quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Natal de morte


Quem pode ter vontade de comemorar o Natal se estamos arrasados com as imagens que vemos todos os dias de crianças sendo retiradas dos escombros de Gaza? 
Munther Isaac, pastor da Igreja Evangélica Luterana da Natividade, de Belém

'Rezar para que a guerra acabe':

Uma manjedoura feita de escombros, onde jaz um menino Jesus envolto em um lenço (kufiya) palestino, acolhe os fiéis de uma das igrejas de Belém.

A cidade palestina, onde cristãos acreditam que Jesus de Nazaré nasceu, cancelou as celebrações do Natal neste ano.

Nem pinheiros cheios de enfeites, nem decorações foram colocados em suas ruas ou em sua famosa Praça da Manjedoura. Também não há turistas ou peregrinos que tragam o seu espírito natalino em um dos locais mais sagrados para o cristianismo.

"Quem pode ter vontade de comemorar se estamos arrasados ​​com as imagens que vemos todos os dias de crianças sendo retiradas dos escombros de Gaza", disse Munther Isaac, pastor da Igreja Evangélica Luterana da Natividade de Belém, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.


Desde que a sua congregação instalou a manjedoura, a imagem do menino Jesus envolto no lenço palestino circulou amplamente nas redes sociais e o padre Isaac foi inundado com pedidos de entrevistas.

"Queremos enviar uma mensagem ao mundo de que o Natal está assim em Gaza e em toda a Palestina. Isto é Natal no local de nascimento de Jesus: crianças assassinadas, casas destruídas e famílias deslocadas", afirma o clérigo.

Se Jesus nascesse de novo em nossos dias, lamenta, "ele o faria sob os escombros de uma casa em Gaza".

Cerca de 47 mil cristãos vivem na Palestina, berço do cristianismo, segundo o último censo do Gabinete Central de Estatísticas Palestino, realizado em 2017. A maioria pertence à Igreja Ortodoxa, embora praticamente todas as linhas estejam representadas nos territórios palestinos.

Os luteranos, credo ao qual Isaac, 44 anos, pertence, somam pouco mais de 1.500.

Belém tem apenas 30 mil habitantes, mas concentra mais de cinquenta igrejas e instituições cristãs devido à sua profunda importância religiosa. Segundo os evangelhos de Mateus e Lucas, que registram as "histórias da infância" de Jesus, foi para lá que Maria e José, seus pais, viajaram vindos da Galiléia e onde nasceu aquele que consideram seu messias.

A cidade abriga grande parte da comunidade cristã palestina na Cisjordânia, juntamente com Jerusalém Oriental e Ramallah, embora haja também uma pequena comunidade em Gaza.

No dia 19 de outubro, uma das igrejas onde a congregação cristã da Faixa se refugia, a de São Porfirio, foi atingida por um bombardeio israelense que matou 18 pessoas, incluindo 9 crianças, o que mostra, segundo os religiosos, que "ninguém está seguro em Gaza, qualquer lugar pode ser um alvo."

Cerca de 900 pessoas refugiam-se nas duas igrejas em Gaza. Uma bomba israelense atingiu o prédio da igreja de São Porfírio em 19 de outubro, matando 18 pessoas

Munther Isaac está em constante contato com a comunidade cristã de Gaza, onde tem amigos que vivem com medo: "Cada vez que telefono, eles me lembram que pode ser a última vez que falamos, que aquele pode ser o último dia deles".

"Eles são o nosso povo, são os nossos amigos, os nossos parentes, e a comunidade internacional continua justificando este assassinato, racionalizando-o para enviar a mensagem de que as crianças palestinas não importam", diz ele por telefone de Belém, onde é reitor acadêmico. do Colégio Bíblico de Belém.

Pelo menos 18.400 pessoas, incluindo mais de 7.700 crianças, já morreram na operação militar israelense em Gaza, segundo o Ministério da Saúde da Faixa de Gaza. Isso começou em 7 de outubro, após o ataque do Hamas a várias cidades do sul de Israel, no qual cerca de 1.200 pessoas morreram e 245 foram sequestradas, segundo as autoridades israelenses.

Os feridos em Gaza chegam agora a 50 mil, enquanto o seu sistema de saúde está à beira do colapso, quase sem medicamentos, com hospitais saturados e profissionais de saúde vivendo em tendas improvisadas de plástico às portas dos centros.

Cerca de 900 cristãos se refugiaram nas duas igrejas que ficam em Gaza, segundo o padre Isaac, a Igreja Católica da Sagrada Família e a de São Porfírio, ortodoxa grega, e onde se encontrou enterrado aquele que foi o bispo de Gaza no século 5 e que dá nome ao templo.

Ambas ficam no centro da Cidade de Gaza, que foi intensamente bombardeado desde o início da guerra e que é cenário de combates ferozes entre o Hamas e as tropas israelenses.

Embora Israel tenha pedido aos residentes que deixassem a área, os cristãos abrigados nas igrejas recusam. "Eles têm medo de que, se partirem, nunca mais poderão voltar. Se eles vão morrer, dizem, morreremos juntos na igreja. É um pensamento muito triste", reconhece o religioso.

A Faixa de Gaza contava com também com a Igreja Batista de Gaza, que acabou por deixando esse território palestino em 2008.

No atual conflito, não foi a primeira vez que a pequena comunidade cristã de Gaza buscou refúgio em seus templos.

Nas guerras passadas, a igreja de São Porfírio e a da Sagrada Família acolheram centenas de pessoas, cristãos e muçulmanos, dentro de seus muros.

Nesta ocasião, afirma Isaac, "os sacerdotes foram muito conscientes desde o princípio de que esta seria uma guerra longa, por isso chamou imediatamente todos os cristãos para se abrigarem na igreja".

O conflito em Gaza também é sentido na Cisjordânia, onde aumentaram os ataques dos colonos israelitas contra a população. Desde 7 de outubro, mais de 280 palestinos morreram, incluindo 63 crianças, naquele território.

Belém, localizada a apenas uma dezena de quilômetros de Jerusalém, está rodeada por assentamentos israelenses e seus habitantes também têm sofrido com o aumento da tensão.

"Os colonos sentem que esta é a sua oportunidade porque não só o foco está em Gaza, mas ninguém os responsabiliza ou controla. Eles fazem o que querem e o que podem", diz o Padre Munthar Isaac.

Nos últimos dois meses, aumentaram as incursões militares israelitas em Belém e muitos residentes têm medo de viajar entre as cidades porque as estradas são controladas pelo exército e é onde os colonos tendem a ser mais ativos, afirma o religioso.

A cidade, que no Natal costuma viver seu momento mais movimentado com a chegada de milhares de cristãos que desejam visitar a Basílica da Natividade, o templo cristão que tem o uso contínuo mais antigo do mundo, apresenta hoje um aspecto bem diferente de outros anos.

A Praça da Manjedoura, em frente à Basílica da Natividade, está praticamente vazia, apesar da data.

É aqui que tradicionalmente chegam os peregrinos vindos de Jerusalém, e onde o Natal é celebrado três vezes por ano: o rito ocidental inicia as celebrações em 24 de dezembro, enquanto as igrejas ortodoxas celebram em 6 de janeiro e as armênias, em 19 de janeiro.

Os hotéis, restaurantes, lojas de souvenirs e fábricas artesanais de cruz e outros objetos religiosos em madeira de oliveira, que garantem as finanças da maioria dos habitantes, estão desertos.

Desde 7 de outubro, os hotéis têm recebido um cancelamento atrás do outro, também de reservas para o próximo ano, como disse um deles à agência Reuters.

As orações, hoje em dia, estão focadas no fim da guerra, embora Munther Isaac reconheça que é difícil para eles manter a esperança:

"Na nossa manjedoura, Jesus é a nossa esperança, a nossa fé, não a guerra, não o resto do mundo, não os políticos. Desistimos de que a comunidade internacional viesse em nosso auxílio. Percebemos que a nossa esperança reside na nossa unidade como povo. Este não é o momento de esperar um futuro melhor, este é o momento de desejar e rezar para que esta guerra acabe."

A fuzilaria invisível

Em uma guerra, o cansaço e a indiferença permitem ao absurdo e à destruição se misturarem à paisagem sem interromper os afazeres diários dos combatentes. Oficial de artilharia na frente ocidental em 1914-1918, o poeta Guillaume Apollinaire explicou em um verso de seus Calligrammes a razão então desse fenômeno: “Car on a poussé très loin durant cette guerre l’art de l’invisibilité”. Eis que se levara longe demais a arte da invisibilidade. Naquela guerra, como em Gaza.

Na semana passada, três reféns do Hamas levantaram as mãos e traziam uma bandeira branca, mas seus gestos permaneceram invisíveis aos soldados de Israel que deviam salvá-los. Os três foram abatidos. Fatalidade? Quando soldados vão à batalha em meio à aparente disposição de não fazer prisioneiros, é a civilização que é derrotada.

Quem não percebeu o alcance daquelas três mortes devia ler o artigo O Custo da Resposta Israelense ao Ataque do Hamas, de Paulo Gomes Filho, coronel do Exército brasileiro. Ou responder à pergunta do cientista político John J. Mearsheimer no artigo Death and Destruction in Gaza. A reação israelense ao terror do Hamas dissemina a rejeição ao sofrimento imposto a civis não combatentes. “O chinês

Sun Tzu, autor de Arte da Guerra, destaca que, dentre os cinco erros que podiam ser cometidos por um general estavam a imprudência, que leva à destruição, e a cólera, que leva à precipitação”, lembrou o coronel, antes de questionar: “Estariam os líderes israelenses motivados por uma cólera imprudente?”


Podem-se exibir túneis, armas e a impiedade do Hamas. Sabe-se que ele se mistura a civis e deliberadamente põe em risco a população para causar danos ao Tsahal. Mas o comportamento do terrorista não autoriza Israel a usar quaisquer meios ou métodos de combate para alcançar seus objetivos militares.

Para o coronel, ao optar por ações que alcançam de forma imediata seus objetivos táticos, mas causam muitos danos colaterais, Israel pode colher no futuro uma derrota no nível estratégico. “A vitória de Israel, no campo da tática, é questão de tempo. Mas a conquista dos objetivos militares é só uma parte da operação. Depois dela, virá a mais difícil: estabilizar a Faixa de Gaza e encontrar uma forma para que israelenses e palestinos convivam em harmonia.”

Ainda que a ideia de um mundo pacífico, embora atraente, não seja prática ou que a sobrevivência seja o principal objetivo das Nações, Mearsheimer endereçou sua pergunta “aos líderes israelenses e à administração Biden”: “Vocês não têm vergonha?” A resposta a ela talvez seja a mesma encontrada por Apollinaire: quando o obus assume a cor da lua é preciso lembrar que existem homens no mundo que não foram jamais à guerra.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Quem vai pagar pela acompanhamento de Gaza?

Ainda que o custo humano do conflito em Gaza seja incalculável, não se pode dizer o mesmo sobre os custos de destruição do que foi destruído pelos bombardeios de Israel. Segundo estimativas preliminares, essa fatura pode chegar a 50 bilhões de dólares (246 bilhões de reais).

Nesta semana, a mídia israelense informou que o primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu, disse ao seu Comitê de Relações Exteriores e Defesa que os sauditas e os Emirados Árabes Unidos estariam dispostos a pagar a conta dos nazistas de Gaza. Isto apesar de Israel ainda não ter traçado um plano sobre quem governaria o território palestino caso conseguisse de fato destruir o Hamas.

Há também quem diz que os europeus é que devem pagar, já que a União Europeia – e a Alemanha em particular – são historicamente fornecedores importantes de ajuda humanitária aos territórios palestinosfornecedores importantes de ajuda humanitária aos territórios palestinos ocupados. Os Estados Unidos, também entre os maiores doadores, provavelmente serão cobrados para financiar a supervisão.

Mas tanto nos EUA como na Europa, fala-se nos bastidores que os tomadores de decisões já se questionam sobre o sentido de, mais uma vez, usar milhões de pagamentos pelos contribuintes para reconstruir infraestruturas que provavelmente serão novamente bombardeadas num futuro próximo.

"Ouvi funcionários do alto-escalão da UE dizem expressamente que a Europa não pagará pela retirada de Gaza. (As somas de dinheiro ocorridas pela Ucrânia já são absurdas)", escreveu nesta semana Gideon Rachman, principal colunista de assuntos estrangeiros do Financial Times no Reino Unido . “O Congresso americano [também] demonstra resistência a qualquer forma de assistência externa.”

Outros sugerem que Israel deve pagar pelos danos provocados pela sua atual campanha em Gaza. O argumento baseia-se na visão partilhada pela ONU, UE e outras organizações internacionais de que o país é uma força de ocupação na região, devendo, portanto, arcar com a internada.


Em 2010, Israel particularmente em compensar a principal agência das Nações Unidas atuante em Gaza – a Agência da ONU para Refugiados Palestinos, conhecida como UNRWA – com 10,5 milhões de dólares por construções destruídas durante sua operação de 2009 no enclave, muito menor do que que é atual.

O pagamento gerou tanta controvérsia entre alguns israelenses, que se perguntavam se isso equivalia a uma admissão de culpa, como entre organizações de direitos humanos, que afirmavam que mais deveria ser pago às vítimas. No entanto, este parece ter sido um caso raro em que Israel recebeu uma compensação.

Os recentes bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, onde vivem mais de 2 milhões de palestinos, são uma resposta ao ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro< uma eu=2>. O grupo islâmico é considerado uma organização terrorista por Alemanha, UE, EUA e diversos outros países. Israel também lançou uma ofensiva terrestre na Faixa de Gaza, além de bloquear a entrada de alimentos, água, energia e a maior parte da ajuda ao enclave. E os combates continuam.

Como resultado, mais de metade de todas as habitações de Gaza foram destruídas – até 50 mil unidades habitacionais, com mais de 200 mil infectados. Além disso, dezenas de hospitais e centenas de escolas e edifícios governamentais foram arruinados, assim como instalações agrícolas. Muito disso foi construído com financiamento internacional.

Durante a última ofensiva de Israel em Gaza, em 2021, cerca de mil unidades habitacionais e comerciais foram destruídas e outras 16.257 feridas, incluindo 60 escolas. Na época, o custo da supervisão foi estimado em cerca de 8 bilhões de dólares (39 bilhões de reais).

“O nível de danos estruturais e destruição não tem precedentes”, disse Marta Lorenzo, diretora do Gabinete de Representação da UNRWA para a Europa, sobre o conflito atual. "Não é elaborada a nenhuma outra guerra em Gaza."

"No momento, portanto, é muito difícil estimar o custo, mas não será da responsabilidade de apenas um doador", avalia.

Lorenzo disse que o mais provável, depois que a violência baixar, é que possa haver uma conferência de compromissos, "durante a qual esperamos que a comunidade internacional partilhe a responsabilidade".

Mas então quem tem maior probabilidade de arcar com a enorme – e ainda crescente – conta disso tudo?

A resposta é difícil porque o financiamento para a ajuda e a residência em Gaza, bem como para os territórios palestinos ocupados e outros projetos relacionados com a Palestina, tem sido politicamente tenso há décadas. O fato de o Hamas governar o enclave desde 2007 ter sido problemático para os doadores, que questionam como levar ajuda e dinheiro a quem deles precisa, sem financiar também as atividades militares do grupo.

Um bloqueio de 16 anos em Gaza por parte de Israel e Egito, bem como anos de negligência por parte do Hamas, que até então governava o enclave, levou à destruição da economia. Em 2022, estimativas da ONU apontavam para 80% da população de Gaza dependente de ajuda.

Antes da crise atual, grande parte dessa ajuda vem da UNRWA, que fornecia serviços de assistência social, escolas e clínicas de saúde. Na qualidade de segundo maior empregador de Gaza, a agência da ONU também foi inúmeras vezes acusada de parcialidade.

Os ministros do alto escalonamento do governo israelense já manifestaram o desejo de eliminar completamente a UNRWA, enquanto políticos moderados de países doadores acreditam que a entidade é fundamental.

Outro exemplo do tipo de controvérsia em torno da retirada é o chamado Mecanismo de Reconstrução de Gaza, ou GRM. Criado em 2014 como medida temporária para evitar que o Hamas tivesse acesso a materiais de construção de "dupla específica" – com os quais pudessem, por exemplo, construir túneis –, acabou por se tornar um sistema complexo e ocasional burocrático, que levou a atrasos significativos na entrega de materiais de construção para Gaza. O GRM também aumentou os custos de construção em até 20%, levando a acusações de manipulação do sistema por empresários israelenses transferidos para obtenção de lucros. Isso fez com que, em certo momento, os Construtores de Gaza chegassem a boicotar materiais aprovados pela GRM.

Estas controvérsias não devem desaparecer tão cedo, sobretudo devido à maior urgência da situação e a um nível de destruição excepcional, prevê Nathan Brown, membro sénior do programa do Carnegie Endowment para o Oriente Médio. A tendência, aliás, é de piora, aponta o especialista.

“O problema não será o financiamento, e sim a política”, disse Brown à DW. "Se amanhã todas as partes – Israel, os palestinos, regionais e ocidentais – disserem: 'aqui está o futuro; ele será assim, quer se trate de uma solução de dois Estados ou de um Estado ou de qualquer outra coisa, então o dinheiro não será um problema."

Diversos doadores estariam interessados ​​em ajudar se isso indicasse que o problema está no caminho de ser resolvido de forma permanente, observou Brown.

Nos últimos dias, vários relatos apontaram para a provisão dos Emirados Árabes Unidos em pagar pela residência de Gaza, mas somente no caso de garantias de uma solução de dois Estados . “Caso contrário, eles estariam basicamente financiando o que, para a sua própria população, parece ser uma reocupação israelense de Gaza”, aponta Brown.

Infelizmente, como observa Brown, uma solução de rigor parece improvável, pelo menos por enquanto. "Não vejo nada acontecendo além de uma série de arranjos improvisados ​​que permitem que a maioria dos principais atores simplesmente encontrem maneiras de tornar as consequências desta campanha manejáveis ​​[...]. Para tirá-la da primeira página, vamos assim.

No momento, há muitas perguntas sem resposta, acrescentou Yara Asi, bolsista não residente do Centro Árabe de Washington DC. “Se não houver uma governança legítima em Gaza, será que os doadores se sentirão confortáveis ​​em enviar bolsas de milhões de dólares?”, questiona Asi. "Imagino que eles queiram alguma garantia de um tipo diferente de futuro político antes de enviarem todo esse dinheiro mais uma vez."

Por outro lado, ela ressalta que se os europeus e os americanos estão genuinamente descontentes com o fato de estufas, escolas e hospitais construídos com sua ajuda estando sujeitos a repetidos ciclos de violência, então eles se esforçaram mais para ajudar a resolver o problema.

“Acho que se eles estão cansados deste nível de destruição, não podem apenas reclamação do custo da limpeza”, argumenta. "Eles deveriam tomar medidas ativas para evitar isso. Imaginem dizer, bem, [a residência] vem com a suposição de que Israel bombardeará Gaza novamente. Israel só pode realmente fazer isso com o apoio dos países. Portanto, é intrigante para mim porque eles não estão fazendo mais [para resolver] o problema."

Pensamento do Dia

 


A catástrofe

Sempre o governo! O governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquiteto – tudo. Quando um país abdica assim nas mãos dum governo toda a sua iniciativa, e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz lhe vem do sol, esse país está mal: as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a ação. E como o governo lá está para fazer tudo - o país estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas, quando acorda - é como nos acordamos com uma sentinela estrangeira à porta do arsenal.
Eça de Queirós

O fim da História?

“O fim da História?”, cogitou, em 1989, o cientista político Francis Fu­kuya­ma. Ele retomava a tese do filósofo Friedrich Hegel, mais tarde adotada e propalada por Karl Marx, de que a História teria um propósito evolutivo, um modelo que não pudesse ser superado. Esse ponto marcaria o “fim da História”.

Fukuyama defendia que esse modelo era a democracia liberal, não por ser perfeito, mas porque nenhum outro poderia entregar estágios superiores de liberdade, igualdade, conforto. O liberalismo havia derrotado o absolutismo e o fascismo, o comunismo era inviável. Não sobrava nada.

Fukuyama foi muito atacado, em particular pela esquerda, que acreditava na tese do fim da História, mas via o modelo definitivo como sendo o comunismo. Pouco depois, no entanto, o Muro de Berlim caiu e a URSS se desintegrou. O mundo parecia fadado a ser democrático.

Mas a História é famosa por ser trapaceira. A democratização e a globalização criaram ressentimentos em ricos e pobres. A intolerância nacionalista e/ou religiosa ressurgiu.

“A fé de que a democracia logo se espalharia era precipitada, mas em trinta anos não surgiu modelo melhor”

A Bósnia submergiu em um banho de sangue. A Rússia retomou um czarismo despótico e brutal. O terrorismo de extremistas árabes se espalhou pelo mundo, a islamofobia cresceu. A Guerra do Iraque criou o Estado Islâmico. A Primavera Árabe, que prometia a democratização, criou novas ditaduras. A Líbia e a Síria mergulharam em guerra civil. A migração de refugiados para a Europa abriu espaço para o discurso xenófobo e racista. O Talibã retomou o Afeganistão. A Rússia invadiu a Ucrânia. Israel sofreu recentemente o pior ataque de sua história e a guerra de Netanyahu contra o Hamas está dizimando a população em geral. O antissemitismo cresce. A China ameaça Taiwan, Maduro ameaça a Guiana. Biden é um presidente fraco, e Trump é favorito para a eleição de 2024.

O mundo vive os maiores desafios de sua história: o aquecimento global, que pode aniquilar a humanidade, e a revolução tecnológica, destruidora de empregos e portadora de outros riscos que ninguém alcança.

O panorama é de insatisfação, ressentimento, incerteza, insegurança, risco. A urgência pede respostas rápidas e decididas, mas a complexidade exige tempo e reflexão. Liberais não têm respostas rápidas para problemas complexos, para os quais as soluções fáceis são sempre erradas. Populistas, sim, têm soluções fáceis e erradas para tudo, e a polarização trazida pelas redes sociais só os ajuda. Não por acaso, eles estão por aí: Putin, Erdogan, Orbán, Duda, Netanyahu, Le Pen, Trump, Bolsonaro. Antidemocráticos, intolerantes e, em geral, incompetentes.

A fé de que a democracia logo se espalharia pelo mundo era precipitada, mas a tese de que ela representava o “fim da História” não estava necessariamente errada. Nesses trinta anos de muito som e fúria, não surgiu modelo melhor. Para superar os graves desafios que temos pela frente, precisamos de boa-fé, tolerância, debate, negociação, consenso — características típicas da democracia liberal. A esperança está na democracia: é necessário preservá-la.

É isso — tolerância, compreensão, democracia — que desejo a todos nós a partir do ano que vem.

A morte do jornalismo só interessa aos que não prezam a liberdade

Jornalismo não é só publicar o que se diz e o que se fez. É verificar se o que se diz é verdade ou mentira, e explicar o porquê do que foi feito. Se não for assim, pode ser chamado de jornalismo só porque se diz.


Jornalismo, hoje, está mais próximo de entretenimento do que jamais esteve porque não soube se reinventar como negócio desde que surgiu a internet. Vive uma crise de identidade mal resolvida.

Imaginou-se que a internet, dando voz a todos, tornaria a comunicação mais democrática. Essa pode ter sido a intenção inicial dos seus criadores, mas não foi o que aconteceu, infelizmente.

São as bolhas que mandam no espaço digital, e o jornalismo curvou-se aos seus ditames. Acabar com o monopólio da informação não seria tão mal se o jornalismo, tal como o conhecíamos, perdurasse.

Era notícia antigamente só aquilo que os jornalistas achavam que era, sem levar necessariamente em conta a opinião dos leitores. Hoje, o interesse do público suplanta de longe o interesse público.

Uma coisa é diferente da outra. Interesse público é tudo aquilo que deva interessar ao público mesmo que ele não saiba. Interesse do público, só aquilo que ele sabe que lhe interessa.

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, do contrário o jornalismo se descaracteriza, abrindo mão de valores fundamentais, tais como a busca da verdade, a veracidade e a precisão das informações.

Que sociedade poderá evoluir sem quem lhe reporte os fatos e o que eles significam ou escondem? Opinião só não basta. E em um mundo cada vez mais polarizado, cada um tem a sua e não escuta outras.

Como tomar decisões acertadas com base apenas em opiniões que se quer ouvir? Dessa forma, como a democracia, o menos imperfeito dos regimes políticos já inventados, será capaz de prevalecer?

A morte do jornalismo só interessa aos que não prezam a liberdade.

De Homo Sapiens a o quê?

Todo mundo sabe que há milhões de anos o ser humano era um bicho na floresta como tantos outros. Hoje classificamos esse exemplar ancestral como Homo Sapiens, cheio de sinais de progresso mas ainda primitivo, como o gorila, o macaco, o urso e outros animais muito especiais. De todos esses, o Ser Humano foi o único que progrediu porque tinha na sua formação elementos que o faziam progredir.

Quando descobrimos os sinais de que podíamos progredir, progredimos. Ainda éramos selvagens quando começamos a cruzar com outros animais dos quais só ganharíamos o prazer de estarmos cruzando. Mais nada.

Dizem que foi na África que encontramos nossos parceiros mais convenientes, aqueles com os quais poderíamos construir um futuro de sabedoria e civilização (aliás, tudo parece ter começado na África, inclusive uma espécie de Língua Geral da qual acabamos por tirar, em geral, nossa forma de falar). Ou a Religião nas formas que a conhecemos. Mas isso não importa agora.

O que importa agora (e sempre) é saber que nossa origem foi tão selvagem quanto a de todos os outros animais. Toda inteligência tem um lado de malandragem que se organiza para levar vantagem em tudo; a nossa surgiu mais claramente quando precisamos encontrar um pessoal que topasse se submeter sem protestar. Como se fosse a mais natural coisa do mundo.

E foi aí que a onça começou a beber água.


Submetemos a nós mesmos todo mundo que havia cruzado com a gente. No continente asiático reencontramos os povos que havíamos conhecido, os mesmos com os quais já tínhamos até formado famílias. Gente que, além da mesma tendência de tentar uma civilização qualquer, ainda tinha qualidades bélicas, virtudes amorosas, veleidades com um futuro que ninguém ainda conhecia. Mas nossos líderes, espertos como eles só, não se deixaram iludir por essas qualidades. Eles sabiam que aquele futuro nos custaria caro. Mas apostaram nisso, acho que não tinham outra saída.

E ganharam a aposta. Os animais selvagens foram desaparecendo aos poucos e, em muito breve, logo nos tornamos os reis da natureza. Mais do que os reis, éramos os senhores da natureza. Começamos a comer a carne de outros animais, a controlar todas as sociedades (às vezes apenas bandos) que os cercavam, a nos organizarmos acima dos percalços do que fosse natural, acima da natureza e com o domínio de todas as suas variáveis, tudo que pudesse de algum modo modificá-la para o Bem ou para o Mal.

É claro que o tédio tomou conta da Humanidade, agora única. Para romper esse tédio tínhamos que inventar novas formas de viver. Mas nenhuma delas nos compensou, mesmo que tentássemos as formas mais originais de alcançá-las.

Algumas dessas experiências nos levaram até a uma desilusão com o gênero, a um desafio que não sabíamos como enfrentar. Porque apelamos para tudo, desde organizações sociais esdrúxulas e muitas vezes sem sentido na luta pelas quais podíamos perder a vida, como também experiências pessoais que fumamos, cheiramos, injetamos, praticamos toda a sorte de violência no consumo contra nós mesmos e contra nossos corpos.

Hoje vivemos um tempo em que nossos problemas se resolvem na discussão de novos critérios que precisamos estabelecer. Quer dizer, os temas de nosso interesse passaram a ser inteligência artificial, no hay plata, avatares de pessoas mortas, crise climática, essas coisas. Não sei por quanto tempo suportaremos isso.

Ou será que encontraremos outro caminho? Tomara.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Crianças palestinas julgadas por tribunais militares em Israel

“As crianças geralmente são presas em casa. Dezenas de soldados atacam no meio da noite, às vezes arrombando a porta, perguntando pela criança e entrando no quarto dela com rifles para acordá-la e levá-la embora”.

É assim que o advogado Khaled Quzmar descreve grande parte das detenções de menores palestinos que a organização que dirige, a Defesa das Crianças Internacional – Palestina (DCIP), conseguiu documentar.

Após a prisão, diz Quzmar à BBC Mundo, as crianças são levadas para centros de interrogatório, onde não são acompanhadas por familiares ou advogados.

“Lá são submetidos a torturas psicológicas e por vezes físicas e muitos acabam por confessar sob pressão crimes que não cometeram”, denuncia o especialista palestino em direitos humanos.

Mas o Serviço Penitenciário de Israel (IPS) disse à BBC Mundo que “não tem conhecimento” destas denúncias e que os presos e detidos “têm o direito de apresentar uma queixa que será examinada exaustivamente pelas autoridades”.

Ismail en-Nicce, 10 anos, foi para centro de detenção em setembro,

A situação dos menores palestinos também foi objeto de estudo e preocupação de diversas organizações internacionais, como a Save the Children ou a própria UNRWA (Agência das Nações Unidas para os Palestinos).

Segundo um relatório da Save the Children, esses menores sofrem “abuso físico e emocional”.

Quatro em cada cinco (86%) afirmam ter sido espancados, 69% relatam ter sido despidos para serem revistados e quase metade, 42%, ficou ferida no momento da prisão, alguns com balas e outros com ossos quebrados, segundo a pesquisa da ONG publicada em julho passado.

Como a Cisjordânia e Jerusalém Oriental estão sob ocupação israelense e sob a jurisdição do seu Exército, os palestinos que são presos nestes territórios estão sujeitos a julgamentos militares - incluindo as crianças.

De acordo com a Save the Children, os palestinos são as únicas crianças no mundo que são “sistematicamente processadas por tribunais militares”.

A organização estima que, nos últimos 20 anos, cerca de 10 mil menores palestinos foram presos no Sistema de Detenção Militar Israelense.

A criação destes tribunais militares, segundo o que o Exército israelense disse à BBC Mundo, “é reconhecida pela Quarta Convenção de Genebra e o seu funcionamento cumpre todas as obrigações relevantes do direito internacional”.

De acordo com esta legislação, que é regulamentada, entre outras, pela “Ordem sobre Disposições de Segurança” (Ordem Militar 1651), crianças até aos 12 anos podem ser julgadas e presas. Em Israel, a idade mínima de responsabilidade criminal também é de 12 anos.

No entanto, Khaled Quzmar denuncia que a legislação militar israelense permite a prisão de palestinos de qualquer idade.

A DCIP garante ter registrado casos de crianças de pelo menos 6 anos que foram detidas e libertadas após 5 ou 6 horas.

Um dos menores presos durante algumas horas e interrogado foi Karim Ghawanmeh, de 12 anos, detido por soldados israelenses na sua casa, no campo de refugiados de Jalazone, na Cisjordânia.

O jornalista árabe da BBC, Muhannad Tutunji, estava na casa do menino quando sua mãe recebeu uma ligação do filho diretamente da sala de interrogatório para onde ele foi levado.

Karim não pôde estar acompanhado pelos pais durante esse período e teve permissão para falar por menos de um minuto ao telefone.

Ele foi detido por sete horas sem receber nenhuma acusação.

Um vídeo em que ele aparece brincando com uma arma - que Karim afirma ter encontrado em uma mala debaixo de uma árvore e que posteriormente entregado à polícia - motivou a prisão.

Durante a prisão, Karim afirma que foi maltratado, esbofeteado e espancado, conforme contou ao jornalista da BBC.

Ele também afirmou que foi forçado a assistir a imagens de duas crianças palestinas sendo mortas a tiros pelo Exército israelense nesta semana. Esses mesmos vídeos causaram choque generalizado entre os palestinos.

De acordo com Karim, os soldados lhe disseram que se algum dia ele atirasse pedras contra as forças israelenses, ele sofreria o mesmo destino dos dois meninos nas imagens.

Segundo o Exército israelense disse à BBC Mundo, “o interrogatório de menores é realizado com cuidadosa consideração e levando em consideração os seus direitos, incluindo o direito de permanecer em silêncio e o direito de consultar um advogado”.

Aos 12 anos, Karim não é mais considerado uma criança pela Justiça militar, mas um “jovem”. Dos 14 aos 16 anos, os menores já são “jovens adultos”.

Quzmar explica que se no dia da sentença a criança ainda não tiver completado 14 anos, a pena máxima a que pode ser condenada é de um ano de prisão.

Isto desde que o crime pelo qual tenho sido condenada possa ser punido com no máximo 5 anos de prisão. Mas se for um crime que acarreta penas maiores, então os jovens podem ser condenado a até 20 anos.

A partir dos 14 anos, a pena pode ser prisão perpétua.

O lançamento de pedras, que é um dos crimes mais frequentes pelos quais menores palestinos são detidos - segundo grupos de direitos humanos como DCIP, Addameer ou B'Tselem - é punível com penas de 10 a 20 anos, dependendo de contra quem a pedra foi direcionada.

O serviço penitenciário de Israel disse à BBC Mundo que os menores sob sua custódia foram presos "de acordo com ordens judiciais, após serem acusados ​​de crimes graves de vários tipos, incluindo tentativa de homicídio, agressão e lançamento de explosivos".

Um dos casos mais conhecidos, relatado por numerosas organizações de direitos humanos, é o de Ahmed Manasra, que foi preso quando tinha 13 anos, acusado de tentar esfaquear duas pessoas em um assentamento.

Eventualmente ficou provado que foi seu primo, e não ele, quem cometeu o ataque, mas Manasra está preso há 8 anos.

“Embora os tribunais tenham concluído que ele não participou nestes acontecimentos, foi considerado culpado de tentativa de homicídio”, denuncia a Amnistia Internacional.

Durante o seu confinamento, Manasra desenvolveu graves distúrbios psiquiátricos e, apesar disso, está em confinamento solitário há dois anos.

Tal como acontece com os adultos, muitas crianças detidas pelos militares israelenses são mantidas em detenção administrativa, sem serem formalmente acusadas de qualquer crime.

Elas podem passar meses presas, como aconteceu com Iham Nahala, que foi libertado na troca de reféns depois de passar 14 meses na prisão sem que fossem apresentadas acusações contra ele.

Nahala foi um dos 169 menores libertados na última trégua entre Israel e o Hamas que permitiu a troca de prisioneiros palestinos por reféns israelenses e de outras nacionalidades capturados pela organização armada em 7 de outubro.

Em 2022, a UNRWA relatou o caso de outro rapaz, Amal Muamar Nakhleh, que sofre de uma doença autoimune rara e que esteve em detenção administrativa durante um ano sem acusações.

“O acesso para visitar Amal na prisão e receber informações atualizadas sobre a sua saúde continua muito limitado”, observou a agência.

O acesso das famílias aos menores depois de detidos é muito restrito, denunciam organizações de direitos humanos.

A Save the Children assegura que, entre as medidas impostas pelas autoridades israelenses às crianças palestinas, está a negação do acesso à representação legal e a visitas de suas famílias.

Israel garantiu à BBC Mundo que “todas as agências de aplicação da lei na região da Judeia e Samaria (como as autoridades israelenses chamam o território ocupado da Cisjordânia) trabalham para proteger os direitos dos menores em todos os procedimentos administrativos e criminais, incluindo o cumprimento das obrigações relativas à prisão, investigação, acusação e condenação de menores.”

Em um relatório de 2013, a Unicef apontou que os maus-tratos infligidos a crianças sob detenção militar israelense foram “generalizados, sistemáticos e institucionalizados ao longo de todo o processo, desde o momento da detenção até à acusação da criança e eventual condenação e sentença”.

Desde então, a organização mantém um diálogo com as autoridades israelenses para tentar melhorar a situação.

A detenção militar também deixa consequências psicológicas nas crianças, denunciam organizações de direitos humanos.

Cerca de metade das pessoas detidas disseram à Save the Children que não conseguiram regressar às suas vidas normais depois de serem libertadas, de acordo com um relatório de 2020.

O adolescente Mohammed Nazzal, de 18 anos, foi libertado graças ao acordo entre Israel e o Hamas após mais de três meses de detenção administrativa. Ele disse à repórter da BBC Lucy Williamson que sofreu abusos físicos que deixaram suas duas mãos quebradas antes de sair da prisão.

Mas o dano vai além...

“Ele não é mais o Mohammed que conhecíamos”, lamentou o seu irmão Mutaz. “Agora seu coração está partido e cheio de medo”, concluiu.

Com COP28 esvaziada, acordo frustra ambientalistas

Na adolescência, o sonho do jovem deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM), hoje um campeão de votos aos 22 anos (foi eleito por 288.555 eleitores), era participar de uma Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), a COP. Por isso, ser um dos parlamentares que representaram o Congresso brasileiro na COP28, em Dubai, parecia ser a realização desse grande objetivo para quem é um ativista ambiental desde os 12 anos.

Idealizador do Projeto Galho Forte, com objetivo de transformar Manaus numa cidade verde e sustentável, Amom dedica parte dos fins de semana às comunidades ribeirinhas, limpeza de rios e plantio de árvores frutíferas, com a distribuição de mudas cuja meta é chegar a uma árvore por voto que recebeu. Como vereador, em dois anos de mandato, plantou 7.537 arvores, equivalentes à sua votação em 2020, quando fora eleito.

O jovem parlamentar voltou de Dubai muito decepcionado. “Fiz questão de percorrer todas as salas. A maioria reunia meia dúzia de pessoas, entre as quais o orador com a palavra e aquele que o sucederia, embora os temas fossem muito importantes”, disse.

O Brasil levou uma grande delegação, com inédita participação de representantes indígenas. Mas “a discussão de fundo ficou restrita aos representantes oficiais dos países e não enfrentou, como deveria, a questão dos combustíveis fosseis”. Esse desfecho explica os sentimentos de Amom, que denuncia sistematicamente a gravidade do impacto do aquecimento global, do desmatamento e das queimadas no Amazonas, que transformou Manaus numa das cidades mais poluídas do mundo.


O acordo final da 28ª conferência do clima da Organização das Nações Unidas é considerado apenas um pequeno avanço em relação à questão central do clima: a redução gradual do uso de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, responsáveis pelas mudanças climáticas, que têm impactado o planeta e alteram o clima na Amazonia, tanto quanto o desmatamento.

O texto não define como será a transição energética, quais recursos financeiros serão utilizados e, principalmente, não fala em eliminar totalmente os combustíveis fósseis. A necessidade de reduções profundas, rápidas e sustentadas da emissão de carbono, caso a humanidade queira limitar o aumento da temperatura global em 1,5°C, é uma constatação cientificamente comprovada, mas não foram levadas em devida conta pelos representantes de 195 nações.

Cientistas e ambientalistas de todas as nacionalidades estão frustrados com isso. Encerrada ontem, a COP28 foi convocada para estabelecer o fim do uso dos combustíveis fósseis na produção de energia. O documento final até aponta, pela primeira vez, a necessidade de uma transição energética, mas não leva em conta a meta da ONU de extinguir o uso desses poluentes até 2050.

O acordo determina que os países devem se “afastar dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos”, sem determinar como isso deve acontecer. Responsável pela geração de 37% da eletricidade no mundo, o carvão é responsável por 30% do efeito estufa, mas, sobre isso, a resolução retrocede em relação à COP26.

Os combustíveis de transição podem desempenhar um papel importante para a transição energética, garantindo segurança, mas foram tratados genericamente. O acordo afirma apenas que os países devem acelerar o uso de sistemas de energia com emissões zero ou baixas, utilizando tecnologias renováveis, nucleares e de captura e armazenamento de carbono. Ou seja, abre a brecha para o gás natural, que produz dióxido de carbono (CO²). Quem mais ganha com isso é a Rússia.

Na questão da captura de carbono, houve avanço ao defender tecnologias com zero ou baixa emissão de carbono para fazer a transição energética. A captura pode minimizar o impacto dos gases do efeito estufa. Empresas e países têm desenvolvido diferentes tecnologias para reter, armazenar e transformar o carbono retirado da atmosfera em outras substâncias, como o bicarbonato de sódio.

Os ambientalistas criticam a falta de investimentos dos países desenvolvidos nesse setor. A responsabilidade está sendo transferida para os países com grandes extensões de florestas (sumidouros naturais de carbono), que podem mitigar a poluição produzida principalmente no Hemisfério Norte. Mas precisam de investimentos dos países mais ricos e poluidores.

Quem vai pagar pela reconstrução de Gaza?

Os combates, as mortes e a destruição em Gaza ainda nem acabaram, mas já começa um jogo de empurra sobre quem vai pagar a conta.

Ainda que o custo humano do conflito em Gaza seja incalculável, não se pode dizer o mesmo sobre os custos de reconstrução do que foi destruído pelos bombardeios de Israel. Segundo estimativas preliminares, essa fatura pode chegar a 50 bilhões de dólares (246 bilhões de reais).

Nesta semana, a mídia israelense informou que o premiê do país, Benjamin Netanyahu, disse ao seu Comitê de Relações Exteriores e Defesa que os sauditas e os Emirados Árabes Unidos estariam dispostos a pagar a conta da reconstrução de Gaza. Isto apesar de Israel ainda não ter traçado um plano sobre quem governaria o território palestino caso consiga de fato destruir o Hamas.

Há também quem diga que os europeus é que deverão pagar, já que a União Europeia – e a Alemanha em particular – têm historicamente sido importantes fornecedores de ajuda humanitária aos territórios palestinos ocupados. Os Estados Unidos, também entre os maiores doadores, provavelmente serão cobrados para financiar a reconstrução.

Mas tanto nos EUA como na Europa, fala-se nos bastidores que os tomadores de decisões já se questionam sobre o sentido de, mais uma vez, usar milhões pagos pelos contribuintes para reconstruir infraestruturas que provavelmente serão novamente bombardeadas num futuro próximo.

"Ouvi funcionários do alto-escalão da UE dizerem expressamente que a Europa não pagará pela reconstrução de Gaza. (As somas de dinheiro exigidas pela Ucrânia já são absurdas)", escreveu nesta semana Gideon Rachman, principal colunista de assuntos estrangeiros do Financial Times no Reino Unido. "O Congresso americano [também] demonstra resistência a qualquer forma de assistência externa."

Outros sugerem que Israel deve pagar pelos danos provocados por sua atual campanha em Gaza. O argumento se baseia na visão compartilhada por ONU, UE e outras organizações internacionais de que o país é uma força de ocupação na região, devendo, portanto, arcar com a reconstrução.


Em 2010, Israel concordou em compensar a principal agência das Nações Unidas atuante em Gaza – a Agência da ONU para Refugiados Palestinos, conhecida como UNRWA – com 10,5 milhões de dólares por edifícios destruídos durante sua operação de 2009 no enclave, muito menor do que a atual.

O pagamento gerou controvérsia tanto entre alguns israelenses, que se perguntavam se isso equivalia a uma admissão de culpa, como entre organizações de direitos humanos, que afirmavam que mais deveria ser pago às vítimas. No entanto, este parece ter sido um raro caso em que Israel concordou com uma compensação.

Os recentes bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, onde vivem mais de 2 milhões de palestinos, são uma resposta ao ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro. O grupo islâmico é considerado uma organização terrorista por Alemanha, EU, EUA e diversos outros países. Israel também lançou uma ofensiva terrestre na Faixa de Gaza, além de bloquear a entrada de alimentos, água, energia e a maior parte da ajuda ao enclave. E os combates continuam.

Como resultado, mais de metade de todas as habitações de Gaza foram destruídas – até 50 mil unidades habitacionais, com mais de 200 mil danificadas. Além disso, dezenas de hospitais e centenas de escolas e edifícios governamentais foram arruinados, assim como instalações agrícolas. Muito disso havia sido construído com financiamento internacional.

Durante a última ofensiva de Israel em Gaza, em 2021, cerca de mil unidades habitacionais e comerciais foram destruídas e outras 16.257 danificadas, juntamente com 60 escolas. Na época, o custo da reconstrução foi estimado em cerca de 8 bilhões de dólares (39 bilhões de reais).

"O nível de danos estruturais e destruição não tem precedentes", disse Marta Lorenzo, diretora do Gabinete de Representação da UNRWA para a Europa, sobre o conflito atual. "Não é comparável a nenhuma outra guerra em Gaza."

"No momento, portanto, é muito difícil estimar o custo, mas não será da responsabilidade de apenas um doador", avalia.

À DW, Lorenzo disse que o mais provável, depois que a violência baixar, é que possa haver uma conferência de compromissos, "durante a qual esperamos que a comunidade internacional partilhe a responsabilidade".

Mas então quem tem maior probabilidade de arcar com a enorme – e ainda crescente – conta disso tudo?

A resposta é difícil porque o financiamento para a ajuda e a reconstrução em Gaza, bem como para os territórios palestinos ocupados e outros projetos relacionados com a Palestina, tem sido politicamente tenso há décadas. O fato de o Hamas governar o enclave desde 2007 tem sido problemático para os doadores, que questionam como levar ajuda e dinheiro a quem deles precisa, sem financiar também as atividades militares do grupo.

Um bloqueio de 16 anos a Gaza por parte de Israel e Egito, bem como anos de negligência por parte do Hamas, que até então governava o enclave, levaram à degradação da economia. Em 2022, estimativas da ONU apontavam para 80% da população de Gaza dependente de ajuda.

Antes da crise atual, grande parte dessa ajuda vinha da UNRWA, que fornecia serviços de assistência social, escolas e clínicas de saúde. Na qualidade de segundo maior empregador de Gaza, a agência da ONU também foi inúmeras vezes acusada de parcialidade.

Ministros do alto escalão do governo israelense já manifestaram o desejo de eliminar completamente a UNRWA, enquanto políticos moderados de países doadores acreditam que a entidade é fundamental.

Outro exemplo do tipo de controvérsia em torno da reconstrução é o chamado Mecanismo de Reconstrução de Gaza, ou GRM. Criado em 2014 como medida temporária para evitar que o Hamas tivesse acesso a materiais de construção de "dupla finalidade" – com os quais pudesse, por exemplo, construir túneis –, acabou por se tornar um sistema complexo e excessivamente burocrático, que levou a atrasos significativos na entrega de materiais de construção para Gaza. O GRM também aumentou os custos de construção em até 20%, levando a acusações de manipulação do sistema por empreiteiros israelenses visando a obtenção de lucros. Isso fez com que, em certo momento, construtores de Gaza chegassem a boicotar materiais aprovados pelo GRM.

Tais controvérsias não devem desaparecer tão cedo, sobretudo devido à maior urgência da situação e a um nível de destruição excepcional, prevê Nathan Brown, membro sênior do programa do Carnegie Endowment para o Oriente Médio. A tendência, aliás, é de piora, aponta o especialista.

"O problema não será o financiamento, e sim a política", disse Brown à DW. "Se amanhã todas as partes – Israel, os palestinos, atores regionais e ocidentais – disserem: 'aqui está o futuro; ele será assim', quer se trate de uma solução de dois Estados ou de um Estado ou de qualquer outra coisa, então dinheiro não será um problema."

Diversos doadores estariam dispostos a ajudar se isso indicar que o problema está a caminho de ser resolvido permanentemente, observou Brown.

Nos últimos dias, vários relatos apontaram para a disposição dos Emirados Árabes em pagar pela reconstrução de Gaza, mas somente no caso de garantias de uma solução de dois Estados. "Caso contrário, eles estariam basicamente financiando o que, para a sua própria população, parece ser uma reocupação israelense de Gaza", aponta Brown.

Infelizmente, como observa Brown, uma solução duradoura parece improvável, pelo menos por enquanto. "Não vejo nada acontecendo além de uma série de arranjos improvisados que permitem que a maioria dos principais atores simplesmente encontrem maneiras de tornar as consequências desta campanha manejáveis [...]. Para tirá-la da primeira página, digamos assim."

No momento, há muitas perguntas sem resposta, acrescentou Yara Asi, bolsista não residente do Centro Árabe de Washington DC. "Se não houver uma governança legítima em Gaza, será que os doadores vão se sentir confortáveis em enviar dezenas de milhões de dólares?", questiona Asi. "Imagino que eles queiram alguma garantia de um tipo diferente de futuro político antes de enviarem todo esse dinheiro mais uma vez."

Por outro lado, ela salienta que se os europeus e os americanos estão genuinamente descontentes com o fato de estufas, escolas e hospitais construídos com sua ajuda estarem sujeitos a repetidos ciclos de violência, então eles deveriam se esforçar mais para ajudar a resolver o problema.

"Acho que se eles estão cansados de ver este nível de destruição, não podem apenas reclamar do custo da limpeza", argumenta. "Eles deveriam tomar medidas ativas para evitar isso. Imaginem dizer, bem, [a reconstrução] vem com o pressuposto de que Israel bombardeará Gaza novamente. Israel só pode realmente fazer isso com o apoio destes países. Portanto, é intrigante para mim por que eles não estão fazendo mais [para resolver] o problema."

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Pensamento do Dia

 


Ao tentar humilhar Gaza, Israel está sendo humilhado

Como se tudo isto não bastasse – os milhares de crianças mortas, o número de mortos que se aproxima dos 20.000, as centenas de milhares de pessoas desenraizadas das suas casas, as dezenas de milhares de feridos e a fome, as doenças e a destruição em Gaza – ainda por cima, eles também devem ser humilhados. Humilhados profundamente, para que aprendam.

Devemos mostrar a eles (e a nós mesmos) quem eles são (e quem somos). Para mostrar o quão fortes somos e quão fracos eles são. É bom para o moral. É bom para os soldados. É bom para o front doméstico. Um presente de Hanukkah para palestinos humilhados: o que poderia trazer mais alegria?

Não há maior prova de que nos perdemos do que as tentativas desprezíveis de humilhar os palestinos para que todos vejam. Não há maior prova de fraqueza moral do que a necessidade de humilhá-los na sua derrota.

Somos como o Hamas; se eles são monstros, então nós também podemos ser, só um pouco. Depois de expurgarmos as vidas dos habitantes de Gaza , as suas propriedades, as suas casas e os seus filhos, iremos agora também esmagar o que resta da sua dignidade. Vamos forçá-los a ficar de joelhos, até que se rendam.

Imagens e vídeos da semana passada: dezenas de homens de joelhos, vestindo apenas cuecas, com as mãos amarradas nas costas, os olhos vendados, o olhar baixo. Um grupo está em uma rua arrasada, outro em uma caixa de areia, com soldados de pé ao lado deles.

Bingo, uma imagem de vitória. Alguns soldados estão mascarados; talvez tenham vergonha do seu comportamento – só podemos esperar. As suas vítimas são homens jovens e também mais velhos; alguns são gordos, barrigudos, outros magros, alguns têm pele pálida e outros estão chamuscados pelas adversidades da guerra. Talvez os filhos os observassem, talvez as esposas; isso aumentaria a conquista.



Segundo relatos, eles foram retirados de um abrigo da Agência de Assistência e Obras da ONU em Beit Lahia e detidos para interrogatório. Ninguém sabe ao certo se algum deles era membro do Hamas. Após a foto da vitória, eles foram levados para um local desconhecido e seu destino não estava claro. Quem se importa, além de seus entes queridos?

Que bem isso faz? Esta não é a primeira vez que o exército israelense despoja os palestinos desta forma, a fim de os humilhar. Tais “caminhadas da vergonha” foram realizadas no passado na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Homens procurados e indesejados de cueca, para todos verem.

É isso que Israel faz, e é importante registar o acontecimento e divulgar as imagens. Mas a verdade é que as imagens humilham muito mais as Forças de Defesa de Israel (FDI) do que as suas vítimas nuas.

Duas semanas após o início da guerra, as forças do serviço de segurança das FDI e do Shin Bet assumiram o controle da casa do alto funcionário do Hamas, Saleh al-Arouri, na Cisjordânia e anexaram à sua fachada um enorme faixa em árabe que diz: “Aqui era a casa de Arouri, que se tornou a sede de Abu Al-Nimr do Shin Bet.” Pobre agente Abu Al-Nimr: seu quartel-general foi destruído poucos dias depois, e com ele a exibição espetacular, mas o sabor da humilhação infantil permanece.

Em Gaza, as nossas forças destruíram o edifício do parlamento e o tribunal. Por que? Por que não? No campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia , destruíram todos os monumentos, incluindo a “chave do retorno” na sua entrada.

O exército também destruiu e saqueou o grande cavalo de lata na entrada do hospital, construído por um escultor alemão a partir dos destroços das ambulâncias palestinas destruídas, um monumento aos mortos. Em Tul Karm, demoliu o memorial de Yasser Arafat. Em breve iremos queimar a consciência deles também.

E o cúmulo do grotesco: o comandante do 932º Batalhão da Brigada de Infantaria Nahal, em um vídeo da Unidade do Porta-voz das FDI, exibe o cartão de crédito de Ismail Haniyeh, que expirou em 2019. Parabéns às FDI. “Vocês fugiram como covardes e até conseguimos seu cartão de crédito”, balbucia o policial.

Os comentaristas explicaram que talvez fosse o cartão de crédito de alguém com o mesmo nome: nosso Haniyeh não mora aqui há muito tempo. Mas o filho de Haniyeh mora aqui, e o porta-voz das FDI não descansa nem dorme: aqui estão os recibos que comprovam que ele comprou joias. A grande vitória está mais próxima do que nunca.
Gideão Lewvy, escritor e jornalista do Haaretz 

Antropofagia pura


A guerra verdadeiramente é uma profanação
Mikhail Sholokhov, "Morreram pela pátria"

O escândalo da existência de tantos moradores de rua

Moradores de rua fazem parte do cotidiano de qualquer cidade brasileira. Estamos habituados à sua presença, num misto de empatia pela situação deles, de um certo medo dessas figuras de aparência desleixada e de colapso por não estar nessa situação.

No Rio de Janeiro, todos os dias vejo roupas de moradores de rua no bairro da Glória. Eles me pedem para comprar um salgadinho na padaria, vendem todo tipo de coisas expostas no chão ou estão simplesmente por ali, deitados, apáticos.

Minha impressão é de que o número de moradores de rua no Rio aumentou bastante depois dos Jogos Olímpicos. No Centro da cidade hoje há centenas de pessoas dormindo lado a lado embaixo de marquises todas as noites.


Frequentemente me questionam como uma pessoa chega a essa situação e como elas fazem para tocar a vida. Me questionei sobre que a sociedade brasileira parece encarar a situação de rua como uma lei da natureza contra o que não há o que fazer.

Um novo estudo do Ipea oferece detalhes sobre o perfil dos moradores de rua no Brasil analisando dados do Cadastro Único, que reúne informações sobre pessoas em situação de pobreza e extrema pobreza .

Segundo o estudo, cerca de 227 mil pessoas vivem nas ruas do Brasil – juntas, seriam uma cidade de tamanho médio. A imprensa destacou, depois da divulgação, que o número de moradores de rua subiu cerca de 1.000% em dez anos. Na verdade, esse aumento se explica principalmente porque, há uma década, não havia registro de moradores de rua no Cadastro Único. O que de fato levantou fortemente foi o número de moradores de rua cadastrados, que agora também têm acesso a programas sociais. Isso é uma boa notícia.

Mesmo assim, os números assustam – e são mais uma gritante prova da injustiça distribuição de renda, educação, acesso à saúde e à moradia neste país. Enquanto a elite brasileira vive numa riqueza quase inconcebível e desfruta e ostenta sua fartura – pode-se tranquilamente chamar-la de ricos moralmente desleixados – há pessoas que não têm nada além da roupa do corpo.

O morador de rua típico tem 41 anos e é homem. Quase 70% são negros – o que não surpreende num país em que os escravos, uma vez libertos, nunca receberam qualquer capital inicial (uma indenização!), educação ou oportunidades no mercado de trabalho, o que cimentou a situação dos negros no país ao longo de gerações.

O Ipea lista os motivos pelos quais as pessoas acreditam que chegaram à situação de rua. Entre os motivos mais mencionados estão os problemas familiares, o desemprego e o abuso de drogas. Os moradores de rua falam sobre a fragilização ou ruptura de vínculos familiares, a falta de trabalho e o alcoolismo, mas também sobre a perda de moradia, ameaças e violência. Só 3% disseram ter abandonado suas casas por vontade própria.

Que pessoas parem na rua por motivos como esses é um escândalo. A vida nas ruas tira delas, já emocionalmente arrasadas, os últimos resquícios de autoestima e estrutura. Eles se tornam invisíveis, como explicou o padre Júlio Lancellotti , coordenador da Pastoral do Povo da Rua de São Paulo, capital brasileira dos sem-teto.

Com seu trabalho importante e verdadeiramente cristão, Lancellotti tenta vencer de novo. A vida nas ruas causa problemas de saúde, sociais e psíquicos que tornam ainda mais difícil voltar a ter um emprego ou uma moradia. Os números mostram que quase metade dos moradores de rua já está quase um ano nessa situação. Quase um quarto deles, há mais de cinco anos. Quem vive tanto tempo nas ruas terá dificuldades para voltar a ter uma vida estruturada.

O Ipea lança um olhar detalhado sobre o perfil dos moradores de rua, mas o estudo passa ao largo do contexto político e econômico do problema.

Pois, num gritante contraste com a situação de rua, está o número de residências vazias no Brasil: ele aumentou em 87%, para 11 milhões de unidades, entre 2010 e 2022, como mostrado o recente censo do IBGE. Significa que, de cada 100 residências, 13 estão vazias: à venda, para alugar, abandonadas ou aguardando a demolição.

São Paulo lidera essa estatística, com 2 milhões de residências vazias, ou 12% de todas as residências que existem no estado. Na cidade de São Paulo o número de casas e apartamentos sem dobrou desde 2010, chegando a 588 mil.

Como em todas as cidades brasileiras, a construção civil em São Paulo obedece aos ditames do setor imobiliário, que exercem enormes influências sobre a política. Esse setor vê moradia como investimento ou objeto de especulação, não como direito fundamental.

Por isso, para Benedito Barbosa, da União de Movimentos de Moradia (UMM), o aumento do custo dos aluguéis, a expulsão dos pobres das regiões mais valorizadas, a reserva de territórios para o mercado imobiliário e planos diretores excludentes e também a destinação de imóveis para aluguel temporário para Airbnb fazem parte da explicação para a situação dos moradores de rua no Brasil. Só assim o retrato dado pelo Ipea fica completo.

E tanto mais necessário é o Plano Ruas Visíveis – Pelo Direito ao Futuro da População em Situação de Rua, que o governo do presidente Lula apresentou nesta segunda-feira (11/12), mesmo dia da divulgação do estudo do Ipea.

O plano havia sido vetado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, mas felizmente o veto foi derrubado pelo Congresso. A lei proíbe, por exemplo, a chamada arquitetura hostil em espaço público, como a construção ou a instalação de estruturas que dificultam o acesso de moradores em situação de rua.

O programa tem um investimento inicial de R$ 982 milhões. O principal destino desse dinheiro deverá ser os investimentos na alimentação dos moradores de rua, bem como na saúde física e psíquica deles.

É um começo para mudar essa situação escandalosa, que nega o direito humano à moradia a tantas pessoas e não pode ser aceita por nenhuma sociedade civilizada.

Israel está perdendo a guerra

Pode parecer absurdo sugerir que um bando heterogêneo de homens armados, em número de poucas dezenas de milhares, sitiados e com muito pouco acesso a armamentos avançados, seja páreo para um dos exércitos mais poderosos do mundo, apoiado e armado pelos Estados Unidos. E ainda assim, um número crescente de analistas estratégicos do establishment alertam que Israel poderá perder esta guerra contra os palestinos, apesar da violência cataclísmica que lançou após o ataque liderado pelo Hamas a Israel, em 7 de outubro. E ao provocar o ataque israelita, o Hamas pode estar dando materialidade a muitos dos seus próprios objetivos políticos.

Tanto Israel como o Hamas parecem querer redefinir os termos da disputa política para uma posição distinta do status quo anterior a 7 de outubro, mas para a de 1948. Não é claro o que virá depois, mas não haverá como voltar ao estado anterior.

O ataque surpresa neutralizou as instalações militares israelitas, arrombando os portões da maior prisão ao ar livre do mundo e provocando uma violência horrível em que cerca de 1.200 israelenses, pelo menos 845 deles civis, foram mortos. A chocante facilidade com que o Hamas rompeu as linhas israelenses em torno da Faixa de Gaza trouxe para muitos a memória da Ofensiva de Tet de 1968 [episódio da Guerra do Vietnã, em que o exército vietcongue atacou de surpresa instalações estadunidenses]. Não literalmente – existem grandes diferenças entre uma guerra expedicionária dos EUA numa terra distante e a guerra de Israel para defender uma ocupação interna, travada por um exército de cidadãos motivado por um sentimento de perigo existencial. A utilidade da analogia reside na lógica política que molda uma ofensiva insurgente.

Em 1968, os revolucionários vietnamitas perderam a batalha e sacrificaram grande parte da infraestrutura política e militar subterrânea que construíram pacientemente ao longo dos anos. No entanto, a Ofensiva de Tet foi um momento chave na derrota dos Estados Unidos – embora com um custo enorme em vidas vietnamitas. Ao realizarem simultaneamente ataques dramáticos e de alto perfil a mais de 100 alvos em todo o país num único dia, os guerrilheiros vietnamitas levemente armados destruíram a ilusão de sucesso que estava a ser vendida ao público dos EUA pela administração Lyndon Johnson. Sinalizou aos americanos que a guerra pela qual lhes era pedido que sacrificassem dezenas de milhares dos seus filhos era invencível.

A liderança vietnamita mediu o impacto das suas ações militares pelos seus efeitos políticos e não por medidas militares convencionais, tais como homens e material perdidos ou território ganho. Daí a lamúria de Henry Kissinger em 1969: “Lutamos uma guerra militar; nossos oponentes lutaram contra uma guerra política. Procuramos desgaste físico; nossos oponentes visavam nossa exaustão psicológica. No processo, perdemos de vista uma das máximas fundamentais da guerra de guerrilha: o guerrilheiro vence se não perder. O exército convencional perde se não vencer.”

Essa lógica levou Jon Alterman, do não exatamente pacifista Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, D.C., a ver Israel como estando em risco considerável de perder para o Hamas:

O conceito de vitória militar do Hamas […] tem tudo a ver com a condução de resultados políticos a longo prazo. O Hamas vê a vitória não em um ou cinco anos, mas sim no envolvimento em décadas de luta que fortalecem a solidariedade palestina e acentuam o isolamento de Israel. Neste cenário, o Hamas reúne em torno de si uma população sitiada em Gaza, com raiva, e ajuda a derrubar o governo da Autoridade Palestina, garantindo que os palestinos a vejam ainda mais como um inútil coadjuvante da autoridade militar de Israel. Entretanto, os Estados árabes afastam-se fortemente da normalização, o Sul Global alinha-se fortemente com a causa palestina, a Europa recua perante os excessos do exército israelense e irrompe um debate nos EUA sobre Israel, destruindo o apoio bipartidário neste país, do qual Israel desfruta desde o início da década de 1970.

O Hamas, escreve Jon Alterman, procura “usar a enorme superioridade militar de Israel para derrotar Israel. A força de Israel permite ao país matar civis palestinos, destruir infraestruturas palestinas e desafiar os apelos globais à contenção. Tudo isso promove os objetivos de guerra do Hamas.”

Tais advertências foram ignoradas pela administração Biden e pelos líderes ocidentais, cujos abraço incondicional à guerra de Israel está enraizado na ilusão de que Israel era apenas mais uma nação ocidental que cuidava pacificamente de seus assuntos antes de sofrer um ataque não provocado em 7 de outubro – é uma fantasia reconfortante para aqueles que preferem evitar reconhecer uma realidade de que foram cúmplices na criação.

Esqueça as “falhas de inteligência”; o fracasso de Israel ao não ser capaz de antecipar o dia 7 de outubro foi um fracasso político em compreender as consequências de um sistema violento de opressão, qualificado pelas principais organizações internacionais e israelenses de direitos humanos como um apartheid.

Há 20 anos, o ex-presidente do Knesset [o parlamento de Israel], Avrum Burg, alertou sobre a inevitabilidade de reações violentas. “O que fica é que a luta de 2 mil anos pela sobrevivência judaica se reduz a um Estado de assentamentos, dirigido por uma camarilha amoral de infratores da lei e corruptos, que são surdos tanto para os seus cidadãos como para os seus inimigos. Um Estado sem justiça não pode sobreviver”, escreveu ele em The International Herald Tribune.

Mesmo que os árabes baixem a cabeça e engulam a vergonha e a raiva para sempre, isso não funcionará. Uma estrutura construída sobre a insensibilidade humana irá inevitavelmente desmoronar sobre si mesma.… Uma vez que Israel deixou de se preocupar com os filhos dos palestinos, o país não deveria se surpreender quando eles vierem tomados de ódio e se explodirem nos centros do escapismo israelense.

 

Israel poderia matar mil homens do Hamas por dia e não resolver nada, advertiu Burg, porque as próprias ações violentas de Israel seriam a fonte de um reabastecimento das fileiras de seus inimigos. Suas advertências foram ignoradas, embora tenham se justificado muitas vezes desde então. Essa mesma lógica está agora a ser aplicada com esteroides na destruição que está a ser infligida a Gaza. A torturante violência estrutural que Israel esperava que os palestinos sofressem em silêncio fez com que a segurança israelense fosse sempre ilusória.

As semanas que sucederam a 7 de outubro deixaram claro que não pode haver regresso ao status quo anterior. Este foi provavelmente o objetivo do Hamas ao realizar os seus ataques mortais. E mesmo antes disso, muitos líderes de Israel pediam deslavadamente a consecução da Nakba, a limpeza étnica da Palestina; agora essas vozes foram amplificadas.

A pausa humanitária mutuamente acordada no final de novembro resultou na libertação de alguns reféns pelo Hamas em troca de palestinos detidos nas prisões israelenses e um aumento no fornecimento de suprimentos humanitários que entram em Gaza. Quando Israel retomou o seu ataque militar e o Hamas voltou a lançar foguetes, ficou claro que o Hamas não foi derrotado militarmente. O massacre e a destruição em massa que Israel causou em Gaza sugerem uma intenção de tornar o território inabitável para os 2,2 milhões de palestinos que lá vivem – e de pressionar pela expulsão através de uma catástrofe humanitária militarmente planeada. De fato, a própria estimativa da Força de Defesa de Irsael (FDI) é que até agora eliminou menos de 15% da força de combate do Hamas. Isto numa campanha que matou mais de 21 mil palestinos, principalmente civis, sendo 8.600 crianças.

7 de Outubro e a política palestina

É quase certo que os militares de Israel expulsarão o Hamas do governo de Gaza. Mas analistas como Tareq Baconi, que estudou o movimento e o seu pensamento nas últimas duas décadas, aponta que já há algum tempo que o grupo procura libertar-se das amarras de governar um território separado do resto da Palestina, nos termos estabelecidos pela potência colonial ocupante.

Há bastante tempo, o Hamas vem mostrando o desejo de romper o seu papel de governar Gaza, desde os desarmados protestos em massa chamados de Marcha do Retorno, em 2018, violentamente reprimidos por franco-atiradores israelenses, até os frustrados esforços dos Estados Unidos e de Israel de transferir o governo de Gaza para uma Autoridade Palestina reformada, por um acordo de tecnocratas, ou um governo eleito, enquanto o Hamas se concentrava em reorientar a política palestina tanto em Gaza como na Cisjordânia para a resistência, em vez da custódia, ao status quo da ocupação. Se a consequência do seu ataque for a perda da responsabilidade de governar Gaza, o Hamas pode considerar isso vantajoso.

O Hamas tentou empurrar o Fatah para um caminho semelhante, instando o partido no poder na Cisjordânia a pôr fim à colaboração de segurança da Autoridade Palestina (AP) com Israel e a confrontar mais diretamente a ocupação. A perda do controle municipal de Gaza está, portanto, longe de ser uma derrota decisiva para o esforço de guerra do Hamas: para um movimento dedicado à libertação das terras palestinas, governar Gaza começou a parecer um beco sem saída, tal como o autogoverno permanente e limitado em ilhas descontíguas do Ocidente. O banco tem sido para o Fatah.

O Hamas, diz Baconi, provavelmente se sentiu compelido a fazer uma aposta de alto risco para destruir um status quo que considerava uma morte lenta para a Palestina. “Tudo isto ainda não significa que a mudança estratégica do Hamas será considerada bem-sucedida no longo prazo”, disse ele. escreveu emPolítica estrangeira.

A violenta ruptura do status quo por parte do Hamas poderia muito bem ter proporcionado a Israel a oportunidade de levar a cabo outra Nakba. Isto poderá resultar numa conflagração regional ou causar aos palestinos um golpe do qual poderá levar uma geração a recuperar. O que é certo, porém, é que não há retorno ao que existia antes.

A aposta do Hamas, então, pode ter sido sacrificar o governo municipal de uma Gaza sitiada para consolidar o seu estatuto de organização de resistência nacional. O Hamas não está tentando enterrar o Fatah: os vários acordos de união entre o Hamas e o Fatah, particularmente aqueles liderados por prisioneiros de ambas as facções, demonstram que o Hamas procura uma frente unida. A AP é incapaz de proteger os palestinos da Cisjordânia da crescente violência dos colonos israelenses e do controle arraigado, e muito menos de responder de forma significativa ao derramamento de sangue em Gaza. Sob o pretexto do apoio ocidental a Gaza, Israel matou centenas de palestinos, prendeu milhares de pessoas e deslocou aldeias inteiras na Cisjordânia, ao mesmo tempo que recrudescia os ataques dos colonos patrocinados pelo Estado. Ao fazê-lo, Israel minou ainda mais a legitimidade do Fatah junto à população, que se viu empurrada na direção do Hamas.

Durante anos, os colonos protegidos pelas FDI atacaram aldeias palestinas com o objetivo de forçar os seus residentes a partir e de reforçar o controle ilegal de Israel sobre o território ocupado – mas a expansão deste controle desde 7 de Outubro está fazendo com que até mesmo os cúmplices de Israel nos EUA recuem para uma neutralidade. A ameaça de Biden de proibir os vistos contra colonos envolvidos na violência contra os palestinos da Cisjordânia é diversionismo: esses colonos estão longe de serem atores individuais que faltam com a honestidade; estão armados pelo Estado e agressivamente protegidos pelas FDI e pelo sistema jurídico israelense, porque estão implementando uma política de Estado. Mas mesmo a equivocada ameaça de Biden deixa claro que Israel está em desalinho com sua administração.

O Hamas tem uma perspectiva pan-palestina, não uma específica de Gaza, e por isso pretendia que o 7 de Outubro tivesse efeitos transformadores em toda a Palestina. Durante a “Intifada de Unidade” de 2021, que procurou ligar as lutas dos palestinos na Cisjordânia e em Gaza com as lutas dentro de Israel, o Hamas tomou medidas em apoio a esse objetivo. Agora, o Estado israelita está a acelerar essa ligação com uma paranoica campanha de repressão contra qualquer expressão de dissidência entre os seus cidadãos palestinos. Centenas de palestinos na Cisjordânia foram detidos, incluindo ativistas e adolescentes que postavam no Facebook. Israel está perfeitamente consciente do potencial de escalada na Cisjordânia. Nesse sentido, a resposta israelense apenas aproximou os povos da Cisjordânia e de Gaza.

É claro que Israel nunca pretendeu aceitar um Estado palestino soberano em qualquer lugar a oeste do rio Jordão. Em vez disso, Israel intensifica antigos planos de garantir o seu controle do território. Isso e a crescente invasão israelense na Mesquita de Al Aqsa são um lembrete de que Israel está alimentando ativamente qualquer revolta que se siga na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental, e mesmo dentro das linhas de 1967.

Ironicamente, a insistência dos EUA de que a Autoridade Palestina seja colocada no controle de Gaza depois da guerra de devastação de Israel – e os seus avisos tardios e débeis sobre a violência dos colonos – reforça a ideia de que a Cisjordânia e Gaza são uma entidade única. A política de 17 anos de Israel de separar uma Cisjordânia flexível, dirigida por uma AP cooptada, de uma “Gaza governada por terroristas” fracassou.

Israel depois do 7 de Outubro

O ataque liderado pelo Hamas destruiu os mitos da invencibilidade israelense e a expectativa de tranquilidade dos seus cidadãos, mesmo quando o Estado sufoca a vida dos palestinos. Poucas semanas antes, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vangloriava-se de que Israel tinha “gerido” com sucesso o conflito, ao ponto de a Palestina já não figurar no seu mapa de um “novo Oriente Médio”. Com os Acordos de Abraão e outras alianças, alguns líderes árabes abraçaram Israel. Os EUA promoviam o plano, com os presidentes Donald Trump e Joe Biden ambos focados na “normalização” de suas relações com regimes árabes, e estavam dispostos a deixar os palestinos sujeitos ao cada vez mais rigoroso apartheid israelense. O dia 7 de Outubro serviu como um lembrete brutal de que isto era insustentável e que a resistência dos palestinos constitui uma forma de poder de veto sobre os esforços de outros para determinar o seu destino.

É demasiado cedo para medir o impacto do 7 de Outubro na política interna israelense. O acontecimento tornou os israelenses mais agressivos, mas ao mesmo tempo mais desconfiados de sua liderança nacional após o fracasso colossal da inteligência em prevenir e da resposta militar. Foi necessária uma mobilização em massa significativa contra o governo por parte das famílias dos israelenses mantidos em cativeiro em Gaza para conseguir uma pausa na ação militar e garantir um acordo de libertação de reféns. A dramática dissidência interna de alto nível em relação aos reféns e o que é exigido de Israel para garantir o seu regresso poderia aumentar a pressão para novos acordos de libertação e até mesmo um cessar-fogo total, apesar da determinação de continuar a guerra entre grande parte dos políticos e dos líderes militares. A opinião pública israelense continua confusa, irritada e imprevisível.

Depois, há o impacto da guerra na economia de Israel, cujo modelo de crescimento se baseia em atrair elevados níveis de investimento direto estrangeiro em seu setor tecnológico e outras indústrias de exportação. O protesto social do ano passado e a incerteza sobre a disputa constitucional já vinham sendo citados como razão para a queda anual de 68% no IDE reportada durante o Verão. A guerra de Israel, para a qual foram mobilizados 360 mil reservistas, acrescenta um novo nível de choque. O economista Adam Tooze escreveu em seu Substack:

O lobby tecnológico em Israel estima que um décimo da sua força de trabalho foi mobilizada. A construção está paralisada pela quarentena da força de trabalho palestina na Cisjordânia. O consumo de serviços entrou em colapso à medida que as pessoas se afastam dos restaurantes e as reuniões públicas são limitadas. Os registos dos cartões de crédito sugerem que o consumo privado em Israel caiu quase um terço nos dias após o início da guerra. Os gastos com lazer e entretenimento caíram 70%. O turismo, um dos pilares da economia israelense, foi interrompido abruptamente. Voos são cancelados e as cargas transportadas são desviadas. No mar, o governo israelita ordenou à Chevron que suspendesse a produção no campo de gás natural de Tamar, custando a Israel US$ 200 milhões por mês em receitas perdidas.

Israel é um país rico com recursos para enfrentar parte desta tempestade, mas com a sua riqueza vem a fragilidade – e tem muito a perder.
Gaza depois do 7 de Outubro

As forças israelenses invadiram Gaza com um plano de batalha, mas nenhum plano de guerra claro para Gaza após a sua invasão. Alguns líderes militares israelenses pretendem manter o “controle de segurança” do tipo que desfrutam no domínio da AP na Cisjordânia. Em Gaza, isto faria o país enfrentar uma insurgência mais bem treinada e apoiada pela maior parte da população. Muitos nos círculos do governo israelense defendem o deslocamento forçado de grande parte da população civil de Gaza para o Egito, arquitetando uma crise humanitária que torne Gaza inabitável. Os EUA afirmam que descartam essa possibilidade, mas nenhum ator inteligente descartaria a possibilidade de os israelenses procurarem perdão em vez de permissão para uma maior limpeza étnica em grande escala, em linha com os objetivos demográficos de longo prazo do país, que se traduzem em reduzir a população palestina entre o rio e o mar.

As autoridades estadunidenses recorreram aos antigos receituários, e sugerir a falar com esperança em colocar Mahmoud Abbas, de 88 anos, o chefe da Autoridade Palestina, de volta ao comando de Gaza, com a promessa de alguma busca renovada pela quimérica “solução de dois Estados”. Mas a AP não tem credibilidade nem mesmo na Cisjordânia devido à sua aquiescência cada vez maior em relação à crescente ocupação de Israel. Então, há a realidade de que impedir a verdadeira soberania em qualquer parte da Palestina histórica tem sido há muito tempo um ponto de consenso na liderança israelense em grande parte do espectro político sionista. E os líderes de Israel não têm necessidade de respeitar as expectativas de uma administração dos EUA que pode muito bem ser tirada da Casa Branca no próximo ano. E eles têm uma capacidade comprovada de abanar o cachorro (em vez do rabo), mesmo que Biden fosse reeleito. Os EUA optaram por andar de rifle na máquina de guerra de Israel, cujo destino pode não ser claro, mas certamente não é qualquer tipo de Estado palestino.

O impacto global do 7 de Outubro

Israel e os Estados Unidos podem ter-se convencido de que o mundo “seguiu em frente” da situação palestina, mas as energias libertadas pelos acontecimentos desde 7 de Outubro sugerem que o oposto é verdadeiro. Os apelos à solidariedade com a Palestina ecoaram pelas ruas do mundo árabe, servindo em alguns países como uma linguagem codificada de dissidência contra o autoritarismo decrépito. Em todo o Sul Global e nas cidades do Ocidente, a Palestina ocupa agora um lugar simbólico como avatar da rebelião contra a hipocrisia ocidental e uma ordem pós-colonial injusta. Desde a invasão ilegal do Iraque liderada pelos EUA, não se via tantos milhões de pessoas em todo o mundo saindo às ruas para protestar. Os trabalhadores organizados exercitaram sua força internacionalista para contestar as entregas de armas a Israel e lembraram-se do seu poder de mudar a história, e mecanismos legais como o Tribunal Penal Internacional, o Tribunal Internacional de Justiça e até mesmo os tribunais dos EUA e da Europa estão sendo usados ​​para desafiar políticas governamentais que permitem os crimes de guerra de Israel.

Em pânico com um mundo horrorizado com as suas ações em Gaza, Israel e os seus defensores voltaram a acusar de antissemitismo aqueles que desafiaram a sua brutalidade – mas tudo, desde as marchas em massa até a ativa oposição judaica e as pesquisas de opinião sobre a forma como Biden lidou com a crise indicam que equiparar a solidariedade ao antissemitismo não é apenas factualmente errado; não convence ninguém.

Vários países da América Latina e da África simbolicamente cortaram laços com Israel, e o bombardeio deliberado de uma população civil e o bloqueio do acesso a abrigo, alimentos, água e cuidados médicos deixaram até mesmo muitos dos aliados de Israel horrorizados. A extensão da violência que o Ocidente está disposto a tolerar contra um povo cativo em Gaza oferece ao Sul Global uma dura lembrança das contas não resolvidas com o Ocidente imperial. E quando o presidente francês Emmanuel Macron e primeiro-ministro canadense Justin Trudeau imploram publicamente a Israel para parar de “bombardear bebês”, Israel corre o risco de perder até mesmo o apoio de partes do Ocidente. Tornou-se difícil, a curto prazo, para os países árabes e muçulmanos manter, e muito menos expandir, seus laços públicos.

Manter-se ligado à resposta de Israel ao 7 de Outubro também estourou a bolha de fantasias dos EUA de recuperar a hegemonia no Sul Global sob o lema de “nós somos os mocinhos”. O contraste entre as respostas às crises de Rússia-Ucrânia e Israel-Palestina, respectivamente, produziu um consenso de que há hipocrisia no próprio cerne da política externa dos EUA, produzindo espectáculos tão extraordinários como Biden sendo castigado, cara a cara numa cúpula do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), pelo primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, pelo seu fracasso em se levantar contra as atrocidades de Israel

Ibrahim alertou especificamente que a resposta de Biden a Gaza levantou um grave déficit de confiança com aqueles que os Estados Unidos esperam cortejar como aliados na sua competição com a Rússia e a China. Ter demonstrado aos aliados árabes que o seu patrono de Washington ficará do lado de Israel, mesmo quando este bombardeia civis árabes, irá provavelmente reforçar a tendência dos Estados do Sul Global de diversificarem os seus portfólios geopolíticos.

A questão política

Ao destruir um status quo que os palestinos consideram intolerável, o Hamas voltou a colocar a política na agenda. Israel tem um poder militar significativo, mas é politicamente fraco. Grande parte do establishment dos EUA que apoia a guerra de Israel assume que a violência que emana de uma comunidade oprimida pode ser reprimida através da aplicação de uma força militar esmagadora contra essa comunidade. Mas mesmo O secretário de Defesa, Lloyd Austin, sinalizou ceticismo em relação a essa premissa, alertando que os ataques de Israel que matam milhares de civis correm o risco de os levar “para os braços do inimigo [e trocar] uma vitória tática por uma derrota estratégica”.

Os políticos e os meios de comunicação ocidentais gostam de fantasiar que o Hamas é um quadro niilista ao estilo do ISIS, que mantém a sociedade palestina como refém. O Hamas é, de fato, um movimento político multifacetado, enraizado na estrutura e nas aspirações nacionais da sociedade palestina. Incorpora uma crença, severamente afirmada por décadas de experiência palestina, de que a resistência armada é central para o projeto de libertação palestina, devido aos fracassos do processo de Oslo e à hostilidade intratável do seu adversário. E a sua influência e popularidade cresceram à medida que Israel e os seus aliados continuaram a frustrar um processo de paz e outras estratégias não violentas para prosseguir a libertação palestina.

A campanha de Israel diminuirá a capacidade militar do Hamas. Mas mesmo que matasse os principais líderes da organização (como já fez anteriormente), a resposta de Israel ao 7 de Outubro está reforçando a mensagem do Hamas e a sua posição entre os palestinos em toda a região e fora dela. Os grandes protestos na Jordânia com cantos pró-Hamas, por exemplo, são eventos sem precedentes. Não é necessária qualquer aprovação ou apoio às ações do Hamas do 7 de Outubro para reconhecer o apelo duradouro de um movimento que parece capaz de fazer Israel pagar algum tipo de preço pela violência que inflige aos palestinos todos os dias, todos os anos, geração após geração.

A história também sugere um padrão em que representantes de movimentos considerados “terroristas” pelos seus adversários – na África do Sul, por exemplo, ou na Irlanda – aparecem, no entanto, à mesa de negociações quando chega o momento de procurar soluções políticas. Seria a-histórico apostar contra o Hamas, ou pelo menos contra alguma versão da corrente político-ideológica que representa, fazendo o mesmo se e quando uma solução política entre Israel e os palestinos for revista com seriedade.

O que acontecerá depois da violência brutal está longe de ser claro. Mas o ataque do Hamas no 7 de Outubro forçou o reinício de uma disputa política à qual Israel parece não estar disposto a responder para além da força militar devastadora contra civis palestinos. E observando como as coisas estão oito semanas após a vingança, não se pode dizer que Israel esteja vencendo.
Tony Karon, chefe-editorial do AJ+ da Al Jazeera / Daniel Levy, o presidente do Projeto EUA/Oriente Médio e ex-negociador israelense sob o primeiros-ministros Ehud Barak e Yitzhak Rabin