sábado, 23 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


É preciso fazer um detox digital

Imagine uma doença cujos sintomas sejam ansiedade, irritabilidade, comportamentos compulsivos, dificuldade de concentração, insônia, sudorese, tremores, taquicardia. E para a qual não haja vacina ou medicamento, máscara que evite o contágio ou isolamento social que dê jeito (ao contrário: até agrava o quadro).

Pois ela existe, é pandêmica e atende por “nomofobia” (do inglês “no mobile phobia”): medo irracional de ficar sem o celular — ou sem conexão. Você pode estar infectado — e só se dará conta quando se vir privado do aparelho ou do sinal. O que fazer naqueles intermináveis 90 segundos de espera pelo elevador? Como sobreviver a 20 minutos no metrô, tendo (na ausência de um livro salvador) de entrar em contato com os próprios pensamentos?

A nomofobia pode estar associada ao FoMO (“fear of missing out”), o medo (igualmente irracional) de perder algo por não conseguir acompanhar em tempo real tudo o que é divulgado na internet. Vai que uma subcelebridade se separou ou fez uma tatuagem — ou, pior, se separou e removeu a tatuagem! — e você ainda não está sabendo? E se tiver nascido um panda num zoológico holandês, e você só for informado disso depois do expediente?

A dependência digital se tornou um problema sério nas escolas, pelo impacto negativo na memória e na concentração, prejudicando o desempenho dos alunos (e infernizando a vida dos professores). Seguindo a tendência mundial, no Brasil vêm sendo aprovadas leis para proibir o uso de celulares, tablets e smartwatches (exceto quando necessários às atividades curriculares), seja durante as aulas, seja nos intervalos.

Mas o mau uso desses eletrônicos não se restringe ao ambiente escolar. É difícil encontrar um policial ou guarda de trânsito no Rio de Janeiro que não esteja de celular na mão, subindo a tela, teclando, completamente absorto. Talvez sirva para aliviar a tensão — mas impede a percepção de atitudes suspeitas e compromete o tempo de reação numa emergência.

Sem falar nas pessoas que assistem a vídeos, sem fones de ouvido, no transporte coletivo ou que fazem e recebem chamadas em cinemas e teatros — atrapalhando o público, o sábado, o espetáculo.

Em 1883, abismado com a falta de educação dos usuários dos bondes, Machado de Assis escreveu, na Gazeta de Notícias, uma lista de regras de comportamento. Entre elas, escarrar apenas para o lado da rua (“salvo em caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação etc., etc.”); sentar de pernas fechadas (ou pagar pelos dois lugares); ler o jornal “sem roçar as ventas dos vizinhos”; não contar dos seus negócios íntimos “sem primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência se ele é assaz cristão e resignado”; ao dizer alguma coisa em voz alta, ter “o cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras” e por aí afora.

Seria de bom alvitre atualizar seu decálogo, adaptando-o ao uso civilizado do celular. Isso pode incluir campanhas educativas ou políticas restritivas, o estímulo ao uso de aplicativos que monitorem o tempo de tela ou, se tudo o mais falhar, a ativação do semancol — aquele santo remédio contra a ausência de bom senso.

Um detox digital viria bem a calhar. É melhor que repetir de ano, deixar o ladrão escapulir, levar uma descompostura do passageiro (ou espectador) ao lado ou ter de tratar todos os sintomas do primeiro parágrafo.

Derrotar o golpismo

A prisão de quatro oficiais do Exército, entre eles um general reformado, e de um policial federal que planejaram um golpe de Estado, incluídos os assassinatos do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes, não elimina a ameaça golpista. Certamente, a descoberta do plano e as prisões são um passo importante, mas insuficiente.

É necessário prender o general Braga Netto, candidato a vice de Bolsonaro. As investigações mostram que ele era o comandante operacional tanto do plano dos assassinatos quanto do golpe em si. Assumiria a chefia do comitê de crise a ser instaurado se o golpe vingasse. É preciso também prender o general Augusto Heleno, notório mentor golpista.

É necessário ir além: Jair Bolsonaro precisa ser preso, pois as investigações mostram não só seu conhecimento do plano do golpe, mas também sua supervisão.


O golpe não se consumou no intervalo que vai da vitória de Lula ao 8 de Janeiro unicamente pelo fato de a maioria do Alto Comando do Exército ter sido contra. Os ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica, Freire Gomes e Carlos Baptista Júnior, em depoimento à Polícia Federal, testemunharam a participação de Bolsonaro na reunião na qual foi discutida a minuta golpista. De acordo com as investigações, na reunião dos comandantes das três forças, o então chefe da Marinha, almirante Almir Garnier, teria sinalizado apoio à intentona.

A descoberta do plano de assassinatos veio à tona na semana seguinte do atentado contra o Supremo Tribunal Federal, cometido pelo catarinense Francisco Wanderley Luiz. Mesmo que tenha sido um ato individual, não pode ser colocado fora do contexto político de toda a incitação golpista de Bolsonaro e de todos os graves incidentes, acampamentos em frente a quartéis, bloqueios de estradas e ruas, atos violentos e o 8 de Janeiro de 2023. O planejamento do golpe era a face oculta e mais perigosa de tudo o que aconteceu.

O movimento golpista continua politicamente ativo e se concentra em quatro temas prioritários para convencer a opinião pública. O primeiro consiste na naturalização do 8 de Janeiro. Para os bolsonaristas golpistas, tudo não passaria de uma invasão e depredação de prédios públicos, a exemplo do que alguns movimentos sociais teriam feito no passado. O objetivo é descaracterizar o caráter golpista dos acontecimentos, reduzindo-os a um mero protesto político. Essa tese precisa ser combatida e desmascarada, mostrando as inconsistências das comparações e a evidência da violência praticada naquele fatídico dia.

Articulados com a tentativa de naturalização do 8 de Janeiro, os golpistas brandem a tese da anistia. Se tudo não passaria de um protesto político, o STF estaria a cometer uma arbitrariedade ao condenar os invasores e depredadores a duras penas. Com o atentado contra a Corte e a descoberta do plano de assassinatos, é necessário enterrar a proposta de anistia. Se a ação combativa não for feita, a tese poderá ganhar novo fôlego adiante.

O terceiro movimento consiste em minimizar o atentado contra o STF. Ele teria sido levado a efeito por um indivíduo isolado e psicologicamente desequilibrado. Seus artefatos não passariam de fogos de artifício.

O quarto movimento visa manter o STF sob fogo cerrado, tanto nas redes, com a proposta de impeachment de ministros, quanto no Congresso, com projetos que limitariam seu poder. Propõem até a possibilidade de anulação de decisões pelo Legislativo.

Essa trama é de natureza golpista. Precisam ser denunciados, desmascarados e combatidos. Precisam ser enfrentados no Congresso, nas redes e nas ruas. Este é o caminho político para derrotar o bolsonarismo e o golpismo.

O outro caminho consiste na via judicial. É certo que o STF se tornou, desde ainda o governo Bolsonaro, o bastião de combate ao golpismo e de defesa do Estado de Direito. Não por acaso é o centro dos ataques golpistas. Mas os ministros do Supremo precisam ter clareza de que a sua tarefa não será concluída se os principais líderes, planejadores e financiadores do golpismo não forem julgados e condenados com penas mais duras do que aquelas imputadas aos invasores e depredadores das sedes dos Três Poderes.

Caso a punição de Bolsonaro e dos oficiais das Forças Armadas envolvidos nos atos golpistas não seja condizente com a gravidade dos atos, as portas para futuras aventuras golpistas permanecerão abertas. Militares das três forças e policiais de todas as corporações precisam entender que o fato de portarem armas não os coloca acima das leis e da Constituição. Seu dever é servir ao povo e à sociedade. 

Festa familiar




Em outubro de 1930
Nós fizemos - que animação!
Um pic-nic com carabinas.

Murilo Mendes

Militares brasileiros sempre planejaram golpes estapafúrdios, mas alguns prosperaram

Uma das justificativas utilizadas para tentar minimizar a tentativa de golpe de Estado que ocorreria no final de 2022 é dizer por aí que se tratava de um delírio de meia dúzia de militares delirantes. Que planejar conspiração não é crime e por aí vai. O raciocínio não leva em conta que os golpes bem-sucedidos na história do Brasil partiram de ações ou tresloucadas ou de arroubos não planejados. Já acusado de tramar um atentado no qual o sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro seria atingido, o que abreviou sua carreira militar, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi formado nessa cultura sublevações.


Tome se o caso da decisão do general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª divisão de infantaria. Aparentemente sem consultar os superiores, na noite do dia 31 de março de 1964 partiu de Juiz de Fora, Minas Gerais, em direção ao Rio de Janeiro para tomar o poder do então presidente João Goulart. Acabou precipitando uma ação longamente calculada, de expulsar Jango, mas não executada. O resultado foram 21 anos de ditadura que começou, diga-se de passagem, com o apoio de grande parte da classe média, das classes empresariais e mesmo da elite política.

Cerca de três décadas antes, um estratagema inventado pelo mesmo Mourão Filho, o Plano Cohen, que colocava o Brasil sob o risco iminente de uma insurreição comunista, foi uma das principais justificativas para Getúlio Vargas dar um autogolpe e instalar o Estado Novo, que durou oito anos. Tudo a partir de um engenho fantasioso. Getúlio, aliás, que também caiu por outro golpe, mas pelo menos para instalar uma breve democracia.

Há também uma série de tentativas que deram errado. Como as rebeliões da Força Aérea para impedir a posse de Juscelino Kubitschek – militares envolvidos anistiados estiveram envolvidos no golpe de 1964, aliás. Houve um plano do brigadeiro João Paulo Burnier de explodir o Gasômetro, no Rio de Janeiro e colocar a culpa na oposição, no final dos anos 60. Foi impedido por militares legalistas. Imagine o tanto de esquemas que nunca chegaram ao público. “Quando um golpe “dá certo” (para os golpistas), ninguém se lembra de que ele começou com uma iniciativa ousada. Quando um golpe fracassa, a tendência é ridicularizar o plano como delirante ou inviável”, afirmou, no “X”, o professor titular de história do Brasil na UFRJ, Carlos Fico.

Talvez a nossa sorte em 2022 seja que parte do oficialato resistiu aos devaneios golpistas, assim como resistiram à pressão dos perturbados que foram para a porta dos quartéis pedir golpe de Estado até descerem à Esplanada dos Ministérios para quebrar os três poderes no dia 8 de janeiro de 2023. Pode ser que a sociedade esteja mais consciente da importância da democracia e os militares tiveram que recuar. São muitas lacunas que precisam ser esclarecidas. Mas o fato é que esse mundo de derrubadas, bombas, insubordinação e indisciplina – além da admiração pelo regime instalado em 1964 - foi o que forjou Jair Bolsonaro. Em outras palavras, foi criado em um ninho de golpistas alucinados.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A disputa das ideias

Depois de todos os esforços do passado, entrámos num período de retrocesso. Vê bem como as coisas se passam hoje: quando um homem importante lança uma nova ideia no mundo, ela é imediatamente apanhada por um mecanismo de divisão, constituído por simpatia e repulsa. Primeiro vêm os admiradores e arrancam grandes bocados, os que lhes convêm a essa ideia, e despedaçam o mestre como as raposas a presa; a seguir, os adversários destroem as partes fracas, e em pouco tempo o que resta de um grande feito mais não é do que uma reserva de aforismos de que amigos e inimigos se servem a seu bel-prazer. O resultado é uma ambiguidade generalizada. Não há Sim a que se não junte um Não. Podes fazer o que quiseres, que encontras sempre vinte das mais belas ideias a favor e, se quiseres, vinte que são contra. Quase somos levados a acreditar que é como no amor e no ódio, ou na fome, em que os gostos têm de ser diferentes, para que cada um fique com o seu bocado.
Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"

A arte de escapar dos cortes

Neste momento, o tema corte de gastos públicos subiu na agenda tanto aqui como nos EUA. Eleito, Donald Trump designou Elon Musk para comandar o processo no qual pretende economizar US$ 2 trilhões. Será possível? A que custo, em termos políticos?

Parece que a tática de Musk é a de cortar o máximo, errar por excesso, nunca por timidez.

No caso brasileiro. O corte de gastos públicos parece um consenso, restando apenas a grande dúvida: cortar para cima ou para baixo? Supersalários, máquina dispendiosa, fantásticos subsídios às empresas. O panorama nas alturas é animador para quem maneja a tesoura.


Um dos episódios mais dramáticos desta história de cortes ocorreu na Grécia. Uma política fiscal descontrolada acabou levando o país a uma dívida impagável. Fundo Monetário Internacional (FMI) e União Europeia pressionaram e um plano de cortes atingiu salários e aposentadorias. Era triste ver os velhinhos assustados com a pobreza que se aproximava. Na verdade, a pobreza veio acompanhada de desemprego e exclusão social. E, em 2015, um partido de esquerda, o Syriza, foi eleito com uma política contra a austeridade que sufocava o país.

Apesar das boas intenções, a Grécia concedeu, de acordo em acordo, à pressão do mundo financeiro e teve de se ajustar à nova situação, ao custo de muito sofrimento.

O exemplo grego, vivido num momento muito difícil, mexeu com as normas de vigilância financeira da União Europeia, mas, sobretudo, colocou o debate sobre limites de uma política de austeridade.

A posição do Brasil não é semelhante à da Grécia. Mas as premissas sobre os limites de planos de austeridade estão de pé, sobretudo num país onde a pressão de cima para baixo é muito forte. É politicamente mais fácil derrubar algum tipo de benefício social do que suprimir os supersalários, por exemplo. Há três anos o deputado Rubens Bueno redigiu um relatório minucioso sobre os penduricalhos que elevam os rendimentos às alturas, muito acima do permitido por lei. Esse relatório, contudo, dorme na gaveta da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, presidida por Davi Alcolumbre – aliás, favorito para a própria presidência do Senado.

A elite da burocracia federal é poderosa, assim como as empresas que recebem subsídios do governo. O mundo financeiro pressiona cegamente: não importa tanto como fazer o corte, desde que seja feito.

Há muitos anos que participo desta discussão. Houve uma época em que foi preciso acentuar o potencial da revolução digital para reduzir custos. Houve ano em que o governo federal gastava R$ 800 milhões só com passagens e diárias. As conferências a distância já eram possíveis e enfatizávamos esse caminho, mas a pressão para manter o velho esquema de viagens era muito forte: as diárias ampliavam os salários.

Pensando bem, em todos os debates sobre uma economia em todos os Poderes da República, é possível afirmar que dinheiro não falta. O grande obstáculo é subjetivo. O Brasil não reduz os custos da máquina porque as forças que se beneficiam dela não deixam.

Num contexto como esse, reduzir benefícios sociais é uma proposta obscena, apesar de que a desorganização e o atraso tornem esses benefícios mais caros e ineficazes. Muitas vezes mencionei aqui a experiência da Índia, que criou o número pessoal e evitou que milhões fossem para o ralo – mais um exemplo de como a tecnologia pode ser uma aliada no programa de cortes de gastos.

Dificilmente esta questão do uso racional dos recursos vai se resolver apenas com um rápido corte de gastos. É preciso uma grande mexida que possa contar também com a participação social.

É um pouco melancólico gastar dinheiro mal num país que precisa ao máximo de seus recursos. Mais triste ainda é compreender que uma reviravolta racional sempre foi possível. O País, nesse particular, parece o personagem de Kafka parado anos diante da porta de um castelo sem compreender que ela sempre esteve aberta para ele.

De novo, estamos sendo confrontados com nossas limitações políticas. É quase impossível realizar uma campanha nacional, mobilizar a maioria da sociedade para que este processo de racionalização aconteça.

Não se trata apenas de liberar recurso para as necessidades fundamentais do País. Enquanto o dinheiro for gasto de forma errada e a máquina também, por incompetência, não responder aos anseios mais profundos, que chegaram a se manifestar nas revoltas de 2013, a própria democracia estará fragilizada.

A fórmula escolhida é um combustível para aventuras políticas e soluções autoritárias, ainda que sejam soluções ilusórias, destinadas apenas a eleger extremistas.

Interessante como é difundido o discurso de defesa da democracia, mas como ele se concentra apenas na necessária defesa das liberdades. Os riscos mais profundos não são captados, sobretudo a frustração popular diante de um Estado que coleta implacavelmente os impostos, mas não consegue devolvê-los em forma de serviços eficazes.

A dificuldade de ver essa realidade, até mesmo de tomar consciência dela, está na grande resistência a aceitar cortes na própria seara, tanto em ministérios como em empresas oficiais, estendendo-se até os salários acima da lei. É uma cegueira perigosa para a própria sobrevivência do aparato burocrático.

Bolsonaro é um doente terminal que respira por meio de aparelhos

Por aqui pelo menos, golpe foi sempre para derrubar governos. De 1930 para cá, só houve um golpe promovido por quem governava: o de 1937, sob o comando do então presidente Getúlio Vargas.

Vargas chegou à Presidência na crista da Revolução de 1930. Derrotado na eleição daquele ano, ele encabeçou um movimento militar golpista e derrubou o presidente eleito.

Para não largar o poder, Vargas deu o golpe de 1937 que instituiu o Estado Novo, governando até 1945, quando foi deposto. Eleito em 1950, matou-se em 1954 para não ser novamente deposto.


O presidente Jânio Quadros protagonizou em 1961 uma bizarra tentativa de golpe a favor dele mesmo: renunciou ao cargo para voltar nos braços do povo e com mais poderes. Não voltou.

Sabendo ou não, dado que não é de muitas leituras, Bolsonaro quis repetir Vargas, aplicando um golpe a seu favor. Uma vez derrotado em 2022, conspirou para impedir que Lula tomasse posse.


Surpresa alguma. Bolsonaro jamais escondeu seu intuito de abolir a democracia por meio de um golpe de Estado, jamais. Foi coerente do princípio ao fim de sua carreira política.

Só seus fanáticos seguidores, os desinformados e os incrédulos por natureza podem se espantar em vê-lo indiciado pelos crimes de abolição violenta do Estado democrático de Direito e golpe de Estado.

Escrevi aqui em 10/5/2022

“Por mais que neguem, os militares e Bolsonaro estão unidos na tarefa de semear dúvidas não só sobre a segurança das urnas eletrônicas como sobre o processo de apuração.”

E aqui em 18/5/2022 depois de Bolsonaro ter dito que não era crime pedir o retorno da ditadura:

“Bolsonaro bate palmas para os malucos e espera que eles dancem. Ao final, quem dançará será ele.”

E aqui em 18/7/2022:

“A ditadura de 64 acabou depois de 21 anos, mas o golpismo que fazia parte do DNA dos militares continua a circular nas veias dos que um dia expulsaram Bolsonaro do Exército por má conduta.”

E finalmente aqui em 21/7/2022:

“[…] os bolsonaristas dão sinais de que irão forçar a abertura das portas do inferno se Lula for eleito; e, por mais que Flávio Bolsonaro negue, com o apoio do pai dele.”

Quem disse: “O povo armado jamais será escravo de ninguém”? Não foi Nicolás Maduro, o ditador da Venezuela. Não foi Vladimir Putin, presidente da Rússia e ex-comunista.

Foi Bolsonaro quem disse na campanha de 2022, e acrescentou:

– Somente os ditadores temem o povo armado. Eu quero que todo cidadão de bem possua sua arma de fogo para resistir, se for o caso, à tentação de um ditador de plantão.

Em abril de 2021, Bolsonaro ouviu de Abraham Weintraub, ministro da Educação, a sugestão de mandar prender os ministros do Supremo Tribunal Federal, chamados por ele de “vagabundos”.

Ao lançar-se candidato à reeleição, Bolsonaro disse a certa altura do seu discurso:

– Estes surdos de capa preta [referindo-se aos ministros do Supremo] precisam entender o que é a voz do povo, que quem faz as leis é o Executivo e o Legislativo. Não vamos sair do Brasil. Nós somos a maioria, somos do bem. Nós temos disposição para lutar pela nossa liberdade.

São justamente os “surdos de capa preta” que irão julgá-lo tão logo o Procurador-Geral da República o denuncie. Deverá fazê-lo no primeiro semestre do próximo ano, no mais tardar.

O escândalo do mensalão do PT estourou em julho de 2005. O julgamento dos 40 acusados começou em 2012, terminando no ano seguinte. Bolsonaro já está inelegível até 2030.

Se for condenado, sua inelegibilidade se estenderá por muito mais tempo. Entendam de uma vez por todas: Bolsonaro é um doente terminal que neste momento só respira por meio de aparelhos.

Golpismo bolsonarista vem dos porões da ditadura

As investigações da Polícia Federal acerca das tramas golpistas no entorno de Jair Bolsonaro vão confirmando o que já se sabia: o ex-presidente é um filhote dos porões da ditadura militar, discípulo e admirador de Carlos Brilhante Ustra e da facção de torturadores e fanáticos que viviam nos subterrâneos tenebrosos do regime e acabaram derrotados durante seu processo de decadência.

Mentiroso contumaz, sádico e inimigo da democracia, Bolsonaro foi acusado de indisciplina em campanhas por ganhos salariais no Exército e de tramar explosões de bombas para desestabilizar os comandos. Foi considerado culpado por uma junta de três coronéis e depois absolvido por 8 a 4 pelo Superior Tribunal Militar, numa decisão acochambrada, que antecedeu sua saída da Força.


Beneficiando-se de medidas judiciais heterodoxas da Lava Jato, que levaram seu maior rival à prisão, Bolsonaro cresceu num momento internacional de turbulências em democracias. Contou com o apoio de elites econômicas de visão curta, quando não apenas chucras e irresponsáveis, e de uma classe média indignada com a corrupção e com o sistema político. Ganhou ainda o voto de uma massa de pobres desesperançados, entorpecidos pela mistificação religiosa e pelo moralismo evangélico reacionário.

Com sua experiência de ativista incendiário, Bolsonaro promoveu comícios e alastrou a politização na caserna, sob a sombra cúmplice de figuras sinistras como o general Eduardo Villas-Bôas. Seu partido usava farda.

Visto inicialmente com simpatia por setores expressivos da mídia, que acreditaram numa hipotética revolução liberal na economia a ser liderada pelo mitômano (o termo é de Persio Arida) Paulo Guedes, o ex-capitão não demorou muito a mostrar os dentes, que, aliás, já havia exibido, mas se fingia que não morderiam.

Conhece-se bem o que se passou a viver no Brasil, um vendaval a cada semana. O governo desmontou os mecanismos de proteção ambiental, apostou contra a crise climática e as vacinas, passou a atacar a imprensa, com sua característica perversão misógina, e a solapar a lógica da democracia. O ministério, um horripilante trem fantasma, contava com um general da ativa, Eduardo Pazuello, na Saúde.

Como nunca se viu desde a ditadura, a ocupação de cargos públicos por militares e policiais disparou. Ao mesmo tempo, surgiam as relações com milicianos e apostava-se no armamentismo.

Às primeiras evidências de fracasso político, Bolsonaro entregou a chave do cofre para o centrão e tratou de investir contra as instituições que poderiam certificar uma já factível derrota eleitoral. Tramava-se contra o Estado de Direito, golpistas acampavam diante de quartéis acolhedores, e a urna eletrônica era apedrejada todo dia. Um resultado negativo seria visto como fraude.

A conspiração dos nostálgicos dos porões, que arrastou beócios extremistas à "festa de Selma", continua se revelando ao país. O complô, que incluía até planos de assassinatos de autoridades, não contava com a maioria da cúpula militar, mas nada pode ser visto como fato isolado. É preciso de uma vez por todas estabelecer um cordão de isolamento entre a política e as Forças Armadas. E revisar na Carta o artigo 142, que só fomenta pretensões fantasiosas na caserna.

A receita mágica para combater a desinformação

Lamento informar que ela não existe. Não há uma receita mágica para combater a desinformação. Não há sequer receita. Nem de abracadabra, nem com os pés na terra.

O que sabemos: há mil ideias e mil esforços para lutar contra a desinformação; os resultados são abaixo de zero; esta é uma batalha perdida; não podemos desistir; está cada vez pior; só vai piorar; as armas que temos são rudimentares.

E eu – defeito que me é sempre apontado – sou uma otimista.


Primeiro ponto: não falo dos erros dos jornais. Até o Papa Francisco confunde mau jornalismo e erros dos jornais com desinformação. No ano passado, sem a ingenuidade do Papa, Elon Musk, a querer desconversar, insistiu, numa entrevista à BBC, em perguntar ao jornalista que o entrevistava se a BBC nunca tinha publicado informação errada, portanto também ela desinformando, como quem diz: vocês erram, nós erramos, todos erram, para quê esta conversa sobre desinformação no Twitter?

Infelizmente, o jornalista pôs os dois pés na ratoeira e respondeu-lhe. Em tudo o que disse – e disse muitas coisas – o jornalista da BBC não disse que erros são uma coisa e desinformação é outra. O jornalista também podia ter dito que Musk estava a baralhar as duas com a intenção expressa de criar confusão e desinformar.

Há o célebre erro do New York Times que, em 2016, noticiou o facto de Gary Johnson, ex-governador do Novo México e nesse ano candidato à Casa Branca, ter admitido, no programa Morning Joe, na MSNBC, que não fazia ideia do que era ou onde era Aleppo, cidade que na altura estava diariamente nos títulos dos jornais. A história tem um picante extra: ao escrever sobre o erro de Johnson, o New York Times identificou Aleppo como “capital” do ISIS — que na verdade era Raqqa. E um segundo picante: ao perceber o erro, o Times corrigiu e escreveu que Aleppo era o “bastião” do ISIS — que também era falso.

Isso são erros.

Desinformação tem que ver com intencionalidade: ao contrário dos erros, a desinformação é feita com a intenção expressa de atirar erros e informação falsa para a arena pública. Ao contrário dos erros, a desinformação tem motivos expressos, em regra económicos e políticos. E a terceira característica é que, ao contrário dos erros, a desinformação é feita para criar confusão e destruir a confiança nas instituições, pessoas ou grupos.

A situação está de tal modo grave que há quem fale de “distúrbio de informação”, usando a linguagem médica para as doenças.

Vivam todos os que dedicam os seus dias a fazer verificações de factos. É útil e é uma obrigação do jornalismo. Hoje como nunca. Mas serve de pouco. Digo isto consciente da inutilidade das muitas horas que dediquei a fazer verificações de factos. São essenciais e obrigatórias. Mas servem de pouco e podem até ser contraproducentes.

O filósofo político basco Daniel Innerarity fala sobre os “danos laterais” do combate às fake news em Uma Teoria da Democracia Complexa – Governar no século XXI (Ideias de Ler, 2021) e propõe uma solução que nos deixa aflitos: “A resposta está em mais debate e pluralismo dos media”.

Ficamos aflitos porque sabemos como isso é cada vez mais difícil. Já foi até inventada a palavra “broligarquia”, junção de bros, o clube dos “rapazes” que fazem as coisas à sua maneira, e oligarquia. O problema é que também ficamos aflitos ao ouvir os especialistas e políticos que definem estratégias anti desinformação e que dizem que a melhor ferramenta que temos é o bom jornalismo e as verificações de factos.

Há quem diga que nos restam as emoções.

Li há dias sobre a abordagem do Betterplace Lab, uma ONG alemã que faz workshops sobre combate à desinformação. Defendem que as emoções são a melhor arma e que devemos começar por assumir que cada um de nós tem um lugar no sistema da desinformação. Depende de cada um de nós, não só dos outros, dos “maus”.

A ideia tem uns pozinhos de psicologia e introspecção. O Betterplace Lab fala da “disseminação inconsciente” e pede para “cada um de nós refletir sobre si próprio” na cadeia da desinformação: “Tenho de me perguntar: ‘Ok, mas isto é mesmo verdade? Ou será que só quero acreditar nisto e, por isso, gosto de pensar que é verdade? O mesmo se aplica a uma afirmação que considero falsa e que desencadeia em mim uma emoção forte.” Nesses casos, “pare e pense: ‘Porque é que me sinto assim e de onde é que isto vem?’ Faz sentido olhar mais de perto para as nossas próprias necessidades e valores. Apercebemo-nos de que, muitas vezes, não se trata de informação, mas de emoção”.

Diz o Betterplace Lab que “a desinformação não é só um problema de insuficiência de fatos”, pois “os fatos muitas vezes existem e poderiam corrigir as coisas”. O problema é que “a informação não chega a muitas pessoas”. Em vez disso, devemos partir do princípio de que a desinformação tem um efeito psicológico em nós e por isso se torna contagiosa. “Se a desinformação tem mais que ver com emoções do que com informação”, é nas emoções que deve ser combatida. “De pessoa para pessoa e com base na empatia. Se conseguirmos compreender porque é que a outra pessoa acredita ou difunde certas coisas, podemos entrar num diálogo a esse nível. Se compreendermos as emoções e as necessidades subjacentes, podemos entrar muito mais cedo num diálogo construtivo do que se nos separarmos ainda mais da pessoa com mais argumentos a nível factual (aos quais a pessoa provavelmente não responderia).”

Como diz uma amiga, parece shanti-shanti. E há o problema de sermos oito mil milhões. Mas eu já estive neste lugar muitas vezes e sei que é verdade.

O que nos resta para receita de combate à desinformação? Encontrar uma fórmula para encher o mundo com factos, desmentir mentiras construídas com a intenção de criar confusão e descrédito, e aproximarmo-nos de quem pensa de forma diferente de nós.
Bárbara Reis)

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

The Apprentice

Tenho um amigo que é apaixonado por cinema e me arrasta para os mais variados filmes, sendo que nos basta um olhar de soslaio para, num acordo mútuo, abandonarmos a sala. E foi assim — animados por essa possibilidade tácita de desistência — que fomos ver o biopic de Donald Trump, The Apprentice. Ficámos até ao fim.


O argumento foi escrito pelo jornalista Gabriel Sherman, da Vanity Fair, a partir das biografias de Trump e do seu advogado Roy Cohn, de vídeos e entrevistas dos anos 70 e 80. No filme, o aprendiz é Trump e o mestre é o malévolo Cohn, que lhe ensina três regras que ecoam na personagem que conhecemos hoje: “Ataca, ataca, ataca”, “nega tudo” e “nunca admitas a derrota”. Trump detesta este biopic em particular por causa da cena em que se enfurece depois da mulher Ivana insultar a sua aparência física — diz-lhe que a sua cara parece uma laranja, que está velho e careca — ao que Trump reage forçando Ivana a deitar-se no chão, violando-a.

Na vida real, Ivana, no depoimento inicial de divórcio, descreve uma situação assim, mas mais tarde retira-a e esclarece: “Tivemos relações conjugais em que ele se comportou comigo de forma muito diferente da que tinha tido durante o nosso casamento. Como mulher, senti-me violada. Mas não quero que as minhas palavras sejam interpretadas num sentido literal ou criminal.” Trump, claro, negou as alegações de Ivana.

Nas décadas de 80 e 90, a Trump — e a homens com o mesmo tipo de sede — foram dadas amplas liberdades, premiando uma atitude de macho alfa, liberal, rico e, daí, célebre. Ou era pelo menos assim que o encaravam vários shows televisivos como o de Oprah Winfrey ou o de David Letterman, cujas audiências se divertiam a bandeiras despregadas com as alarvidades que Trump dizia, do tipo: “Sim, foi um bom ano para mim — vi-me livre da minha mulher” (I unloaded the wife). Mais adiante, na mesma entrevista a Letterman, Trump insurge-se contra a condenação de Mike Tyson a seis anos de prisão por crime de violação: “A mulher estava a dançar à frente dele às oito da noite e o homem acaba seis anos preso, não percebo…”

No filme, o jovem Trump revela uma obsessão com o topo; deseja construir torres altas e profusamente decoradas, anseia ter um domínio absoluto sobre as coisas do mundo, onde inclui as mulheres, objetificando-as como materiais de edificação do seu ego. Longe de qualquer ideia de serviço público, a liberdade que os magnatas como Trump têm para lucrar milhões com a exploração de recursos naturais, materiais e humanos sobrepõem-se à ideia de irmandade, tão necessária para que as sociedades funcionem e que as democracias floresçam. Já aqui o referi, o moto de uma das principais democracias europeias — liberdade, igualdade, fraternidade — é bem o exemplo de prioridades trocadas. Num regime humano essencialmente fraterno, a liberdade é o que resulta desse devir solidário, não o que o permite. Assim sendo, parece que a liberdade garante apenas o enriquecimento de alguns, para depois serem igualmente ricos e fraternos entre si.

Um dos atuais conselheiros de Trump diz que o filme The Apprentice é “malicioso” e que o “seu destino natural é uma pilha de lixo a arder”. Não concordamos, eu e o meu amigo. Pensamos, aliás, que um dia, mais tarde, se ainda existir um tempo no qual figuremos, vai a direita, toda, do centro ao extremo, ter de pedir desculpa por ter acreditado tanto e tão erradamente na liberdade (dos mercados) como imperativo ético: Trump é tão-só um dos filhos pródigos dessa crença. Não é a economia; é a fraternidade, estúpido(s).

Antes da meia-noite na segurança pública

Alejandro Arcos foi morto e decapitado seis dias depois de se eleger prefeito de Chilpacingo, no estado mexicano de Guerrero. O crime escancarou a força de cartéis da droga, estrategicamente ali instalados, às margens do oceano Pacífico. Os estudiosos da questão debatem quando a situação saiu do controle no país. No livro "Midnight in Mexico" (Meia-Noite no México), o jornalista Alfredo Corchado narra o que chama de descida do país rumo às trevas com as mudanças das políticas do governo federal em relação às drogas –da tolerância mutuamente proveitosa entre os políticos do PRI (Partido da Revolução Institucional) e os chefões dos cartéis à fracassada guerra às drogas quando o PAN (Partido de Ação Nacional) chega ao poder. Ao mesmo tempo, o autor vai acompanhando as trágicas transformações da cidadezinha onde nasceu, na fronteira dos Estados Unidos, trazidas pela chegada do narcotráfico.


Aqui, como lá, não faltam sinais de que estamos mergulhando na treva, enquanto o crime organizado muda de escala, abrangência das suas rentáveis atividades e capacidade de desafiar governos. A eliminação do empresário que lavava dinheiro para o PCC, ao desembarcar —sob escolta— no aeroporto de Guarulhos, "é o crime dizendo que está mais poderoso que o Estado", avalia o ex-policial e deputado estadual paulista Paulo Batista do Reis (PT). Talvez não seja —ainda—, mas o recado parece ser esse.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 72 facções criminosas agem no país, algumas incidindo de norte a sul, sem falar nas suas alianças internacionais.

Hoje, as atividades do crime já não se restringem ao tráfico de drogas; abarcam também transações ilícitas com madeiras, minerais, combustíveis adulterados e até pessoas –além de lavagem de dinheiro, fraudes financeiras, administração de hotéis e postos de gasolina, comércio de armas, extorsão, segurança privada, aluguel de imóveis, fornecimento de serviços de TV e internet, apostas, golpes online e financiamento clandestino de campanhas políticas.

Um ótimo resumo da questão, dos avanços institucionais já obtidos —importantes, porém insuficientes— e dos desafios pela frente, pode ser lido em "Brasil - Experiências de (in)segurança pública em São Paulo e Rio de Janeiro", parceria da Fundação Fernando Henrique Cardoso e da Escola de Segurança Multidimensional da USP, com patrocínio do Diálogo Interamericano, respeitado think thank de Washington.

O documento tem duas qualidades. A primeira é a de trazer a discussão para a agenda progressista, na qual ela tem crônica dificuldade de se firmar. Assim, o registro de abusos policiais, a discriminação racial, os maus-tratos e a superlotação dos presídios não travam o reconhecimento de que a segurança é demanda forte e legítima da população nem bloqueiam o debate de medidas concretas para a repressão eficaz ao crime.

O segundo mérito consiste em focalizar o que realmente faz falta: a construção de mecanismos de coordenação governamental entre os três níveis da Federação, de forma a aumentar a eficiência da ação pública. Há um caminho a percorrer até que o debate se transforme em ação. Mas disputar a agenda com o populismo de direita já é um começo promissor.

Quanto pode a fortuna

Não ignoro que muitos têm tido e têm a opinião de que as coisas do mundo sejam governadas pela fortuna e por Deus, de forma que os homens, com sua prudência, não podem modificar nem evitar de forma alguma; por isso poder-se-ia pensar não convir insistir muito nas coisas, mas deixar-se governar pela sorte. Esta opinião tornou-se mais aceita nos nossos tempos pela grande modificação das coisas que foi vista e que se observa todos os dias, independente de qualquer conjetura humana. Pensando nisso algumas vezes, em parte inclinei-me em favor dessa opinião.

Contudo, para que o nosso livre arbítrio não seja extinto, julgo poder ser verdade que a sorte seja o árbitro da metade das nossas ações, mas que ainda nos deixe governar a outra metade, ou quase. Comparo-a a um desses rios torrenciais que, quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores e os edifícios, carregam terra de um lugar para outro; todos fogem diante dele, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder opor-se em qualquer parte. E, se bem assim ocorra, isso não impedia que os homens, quando a época era de calma, tomassem providências com anteparos e diques, de modo que, crescendo depois, ou as águas corressem por um canal, ou o seu ímpeto não fosse tão desenfreado nem tão danoso.

Nicolau Maquiavel, "O príncipe"

Os que não viveram para ver

A realidade não para de desmoralizar a ficção. A ficção científica, então, nem se fala —longe vão os tempos em que, para nosso deleite e admiração, seus romancistas viajavam a planetas impossíveis, aboliam o espaço/tempo e bolavam as piores formas de destruir a Humanidade. Hoje, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Robert Heinlein não seriam admitidos nem como estagiários na Altair, filial da sueca Morbius dedicada à substituição dos neurônios no cérebro humano por impulsos algorítmicos pela inteligência artificial.


Philip K. Dick morreu sem ver que seus androides que sonhavam com carneiros elétricos se transformariam num sistema operacional inacessível até à sua compreensão. Aliás, nenhum daqueles ases da ficção científica viveu para comparar suas antecipações futuristas com o que aconteceu nos últimos 15 anos. Tivessem chegado até nós, talvez se maravilhassem —ou, bem mais provável, se apavorassem com o que vem por aí.

Às vezes pode ser um conforto não viver para ver algo que, embora não se soubesse, estava na iminência de acontecer e seria insuportável. O escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) viu a guerra destruir a Europa e estreitar o mundo para os judeus como ele e para todas as pessoas sensíveis. Refugiou-se no Rio em 1940 e, quando constatou que a guerra chegara também aqui, matou-se. Se o destino de uma única pessoa já o comovia, como reagiria à Solução Final de Hitler, que mataria seis milhões de judeus?

E quem diria que, 2.500 anos depois de o grego Pitágoras ter estabelecido que a Terra era redonda; 2.200 anos que outro grego, Eratóstenes, calculasse sua circunferência; e 500 anos depois que o navegador português Fernão de Magalhães demonstrasse isso dando a volta a ela; enfim, quem diria que, justamente em nossa era, milhões de energúmenos jurariam que a Terra é plana? Copérnico, Eratóstenes e Magalhães não viveram para ver isso, claro. Ainda bem —iriam preferir a morte.

Mas nada supera a boa sorte de Tom Jobim, Millôr Fernandes e Carlos Heitor Cony. Eles já não levavam muita fé no Brasil. E nenhum deles viveu para ver Bolsonaro.
Ruy Castro

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Doutrinas da idiotice

Em épocas de perigo político, os homens adoptam doutrinas idiotas e destruidoras e abdicam de pensar com justeza. Perseguem ainda aqueles que o fazem , com ferocidade maior ou menor , conforme o grau de medo que atingiram . Até que ponto este processo foi levado na Rússia, todos nós o sabemos. Temos muitas razões para recear que, ainda que talvez sob uma forma menos feroz , algo que não será de todo dissemelhante venha a acontecer no Ocidente.

Bertrand Russell, "Realidade e Ficção"

Patriotada de Trump me espanta porque EUA é país de imigrantes

Espanta-me o signo-lema que elegeu Donald Trump. O mote isolacionista e literalmente reacionário “Make America Great Again” (Torne a América grande novamente) — um slogan agressivo, explicitamente nacionalista e exclusivista no melhor estilo autocrático. O Maga (na sigla em inglês) de Trump é, sem sombra de dúvida, o primeiro degrau de um neofascismo cujo sintoma é a cruel deportação em massa de imigrantes “ilegais”. Como se fosse “legal” largar nosso lugar de nascimento — a terra por onde entramos como atores passageiros neste terrivelmente maravilhoso Vale de Lágrimas. Este vale que a ideologia trumpista quer transformar num inferno, pois imigrar é um movimento dramático, que suplanta escolhas turísticas.


Trata-se de ato contrário ao que paulatinamente fabricou os Estados Unidos e está expresso no projeto dos milhões que assim fizeram, demonstrando justamente o oposto do que Trump proíbe. O “fazer América” que os pais ou avós da maioria dos meus amigos americanos (os de Trump eram alemães e escoceses) realizaram, provando (muitos, sem dúvida, ilegais) o lado mais generoso e tolerante da igualdade como valor difícil de praticar.

O Maga é o dístico expressivo de um perigoso nacionalismo. É a marca dos movimentos afins de hierarquia de raças e gentes. É a negação do acolhimento e uma clara exaltação do etnocentrismo que Trump e os neorrepublicanos transformam em entusiasmo eleitoreiro. Queira Deus que não vire política de Estado. É um disparate reacionário ao estreitamento solidário de um mundo globalizado, marcado por teias de mensagens que nos tornam parte de algo maior que nossas aldeias, grandes não por voltarem a seu passado, mas por se abrirem a um futuro planetário nivelador de estilos de vida.

Ninguém pode ser contra a legalidade imigratória, mas a relação inconsciente entre a ilegitimidade e o expurgo migratório justamente na fronteira sul não pode ser ignorada. Ali — pasmem — se faz um muro entre povos e humanidades num planeta cada vez mais interligado.

Contra essa aversão, deve-se ressaltar o poder da esperança que todo imigrante traz dentro de si quando muda de pátria. O caso da América como república democrática até agora triunfante revela como os peregrinos que, em 1620, atracaram em Plymouth, Massachusetts, criaram um pacto de liberdade e igualdade. Essa igualdade foi repetidamente vivida por milhões de outros “peregrinos”, que reiteraram aos locais a virtude do acolhimento, não do expurgo.

É um espantoso paradoxo essa pintura trumpista dos imigrantes como vilões, justamente numa nação construída por imigrantes. Estrangeiros que lembravam aos americanos a preciosidade de suas heranças políticas e o valor de sua difícil, arriscada e preciosa experiência democrática. Muitos eventos foram lembrados e reeditados justamente por recém-chegados.

O estrangeiro não é apenas um intruso ilegal. Ele é um intrometido que idealiza e admira o país que o acolhe. Falo disso porque muitas vezes testemunhei estrangeiros lembrando aos americanos natos a importância de seus valores e a riqueza de seu estilo de vida. O expurgo de estrangeiros, mesmo ilegais, ao lado do lema de “tornar a América grande novamente”, chega a meus velhos ouvidos como toque antidemocrático e espantosamente isolacionista.

Lembra “América somente para americanos”, quando sabemos que a experiência dos Estados Unidos é parte de toda a Humanidade e com ela compartilhada sem as reservas do nós contra vocês.    

Plano do golpe vestia farda dos pés à cabeça

O planejamento de um golpe para manter Jair Bolsonaro no cargo foi uma operação essencialmente militar. Integrantes das Forças Armadas fizeram preparativos para anular as eleições, sequestrar autoridades e assassinar o futuro presidente. Armaram a instalação de um regime de exceção que seria controlado pelos generais que haviam patrocinado a ascensão do capitão em 2018.

As investigações reveladas nesta terça são mais uma prova de que o envolvimento de militares na trama do golpe jamais foi um fato isolado. O plano tinha a participação de integrantes das Forças Especiais do Exército. As ideias eram discutidas com generais influentes e foram levadas para dentro do Palácio da Alvorada.


As mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que o general da reserva Mario Fernandes organizou uma operação clandestina para consumar o golpe. A ação envolvia o monitoramento de alvos, o uso de um lançador de granadas e até o envenenamento de Lula e Alexandre de Moraes. Segundo os investigadores, ele levou o plano ao Palácio da Alvorada, onde Bolsonaro estava entocado.

A PF também aponta que um grupo de "kids pretos", militares de elite que seriam responsáveis pela execução dos crimes, se reuniu na casa do general Braga Netto em 12 de dezembro de 2022. Três dias depois, eles prepararam uma tocaia para uma provável prisão ilegal de Moraes.

O plano do golpe vestia farda dos pés à cabeça. Depois da operação, Bolsonaro deveria criar um gabinete de crise que seria comandado pelos generais Braga Netto e Augusto Heleno, com a participação de outros militares.

Segundo documentos dos golpistas, o arcabouço jurídico desse período de exceção seria elaborado pelo Superior Tribunal Militar, e as Forças Armadas participariam da organização de novas eleições. O STM divulgou uma nota em que rejeita a hipótese de envolvimento na empreitada.

A tentativa de ruptura nunca foi apenas um sonho pessoal de Bolsonaro, seguido de forma obediente por seus aliados na caserna. Os fardados que estiveram no poder durante o mandato do ex-presidente tinham seus próprios interesses. Não é difícil imaginar quem exerceria autoridade dentro de um regime iniciado por um golpe militar.
Bruno Boghossian

O mundo multipolar das potências médias

A ascensão da China desafiou a hegemonia incontestável dos Estados Unidos sobre a economia mundial - status do qual os EUA desfrutam desde o colapso da União Soviética. Enquanto algumas elites americanas de segurança nacional buscam manter a primazia dos EUA, outras parecem resignadas a um mundo cada vez mais bipolar. Um resultado mais provável, no entanto, é um mundo multipolar em que as potências médias exerçam uma força compensatória considerável, impedindo assim que EUA e China imponham seus interesses aos outros.

As potências médias incluem a Índia, a Indonésia, o Brasil, a África do Sul, a Turquia e a Nigéria - todas grandes economias com presença significativa na economia global ou em suas regiões. Elas estão longe de ser ricas - na verdade, representam uma parcela significativa das pessoas mais pobres do mundo -, mas também têm classes médias grandes e voltadas para o consumo e capacidades tecnológicas consideráveis. O PIB combinado (em termos ajustados pelo poder de compra) dos seis países mencionados acima já supera o dos EUA e a projeção é de que cresça 50% até 2029.


Normalmente, esses países têm políticas externas distintas que rejeitam o alinhamento claro com os EUA ou com a China. Ao contrário do que muitos nos EUA acreditam, as potências médias não têm grande afinidade com a China, nem querem se aproximar dela às custas de seu relacionamento com os EUA. De fato, na medida em que elas se aproximaram da China, isso se deve à política dos EUA. O armamento dos Estados Unidos com seu poder comercial e financeiro os impeliu a proteger suas apostas.

Os líderes das potências médias não querem um mundo em que sejam forçados a tomar partido. “Recusamo-nos a ser um peão numa nova guerra fria”, diz o ex-presidente da Indonésia Joko Widodo. Em vez disso, elas querem construir relações multidimensionais de comércio e investimento, selecionando em um menu de opções que não seja artificialmente restrito por nenhuma rivalidade entre grandes potências. Muitos acreditam, assim como Rana Foroohar, do Financial Times, que “os EUA não são uma âncora para a estabilidade, mas sim um risco contra o qual é preciso se proteger”.

Com as economias avançadas cada vez mais voltadas para o interior, as potências médias se tornaram as campeãs naturais dos bens públicos globais. Elas estão bem posicionadas para liderar a defesa de ações em relação às mudanças climáticas, à saúde pública e ao endividamento. Um bom exemplo é a pressão do Brasil por um imposto global sobre a riqueza dos bilionários durante sua presidência do G20. A proposta em análise arrecadaria centenas de bilhões de dólares e poderia desempenhar um papel importante para preencher a lacuna no financiamento climático para países de baixa renda.

É improvável que as potências médias se tornem um bloco formidável por si só, principalmente porque seus interesses são muito diversos para se encaixarem numa agenda econômica ou de segurança comum. Mesmo quando se juntaram a grupos formais, seu impacto coletivo foi limitado. O Brics (originalmente Brasil, Rússia, Índia, China e, mais tarde, África do Sul) foi lançado com grande alarde em 2009, mas pouco conseguiu além de proporcionar oportunidades de fotos para seus líderes.

Recentemente, o Brics se expandiu para incluir mais quatro países: Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos, e outros podem se juntar. Mas é difícil ver como um grupo de países tão heterogêneo pode agir em conjunto de forma consistente. O pior resultado é que o agrupamento reforçará até mesmo os impulsos autocráticos dos líderes dos Estados-membros eleitos democraticamente.

Talvez a contribuição mais importante das potências médias seja mostrar a viabilidade da multipolaridade e dos diversos caminhos de desenvolvimento na ordem global. Elas trazem uma visão que não depende do poder e da boa vontade dos EUA ou da China

Uma visão comum entre economistas e cientistas políticos é que uma economia global saudável e estável precisa de um hegemon - seja os EUA depois de 1945 ou a Grã-Bretanha durante o padrão-ouro. De acordo com a teoria da “estabilidade hegemônica”, é necessária uma potência superveniente para arcar com os custos da administração de uma economia mundial aberta, como a manutenção de rotas marítimas abertas ou a aplicação de regras comerciais e o livre fluxo financeiro. Dessa forma, a multipolaridade é uma receita para o caos e a desintegração econômica.

Mas essa é uma visão ultrapassada de como o mundo atual funciona. Embora a combinação específica de abertura e proteção varie de modo natural entre os países, nenhum país tem interesse em dar as costas à economia global. Os governos devem equilibrar os benefícios do comércio aberto com o apoio que seus setores podem precisar para desenvolver novas capacidades. Cada país é o seu melhor juiz quando se trata dos termos em que participa da economia mundial.

Seria bom ter um mundo em que os EUA, talvez acompanhados pela China, de fato fornecessem bens públicos globais, como o financiamento em condições favoráveis e o acesso à tecnologia de que os países em desenvolvimento precisam para a mitigação e a adaptação ao clima. Mas esse não é o mundo que temos. Os EUA e outras grandes economias estão lamentavelmente mal dispostos a fornecer os bens públicos de que a economia mundial precisa de verdade e, dado o clima em suas capitais hoje, é improvável que essa disposição melhore tão cedo.

Além disso, como muitas potências médias aprenderam com a experiência, o poder hegemônico pode ser usado tanto por motivos coercitivos quanto por motivos benevolentes. Ele pode ser empregado para impor regras do jogo que não atendam aos seus interesses - e que o hegemon desrespeita sempre tão logo elas se tornam inconvenientes - ou para punir países que não se alinham com os objetivos da política externa do hegemon, como no caso da internacionalização das sanções dos EUA contra o Irã e a Rússia.

Talvez a contribuição mais importante que as potências médias possam fazer seja demonstrar, por meio de seu exemplo, a viabilidade da multipolaridade e dos diversos caminhos de desenvolvimento na ordem global. Elas trazem uma visão para a economia mundial que não depende do poder e da boa vontade dos Estados Unidos ou da China. No entanto, para que as potências médias sejam modelos dignos para os outros, elas devem se tornar atores responsáveis - tanto em suas negociações com países menores quanto na promoção de uma maior responsabilidade política em seu país.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Israel está cometendo crimes de guerra em Gaza

Como o evento em andamento na Faixa de Gaza será chamado no futuro? Israel o chama de "guerra". Não há dúvida de que uma guerra está em andamento, em várias frentes. Mas dentro da estrutura da guerra, um crime está sendo cometido em Gaza. Israel está deliberadamente obliterando uma grande cidade com milhares de anos (Cidade de Gaza), realizando assassinatos em uma escala imensa e tentando expulsar a população de uma região inteira.