhum sinal que lembre as eleições do próximo domingo, embora a disputa entre os candidatos aos governos estaduais e a presidente da República chegue a ser quase histérica.

São raros os cartazes afixados em automóveis. Um ou outro carrega cartaz de deputado estadual ou federal. Sobre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, silêncio absoluto. A sensação que se tem é a de que as eleições serão entre petismo e antipetismo. O voto está sendo guardado a sete chaves pelo eleitor. O resultado só virá no domingo e, com ele (qualquer que seja ele), o que preocupa é o dia seguinte.


Já passou da hora de os responsáveis diretos pelos destinos de nosso país refletirem com seriedade sobre o dia seguinte ao das eleições. Essa preocupação deveria ter sido despertada quando o então vice-presidente Michel Temer, logo após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, assumiu a Presidência da República. Aliás, essa preocupação deveria ter sido despertada desde a fundação da República, se os políticos deixassem.

O governo Temer tomou providências importantes no setor econômico, mas optou por assessores que representavam o que havia de pior na política brasileira, esquecendo-se de que ela deve ser, no regime democrático, o principal condutor dos anseios da sociedade. Jogou tudo em sua propalada experiência parlamentar. Afinal, além de deputado constituinte, permaneceu na Câmara por mais de 20 anos. Lá, foi líder da maior bancada e líder do bloco da maioria, mas, sobretudo, seu presidente por três vezes. Foi vice-presidente de Dilma Rousseff por duas vezes. Isso, ao contrário, não o fez ganhar todas as batalhas. Deixará o governo com o mais baixo índice de aprovação popular.

O silêncio das eleições de domingo estimula especulações. Os mais otimistas acham que ainda poderá ocorrer alguma surpresa, que adviria da não aceitação dessa polarização, de fato, não só insensata, mas perigosa. Hoje, porém, com a pesquisa da última segunda-feira (escrevo estas linhas com dois dias de antecedência), que estaciona o candidato do PT e faz subir 4 pontos o do PSL, parece não haver dúvida de que, no segundo turno, estarão os dois que hoje lideram todas as pesquisas.

Por outro lado, o intrigante silêncio que tomou conta das eleições de domingo, aliado à divulgação, na noite da última segunda-feira, da demolidora delação do ex-ministro Antonio Palocci, sinaliza, embora ainda incerta, a possibilidade de que o próximo presidente, a partir de 2019, seja anunciado no primeiro turno, com vantagem para Jair Bolsonaro.

E para tornar mais frágil a candidatura de Fernando Haddad, que age como representante ou “pau-mandado” de um presidiário, sua vice, Manuela D’Ávila, pertencente ao PCdoB, não o ajuda em nada, antes só o prejudica.

O apelo à sensatez, feito com atraso pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pode ser dirigido agora aos candidatos já praticamente escalados para o segundo turno. É oportuno frisar que qualquer dos dois, para alcançar êxito em sua missão – a de administrar um país extremamente diversificado e complexo –, terá que buscar apoios no Congresso Nacional, com vistas à formação de ampla maioria, capaz de levar a bom termo as reformas urgentes e indispensáveis ao país.

Como a natureza, a política não dá saltos. A democracia é só um processo. Ela requer conciliação, respeito, paciência e civilidade.
Acílio Lara Resende

Sociedade do desperdício

Uma tentação imediata do nosso tempo é o desperdício. Não é só resultado duma invenção constante da oferta que leva ao apetite do consumo, como é, sobretudo, uma forma de aristocracia técnica. O tecnocrata, novo aristocrata da inteligência artificial, dos números e dos computadores, propõe uma sociedade de dissipação. Propõe-na na medida em que favorece os métodos de maior rendimento e a rapina dos recursos naturais. As hormonas que fazem crescer uma vitela em três meses, as árvores que dão fruto três vezes por ano, tudo obriga a natureza a render mais. Para quê? Para que os alimentos se amontoem nas lixeiras e os desperdícios de cozinha ou de vestuário sirvam afinal para descrever o blefe da produtividade

Agustina Bessa-Luís, "Dicionário Imperfeito"

O paradoxo do progresso

Caros Brasileiros, de onde vem a polarização que todo mundo sente? Hoje, no dia da unidade alemã (03/10), descobri uma nova explicação que eu queria compartilhar com vocês nesses tempos tensos, poucos dias antes das eleições no Brasil.

A inspiração vem de um livro com o título "O paradoxo da integração". O autor, Aladin El Mafaalani, é filho de imigrantes árabes, sociólogo, economista e professor de ciências políticas. A atual polarização política na Alemanha para ele é o resultado de uma integração bem sucedida de imigrantes.

Parece bastante contraditório, mas a conclusão de Mafaalani é: mais progresso, mais polarização.

"Enquanto mulheres imigrantes faziam limpeza, ninguém ligava para o véu ou o lenço na cabeça delas", disse ele. "Mas quando elas começaram a fazer faculdade e subir na escada social, os conflitos surgiram."

As estatísticas sustentam essa tese: o nível de educação da geração jovem de imigrantes na Alemanha melhorou significativamente. Em 2005, somente 14 % desse grupo conseguiu um diploma universitário. Em 2016, a taxa subiu para 26%. No mesmo período, o desemprego entre todos imigrantes na Alemanha diminuiu: caiu de 18% para 7%.


Ao meu ver, a tese de Mafaalani serviria também para explicar a polarização da sociedade no Brasil. Pois nos últimos 25 anos, milhões de brasileiros humildes conseguiram ascender socialmente. Ao passo que o combate à pobreza no Brasil é reconhecido pela comunidade internacional, internamente a avaliação é divida. Enquanto a maioria festeja o progresso, uma parte da sociedade se sente até ameaçada.

Isso provocou uma reação contrária: contra cotas para negros nas universidades, contra a legislação do emprego doméstico, contra o PT. E inveja também. Inveja dos novos atores na sociedade, que queriam mudar a maneira tradicional de governar o país, que queriam ser ouvidos e respeitados.

Mas qual seria a resposta para esse paradoxo do progresso? Seria então melhor não lutar mais por justiça social, direitos de minorias, emancipação da mulher, integração de refugiados ou proteção ao meio ambiente?

A resposta é definitivamente não. Pois é melhor conviver com o paradoxo do progresso do que com o retrocesso. E mais importante ainda: apesar dos avanços no campo da integração e inclusão social, ainda tem muito o que melhorar.

O medo que os movimentos populistas continuem avançando é real. Na Alemanha, o partido de direita "Alternativa para a Alemanha" (AfD) alcançou 18 % nas últimas pesquisas eleitorais. No Brasil, o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) alcançou 32% das intenções de voto.

A ideia de voltar para "os bons tempos de antigamente" parece sedutora. Na realidade, essa viagem é uma ilusão. Pois, afinal, qual passado teria sido melhor? O tempo da ditadura militar no Brasil? O "Estado Novo" de Getúlio Vargas? E na Alemanha, a extinta República Democrata Alemã? A ditadura do Nazismo?

Em vez de glorificar um passado não definido, o desafio é desenvolver e discutir ideias para o futuro. Pois a globalização não vai ficar mais humana se for combatida com populismo, protecionismo ou nacionalismo. E a criminalidade não vai se dissolver com tanques de guerra nas favelas. E a imigração para os Estados Unidos não vai parar com o muro de Trump. Muros serão derrubados, ensina a reunificação alemã.

Astrid Prange de Oliveira

Bolsonaro vira recado do eleitor: a conta chegou

Quem dissesse há um ano que Jair Bolsonaro chegaria às eleições de 2018 como um presidenciável competitivo corria o risco de ser internado como maluco. Pois aconteceu. Além de liderar as pesquisas do primeiro turno, Bolsonaro deixou de ser um azarão para o segundo turno. Até o mercado financeiro, que sonhava com alternativas mais previsíveis, já trata a eventual vitória de Bolsonaro como algo natural.


Bolsonaro chega às portas do Planalto depois de passar 27 anos na Câmara como um folclórico deputado do baixíssimo clero. O capitão formou com um general uma chapa puro-sangue militar. Cavalga um partido de fancaria, o PSL. Elegeu um deputado em 2014. Hoje, sua bancada de oito deputados cabe numa Kombi. O tempo de Bolsonaro no horário eleitoral é de 8 segundos.

Como explicar que tamanha precariedade tenha virado um sucesso? Deve-se o fenômeno à falência do sistema político. Bolsonaro é a resposta enraivecida do eleitorado aos defeitos da democracia brasileira —da blindagem de corruptos até a ineficiência de escolas e hospitais, passando pela falta de empregos. Um pedaço do eleitorado envia, por meio de Bolsonaro, um aviso aos caciques da política, entrincheirados no PT, no PSDB, no MDB e nos seus cúmplices. Eis o recado: a conta da desfaçatez chegou.