segunda-feira, 10 de julho de 2023

Morte cívica

Tonitruante defensora de trabalhadores sem direitos nos Estados Unidos do início do século XX, foi Mary Harris Jones quem cunhou a frase “Meu endereço é como meu sapato — viaja comigo para onde há luta”. Viveu admirada como Mother Jones entre mineiros e sindicalistas da época e temida pelos donos das minas como “a mulher mais perigosa da América”. Na Nicarágua de 2023, Mary Jones não teria caminhos por onde gastar sola de sapato. Os endereços de luta lhe estariam vetados. Seria uma errante desterrada sem documentos nem cidadania, sem chão. A liberdade física equivaleria a uma morte cívica. Para alguns prisioneiros políticos do regime ditatorial de Daniel Ortega, como o bispo católico Rolando Álvarez, aceitar a extradição seria desalmar-se em vida.


Muitos não tiveram opção. Tome-se o exemplo de Félix Maradiaga, aliado de primeira hora da fase inicial do governo Ortega. Ocupou cargos políticos de peso, como o Departamento de Reintegração de Combatentes e a Secretaria Geral do Ministério da Defesa, até declarar sua intenção de concorrer à Presidência do país. Em 2021, tornou-se um dos presos políticos de Ortega. Durante 18 meses, permaneceu jogado em cela escura, sem acesso a material de leitura, telefonema, visita ou correspondência. No 611º dia, em plena madrugada de 9 de fevereiro de 2023, um agente penitenciário acordou todos da cela de Maradiaga ordenando que se vestissem. Dali foram encaminhados a vans de vidros vedados. Desconheciam seu destino até serem despejados na pista do aeroporto de Manágua. Apesar de algemados, tiveram de assinar uma declaração que continha uma só linha: “Eu (nome) deixo o país por vontade própria rumo aos Estados Unidos”. Um grupo de diplomatas do Departamento de Estado que acompanhou o embarque dos 222 prisioneiros expulsos por Ortega lhes disse:

— Agora vocês estão livres.

Livres? Em longo relato à National Public Radio (NPR) dos Estados Unidos, Maradiaga relembra a montanha-russa emocional:

— Entramos no voo fretado e continuamos em silêncio por alguns minutos. Depois começamos a cantar o Hino Nacional, a rezar, ouvimos um dos diplomatas americanos dizer que estávamos voando para Washington.

Somente ao desembarcar no aeroporto internacional Dulles, no Estado da Virgínia, ficaram sabendo que sua cidadania havia sido roubada. Ortega os condenara a ser apátridas, à morte cívica. Entre os acusados de “traição à pátria” estavam sete possíveis candidatos à sucessão de Ortega, advogados, jornalistas, ativistas, ex-aliados dissidentes. A identidade cívica de outros 94 adversários políticos do regime que já viviam no exterior também foi apagada. Em graus variados, os governos de México, Espanha, Colômbia, Estados Unidos e Equador lhes ofereceram proteção, nacionalidade ou cidadania plena. Maradiaga optou por continuar sendo apátrida:

— Sou nicaraguense e tenho o direito de continuar sendo nicaraguense.

Como se sabe, pelo mesmo decreto de expulsão, todos os bens, propriedades e ativos em empresas dos agora apátridas foram confiscados. Ainda no mês passado, até mesmo o casarão colonial da Fundação Luisa Mercado, que já fora interditado no ano anterior, foi vandalizado pela polícia de Ortega. Desde 2018, início dos protestos de massa contra o autoritarismo, mais de 3 mil ONGs e instituições culturais foram fechadas pelo regime. A Luisa Mercado não era uma qualquer. Fora presidida pelo escritor Sergio Ramírez Mercado, prêmios Cervantes, Carlos Fuentes e Alfaguara de Literatura, banido do país desde a publicação de seu romance “Tongolele no sabía bailar”, que conta a história de um agente de Segurança Interna de um Estado repressivo. Ramírez, que serviu o país como vice-presidente na fase inicial do governo sandinista (1985-1990), foi uma das primeiras vozes a apontar para a falência democrática do regime. Vive a dor do exílio na Espanha e sofreu amargor adicional recente quando a Suprema Corte nicaraguense anulou seu diploma de Direito. Pequenas vinganças de ditaduras rotas.

— A Nicarágua é quem eu sou, o que tenho e nunca deixarei de ser nem de ter. É minha memória e minhas lembranças, minha língua e meu escrever, minha luta e minha liberdade. Quanto mais tiram a Nicarágua de mim, mais Nicarágua tenho em mim — escreveu em postagem no Twitter.

Para o bispo Rolando Álvarez, que cumpre pena de 26 anos na prisão La Modelo e nesta semana teve o direito de recusar ser um expatriado a mais, seu endereço cívico é ali, na ditadura de Daniel Ortega. Seus sapatos conhecem o caminho da luta.

Não há teoria da relatividade democrática capaz de justificar tantas décadas de arbítrio. Melhor mudar de teoria, presidente Lula. E de prática.

Comida para pensar

Nas vezes em que fui a Londres, costumava comer num restaurante chamado Food for Thought. Infelizmente, fechou. Não sei se pela pandemia ou pelos preços de aluguel em Covent Garden.

Na época, creio que o tema dominante nas conversas sobre comida tratava de alimentos naturais, orgânicos, enfim, tudo isso que estava associado ao movimento ecológico. Tanta coisa mudou, e lembrei-me do nome do restaurante ao constatar a presença maciça de postagens sobre alimentos nas redes sociais. Não me refiro a receitas, mas sim ao debate acalorado sobre o que comer e o que evitar.

O interessante nesse mar de conselhos é ver como cada item é discutido, decomposto em suas múltiplas propriedades. Brócolis têm zinco; o tomate, licopeno; a abóbora, magnésio. Com o crescimento de casos de diabetes, algumas mensagens são proibitivas: corte o pão, o leite, o macarrão, a batata. O pão branco ou integral, um alimento tão popular e mítico, tem fortes adversários nas redes. Em termos de oposição, creio que existe um alimento que realmente só tem detratores: o açúcar.


A intensidade de conversas sobre comida e suplementos alimentares me leva à conclusão de que isso acabará desaguando na política. Como assim? É célebre a frase segundo a qual, assim como as salsichas, ficaríamos assustados se soubéssemos como são feitas as leis. Não me refiro apenas a leis, embora no Rio já se discuta, tanto na cidade quanto no estado, como proibir alimentos ultraprocessados nas merendas escolares. Se é dinheiro público que alimenta as escolas, por que não refletir sobre o tema? Por que distribuir alimentos com açúcar, gordura saturada e sódio para as crianças? Não estaríamos criando um gigantesco problema de saúde para o futuro?

Em alguns casos, o caminho é campanha de educação, sem paranoias, estritamente baseada no que for cientificamente comprovado. Lembro-me de uma lei no Rio que proibia o sal na mesa dos restaurantes. Era preciso pedir. Essa lei não pegou, assim como tantas outras. Da mesma forma, creio que Bolsonaro errou a mão quando fez um decreto isentando os impostos da whey protein e da creatina. Também não é por aí, creio.

O capítulo dos suplementos alimentares também é outra área dominante nas redes sociais. Quem levar a sério consumirá magnésio, ômega 3, cúrcuma, potes de vitamina, astaxantina, ginkgo biloba, enfim, passará o dia tomando pílulas e corre o risco de se intoxicar.

Às vezes, acho que essa atividade é mais complexa que a simples troca de receitas culinárias. Há muita gente dizendo o que tomar para o cérebro, como retirar gordura do fígado, como curar diabetes, desinflamar a próstata — enfim, é uma grande feira de palpites que mexem com a saúde dos outros.

Às vezes, surge uma linda jovem dizendo:

— Sou estudante de nutrição e vou dizer os cinco alimentos que você deve comer e os cinco que você deve evitar.

Claro, ninguém precisa levar tudo a sério. Existe um aspecto positivo que, de certa forma, confronta a indústria farmacêutica. Os alimentos são terapêuticos. Por meio deles, é possível reduzir o impacto de muitas doenças. O ideal seria que tudo passasse por pesquisas, percorresse as fases necessárias para demonstrar sua eficácia. Não é assim que acontece. Também não era assim antes do surgimento das redes sociais. Na minha infância se dizia que manga com leite fazia mal e que comer formiga era bom para a vista.

No mundo da internet, essas trocas se multiplicam por milhões. Não sei ainda exatamente como pensar todas as saídas. Mas, certamente, a política descobrirá o tema.

No PL de Bolsonaro, livre expressão de pensamento é coisa relativa

Liberdade de expressão tem limite no PL, partido de Bolsonaro, que se diz um defensor intransigente da manifestação de pensamento e do jogo dentro das quatro linhas da Constituição.

(Quando atacou, sem provas, o processo eleitoral e disse que ele não era seguro; quando defendeu a ditadura militar de 64 e a tortura, ele justificou que apenas expressava sua opinião.)


Enquanto Bolsonaro pede ao PL que pague a reforma da cozinha do seu escritório, pago, assim como a casa em que mora, o seu e o salário de Michelle também pelo partido, deputados federais…

Deputados federais do PL, em um grupo de WhatsApp, batem boca sobre a votação da reforma tributária, trocam desaforos, lavam roupa suja, e são bloqueados pelo líder da bancada na Câmara.

Uma coisa é defender a liberdade de expressão em teoria e com fins eleitorais. Outra é exercê-la de fato. O PL deu 20 votos para aprovar a reforma e 75 para barrá-la. A reforma foi aprovada.

Se dependesse de Bolsonaro, todos os votos teriam sido contra a reforma. Ele dizia acreditar que, assim, a reforma jamais seria aprovada. Estava errado. Ela foi e com folga: 382 a 118.

Uma vitória dos que batalhavam pela simplificação do regime tributário nos últimos 30 anos, de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, e de Fernando Haddad (PT), ministro da Fazenda.

Por extensão, uma vitória do governo Lula, que a bancou, também do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que a apoiou em cima da hora, e uma derrota, naturalmente, da extrema direita.

O economista Paulo Guedes, ex-ministro da Economia de Bolsonaro, não deu um pio sobre a aprovação da reforma. Não que fosse contra, mas para não se indispor com seu antigo patrão.

Foi Guedes o inventor do Bolsonaro liberal, discípulo dos criadores das leis de livre mercado. À época, o mercado amou a invenção. Hoje, com a aprovação da reforma tributária, o mercado faz “L”.

A ninguém mais no WhatsApp do PL será permitido postar mensagens contra ou a favor da reforma tributária, conforme decisão do zeloso deputado líder da sigla, Altineu Côrtes (RJ).

Estão proibidas expressões como “melancias traidores” e “comunistas”, referências aos que votaram a favor, ou “extremistas”, referência aos que votaram contra.

Acabou essa história de que “roupa suja se lava em casa”. Lava-se, sim, desde que não vaze e não se torne pública a lavagem de roupa. Uma vez que se tornou, a censura se faz necessária. Taokey?

De Mussolini a Bolsonaro

O historiador Mimmo ­Franzinelli, conhecido por seus trabalhos sobre o fascismo, escreveu o livro Mussolini Racconta Mussolini, uma antologia de textos autobiográficos do Duce. Nas linhas e entrelinhas são expostas as deficiências de Mussolini como chefe de Estado e ressaltados os lados sombrios de sua personalidade. Diz Franzinelli que o Duce nunca foi “um grande estadista”, capaz de projetos para o desenvolvimento do país.

A antologia nos dá uma imagem dos humores, exaltações, surtos psicóticos, volúpia e paixões políticas e culturais do Chefe. “Nada a ver com um projeto de nação, mas impulsos irracionais oriundos de um ego sem limites, de uma convicção e de uma autoconvicção da própria ‘­vontade de poder’ que não conhecem limites.”

O historiador fala de personalidades limítrofes – semelhantes à de Hitler – e de um regime esquizofrênico, submetido aos altos e baixos dos “instintos” pelos quais Mussolini se julgava dotado de uma faculdade profética, como ele chamava suas cognições e iluminuras.

Mussolini, que fala ou escreve sobre si mesmo, tal como seu símile Bolsonaro implementa falsificações contínuas da realidade. É a construção social da mentira como alavanca de comando. Muda e modifica suas posições, sem nunca fazer escolhas clarividentes ou que atendam ao interesse público. Ele move-se de acordo com humores e conveniências de seu ego transtornado.

Os comentários que fez à sua amante, Clara Petacci, sobre as leis antijudaicas de 1938, foram significativos. Demonstravam irritação com a solidariedade de seus concidadãos com os perseguidos. “Esses judeus imundos, você tem que destruí-los todos…”

No livro Delatori, Franzinelli sublinha a responsabilidade do Duce na estruturação de um sistema que perseguia e monitorava o cidadão até mesmo na esfera privada. Dezenas de milhares de pessoas adaptaram-se a essa prática, cuja disseminação reflete o contexto sociopolítico.

Nos tempos de Mussolini, “a delação foi uma guerra travada em terra de ninguém, onde público e privado são confrontados numa dimensão sociopolítica de transformação das mentalidades. A experiência de pessoas comuns revela – na análise do impressionante material acumulado nos arquivos policiais – uma carga de perversidade socializada.

Interferências indiscretas minavam a confidencialidade da vida privada ao mobilizar denúncias, usadas para benefício pessoal. Isso resultou em insegurança e medo na opinião pública. O conhecido casual – até mesmo seu amigo – poderia entregá-lo à polícia”.

Mussolini estava convencido de que suas considerações negativas mudariam a realidade. Ele pensou que poderia alterar o curso da guerra com seus discursos. Os aduladores que o circundavam corroboravam suas crenças irrealistas. Em seus delírios, Mussolini começou a desenhar os uniformes das mais altas patentes militares. “Como se um fato estético pudesse mudar o curso fracassado da Itália no conflito mundial.”

Decidida por um placar incontestável no TSE, a inelegibilidade de Bolsonaro foi tratada por muitos otimistas como presságio de desarticulação do bolsonarismo. Devo registrar minhas dúvidas a respeito de tais convicções.

As visões personalistas padecem de um vício que ressalta as características do indivíduo e esconde as determinações sociais de sua personalidade. Desconfio que o bolsonarismo engendrou Bolsonaro e não o revés.

Peço licença para recordar o que escrevi nos idos de 2018, em plena campanha eleitoral. Dizia, então, que a ascensão de Bolsonaro recebeu os favores do desencanto, do ressentimento e do ódio. O desencanto transmutou-se em ressentimento e o ressentimento decantou suas moléculas no ódio indiscriminado, “contra tudo isso aí”.

Nas precipitações químicas do desencanto para o ressentimento e do ressentimento para o ódio criou-se a cadeia de reações entre a mentira e a crença: o kit gay e outras tantas ridicularias posaram sem resistência nas consciências trôpegas e ansiosas dos brasileiros desamparados e desinformados. O truque consistiu em proclamar mentiras em nome dos bons costumes e dos valores familiares. Esta é uma peculiaridade interessante da comunicação na sociedade de massa: a mentira, a falsificação e o engano deliberado foram incluídos no rol dos bons costumes e das virtudes familiares.

Quem jogou bola na várzea de São ­Paulo não precisa estudar Durkheim, Max Weber, Hannah Arendt ou Wilhelm ­Reich para identificar as gentes que sustentam as tropelias e ilegalidades de Bolsonaro et caterva. Escrevo gentes para significar um modo de ser, uma forma de sociabilidade definida a partir de uma rede de relações que enformam as subjetividades, suas palavras, seus gestos e sestros.

domingo, 9 de julho de 2023

Brasil carga pesada

 


A guerra dos chips

Cada vez mais fala-se em desmaterialização da economia. Estão embutidas aí tanto a noção de fazer cada vez mais com cada vez menos recursos materiais como a de que o valor está migrando de produtos físicos para conhecimento, expresso em programas de computador e assemelhados.

"A Guerra dos Chips", de Chris Miller, mostra que, por mais que a informática tenha avançado, ela é e continuará sendo dependente de uma base material, que são os chips, os circuitos integrados. Aliás, a maior parte do incremento do poder computacional de nossos apetrechos tecnológicos se deve a avanços nos chips, que, pela miniaturização, processam cada vez mais informação de forma cada vez mais rápida e eficiente.


E o termo miniaturização não deve ser tomado ligeiramente. Os chips avançados de hoje trazem transistores na escala dos quatro ou cinco nanômetros (bilionésimo de metro). Um átomo tem cerca de 0,2 nanômetro, então estamos falando de transistores do tamanho de alguns átomos. É uma escala tão diminuta que engenheiros precisam criar truques para evitar que os bizarros efeitos quânticos interfiram no funcionamento dos chips.

Os equipamentos necessários para a produção desses chips são verdadeiros monumentos à engenharia. Só o aparelho usado para imprimir litograficamente os circuitos, que utiliza raios ultravioleta extremos, tem 457.329 peças. São investimentos de centenas de bilhões de dólares que não duram mais que três anos, já que a tecnologia não para.

O resultado de tamanha complexidade é que a indústria de chips está restrita a poucos "players" confinados a um número ainda menor de países. Um deles é Taiwan, com a TSMC. O país produz 11% dos chips de memória e 37% dos chips lógicos, o que tem profundas implicações geoestratégicas.

Numa narrativa envolvente, Miller conta toda a história dos chips e mostra como eles moldam não só a tecnologia mas também as relações entre as potências.

Quanto vale 1% da indignação das redes sociais?

A coincidência é trágica, diz alguma coisa sobre o ar dos tempos e, por isso, volto a assinalá-la: na semana passada, foi chocante verificar como o mundo se envolveu, de forma absolutamente desproporcional, com a morte de cinco pessoas armadas em exploradores dos destroços do Titanic, enquanto, em simultâneo, se procuravam 500 pessoas desaparecidas após o naufrágio do barco de pesca Adriana, nas águas do Mediterrâneo. No primeiro caso, soubemos tudo ad nauseam: da excentricidade das viagens turísticas vendidas pela OceanGate aos desafios dos mergulhos em profundidade. Pelo contrário, dos migrantes, dos quais mais de 100 são crianças, pouco ou nada quisemos saber, numa gritante falta de empatia para com a miséria daquelas vidas desafortunadas.

No fundo, foi como se, acerca destes últimos, seres humanos em busca de um futuro melhor, já nada houvesse a saber. Como se tudo o que lhes diz respeito fosse aborrecido e enfadonho (e, na verdade, não nos dissesse respeito…). Em jargão jornalístico, mais ou menos técnico: old news, storytelling a soar demasiado a déjà vu. Quando é que a morte de centenas de pessoas às portas da Europa, por excelência o continente do legado humanista, deixou de ser manchete e passou a nota de rodapé? As histórias daqueles migrantes, provenientes na sua maioria da Síria, do Egito e do Paquistão, inquietam-nos, mas são como ladainhas que, convenientemente, preferimos ignorar. Também nos chocam os paquetes estacionados ao largo do Reino Unido, repletos de pessoas tão indesejadas quanto invisíveis. Sensibilizam-nos ainda os que procuram um pouco de esperança, mas que logo são prontamente despachados para hotéis no Ruanda.

Nunca a demagogia ajudou a resolver problemas; não há respostas simples para problemas complexos. Que a Europa está a braços com uma grave crise migratória, à qual não tem conseguido dar uma resposta política digna, e que o Mediterrâneo – por paradoxo, o mar das civilizações da Antiguidade – está transformado num cemitério, isso, infelizmente, já nós sabemos. Mesmo que nos indigne o modo como alguns governos, nomeadamente o inglês, o grego ou o italiano, têm lidado com o problema, sabemos que as soluções não estão ali ao virar da esquina. Neste caldo de informação e de ruído de que estamos inundados, poderíamos, porém, redirecionar 1% da indignação inconsequente que fervilha pelas redes sociais para o Mediterrâneo.


Jornalistas não estão, naturalmente, isentos de responsabilidades. Por mais difícil que seja a batalha pela atenção, por mais frágil que seja a situação financeira das empresas de media, as escolhas editoriais importam, comportam valores e princípios – e riscos, claro. Privilegiar o ruído em detrimento de informação? Empolar os conflitos e ignorar os contextos? Destacar as emoções, em vez de destacar os factos e as explicações? Sobrevalorizar critérios de audiência em detrimento de critérios de valor-notícia? Tudo isto é admissível, racional sob determinado ponto de vista e, em muitos casos, até compreensível. Mas tem consequências – e é bom que não nos esqueçamos delas, não na hora de atribuir culpas, mas no momento de tirar conclusões.

Nunca, como hoje, houve tanta informação no mundo. Em quantidade e também em velocidade: são ambas avassaladoras, virtualmente impossível de reter pelo cérebro humano. (Um parêntesis apenas para notar que, não obstante, ainda existem regiões, sociedades fechadas e regimes imperscrutáveis, onde é muito difícil obter informação fidedigna – como a rebelião do Grupo Wagner, no fim de semana passado, veio comprovar.) O que isto não significa é que os cidadãos estejam a tomar melhores decisões, recorrendo ao mantra que os jornalistas – a começar por mim, evidentemente – gostam de repetir. A cientista Joana Gonçalves de Sá, do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas, prepara, para breve, a publicação de um estudo multidisciplinar sobre os processos de decisão e o modo como as pessoas lidam com a desinformação, que trará um contributo importante para esta questão.

Ainda é preciso aguardar pelas conclusões finais, mas a investigadora tem avançado algumas ideias importantes. Defende Joana Gonçalves de Sá que não existe uma relação linear entre aquilo que julgamos saber e aquilo que, de facto, sabemos. E, como a curva da confiança cresce mais rapidamente do que a do conhecimento, as pessoas mais suscetíveis a partilhar fake news, por exemplo, não são as que menos sabem, ao contrário do que intuitivamente poderíamos pensar. Antes aquelas que já têm alguma informação e que tendem a não acreditar em nada, a desconfiar de tudo. Portanto, a conclusão que há a tirar é a de que a ignorância tende a ser o melhor antídoto para o estado do mundo? Perturbador, no mínimo.

O acordo com os europeus

Depois das descobertas realizadas por portugueses e espanhóis, no final do século XV e início do XVI, o mundo começou a se integrar. Ocorreu uma globalização antes do tempo. Europeus atravessaram o Atlântico e descobriram enormes possibilidades comerciais nas Américas. Depois na Índia, na costa leste da África e até no Japão. Conheceram os ricos reinados dos muçulmanos e a origem das especiarias que encantavam as principais capitais do velho Continente.

Mas havia o problema comum a todos: falta de mão de obra. A história do mundo é feita, em boa parte, pela mão de obra dos escravos. É a regra geral desde a antiguidade. Os perdedores são escravizados. A prática foi utilizada em larga escala nos povos originários da Europa e da Ásia. A primeira tentativa dos europeus no novo mundo foi escravizar os índios. Não deu certo. Na América do Norte jogaram até a cavalaria contra eles, que foram exterminados, mas levaram junto o general Custer, abatido na batalha de Little Bighorn.

Os europeus que precisavam conquistar aqueles novos territórios procuraram os africanos. E compraram escravos à vontade. O comércio de escravos foi realizado por quase todas as nações marítimas da Europa, inclusive Suécia e Rússia. Estima-se que foram transportados 12,5 milhões de africanos através do Atlântico. Em 1833 havia 46 mil britânicos donos de escravos. Os ancestrais de George Orwell, de Graham Greene, entre outros, fizeram fortunas. Quando esse comércio foi abolido os proprietários receberam ressarcimento. Os negros não viram a cor do dinheiro.

A riqueza dos ingleses criou bancos, financiou a era do vapor, dos canais, das ferrovias e a revolução industrial. Esse dinheiro fez do Reino Unido a maior nação do mundo. E teve um efeito secundário. Grandes contingentes populacionais se deslocaram para as Américas. Em 1764, Adam Smith escreveu sua obra prima A Riqueza das Nações na Escócia resultado da atenta observação da extraordinária prosperidade de Glasgow, consequência do comércio de tabaco originário da Virginia, nos Estados Unidos.

A riqueza dos países europeus e dos Estados Unidos resultam da pilhagem de recursos naturais e da forte presença da mão de obra escrava. Dezenas de milhares de toneladas de ouro foram levados do Brasil para Portugal. A montanha de prata em Potosí, Bolívia, foi desmanchada e fez a riqueza dos espanhóis. Os Estados Unidos, no começo do século 19, era um país constituído apenas pelas treze colônias. Povoado por europeus avançou até o Pacífico, depois de comprar a Louisiana francesa, a Flórida dos espanhóis, o Alaska dos russos e invadir a California e áreas vizinhas, que pertenciam ao México.


Em resumo, a fortuna dos europeus e dos Estados Unidos resulta da exploração da mão de obra dos africanos escravizados e das riquezas minerais das Américas. O Canadá, colonizados por franceses e ingleses, entra nesta lista. Vale a pena lembrar essa história quando o presidente Lula vocifera contra as imposições dos negociadores europeus para fechar o acordo comercial com o Mercosul. Já houve um acordo em junho de 2019, vinte anos após os Chefes de Estado e de Governo do Mercosul e da União Europeia iniciarem as negociações.

Este longo processo quase chegou ao final. Mas os europeus, depois da conclusão do acordo, enviaram ao Mercosul uma side letter com novas exigências: querem ter maior participação nas compras de governo e pretendem impor penas aos países da região que não respeitarem as regras de preservação do meio ambiente. É isso que Lula chama de inegociável. Os europeus têm um problema na agricultura deles que é largamente subsidiada. Eles receiam perder participação no mercado interno. Isso pode liberar populações do campo para correr em direção ao emprego urbano. E assim surgirem favelas em cidades como Paris.

As compras governamentais são um capítulo à parte. O Brasil não pode colocar em posição de igualdade estrangeiros com melhor tecnologia que os nacionais. O governo dos Estados Unidos só permite empresas estrangeiras nas compras de governo se houver ganho tecnológico. Talvez critério semelhante possa ser um ponto de convergência entre as demandas contraditórias. Vale o esforço para obter o acordo com a União Europeia. Ele cria um mercado de 750 milhões de habitantes, cerca de 25% do produto interno bruto da economia mundial. Mas os europeus sempre enxergaram os povos do sul com desprezo e olhos de predador. O acordo, se houver, será uma novidade nas relações entre o mundo desenvolvido e o emergente.

Nem tudo pode ser lido em até um ou dois minutos

"Enviarei hoje o link de inscrição para o simulado, e ela poderá ser realizada, através do formulário que enviarei aqui às 14h, até domingo, 16/7."

Estar à frente de uma ação social de educação me faz ter contato com milhares de jovens da rede pública, universitários e graduados de todo o país. Lembro saudosamente de quando uma mensagem como a que comecei esta coluna era interpretada por todos. Hoje, logo após o envio, é seguro esperar respostas como: "Enviará o link que horas?", "Como se inscrever?" e "Até que dia posso fazer a inscrição mesmo?"


Na verdade, sempre houve uma certa desatenção entre os estudantes. Mas o que me preocupa é que vejo, diante dos meus olhos, essa desatenção aumentar exponencialmente. E chegou ao ponto de também atingir nosso time voluntário, que é composto integralmente por discentes e graduados das melhores universidades do país.

No final do ano passado, eles precisaram preencher um formulário de feedback. Foi o único do ano, e tomei a liberdade de criar um que levasse mais de dois minutos para ser respondido. Lembro-me de um estudante de ciências sociais que respondeu a todas as perguntas de forma ríspida, com frases como: "Exemplo de pergunta redundante e desnecessária".

Decidi abordá-lo para entender a razão, e a resposta me chocou: "Ah, é que eu ia responder quando entrei no carro e só tinha dois minutos. Hoje em dia, os formulários precisam ser respondidos em dois minutos ou menos". Ou seja, ele nem leu as perguntas. Ele, estudante de um curso que, embora não seja o meu, sei que requer leitura.

Entendo que estamos cada vez mais vivendo rotinas corridas e que, infelizmente, já não temos tanto tempo assim para a leitura, mas sejamos honestos: no Brasil, até mesmo devido à forma desigual com que nossa nação foi construída, a leitura e a educação nunca foram verdadeiramente democratizadas.

Essa é a base da minha preocupação. Sinto que aqui as coisas não são separadas e vou explicar o que quero dizer: talvez em outro país, toda essa onda de otimizar a comunicação, colocando limites para a "retenção da atenção", tenha apenas o efeito de facilitar a vida das pessoas. Aqui não é o caso. Noto claramente como esse discurso de que "hoje em dia as orientações e vídeos precisam ser lidos e assistidos em até um ou dois minutos" reforça a manutenção do hábito de não leitura, da não atenção e, naturalmente, para a manutenção das nossas desigualdades.

Podemos, sim, assumir o compromisso de, sempre que possível, tentar nos comunicar de forma mais objetiva, mas não devemos assumir o compromisso de toda a comunicação ser de apenas um parágrafo e repleta de emojis. Ainda será necessário, às vezes, lermos conteúdos mais densos, e nem estou me referindo a grandes clássicos, mas sim a importantes trivialidades como editais e contratos de trabalho.

Me vi agindo da mesma forma que uma professora que tive e que um dia julguei: quando alguém pergunta algo que já foi avisado ou que está disponível no drive ou portal, eu respondo algo como: "Essa info você encontra na pasta X" ou "Ah, isso foi enviado ontem no grupo. Dá uma lidinha lá".

Sei que sou interpretado como chato. Na verdade eu sei que sou chato e sei que, muitas vezes, as pessoas estão sim na correria. Eu preciso ainda encontrar o tom certo para abordá-las sobre isso. Mas, em minha defesa, vejo isso acontecendo numa escala tão grande e piorando de forma tão drástica que me preocupa muito.

No ano passado, tive aula com uma professora na USP, cientista social, que não permitia celulares ou computadores em suas aulas. Ela dizia ser uma oportunidade de a gente se "desintoxicar". Eu não sou perfeito e nem estou imune a essa onda de desatenção. Muitas das reprovações que tive na universidade foi simplesmente por falta de atenção na aula e por destiná-la quase que integralmente ao celular. No ano passado, inclusive incentivado por essa querida professora, assumi uma postura de guardar em todas as aulas o celular na mochila e, pasmem, foi o ano em que fui aprovado em todas as matérias e caminhei para a tão sonhada obtenção do diploma, ainda que de forma tardia.

Ela tinha a teoria pessoal de que caminhamos para um cenário em que o cérebro humano corre o risco de atrofiar. Sei que soa catastrófico demais, mas não acho algo 100% improvável. Infelizmente.

Todo esse cenário me deixa tão bravo. Primeiramente, com as empresas de tecnologia por trás das famosas redes sociais. Sei que pode ser ingenuidade minha, mas eu gostaria muito que também se preocupassem com isso e pensassem em políticas que lutassem contra essa onda. Em vez disso, o que fazem é colocar energia nos famosos "vídeos curtos" que só reforçam o problema.

Fico bravo também com as pessoas de influência que assumem o discurso de "hoje em dia tudo precisa ser rápido e lido/visto em menos de um minuto". Tudo mesmo? Será que é realmente necessário?

Por fim, fico triste com nossos alunos, voluntários e com todas as pessoas que estão perdendo o hábito de ler. Não com eles, mas sim por eles. São estudantes, universitários e graduados e, para mim, são o futuro do país, mas como esperar essa postura política e cidadã ativa em um universo que simplesmente não estão habituados ou dispostos a ler?

Temo que não seja possível a jornada rumo ao Brasil igualitário de nossos sonhos em um cenário em que os agentes dessa construção simplesmente não conseguem fazer leituras de textos que levem mais do que dois minutos. Como irão contra-argumentar? Como irão questionar as políticas públicas? Como entenderão os próprios direitos? Como assumirão o papel de cidadãos?

Não vou mentir. Fico apavorado e quero terminar com a provocação: a quem isso está servindo?

Jogar a favor das escolas

A população brasileira não se conforma em perder a Copa do Mundo de futebol a cada quatro anos, mas não se constrange em ficar todo ano entre os últimos colocados na avaliação dos sistemas educacionais feita pela Unesco. Felizmente, começamos a perceber a falência do nosso projeto escolar e a entender as consequências para o progresso do país e o bem-estar de cada cidadão quando condenamos milhões de pessoas ao “analfabetismo para a contemporaneidade”, desperdiçando o potencial de cada uma delas para a construção do futuro.

A realidade mostra que os recursos aportados e os programas adotados nas últimas décadas produziram ligeiras melhorias na qualidade escolar, mas sem evitar que continuemos com uma educação deficiente e desigual.


A superação do atraso não está em mais recursos financeiros nem em mudanças homeopáticas. Exige esforço para um salto nas arcaicas e frágeis estruturas municipais. Porém falta ambição para equiparar nosso sistema escolar aos melhores do mundo e para assegurar a mesma qualidade de ensino a todos os alunos. Um programa recente do governo federal se propõe a alfabetizar as crianças antes dos 8 anos, quando já deveríamos ter estratégias para que fossem também alfabetizadas em pelo menos um idioma estrangeiro, como as famílias abastadas proporcionam aos filhos.

Não há, entre nós, uma consciência de que a educação é o alicerce de uma economia eficiente e de uma sociedade justa. Nem de que o sistema está esclerosado e viciado na própria esclerose, exigindo um novo modelo. Um modelo com professores selecionados entre os mais brilhantes jovens da nação, com novas perspectivas de carreira, formação, remuneração, avaliação e responsabilização. Todos trabalhando em edificações confortáveis e equipadas com os mais modernos métodos e ferramentas da pedagogia. Com todas as escolas em horário integral adotando um currículo adaptado às exigências de hoje. E todos os alunos recebendo o apoio necessário para que possam frequentar as aulas até o final do ensino médio. Alfabetizados para a contemporaneidade.

A tragédia educacional brasileira continuará se arrastando em seus pequenos avanços até que um plano ambicioso permita ao país ter escolas com a máxima qualidade, dentro de um sistema único reunindo os se­tores público e privado. A maior dificuldade para o cumprimento dessa ideia está na falta de ambição em como a educação é tratada. A qualidade escolar nunca foi obje­to de desejo central para eleitores e eleitos.

Depois de 350 anos de escravidão e mais de um século de apartação social, soa estranha a ideia de oferecer educação de mesmo nível a despeito de renda e endereço. Carece a percepção de que o potencial de cada cérebro não aproveitado representa uma perda para a nação. Não temos sentimento coletivo que nos faça sofrer com o fracasso educacional e sonhar que todos os alunos tenham a chance de serem campeões do conhecimento. Fomos campeões de futebol porque todos temos essa motivação em comum. E porque a bola é redonda, em qualquer lugar e para qualquer brasileiro. O campeonato do progresso exige uma mania por educação capaz de redondear também nossas escolas.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Inimigo permanenete


A pátria é destruída constantemente. E os destruidores estão dentro de nós
Pablo Neruda, "Pelas praias do mundo"

Agora Bolsonaro tem que ir para a cadeia

Só um país tão carente de justiça como o Brasil pode comemorar que Jair Bolsonaro está incapacitado até 2030 . O ex-presidente foi condenado na última sexta-feira por ter atacado o sistema eleitoral brasileiro em reunião com embaixadores estrangeiros em julho de 2022, quando buscava se perpetuar no poder. É pouco para um extremista de direita que, nos quatro anos em que governou o Brasil, executou um plano para disseminar o vírus da covid-19 e obter a “imunidade de rebanho” que, segundo epidemiologistas, foi responsável pela maior parte das infecções com mais de 700 mil mortes. Entre 2019 e 2022, Bolsonaro atacou vacinas, incentivou a invasão criminosa de terras indígenas, acelerou a destruição da Amazônia, lançou ataques contra instituições, tentou destruir a credibilidade das urnas eletrônicas e incentivou golpes de estado. Ficar oito anos fora da disputa eleitoral é pouco, muito pouco, para tantos crimes. Mas Bolsonaro é um monstro humano, fruto da impunidade, e para as instituições da democracia que tanto minou puni-lo por seus atos pela primeira vez é um marco histórico.


Bolsonaro começou sua carreira criminosa planejando explodir bombas em quartéis em 1987, como medida para pressionar por melhores salários para a força. A Justiça Militar o absolveu em processo vergonhoso, mas ele teve que deixar as Forças Armadas e iniciou a carreira de político profissional: passou quase três décadas como parlamentar defendendo os assassinatos cometidos pela ditadura empresarial-militar (1964-1985) e atacando negros, indígenas, mulheres e LGBT, até chegar à presidência. O capitão reformado tornou-se a síntese de um país em que agentes do Estado sequestraram, torturaram e assassinaram centenas de civis e mais de 8.000 indígenas e nunca foram punidos, ao contrário do que aconteceu em países vizinhos como a Argentina, que conseguiu colocar os generais em prisão e restaurar a dignidade da nação. Bolsonaro sempre acreditou que poderia dizer e fazer qualquer coisa e que nada lhe aconteceria. Ele acreditou porque era verdade. Até o histórico dia 30 de junho de 2023, quando foi punido pela primeira vez.

Agora o Brasil é governado pela terceira vez por Luiz Inácio Lula da Silva, mas a marca dos crimes de Bolsonaro é carregada por todos os brasileiros. Hoje somos um país de gente mais triste, de gente de luto, de gente com mais vontade de matar. Qualquer pretexto serve para que surtos de violência ocorram nas ruas, no trânsito, em espaços públicos. Os brasileiros não viveram uma pandemia como o resto do mundo, mas sim uma pandemia em que o presidente usou a máquina estatal para fazer o vírus matar mais rápido. Ninguém passa quatro anos refém de um tarado sem ser transformado pela experiência da submissão. Hoje os brasileiros odeiam os brasileiros, ódio é o ar que se respira no Brasil. Bolsonaro pode ter perdido as eleições e agora – temporariamente – o direito de concorrer novamente. Mas seu projeto de ódio continua ativo, por isso, mesmo perdendo as eleições, ele ganhou.

O que vai determinar a derrota do que ele representa e que vai muito além do indivíduo Bolsonaro é quanta justiça a democracia brasileira conseguirá. Se esta for a única punição para um criminoso de Estado, o Brasil assassino, racista, xenófobo, misógino, homofóbico, anti-indígena e negador do clima ficará ainda mais forte. Se esta for apenas a primeira e mais branda sanção, com muitas outras a seguir, o Brasil terá uma chance de se reconstruir. Colocar Bolsonaro na cadeia por genocídio tem que se tornar o objetivo de todo brasileiro que ainda consegue manter alguma sanidade em um país profundamente enojado pelo exercício do ódio.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Pensamento do Dia

 


Enfim extintos ou em vias de

Quando começou, era uma partida entre um campeão de xadrez e um computador. O homem, já levando a vantagem de jogar com as brancas e começar o jogo, ganhou a primeira e todas as seguintes. Era natural —como uma máquina burra poderia derrotar o homem? Mas, um dia, o computador, que não era burro, venceu e seguiram-se muitas vitórias. Foi quando o computador soube da frase de Bernard Shaw, de que a capacidade de jogar xadrez desenvolve tremendamente a capacidade de jogar xadrez. E, como não era burro, deixou os cavalos e bispos para o homem e investiu sua inteligência em coisa mais séria. Por exemplo, tomar o poder.

Neste momento, 350 dos maiores cientistas do mundo na área da tecnologia estão apavorados com o avanço da inteligência artificial, nome já reduzido à terrível sigla em maiúsculas IA. Para eles, dependendo da progressão da IA, a humanidade corre risco de extinção semelhante ao de uma guerra nuclear, de uma pandemia sem controle ou da destruição do meio ambiente.

Teme-se que, com a IA, a desinformação em massa, com tsunamis de fotos, vídeos, áudios, textos e números falsos, faça com que as pessoas não saibam mais o que é verdade. Ninguém confiará em ninguém, e isso romperá os sistemas de crédito e comércio internacional. Seguir-se-ão falências gigantes, com desemprego planetário e substituição de trabalhadores humanos por robôs. Já se acredita que os robôs fazem melhor do que nós em quesitos complexos.

Cientistas que participaram do desenvolvimento da IA estão se demitindo das empresas de tecnologia que eles próprios criaram —porque não querem se comprometer com o que vai acontecer. Discordo. Como corresponsáveis pelo estrago, deveriam lutar para amenizá-lo ou para retardar seus efeitos.

Para eles, impedir o avanço da IA está fora de cogitação. Não depende mais de nós. Nesse tabuleiro de xadrez, já não jogamos com as brancas.

Humanidade

Depois de conhecer a humanidade
suas perversidades
suas ambições
Eu fui envelhecendo
E perdendo
as ilusões
o que predomina é a
maldade
porque a bondade:
Ninguém pratica
Humanidade ambiciosa
E gananciosa
Que quer ficar rica!
Quando eu morrer…
Não quero renascer
é horrível, suportar a humanidade
Que tem aparência nobre
Que encobre
As péssimas qualidades

Notei que o ente humano
É perverso, é tirano
Egoísta interesseiros
Mas trata com cortesia
Mas tudo é hipocrisia
São rudes, e trapaceiros.

Carolina Maria de Jesus, "Meu estranho diário"

O antigo versus o moderno no Brasil

A história do Brasil tem sido marcada por um constante conflito entre o arcaico e o moderno. Esse embate atravessou séculos e influenciou muitos aspectos da sociedade brasileira. O país só conseguiu avançar quando o novo foi capaz de sobrepujar o antigo, deslocando os interesses arraigados nos aparelhos do Estado. Exemplos notáveis dessa transformação foram a derrocada da oligarquia cafeeira e o fim da República Velha, que impulsionaram o Brasil em direção à industrialização e à modernidade durante os governos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

E a história tem suas ironias. O golpe de 1964, embora tenha surgido como uma reação às reformas de base, acabou promovendo uma espécie de “modernização conservadora”, conferindo ao Estado uma mínima racionalidade e capacidade de planejamento. Mas sua essência de ser um depositário de interesses patrimonialistas e corporativistas permaneceu inalterada. Posteriormente, a promulgação da Constituição Cidadã em 1988 representou um marco significativo em direção à contemporaneidade. Ela consagrou direitos sociais, estabeleceu um ordenamento democrático e criou condições propícias para o pleno funcionamento de instituições republicanas permanentes, como o Ministério Público e a Polícia Federal. O que foi semeado em 1988 agora mostra sua eficácia e se torna o embrião de um Estado Moderno em contraposição ao Estado patrimonialista.

A luta entre o arcaico e o moderno não cessou. Nos anos 90, essa disputa se deslocou para a esfera econômica. Naquela época, era imperativo deixar para trás a espiral inflacionária, modernizar e reestruturar o sistema financeiro, controlar os gastos públicos, acabar com os cartórios e criar regras estáveis que fortalecessem uma economia aberta e de mercado.

O governo de Fernando Henrique Cardoso foi bem-sucedido nessa modernização, especialmente para promover a modernização econômica. Ele conseguiu proteger áreas estratégicas como a Educação ou a Saúde contra práticas predatórias e aliados vorazes. Além disso, deu um grande passo rumo à modernidade ao criar agências reguladoras.

No entanto, a continuidade desse processo de modernização foi interrompida nos governos de Lula e Dilma, que promoveram o ressurgimento do arcaísmo. Mecanismos de Estado permanentes, como as agências reguladoras, perderam relevância, enquanto o governo se tornou hipertrofiado. Instituições de excelência, como o Itamaraty, foram negligenciadas, sem mencionar a instrumentalização de entidades como o BNDES e empresas públicas como a Petrobrás. A responsabilidade fiscal foi abandonada.

É herança destes tempos a aliança entre um projeto de poder, o patrimonialismo político e um capitalismo parasitário que se acostumou a se beneficiar das benesses do Estado, resistindo ao risco e à livre concorrência.


Vale ressaltar que os responsáveis pelo desvio de recursos públicos agiram como se ainda estivessem na era analógica, deixando rastros por todos os lados. Enquanto isso, as instituições de investigação avançaram para a era digital, tornando-se capacitadas e qualificadas para cumprir seu papel em um Estado de Direito.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, o arcaico se manifestou por meio de posicionamentos e políticas públicas que geraram retrocessos nos direitos humanos, especialmente no que diz respeito a minorias e grupos vulneráveis. Além disso, houve críticas relacionadas à violação de princípios fundamentais de igualdade e não discriminação. Outro ponto muito debatido foi a flexibilização das normas de proteção ambiental com o enfraquecimento dos órgãos de fiscalização e adoção de uma retórica contrária à preservação do meio ambiente e ao combate às mudanças climáticas.

Também houve questionamentos quanto às atitudes, nos moldes do passado e hostis, em relação a jornalistas e meios de comunicação independentes, além de tentativas para controlar e descredibilizar a imprensa. Na área da cultura, foram realizados cortes orçamentários e uma política de terra arrasada (a Fundação Palmares que o diga). Na educação o atraso aconteceu com a adoção de medidas contrárias aos avanços alcançados anteriormente, incluindo mudanças na abordagem das questões de gênero nas escolas.

Hoje estamos vivendo mais uma fase importante no confronto entre o arcaico e o moderno. E o arcaico ainda detém hegemonia, com os poderes se mantendo alheios aos anseios da sociedade. A rejeição pela sociedade brasileira a esse modelo do toma-lá-dá-cá e à institucionalização do balcão de negócios é profunda. Existe uma crise de representatividade que os partidos políticos ainda não conseguiram compreender em sua totalidade.

Também é ilusório pensar que o governo representa o moderno e a oposição representa o arcaico. Essa visão simplista não corresponde à realidade. Nada é mais arcaico do que um discurso incoerente e alianças casuísticas que contradizem valores éticos.

Embora o antigo ainda não tenha sido superado e o novo ainda não tenha surgido plenamente, é positivo o fato de que a forma engessada de fazer política e negócios por parte de setores empresariais encontra obstáculos nas ações das instituições republicanas, que apontam para um horizonte mais promissor.

A peleja entre o arcaico e o moderno é uma constante na história política do Brasil. Desde a superação da oligarquia cafeeira e a consolidação da República até os desafios enfrentados atualmente, o embate entre ideias ultrapassadas e visões progressistas moldou a trajetória do país. A modernização do Estado, das instituições e da economia é essencial para o avanço da sociedade brasileira.

Neste momento, é necessário reconhecer a importância de fortalecer as instituições republicanas, promover a transparência, a ética e a responsabilidade fiscal. Somente assim poderemos superar os resquícios do arcaico e consolidar um Estado moderno, comprometido com o bem-estar e o desenvolvimento do povo brasileiro.

O louco sempre tem razão

Gosto muito de um autor inglês, Gilbert Keith Chesterton, que, sendo também um exímio humorista, era não apenas um grande escritor como um escritor grande. De físico volumoso e avantajado, se movia com a agilidade de um jovem potro, sobretudo quando se tratava de esgrimir com ideias.

Não é sem motivo que Chesterton tenha passado despercebido pelos quatro ou cinco leitores que restam no Brasil. Ocorre que, além de gordo, ele era confessadamente um conservador, um pensador católico – se autodenominava um católico ortodoxo – fiel às concepções filosóficas de Santo Thomas de Aquino, seu santo de devoção, que, aliás, era também um tipo muito gordo, de barriga imensa, tanto que em sua mesa de trabalho foi recortada uma meia lua na qual ele se inseria pacientemente para poder ler e escrever – caso contrário não alcançaria nem os seus livros nem seus lápis. É o que consta a respeito desse pensador em cuja obra Chesterton busca se ancorar.

Cabe aqui um parêntesis.

Certa vez estava eu escolhendo livros numa livraria (claro, me refiro a um tempo em que havia livrarias, ou seja, um lugar onde era possível pesquisar assuntos, livros e autores) quando chegou um amigo, professor de filosofia, que de imediato veio bisbilhotar um dos livros escolhidos por mim.

– Ah, lendo autores da direita!

Não digo o nome do professor porque é um grande amigo, embora vítima de um equívoco político que já vicejava robusto no Brasil de todos os equívocos. Militantes acham que devem ler só livros com os quais concordam – a esquerda com seus prediletos e a direita idem. Pois eu acho o contrário, com o que já entro no motivo pelo qual comecei citando Chesterton. Ao amigo, respondi assim:

– Como no futebol, é preciso saber o que pensam os adversários.

Pois Chesterton está entre os meus adversários que mais admiro. É um homem culto, inteligente, intelectualmente honesto – e que tem todo o direito de discordar de mim, pobre mortal. Por isso fico estarrecido quando vejo políticos e militantes esbravejando xingamentos uns contra os outros, muitas vezes sem ter a menor ideia do que o outro está dizendo. Bastam os chavões, as palavras de ordem, os berros histéricos. Nesse circo dos horrores, as divisões são claras: de um lado está a verdade, do outro não há verdade alguma.

Tento me explicar melhor. Um dos jornalistas que eu mais admirei foi Paulo Francis, o feroz polemista. Seu texto era um ringue, sobravam diretos de direita e de esquerda. No entanto, eu discordava de 80% do que o Francis escrevia. Mas ele era brilhante e isso me bastava. Era com o que eu arejava minhas próprias ideias.


Agora vamos ao Chesterton. Grande criador de frases fulminantes que não eram jogos gratuitos de palavras, mas estocadas que sintetizavam longas reflexões, com o que ele combatia os medíocres lugares comuns que circulam nos debates políticos e filosóficos.

Um desses lugares comuns reza que o louco é alguém que perdeu a razão. Diante da obviedade, Chesterton tragava prazerosamente seu inseparável charuto e fulminava:

– Não. O louco é alguém que perdeu tudo, exceto a razão.

Como não se pensou nisso antes? O louco sempre tem razão. O louco sempre tem na ponta da língua a solução para todos os problemas do mundo. Seja para acusar os judeus de todas as desgraças que nos abatem, como para apontar os negros como raça inferior. O louco, com duas pequenas ideias coletadas em alguma apostila ou manual, acusa genericamente a todos que não pensam como ele. É simples. Ele está certo e o resto do mundo está errado. Axioma primeiro da cloroquina.

Aliás, é curioso. O socialismo, tal como idealizado no século XIX, fracassou, a não ser que achemos que China, Rússia, Venezuela, Cuba, sejam modelos de países socialistas. Portanto, a direita no Brasil combate um mero fantasma, que tem como utilidade criar a paranoia coletiva do medo do comunismo. Da mesma forma, a esquerda, viciada em suas razões, perdeu o rumo e está perplexa. Desde que uma de suas estrelas sapateou num palco declarando que odiava a classe média, ela calou-se e, pelo que parece, não reflete mais.

Direita e esquerda, que estupidificam o debate de ideias no Brasil, são nossos loucos preferenciais. Estão cheias de razão, tudo sabem e tudo explicam.

Diante do que Chesterton soltaria uma baforada irônica de seu charuto e diria:

– Estão vendo? Perderam tudo exceto a razão. Estão cobertos de razão.

Portanto, o louco não perdeu a razão. Ele perdeu a solidariedade, o convívio fraterno, o humor, o respeito ao outro, a generosidade, a empatia, o reconhecimento e a aceitação do outro, com suas igualdades e diferenças.

Enfim, o louco já não sabe o que é amar.

terça-feira, 4 de julho de 2023

A conta oculta da superexploração no Brasil

Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, com a descoberta de 2.575 pessoas em situação análoga à de escravo, em 2022, chegou a 60.251 o número de trabalhadores resgatados desde 1995. Neste ano, foram criados grupos especiais de fiscalização móvel, objetivando combater a escravidão no país. Dos resgatados no ano passado, 92% eram homens, 29% tinham entre 30 e 39 anos, 51% residiam no Nordeste e 58% nasceram na região. Além disso, 23% não tinham completado o 5º ano do ensino fundamental, 20% haviam cursado do 6º ao 9º ano incompletos e 7% eram analfabetos. No total, 83% se autodeclararam negros, 15% brancos e 2% indígenas. Dos resgatados em 2022, 148 eram estrangeiros: 101 paraguaios, 14 venezuelanos, 25 bolivianos, 4 haitianos e 4 argentinos. Do total de trabalhadores resgatados, 87% estavam operando em atividades rurais.

O trabalho análogo ao escravo, em pleno século XXI, se insere em um quadro estrutural de superexploração no Brasil, que vêm desde que o país foi descoberto. Seja na fase colonial, na qual a esmagadora maioria era explorada, seja, depois, na fase neocolonial, na qual o Brasil sempre ocupou um papel de fornecedor de riqueza a preços módicos, de todas as formas possíveis e imagináveis, para o centro de dominação imperialista.


As denúncias sobre o trabalho escravo devem servir para um necessário debate sobre a “escravidão” no trabalho nos dias de hoje, nos quais, as dificuldades dos trabalhadores se agravam, em função de o país estar enfrentando uma verdadeira guerra econômica e política. Não é outro o motivo da política do banco central, chamado “independente”, que mantém a maior taxa de juros reais do planeta, contra tudo e contra todas as correntes de pensamento econômico no Brasil. Pouca gente, além dos banqueiros e seus representantes, apoia a política atual do Banco Central.

O problema da superexploração no Brasil é gravíssimo, o trabalho escravo é um dessas inúmeras formas de exploração dos trabalhadores. Contamos com um dado que é uma ilustração-síntese desse problema: cerca de 50 milhões de brasileiros estão escorados no Bolsa Família para não passarem fome. Esse número representa 24% da população, que depende do governo para comer, no país que é o terceiro maior produtor de alimentos do mundo e o primeiro produtor de proteínas.

São conhecidas as desigualdades regionais do país. Pode-se dizer que, em algumas regiões do Brasil, os direitos advindos da revolução de 1930 ainda não foram implementados. Mas superexploração não é exclusividade das áreas rurais, do chamado Brasil Profundo, na qual localizam-se a esmagadora maioria dos casos de trabalho escravo, como vimos. No Brasil, na América Latina, na África, na Ásia, e mesmo no interior dos países ricos, a burguesia combina inúmeras formas de explorar o trabalhador, acima do que poderia ser considerado “normal”. A partir das formas principais de superexploração (pelo salário, pela jornada, pelo ritmo e condições de trabalho), as combinações são as mais variadas possíveis. Cada uma dessas formas gerais se concretiza em vários métodos específicos de extrair mais valor da força de trabalho.

Nos assustamos – com inteira razão – com a condição de trabalho análogo ao escravo, mostrada pelos indicadores e fotografias. Mas, segundo o Dieese, a principal motivação das greves em 2022 (foram catalogadas mais de 1.000), foi o não pagamento de salários. Isto é, o trabalhador dá duro o mês todo, ganha pouco, e ainda tem que fazer uma paralisação para receber os salários (para maiores detalhes, ver pesquisa do SAG – Sistema de Acompanhamento de Greves do Dieese).

O trabalho em situação análoga ao escravo é completamente degradante. Mas é certo que os quase 15 milhões de desempregados e desalentados (segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio, do IBGE), uma verdadeira multidão, vivem em uma espécie de escravidão. O país tem 39% da população ocupada na informalidade, alguns estados registram taxas beirando os 60% da força de trabalho, nessa condição extremamente desfavorável. Pelo que se conhece do mercado de trabalho, a maioria das funções exercidas na informalidade lembram condições de semiescravidão, também.

A partir da aprovação da Reforma Trabalhista de 2017, no governo de Michel Temer, o Brasil assistiu ao maior ataque da história contra a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Foram alterados mais de cem pontos nas leis trabalhistas, trazendo, entre outras violências, o trabalho intermitente, o trabalho parcial, as terceirizações para as atividades fim, a exposição de trabalhadoras grávidas a ambientes insalubres de trabalho. A intenção dos governos do golpe (Temer e Bolsonaro) era mais abrangente: Jair Bolsonaro, em março de 2019, fez uma promessa nos Estados Unidos, em reunião com representantes da extrema-direita, de que teria chegado ao poder para levar adiante um projeto de destruição nacional. “O Brasil não é um terreno aberto onde nós iremos construir coisas para o povo. Nós temos que desconstruir muita coisa” (18/03/2019, afirmação feita na sede da Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA), em Washington).

A superexploração da força de trabalho na periferia capitalista, na medida em que transfere maiores quantidade de valor para os países imperialistas, exerce uma importante funcionalidade na engrenagem capitalista internacional. Esse sistema, neste momento, não suporta melhorias das condições de vida do povo, mesmo que superficiais. A superexploração no Brasil tem o fundamental papel do Estado. Como em economia não existe mágica, enquanto os trabalhadores ficam mais pobres, aumenta exponencialmente os gastos do Brasil com juros da dívida. Somente no ano passado essas despesas, oficialmente, chegaram a R$ 780 bilhões.

A dívida pública é uma ilustração completa de um sistema de parasitagem que os pobres do país suportam sem ao menos saber. Manter a maior taxa de juros do planeta e transferir fortunas para os banqueiros todo ano, não tem nada a ver com decisões técnicas. Se a população entendesse que o país que não consegue crescer, que deixa 33 milhões de brasileiros passar fome, tem ruas esburacadas e gente morrendo na fila do SUS, transfere diariamente bilhões para super ricos, a situação obviamente seria outra.

O fenômeno da superexploração em sociedades como a do Brasil gera um ambiente de intensa violência estrutural contra a maioria da população. As várias formas de superexploração do trabalho, agressivas por si só, levam a uma intensa violência contra a população em geral. É a força da violência e coerção do Estado garantindo as condições para os trabalhadores aceitarem um regime de brutal superexploração.

‘Narrativa’: a nova fraude ideológica

Desde as últimas décadas do século passado, a chamada Teoria do Discurso tem trazido importantes aportes às Ciências Sociais – não apenas à Sociologia e à Ciência Política, mas também à História e ao Direito, entre outras disciplinas. Mediante a incorporação e reelaboração dos conhecimentos linguísticos recentes, ela ampliou consideravelmente a compreensão de diversos fenômenos característicos das formações sociais contemporâneas – em especial, dos novos processos sociais e políticos que as constituem.

Revestem-se de especial importância, aos fins deste artigo, os principais conceitos cunhados pelos formuladores da nova teoria – a começar, pelo de discurso. Diferente de sua acepção vernacular, ou mesmo do senso comum do vocábulo, não se trata aqui daquilo que se fala ou diz – ou ao menos, não apenas disso. O que se fala ou diz, consiste na fala, conceito distinto e abarcado pelo de discurso – que remete, além dela, a quem, para quem, sobre quem ou o quê, para quê e porque se fala. Donde se chega a outro conceito fundamental para a compreensão dos fenômenos discursivos – o de sujeito; melhor dizendo, de sujeitos – aquele que fala e aquele a quem se fala.


Consideradas estas noções, os estudiosos definem o discurso como a articulação de significados socialmente existentes; o que importa sobremaneira destacar nesta definição, é que o discurso não cria verdades – ou mentiras – mas, isto sim, articula, organiza sentidos que estão presentes, embora dispersos, diluídos entre os sujeitos sociais que busca atingir. Um exemplo, entre tantos que se poderia apontar: o discurso sobre violência e criminalidade não inventa seus conhecidos temas – o aumento da insegurança, a frouxidão da lei e da justiça, a impunidade, etc – antes os recolhe na realidade social e os reordena no imaginário dos sujeitos destinatários, na direção desejada pelo sujeito emissor, neste caso, o endurecimento penal e o autoritarismo estatal.

Estas referências aos conceitos básicos da teoria do discurso, e à sua relevância como instrumento de análise política, são feitas aqui a propósito da emergência, nas falas dos partidários da extrema direita, de uma expressão de conteúdo vazio e indeterminado, mas revestida de aparência supostamente técnica.

Trata-se do termo narrativa, a toda hora invocado pelos adeptos do neofascismo como presumível justificativa para seus atos, e também como alegado artifício ou estratagema de seus inimigos – não apenas a esquerda, mas também os integrantes dos Tribunais Superiores, em especial o STF e o TSE, em virtude dos inquéritos e processos ali instaurados em resposta a seus comportamentos criminosos e antidemocráticos.

Em suma, quanto a estas acusações, não passariam as mesmas de meras “narrativas” oriundas daqueles setores, interessados em atacar as lideranças patrióticas; e, curiosa e contraditoriamente, propugnam estes mesmos direitistas, como método a adotar em sua “guerra cultural”, o uso generalizado de…narrativas.

De qualquer sorte, o que importa destacar a propósito, desde logo, é a absoluta ausência, entre os conceitos da teoria do discurso ou mesmo da ciência da linguagem, de uma tal ideia ou noção. E ao observador atento não escaparão os verdadeiros sentidos e alcance da palavra, ao que parece tão cara à novilíngua fascistóide. Com efeito, encadear os fatos em uma sucessão aparentemente lógica – embora não necessariamente apoiada na realidade, ou até mesmo destituída deste apoio factual – na defesa de uma posição na disputa dialética, outra coisa não é senão apresentar uma versão dos acontecimentos.

Efetivamente, a tal “narrativa”, não passa disto: do procedimento, tão conhecido e corriqueiro, de apresentação de uma versão, isto é, de relato de fatos, objeto de controvérsia, segundo a ótica de partícipe do conflito, e dirigido explicitamente à sustentação de seu interesse no mesmo. É o que ocorre rotineiramente no debate judicial, no qual as partes fazem a “exposição dos fatos” (expressão usada pela lei processual) que eventualmente dão suporte às suas pretensões. Ou ainda nas matérias jornalísticas, que apresentam os diferentes relatos acerca das ocorrências noticiadas – inclusive seguindo (ou devendo seguir) a expressa recomendação quanto a “ouvir o outro lado”. E também nas discussões políticas, dentro e fora dos parlamentos, quando os oponentes expõem suas diferentes versões sobre os episódios ocorridos.

Em todos estes casos é de “narrativas” que se trata, ou seja, de versões, de relatos parcializados de fatos controversos – o que, considerados em tais contextos, nada têm de impróprio ou condenável.

O que não se pode aceitar, no entanto, é o uso indevido desta expressão como forma de reduzir o debate político à mera invocação de argumentos puramente cerebrinos, na defesa de posições insustentáveis frente aos princípios democráticos consagrados na Constituição e nas leis da República. Trata-se, este procedimento inovador, de mais um truque típico das chamadas fake news, ou mesmo de fake opinions, artifícios de que se utilizam a nova extrema direita global, sobretudo no universo fluído e ainda infenso de controle das ditas redes sociais digitais: a alusão, repetida ad nauseam, a fatos inverídicos, ou mesmo verdadeiros, mas distorcidos.

Deve-se salientar que não se está diante de recurso dialético apenas equivocado – mas, repita-se sempre o alerta, frente ao emprego de ardil discursivo fraudulento, contra o qual se deve reagir veementemente, por meio da permanente confrontação das versões trazidas à discussão pública com a realidade dos fatos – o juízo de verdade ou verossimilhança; bem como as submetendo ao exame de sua consistência lógica interna – o juízo de coerência.

Efetivamente, diante deste desafio que se apresenta, na luta ideológica contra a nova extrema direita, os democratas e progressistas devem esgrimir os instrumentos da razão contra a manipulação discursiva autoritária dos significados socialmente existentes. Com inteira consciência, entretanto, da impossibilidade absoluta de convencimento de seus adversários – melhor dizendo, inimigos, pois assim se comportam – movidos que são, estes, por crenças irremovíveis pela argumentação racional.

Mas visando, isto sim, à parte expressiva da audiência pública (ainda) não interpelada pelo discurso neofascista.

Pensamento do Dia