sexta-feira, 28 de maio de 2021

Domingo de louvor ao vírus

Para o jornal inglês The Guardian, a manifestação de motos comandada por Bolsonaro foi obscena. Para quem observa o cenário nacional, ele foi também um marco que vai definir expectativas para os próximos meses.

Com Bolsonaro, no palanque da manifestação, estava um general da ativa, Eduardo Pazuello. A reação do Exército a essa violação de suas regras ainda é uma incógnita. O Ministério da Defesa ia se pronunciar, mas foi proibido de fazê-lo por Bolsonaro. Tanto Bolsonaro como Pazuello são perfeitamente conscientes da provocação que lançaram.

Bolsonaro costuma se referir ao Exército como “o meu Exército”. Todos sabemos que o Exército é uma instituição que pertence ao País. Bolsonaro quer demonstrar que ele manda e pode até romper com o regulamento militar.

Se o Exército responder como se espera que responda, Bolsonaro terá de aceitar a punição de Pazuello e reconhecer mais uma vez que não consegue impor sua vontade pessoal. Se o Exército não responder, Bolsonaro sentirá que deu mais um passo no controle do poder. O que seus aliados nas ruas pedem, um avanço sobre instituições democráticas, seria mais viável nesse cenário.

Não só nos próximos meses, como na própria eleição de 2022, Bolsonaro vai se sentir à vontade para contestar o resultado das urnas e impor sua vitória, com movimentos parecidos com o ataque ao Capitólio, nos EUA. Não é um cenário fácil. Uma ruptura com a democracia nesse momento radicalizaria o isolamento internacional do Brasil.


As tentativas de Bolsonaro de ampliar seu apoio resultaram numa viagem ao Equador para a posse de Guillermo Lasso. Mas ela foi apenas uma revelação da dramaticidade desse isolamento, não só pela relativa importância do Equador, mas também pelo fato de que Lasso pode ser um conservador do mesmo estilo de Piñera, no Chile, isto é, mantendo certa distância da extrema direita. Se o Exército brasileiro aceitar essa aventura, vai entrar em choque com a própria população e o Estado será forçado a cometer barbaridades para se impor.

A ida de Pazuello e um grupo de militares para o Ministério já foi de uma grande irresponsabilidade histórica. Pazuello não é médico, desconhece o SUS, ignora o que se sabe sobre o vírus e nem sequer conhece o medicamento que foi levado a prescrever, a cloroquina. O resultado é conhecido de todos e não pode ser apagado pelas mentiras contadas na CPI.

O que leva militares a ocupar postos para os quais não estão preparados? A mística de que basta ser militar para resolver os problemas?

Na verdade, ao levar quase 3 mil militares para o governo, Bolsonaro exerce sobre eles a mesma atração que fascina os partidos fisiológicos. Os fisiológicos ocupam os cargos com claros interesses materiais. Mas os militares também estão sendo beneficiados, ampliando com altos salários os seus soldos. Recentemente o governo baixou portaria acabando com o teto salarial para um restrito grupo, entre eles os generais do Planalto.

Essa convergência entre militares e Bolsonaro se dá num momento de pandemia. A posição do governo é negacionista. Pazuello assumiu o ministério com esse espírito, a disposição de dificultar a compra das vacinas, porque, na visão negacionista, um remédio milagroso pesa mais do que investir em imunização. Em torno do meio do ano, o Brasil já terá perdido meio milhão de pessoas para a pandemia, segundo previsões da Universidade de Washington.

Não só a opinião pública nacional, mas o mundo inteiro sabe que existe uma condução negacionista e ela tem peso no número de mortes. Associar-se a essa política nefasta num contexto de ruptura democrática é um salto no escuro com consequências muito mais perenes do que o próprio regime ditatorial de 1964.

Não posso imaginar quantas gerações seriam necessárias para reatar os laços e curar as feridas. Já temos hoje 450 mil mortos, tratados com desprezo, sem nenhuma empatia ou solidariedade oficial.

Finalmente, é necessário perguntar: o que leva alguns militares a acharem que isso vá dar certo, que essa experiência tenha alguma viabilidade histórica?

O melhor caminho para os militares já foi trilhado pelos generais Santos Cruz e Rêgo Barros: retirada com dignidade e a tentativa permanente de dissociar o Exército, instrumento de Estado, de um governo/ideologia envenenado por concepções anticientíficas,

Não é possível encarar o Brasil apenas a partir das vantagens materiais que o governo proporciona. Há muitos políticos que fazem isso. Mas entrar na política para repetir velhos erros dos próprios políticos, mentir descaradamente, afrontar a própria instituição, não é isso que se esperava de quadros das Forças Armadas.

Alguns generais cooptados pelo governo Bolsonaro interpretaram a política como uma orgia na qual se podem mover sem nenhuma responsabilidade. São os neocínicos, uma categoria que merece análise especial, pois chegou envolvida numa retórica de novidade e decaiu sem chegar a florescer.

O domingo de louvor ao vírus é um marco e, ao mesmo tempo, um enigma: cairemos na escuridão permanente ou estamos chegando ao fim do túnel?

Paisagem brasileira

 


Brasil, território da escassez

O governo que sabotou a compra de vacinas em variedade e quantidade desmoralizou o Programa Nacional de Imunização e também envenenou os brasileiros com o vírus da discórdia. No país outrora capaz de vacinar mais de dois milhões de pessoas por dia, a ação deliberada de adiar a contratação de imunizantes pavimentou a escalada das mortes e, de quebra, multiplicou desvios éticos e morais pela prioridade na fila. Individual ou coletivamente, “quando o jeito é se virar, cada um trata de si, irmão desconhece irmão”. Nos versos do poeta do samba, Paulinho da Viola, o resumo do Brasil de Bolsonaro, território da escassez.

A CPI da Covid mal completou um mês, e a responsabilidade do governo federal, por atos, omissões, inépcia ou incompetência, na política de vacinação está clara. Ontem, o depoimento de Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, foi outro que jogou luz sobre a ação deliberada do presidente da República para desqualificar, desacreditar e adiar a assinatura do contrato de compra da CoronaVac, parceria com o laboratório chinês Sinovac. O sim à primeira oferta, feita em julho, garantiria ao país 60 milhões de doses ainda no último trimestre de 2020. Mas o contrato de 46 milhões de doses só foi formalizado em janeiro deste ano, sob intensa pressão política e quando a variante P.1, mais transmissível, já circulava em Manaus e, na sequência, país afora.

Antes disso, os brasileiros já ouvíramos do presidente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, que a farmacêutica entregaria 1,5 milhão de doses ainda em 2020. A proposta apresentada em fim de agosto previa também o envio de mais três milhões de doses no primeiro trimestre deste ano. Foram cinco ofertas recusadas ou ignoradas até fevereiro de 2021, quando houve a contratação de cem milhões de doses. O primeiro lote da vacina Pfizer, com um milhão de doses, só desembarcou no Brasil em fins de abril. E até junho, segundo informação do Ministério da Saúde, está prevista a entrega de mais 14 milhões de doses.


No depoimento à CPI, o ex-ministro Eduardo Pazuello informou que partiu da Casa Civil, chefiada à época pelo general Braga Netto, hoje titular do Ministério da Defesa, a decisão de aderir à Iniciativa Covax Facility pela cota mínima de 42 milhões de doses, suficientes para imunizar 10% da população brasileira. A Organização Mundial da Saúde permitia reserva equivalente à metade dos habitantes — 210 milhões de doses, portanto.

A vacinação no Brasil caminha lentamente, porque o governo quis assim. O presidente e seus cúmplices apostaram em tratamento precoce ineficaz, na farsa da imunidade de rebanho por contaminação, no boicote ao isolamento social, em detrimento da vacinação. Vice-presidente da CPI, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) diz que a linha de investigação sobre vacinas foi esclarecida no primeiro mês da comissão. “Houve omissão criminosa que levou os brasileiros à morte”, resume. O país chega ao fim de maio com apenas 10% da população completamente imunizada, com duas doses de vacina aplicadas. Em março e abril, a população atravessou o bimestre mais letal da pandemia iniciada um ano antes. Quase 460 mil brasileiros já perderam a vida para a Covid-19. É certo que milhares estariam vivos, se houvesse vacinação em escala desde a virada do ano.

“Não consigo pensar em nada que não passe pela ideia de necropolítica. Se tivéssemos mais vacinas, não enfrentaríamos novas cepas, não perderíamos tanta gente”, desabafa Alexandre Silva, doutor em Saúde Pública e membro do grupo de trabalho Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Ele aponta quatro erros graves no enfrentamento à pandemia via imunização: desconhecimento do tamanho da população nos diferentes municípios, atraso sistemático na distribuição de doses, falta de alinhamento entre União, estados e municípios. Por último, a fragilidade dos pactos para determinar os grupos prioritários, que acabaram adicionados ao Plano Nacional de Imunização por pressão política, judicialização ou voluntarismo de governadores e prefeitos.

A escassez de vacinas e o vaivém de critérios — ora profissionais de saúde da linha de frente e idosos, ora todos os trabalhadores da saúde, da educação, da segurança pública, ora quilombolas, ora gestantes — jogaram na várzea um debate técnico. “Tínhamos de priorizar quem mais precisa. Isso passa por idade, algumas ocupações, mas também por CEP. A vulnerabilidade de quem mora em periferias e favelas, de quem se espreme no transporte público é conhecida”, argumenta Silva.

Não foi assim. A fila tornou-se incompreensível. Assim, jovens estudantes de uma anabolizada área de saúde são vacinados antes de brasileiros adultos em plena atividade. Por isso, pipocam denúncias de médicos distribuindo atestados de comorbidade para pessoas saudáveis se vacinarem, enquanto seis em dez idosos que tomaram a primeira dose não apareceram para a segunda. Não há campanha para estimular a vacinação, e, ainda ontem na CPI, parlamentares governistas seguiam lançando desconfiança contra a CoronaVac e repetindo informações falsas sobre administração de cloroquina contra a Covid-19.

No Programa Nacional de Imunização que conhecíamos, brasileiros não precisavam competir nem violar princípios éticos por vacina. Os fura-filas do lobby e da fraude também estão na conta do desgoverno.

Um governo de charlatões

A imprensa dividiu os integrantes do governo Bolsonaro em duas alas: técnica e ideológica. Na prática, temos apenas um grupo de incompetentes e outro de charlatões. E este segundo é de longe o pior.

Os incompetentes deixam claros seus erros, suas limitações. Em geral, são figuras histriônicas, que ganham espaço não pelos seus feitos, mas pelo espetáculo que produzem. Weintraub, na educação, era dessa ala. Eduardo Pazuello é também um incompetente. Com três estrelas, mas um incompetente que nunca se esforçou para mostrar o contrário.

O problema maior é a ala dos charlatões e este governo está cheio deles. Segundo o dicionário, é um indivíduo que vende remédios milagrosos; que explora a boa-fé do povo, profissional inescrupuloso, enganador. O charlatão conhece o seu métier, tem vocabulário rico e apropriado e usa seu conhecimento para enganar.

Há vários exemplos, mas nada se compara à secretária do Ministério da Saúde, a médica Mayra Pinheiro. Seu depoimento na CPI da Covid mostra por que tantos brasileiros engoliram a falácia do tratamento precoce. A Capitã Cloroquina mente com propriedade, passa a impressão de que domina tecnicamente os assuntos pelos quais têm responsabilidade, cita estudos, manipula informações de entidades internacionais.

Cada mentira, dita com a voz tranquila e acolhedora, acertava o coração de um tiozão do Zap espalhado pelo país. Imagine isso multiplicado milhões de vezes nos grupos bolsonaristas. Mayra Pinheiro usou a CPI como palanque e saiu de lá ovacionada pelos negacionistas.

O charlatanismo, até que se prove o contrário, vale a pena e foi institucionalizado. Na quarta-feira, a CPI aprovou requerimento para que sejam ouvidos “especialistas” a favor e contra o uso de remédios como a cloroquina. Daqui a pouco o Senado coloca em discussão se a Terra é mesmo redonda porque tem quem ache que não é.goliram a falácia do tratamento precoce. A Capitã Cloroquina mente com propriedade, passa a impressão de que domina tecnicamente os assuntos pelos quais têm responsabilidade, cita estudos, manipula informações de entidades internacionais.

Cada mentira, dita com a voz tranquila e acolhedora, acertava o coração de um tiozão do Zap espalhado pelo país. Imagine isso multiplicado milhões de vezes nos grupos bolsonaristas. Mayra Pinheiro usou a CPI como palanque e saiu de lá ovacionada pelos negacionistas.

O charlatanismo, até que se prove o contrário, vale a pena e foi institucionalizado. Nesta quarta-feira (26), a CPI aprovou requerimento para que sejam ouvidos “especialistas” a favor e contra o uso de remédios como a cloroquina. Daqui a pouco o Senado coloca em discussão se a Terra é mesmo redonda porque tem quem ache que não é.

Democracia de militares

Vocês [militares] é que decidem, em qualquer país do mundo, como aquele povo vai viver. Ninguém está aqui para fazer discurso político, mas somos seres políticos. Se Deus deu essa missão para nós, vamos aproveitá-la no bom sentido
Jair Bolsonaro

Presidencialismo de submissão

O Ministério da Economia editou uma portaria para dar ares de legalidade às manobras destinadas a permitir que congressistas aliados do governo de Jair Bolsonaro possam determinar o destino de vultosos recursos orçamentários, definição que caberia ao Executivo.

Como o Estado revelou, o governo permitiu que, no Orçamento do ano passado, parlamentares de sua base interferissem diretamente na gestão de R$ 3 bilhões, alocados ao Ministério do Desenvolvimento Regional. Esse dinheiro se origina das chamadas emendas do relator-geral do Orçamento, conhecidas pela sigla RP9.

Por lei, a RP9 se presta somente a remanejar recursos no Orçamento, com o objetivo de fazer correções na elaboração final, em geral para reparar algum erro técnico. Em nenhum momento essa emenda especifica em quais projetos o dinheiro deve ser empenhado, pois se trata de atribuição do Ministério para o qual a verba foi distribuída.

O Congresso tentou impor a destinação das emendas de relator, mas o presidente Bolsonaro vetou o dispositivo, alegando, com razão, que o texto “investe contra o princípio da impessoalidade que orienta a administração pública ao fomentar cunho personalístico nas indicações e priorizações das programações decorrentes de emendas, ampliando as dificuldades operacionais para a garantia da execução da despesa pública”. Obviamente, não foi Bolsonaro quem escreveu essa justificativa, e sim algum funcionário com noção mínima do manejo da coisa pública, que o presidente nunca teve.

O veto continua em vigor, mas a natureza bolsonarista também: para driblar sua própria determinação e assim agraciar aliados no Congresso com verbas, o presidente permitiu que se elaborasse um mecanismo pelo qual os governistas pudessem direcionar o dinheiro da RP9 para obras eleitoreiras.

Depois que o esquema veio à luz, gerando justificada e geral estupefação, o governo tentou desmentir o que os documentos atestavam. Sem sucesso, agora baixa uma portaria para regularizar a prática – ou para “legalizar a bandalha”, como bem qualificou o economista Gil Castelo Branco, da Associação Contas Abertas.

O malabarismo normativo do governo não anula a essência do escândalo: o governo entregou dedos e anéis ao Congresso, em particular ao Centrão, hoje senhor do destino de Bolsonaro.

O presidente abriu mão de vez de qualquer papel na administração, assumindo tão somente a função de animador de reacionários e vivandeiras. Como disse o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello na CPI da Pandemia, o que Bolsonaro vocifera é apenas “coisa de internet”, que não se traduz em ordens ou diretrizes dentro do governo. Quem manda é o Centrão.

Isso ficou claro também no modo como o governo foi apenas coadjuvante, sentado no fundo da sala, nos debates que resultaram no projeto de privatização do sistema Eletrobrás. Permitiu que os parlamentares contrabandeassem “jabutis” que, na prática, determinam como o governo deve gastar parte dos recursos oriundos do negócio. E não é por acaso que uma gorda fatia desse dinheiro ficará sob administração da Codevasf – a estatal do São Francisco que, sob administração do Centrão e com as bênçãos de Bolsonaro, incluiu cidades a centenas de quilômetros do rio e recebeu também boa parte do dinheiro das manobras orçamentárias.

Caracteriza-se assim uma nova etapa na degradação do chamado presidencialismo de coalizão, que marca a política brasileira desde a redemocratização. Depois de ter sido rebaixado a presidencialismo de cooptação com o lulopetismo, agora se transformou em presidencialismo de submissão – em que o presidente se torna vassalo do Congresso.

O modelo bolsonarista nada tem a ver, por exemplo, com a Presidência de Michel Temer, que trabalhou com o Congresso para, de fato, promover reformas requeridas pela nação. Então, a relação era de compartilhamento de poder, reduzindo muito o custo da governabilidade.

Já no caso de Bolsonaro, o presidente decidiu ser mero despachante do Centrão, na expectativa de que o Congresso não o amole enquanto ele brinca de mandão.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

A velha truculência da ditadura, em pleno século 21

Parece coisa do Brasil da ditadura, mas aconteceu no Brasil de 2021. O servidor federal de carreira e sociólogo Celso Rocha de Barros foi convocado a depor pela Polícia do Senado por ter escrito um artigo criticando senadores que defendem o governo na CPI da Covid. Essa foi a parte da notícia que chegou aos jornais. O que não se sabia até hoje é que a truculência foi além.

Num dia da semana passada, o telefone tocou na casa de um parente dele. Na ligação, pessoas não identificadas “sugeriram”: se ele apresentasse um pedido de desculpas por escrito, talvez desse para evitar as consequências legais do que publicara. Em sua coluna na “Folha de S.Paulo”, Rocha de Barros disse que os senadores Eduardo Girão (Podemos-CE) e Luis Carlos Heinze (PP-RS) buscam tumultuar a CPI mentindo sobre medicina e cloroquina, formando um “consultório do crime” a favor de Bolsonaro.

Dias antes, foi o professor da Universidade de São Paulo (USP), Conrado Hübner Mendes, que se surpreendeu com a represália a um artigo seu, também publicado na “Folha”. O professor, que costuma se referir ao procurador-geral da República, Augusto Aras, como “poste-geral da República” em suas redes sociais, escreveu que o PGR, que tem como função fiscalizar e investigar as condutas do presidente, é omisso e trabalha o tempo todo para impedir que se apurem as condutas de Bolsonaro na pandemia. Aras não gostou e entrou com uma queixa-crime na Justiça e com uma representação na USP, pedindo que o conselho de ética julgasse o comportamento do professor Mendes.


São os casos mais recentes, mas não isolados. Desde 2019, a Lei de Segurança Nacional — criada pela ditadura para coibir atentados à segurança e à soberania nacional — já foi usada para justificar a abertura de 77 investigações, bem mais que as 44 dos quatro anos anteriores. Pelo menos 12 foram abertas a pedido do próprio Ministério da Justiça, contra políticos e jornalistas que manifestaram críticas a Bolsonaro.

O próprio Aras já processou criminalmente outro jornalista que o criticou por ser leniente com o governo de Bolsonaro. Até agora, não ganhou. E a vitória deve ficar ainda mais difícil depois que o próprio ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes mandou realizar uma operação de combate à corrupção no Ministério do Meio Ambiente sem comunicar a Aras. Por confiar na combatividade da PGR para investigar o governo é que não foi.

A Constituição brasileira tem dois artigos que garantem a liberdade de expressão, de imprensa, de crença e de convicção política, mas os senadores e o poste, ops, o procurador-geral da República, se julgam acima da lei. Evocam respeito a suas autoridades e às instituições que representam, mas esquecem que, quando se dispuseram a exercer funções públicas, sendo remunerados com dinheiro público, (supostamente) para servir ao público, colocaram-se voluntariamente sob o escrutínio… público.

A eles é dado, como a todo cidadão, o direito à reparação e à indenização por calúnia e difamação na esfera cível. Mas, pelo menos até agora, não lhes é dado impedir que outros cidadãos lhes façam críticas, mesmo que ácidas ou supostamente injustas.

Até onde se sabe, não voltamos (ainda) aos tempos da ditadura, quando professores universitários sofriam processos bizarros e eram afastados de seus cargos por razões políticas, e intelectuais recebiam ameaças veladas por suas opiniões e textos em telefonemas anônimos.

Por enquanto, ainda é possível que 88 professores da USP subscrevam as críticas do professor Hübner Mendes num manifesto intitulado “Poste, Servo, Omisso” sem sofrer maiores consequências. Ainda não aconteceu nada ao sociólogo Rocha de Barros, que se recusou a prestar depoimento numa investigação que a Polícia do Senado não tem poder para realizar. E está claro que ainda há, felizmente, muita gente disposta a batalhar pela saúde da democracia brasileira. 

Mas é uma lástima que os mesmos que se dizem preocupados com a imagem de instituições tão importantes para a República como o Senado ou o Ministério Público não se mostrem igualmente empenhados em impedir a disseminação de mentiras sobre remédios sem eficácia para o tratamento da Covid-19. Que não se importem com a esculhambação patrocinada por um governante que promove aglomerações em meio a uma pandemia mortal. Ou que finjam não ver quando o presidente da República ameaça “dar porrada” em jornalistas ou adversários políticos. Para esses, só tem direitos quem tem poder. É gente que age como na ditadura, mas no Brasil de 2021.

Pensamento do Dia

 


Herança maldita

Lula e Fernando Henrique, de máscara, trocando soquinho: a imagem tem muitas camadas, permite várias leituras e com certeza vai ser usada para ilustrar os livros de História sobre o período de trevas que atravessamos — mas a minha primeira impressão, ao vê-la, foi de desagrado. Ela me pareceu ser, mais do que um compromisso com o futuro, o resumo do passado que nos trouxe até aqui. 

Durante boa parte da sua vida pública Lula espinafrou Fernando Henrique sem trégua. Hoje diz que as suas divergências eram “políticas”, mas quem viveu a época e tem alguma memória ousa discordar. 

Impeachment. Fora FHC. Fascistas. Herança maldita. 

A decadência do PSDB começou quando não soube (e não quis) defender o legado de FHC e impor-se como oposição — e é a essa complacência equivocada que a foto remete. 

Para representar uma verdadeira frente ampla, precisaria ter mais personagens: nela figura um só candidato à presidência. 

Com quem a foto pretende dialogar? Para o PT ela é um trunfo (o ex-ministro Celso Amorim a definiu como “transcendental”) — lá está o seu candidato com aquele que designou, ao longo de tantos anos, como seu principal inimigo; a questão é que, até por questão de estilo, FHC nunca assumiu esse papel. Lula sempre manifestou horror a Fernando Henrique e seus eleitores. O inverso não aconteceu. 

A mensagem “Unidos contra Bolsonaro” é importante? Sim, claro — mas para quem? Para os apoiadores de Bolsonaro, não faz nenhuma diferença, pelo contrário: apenas reforça o mito do capitão contra o sistema. E para quem percebe o tamanho do estrago, também não: é óbvio que estão juntos contra Bolsonaro. Quem não está? A questão não é política, é moral. Não há o que discutir entre civilização e barbárie.

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Por falar em “herança maldita”: Lula tem razão, mas não pelos motivos que alega (ou alegava). Fernando Henrique deixou mesmo uma herança maldita, que contaminou toda a política brasileira e fez um dano incalculável à nossa democracia. Chama-se reeleição. 

Desde que conseguiu comprá-la, não tivemos mais um único administrador, em qualquer nível, que se dedicasse plenamente ao ofício que é pago para exercer. Assim que sentam a derrière em suas cadeiras, nossas autoridades passam imediatamente a trabalhar em função da reeleição. 

Ou o Brasil acaba com a reeleição, ou a reeleição acaba com o Brasil. 

Sério.

Cada época tem a saúva que lhe cabe.

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O prefeito Eduardo Paes ganha muitos pontos dos cariocas apenas por não ser o seu antecessor, mas não precisa exagerar no cinismo, como fez anteontem ao dizer que uma eventual multa a Bolsonaro por ter desrespeitado o decreto que obriga o uso de máscaras teria que ser “avaliada pelo povo”: “O presidente é a principal autoridade do Brasil. Ele vai ser sempre bem-vindo no Rio de Janeiro, e nós não vamos ficar nesse joguinho de multa, né? O presidente tem essa responsabilidade, ele pode avaliar.” 

Ora, não nos faça de idiotas, Eduardo Paes! Excludente de ilicitude para uso de máscara a essa altura da pandemia? E desde quando esse presidente tem responsabilidade, e onde consegue avaliar o que quer que seja?! 

Tenha vergonha, homem. Francamente. 

Os limites da obediência

Os conflitos políticos de momento assumiram um nível preocupante para a manutenção da estabilidade e da paz social do país.

Nesse contexto, as relações entre a sociedade civil e o poder militar vêm sendo colocadas como aditivos aos desafios cotidianos.

O comportamento e a formação militares são prioritariamente cartesianos. Não obstante, nos últimos anos absorveram traços mais robustos das ciências humanas e sociais.

A Academia Militar das Agulhas Negras, escola de formação da oficialidade do Exército, como qualquer organização militar, é um mundo de quietude severa. Reina dentro de seus muros normas rígidas de comportamento com base na ética, na disciplina e na moral.

Não faltar à verdade. Não prevaricar. Não roubar. Fortalecer o espírito de corpo. Não abandonar companheiros feridos em campo de batalha e muitos outros “mandamentos” estão grafados a cinzel nas decenárias paredes de mármore da Real Academia. Quem disso destoa, não pode chamar-se de militar.


O professor Samuel Huntington, conselheiro de segurança no governo americano de Jimmy Carter, aponta a lealdade e a obediência como as mais altas virtudes militares. De fato, são atributos indissociáveis da cultura militar. Mas, segundo ele, quais serão os limites da obediência?

Essa obediência é incondicional? Ou se subordina às atribuições diretamente relacionadas com a atividade de exercer, a nome da sociedade, a violência institucional do Estado?

Em sua análise, Huntington certifica que as instituições democráticas americanas nunca geraram um vácuo de poder. Quase sempre o controle civil sobre o militar esteve claro no relacionamento entre esses dois atores sociais.

O vácuo, físico, intelectual ou moral, do agente controlador foi fator coincidente na história do desvio do soldado da sua atividade precípua. O que pode trazer o efeito colateral da corrupção lato sensu. Da corrupção moral, a genitora de todas as outras corrupções. Todas insuportáveis.

É importante que se consolide em nosso país a crença de que o profissionalismo militar está indelevelmente atrelado ao efetivo controle civil na defesa nacional.

Dentre os atores que atuam nesse processo, o posto honorífico de comandante supremo das Forças Armadas precisa ser respeitado por quem o exerce.

Só assim, quando houver a exigência de instalação de uma estrutura de guerra, seja ela interna ou externa, essa autoridade estará respaldada para definir as diretivas no nível mais alto da política de Estado.

Eventual interferência nos níveis subalternos do processo decisório não produzirá o efeito desejado. Será apenas “um manda o outro obedece” sem aprofundamento na liturgia e na missão dos respectivos deveres hierárquicos.

O que a sociedade brasileira espera dos militares de nossas Forças Armadas?

Os sistemas de preparo, emprego e ensino de cada uma das forças se adequaram a promover especialização dos seus recursos humanos, movidos por elevado senso de responsabilidade e atuando em ambiente de companheirismo essencial quando se aceita entregar a vida para sobrevivência Nação.

A unidade de comando, fundamental para o desempenho legal e imparcial dos comandantes, tem sido alvo de ataque aos pilares da hierarquia e da disciplina com possibilidade de rachar os círculos castrenses de forma vertical e até horizontal.

O agente político das Forças Armadas é o Estado. A estrutura hierárquica na qual as Forças Armadas estão inseridas tem no topo da pirâmide o Estado, suportado por seu povo e por suas leis.

À sociedade como um todo exigir-se-á firmeza de atitude para assegurar o dever implícito das Forças Armadas, clarificados no artigo 142, da Constituição Federal.

É preciso reforçar o muro que separa o estamento militar dessas pendengas políticas-partidárias-pessoais.

A segurança do Estado vem em primeiro lugar. Objetivos exógenos, pessoais ou ideológicos, que possam fazer fraquejar essa segurança, que ao fim e ao cabo também é uma garantia social, não devem ser perseguidos.

Como emulação: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever” (Almirante Barroso, na Batalha de Riachuelo). Nós também!

O Brasil e os dias

É outono no Brasil. Os dias de maio são luminosos. Mas, para a maior parte da população os tempos são sombrios. A pandemia, que chegou em março de 2020, segue seu caminho de morte, sem parada, e sem que o governo federal invista em políticas de prevenção. Avançamos para 500 mil mortes em ritmo acelerado, e não há previsão de alteração no quadro de perdas e dor. Pelo contrário. O presidente da nação segue apostando alto no contágio de rebanho e faz ele mesmo a sua parte, circulando, aglomerando, sem máscaras ou cuidados. E, atrás dele, segue o bonde da negação e da ignorância.


O Congresso Nacional, depois de mais de um ano de omissão, decidiu instalar uma CPI para investigar se há ou não responsabilidade do governo na disseminação acelerada da doença. Passaram por lá os três últimos ministros da sáude, todos eles revelando o que o país inteiro já sabia. O governo não se preocupou em proteger a população, o governo incentivou o não uso de máscaras, incentivou o tratamento precoce com remédios inúteis para a Covid, não atuou para resolver a falta de oxigênio em Manaus – quando morreram centenas de pessoa, sem ar – e não está preocupado com a vacinação. Nenhuma novidade, portanto.

Mas, apesar de tudo isso, mesmo com os depoimentos e as provas, nada acontece e ao que parece nada acontecerá. Isso porque a escolha governamental tem sido muito boa tanto para os cofres públicos quanto para os negócios da pequena fatia dos brasileiros que conforma a elite local. Os idosos – considerados como peso para a previdência – são os que mais morreram, somando mais de 70% das mortes, e esse dado foi comemorado pela Superintendência de Seguros Privados, pois diminuiria o chamado rombo das contas da previdência. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, a morte dos velhos retirou cerca de cinco bilhões de reais da renda potencial das famílias, muitas delas tendo nos aposentados a única fonte de renda. Isso significa um número considerável de gente sendo jogada para a miséria.

Para os empresários esses números são considerados bons também porque aumenta o exército de reserva e eles podem barganhar ainda mais os salários, exigindo mais dos seus trabalhadores e pagando menos. É um momento propício para aumentar os lucros.

Não bastasse isso, enquanto o país se distrai com os depoimentos da CPI gerando memes nas redes sociais, a casa legislativa segue arrochando ainda mais a vida dos brasileiros, seja votando leis que tiram cada vez mais direitos ou entregando a preço de banana o patrimônio nacional. A última agora foi a aprovação para a venda da Eletrobras, empresa brasileira de geração de energia elétrica. A historinha é a mesma de sempre: tem muita dívida, e empresa dá prejuízo, a conta da luz vai baixar. Ora, uma empresa estatal – a quinta maior do mundo – que cuida de um setor estratégico como o da energia não é uma empresa para dar lucro e sim para servir a nação. Qual empresa privada vai investir e adentrar no interior do país para atender as necessidades de pequenos consumidores? Nenhuma.

Outro golpe que corre célere no congresso é a tal da reforma administrativa do ministro Guedes, que prevê acabar com o serviço público no país. É um desmonte total do estado, cujas consequências não são divulgadas para a população visto que a mídia comercial é totalmente cúmplice do projeto ultraliberal do governo Bolsonaro.

Não vou nem falar nos inúmeros casos de corrupção envolvendo a família do presidente que, apesar de todas as evidências e provas concretas, não comove o judiciário brasileiro, igualmente cúmplice dessa tragédia nacional que vivenciamos. E, se está tudo bem para a classe dominante, dane-se o populacho. Essa é a tônica.

Já vamos entrar no sexto mês do segundo ano da pandemia e por aqui menos de 10% da população está vacinada. Não há indícios de que as coisas possam melhorar, bem como não há indícios de que haja uma reação massiva. Num país onde a Covid-19 só avança, o medo ainda é o nosso maior inimigo. Porque além de não haver vacinas, não há também qualquer garantia de que haverá hospitais, leitos de UTI ou oxigênio para os infectados. É o cenário perfeito para a classe dominante – que se vacina nos EUA – avançar sobre os direitos dos trabalhadores e saquear a nação.

Nesses tristes dias, nem deus é por nós!

quarta-feira, 26 de maio de 2021

A eleição do estômago

A eleição de 2018 se resolveu com o fígado. A de 2022, ao que tudo indica, será decidida pelo estômago. A realidade da fome ou da insegurança alimentar de milhões de brasileiros está posta à mesa do debate político. Isso explica mais que tudo a dianteira alcançada por Lula nas intenções de votos. E pode determinar o rumo do desgoverno de Jair Bolsonaro daqui por diante.

Paulo Guedes continua encenando o papel de um ministro liberal num governo que já não faz questão de disfarçar seu verdadeiro caráter: negacionista na gestão da pandemia, reacionário nos costumes, autoritário na política, populista e fisiológico no trato da coisa pública e alheio a pautas que dizem respeito à inserção do país na agenda econômica e geopolítica do século 21.

O ministro já entendeu que é a eleição a única coisa que interessa a Bolsonaro, e que terá de fazer o jogo se quiser continuar onde está. Diante da cada vez mais delicada situação eleitoral do chefe e da inflação galopante de alimentos, que só faz com que essa situação se deteriore mais, Guedes terá de se dedicar única e exclusivamente a entregar uma versão turbinada e de grande potencial de votos do Bolsa Família lulista.

A volta do auxílio emergencial não resolveu em nada a emergência social do país e ainda teve um efeito contrário do ponto de vista político. “Quem recebia R$ 600 no ano passado e agora recebe R$ 150 ou R$ 250 está com ódio de Bolsonaro”, me disse um político do Centrão.

Não só o valor é nominalmente uma fração do anterior, como tudo aumentou. A inflação do dia a dia do eleitor é muito maior que a medida pelos indicadores oficiais, sobretudo a do prato de comida. É isso, combinado à falta de vacinas (que se traduz também em falta de emprego e de perspectiva de luz no fim do túnel), que explica a draga na popularidade de Bolsonaro.


“Quem comeu lembra o que comeu.” Essa frase me foi dita não por nenhum marqueteiro ou político, mas por um parente próximo, que vive na pele os efeitos do desemprego e da carestia. É essa lembrança de um passado não distante, em que havia proteína animal no carrinho de compras, os filhos tinham acesso a crédito estudantil e existia a perspectiva de ascensão social, que explica por que Lula está sendo perdoado pelo eleitor, ainda que não esteja absolvido pela Justiça, como prega a narrativa petista.

Dirigentes do DEM receberam nesta semana o resultado de uma ampla pesquisa qualitativa que analisa o cenário de 2022 para Bolsonaro, Lula e eventuais candidatos alternativos.

Chamou a atenção quanto a decisão de não votar de jeito nenhum em Bolsonaro está consolidada: 49% a manifestam. A rejeição a Lula também é alta, na casa de 35%.

Quando a pesquisa começa a investigar as preocupações do eleitor, um fator emerge sobre todos os demais: inflação, inflação, inflação. E a força de Lula é associada diretamente ao período em que ela estava controlada. “Os políticos todos roubam, mas pelo menos no tempo do Lula…” é a frase que mais foi colhida, com suas variações.

“A inflação do estômago é o grande cabo eleitoral do Lula”, me disse uma pessoa que analisou a pesquisa. Qualquer marqueteiro consegue trabalhar isso de forma clara, basta lembrar os filmes com a comida sumindo do prato que João Santana fez em 2014 na campanha de Dilma Rousseff, que serviram para fustigar Marina Silva.

Bolsonaro é tudo de ruim, mas não é bobo e não queima cédula de papel. Vem aí a pressão máxima do presidente sobre o Posto Ipiranga para roubar do principal rival esse atributo, nem que seja preciso arrombar o que resta do cofre e implodir qualquer miragem de equilíbrio fiscal. Só por isso, aliás, o Centrão ainda está fazendo hora extra em seu barco prestes a adernar.

Ponha foco!

O foco da CPI da Covid, portanto, teria de ser um só: Jair Bolsonaro e sua tara eleitoral. Os 450 mil cadáveres são o resultado direto disso

Deus, FH, Lula e o Brasil

Corre nas altas esferas celestes uma anedota instrutiva sobre as preocupações de Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e a opinião de Deus Todo-Poderoso.

Aflito com a polaridade brasileira, preocupado com o número de almas que, por causa da pandemia, estão lotando o céu e fazendo com que os anjos do purgatório façam jornadas duplas de atendimento, as Altas Esferas chegaram a pensar em ampliar o espaço de recepção do purgatório devido a essa dramática emergência.

Soube disso por meio de um amigo médium. O astral, disse-lhe uma entidade espiritual adiantada e de muita luminosidade, está muito assoberbado, precisamente pela quantidade de almas que vem recebendo. Nessa emergência, comentou que os ex-mortos brasileiros são difíceis. Dão trabalho, pois a maioria chega ao purgatório demandando tratamento privilegiado. 

- Já tivemos que intervir em discussões de caráter político — absolutamente proibidas no outro mundo — quando controvertiam que morreram por sabotagem de vacinas... Os espíritos brasileiros (que são brasileiros de espírito), prosseguiu o médium, demoram a aprender que, no outro mundo, não há disputas de poder, pois o poder do Absoluto Poder é total. E não é fascista, porque é obra da eternidade, que se fez num quando não havia tempo ou espaço.

Um dos maiores problemas das almas brasileiras é a igualdade cósmica. Elas querem manter suas hierarquias materiais nacionais, e isso torna difícil lidar com políticos, juízes, militares, empresários e policiais, bem como com os criminosos por eles mortos em algum confronto.


O médium relatou que, em muitas preleções de adaptação, anjos superiores e poderosos dissolveram manifestações de queixosos que, mesmo no outro mundo, exigiam atendimento usando o “você sabe com quem está falando?”, que não é válido no astral. Aqui, disse a alma por meio do médium, não se pode negar a regra da fila, segundo a qual quem primeiro chega, primeiro é atendido. Numa certa ocasião, tivemos que chamar o Arcanjo Gabriel e seu irmão, Rafael, ambos com estatura suficiente e prontos a usar suas espadas de lâminas de fogo para obrigar as relutantes almas brasileiras a obedecer à fila final que os levaria ao infinito glorioso do nada.

As almas nativas do Brasil querem manter suas prerrogativas sociopolíticas, e uma delas perguntou a um anjo se aqui havia um STF, ficando muito decepcionada ao descobrir que, no plano imaterial, a alma já se encontra no Supremo e já passou pelo umbral, presidido por São Pedro, em cujo gigantesco cinema astral ela vê o filme de sua vida e testemunha todos os seus pecados, devidamente conferidos pelo anjo cobrador em seu computador da velha maçã.

Um dia essas almas recusaram o maná. Queriam pizza ou feijoada. Disseram que o maná celestial não tinha gosto. Houve um novo tumulto, debelado pelos anjos exterminadores comandados por Luis Buñuel.

Foi nesse ambiente um tanto conturbado que Deus resolveu conceder a FH e Lula um encontro. Coisa raríssima, mas concedida porque o almoço que fraternalmente os reuniu tornava-os dignos de uma graça especial.

— Vou conceder a cada um de vocês, ex-presidentes desse Brasil machucado com a pandemia, que o demo vos enviou sem minha expressa permissão, uma grande graça. Perguntem o que mais os preocupa, e Eu responderei.

(Ao ouvir a pergunta, Lula cochichou a FH: “Deus é populista...”.)

— Quem vai perguntar primeiro? —retumbou o Altíssimo, criando uns dois ou três buracos negros.

Fernando Henrique sorriu e, com sua voz melodiosa, falou:

— Deus, Você, que é um ente dos mais capazes e cultos que conheço, um ser cosmopolita e civilizado, quando é que vamos liquidar a má-fé, a hipocrisia e a corrupção no Brasil?

Deus respondeu:

— Meu filho, um dia isso vai acabar. Houve avanços, nas não foi na sua administração.

Voltando-se para Lula, Deus indagou:

—E o que você, Luiz Inácio, pensa disso?

Lula foi veemente:

— Bem, Deus Todo-Poderoso, nos meus governos não houve corrupção, muito menos má-fé e hipocrisia. A herança maldita era enorme. Toda essa narrativa foi inventada por gente que queria condenar a mim, o PT e a política.

Deus ouviu, recordou o conto de Machado de Assis “A igreja do diabo”, que motivou revolucionários debates no céu e no inferno, e, olhando para os dois, respondeu:

— Fiquem tranquilos. Continuem praticando a sagrada comensalidade que une aqui no céu e elege nesse vosso mundo sofrido. Mas prestem atenção: a corrupção, a má-fé e a hipocrisia um dia vão acabar no vosso país, que será justo e democrático. Mas não será na minha administração.

Se há uma ventura na clausura

A janela e sua gelosia em um esboço de praia em suas linhas fundamentais de céu, areia e mar, desfocando e balouçando ao rumor da maresia e do vento. Um horizonte incompleto de prédios forma um skyline recortado em quadrados baixos, provinciano, aparentemente desabitado. Uma usina de gás, puro esqueleto, utilidades esquecidas que agora mais proveitosas parecem por ainda ocuparem seu espaço, além de renderem uma homenagem aos engenhos desaparecidos. O mundo é de mentiras perfazendo nas janelas.

Por que a vida exterior adquiriu uma aparência irreal, enquanto a vida interior se tornou a quadratura da realidade? Precisamos sair para atestarmos que a existência prossegue reunida em suas frações todas? A conjugação das ruas, das árvores, dos postes, das lojas: haverá algo se alterado? Podemos esperar que algum novo tipo de milagre finalmente tenha se desvencilhado da terra dos homens terríveis, para se desenhar diante dos nossos olhos atomizados? O Sol terá sofrido qualquer quebra em sua aparente trajetória expecta? E a sequência: manhã, tarde, noite – terá ela se solucionado em algum outro tipo de divisão?

Reconheceremos rosto, voz e corpo com simpatia? Será de uma futilidade nauseante ou de uma sensibilidade programada a tentativa de transformar os acontecimentos de isolamento pandêmico dos privilegiados em uma fantástica jornada? Conseguiremos, isso sim, enfim pensar nos animais de vida confinada, estes sim completamente apartados de seu habitat? Os encontros quedarão já desinteressados, ou frenéticos, naturais, impensados? Um encantamento pré-pandemia poderá ser revisitado, ou, caso não, se provará um peixe que cedo morre pela boca? Melhor do que se arraste na linha aos poucos, se um bem-querer não se reitera.

E nas esplanadas, os habitantes e os turistas que iniciam a desconfinar bradam ao mundo sua valentia desusada, recostando-se folgazãos no encosto fofo das cadeiras. Tudo vai dar certo. Nem que seja na base da arrogância. Andaremos, na medida e no sentido contrários ao imposto, seremos para já ansiosos, nessa sequência de embaraços, tossindo propositalmente para as mãos ou para os ares, caminhando ledos e fortes sem máscara, tocando indiscriminadamente, um em direção ao outro, em uma fúria, como um estranho orgulho de não ter medo. Haverá madeira ilegal, cloroquina, mísseis interceptados, Ceuta, Bielorússia, Odemira, projetos de leis debatidas sob nosso desconhecimento, alterações à nossa revelia, cuja posterior aceitação tácita por alguns será disposta como uma institucionalização do recrudescimento dos radicalismos desumanos e ilegais?

A exterioridade disposta em quadrados de janelas e varandas, em céus de quintais. Se há uma ventura na clausura… Quando estamos assim, dentro, a realidade exterior se dispõe em retalhos, peças coloridas dispersas. Teremos que as juntar para uniformizar e completar o jogo novamente? A exterioridade do corpo, esta também a ser reconstituída, a ser reconstruída, a ser vestida com o aceitável ou o atraente. E as verdades inventadas a serem confrontadas que os aproveitadores e os ditadores, inicialmente, apenas nos oferecem?
Elisa Andrade Buzzo

terça-feira, 25 de maio de 2021

Um mau soldado

Bolsonaro está levando os militares a uma situação limite, como, aliás, fez constantemente enquanto estava na ativa. Capitão, planejou atentados terroristas para reivindicar melhores salários, foi condenado por um conselho de justificação, mas absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) em 1988, meses antes de ir para a reserva, num aparente acordo.

Antes, escrevera um artigo na revista “Veja”, em setembro de 1986, denunciando uma “situação crítica da tropa no que se refere aos vencimentos”. Pegou 15 dias de cadeia por indisciplina. “Um mau soldado”, como o classificou o general Ernesto Geisel. Na política, Bolsonaro fazia panfletagem na porta de quartéis nas eleições. Frequentemente era pedido que se afastasse do quartel para fazer sua campanha. Alguns dos generais hoje no governo fizeram essa intermediação com o então deputado Bolsonaro, que chegou à Presidência da República com o apoio e condescendência dos militares, convencidos de que somente ele poderia derrotar o PT em 2018. Hoje, a possibilidade de um novo confronto entre Lula e Bolsonaro em 2022 fortalece sua posição entre os militares.


Incentivado por Bolsonaro — que já quebrara a regra de ouro de não levar a política para dentro dos quartéis quando fez um comício em frente ao Quartel-General do Exército em Brasília —, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello rompeu com a máxima do Exército, de hierarquia e disciplina, ao participar de um ato político no domingo no Rio, sendo general de divisão da ativa.
A partir dessa evidência, o ministro da Defesa, general Braga Netto, e o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, tentam achar uma saída que não desmoralize o Exército, nem crie uma crise institucional com a Presidência da República. Mas Pazuello não pode ser tratado com excepcionalidade.

Não puni-lo seria péssimo sinal de que a política está tomando conta dos quartéis. O que não pode, e é o que Bolsonaro está fazendo, é usar o Exército como instrumento político. Está na hora de os militares levarem isso a sério, sob o risco de desmoralização completa da ideia de uma corporação de Estado, hierarquicamente bem definida, e de todos se sentirem autorizados a fazer política nos quartéis.

O ministro Luiz Eduardo Ramos, hoje no Gabinete Civil, teve a sensibilidade de pedir para ir para a reserva quando se viu envolvido, na rampa do Palácio do Planalto, numa manifestação política conduzida por Bolsonaro.

Estava “disfarçado”, em meio a vários assessores, quando o presidente o chamou para a frente da manifestação. Admitiu que não poderia estar ali como general da ativa e pediu para ir para a reserva para poder continuar no governo. Durante muito tempo, tentou convencer Pazuello a fazer o mesmo, sem ter tido sucesso, muito porque Bolsonaro não considerava necessário.

A presença do presidente Bolsonaro em, na média dos primeiros dois anos de seu governo, uma formatura por mês de militares membros das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) e das polícias Militar, Federal e Rodoviária Federal indica uma tentativa de sua parte de politização dos quartéis. O especialista Adriano de Freixo, professor do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (Inest-UFF), num estudo já analisado aqui sobre os militares no governo Bolsonaro, ressalta que uma variável que não deve ser ignorada nessa conjuntura é a “bolsonarização” dos estratos inferiores da corporação.

Outro aspecto da “bolsonarização” que começa a se tornar motivo de preocupação, para o professor da UFF, são as polícias militares estaduais, definidas na Constituição como forças auxiliares e reservas do Exército. Ele considera que “o quadro se torna mais complicado quando se leva em consideração a simbiose que existe em diversos estados da Federação entre parte das corporações policiais e forças parapoliciais, as chamadas “milícias” — que, no Rio de Janeiro, já têm o controle efetivo de vastos territórios —, e os crescentes indícios de ligação entre elas e figuras relevantes do entorno de Jair Bolsonaro”.

Bolsonaro prepara o golpe

Jair Bolsonaro vai tentar dar um golpe em 2022. Ninguém tem a menor dúvida sobre isso. A única dúvida é se, depois do golpe, ele vai acabar no Palácio do Planalto ou na cadeia.

O destino de Eduardo Pazuello pode revelar o alcance do apoio do Exército ao golpe bolsonarista. O general foi usado como isca. Uma isca gorda, suculenta. Ao chamá-lo para o palanque, no domingo, Jair Bolsonaro pretendia testar a fidelidade dos comandantes militares, e ver com quais deles ele poderá contar no ano que vem, em seu putsch bananeiro. Inúmeros generais já desertaram do Exército e se alistaram na falange bolsonarista. Nem o próprio Bolsonaro, porém, deve saber o tamanho exato de suas tropas – e se elas estarão dispostas a segui-lo até o fim.

Em vez de tanques nas ruas, teremos motocicletas nas ruas. Mas o resultado será o mesmo: um golpe. Prepare-se.

Pazuello desafia o Exército

Jair Messias cutucou com vara curta o Alto Comando do Exercito. O ex-ministro Eduardo Pazuello não foi obrigado, mas, convidado pelo Presidente da República, participou de ato politico estritamente vedado pelo Regulamento Disciplinar do Exercito Brasileiro.

Bolsonaro e Pazuello conhecem bem o Regulamento. Em 1987, o Capitão feriu os códigos do Exército e acabou expulso da tropa. Dizem que pediu para sair. Pouco importa. O Capitão foi punido por infringir regras estabelecidas. No caso de Pazuello, diz o item 57 do anexo I do decreto 4.346/02: é transgressão o ato de “manifestar-se, publicamente, o militar da ativa, sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária”.

Pazuello e Bolsonaro são responsáveis por conflito institucional que se avizinha. O País vive instabilidade política crescente, crises sanitária e econômica. A tensão militar é desnecessária, nesse momento. O Exército deve se posicionar com rapidez e energia, sob risco de ver desmoralizado seu Alto Comando. Se correr frouxo, militares da ativa ficarão a vontade para endossar publicamente os disparates de Bolsonaro.

Brasil do 'pátria amada'

 


Negacionismo de resultados

Negação não é ideologia. Pode ser “coisa de internet”, versão aloprada que o ex-ministro Eduardo Pazuello deu à CPI da Pandemia para as bravatas do presidente, tidas como farsa até pelo depoente. Poderia ser fé, crença. Nada disso. O negacionismo de Bolsonaro é puro oportunismo, sustentado pela mentira compulsiva e má-fé. Um tripé perverso que, por interesse de inescrupulosos e ignorância de muitos, faz o país acelerar velozmente para trás.

Agir ao avesso dos ditames da ciência, da lógica e do bom-senso é prática aplicada por Bolsonaro em todas as frentes, não só na pandemia, a mais visível delas. A negação tem propósito e consequências medidas. É o instrumento escolhido para “destruir muita coisa”, meta assumida publicamente em março de 2019, em um jantar em Washington, nos áureos tempos de Donald Trump. Portanto, vai muito além do desprezo à máscara, da provocação de aglomerações ou da defesa de drogas comprovadamente ineficazes e até da automedicação, como fez na live da última quinta-feira.

Irmãs siamesas, negação e mentira são ferramentas usadas conscientemente pelo governo Bolsonaro.


No trato com a Covid-19, a CPI vem demonstrando que a ideia parecia ser mesmo a de multiplicar velozmente o contágio viral, mesmo às custas de milhares de vidas, para preservar a economia, cujo desempenho é essencial para a reeleição. A loucura da tal imunidade de rebanho que não funciona nem em vacas.

Nega-se tudo. Se o satélite captou desmatamento alarmante na Amazônia, o “erro” é da tecnologia, das nuvens, da Nasa, do renomado físico Ricardo Galvão, que, por essa conta, acabou demitido da presidência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nas hostes do ministro boiadeiro Ricardo Salles, quase tudo já foi destruído. Desmantelaram-se o ICMBio e o Ibama, colheram-se recordes de queimadas e árvores abatidas.

Parte dos motivos de tanta agressão ambiental por quem deveria preservar o ambiente começa a brotar na Operação Akuanduba, da Polícia Federal, na qual floresce o escancarado benefício a madeireiros. Salles, que deve ser investigado também nos Estados Unidos, onde três lotes de madeira ilegal foram apreendidos, foi elogiado por Bolsonaro logo depois do estouro da operação. “Excelente ministro.”

Aqui, o negacionismo também não é à toa. O presidente conta com Salles para liberar mineração em áreas indígenas e com isso turbinar a economia, mesmo de maneira indecente. Quer ainda ampliar estradas e hidrelétricas em áreas de preservação. E tornar real o sonho vingativo de criar uma “Cancún” em Angra dos Reis. Vale lembrar que, depois que virou presidente, Bolsonaro demitiu o fiscal que o multou por pescar nas águas proibidas de Angra.

A escalada negacionista se repete na Educação, cujo projeto prioritário é o ensino domiciliar, método que isola crianças e jovens do convívio social e do aprendizado formal, para satisfazer as crenças dos pais – e, claro, a cobiça desenfreada da base evangélica. Há um esforço maquinado para aniquilar as universidades, o conhecimento e tudo mais que possa colocar em risco o projeto de continuidade de Bolsonaro, seu clã e seus asseclas. Decidiu-se ainda pela suspensão da avaliação do Ensino Básico (Saeb), quebrando a série histórica de aferição do aprendizado. Afinal, para quem já escolheu andar para trás, fazer avaliações que têm como objetivo buscar melhorias não tem qualquer serventia.

O corte de verbas para realizar o Censo, adiado de 2020 para 2021 e agora para 2022, vai no mesmo diapasão. Para que impactar negativamente a campanha de 2022 com dados sabidamente danosos sobre a sociedade brasileira, mais empobrecida e em piores condições de vida? Melhor adiar as entrevistas de campo e a divulgação do quadro calamitoso para depois das eleições. De novo, a opção é negar, desta vez, de antemão.

A corrente pró-negacionismo é tamanha que, no momento de declínio do dinheiro de papel – cresce vertiginosamente o uso do PIX –, a Casa da Moeda foi instada para produzir 450 milhões de cédulas de R$ 200, ao custo de R$ 146 milhões. Apenas 13% delas foram colocadas em circulação.

Para se manter no poder a qualquer custo, mais mentira e negação. Bolsonaro insiste no voto impresso, colocando em dúvida a lisura das urnas, agredindo a democracia. Uma vacina para um provável revés na disputa de 2022.