domingo, 17 de abril de 2022

Pensamento do Dia

 

Oguz Gurel (Turquia)

Tão cedo não vejo é país algum

Meu imortal Ignácio de Loyola Brandão parece mesmo ter previsto intuitivamente o que viria quando escreveu e publicou, em 1981, “Não verás país nenhum”, uma de suas premiadas obras de ficção, quase real 40 anos depois. Eu, hoje, apenas digo mais: a esta altura da vida, nunca pensei que veria, testemunharia, as coisas que acontecem diante de nós diariamente, seguidas de outras e tantas outras, como se nada mais importasse, numa estranha caminhada

Tão cedo não vejo é país algum

E não saberemos ainda de muitos fatos que agora tentam nos negar até o próximo século, como se eles se sentissem tão importantes para que, daqui a cem anos, seus malfeitos sejam lembrados, pesquisados e divulgados por historiadores, quando precisamos apenas é que hoje sejam contidos antes que se efetivem, antes que marquem ainda mais esse tempo de terror. Não entendem que seus nomes já estão marcados, e da pior forma possível, e porque os detalhes do que praticam são antevistos.


Espero não parecer exagerada aos olhos especialmente de quem anda desligado dos fatos – e cada vez mais sei de pessoas que estão fazendo isso, se desligando, como se assim as coisas possam se transformar. Não fico sabendo, então, não me importo, pensam uns. Outros, desistiram, quedando apenas cansados. Há os umbigueiros que, se não atingidos de alguma forma, dão de ombros à toda a comunidade.

Talvez por profissão que me mantém ligada, talvez pelo signo, Gêmeos, diretamente ligado à comunicação, à curiosidade, talvez sei lá por que, estou sempre sintonizada nos fatos aqui do meu cantinho. E eles andam bem impressionantes. Pioraram na pandemia, principalmente os ligados à idiossincrasia humana. E os que pensaram que sairíamos melhores desses tempo terrível – e cheguei a acreditar nisso – perderam feio a aposta.

Saímos piores, mais pobres, mais amedrontados, mais loucos, mais feios, impacientes. Mais violentos. Mais egoístas. Como se ter sobrevivido não tivesse sido significativo, não obrigasse a uma renovação interior depois de tantas perdas, angústias e sofrimentos.

Saímos com casca mais dura, parece. Porque estamos suportando – protestando apenas baixinho, ou em letrinhas nas redes sociais – ataques diários à nossa integridade, à nossa inteligência e especialmente à nossa paciência. Vivemos tempos difíceis mundialmente, compreendo, mas em nosso país vivemos tempos particularmente perigosos e levianos, com a estrutura política abalada, e o incentivo à divisão cada vez mais danoso para aquele futuro, lembram? – aquele lá que nunca chega. Ou quando chega queremos gritar.

Senão, vejamos, para onde se olha: a miséria, a violência nas metrópoles incontrolada, tornando qualquer ida à padaria esporte de alto risco. Tudo será rigorosamente investigado, dizem, mas o que se vê é polícia perdendo tempo ocupada em controle e repressão ao comportamento diferente, justamente à diversidade que conquistamos. Assassinatos de mulheres, o feminicídio, fato diário e corriqueiro; assassinato de transexuais e travestis nos posiciona como um dos locais mais perigosos do planeta. Crimes contra turistas que nos afastam cada dia mais de uma de nossas principais fontes de renda e investimento. Como se não bastasse o extermínio dos povos indígenas e seus habitats. A construção desenfreada que nos faz temer se em uma noite não seremos expulsos de nossas casas impiedosamente, tudo substituído por torres horrorosas.

E agora essa que tentam nos impor negando por decreto informações para tudo que perguntamos com direito na base na lei, na transparência de dados, sigilo de 100 anos, sobre tudo que esse desgoverno faz no escurinho do cinema, os encontros que mantêm sob nossas barbas, combinando malditos planos corruptos com uns seres que saíram das trevas sob mantos inclusive religiosos. Não basta apenas o que esfregam com sua inoperância, há a provocação insidiosa à luz do dia, o incentivo ao armamento, à burla da democracia.

Não vemos país nenhum. Vimos e já vivemos o terror do passado. Não veremos mais nada se não nos ligarmos e agirmos.

Aliás, se acaso avistar alguma luz, avisa, que o verbo ver tem muitas flexões. E reflexões.

Por cima da lei

Na sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro voltou a torrar dinheiro dos impostos dos brasileiros para mais uma motociata, a 13ª em menos de um ano. Indiscutíveis atividades de campanha eleitoral, sem vínculo com qualquer ação de governo que justifique os gastos – segundo a Folha de S.Paulo, os passeios anteriores somaram R$ 5 milhões -, ele continua a fazê-las. Impunemente.

Impunidade, como se sabe, é estímulo para desvios, malfeitos ou crimes. No caso de Bolsonaro isso se eleva à enésima potência. Ele detesta cumprir leis, diverte-se em desafiá-las, ameaça usar mundos e fundos contra elas. Não raro terceirizando responsabilidades – a corrupção nos ministérios da Saúde e da Educação são as provas mais recentes disso -, negando o que todo mundo vê, invertendo o significado das coisas.

Sempre finge que nada é com ele. Faz das suas e se irrita com normas que o prejudicam desde as estripulias que o afastaram da carreira militar, quando planejou detonar bombas em quartéis para reivindicar reajuste salarial.


De lá para cá, acobertou-se por quase três décadas no manto da imunidade parlamentar para ganhar notoriedade com agressões homofóbicas, misóginas, de apoio escancarado à ditadura e à tortura. Além de golpes, erroneamente tratados como de pequeno porte, como o de manter apartamento funcional – “para comer gente”, como ele próprio explicou -, mesmo tendo residência em Brasília. Ou contratando funcionários fantasmas, como a agora notória Wal do Açaí, que em 15 anos de holerite jamais pisou no gabinete do chefe, nem para a posse. Caminho que ensinou à sua prole, perpetuando a indústria familiar das maravilhas das rachadinhas e de outros rolos.

Enriqueceu às custas da política do baixo clero e, no exercício da Presidência, divide com os seus o botim.

Na sua ótica, os adjetivos antônimos público e privado têm o exato sentido inverso. Lambuza-se com o dinheiro dos impostos dos cidadãos para a promoção pessoal e tenta esconder o que por lei é público. É só ver a quantidade de informações lacradas por 100 anos, incluindo até mesmo sua carteira vacinal, os encontros que teve com o mensaleiro Valdemar Costa Neto, presidente do PL, partido ao qual se filiou, e o número de vezes que seus filhos foram ao Palácio do Planalto.

Sem contestação legal, Bolsonaro colocou na rua a campanha pela reeleição no segundo dia de mandato – e acelerou. A utilização de recursos públicos para fins de sua promoção pessoal cresce em volume e intensidade de acordo com o calendário eleitoral. Fora os passeios de motocicleta, que agora devem replicar o esquema de São Paulo, com o candidato do coração ao governo do Estado à tiracolo, Bolsonaro tem intensificado os ataques a Lula nos palanques pelo Brasil afora.

Protege-se com o discurso gaiato de que não faz campanha eleitoral porque ninguém pede voto. Não é bem assim. Em entrevistas a rádios do interior a reeleição é tema recorrente. Em um palanque no Pará, chegou a mostrar ao público uma camiseta com os dizeres “Bolsonaro 2022”, algo terminantemente proibido. O modelito atual, que apareceu no passeio paulista, retira os dois primeiros algarismos, mantendo o 22, o número do PL, que estará estampado na urna eletrônica. Coisa de malandro. Se alguém questionar, dirá que se refere ao ano em curso.

A Justiça, incluindo a vertente Eleitoral, responsável por coibir abusos de poder e garantir isonomia entre os candidatos, nada faz. Deixa-o impune. E há tempos.

Quase todos os dias, Bolsonaro fere a impessoalidade do cargo, colocando-se acima das instituições. Diz que não ultrapassa “as quatro linhas” da Constituição, mas o faz com frequência, a ponto de já ter ameaçado em alto e bom som que não cumpriria ordem de ministros da Suprema Corte. Usa e abusa de uma visão torta de “liberdade” para justificar seus arroubos autoritários contra tudo que o desagrada: STF, TSE, urnas eletrônicas.

E inventou mais uma: garantiu que não vai cumprir a decisão do WhatsApp de só incluir a ampliação das mensagens em massa no aplicativo após as eleições, ação combinada com o TSE para reduzir o alcance de fake news. Só não explicou como pretende descumprir algo que não existe. Portanto, papo diversionista que tem ainda o condão de evitar que a boiada durma.

O interesse pelo tema não é gratuito, até porque ele é o principal beneficiário da geração de notícias falsas, parte delas de sua própria lavra. A começar pela insistência em dizer que não há corrupção em seu governo. Isso mesmo depois de se ver obrigado a afastar da Saúde o seu querido e obediente general Eduardo Pazuello pela folia das vacinas superfaturadas. Ou dos achaques dos pastores a prefeitos no âmbito do FNDE, que acabou por tornar insustentável o também fiel pastor Milton Ribeiro à frente da Educação.

Nos dois casos, há farta comprovação de que Bolsonaro nada fez para evitar o avanço dos assanhados contra o patrimônio público. Ao contrário: é suspeito de prevaricação no episódio das vacinas e de ser cicerone dos pastores lobistas, apresentados por Ribeiro em uma reunião que, para infelicidade de ambos, foi gravada.

Ainda assim, continua impune em todas as searas. Sob a proteção do fidelíssimo procurador-geral da República, Augusto Aras, e sem ação do Ministério Público Eleitoral.

Passa da hora de dar um basta, ou os “acelera Bolsonaro” – disfarçados ou não em Acelera para Cristo – vão se multiplicar.

Conversações sobre o regime em que queremos viver

Um país que se prepara para uma eleição historicamente decisiva precisa colocar em sua pauta os temas desta conversação. Eles mostram que estamos vivendo uma realidade fantasiosa, à beira do abismo. Uma realidade tem como pano de fundo uma sociedade marcada pela violência estrutural, a desigualdade, o racismo e outras formas de discriminação e violência estatal contra os pobres e os direitos básicos das pessoas

Este não é um momento para mudar de assunto, de dar um tempo, de escrever sobre o começo do outono, sobre as pequenas esperanças e aflições que surgem no meio do caminho. Isto faz bem, mas no meio do caminho cresceu e se ramifica um projeto de poder autoritário bloqueando a passagem do futuro. O projeto bolsonarista de um segundo mandato representa uma ameaça real à democracia brasileira e precisa ser enfrentado. Trata-se uma escolha de vida.


Isto que os juristas chamam nos livros de Estado Constitucional de Direito, com maiúsculas, está sendo desconstruído em nossa frente diante da apatia preocupante dos demais poderes da República e da sociedade. Vale tudo. Do elogio da tortura à prática de corrupção e defesa de formas ditatoriais de governo. As anomalias são abertamente manifestadas, diante da omissão de órgãos dos demais poderes encarregados de opor limites aos abusos do executivo.

Aos poucos, os mecanismos de controle institucional e social sobre o governo Bolsonaro foram afrouxados. Exausta, a sociedade parece insensível e assiste sem reação à desembaraçada movimentação dos fascistas no governo.

Basta uma comparação com os mandados de outros presidentes eleitos no período pós-ditadura, em especial Lula e Dilma, para constatar uma nítida diferença. Bolsonaro reduziu a vigilância institucional sobre seu governo, ampliando largamente seu espaço de tolerância na mídia. Do impeachment há muito nem se fala. Um acerto com o presidente da Câmara encerrou a questão. Não se sabe a que preço.

Seu governo é considerado um fracasso político, econômico e social, com inflação e desemprego em níveis catastróficos. Conduzido por uma gestão primária e corrupta, em que ministros e funcionários são escolhidos por afinidades com a igreja evangélica, a extrema direita e os negócios paralelos. Qualquer outro governante estaria sob pressão mais intensa, conforme prescrito pelas leis de funcionamento da democracia.

O capitão investido de presidente limita-se a brincar e a fazer piadas quando indagado. Uma estatal manobra verbas via orçamento secreto, distribuídas para congressistas do Centrão. E daí? Na semana seguinte, Bolsonaro se reúne com pastores do MEC, pivôs de um escandaloso esquema de negócios dentro do ministério da Educação. São fatos que envolvem pessoalmente o presidente, em seguida colocados sob sigilo. Ato de censura que a Constituição proíbe.

Um país que se prepara para uma eleição historicamente decisiva precisa colocar em sua pauta os temas desta conversação. Eles mostram que estamos vivendo uma realidade fantasiosa, à beira do abismo. Uma realidade tem como pano de fundo uma sociedade marcada pela violência estrutural, a desigualdade, o racismo e outras formas de discriminação e violência estatal contra os pobres e os direitos básicos das pessoas.

Constitui um mistério que essa discussão seja mantida à sombra, encoberta pelas pesadas nuvens de uma ditadura que já passou e se arrastam de novo em nossa direção. É uma conversação necessária que não chega às ruas e à mesa do brasileiro. Não transita pelas esquinas, entra nas escolas, nas academias de pilates, nas antessalas dos teatros, nos botequins.

No entanto, está em jogo nossa escolha fundamental sobre como queremos viver, se sob opressão ou se prezamos o direito à liberdade, ameaçada por um sombrio silêncio a respeito do discurso e das práticas autoritárias da caricatura bisonha de um candidato a ditador fascista.

Um clima de violência política espalha-se sorrateiramente pelos ares e corredores, como um gás que sufoca e encobre a visão. Diante dessa tentativa de normalização da barbárie, o historiador e professor da UFRJ Francisco Carlos Teixeira propõe aos democratas uma saída. Diz ele que nesta eleição não vamos simplesmente eleger o novo presidente da República. “O momento histórico que vivemos é de combate ao fascismo. Não educar a opinião publica e ir de imediato para as trincheiras travar essa luta será um erro fundamental.”

sábado, 16 de abril de 2022

Brasil em 365 dias de Paixão

 


O Almirante sem navio!

O orgulho da Marinha russa, o maior cruzador do mundo, construído no tempo da URSS, navio-almirante da Frota do Mar Negro, "Moskva" de batismo, lá se foi. Ao fundo, como na batalha naval. Ainda flutuou, a tripulação foi evacuada, o almirante e o Estado Maior mudaram para a segunda classe, foi rebocado, mas afundou-se. Moscovo, claro, diz que foi um incêndio e uma explosão a bordo. Os ucranianos, 24 horas antes, anunciaram que tinham atingido o navio com dois mísseis. Vá lá saber-se.


O drama, agora, é pungente: como é que um almirante explica que perdeu o navio? Não deve ser fácil. Não é uma peça que se esqueça num carro, num armário, ou que se deite para um caixote do lixo. Será que o incêndio começou na cozinha, com uma frigideira, a alastrou ao paiol? E por azar pegou fogo a um dos mísseis de cruzeiro, preparadinho para ser lançado contra uma cidade ucraniana? Tudo isto é uma grande chatice. Um imenso aborrecimento. Uma saída vergonhosa. Perder dez tanques não custa nada, nem mesmo dez aviões, mas explodir e afundar um navio-almirante dá muito nas vistas.

Este rombo, numa fase tão crítica do plano Z de Putin – já percorreu todo o abecedário – não anima. Só faltava isto. E logo na Frota do Mar Negro, onde se vivia tranquilamente, a milhas de distância da confusão do sul da Ucrânia. Este almirante, sem navio, vai ser purgado. Não há outra forma de explicar este tiro mortal no "Flagship", sempre rodeado e protegido por uma pequena frota.

A fúria de Putin não tem limites. Está amarelo de raiva. Não sabe o que fazer. Enviar o único porta-aviões que a Rússia tem? Talvez sim, talvez não. Ainda fica sem ele, com mais uma explosão e um incêndio a bordo. Esta guerra é um fracasso. Um desespero. Uma maçada. Só más notícias. Péssimas. Tudo poderia acontecer, menos o "Moskva" ir ao fundo.

Como Jair Messias Bolsonaro ameaça o estado de direito no Brasil


Na última quinta-feira, o jornal Le Monde estampou em manchete de primeira página: “Como Marine Le Pen ameaça o estado de direito”. Le Pen é a candidata da extrema direita que disputará o segundo turno da eleição presidencial francesa com Emmanuel Macron, atual presidente, de centro-direita.

Em declaração recente, Le Pen deixou claro o que pretende fazer se eleita. Ela quer governar “livre do controle constitucional, do Parlamento e de uma parte da Imprensa”. Dito de outra maneira: ignorando a Constituição, o Congresso e a imprensa que não compartilha suas ideias claramente antidemocráticas.

Le Pen, pelo menos, é sincera. Não esconde que jogará fora das quatro linhas da Constituição. Quem votar nela não poderá dizer depois que votou por engano. A eleição na França será sobre a democracia, de resto como a do Brasil em outubro próximo. Quando a imprensa, aqui, estampará isso em suas manchetes?

Jornalistas e o ovo da serpente

Relatórios publicados recentemente por entidades do setor jornalístico (Fenaj, Abraji e Abert) revelam uma explosão de violência contra profissionais da comunicação no Brasil. São insultos, ataques físicos, atentados, assassinatos, censura e restrições à liberdade de imprensa.

A hostilidade contra jornalistas é estimulada pelo presidente da República e seus apoiadores. Bolsonaro já quis dar "porrada" em repórter e mandou jornalistas à "pqp". A truculência mira os profissionais e também o jornalismo como atividade essencial à democracia.

Ele não dá entrevistas coletivas formais e ministérios não se dão ao trabalho de atender à imprensa. É um generalizado "E daí?". Não há o menor respeito e compromisso com a informação de interesse público. O presidente se comunica por redes sociais e veículos patrocinados pelo bolsonarismo.

As milícias digitais fazem o resto. Ao jornalismo profissional resta reverberar as barbaridades exaladas por uma máquina de mentiras e mistificações. Tudo isso é método de sabotagem ao papel da imprensa. Faz parte da estratégia da extrema direita em todo o mundo na escalada de processos autoritários.

Um caso brutal aconteceu na noite desta quinta-feira, em Brasília. O jornalista Gabriel Luiz, da Rede Globo, foi esfaqueado perto de casa. É preciso investigar se a tentativa de assassinato está relacionada ao trabalho jornalístico de Gabriel Luiz. Dias antes do crime, ele havia publicado reportagem mostrando um conflito entre moradores da cidade-satélite de Brazlândia e um clube de tiro ao ar livre. Depois da publicação, o repórter informou que o clube fora fechado por oferecer risco à vizinhança.

Em todo o período democrático, nunca vivemos nada parecido. O ovo da serpente eclodiu. A imprensa não pode repetir em 2022 a fraude cognitiva dos dois "extremos" de 2018. Só há um extremista. Não diferenciá-lo dos demais candidatos contribui para a violência contra nós mesmos e contra toda a sociedade.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Um lamento amazônico

Nos últimos dias de uma nova viagem pela Amazônia, leio que o Facebook derrubou uma rede de perfis falsos que espalhavam fake news sobre a região, composta, entre outros, por dois militares da ativa. Lembrei-me de uma das tarefas básicas para salvar a Amazônia de uma destruição irreversível: convencer as Forças Armadas e obter uma sintonia de todas as energias nacionais nesta gigantesca tarefa.

Creio que é necessário intensificar o debate. A visão de desenvolvimento da Amazônia articulada no governo militar não corresponde à realidade dos fatos. Considerar a floresta um inferno verde e supor que o melhor caminho é construir estradas e levar para ali o que chamamos de civilização é equívoco não só econômico, mas também estratégico.

Passei três semanas falando com empreendedores na floresta. Eles são incontáveis na Amazônia, desde produtores de chocolate até criadores de abelhas, dizimadas pela plantação de soja, sem falar em quem trabalha com o açaí e a castanha, dois produtos vitoriosos inclusive no mercado internacional.


É uma região fabulosa para o turismo, com uma infra ainda precária, e tem 15% das águas do planeta. É mais ou menos como ter, no século passado, 15% das reservas planetárias de petróleo. A diferença é que água é vida.

Atuei mais uma vez com as principais ONGs que operam na região e considero um equívoco supor que estejam a serviço de forças estrangeiras que cobiçam nossas riquezas minerais.

Creio que todos esses mitos estão por trás da rede de fake news composta por militares, embora os dois estivessem atuando, ao que tudo indica, por iniciativa própria, sem consentimento da cúpula.

A única saída é atrair as Forcas Armadas para um debate cordial. A Aeronáutica, por exemplo, colocou Jacareacanga no mapa nacional. Construiu um aeroporto no lugar. O nome de Jacareacanga era o destino dos oficiais rebelados contra o governo, na década de 1950. Hoje, Jacareacanga é um lugar onde se explora ouro. Mas o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade é um dos piores do País. Como defender isso?

As populações ribeirinhas de Santarém e de outros pontos do Pará são contaminadas pelo mercúrio no Rio Tapajós. O ouro enriquece poucos e empobrece e ameaça a saúde de muitos.

Creio que é necessário, também, falar um pouco da retenção de carbono. Conheci uma árvore chamada castanha-de-macaco, da família do jequitibá, que tem 1.400 anos de idade e 47 metros de altura. Pesquisa baseada no seu diâmetro indica que, derrubada, ela vai emitir a mesma quantidade de emissões anuais de 4 mil brasileiros. A dimensão econômica da retenção do carbono é uma decorrência de sua importância ambiental.

Não é possível que todos esses argumentos escapem aos militares, que ainda veem a floresta como centro da cobiça estrangeira e concentram suas críticas nas ONGs que, na verdade, são financiadas por indivíduos no mundo inteiro preocupados com o aquecimento global.

Uma das ONGs, a Renctas, por exemplo, dedica-se ao combate ao tráfico de animais. Parece algo simples, mas não é. Os traficantes exportam micos até em garrafas de café. O movimento descontrolado de animais para a cidade é um perigo. Ao lado do desmatamento, é a grande ameaça de novas epidemias.

Sou favorável a uma exposição transparente do trabalho das ONGs. Mas o governo não as vê da mesma maneira. Missionários, por sua vez, atuam ali de forma descontrolada. Relata-se que o encontro do grupo norte-americano New Tribes Mission pode ter trazido doenças para os zoés. Os índios fugiram para a mata e decidiram não se reproduzir, até ganharem confiança novamente. Só recentemente voltaram a nascer zoés.

A razão da disparidade de tratamento é simples: os missionários representam uma posição cara ao governo Bolsonaro e à cúpula militar: a integração e dissolução dos índios na sociedade abrangente.

A ideia de conversar e convencer parece romântica. Mas os fatos demonstram o contrário. Durante a pandemia, governo e ONGs atuaram em conjunto na Amazônia. Avião e barcos do Greenpeace levaram medicamentos, comida, oxigênio. Da mesma forma, no Pará, a ONG Saúde e Alegria, que é dirigida por um médico, trabalhou intensamente na região numa vasta área banhada pelo Tapajós.

Se uma indiscutível emergência foi capaz de quebrar os preconceitos, por que não rompê-los também por meio do debate? A preservação da Amazônia é uma grande causa planetária e pode representar, simultaneamente, uma importante saída econômica para a região.

Do ponto de vista da defesa nacional, creio ser importante também levar às Forças Armadas os dados da nova realidade: aquecimento global, eventos extremos, elevação do nível dos mares. Sem considerar essa realidade, assim como a da guerra cibernética, o País estará se preparando para situações que aconteceram no passado, mas que não se repetem. Não vamos combater de novo os paraguaios, espero. A propósito, no momento em que o noticiário nacional foca nos gastos do Ministério da Defesa, jornais destacam a compra de uma grande quantidade de Viagra e de remédio contra a calvície.

É preciso superar esses problemas conjunturais e chegar à essência do problema: sem a adesão das Forças Armadas, a Amazônia será destruída com mais rapidez e o desmatamento nos levará a um ponto de não retorno.

Governo Bolsonaro faz do Palácio do Planalto um endereço suspeito

Talvez sob o efeito de estimulantes comprados para turbinar as Forças Armadas, militares que cercam Bolsonaro tiveram a ideia de aconselhá-lo a esconder sua agenda de encontros com dois pastores evangélicos investigados por corrupção.


Se ela se tornasse pública um dia, sempre se poderia dizer que os pastores foram ao Palácio do Planalto visitar ministros, Bolsonaro não. E se a desculpa não soasse convincente, que estiveram com Bolsonaro rapidamente para um alô, uma reza, ou um abraço.

Sob o pretexto de que a segurança pessoal do presidente e dos seus familiares não deveria ser posta em risco, decretar-se-ia o sigilo da agenda por 100 anos. É um recurso controverso, mas seria sustentável. Já fora adotado em ocasiões passadas.

Os artífices de mais uma Operação Tabajara se esqueceram de levar em conta duas coisas. A primeira: em ano eleitoral, danos à imagem do governo podem provocar hemorragia de votos. A segunda: a Constituição em vigor fala em transparência.

Parecer recente da Controladoria-Geral da República diz que a agenda de trabalho do presidente deve ser tornada pública em obediência ao princípio da transparência estabelecido pela Constituição. O povo tem direito de saber o que ele faz. Simples.

Às pressas, deu-se então o dito pelo não dito, algo muito comum neste governo. E assim pôde-se saber que em três anos e três meses da profícua gestão de Bolsonaro, os dois pastores estiveram no Palácio do Planalto, ao todo, 45 vezes.

O pastor Gilmar Silva Santos, recomendado por Bolsonaro ao ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, foi 10 vezes recebido em audiência no Palácio do Planalto. Por Bolsonaro? Por Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil e um dos líderes do Centrão?

Por ora, é um mistério. O pastor Arilton Moura esteve no palácio 35 vezes no mesmo período. Não é pouco. Gilmar e Moura foram acusados por prefeitos de cobrarem propina em troca da liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação.

Há 15 dias, o Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República, domínio de Augusto Heleno, o mais vovô dos generais de Bolsonaro, negou informações sobre visitas do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) ao palácio.

Se as paredes do Palácio do Planalto falassem… Mas Heleno dá um jeito para que não falem.

A Ucrânia é aqui

 A cacica Juma Xipaya denunciou na noite de quinta-feira, em vídeo publicado em uma rede social, que a aldeia Karimaa, na Terra Indígena Xipaya, foi invadida por garimpeiros armados. 

É preciso um holofote sobre os segredos de Jair

Jair Bolsonaro gosta de esconder segredos sobre seu governo. Amante confesso de ditaduras e outros regimes autocráticos, o presidente brasileiro resolveu, desde que assumiu, revogar na marra artigos da Constituição sobre a publicidade de atos da administração pública e a Lei de Acesso à Informação.

É preciso um “revogaço” dos atos inconstitucionais que, em vários órgãos, decretam sigilo de até cem anos em toda sorte de informação relevante que, por ser pública, tem de estar acessível.

O Gabinete de Segurança Institucional (GSI), chefiado pelo general Augusto Heleno, tem sido a casa das máquinas da tentativa de Bolsonaro de evitar que atos seus, dos filhos e de auxiliares ganhem a luz.

Nada melhor para garantir transparência a um regime opaco como o de Bolsonaro que aumentar a carga dos holofotes. Diante da publicação das justificativas inacreditáveis para a recusa em fornecer ao GLOBO a lista com todas as vezes em que os pastores lobistas do MEC, Gilmar Santos e Arilton Moura, foram ao Planalto, Heleno teve de retroceder e entregar ao jornal aquilo que é do público por lei.


Mas esse não era um episódio isolado de tentativa de sonegar informações. Desde os gastos com cartão de crédito da Presidência, passando pelo cartão de vacina de Bolsonaro (!), a ordem nessa gestão é manter tudo o possível trancafiado nos porões, se der por até cem anos, para que nem a História possa fazer o justo registro de uma das épocas mais pródigas em retrocessos que o país já viveu.

Não é só o gosto pela escuridão que dita esta política. Claramente existe muito a esconder. Agora que o jogo de esconde-esconde acabou, descobrimos que um dos pastores esteve nada menos que 35 vezes no Planalto, enquanto o outro por lá passou em dez ocasiões. Segundo o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, havia um “pedido especial” de Bolsonaro para atender prioritariamente aos dois chefes religiosos na liberação de verbas na pasta.

O acesso regular de Carlos e Jair Renan Bolsonaro ao palácio, que o general Heleno também se prontifica a manter longe da vista do público, não se deve a saudades do papai, mas à necessidade de construir a partir do Planalto a rede da campanha à reeleição dele, no caso do filho Zero Dois, e de tráfico de influência junto a empresários, no caso do Zero Quatro.

Essas informações são relevantes e urgentes, pois delas dependerá uma série de iniciativas para investigações já requeridas — algumas andando a passos lentos, a contragosto do procurador-geral da República, outras simplesmente abafadas, por obra e graça deste ou do Congresso.

A Lei de Acesso à Informação (LAI), um marco na transparência de dados no Brasil, completou dez anos em novembro de 2021. Ela faculta a qualquer cidadão o direito de solicitar informações aos três Poderes e exige destes a prestação ágil e objetiva dessas informações.

Desde que assumiu, Bolsonaro investe de forma calculada na redução da transparência alcançada com esse e outros institutos legais. Em recente viagem presidencial à Rússia e à Hungria, o governo alugou trituradoras de documentos. Para quê? Quem regulamenta o tipo de papéis que podem ser destruídos numa viagem oficial? A opacidade vai se tornando regra, de forma que esses episódios passem batidos.

As desculpas para decretar sigilo de cem anos a informações que têm de estar ao alcance de todos são as mais estapafúrdias. Tanto que nem Heleno conseguiu segurar o rojão.

Cabe ao Supremo julgar de forma sistemática as várias representações que há contra medidas dessa natureza, reiterar o princípio constitucional da publicidade e que a LAI continua em pleno vigor.

Não pode ficar para depois da eleição, pois o escrutínio do eleitor em outubro tem de se dar de posse de todas as informações sobre o que se praticou nos gabinetes do poder com o dinheiro público.

A hipocrisia por trás da estigmatização política

Nos meses que precederam as eleições de 2018, uma das formas de estigmatizar a esquerda era a de apontar em Lula o apreço pela cachaça. Na verdade, entre os operários do ABC, havia e talvez ainda haja a tradição de ir ao boteco próximo da fábrica e tomar uma dose de pinga.

Em certa ocasião antes de eleito vice-presidente, o general Hamilton, já reformado, confessou a um jornalista seu apreço pelas praias do Rio de Janeiro e pelo prazer de uma cervejinha na praia. Havia um tom de carinho pela bebida, tão próprio da função dos diminutivos em nossa língua.

A cerveja e o vinho têm um lugar decisivo na história social neste mundo ocidental de que fazemos parte. Certa vez, levado por uma amiga antropóloga, fui tomar uma cerveja numa cervejaria de aldeia perto de Frankfurt. Naquele lugar, 500 anos antes, Martinho Lutero, um dos fundadores do protestantismo, fora tomar uma cerveja, de que era aficionado.

Quando ainda papa, Bento XVI, em visita à Alemanha, sua terra, encontrou-se com amigos. Aparece numa foto tomando um canecaço de cerveja. Cristo, que era o próprio filho de Deus, transformou o vinho num sacramento, e o pai dele não estranhou nem um pouco. No entanto, em países como o Brasil, muitos hipócritas, que se dizem cristãos, têm opinião oposta à do próprio Deus.

Na Itália, na França, na Espanha e em Portugal, crianças, desde pequenas, são ensinadas a tomar vinho como parte da refeição. Meus pais, imigrantes ibéricos, ensinaram-me e a meu irmão a tomar vinho, com um pouco de água e açúcar, desde antes dos cinco anos de idade, vinho feito em casa.

De modo que discriminar pessoas que seguem essas divinas tradições é manifestação de ignorância e preconceito. Aqui, um gole de cachaça macula para sempre o perfil de políticos de esquerda, nunca os de direita.


Cachaça na boca do trabalhador significa complemento alimentar. Na boca do mandador, significa usurpação cultural. Quando alguém diz que um trabalhador toma cachaça é para acentuar-lhe na identidade pública a suposta inferioridade social de quem trabalha.

Quando um membro da elite diz que toma cachaça é para fazer supor que é tão ousado que tem a coragem democrática de misturar-se com os subalternos e ingerir a bebida forte dos simples e valentes.

Só que rico não toma cachaça, toma aguardente de cana, que é coisa bem diferente, no mais das vezes submetida a sucessivas destilações em alambiques especiais. É daí que vem a “cachaça tipo exportação”, cachaça de rico, avaliada em dólar e não em pobres reais. Seria interessante vê-los tomar cachaça de boteco e continuar de pé.

O conhecedor dos mistérios e ritos com a cachaça relacionados sabe que o gole de pinga é precedido pelo ato de jogar a primeira talagada “para o santo”, atirando-a para o chão, num gesto disfarçado, como um segredo.

Mesmo que a pessoa não saiba, o “santo” é Exu, a entidade do candomblé que abre caminho e que tem precedência em relação a tudo e a todos, negros e brancos enegrecidos pelo trabalho bruto e mal pago. De modo que o gole de cachaça é comparativamente muito pouco em face do tamanho de uma garrafa de cerveja. Se é para pegar pesado, como se diz, é justo começar pelos da cerveja e não pelos da cachaça.

O Exu, na cultura popular brasileira de influência africana, é o ente dissimulado que responde por uma hierarquia do invisível. Pode estar presente onde menos se espera. Há muitos anos, no bairro do Arriá, na Serra das Araras, num 20 de janeiro, fui a uma procissão de roça, de São Sebastião. Mas à frente não ia o pobre santo todo flechado, cujo sofrimento me causava uma pena enorme. Ia bem lá atrás.

À frente, liderando o cortejo, ia São Benedito, santo preto. Perguntei a uma prima o motivo disso. Explicou-lhe que São Benedito tem precedência porque, se não a tiver, pode atrapalhar a participação dos devotos na cerimônia. Ela não sabia, mas São Benedito, ali, representava Exu.

No período colonial havia uma hierarquia na classificação das aguardentes, todas bebidas de uso medicinal, vendidas na botica, isto é, na farmácia. A própria alimentação de branco era considerada medicinal e oferecida ao escravo quando estivesse doente, como o pão de trigo e a carne de frango. As escravas paridas, nas fazendas cujos documentos estudei, imediatamente após o parto, recebiam um “kit”: frango para reforçar a alimentação, cachaça e pano de baeta para a fralda do bebê.

Até hoje, aliás, entre os pobres, em muitos cantos do Brasil, ficar doente ou ficar grávida é um privilégio porque a pessoa passa, temporariamente, a ser tratada como gente. Numa favela de São Paulo conheci uma senhora que engravidava todos os anos para ser tratada como ser humano num hospital público.

Do general George Patton para o general Braga Netto

Ontem almocei com a turma na casa do Franklin Roosevelt. Ele saiu daí há exatos 77 anos. O presidente estava com a mulher, Eleanor, e a namorada, Lucy. Encontrei o general George Marshall, meu chefe durante a Segunda Guerra, e o Eisenhower, comandante das nossas tropas na Europa. Não sei quem trouxe o assunto, mas a conversa tomou um rumo picaresco: o senhor foi ministro da Defesa, e as Forças Armadas brasileiras compraram 35 mil comprimidos de Viagra. Essa droga não existia no meu tempo, apesar de eu nunca ter precisado dela. Aqui onde estamos, ninguém precisa de estimulantes.

O Marshall estava horrorizado. Ele lembrava que o senhor havia usado seu nome durante a pandemia para fazer publicidade de um programa de gastos do governo. Marshall é um grande sujeito, reservado e casto. Imagine que, em 1943, numa visita a Hollywood, um magnata da indústria cinematográfica pediu-lhe que escolhesse uma atriz para acompanhá-lo ao jantar. Ele atravessou a sala e convidou Margaret O’Brien, uma menina de 6 anos. Ninguém faria mexericos à sua custa.

Não me horrorizei, mas achei a compra esquisita. A imensa maioria da tropa não precisa de Viagra. Fico imaginando um general pedindo ao ajudante de ordens ou à moça da farmácia a sua dose de comprimidos. Situação constrangedora. Imaginei o Eisenhower nessa situação. Digo-lhe isso porque é pública a fofoca de seu caso com a motorista. A Kay era uma irlandesa ruiva, ex-modelo, divorciada e linda. Ela nunca reconheceu intimidades horizontais, e acredito na moça.


Eu gostava de matar inimigos e de dizer palavrões. Dei uns tapas num soldado medroso e fui obrigado a pedir desculpas em público. Fanfarrão? Talvez. Quando eu marchava sobre a Alemanha e cheguei às margens do Rio Reno, mijei nele, com gente vendo e fotografando. Se não tivesse feito isso, passaria o resto da vida me lamentando. Afinal, meus blindados desceram na Itália e só não entraram em Berlim porque me impediram.


Não posso julgar o sistema nervoso dos outros. Para mim, a véspera de combate sempre foi coisa excitante. Sei que o general Lee, comandante dos rebeldes na Guerra Civil Americana, teve diarreia durante a Batalha de Gettysburg, em 1863. Oitenta anos depois, em Stalingrado, o mesmo aconteceu ao marechal alemão Von Paulus. Ambos perderam. No Dia D, em junho de 1944, o Eisenhower estava com os olhos congestionados, e seu ouvido zumbia. O colega Omar Bradley comandou o desembarque com o nariz inchado. Meu sistema é outro, a adrenalina revigora-o.

Depois que nossas tropas entraram em Paris, a saúde dos meus soldados preocupava-me, e sugeri que distribuíssem penicilina para as moças dos bordéis. O Eisenhower, furioso, escreveu-me que a ideia era inaceitável, pois poderíamos ficar sem aquele remédio tão importante. Ele queria proteger a demanda; eu, que conheço a vida, queria controlar a oferta. Imagino o que ele diria se lhe propusessem distribuição de Viagra para uma tropa conquistadora, na França.

Eu me renderia ao primeiro sargento alemão antes de deixar registrado na farmácia do regimento que o general Patton mandou buscar sua cota de Viagra.
É dura a vida de um chefe militar formado na cavalaria em tempo de paz. Passei por isso e sofri muito.

Com meus respeitos, despeço-me porque o sargento trouxe o Big Red para minha cavalgada matinal. Cheguei aqui montado nele.

General George S. Patton

Elio Gaspari

Há uma violência totalitária que subsiste e ameaça

Tão execráveis quanto foram os atos de violência praticados pela ditadura é a tentativa insólita de reescrever a sua história para mudar o passado. História recente que ainda nos assusta, a ditadura não acabou. Sobrevive nas pequenas e grandes coisas que se manifestam no nosso cotidiano, que incluem as feridas e as cicatrizes deixadas nos corpos dos que resistiram.

Iniciada com o golpe de Estado de abril de 1964, a ditadura pode não ter existido, é o que dizem oficiais militares das Forças Armadas que se proclamam revisores da historiografia. A marcha dos tanques para depor o presidente Goulart foi relembrada neste 1º de abril com protestos de organizações da sociedade civil e de grupos de ativistas defensores da Memória, da Verdade e da Justiça, que mantêm ativas suas formas de mobilização, para preservar as imagens do terror e condenar sua repetição.

Nenhuma garantia temos, a não ser a resistência, os atos de desobediência civil e as barricadas. Como continuam fazendo esses movimentos defensores da verdade e da memória, que promovem debates, montam acampamentos em frente ao prédio do Dops, produzem documentários e espetáculos teatrais nas universidades. São grupos que se intitulam Coletivos pela Memória, Verdade, Justiça e Reparação.

A Comissão da UFRJ criou e produziu uma série audiovisual denominada Histórias Incontáveis, envolvendo diversas coletividades atingidas pela repressão. Os episódios são debatidas em público tendo como narradores testemunhas dos acontecimentos. Cada documentário transmite imagens da violência da ditadura contra essas comunidades, sejam de negros, mulheres e povos indígenas.

Nos postos do governo e fora dele, os mesmos inimigos da democracia apontam suas armas e atacam com a desfaçatez de sempre, usando os poderes e os instrumentos de manipulação e coação de que dispõem. Creem que com a violência de apagar seus crimes anteriores, eliminam da Historia a violência real do terrorismo de Estado insepulto, agora em busca de mais um mandato totalitário.


Chefes militares adestrados divulgam ordens do dia virtuosas em que se passam por democratas, escondendo todo o atraso e a sujeira que deixaram. Suprimem as prisões e a tortura, os atos institucionais, os ataques à cultura. Copidescam a longa noite de arbitrariedades, os banimentos e as condenações à prisão perpétua. Nada disso consta das notas forjadas nos antigos quartéis. Os generais querem adulterar a História pela via da intimidação.

Vestidos em seus uniformes de guerra, pensam que podem tudo em nome de Deus, das tropas, das milícias, do evangelho, de congressistas, dos indiferentes, dos financistas e dos corruptos que tomaram o Estado. Ao redor, os novos fascistas surgem em profusão. São fascistas de uma espécie nova, sem sequer consciência do significado do termo. Cafajestes e oportunistas, praticam a ideologia defendida pelo líder, que anuncia a redenção totalitária.

Não se arrependeram dos crimes anteriores porque não foram punidos. Receberam a anistia por crimes classificados como imprescritíveis. Na sinistra ordem do dia dirigida a seus parceiros, o ministro da Defesa diz que “no pós-64 a sociedade brasileira passou por um período de estabilização, crescimento e amadurecimento político, que resultou no restabelecimento da paz e o fortalecimento da democracia”. Bolsonaro e Mourão repetiram o mesmo discurso tortuoso e provocativo de negação da história.

Os jovens que foram ao Lollapalooza e proclamaram não aceitar a censura precisam saber que em outros tempos os jovens se opuseram ao regime de arbítrio. Alguns desapareceram, tiveram seus corpos tragados nos subterrâneos do Estado policial. Foram valentes diante das bestialidades. É sobretudo importante que saibam também que aqueles jovens iam a festivais, que as cartas trocadas de dentro dos cárceres entre os namorados contam uma história de amor, resistência e esperança.

Para que as imagens dessa história verdadeira não sejam esquecidas nem destruídas, será necessário preservar os registros que estão nos museus, nas bibliotecas e nos arquivos dos jornais. Tombar os imóveis que guardam as vozes e os gritos sufocados dos prisioneiros. Abrir em especial para os jovens os sonhos e pesadelos daquele reinado de trevas contido nos 21 anos de duração da ditadura.

A eleição presidencial que se aproxima porá a democracia brasileira frente a frente ao fascismo. Talvez seja a mais importante e decisiva de nossa história. De um lado Lula, de outro Bolsonaro. Com os avanços da história, acabou o tempo em que os regimes totalitários aconteciam em países distantes, longe de nossos olhos, durante guerras e confrontos por território. Não é mais na Itália, Alemanha, Espanha, Tchecoslováquia ou Hungria. O totalitarismo está aqui.

Víamos com temor os filmes de denúncia política de Costa-Gravas, como Z e A Confissão. Livros queimados, traições e perseguições, presos interrogados em calabouços, confissões obtidas sob tortura. Pesquisas feitas até agora indicam que Bolsonaro perderá a eleição. Mas ele passará a faixa presidencial a seu sucessor ou dará um golpe antes, tentando de todas as formas impedir que sejam realizadas? Esta realidade precisa ser enxergada, estamos enfrentando um tempo de barbáries pessoais e coletivas.

2022 veio para acabar com nossas (supostas) certezas?

Para a grande maioria da classe política alemã, a invasão russa da Ucrânia foi um choque. Acreditava-se que as relações econômicas com a Rússia evitariam conflitos desse tipo, não vistos na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Mas aconteceu, e trouxe junto graves interrupções nas cadeias de produção e distribuição. Agora temos que repensar toda a estrutura de comércio e cooperação internacional construída durante as últimas décadas.

E há sinais vislumbrando no horizonte de um segundo choque no Ocidente, dessa vez em relação à China. Acreditava-se, como no caso da Rússia, que as interligações econômicas abafariam as diferenças (geo)políticas.

Para a Europa, esse choque de realidade traz um novo espírito de unidade e energiza a cooperação. A União Europeia, como a Otan, também se rejuvenesceu. Teve que repensar as dependências energéticas e seu sistema de defesa.

Mas o ano de 2022 ainda conta com eleições na França e as eleições de meio de mandato (midterms) nos Estados Unidos, que podem dar vitórias a Marine Le Pen e aos republicanos americanos, e assim enfraquecer a posição conjunta atual do Ocidente.


E para o Brasil? Quais são as "certezas" que o ano pode "matar"?

Primeiramente, a de que o setor financeiro brasileiro entraria numa época de juros baixos, seguindo o mundo afora. Mas, ao contrário, a Selic está em 11,75% e subindo, entrando em patamares vistos nos governos Dilma e Temer. Claramente, a inflação deriva de um problema na oferta, e não na demanda. Assim, diminuir a demanda ainda mais, através de juros altos, não parece a resposta certa.

E não se esperava isso de um governo cuja política econômica é guiada por um "neoliberal" como Paulo Guedes. Com a Selic alta e as sequelas da guerra na Ucrânia, bem como os efeitos da pandemia, está de volta um real mais forte, surpreendendo a maioria dos especialistas.

Outra surpresa é a força do presidente Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. Em parte, deve-se isso ao fracasso da "terceira via", que até agora não conseguiu oferecer uma alternativa viável. Antes, vislumbrei uma divisão em "terços": um terço da população apoiando Bolsonaro, um terço fiel a Lula e o outro terço buscando uma terceira via. Seria esse terceiro terço que decidiria as eleições de outubro.

Parece que tanto a desastrosa resposta do governo à pandemia quanto os atuais problemas econômicos não atingem tanto Bolsonaro como muitos esperavam. Se ele conseguir convencer os eleitores de que são problemas externos e, portanto, não gerados por ele, suas chances de reeleição aumentam significativamente.

Por outro lado, me surpreende a lentidão de a candidatura de Lula se concretizar. Por que tanta hesitação em falar claramente que é candidato, quando todos já sabem que ele é? Até agora, não se vê uma agenda clara de um eventual governo Lula parte 3.

E por que falar abertamente a favor do aborto e da demissão dos militares do governo? A questão do aborto é desnecessária, já que é o Congresso que decide o tema, e não o governo. Em relação aos militares, é óbvio que Lula não quer ter 8 mil fardados em seu governo. Mas por que "ofender" os militares publicamente?

Será que Lula, a velha raposa, o animal político, perdeu seu faro? No fim do ano passado, uma vitória de Lula parecia certa. Agora a corrida parece surpreendentemente aberta.

Nesta semana, o poderoso Bayern de Munique, que forma a espinha dorsal da seleção alemã, foi eliminado da Liga dos Campeões pelo time do Villarreal. Não dá nem para ter certezas no futebol. Teremos surpresa na Copa do Catar, em dezembro? Fecharia este ano tão surpreendente com chave de ouro.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

A felicidade não se compra

Esse é o título em português do filme de Frank Capra “It’s a wonderful life”, obra que consolida o cinema como capaz de competir com a melhor literatura. Capra confessa em sua autobiografia, “The name above the title” (“O nome acima do título”), que investiu nele “tudo o que era e tudo o que sabia”.

No fim da Segunda Guerra Mundial — ele serviu no Departamento de Propaganda —, Capra estava afastado do ambiente ultracompetitivo de Holywood e, perto dos 50 anos, apostou na história “The greatest gift” (“O maior presente”), um conto de Van Doren Stern inspirado num sonho e, em 1943, rejeitado por revistas e divulgado pelo autor em 200 cartões de Natal. Foi assim que virou filme a história do pai de família quebrado, como muitos neste Brasil de 2022, que tenta se matar, mas a quem um anjo, enviado pelas preces dos seus entes queridos, realiza o milagre de fazer ver a falta que sua existência faria caso não tivesse nascido e vivido — nosso maior presente.


O filme é enquadrado pela visão americana do Natal, mas vai muito além. É, sobretudo, uma crítica aos dois lados do capitalismo. O do banqueiro egoísta, preso a uma cadeira de rodas, símbolo da mais-valia de todos os que amam o poder pelo poder; e a do herói, herdeiro sem querer de uma frágil cooperativa que socializa o dinheiro financiando casas para trabalhadores e imigrantes (Capra foi um imigrante paupérrimo). A cooperativa opera como nossos “bancos de habitação”, sempre canibalizados pelos populismos de direita e esquerda.

O filme também especula sobre um intrigante problema filosófico. A questão de ver o mundo em que se viveu sem nele ter nascido. Um exercício que, inconscientemente, praticamos. Um olhar duplo. No primeiro, o real; no segundo (graças ao milagre da imaginação), as mesmas pessoas, mas sem nossa presença. Essa possibilidade de assistir a uma impossível saída da vida que vivemos é a melhor prova do poder do cinema que jamais vi no cinema. Seu clímax ocorre quando o herói — prestes a se suicidar — revê milagrosamente sua existência e a implora de volta. Precisamente porque compreende que todos somos fabricados por sofrimentos e dificuldades.

É quando Capra prova quanto tocamos em inúmeras outras vidas. “A felicidade não se compra” é um filme revelador de que ser é melhor do que ter.

O que tem isso a ver com “nosso Brasil”, em plena ebulição de venda de felicidade eleitoral, em que, nós, pessoas comuns, somos obrigados a ver, ouvir e eventualmente “comprar” uma entrada (ou voto) nesse filme de politicagem, encontros e desencontros que tipificam essas transições de poder político e institucional?

Arrisco-me a dizer que o filme é um contraponto a essa busca eleitoreira obviamente marcada pela falsidade, porque ilusória e repetitiva, em que vidas duplicadas e contrárias a seus propalados ideais polarizam-se como resultado de um populismo estrutural que só pode levar à insinceridade e ao engodo — um autoengano.

Vejam os heróis-candidatos e como eles retornam a suas “primeiras” vidas, tentando refilmá-las como se elas fossem coerentes com o que fizeram e fazem numa viagem de cinema... Pois, tanto de um lado quanto do outro, houve uma cilada em colocar em prática os ideais que pregavam e prometiam praticar.

Aliás, eles não se opõem, mas se completam, pois, sem a corrupção lulopetista, não haveria nenhuma chance para esse bolsonarismo, cujas marcas são a confusão, a violência, o caos e a negação.

Filme é filme, realidade é realidade. Mas existem princípios morais que comandam a prática política? Ou só vale fazer tudo para ganhar e “tomar o poder”? Há coerência na vida social, ou somos todos tão presos a nossos interesses quanto os candidatos que — sem dúvida e com as devidas, mas cada vez mais raras, exceções — se aventuram a disputar papéis muito acima de seus talentos?

Pensamento do Dia

 


Bolsonaro consagra o cinismo na política

É difícil ser humano. Estamos meio que condenados a nos equilibrar precariamente entre o apego a princípios e os imperativos da realidade. Se tratamos tudo como um embate moral, o risco é nos tornarmos fanáticos, daqueles que punem o menor deslize com a fogueira. Se consideramos que tudo é negociável, o perigo é nos convertermos em cínicos, daqueles que pregam o relativismo absoluto.

É difícil aqui fugir ao conselho, algo acaciano, de Aristóteles, segundo o qual a virtude está no meio. Não podemos nem ser tão moralistas que não consigamos construir soluções negociadas, nem tão relativistas que não reconheçamos qualquer hierarquia nos valores. O Brasil vem fracassando miseravelmente nessa busca pelo equilíbrio.


Jair Bolsonaro jamais deveria ter sido eleito presidente. O fato de isso ter ocorrido, porém, faz parte dos riscos inafastáveis da democracia. De vez em quando, o eleitorado elege um completo despreparado. Tem até algum efeito didático, já que ensina que, embora votos individuais tenham peso irrisório num pleito, as escolhas coletivas fazem enorme diferença.

Nossa grande falha moral foi não ter submetido Bolsonaro a um impeachment, mesmo depois de ele ter jogado contra o país na pandemia e ter repetidamente ameaçado as instituições. Separadas, cada uma dessas situações já teria justificado a destituição; juntas, num universo decente, elas a tornariam obrigatória. O Congresso, porém, preferiu fechar os olhos para as transgressões do presidente.

Apesar disso, minorias de parlamentares ainda conseguiam esboçar algum tipo de reação. Vimos isso na CPI da Covid. Mas, agora que Bolsonaro se deu para o centrão, a minoria não consegue mais nem criar uma CPI. Assinaturas são, sabe-se lá por quais mecanismos, retiradas. E Bolsonaro ainda mostra fôlego nas pesquisas. Definitivamente, estamos nos tornando um país de cínicos, daqueles que sabem o preço de tudo e o valor de nada.

Democracias sob ameaça

O mundo tem assistido, nos últimos dias, a um verdadeiro assassinato de um país, uma nação, um povo e uma democracia. O responsável é outro país, autocrata, chefiado por um aspirante a ditador, que governa com mãos de ferro há mais de 20 anos, com interesses dos mais espúrios existentes. Vladimir Putin invadiu a Ucrânia e vem destruindo o país, que levará décadas para se reconstruir e gastará bilhões de dólares para isso; porém nada pagará as vidas perdidas. Isso é incalculável.

Na mesma toada da invasão, Putin ameaçou outros países que fazem fronteira com a Rússia e a Ucrânia, caso aderissem à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ou interferissem na guerra. Ele ameaça também cortar o fornecimento de gás para a União Europeia. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, não se via uma escalada tão grande do perigo de uma grande guerra, incluindo a possibilidade do uso de armas nucleares por parte da Rússia.

A Ucrânia sofreu muito no século passado e vinha tentando se recuperar, após retomar sua independência em 1991, com o fim da União Soviética. O regime ditatorial soviético foi o responsável por duas grandes tragédias no país: o Holodomor matou de fome milhões de ucranianos entre 1932 e 1933. Em 1986, houve o acidente nuclear de Chernobyl — até hoje não se sabe ao certo o tamanho dos estragos ambientais e o número de vítimas. Após vivenciar tudo isso no século passado, o país vinha tentando se reerguer, mas sofre com o assédio de Putin desde 2014, quando houve a invasão da Crimeia, que segue até hoje sob o domínio russo.


Nós, do movimento Democracia sem Fronteiras, desde 2019 chamamos a atenção para as graves ameaças que as democracias vêm sofrendo no mundo. Diversos países retrocederam nas liberdades individuais, religiosas, de imprensa e nos direitos humanos. A Rússia é uma das grandes responsáveis por essas violações. As sanções aplicadas pelos outros países, acertadamente, tentam resolver por via econômica e diplomática a guerra. Acreditamos que elas deveriam se estender aos demais países que hoje violam direitos.

Além da guerra na Ucrânia, temos conflitos na Síria, no Iêmen, no Iraque, no Afeganistão, na Nigéria e em diversas outras partes do mundo. São centenas de milhares de vidas perdidas nesses conflitos, milhões que deixam suas casas para fugir de bombardeios. Sem contar os outros milhões que vivem sob os regimes autoritários. Diante de tudo isso, nos perguntamos: nossas democracias estão em perigo? Estamos seguros? Parece que não. Um conflito dessa magnitude no coração do “mundo civilizado” (Europa) era imaginado?

Devemos ficar vigilantes contra as violações à democracia, às liberdades de imprensa e religiosa e aos direitos humanos e contra o perigo de guerras. Nosso movimento busca chamar a atenção do Brasil e do mundo para isso com ações constantes.