quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Pensamento do Dia

 


Glotocídio é pouco!

As ministras do Supremo Tribunal Federal, Rosa Weber e Carmen Lúcia estiveram a semana que passou no interior do estado do Amazonas, precisamente, em São Gabriel da Cachoeira, para lançar o texto da Constituição Federal, de 1988, em nhengatu, língua indígena por meio da qual presume-se poder contatar a maioria dos povos que vivem às margens dos rios amazônicos.

Só no município de São Gabriel, que separa o Brasil da Colômbia e da Venezuela, falam-se 25 línguas das famílias aruak, tukano e maku. Em se tratando da língua portuguesa, a população é, no mínimo, analfabeta funcional. O nhengatu é uma das quatro línguas indígenas oficializadas no município junto com o português, o maku e o tucano , usadas tanto do lado do Brasil quanto dos países vizinhos. A remanescencia dessas línguas deve-se, sobretudo, às várias associações e entidades civis, religiosas e indígenas sediadas ali, e que se propõem a organizar aquela multiculturalidade .

Juntas, formam o que é conhecido na região como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), que funciona independente, associativamente, nos moldes do branco, quase como uma assembleia, na qual cada nação indígena se faz representada, sem comprometer suas atividades e organização cultural.
Por isso, embora a Constituição em nhengatu possa ter sido festejada pelas autoridades políticas locais, aventa-se na comunidade que ela terá, entretanto, poucos leitores por ali. O índice de alfabetização é baixo, e aquelas nações indígenas já tem uma estrutura comunitária ou tribal. Teme-se, inclusive, que a Lei do branco, na sua volubilidade, vá causar confusão entre os povos da região. Se não gerar um dilema político, pode vir a ser recebida como mais uma agressão à cultura e à organização das nações indígenas regionais.

Tem-se dúvida quanto ao simbolismo implícito: a presença das ministras do Supremo Tribunal e a distribuição de cópias do texto da Lei Maior do branco para aqueles povos enraizados na região. Poderia ser interpretada por ali como uma bandeira de vencedor, tomando posse do território do outro. De outro ângulo, inspirado em doutrinas de segurança nacional, poderiam ser vistas como um desafio às diferentes frentes potenciais invasoras que, vez por outra, anunciam a autonomia regional?

A "Cabeça de Cachorro", como é identificada a região, é uma das áreas mais isoladas do Brasil. É cheia de histórias e controversas. É rica em gás natural, as guerrilhas colombianas estariam sempre tentando circular por ali, religiosos de diferentes denominações e geólogos estrangeiros circulam por ali. Já chegou-se a cogitar da ideia de um território autônomo e exclusivo. Aliás, até Che Guevara imaginou começar uma insurreição no continente por ali.

"Estamos só de passagem", dizem os invasores , quando interceptados no alto rio Negro atravessando a fronteira para o Brasil, vindo da Colômbia ou da Venezuela. A ordem dos militares é para a interceptação : "Aqui é o fim linha". A unidade militar do Comando de Fronteira , até há pouco tempo, era a única presença efetiva do Governo Federal na região: Funasa, Receita, Ibama, Polícia Federal, Ministério do Trabalho, estão instalados por lá, às vezes, em uma única sala, a maioria do tempo fechadas.


As titulares da Justiça no Brasil levaram para os índios uma tradução da Constituição em nhengatu, uma língua, falada sobretudo, tão vacilante quando a Constituição do Brasil. É como se insinuasse que os ensinamentos e regras sociais contidos na lei do branco fossem superiores às praticadas na região, apreendidas nas culturas incubadas nas matas e serras que cobrem aquelas fronteiras.

Por meio dessa ação - não sei se intempestiva, ou não - tenta-se dar um passo a mais na aculturação e na integração, à Nação Brasileira, daquelas populações indígenas quase isoladas. A gestão do município obedece à um modelo próprio. Os prefeitos de São Gabriel , Santa Izabel, Barcelos e povoados menores por ali são, quase sempre, indígenas.

Como uma das línguas oficiais em São Gabriel e Santa Izabel, o nhengatu não é uma língua exclusiva de uma Nação Indígena. É constituído de palavras de diferentes falas que se amalgamaram num idioma. Trata-se de uma língua geral, surgida ainda nos tempos do Império, a partir dos padres, e retomada por iniciativa do general Couto Magalhães, também etnólogo e historiador, que procurava encontrar um meio termo entre mais de 150 falas indígenas ao longo do rio Amazonas e seus afluentes.

Descobriu ele ainda que o tupinambá - uma variável do tupi - falado pelos índios entre Belém e o Maranhão, podia ser compreendido pelos índios do médio Amazonas e do no Alto Rio Negro.

Etnólogos brasileiros acreditam que com o nhengatu poderiam ser preservadas, parcialmente, as memórias de dezenas de línguas e culturas regionais. Há centenas de histórias já narradas em Nheengatu, língua que vem preservando a memória coletiva ancestral, incluindo mitos, preceitos e normas gerados, segundo os índios, por uma entidade sobrenatural conhecida por Jurupari , vista por religiosos brancos como o diabo.

No fundo, o Estado Brasileiro, insiste na bandeira de “uma só língua , um só país”. Na medida em que a colonização avança, as línguas e culturas nativas vão sendo enterradas, cometendo-se, no mínimo, um "glotocídio", justificado ainda hoje com a crença de que a diversidade atenta contra a unidade nacional. Só em 1988 a Constituição assumiu que não se trata de “tolerar” o plurilinguismo, mas de fomentá-lo, pois longe de ser algo negativo, arquiva a riqueza do patrimônio cultural do Brasil.

O lançamento da Lei Maior do Brasil em nhengatu contou com o aval explícito de uma comitiva integrada por três ministras, a presidente da Funai, o diretor da Biblioteca Nacional e de professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Não faltaram explicações de consistência duvidosa, até da Presidente do STF, ministra Rosa Weber, para quem , trata-se de “um passo em direção ao fortalecimento e à preservação de todas as demais línguas indígenas” - disse, em um discurso formal no evento.

As redes sociais são para Bolsonaro o que o cinema foi para Hitler

A reportagem de Juliana Dal Piva e da Agência Pública ("Eduardo Bolsonaro foi em missão oficial ver argentino que mentiu sobre urna"), publicada nesta segunda no portal UOL, veio em boa hora; boa hora para lembrar que o Brasil sofreu uma tentativa de golpe contra seu sistema eleitoral.

O lado bolsonarista partia de uma certeza: se perdessem, é porque as eleições foram roubadas. Faltava apenas encontrar uma história convincente. Descredibilizar as urnas era parte do plano. Era preciso ter alguma narrativa que justificasse o desrespeito ao resultado das eleições, e uma parte relevante da população que apoiasse essa narrativa. Qual mentira ia colar era o de menos; o importante era que alguma colasse.


Esse trabalho começou antes das eleições, com os relatos do próprio Bolsonaro de que um hacker adulterara os resultados do primeiro turno em 2018. Passou pela acusação de sua equipe de comunicação de que rádios interioranas não veiculavam as inserções de campanha.

Uma vez perdida a eleição de 2022, começaram as teorias de fraude nas urnas. Houve um modelo matemático que "provava" que os números de votos eram falsos, e houve também o ilustre "relatório do argentino", com o (suposto) especialista Fernando Cerimedo.

Era tudo invenção, claro, mais uma vez refutado pela Justiça Eleitoral e pela imprensa em questão de dias, o que não impediu de as mesmas teses serem requentadas pelo PL no malfadado processo que resultou numa multa de R$ 22 milhões ao partido.

Cerimedo, o argentino, não era especialista nenhum, e sim um comunicador político alinhado à direita populista e amigo de Eduardo Bolsonaro, que fez viagem oficial para conversar com ele, conforme revelado na reportagem.

Em paralelo a isso, corria a tentativa de persuadir generais a dar o golpe, apelando a uma leitura fajuta do artigo 142 da Constituição, conforme o coronel Jean Lawand pediu com tanta ênfase ao ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid.

Por não confiar no Alto Comando do Exército —ao menos essa foi a justificativa de Cid— Bolsonaro não deu a ordem para o golpe. O passo de desespero final, nas palavras de Lawand, era o povo entrar em campo: "Então ferrou. Vai ter que ser pelo povo mesmo". E "o povo" bem que tentou, no dia 8 de janeiro, provocar uma reação das Forças Armadas que, felizmente, não veio.

Mas aquele povo ali, milhares de pessoas completamente fanatizadas pelo discurso bolsonarista, não brotou do nada. Foi o resultado de um longo trabalho de redes sociais.

O uso de desinformação digital foi a tônica do bolsonarismo desde a campanha de 2018, que inundou o debate eleitoral de mentiras e fake news numa escala jamais vista. Uma vez no governo, as táticas se intensificaram. Milícias digitais que produziam e difundiam conteúdo calunioso contra opositores. "Troll farms", empresas que controlam milhares de perfis em redes sociais para manipular o debate público, criando uma impressão de onipresença da opinião artificialmente impulsionada. O receituário foi o mesmo no mundo todo. Mesmo tendo derrotado o golpe, pagamos o preço ainda com um eleitorado fanatizado e descrença generalizada em toda e qualquer instituição.

O cinema, nas mãos da máquina de propaganda de Hitler, teve um poder que ele hoje jamais poderia ter. Aquela linguagem já se tornou parte de nosso repertório. Haverá alguma regra geral de que os mais inescrupulosos são mais rápidos em dominar novas tecnologias? Estamos ainda aprendendo a digerir essa nova realidade. E mapear as condutas mais danosas para neutralizá-las é parte desse aprendizado

Ai dos pequeninos que possam fazer mal a Bolsonaro

Bolsonaro quer distância de todos os que sempre o apoiaram, mas que agora, por culpa dele ou não, estão em apuros. Não distingue entre pobres e ricos, pretos e brancos, homens e mulheres, civis e militares. Pouco lhe importa o que ouviu quando usava farda: não se abandona mortos e feridos no meio de uma batalha.

Para salvar sua pele, Bolsonaro abandona qualquer um e todos os que lhe pedem ajuda. Jesus disse uma vez: “Ai daquele que fizer mal a um de meus pequeninos”. Bolsonaro entendeu: “Ai dos pequeninos que um dia possam me fazer mal”. Sabe que é por meio dos pequeninos que a Justiça quer ferrar com ele.

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) foi alvo de uma operação de busca e apreensão no seu apartamento e no seu gabinete de trabalho. Aparentemente, a Polícia Federal não encontrou o que procurava, e desconfia de que Zambelli foi avisada antes. O hacker Walter Delgatti foi preso e está disposto a delatar.

Delgatti recebeu dinheiro de Zambelli para tentar acessar as urnas eletrônicas e as contas telefônicas do ministro Alexandre de Moraes. As urnas revelaram-se impenetráveis. As contas, nem tanto, mas nada ali de comprometedor foi encontrado pelo hacker. Zambelli levou-o ao encontro de Bolsonaro. Para quê?


Julho de 2022: Bolsonaro reúne mais de 40 embaixadores estrangeiros no Palácio do Planalto e ataca o processo eleitoral brasileiro. Acabaria inelegível por causa disso, mas não só.

Agosto: Zambelli e Delgatti são recebidos por Bolsonaro no Palácio do Alvorada. Bolsonaro pergunta ao hacker se, com o código-fonte, seria possível invadir uma urna eletrônica.

Setembro: na véspera do dia 7, milhares de bolsonaristas invadem a Esplanada dos Ministérios em Brasília e ameaçam atacar o prédio do Supremo Tribunal Federal.

Outubro: Bolsonaro perde a eleição, mas se recusa a reconhecer a vitória de Lula. Para de trabalhar. Entra em depressão. Assiste calado ao início da rebelião dos bolsonaristas.

Novembro: começam a ser montados os primeiros acampamentos à porta de quartéis do Exército. Bolsonaro dá ordem para que seus pequeninos sejam bem acolhidos, e são.

Dezembro: o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) e o senador Marcos do Val (Podemos-ES) reúnem-se com Bolsonaro. Em pauta: como grampear o ministro Alexandre de Moraes.

No dia 12, bolsonaristas depredam a sede da Polícia Federal. Na véspera de Natal, a Polícia Civil desativa uma bomba que, se detonada, destruiria parte do aeroporto de Brasília.

Janeiro de 2023: refugiado nos Estados Unidos, Bolsonaro assiste pela televisão ao golpe do 8 de Janeiro, que, se bem-sucedido, o traria de volta ao poder e mandaria Moraes para a cadeia.

No dia 14, Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, foi preso. Na sua casa, a Polícia Federal apreende uma minuta de golpe.

Março: Bolsonaro volta ao Brasil depois de um exílio autoimposto de 90 dias. Dali a dois meses, seu ajudante de ordem, o tenente-coronel Mauro Cid, seria preso com outra minuta de golpe.

Numa caixa de lenços de papel é assim: você puxa um e o seguinte aparece. Na história do golpe abortado, também é assim: cada lance prepara o próximo.

Na investigação de um crime, a pergunta inicial é: a quem ele poderia beneficiar? Aplicado ao golpe frustrado: quem poderia se beneficiar dele? Lula, certamente que não. Quem?

Ora, ora, você sabe.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Pensamento do Dia

 


O brasileiro sabe que nosso racismo é uma vergonha

Na semana passada a Folha de São Paulo publicou uma pesquisa sobre o racismo no Brasil, realizada pelo Instituto Peregum e pelo Projeto Seta, em parceria com o Ipec. O resumo: o país é racista para 81% dos brasileiros, mas apenas 11% afirmaram ter discriminado. Admite-se o preconceito racial coletivo, mas jamais o próprio. Racista é sempre o outro.

Mais alguns resultados: 66% já presenciaram violência verbal, 42% tratamento desigual (42%), 39% violência física; 17% dos entrevistados disseram ter sido alvo de situações desse tipo. 65% acreditam ser justo o racismo ser crime.

O que não surpreende é comparar esses dados com uma pesquisa do Datafolha de junho de 1995. 89% dos brasileiros afirmaram existir preconceito de cor contra negros no Brasil, mas só 10% admitiram ter pouco ou muito preconceito. O grande achado deste trabalho foi oferecer aos entrevistados algumas frases e perguntas. De forma indireta, 87% revelaram algum preconceito.


Hoje elas são defenestradas pelo espaço público, mas ainda residem em nosso imaginário e práticas. Alguns exemplos: “as únicas coisas que os negros sabem fazer bem são música e esportes”; “se um filho ou uma filha sua se casasse com uma pessoa negra, você não se importaria; ficaria contrariado, mas procuraria aceitar; ou não aceitaria o casamento?”, “na sua opinião, existem diferenças de inteligência entre brancos e negros?”

Evidentemente, muito mudou nesses últimos vinte e oito anos, graças aos esforços dos movimentos sociais, que derrubaram muitas portas trancadas e ocuparam espaços proibidos. Ainda que o resultado da pesquisa seja desanimador, o racismo é amplamente discutido na sociedade. O termo “racismo estrutural” é quase pop. Se a discussão cresceu, as desigualdades, porém, não se movem. Os espaços ocupados são escassos.

Outra grande diferença é o crescimento dos estudos sobre a branquitude, sua normatização e as estratégias para a manutenção de seus privilégios. Eco de precursoras como Cida Bento e seu trabalho sobre o pacto da narcísico da branquitude, publicado no início do século 20.

Há um medo de falar sobre racismo. Há um medo de falar sobre branquitude. É cutucar as entranhas de nossa identidade nacional cruel e escravocrata. É questionar as estruturas política e econômica através da história. É perceber que o Brasil é um espelho partido em que poucos querem encarar os afiados pedaços.

Letramento racial deveria estar na cesta básica, fazer parte do plano de saúde, ser pergunta na entrevista de emprego. Como ampliar essa discussão em um país que tem como política pública a formação de analfabetos funcionais. A luta antirracista continua, intrépida. Quem sabe teremos melhores notícias na próxima pesquisa.

Tarcísio, um governador extremamente satisfeito com 14 mortes

Você ficaria “extremamente satisfeito” se seu filho se formasse como primeiro da turma. E não consideraria “um excesso” se para isso ele atravessasse noites insones, a estudar. Era assim no meu tempo para quem pretendia ser aprovado no vestibular.

Dei sorte, estudei pouco, mas tirei nota máxima no quesito redação da prova de português, 10 na prova de história do Brasil, onde o forte eram perguntas sobre a invasão do país pelos holandeses, e eu havia pouco antes feito uma reportagem sobre o assunto.

Não lembro quanto tirei nas provas de história geral, geografia e francês. Mas lembro que a primeira foi sobre a 2ª Guerra Mundial (leio tudo a respeito até hoje). Fui um bom aluno de geografia e francês. Para minha surpresa, passei em segundo lugar.

O capitão e atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) formou-se em engenharia civil pelo Instituto Militar de Engenharia, tendo obtido a maior média histórica no curso da instituição. Isso deve tê-lo deixado “extremamente satisfeito”.


É de supor, porém, que não se destacou na área de ciências humanas. Do contrário, jamais diria ter ficado “extremamente satisfeito” com as 14 mortes provocadas pela Polícia Militar de São Paulo ao invadir por vingança uma favela no Guarujá.

Jamais diria também que o número de mortes não configura um “excesso”, e que as mortes foram “danos colaterais”, de vez que era preciso combater os traficantes de drogas. Em que lugar do mundo matar traficantes acabou com o comércio ilegal de drogas?

Traficantes não costumam enfrentar a polícia – tentam fugir para voltar quando ela vai embora. Se não voltam, se estabelecem em outras áreas. O Rio de Janeiro, onde Tarcísio nasceu, tem áreas permanentemente ocupadas por facções criminosas.

São Paulo, não. Guarujá fica pertinho de Santos, uma das cidades mais seguras e tranquilas do país. Em Santos, fica o maior porto do Brasil. É isso o que importa aos traficantes: eles querem paz para contrabandear drogas nos navios que saem de Santos.

Eleito governador do Rio em 2018 prometendo combater a corrupção e o tráfico de drogas, o ex-juiz Wilson Witzel (PSC) autorizou o abate de bandidos que usavam fuzis:

“A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo… Para não ter erro”.

À época, o Rio registrava 16 assassinatos por dia. A política de Witzel adiantou? Coisa alguma. Acusado de corrupção, ele se tornou o primeiro governador a ser afastado definitivamente do cargo por processo de impeachment na história do Brasil.

Tarcísio é mais um líder político a apelar para o discurso mentiroso de que são inimigos da polícia os que condenam a matança de inocentes geralmente pobres, negros e moradores de favelas. Quem mais consome drogas é quem pode pagar por elas.

Tarcísio paga o preço de nunca ter morado em São Paulo e de nunca ter disputado eleição nem para síndico de prédio. Elegeu-se governador graças a Bolsonaro. Quer herdar os votos dele para se reeleger e, mais tarde, candidatar-se a presidente.

Se necessário, um dia ainda poderá dizer que bandido bom é bandido morto.

Guarujá é o novo Jacarezinho

Ainda não se sabe quantas pessoas morreram no final de semana passado no Guarujá, durante a Operação Escudo. Depois do assassinato de Patrick Bastos Reis, soldado da Rota, na quinta-feira, centenas de policiais passaram os dias seguintes na cidade em busca dos responsáveis.

Mas, já na segunda-feira, havia uma pessoa bem satisfeita com os resultados da intervenção policial: "Eu estou extremamente satisfeito com a ação da polícia", disse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, numa coletiva de imprensa em 31 de julho.

Naquela entrevista, Tarcísio falou de oito óbitos durante a operação, que o governador chamou de "profissional". Nas suas palavras, "nós temos uma polícia treinada e que segue à risca a regra de engajamento".


A defesa das ações policiais pelo governador soava absurdamente prematura, tendo em vista que a Ouvidoria da própria polícia tenha ouvido vários relatos de abusos dos policiais, de torturas e de execuções. O Ministério Público já está investigando os casos.

Como o governador podia, portanto, ter tanta segurança de afirmar o profissionalismo da sua tropa? Como podia ter certeza de que não havia "excessos", sem conhecer os resultados das investigações?

Na terça-feira, Tarcísio já falava em 14 mortes, enquanto o número de até 19 mortos circulava na imprensa. Parecia que Tarcísio teve que recuar frente às alegações, pelo menos um pouco. "Se houver excessos, vamos punir os responsáveis", prometeu o governador. Mas logo acrescentou que até agora não tinha chegado a ele nenhuma informação de que houve excessos. Mas, sim, efeitos colaterais: "Não existe combate ao crime sem efeito colateral".

Tarcisio já soa como Cláudio Castro, o governador do Rio de Janeiro, que chamou as 27 pessoas mortas pela polícia em maio de 2021, no Jacarezinho, de "vagabundos". Como no Guarujá, a polícia entrou na comunidade, naquele dia em 2021, depois de um policial ter sido morto por bandidos. E, aparentemente, com sede de vingança.

É da natureza humana um sentimento de vingança pela morte de um companheiro. Mas o estado e seus representantes não podem se deixar levar por tais sentimentos. Eles precisam agir de forma cautelosa e respeitar o direito de cada cidadão de ser considerado inocente até provar o contrário.

Sabemos que os policiais enfrentam, muitas vezes, bandidos altamente armados, e que os policiais têm todo o direito de se defender. Mas não são justiceiros, e sim profissionais, agentes do estado. Precisam ser um exemplo de civilidade em meio ao caos que reina infelizmente em muitos cantos deste país.

É ainda mais problemático que tanto Tarcísio como Castro aparentemente festejam as mortes dos "suspeitos". Igual ao ex-governador Wilson Witzel, que em 2019 celebrava a morte de um sequestrador com pulos no ar. Parecem torcedores da morte, esses homens que se apresentam como "quadros técnicos" e tanto falam em Deus.

O caminho do combate ao crime organizado não pode ser de se igualar ou até superar a brutalidade dos próprios bandidos. Mas de agir com uso de procedimentos de inteligência. No caso de São Paulo, com o uso das câmeras portáteis nos uniformes dos policiais, houve uma redução das mortes causadas pela polícia entre 2019 e 2022, de 697 mortes para 260.

Até que Tarcísio de Freitas veio do Rio para São Paulo com um discurso de tirar as câmeras novamente. Desde que ele assumiu o governo paulista, em janeiro, o número de pessoas mortas pela polícia aumentou, de 123 pessoas no primeiro semestre de 2022 para 155 no primeiro semestre deste ano.

Vamos torcer para que o carioca Tarcísio, que costumava andar na garupa de Bolsonaro, não traga maiores índices de letalidade policial para São Paulo. No Rio, a polícia matou, no ano passado, 1.327 pessoas. Em comparação, a letalidade policial no Rio tem sido 20 vezes maior que em São Paulo.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Pensamento do Dia

 


A inteligência artificial vai te fazer tirar uma nota 10. Mas não é isso que importa

Com pouco destaque em um relatório de 200 páginas sobre tecnologia, a Unesco evidenciou na semana passada o que pode ser um impacto amedrontador da inteligência artificial (IA) na educação. Por dar respostas rápidas em um tempo em que rapidez é entendida como sinônimo de eficiência, ferramentas como Chat GPT podem retirar do estudante um dos grandes propósitos pelo qual vamos à escola ou à universidade: aprender a pensar.

Pode parecer catastrófico demais para algo ainda sem muitas evidências, mas a Unesco dá o tom: “essas ferramentas poderiam exercer um impacto negativo na motivação do estudante de conduzir pesquisas independentes e achar soluções”.


E não é só porque as soluções do Chat GPT podem ser piores, ter vieses e informação de fontes não confiáveis, é porque o importante é o processo. A IA em breve vai dar respostas perfeitas. Mas na educação o que vale não é nota 10. É, sim, a construção do conhecimento.

Isso acontece durante as etapas de aprendizagem, como, por exemplo, antes de escrever um trabalho escolar. O cérebro coleta informações, relaciona umas com as outras, analisa, tira conclusões. E depois, ao tentar expressar suas próprias ideias em um texto, vem um outro exercício cerebral, com organização do pensamento, priorização, experimentação, memória.

Todos esses processos fazem o estudante não só aprender o que está sendo proposto na escola, mas também a lidar com outras tarefas do dia a dia, a se relacionar com as pessoas, planejar, tomar decisões. Pesquisas já mostraram até que a leitura de um romance ajuda o cérebro a desenvolver empatia.

Mas tudo isso passa batido quando o Chat GPT faz o trabalho de um universitário, como relataram alunos ao The New York Times. Um deles mostrou à ferramenta um parágrafo escrito por ele mesmo e pediu que o robô fizesse um outro texto, sobre outro assunto, com o seu estilo. Deu certo e ele recebeu nota máxima.

A IA também pode, claro, identificar melhor as dificuldades de cada estudante e tornar o ensino mais personalizado. Ou fornecer em segundos informações que levariam muito tempo para serem encontradas, corrigir provas para os professores e liberá-los para trabalhos mais interessantes.

Difícil para Unesco ou qualquer um hoje prever os limites da inteligência artificial. Mas o relatório faz questão de frisar o que parece óbvio: os alunos precisar aprender com e sem tecnologia na escola. E nós, que não somos robôs, temos de ter um olhar atento para que a IA não arruine o processo mais brilhante da mente humana: a aprendizagem.

De onde vêm as maiorias

Está se tornando consensual o entendimento de que o nosso sistema político não está funcionando para servir aos brasileiros. Há muitos que julgam, e eu com eles, que a política é a principal responsável pelo nosso baixo crescimento e pela pobreza da maioria da população. A partir daí surge a grande questão: a quem culpar por estes descaminhos?

Há quem prefira pôr a culpa na baixa qualidade dos políticos atuais. Se fosse este realmente o problema não haveria nada a fazer. Os políticos em atividade foram eleitos conforme as leis do país e, de um modo ou de outro, são uma imagem da própria sociedade, na sua diversidade e nas suas carências. Os homens que temos na esfera pública são esses que estão aí. Este é um fato da vida. O caminho construtivo, e que está ao nosso alcance, é construir instituições nas quais a conduta desses homens seja diferente do modo como eles hoje se comportam.


Precisamos encarar uma reforma política, mas para isso precisamos ter foco na questão mais crítica, que é o sistema eleitoral. O sistema chamado de proporcional com lista aberta, que é o que adotamos para a escolha dos deputados, não existe mais em nenhuma democracia civilizada e é o responsável pelos nossos problemas de governança e de falta de representação.

Na quase totalidade dos países a eleição para o Parlamento se dá por meio de dois sistemas: distrital ou proporcional com lista fechada. No distrital o país é dividido em tantos distritos quantas são as cadeiras em disputa e em cada distrito trava-se uma eleição majoritária, na qual o vencedor é o candidato mais votado. Nestas eleições distritais o eleitorado é limitado, os candidatos são conhecidos dos eleitores e o número total de candidatos é naturalmente pequeno. O vínculo entre o eleito e o eleitorado é muito forte e permanece vivo durante todo o exercício do mandato, ao contrário do nosso sistema brasileiro, no qual, passados poucos meses a maioria dos eleitores sequer se lembra em quem votou.

O outro sistema, que vigora na Espanha, por exemplo, é o proporcional com lista fechada. Cada partido propõe ao eleitorado uma lista preordenada com o número de cadeiras em disputa. Apurados os votos partidários e definido o número de cadeiras obtidas pelo Partido serão considerados eleitos os deputados, pela ordem com que estão relacionados na lista. O voto é no Partido, sua plataforma, seus valores. O resultado eleitoral tem uma consequência transparente e induvidosa. Nestes dois sistemas as eleições descobrem a maioria política e a conduta desta maioria é forçosamente coerente e fiel à vontade dos eleitores.

No Brasil tudo é diferente. O deputado disputa o voto em todo o Estado. Em São Paulo, por exemplo, os deputados são eleitos por trinta e cinco milhões de eleitores. Eleitores e candidatos não têm como se conhecer e não se estabelece entre eles vínculo de qualquer natureza. Se o voto fosse distrital, o eleitorado seria limitado a quinhentos mil, o tamanho de uma cidade média. As cadeiras são atribuídas aos Partidos, mas o voto é dado no candidato, sendo eleitos os mais votados da lista. O sistema todo é voltado para o candidato e não para o Partido. Assim o sistema não cria vínculo do eleitor com o eleito, nem desse com o Partido.

O sistema favorece a extrema fragmentação partidária e elege deputados inteiramente autônomos, livres para mudar de lado, sem qualquer consideração com a vontade de quem o elegeu. Como o governo do país depende tanto do Presidente quanto do Parlamento é preciso formar uma maioria de qualquer jeito. O caminho que existe é negociar o interesse individual dos deputados e tentar governar com estas maiorias sem alma e sem responsabilidade, renunciando a qualquer ação transformadora que mude o país. Não é o povo que escolhe a maioria.

Este é o destino de todos os nossos governos, qualquer que seja sua inclinação política e qualquer que seja o apoio que tenha da população. A mudança do sistema eleitoral é a única porta que nos resta para mudar o país. Precisamos nos acostumar com esta ideia.

Uma crítica ao comentário oficial

Numa aldeia, alguns camponeses que se haviam reunidos para ler os Evangelhos foram dispersados pelos guardas. No domingo seguinte voltaram a se reunir. Então o chefe dos soldados levantou-lhes um processo e levou-os a julgamento. Após um inquérito feito pelo juiz de instrução, o substituto redigiu uma ata de acusação, que o tribunal confirmou. Durante o requisitório foram apresentadas as provas do delito; eram os Evangelhos. Os camponeses foram deportados.

- É horrível! – Concluiu Nekliudov. – Será possível que isto é verdade?

- O que é que nisso o surpreende tanto?

- Tudo. Não falemos já no chefe dos soldados, mero executor e ordens, mas o substituto que redigiu a ata é um homem instruído...

- Aí é que está o erro. Estamos acostumados a creditar que os magistrados são homens modernos, de ideias liberais. Foi assim noutros tempos, mas agora é tudo diferente. São funcionários e apenas estão preocupados em que chegue o dia vinte de cada mês para receberem os seus vencimentos, que gostariam de ver continuamente aumentados. A isto se limitam os seus princípios. Julgam, acusam e condenam quem quer que seja.

- Mas existe alguma lei que permita deportar homens só porque se reúnem para ler os Evangelhos?

- Não só a lei permite deportá-los, mas até condená-los a trabalhos forçados quando se prove que se atreveram a comentar os Evangelhos de maneira diferente daquela que está estabelecida, pois isso constitui uma crítica ao comentário oficial. Ora, o artigo cento e noventa e seis pune com desterro o ultraje à fé ortodoxa.

- Isso não é possível!

- Afirmo-lho. Digo a todo momento aos senhores magistrados – continuou o advogado – que não posso vê-los sem sentir um profundo sentimento de gratidão para com eles, pois, se eu não estou na prisão, nem o senhor, nem toda a gente, é à sua benevolência que o devemos. Quanto a privar qualquer pessoa dos seus direitos civis e a deportá-la para um lugar mais ou menos longínquo, não há nada mais fácil.

- Sendo assim, se tudo depende da disposição do procurador ou das pessoas suscetíveis de aplicar ou não a lei, para que servem os tribunais?

O advogado soltou uma gargalhada.
Leon Tolstoi, "Ressurreição"

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Pensamento do Dia

 


Xingu, 50 anos à frente

Escrevo no Xingu, algo que, de certa forma, me parece o coração do Brasil. Um coração com algumas pontes de safena, sangue escasso e contaminado de um belo rio que corre pelas suas artérias. Como o grande coração do cacique Raoni, regido por um marca-passo.

A chamado do próprio Raoni, muitas etnias se reuniram aqui para discutir os problemas dos povos originários. Não são poucos.

Grande pesquisador da Amazônia, Paulo Moutinho me disse algo que não esquecerei: o futuro já chegou ao Xingu, a região está 50 anos adiante quanto aos efeitos do aquecimento global.

De fato, há rios secando, rios que se tornam intermitentes, e o belo Xingu também sofre com hidrelétricas, poluição do garimpo e da extensa plantação de soja.


Estamos entrando num dos mais severos El Niños da História. Temo pela Amazônia. Ouvi a história de um velho cacique para quem o barulho de folhas secas pisadas são uma novidade. Na infância ele nunca o ouviu; daí o medo de grandes queimadas.

Quando fui deputado, procuramos estudar o El Niño e indicar algumas medidas para atenuar seu impacto. Passou muito tempo, e parece que agora o El Niño vem que vem bravo.

Os jovens indígenas são combativos e manejam a internet. Raoni chamou um grande encontro no Xingu também para passar o bastão. Ele anda pelos 94 anos, e outros líderes também envelheceram. Os jovens e as mulheres parecem estar prontos para conduzir o processo. Aliás, as mulheres já estão no Ministério dos Povos Indígenas, na presidência da Funai e no Parlamento.

Sei que falar de indígenas nem sempre é fácil. No passado, os editores não gostavam, e os políticos associavam usar cocar a ter anos de azar.

Mas há algo que as pessoas precisam saber. No Xingu, por exemplo, 16 etnias evitam que os efeitos climáticos devastem mais a região com consequências para toda a humanidade.

Seria interessante pensar também como as pessoas que menos devastaram o planeta são as que mais sofrem, sobretudo vendo desaparecer a água, seu recurso vital. As mudanças climáticas são injustas, mas aqui no Xingu sentimos o peso dessa conclusão.

Algumas figuras, sobretudo a corrente política que esteve no poder, acham que os indígenas deveriam se integrar à sociedade.

Às vezes, os males que marcam seu corpo nascem do encontro conosco. Em alguns lugares, a cachaça destrói o fígado; em outros, os refrigerantes e biscoitos impulsionam a obesidade, diabetes e a pressão alta.

Lembro-me do romance do querido Antônio Callado em que o personagem Nando se preparava para uma romântica viagem revolucionária e se perguntava o que se leva na mala para o Xingu. Aconselharia uma dose de realismo, algum repelente e se preparar para o calor, que já é muito intenso no inverno. O curso da vida foi duro com o coração do Brasil.

Ainda bem que existem as imagens para mostrar como é bom passar por aqui. Elas mostram a beleza que ainda existe. Para mim, essas viagens são um encontro com o passado. Há 34 anos, participei do Encontro de Altamira, um protesto contra a construção da usina de Belo Monte. Raoni estava lá, documentei seu encontro com Sting, conheci Anita Roddick, dona da The Body Shop. Os sobreviventes de muitas lutas estão por aqui. Roberto Smeraldi, a quem conheci no enterro de Chico Mendes, e quase fomos espancados por fazendeiros no aeroporto de Rio Branco. O grande amigo dos indígenas Sydney Possuelo, a quem consulto regularmente. Acabo de falar com uma japonesa que ajuda os caiapós há 30 anos e mora em Tóquio. Talvez esse encontro seja para nós também apenas a renovação da esperança numa luta que, certamente, transcende os limites de nossa vida.

Não se pode falar em grandes vitórias. Apenas isto: o coração ainda bate.

O mau só enriquece


Pode confiar-se nas pessoas más: nunca mudarão
William Faulkner

Experimentos

Na terça-feira, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou a criação de um Monumento Nacional em memória do menino negro Emmett Till e de sua mãe, Mamie Till-Mobley. Na verdade, serão três os monumentos que evocarão o assassinato de Emmett, com requintes de selvageria, por supremacistas brancos nos idos de 1955. O primeiro será erguido na igreja de Chicago onde o garoto fora velado; o segundo, na ravina do Rio Tallahatchie, no Mississippi, onde encontraram seu corpo brutalizado; e um terceiro, certamente o mais significativo, na entrada do tribunal onde os matadores confessos, dois irmãos graúdos, foram rapidamente absolvidos por um júri branco.

À época, a mãe-coragem de Emmett obrigara o país a encarar o que restara do filho: uma massa disforme e desumanizada exposta em caixão aberto, sem retoques. Como já relatado neste espaço, a atrocidade serviu de catalisador para o Movimento pelos Direitos Civis que galvanizaria o país na década seguinte.


Passaram-se quase 70 anos. Desde então, 12 presidentes ocuparam a Casa Branca. Ainda assim, Biden achou necessário explicar ao país o motivo de um memorial nacional para os dois corpos negros.

— Vivemos tempos em que se tenta banir livros, enterrar a História — disse o presidente. — Por isso queremos deixar bem claro e cristalino: embora a treva e o negacionismo possam esconder muita coisa, não conseguem apagar nada. Não devemos aprender somente aquilo que queremos saber. Devemos poder aprender o que é preciso saber.

Reparações históricas e desculpas oficiais costumam vir na rabeira da própria História. E com frequência nada reparam. Ainda assim, acabam compondo um retrato das feridas de cada nação. No caso atual, a iniciativa de Biden não deve ser descartada como mero artifício eleitoreiro visando ao pleito de 2024. Há também uma real preocupação com um surto de apagamento histórico em curso na América profunda e retrógrada. Quando governadores extremados como Ron DeSantis, da Flórida, ou Greg Abbott, do Texas, ordenam escolas e bibliotecas públicas a varrer das estantes clássicos da literatura negra e LGBTQIA+, um monumento nacional à coragem de Mamie Till chega em boa hora.

Para a população negra dos Estados Unidos, existe uma ferida coletiva que nenhuma reparação ainda conseguiu cicatrizar. Ela tem nome extenso: Estudo Tuskegee de Sífilis Não Tratada no Homem Negro. Trata-se do mais longo experimento não terapêutico em seres humanos da História da medicina. Ele durou de 1932 até 1972 e teve como propósito estudar os efeitos da sífilis em corpos negros. Por meio de concorridos convites divulgados em igrejas e plantações de algodão, o Instituto de Saúde Pública da época selecionou 600 homens, todos filhos ou netos de escravizados. A grande maioria nunca tinha se consultado com médico. No grupo, 399 estavam contaminados pela doença, e 201 eram sadios. Aos contaminados foi informado apenas serem portadores de “sangue ruim”. Como o estudo visava à observação da doença até o “ponto final” — a autópsia —, os doentes foram ficando cegos, dementes e morreram sem conhecer a penicilina, que a partir dos anos 1940 se tornou o tratamento de referência para sifilíticos. A família dos que morriam recebia US$ 50 para cobrir o enterro. A pesquisa só foi interrompida em 1972, quando o jornalismo da Associated Press revelou a história, levando o governo americano a pagar US$ 10 milhões em acordo coletivo com os sobreviventes.

Oito deles, já quase nonagenários, estavam no Salão Leste da Casa Branca em maio de 1997 quando o então presidente Bill Clinton pediu desculpas públicas pelo horror cometido. Em discurso marcante, falou em nome do povo americano:

— O que foi feito não pode ser desfeito. Mas podemos acabar com o silêncio, parar de desviar do assunto. Podemos olhá-los de frente para finalmente dizer que o que o governo dos Estados Unidos fez foi uma ignomínia, e eu peço desculpas.

Ainda assim, passado menos de um ano, nova barbárie experimental veio à luz, desta vez com cem meninos negros e hispânicos de Nova York arrebanhados por três instituições de renome científico. Todos eram irmãos caçulas de delinquentes juvenis e tinham idade entre 6 e 11 anos. O estudo pretendia demonstrar a correlação entre determinados marcadores biológicos e o comportamento violento em humanos. Para isso, aplicaram nas crianças injeções intravenosas de fenfluramina, substância posteriormente associada a danos à válvula mitral. Às mães que os levavam ao local do experimento foi oferecida uma recompensada de US$ 125 .

Tudo isso e muito mais faz parte do pesado histórico de abuso de corpos negros, até mesmo em nome da ciência. Não espanta, portanto, a rejeição quase atávica à obrigatoriedade de vacinação contra a Covid-19 manifestada pela população negra em tempos recentes. A retirada de circulação ou dificuldade de acesso a livros que narram essas vivências deveriam ser impensáveis em 2023. É sinal de uma sociedade adoecida pelo medo de livros.

A aposta sobre a consciência que a Ciência perdeu

Dois homens fizeram, há 25 anos, uma aposta que poderia muito bem ter sido aquele "aposto que...", falado em conversas casuais, sem repercussões.

Mas estamos falando de duas figuras de renome em suas áreas: o filósofo australiano David Chalmers e o neurocientista teuto-americano Christof Koch.

O desafio foi sobre um dos assuntos intrigantes da existência: a consciência.

Koch e Chalmers concordaram em estabelecer uma série de estudos com pesquisadores colaboradores para testar ideias sobre como o cérebro gera consciência.

Parece muito complicado, mas Koch explicou o conceito de forma poética em uma entrevista à revista científica sueca Forskning & Framsteg: "São as pegadas da consciência deixadas no órgão da consciência, que é o cérebro".

O que eles querem descobrir, acrescentou, é "quais partes do cérebro são necessárias para realizar uma experiência consciente", o que ajudaria a finalmente entender como a consciência é alcançada.


Duas décadas e meia depois, o filósofo e o cientista se encontraram na 26ª reunião anual da Associação de Estudos Científicos da Consciência, realizada recentemente na Universidade de Nova York (EUA).

E foi então que se declarou o vencedor indiscutível da aposta.

David Chalmers e Christof Koch falaram com James Copnall, do programa Newsday do serviço mundial da BBC. O apresentador começou perguntando à dupla como tudo começou. Confira as perguntas e respostas:

Chalmers - Foi em 1998, em uma conferência em Bremen, na Alemanha, sobre os correlatos neurais da consciência, a ideia de que certas áreas do cérebro podem estar diretamente associadas à consciência.

Christof (Koch) ficou muito entusiasmado com essa ideia e apostou que em 25 anos teríamos identificado as áreas do cérebro que estão ligadas à consciência. Eu pensei que era um pouco otimista, então apostei que não.

Christof, o que você estava pensando? Por que você estava tão otimista?

Koch - Porque junto com Francis Crick, o biólogo molecular britânico que descobriu a estrutura helicoidal da molécula hereditária de DNA, havíamos pensado em um programa empírico em 1990 que, para nos afastarmos dos debates filosóficos sobre a consciência e a natureza da realidade e da mente e da alma, tudo isso, focaríamos nas marcas que a consciência deixa no cérebro.

Sabemos que o cérebro é o órgão da consciência, não o coração.

Sabemos que não envolve o cérebro inteiro, apenas partes dele: você pode perder partes do cerebelo ou da medula espinhal, por exemplo, mas ainda estar consciente.

Com argumentos como esse, pensamos em um programa empírico para fazer progresso empírico: um programa que fosse independente, no qual não importa de qual convicção filosófica particular você fosse. Idealista [conceito em que só vidas biológicas têm consciência] ou pampsiquista [todos os objetos, até os inanimados, têm alguma forma de consciência], você poderia avançar esta questão empírica.

Então a ideia era que, se podemos classificar o DNA, descobrir o que nossos genes significam, então por que não descobrir a consciência?

Koch - Precisamente.

Você aceitou que perdeu a aposta, mas o quão perto você acha que chegou de ganhar?

Koch - Bem, aprendemos muito nos últimos 25 anos.

Aprendemos mais sobre o cérebro na última década do que em toda a história da humanidade. Sabemos melhor como manipulá-lo, seja experimentalmente em laboratório ou tomando substâncias psicodélicas ou outras.

Assim, estamos começando a rastrear onde a consciência vive, por assim dizer, nas densas selvas do cérebro.

Mas não chegamos a um consenso entre a comunidade de neurocientistas, clínicos e psicólogos que estudam esse assunto.

David, como filósofo, você acha que é possível que a consciência seja simplesmente incognoscível?

Chalmers - Bem, há um gigantesco mistério filosófico aqui: é o problema filosófico mente-corpo.

Como os processos físicos no corpo e no cérebro lhe dão uma mente.

Como a consciência existe em primeiro lugar.

Isso é o que chamamos de problema difícil da consciência, e é um mistério filosófico e científico muito profundo.

Acho importante ressaltar que essa aposta não era sobre por que a consciência existe. Tratava-se deliberadamente de uma questão científica mais administrável: quais áreas do cérebro estão mais intimamente associadas à consciência.

E acho que, em princípio, essa é uma questão para a qual deveríamos estar em posição de descobrir a resposta a qualquer momento.

Koch - Discordo, James, de sua pergunta sobre se a consciência será para sempre incognoscível [inacessível à inteligência humana].

Não! Temos um conhecimento muito íntimo da consciência porque é o nosso mundo, o que você vê, as vozes que você ouve agora são uma experiência consciente.

Portanto, estamos intimamente familiarizados com isso. Na verdade, estamos mais familiarizados com a consciência do que com qualquer outra coisa.

O que pode permanecer incognoscível é, como diz David, por que estamos conscientes, como surge a consciência de um órgão como o cérebro?

No entanto, no centro de nossa existência neste mundo está a consciência.

David, depois de todos esses anos, Christof te pagou o vinho... Valeu a pena esperar?

Chalmers - Sim. A aposta era que quem ganhasse receberia uma caixa de bom vinho e no final Christof cedeu e me deu 6 garrafas de vinho.

Acabamos por beber um excelente Madeira 1978.

Além disso, decidimos fazer outra aposta por mais 25 anos. Então nos encontraremos novamente em 2048 para ver se descobrimos os correlatos neurais da consciência até então.

Christof, sua confiança sobre esse caminho não foi afetada, então você terá uma nova chance.

Koch - Sim, a tecnologia está melhorando, especialmente com empresas como a Neuralink de Elon Musk e outras tecnologias relacionadas, estamos melhorando em intervir diretamente no cérebro.

Na verdade, agradeci o fato de ter perdido a batalha, obviamente, mas acho que todos nós ganhamos a guerra pela Ciência: todos nós aprendemos muito sobre a base neurológica da consciência, e isso é progresso.

É assim que a Ciência funciona.

Vinte e cinco anos atrás, vocês eram jovens pioneiros brilhantes em seu campo. O que os jovens nesse patamar ​​estão pensando hoje? A consciência da inteligência artificial em 25 anos, talvez?

Chalmers - Podemos fazer uma IA (inteligência artificial) consciente? Esse é um desafio muito grande para os próximos anos.

É também uma questão filosófica: devemos construir uma IA consciente? Seria conveniente ou poderia ter consequências ruins para nós ou para a IA?

De qualquer forma, acho que a IA é o maior desafio de nossos tempos.

Koch - As máquinas podem ser conscientes? Não sabemos. É uma questão em aberto.

sábado, 29 de julho de 2023

Pensamento do Dia

Ruke Souza

 

Democracia? Tanto faz

Com o sombrio título "A recessão democrática na América Latina", o Latinobarómetro acaba de publicar seu informe de 2023. A cada ano, desde 1995, o instituto chileno, dirigido pela economista Marta Lagos, toma o pulso político da opinião pública em 18 países da região. A ideia é aferir as atitudes em relação à democracia, suas instituições e aos governos que dão ou deixam de dar vida a seus princípios e regras.

Trata-se de um acervo precioso que proporciona uma visão comparada de como evoluíram as percepções dos cidadãos de cada país nas três décadas do grande experimento democrático fora dos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental.

A pesquisa confirma esperadas variações por países. Mas, na média, aponta declínio do apreço pela democracia, em quaisquer circunstâncias; insatisfação com seu funcionamento no país do entrevistado; aumento da indiferença pela forma do regime. Também mostra a percepção de que os partidos funcionam mal, podendo ser dispensados sem grande prejuízo para o sistema.
Os resultados para o Brasil dão o que pensar. Depois de uma queda muito significativa do apoio à democracia, entre 2017 e 2020, a proporção daqueles que a consideram sempre melhor do que as alternativas voltou ao nível anterior. É relativamente baixo e estável —em torno dos 30%. Também ficou do mesmo tamanho a minoria dos cerca de 15% que acham que uma ditadura, em certas circunstâncias, pode ser uma boa solução. O maior contingente continua formado pelos brasileiros para os quais dá tudo no mesmo. E não chegam a 1/3 os satisfeitos com a maneira como sistema opera no país. Sete em cada 10 acreditam que os partidos políticos deixam a desejar.

Nada de novo na existência de um número expressivo de brasileiros relativamente indiferentes quanto ao tipo de regime político, descontentes com seu funcionamento e descrentes dos partidos: repete-se com pouca variação ao longo das três décadas em que o Latinobarómetro faz essa medição. Mudou para melhor no auge do otimismo com relação ao governo do PT, em 2010-2011, e despencou sob o governo Temer e o desastre que se lhe seguiu nas urnas de 2018. É notável que a disputa política renhida, a polarização ideológica e a agitação febril das redes dos tempos de Bolsonaro tenham mexido apenas circunstancialmente com aquelas atitudes básicas que parecem enraizadas nas mentes e corações dos brasileiros.

Como ontem, a democracia há de funcionar no país com poucos democratas convictos e muitos cidadãos indiferentes e desconfiados de suas instituições. Grande é, assim, a responsabilidade das lideranças.

Queimadas deixam ar nocivo para 20 milhões de brasileiros

Queimadas e incêndios florestais já tornam a qualidade do ar nociva aos moradores da região da Amazônia Legal e do Centro-Oeste em pelo menos metade dos dias do ano. Segundo estudo publicado nesta sexta-feira (28/07), esse tipo de poluição afeta cerca de 20 milhões de brasileiros – 10% da população do país e mais da metade dentre os que vivem nessas regiões analisadas.

O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), da Fundação Oswaldo Cruz do Piauí, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade de São Paulo (USP) a partir de dados obtidos do satélite do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo ao longo de uma década – de 2010 a 2019 – e publicado no periódico científico Cadernos de Saúde Pública.

Considerou-se como índice alto de poluente quando a medição indicou um nível superior a 15 microgramas de material particulado – os resíduos da queima, dispersos no ar – por metro cúbico. Assim, seguiu-se a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que indica que níveis acima disso já representam risco ao ser humano.

"Usamos a referência da OMS porque para a legislação brasileira definida pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente o limite é de 60 microgramas por metro cúbico. E [para isso] não há base científica", diz uma das autoras da pesquisa, a doutora em saúde pública Eliane Ignotti, professora na Unemat. "Lembramos que há vários estudos, inclusive no Brasil, em que são observados impactos à saúde com limites muito mais baixos."

"É interessante observar que em muitas localidades (...) estes níveis elevados de poluição atingem 100% dos dias no período de estiagem", acrescenta outra das autoras, a também doutora em saúde pública Beatriz Alves de Oliveira, pesquisadora na Fundação Oswaldo Cruz.

Se a pesquisa identificou que mais da metade da população das regiões está exposta a níveis acima do patamar considerável aceitável pela OMS em pelo menos metade do ano, ao analisar os pontos mais excessivos os números são ainda mais preocupantes.

"Estamos lidando com dados estimados, que alcançam frequentemente níveis acima de 200 microgramas por metro cúbico, até 800, 1.000", salienta Ignotti. Ela afirma que "estamos falando de níveis extremamente elevados quando comparados aos limites recomendados pela OMS".


Os autores do estudo alertam para os riscos à saúde pública. "O percentual de dias com má qualidade do ar é um indicador de exposição à poluição atmosférica que identifica as áreas potenciais de risco para a saúde humana a região", explica a professora.

Entre os problemas mencionados pelos pesquisadores estão "o aumento do número de óbitos e internação por doenças cardiopulmonares, o aumento de atendimentos ambulatoriais, o aumento de prevalência de asma, baixo peso ao nascer e até de câncer de pulmão".

Ou seja, além de piorar a qualidade de vida da população, isso significa também aumentar a demanda e criar sobrecarga no sistema de saúde. "Milhares de internações e de óbitos poderiam ser evitados se os níveis de poluição não fossem os verificados nessa região", diz ela.
Quarenta cigarros

A reportagem da DW consultou especialistas alheios ao estudo para tentar mensurar o impacto dessa poluição tanto nas populações quanto no ecossistema da região.

Chefe do Laboratório de Patologia Ambiental e Experimental do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, a bióloga e fisiopatologista Mariana Veras corrobora que os riscos são muito altos para a saúde humana quando pessoas são expostas a níveis altos de poluentes com frequência.

"Há efeitos leves, como uma irritação nos olhos, garganta, tosse, e também efeitos muito graves, como maior incidência de infarto, acidente vascular cerebral, bronquite, agravamento de asma e doenças que se desenvolvem com situações de longo prazo", comenta. "Hoje há estudos que mostram associações de poluição do ar e maior risco de Alzheimer, diabetes, obesidade e outras doenças crônicas."

Publicada em 2021, uma pesquisa coordenada pela Universidade Monash, da Austrália, com participação de cientistas da USP, apontou que incêndios florestais já são a causa de hospitalizações de 47 mil brasileiros por ano. Crianças e idosos estão entre os mais afetados.

Veras recorda de um estudo realizado anos atrás por seu laboratório buscando comparar os danos causados pela poluição de São Paulo, cujo ar tem uma média de 25 microgramas de partículas do tipo por metro cúbico, com os malefícios do cigarro. "Concluímos que duas horas no trânsito [da capital paulista] equivalem a fumar dois cigarros", conta. Ou seja: um cigarro por hora de exposição. "Mas quem mora perto de queimadas tem uma concentração [de partículas poluentes no ar] muito maior."

Fazendo uma analogia, nos casos extremos de localidades da Amazônia e do Centro-Oeste onde a poluição chega a 1.000 microgramas por metro cúbico, isso significaria fumar 40 cigarros a cada hora de exposição.

A especialista explica que as partículas de poluição decorrentes de queimadas e incêndios florestais têm um potencial de danos ao organismo que pode ser ainda pior do que a poluição das cidades, composta por outros materiais. "São características da composição, principalmente do que a gente chama de material particulado, formado pela parte incompleta da combustão da biomassa, da madeira, da floresta. São partículas muito pequenininhas, capazes de entrar em nosso pulmões, chegar nas regiões mais profundas. Apresentam mais risco para a saúde", diz.

Pesquisador do Instituto Ambiental de Estocolmo, o biólogo Mairon Bastos Lima também vê com preocupação o impacto que essa poluição decorrente do fogo nas florestas pode causar nos próprios ecossistemas da Amazônia Legal e do centro-oeste.

As consequências vão do desequilíbrio ambiental a prejuízos para a agricultura. "Mais estudos são necessários para compreender melhor esses impactos, mas é seguro dizer que tamanha quantidade de fumaça e poluição não é inócua", argumenta.

"Por exemplo, pode haver mortandade de certos insetos, com consequências ainda pouco compreendidas. Alguns insetos, como as abelhas, são chave para processos de polinização, além da produção de mel", diz. "Por outro lado, há famílias de insetos chamados de pirófilos por gostarem da fumaça e cujos números se elevam nessas situações. Esses insetos podem incluir tipos de gafanhotos, com consequências [danosas] para a agricultura."

Lima, que atualmente está em pesquisa de campo no Pará, contar ter ouvido de locais que o aumento das queimadas parece estar relacionado ao crescimento das populações de potó, um inseto que pode causar queimaduras severas na pele de humanos. "Mas ainda estamos no escuro em relação a isso, precisamos de mais estudos", salienta.

Onde já há certezas são em pesquisas que mostram, lembra Lima, que a recorrência de fumaça "reduz a resiliência da floresta, isto é, sua habilidade de se regenerar". "E já sabemos que o desmatamento e as queimadas afetam negativamente o regime de chuvas na Amazônia e no seu entorno, e que as chuvas são essenciais para a regeneração do bioma. É o ciclo vicioso que está nos levando para o chamado ponto de não-retorno na Amazônia, quando esse ecossistema já não gerará chuva suficiente para sua própria manutenção", acrescenta.

"Estamos brincando com fogo em todos os sentidos do termo, pois as consequências disso seriam catastróficas. É fundamental que deixemos de ser inconsequentes", alerta o biólogo.