segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Fake news, injúria e conspiração

Notícias falsas, injúrias, teorias da conspiração, quase todas as semanas, sobem ao topo da pauta política no Brasil.

Nas redes, muito se falou do ataque a Felipe Neto, depois de sua aparição no “New York Times” criticando o governo Bolsonaro. A velha acusação aos comunistas, comem criancinhas, ganhou uma versão atualizada contra Felipe.

No campo editorial, tive a oportunidade de ler “A máquina do ódio”, um livro de Patrícia Campos Mello sobre fake news e violência digital no mundo. Ela conta, entre outros casos, a carga injuriosa que sofreu quando denunciou manipulação digital nas eleições de 2018.

Nem sempre foi assim no Brasil. Nesses tristes momentos de tecnopopulismo, costumo dar uma olhada na bela coletânea intitulada “Duelos no serpentário”, coligida por Alexei Bueno e George Ermakoff.

Trata-se de uma antologia de polêmicas intelectuais no Brasil, de 1850 a 1950. Havia alguma ironia, insultos aqui e ali, mas eles passavam dias, noites, escrevendo suas teses, sob a luz de lamparinas. O problema era convencer com ideias.

A polêmica gramatical entre Rui Barbosa e Carneiro Ribeiro sobre o texto do Código Civil, se impressa no conjunto, daria um livro de mil páginas, capaz de entediar gerações inteiras de estudantes. Houve polêmicas para definir se o cinema falado era melhor que o cinema mudo. Vinicius de Moraes participou dela.

Em relação a esse período da história, talvez tenhamos regredido às medievais canções de maldizer e escárnio. Ou, mais que isso, entramos num campo que só o estudo da injúria pode abarcar.

Jorge Luis Borges escreveu a bela “História universal da infâmia”. Nas suas obras completas é possível encontrar também algumas notas sobre a injúria, uma categoria específica de agressão.

É um texto curto, intitulado “Arte da injúria”. Segundo Borges, o agressor deverá saber, conforme advertem os policiais da Scotland Yard, que qualquer palavra que diga pode ser voltada contra ele.

O sonho dele, portanto, é ser invulnerável. Isso foi escrito na década dos 30, muito antes da internet, que trouxe o conforto do anonimato.

O roteiro da injúria em Borges passa pelas ruas de Buenos Aires. O agressor sempre adivinha a profissão da mãe dos outros e quer que mudem para um certo lugar que pode ter diferentes nomes. Em português, é possível conciliar os dois tipos de injúria enviando a pessoa para um lugar que, em linguagem amenizada, é a ponte que partiu.

Ao longo de sua análise, Borges descobre que, nas “Mil e uma noites”, célebre texto árabe, há um xingamento que se tornou popular: cão.

E chega aos que parecem mais sofisticados e certeiros como este: “Sua esposa, cavalheiro, sob o pretexto de trabalhar num prostíbulo, vende artigos de contrabando”.

Borges destaca também a injúria mais esplêndida feita por alguém que não tinha contato com a literatura. Ele descreve um homem chamado Santos Chocano, dessa maneira: “Os deuses não consentiram que Santos Chocano desonrasse o patíbulo, nele morrendo. Aí está vivo, depois de ter fatigado a infâmia”. O personagem me lembra um pouco velhos políticos que ganham uma espécie de pele de elefante depois de tantas pancadas pela vida afora. Cansam até o xingamento.

Mas os insultos contra as pessoas que têm outra atividade costumam ser devastadores para suas relações familiares, de amizade e a própria autoestima. Sou solidário com elas e desejaria ver algo na lei que acabasse com a invulnerabilidade do agressor.

Pessoalmente, não guardo ressentimentos, sobretudo agora nessa idade. Não me ameaçam de morte, simplesmente afirmam que já morri e não me dei conta. Decretaram minha morte em algum momento do passado e reclamam por não ter levado a sentença a sério.

A idade também protege um pouco contra a repetição do mantra “viado e maconheiro". A maconha restou com alguma vitalidade. Sempre que escrevo algo que lhes desagrada ou parece estapafúrdio, dizem que fumei maconha estragada.

Ainda bem que sou de paz. Poderia acusá-los de apologia às drogas. Se as ideias estapafúrdias e equivocadas são fruto de maconha estragada, isso significa que a de boa qualidade traz limpidez e justiça ao pensamento.

Não se discute mais como antigamente. E eles estão com um enorme estoque de cloroquina para se preocupar com outra droga.

Brasil da grande vala


Deus está sendo usado de maneira cruel pelos oportunistas

A banalização do conhecimento médico pelos não médicos e a vulgarização que leigos fazem do uso de medicamentos que conhecem por ouvir dizer, com base num senso comum eivado de distorções anticientíficas, são indícios significativos de nosso atraso cultural e mesmo social e político.

Não é raro que pessoas se automediquem pela associação de remédios que o vulgo define como “fortes”, os que “deram certo” no tratamento de doenças graves que não aquela do uso que lhe dão hoje. Ou os recomendem a outros.

Ainda nestes dias, a mídia noticiou que, no Sul do país, autoridades locais estão distribuindo medicamentos para combater a covid-19. Uma mistura de remédios que têm eficácia reconhecida em casos de outras doenças, mas cuja eficácia no caso de agora não se conhece.

O próprio presidente da República, apesar de contaminado pela covid-19 e de ter o diagnóstico da doença confirmado pela terceira vez, há dias insistiu em exibir-se aos manifestantes que o “apoiam”, em frente ao Palácio da Alvorada, com uma caixa de cloroquina nas mãos, medicamento não recomendado para o caso, mas que ele recomenda.

Entre nós, esse tipo de “sabedoria” é antigo. Para compreender o quanto há de atraso nesse voluntarismo do governante e de outras pessoas que o apoiam no proselitismo extracientífico, o quanto teimamos no atraso que já conhecemos e deploramos há muito, não posso deixar de citar a escritora paulista Teresa Margarida da Silva e Orta, nascida em 1711: “A arte de governar se acha com a prudência, se defende com a ciência e com a experiência se conserva”.

Poeta, romancista e pensadora iluminista, insurgente e desafiadora dos poderes, em nome da Razão, acabou presa num convento, em Portugal, durante sete anos, por ordem do Marquês de Pombal, privada da missa e dos sacramentos. Seria libertada pela rainha Dona Maria I, em 1777.

Numa outra reflexão, esclarece: “Se alguma vez erra quem se aconselha, raríssima vez acerta o que só pelo próprio juízo se governa”. E sem saber o que aconteceria no Brasil, mais de 200 anos depois de sua época e de seus escritos, recomendava: “Defendei mais a pátria que os parentes”.

Há enorme abismo entre persistentes concepções anticientíficas relativas à doença e à cura, na cabeça de toscos e de poderosos, no confronto com a lucidez de Teresa Margarida em sua “Obra Reunida”. Dolorosa evidência do que fizeram conosco e nós mesmos fizemos e continuamos a fazer para chegar a este novo tempo com uma visão das coisas e do mundo que é mera sobrevivência da barbárie.

Essas distorções deveriam ser levadas muito a sério. Seria interessante e útil que, nas ciências sociais, sociólogos e antropólogos realizassem pesquisas empíricas e objetivas sobre os fundamentos dessa espécie de ideologia retrógrada do que é doença e cura.

Aí temos de tudo. Desde a concepção de que a doença é um castigo divino que pune os crescentes pecados do homem, especialmente para que abra os olhos para os abusos e violações da vontade de Deus. Nela, as doenças sem cura são aquelas que Deus reserva para a invisível medicação de sua farmácia celestial e sua bondade seletiva.

Se bem observarmos, veremos que a dimensão medicinal da nova religiosidade fundamentalista se expande de modo geométrico na proporção igualmente geométrica da difusão de doenças desconhecidas ou mal conhecidas.

Na ideologia popular do que é o poder de Deus, usa Ele o castigo para chamar os homens à salvação. Algo difícil de compreender, como o de fazer-se mau para poder mostrar-se bom. Sem poupar mesmo os que se dizem terrivelmente cristãos.

Bem vistas as coisas, notaremos que o castigo da doença sem cura conhecida é instrumento muito eficaz de uma guerra ultraconservadora contra as grandes mudanças sociais do pós-guerra, especialmente dos últimos 50 anos.

O aumento significativo da liberdade pessoal de cada um, homens e mulheres, a emancipação da mulher, a profunda transformação no conceito de casamento e de família, a antecipação da maturidade das novas gerações, a libertação do discernimento de crianças e jovens, tudo isso fica reduzido à concepção de castigo pelo pecado da ruptura da ordem tradicional, conservadora e iníqua.

Deus está sendo usado, de maneira cruel, pelos oportunistas do mando e do autoritarismo para instituir uma nova sujeição social, em que as pessoas parecem livres, mas são de fato escravas de uma liberdade manipulável.

O novo homem é livre desde que se submeta ao estilo do mando antidemocrático que é o do autoritarismo dos micropoderes que estão em tudo, em todos e em todas as partes. Nesse sentido não é novo, é velho e antissocial, cúmplice das enfermidades que escancaram nossa pobreza de espírito.
José de Souza Martins

A política de guerra

Se a esquerda faz política demais, a direita por sua vez não sabe fazer política, não faz política nenhuma. Mas se ilude quem pensa que nosso presidente de direita, Jair Bolsonaro, se elegeu sem um programa claro, por puro prazer da aventura política contra a política, a antipolítica que ele tanto anunciou. Ele e sua turma nunca se interessaram pela política como modo de levar a sociedade em direção a uma agenda que corrigisse o passado e organizasse o futuro, não se prepararam para isso. Eles se prepararam para uma guerra e só pensam nela.

Uma guerra que só ainda não foi escancarada, fazendo mais vítimas e provocando mais tiroteios aleatórios e insanos, por causa da pandemia, por causa de um pequeno animalzinho, um quase nada, o vírus assassino que não permitiu que o bando de Bolsonaro assumisse o papel central de seu tempo. A guerra que programaram e pretendiam praticar é humanamente menor do que a calamidade pública provocada pela Covid-19.



Quem não se lembra das ameaças guerreiras feitas pouco antes de se tornar trágica a presença do vírus por aqui? Um dia, na televisão, Bolsonaro nos garantiu que tinha vencido a eleição de 2018 no primeiro turno e que, portanto, tinha sido roubado. O presidente afirmou que tinha provas disso e que ia mostrá-las à nação. Faz mais de oito meses que esse show passou na televisão... e cadê as provas? Quantas vezes ouvimos dele, de seus filhos e dos ministros mais queridos e alinhados, que haveria muito em breve uma ruptura inevitável, que não dava mais para suportar as perseguições dos outros Poderes ao Executivo? Quantas vezes ouvimos, desde há bastante tempo, expressões como “agora chega” ou “acabou” ou “não dá mais” ou coisa que o valha? Faz tempo que essas expressões de radicalidade começaram a ser usadas e, até agora, a guerra não passou de fuxico.

O Brasil tem hoje perto de cem mil vítimas fatais do coronavírus e mais de dois milhões e meio de infectados lutando contra a morte, fora os que não morreram mas se tornaram de alguma forma deficientes. Vemos todo dia, nos jornais, na televisão e nas redes sociais, as famílias feridas dessas vítimas, capazes de comover o mais endurecido dos corações. Menos os da turma dos Bolsonaros. Para eles, é tudo um exagero da “extrema imprensa”, o possível quase milhão de familiares enlutados tinham mais é que se conformar, pois todo mundo um dia morre. E daí?

Enquanto as vítimas e seus familiares têm a generosidade de pedir à população que não saia de casa, para que não morram mais brasileiros inutilmente, o presidente do Brasil, o principal responsável em última instância pelos cidadãos do país, manda invadir os hospitais para fotografar leitos vazios, a fim de provar que é tudo um exagero contra não sei quem. Aí o consórcio de imprensa, montado a partir das informações das secretarias de Saúde de cada estado, com a finalidade de neutralizar as mentiras que estavam sendo supostamente armadas pelo Ministério da Saúde para subestimar os números da crise e aliviar a responsabilidade do governo, impacta a nação com os verdadeiros números da tragédia.

Enquanto as famílias e os solidários a elas choram as vítimas da Covid-19, o presidente da República sorri feliz e sem máscara, abraçado a uma aglomeração no interior da Bahia, em cima de uma mula manca, fantasiado de caubói sertanejo, com um chapéu de falso couro de jagunço, inaugurando um bebedouro ornamental e vagabundo, mandado construir por outra responsável pela miséria do Brasil, Dilma Rousseff, numa região em que o povo morre, de verdade, de fome e de sede.

No meio da representação de sua farsa, Bolsonaro se explica, como um demônio sem compaixão, dizendo que está mesmo interessado é em salvar a economia do país, que está se dedicando a isso, certamente mais importante que os mortos inevitáveis. Pois bem, segundo o próprio IBGE, já foram fechadas, vítimas da pandemia, 522 mil empresas no Brasil. O que é que o governo fez por cada uma delas?

Bolsonaro não tem tempo de cuidar da economia dessas empresas porque seu pessoal está ocupado com a guerra. A meta bélica agora é acabar, a qualquer preço, com Felipe Neto, um jovem youtuber que, talvez sem se dar conta, também se preparou para ela e aprendeu a usar as redes sociais, alcançando mais de 60 milhões de seguidores. Para o bem do governo, Felipe Neto tem que ser destruído e está sendo perseguido com clássicas fake news imorais e incômodos pessoais, como o cerco no condomínio onde mora.

As mentiras hediondas, munição de uma guerra estúpida, estão fazendo de Felipe Neto um herói da resistência aos males que já foram e ainda serão feitos ao Brasil. Nunca tive a oportunidade de ver o influencer na internet, mas vou vê-lo logo e tratar de ser seu fã.

Mentiras e imoralidades ficam mais fáceis em um regime neofascista

Com um largo passo, afastamo-nos mais da democracia, dos nossos direitos civis e da vigência plena da Constituição. E como se isso não acontecesse ou, se percebido, não fosse importante. A falta de reação proporcional é tão grave quanto o passo a que fomos empurrados.

Todos os governos de índole fascista começam a torná-la realidade por três ou quatro medidas que tolhem a liberdade de discordância.

Uma dessas medidas clássicas da derrubada de democracias é a identificação, fichamento e vigilância sigilosa de reais ou potenciais opositores ao autoritarismo. Uma das primeiras providências do gorilismo de 1964, por exemplo, foi a criação do SNI, serviço de espionagem interna mais tarde chamado de monstro pelo próprio criador, o sinistro general Golbery.

Tem essa mesma finalidade a função atribuída à Seopi, Secretaria de Operações Integradas, pelo recém-ministro da Justiça,André Mendonça, não muito menos sinistro na sua fisionomia sem expressão.

As atuais revelações do ex-repórter especialíssimo da Folha e hoje encontrável em blog no UOL, Rubens Valente, partem de um dossiê da Seopi, datado de junho.

São os dados e às vezes fotos obtidos em sua “ação sigilosa sobre 579 servidores federais e estaduais de segurança, e três professores universitários, identificados como integrantes do ‘movimento antifascismo’”.

Título do dossiê: “Ações de Grupos Antifas e Policiais Antifascismo”. Antifas é como se denominam os adversários ativos do fascismo em qualquer das suas formas.

O título explicita, portanto, o propósito da ação e do dossiê contra os defensores do regime democrático em vigor, como são, no caso e por definição, os antifas e os policiais antifascismo. Logo, trata-se de uma ação, sob ordens do próprio ministro da Justiça, mais do que inconstitucional, contra a Constituição em seu teor e vigência.

A Constituição não admite ações ou pregação contra o regime nela formulado. Tem a sabedoria da prevenção. Porque o início contra servidores e alguns professores, se não recebe a reação proporcional e legal, será, logo, estendido a outras linhagens da cidadania. Se ainda não foi.

E os que têm o potencial e a obrigação de reagir, até como defesa de si mesmos, trataram o revelado avanço neofascista como mais um fato cotidiano. Sim, os de sempre, jornais e TV, juristas, advogados, professores, intelectuais, artistas, políticos democratas — os visados.

O confronto entre os dallagnois de Curitiba e o procurador-geral Augusto Aras teve a preferência, brigas têm mais sensação. Acusada de caixa de segredos, a Lava Jato rebateu com a afirmação de que os seus arquivos “são avaliados por diversos entes, incluindo toda a sociedade”. Se isso não fosse mentira, não haveria o choque público por recusa do compartilhamento de dados pretendido pela Procuradoria-Geral.

Os dallagnois explicaram ainda as 38 mil pessoas e empresas constantes no seu arquivo, motivo de suspeitas de Aras. São menções em relatórios do Coaf, órgão de alegado controle da Receita Federal, mandados à Lava Jato para verificar suspeitas de lavagem de dinheiro.

Mas a Lava Jato não tem poderes para se meter em buscas a granel das vidas financeiras de pessoas e empresas. Fazê-lo é mais um dos seus habituais abusos de poder.

Executor dos objetivos da Lava Jato, Sergio Moro defende-o: “A operação sempre foi transparente e teve suas decisões confirmadas pelos tribunais de segunda instância e também pelas cortes superiores”. Mentira também. Até a segunda instância no Tribunal Regional em Porto Alegre, ainda que a contragosto, derrubou decisões da parceria Moro/Dallagnol. Nas cortes superiores, Moro recorreu até a pedido de desculpa, para evitar vexame maior.

Mas não faltará um registro simpático: os generais do bolsonarismo são pais dedicados. E dedicados até a simples amigas. Buscam-lhes bons cargos no serviço público, apesar de não terem habilitação. Como a nova representante do Ministério da Saúde em Pernambuco, Paula Amorim, nomeada pelo mérito de ter “relação de amizade e confiança” com o general Eduardo Pazzuelo. Os generais falavam de imoralidade dos políticos.

Em regime neofacista as mentiras e as imoralidades ficam mais fáceis. Justifica-se, pois.

Por que os EUA têm os piores índices de pobreza do mundo desenvolvido

Este é um dos grandes paradoxos dos nossos tempos: os Estados Unidos, país mais rico do mundo, têm alguns dos piores índices de pobreza no grupo dos países desenvolvidos.

Mais de meio século depois que o presidente Lyndon B. Johnson declarou "guerra incondicional à pobreza", os EUA ainda não descobriram como vencê-la.

Desde a declaração de Johnson, em 1964, o país teve conquistas surpreendentes, como chegar à Lua ou gestar a internet. Entretanto, nesse período, conseguiu uma tímida redução no índice de pobreza, que caiu de 19% para cerca de 12%.

Isso significa que quase 40 milhões de americanos vivem abaixo da linha oficial de pobreza.

Milhares de famílias dependem da ajuda de bancos de alimentos
O problema é muito maior e mais antigo do que se vê na atual pandemia do novo coronavírus, que também vem revelando e intensificando questões sociais do país — os EUA têm o maior número de casos de covid-19 no mundo e agora enfrentam os piores níveis de desemprego desde a Grande Depressão de 1930.

Até hoje, segundo estudiosos, o aumento da pobreza foi contido nos EUA graças a uma expansão histórica de subsídios do governo.

Mesmo antes da crise na saúde, o país já destinava anualmente bilhões de dólares a programas de combate à pobreza, em quantias até maiores do que o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns países da América Latina.

"Essa é a ironia: seria uma coisa se fôssemos um país pobre e realmente não pudéssemos fazer muito a respeito. Mas temos os recursos", diz Mark Rank, professor da Universidade de Washington em St. Louis, considerado um dos maiores especialistas em pobreza nos EUA, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Pesquisadores apontam para duas razões fundamentais por trás da pobreza nos Estados Unidos: uma tem a ver com simbologia e a outra é pragmaticamente econômica.

Primeiro, os EUA carecem de uma rede de assistência social forte ou programas de apoio à renda como outros países.

Os programas de assistência social que os Estados Unidos implementaram nas últimas décadas, como vale-alimentação ou seguro desemprego, permitiram reduzir em alguns pontos a pobreza, mas são considerados limitados.

Fatores culturais são geralmente lembrados para explicar isso.

"Nós tendemos a ver a pobreza nos EUA como um fracasso individual, ou seja, como se as pessoas não tivessem trabalhado duro o suficiente. Como se tivessem tomado decisões ruins ou não tivessem talento o suficiente. Assim, é algo como: cabe a você se erguer", afirma Rank.

"O resultado é que realmente não fazemos muito em termos de políticas sociais para tirar as pessoas da pobreza."

Somam-se a isso as desigualdades raciais: as minorias sofrem desproporcionalmente no país.

Enquanto 11% das crianças brancas nos EUA vivem na pobreza, essa taxa chega a 32% para crianças negras e 26% para crianças latinas, segundo dados do censo levantados pelo Centro de Dados Kids Count.

"A pobreza é frequentemente vista como um problema para os não-brancos, e isso também reduz a vontade de ajudar os outros", diz Rank.

"Existem estudos mostrando que em países mais homogêneos em termos de raça e etnia, existe uma rede de segurança mais robusta, porque as pessoas veem os outros como semelhantes — tendo maior probabilidade de querer ajudar."

Por outro lado, especialistas apontam para um fator econômico: a deterioração do mercado de trabalho americano para aqueles com salários mais baixos, que representam cerca de 40% do total e sofreram perdas em seus ganhos reais nas últimas décadas.

As razões vão do enfraquecimento dos sindicatos às transformações tecnológicas.

Assim, a desigualdade de renda e riqueza nos EUA aumentou e é maior do que em quase qualquer outro país desenvolvido, de acordo com o Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas em Washington.

Christopher Wimer, codiretor do Centro de Pobreza e Política Social da Universidade de Columbia, argumenta que, nos EUA, "as oportunidades no mercado de trabalho tendem a ir para pessoas com formação superior e que se beneficiaram do crescimento econômico".

"E grande parte desse crescimento econômico não foi compartilhado nas faixas de renda ou escolaridade que vêm abaixo", contou à BBC News Mundo.

Mas houve sim, nas últimas décadas, alguns avanços sociais — como níveis mais altos de escolaridade e queda na mortalidade infantil.

Além disso, especialistas alertam que o cálculo do índice oficial de pobreza nos EUA se baseia apenas em renda, sem contar com auxílios do governo como créditos fiscais, cupons de alimentos ou assistência habitacional.

Um estudo recente de Wimer e outros pesquisadores de Columbia projetou que, sem ajuda emergencial aprovada na pandemia de coronavírus, a taxa de pobreza do país teria saltado de 12,5% antes da crise para 16,3%.

Mas esses benefícios, que incluem cheques semanais de US$ 600 a trabalhadores afetados pela pandemia, expiraram no final do mês. Sua continuidade depende de um acordo entre o Congresso e a Casa Branca.

Antes da covid-19, especialistas já alertavam que o país era condescendente com níveis muito altos de pobreza.

"Os Estados Unidos são um dos países mais ricos, poderosos e tecnologicamente inovadores do mundo. Mas nem sua riqueza, nem seu poder, nem sua tecnologia estão sendo usados ​​para resolver a situação em que 40 milhões de pessoas continuam vivendo na pobreza", indicou no final de 2017 o então relator especial das Nações Unidas para a pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston.

Entre outras coisas, Alston observou que os EUA tinham a maior mortalidade infantil no mundo desenvolvido, que a expectativa de vida de seus cidadãos era menor e menos saudável do que em outras democracias ricas.

E também que sua pobreza e desigualdade estavam entre as piores no clube dos países ricos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de uma taxa de encarceramento entre as mais altas do mundo.

"No fim das contas", afirmou ele, "particularmente em um país rico como os EUA, a persistência da pobreza extrema é uma escolha política feita pelos que estão no poder".

Luke Shaefer, diretor da iniciativa Poverty Solutions da Universidade de Michigan, defende políticas mais simples nos EUA e com uma abordagem mais universal.

Um estudo realizado por ele e outros especialistas da universidade indicou que os Estados Unidos investem US$ 278 bilhões (mais de R$ 1,4 trilhões) por ano em programas governamentais de combate à pobreza, sem contar os gastos com saúde.

Somando-se programas de saúde para os mais pobres, como o Medicaid, o investimento anual chega a US$ 857 bilhões (mais de R$ 4,4 trilhões), ou seja, mais do que o PIB da Argentina e do Chile somados.

"Muitos desses dólares não estão indo realmente para os mais pobres", alerta Shaefer.

As eleições presidenciais de novembro podem dar aos EUA uma nova oportunidade para repensar como melhorar esses gastos, acreditam aqueles que se dedicam ao tema há anos.

"Existem pessoas da esquerda e da direita falando que essa abordagem (atual) não está funcionando. Temos que fazer algumas coisas de maneira diferente, precisamos simplificar", diz ele.

"Tenho alguma esperança de que possamos progredir."

domingo, 2 de agosto de 2020

Brasil de nota nova


Uma moda que passou

“Fim ‘do’ Lava Jato! Fim ‘do’ Lava Jato!”. Com uma pandemia que já matou mais de 95 mil brasileiros ainda no auge, empregos minguando e economia à deriva, foi esse o coro com que Jair Bolsonaro, eleito, entre outros fatores, de carona no lavajatismo, foi recebido no interior do Piauí, escoltado justamente por um réu na Lava Jato, o senador e presidente do PP, Ciro Nogueira.

A nova onda de críticas, reações e ofensivas contra a mais notória força-tarefa de combate à corrupção já montada no Brasil une o presidente, o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Antonio Dias Toffoli, e o procurador-geral da República, Augusto Aras.

Bolsonaro iniciou seu divórcio do lavajatismo com a saída de Sérgio Moro do governo. O deputado que nunca deu a mínima para combater a corrupção, enfiou a família toda na política, enriqueceu graças a ela, praticou toda sorte de petecagem miúda e já esteve em todos os partidos fisiológicos do abecedário, de repente virou o “capitão” que ia banir os malfeitores. Um enredo pobre e falso como uma nota de R$ 200 com a estampa da ema do Alvorada, mas muita gente embarcou na fantasia.


Com Moro fora do barco, o lavajatismo virou criptonita capaz de enfraquecer o “Mito” e criar um adversário poderoso. De quebra, a saída de Moro coincidiu com a chegada dos novos amigos de infância do Capitão, aquelas figuras mais carimbadas do antes demonizado Centrão, o seguro anti-impeachment tão sonhado. Réus, condenados, ex-presos, cabe todo mundo no barco.

O coro que recepcionou Bolsonaro não tinha nada de espontâneo. Para ajudar o governo, réus como Nogueira deixam claro que aguardam um acordão “com o Supremo, com tudo” para que as ações que lá tramitam dormitem, se possível para sempre.

Um Bolsonaro sem os arroubos de outrora contra o STF ajuda. Basta ver que o presidente não deu um “pio” de solidariedade aos fanáticos banidos das redes sociais por ordem de Alexandre de Moraes. Os novos amigos do Centrão ocupam aos poucos o lugar vago do olavismo tresloucado à mesa do bolsonarismo. Até Carluxo anda quietinho, quietinho.

Aí temos o plantão de Toffoli no recesso do STF. Num ímpeto produtivo, o presidente respondeu sozinho pelo plantão, contrariando a prática de dividi-lo com o vice (o lavajatista Luiz Fux). E que produtividade! Em quatro semanas, ele mandou a Lava Jato compartilhar informações com Augusto Aras, suspendeu buscas e duas investigações contra o senador tucano José Serra, arquivou três inquéritos contra ministros do STJ e do TCU abertos a partir da delação de Sérgio Cabral, suspendeu depoimento de Aécio Neves e dissolveu a comissão do impeachment de Wilson Witzel no Rio. Ufa!

Outro bastante ativo no recesso, e pra lá de destemperado, foi Aras, que se lançou na cruzada contra a Lava Jato e ainda assumiu ares de ditador no Ministério Público Federal, investindo com grosserias contra colegas na reunião do Conselho Superior do MPF.

É certo que o combate à corrupção tem de se dar dentro de balizas e marcos de legalidade e institucionalidade, e que operações como a Lava Jato muitas vezes se arvoraram poderes acima desses limites, e têm de ser controladas e fiscalizadas.

Outra coisa bem diferente, porém, é um ataque orquestrado para fazer letra morta de tudo que se avançou na revelação de crimes e para mitigar o poder de órgãos independentes como o Ministério Público.

Esse tipo de iniciativa combinada mostra que o figurino do arauto do combate à roubalheira foi só uma das muitas lorotas que Bolsonaro enfiou goela abaixo dos eleitores. Assim como mostra dia a dia não ser um liberal, não ter compromisso com a democracia nem a menor condição de governar o Brasil, também essa fantasia do capitão decente foi rasgada, saiu de moda.

Alerta de americano

Os EUA são um dos países mais ricos na hora de cuidar de ricos, mas não para ajudar pobres
Sean Penn

Maquiagem verde

O governo Bolsonaro parece ter se inspirado na famosa cor do uniforme do Exército quando resolveu passar uma maquiagem verde-oliva em sua política antiambiental. Mas esconder a verdade não é tão simples hoje em dia e, entre as demandas feitas por executivos internacionais ao governo brasileiro, para que continuem investindo no país, está o acesso público aos dados de desmatamento e cobertura florestal. Ou seja, junto com a diminuição da destruição, eles querem transparência.

“O governo Bolsonaro tenta maquiar dados e fatos: insiste em mudar a imagem da Amazônia, mas segue sem querer mudar a realidade”, afirma Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil. “Mas a verdade que o mundo vê é que o desmatamento da Amazônia está batendo recorde e a temporada de queimadas criminosas promete ser ainda pior do que em 2019”.

Para te ajudar a entender a gravidade que é a falta de transparência do governo Bolsonaro, listamos abaixo o kit maquiagem que vem sendo usado, tanto para dar sequência à agenda de retrocessos, quanto para responder às críticas cada vez mais numerosas, no Brasil e no exterior, a esta política antiambiental.


Três dias depois de o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) anunciar que a Amazônia sofreu o maior desmatamento para o mês de junho em cinco anos, Lubia Vinhas, coordenadora-geral do setor responsável por esse monitoramento, foi exonerada de seu cargo. A repercussão negativa do caso levou o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, a argumentar que a mudança se deve a uma reestruturação pela qual o Inpe está passando.

Não é a primeira vez que o governo federal tenta tirar do caminho quem, baseado em evidências científicas, apresenta números indicando a área de floresta perdida a cada dia. Há um ano, o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, foi demitido após divulgar o aumento do desmatamento na Amazônia.

Se a reestruturação é real, ela se deve à militarização do órgão, processo criticado por servidores do Inpe em carta aberta e por especialistas como Gilberto Câmara, que dirigiu o Inpe entre 2005 e 2012 – justamente quando as taxas de desmatamento caíram no bioma. Ele diz que estão tentando transformar o Inpe em uma organização altamente hierarquizada, como um quartel – uma maneira de diminuir o debate ao afastar os funcionários do alto escalão. Para Câmara, os militares estão entrando em uma instituição sem entendê-la e respeitá-la.

Outro ponto que pode facilitar a maquiagem na divulgação dos dados pelo governo é uma mudança recente, proposta pelo Conselho da Amazônia, que centraliza no Ministério da Defesa a responsabilidade das informações sobre queimadas na Amazônia para subsidiar operações de fiscalização.

1 – CORRETIVO – O trabalho realizado pelo Inpe é reconhecido internacionalmente – foi graças ao instituto que se tornou possível criar políticas efetivas de combate ao desmatamento no início dos anos 2000, unindo monitoramento e ações de fiscalização pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama). Aplicar corretivos, demitindo cientistas, e esconder informações podem ser um duplo tiro no pé para o governo, porque viola a transparência exigida pela Constituição Federal e gera ainda mais desconfiança lá fora.

2 – BASE – Como já mostramos neste blog, a militarização das ações contra o crime na Amazônia é um fracasso. Com orçamento de R$ 60 milhões por mês, a Operação Verde Brasil 2, com base na Garantia da Lei e da Ordem (GLO), não tem resultado em proteção à floresta. Uma de suas estratégias ineficientes é a “moratória do fogo”, que proíbe o uso do fogo em território nacional por 120 dias. É claro que a moratória, sozinha, não funcionará. Ela precisa estar atrelada ao trabalho de repressão ao crime feito pelo Ibama em campo, o que não está acontecendo.

3 – SOMBRA – Outro órgão que vem sendo corroído por dentro sob o disfarce de “reestruturação” é o Ibama, responsável pelo trabalho de inteligência e fiscalização no combate a crimes cometidos por grileiros, madeireiros e garimpeiros. Com a GLO, o Ibama passou a atuar à sombra das Forças Armadas, pois Mourão retirou do órgão sua autonomia e liderança no planejamento e execução de ações em campo.

Em manifestação técnica divulgada essa semana, servidores voltaram a denunciar o desmonte das estruturas de proteção ambiental, e lembraram que todas as ações eficazes de combate ao desmatamento na Amazônia, resultando na diminuição de mais de 80% dos índices de desmatamento entre 2004 e 2012, “foram protagonizadas pelo Ibama”.

4 – LÁPIS DE OLHO – O lápis tem sido usado para riscar informações importantes para a proteção das florestas — é o caso dos dados sobre áreas embargadas por crimes ambientais, omitidos pelo governo Bolsonaro há mais de oito meses. Esses dados são usados como critério para concessão de crédito rural e comercialização de produtos agrícolas. O resultado é que áreas ilegais continuam a receber financiamento e lucrar com a destruição.

Uma ação na Justiça Federal exige que o antiministro Ricardo Salles e o presidente do Ibama, Eduardo Bim, voltem a divulgá-los, conforme manda a lei.

5 – ILUMINADOR – Uma boa maquiagem exige um bom investimento em campanha publicitária. Não à toa, o governo federal contratou empresas de relações públicas nos Estados Unidos, Europa e Ásia para vender a falsa imagem que, no Brasil, está tudo sob controle e nossas florestas estão intactas.

As peças publicitárias pretendem minimizar a destruição da Amazônia e desvincular o desmatamento do agronegócio brasileiro. O problema é que negar a realidade não vai restituir os quilômetros de árvores derrubadas.

6 – BATOM – Como parte da estratégia de retirar a autonomia e transparência do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), servidores desses órgãos estão reféns da “lei da mordaça”, proibidos de falar com a imprensa. A centralização das informações resultou que, nos primeiros nove meses do governo Bolsonaro, a procura da imprensa quadruplicou, mas 8 a cada 10 pedidos de jornalistas não foram respondidos pela assessoria de comunicação do Ministério do Meio Ambiente.

Outro sintoma da falta de transparência é destituir quem denuncia o governo. Após ser acusado de esvaziar a Comissão de Ética do Ministério do Meio Ambiente, Ricardo Salles tirou Marcelo Grossi do cargo de secretário-executivo da comissão. Foi Grossi quem enviou ofícios com a denúncia ao CGU (Controladoria-Geral da União), à CEP (Comissão de Ética da Presidência) e ao TCU (Tribunal de Contas da União).
Em um ano e meio de mandato, o governo Bolsonaro seguiu apenas uma agenda: a da destruição, como mostramos em nossa linha do tempo: https://www.governodadestruicao.org/

No entanto, querer um governo “de cara lavada”, que seja transparente em suas ações e dados, não é pedir muito. É fazer cumprir a lei e garantir a participação da sociedade na elaboração e execução das políticas públicas.

Para evitar que o Brasil continue a ser visto como um vilão ambiental, é preciso atitudes concretas que levem à proteção de nossos recursos naturais e biodiversidade, como: fortalecer o trabalho do Ibama e do ICMBio em campo; criar unidades de conservação; assegurar a demarcação de terras indígenas e os direitos desses povos; e incentivar a produção agroecológica em lugar dos barões do agronegócio venenoso. Não temos mais tempo e vidas a perder.

A grampolândia nacional

É repetitivo lembrar que a extinção do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) marcou o início de um ciclo de espionagem pulverizada em dezenas, e depois centenas, de empresas com fachada tecnológica, destinadas à captação e comercialização de informações obtidas à base de grampo. Desde então, o país convive com uma grampolândia.

Egressos do SNI, ou gente oriunda daqueles tempos, passaram à iniciativa privada, oferecendo serviços de “varredura” que, na verdade, se prestaram à espionagem política. Foi ali pelos tempos do governo Collor quando a tecnologia de escuta e filmagem alcançou um grau de sofisticação capaz de obter gravações de conversas captadas a distâncias inimagináveis até então.

A espionagem política é coisa da antiga. Produziu estórias e histórias, lendas e verdades. Em campanhas eleitorais, a vigilância sempre foi regra. Qualquer descuido pode fornecer munição moral ou penal entre adversários, suficiente para impor derrotas a candidatos com dianteira aparentemente irreversível.


Não faltam exemplos. Ainda à época do regime militar atribuía-se ao então governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, o poder do conhecimento dos porões de seus desafetos. Resumia-se tal poder com a expressão “o cofre de Ondina”, referência a um lendário cofre no palácio de governo estadual com dossiês pecaminosos.

Em abril de 2002, uma busca da Polícia Federal no escritório da empresa Lunus, no Maranhão, tirou da campanha presidencial Roseana Sarney, àquela altura um azarão na corrida ao Planalto. O que ficou conhecido como o caso Lunus, resultou na apreensão de R$ 1,34 milhão em espécie, valor não declarado de campanha.

Para o ex-presidente Sarney, a operação tem origem no PSDB, o que o levou a romper com os tucanos e aliar-se ao PT, cujo governo passou a apoiar. Não se sabe se o ex-presidente mantém essa convicção, dado que eliminar Roseana era também conveniente ao PT, como hoje interessado na polarização, que a candidata ameaçava.

Tais memórias estão longe de mostrar a dimensão da espionagem política no país, repleta de lendas e verdades. Ela tomou forma também nos anos do PT, quando o aparelhamento do Estado serviu para a produção de dossiês com origem no funcionalismo militante que o então presidente Lula convenientemente atribuiu a “aloprados” fora do controle do partido.

Nada disso é louvável, mas é a realidade forjada por um modo de fazer política explorando seu lado sombrio instalado nas vidas de candidatos e partidos. Operando a chantagem para alcançar a vitória sórdida.

Coisa bem diferente, e mais grave, é o governo patrocinar, com estruturas oficiais bancadas a dinheiro público, a espionagem de adversários consolidados ou potenciais, como se toma conhecimento agora na gestão do ministro André Mendonça, da Justiça e Segurança Pública.

Não à toa, a Polícia Federal manifesta preocupação com o fato. Os serviços de inteligência oficiais estão fragmentados nas esferas federal, estadual e municipal. Da Abin às estruturas de segurança estaduais há diversos serviços de inteligência que não cultivam a sinergia de suas informações, alimentam mútua desconfiança e direcionam suas investigações.

Quando o presidente Jair Bolsonaro se queixou desses serviços na célebre reunião ministerial de 22 de abril, mal comparou-os com o seu próprio serviço de inteligência, pessoal, dizendo que este, sim, funcionava.

Pois parece que decidiu fazer com que os demais melhorassem, o que se traduz, no caso, por servi-lo plena e eficientemente, por meio do ministério da Justiça e Segurança Pública, uma vez removida a resistência oferecida pelo ex-ministro Sérgio Moro. Fez o seu próprio SNI.

Mas a julgar pelo acervo que a Lava Jato recusa compartilhar com a Procuradoria Geral da República, a quem deve subordinação, a oposição de Moro é uma mera luta pela hegemonia de arquivos e segredos.

A força-tarefa dispõe de 350 terabytes com dados e informações de 38 mil pessoas, o que equivale a um arquivo oito vezes maior que o do Ministério Público Federal, com 40 terabytes. Como o critério de escolha dessas 38 mil pessoas também é secreto, nada desautoriza a desconfiança de que possam ser usados discricionariamente.

Tal engrenagem não estimula otimismos. O país ainda conviverá por muito tempo, quem sabe para sempre, com esses registros extra-oficiais de seus cidadãos.

Um silêncio de Bolsonaro que pode ser uma blasfêmia

A simples notícia já é um ultraje, não só para o Estado de Israel, mas para os milhões de judeus do mundo, praticantes ou não. E para todos os que acreditam nos valores da democracia. Trata-se do uso que os narcotraficantes vêm fazendo da bandeira de Israel e da Estrela de Davi num conjunto de favelas do Rio com 134.000 moradores. Os traficantes escolheram esses símbolos para delimitar o que chamam de “Complexo de Israel”.

O fato, que por si só merece reprovação, está ligado às ligações entre os cultos evangélicos e os símbolos do país do Oriente Médio e também às relações obscuras que o presidente brasileiro de ultradireita Jair Bolsonaro mantém com Israel, que ele parece querer associar com os valores do totalitarismo e do militarismo. 

Não é por acaso que seja neste momento, quando o Brasil mantém relações estreitas com a parte mais conservadora do Governo de Israel, que até os traficantes de drogas se interessem pelos símbolos que merecem respeito no mundo todo, por ser um país democrático e moderno, modelo de desenvolvimento econômico e que luta com o drama das relações entre judeus e palestinos. 

Bolsonaro mantém uma relação estranha com suas crenças religiosas. Foi católico praticante a vida inteira. Depois iniciou uma relação especial com as igrejas evangélicas, que estão crescendo no Brasil, são muito ativas politicamente e abraçam 40% dos brasileiros. E foi como evangélico que Bolsonaro se fez rebatizar nas águas do rio Jordão, em Israel, ao mesmo tempo em que estreitava os laços com a parte mais retrógrada e conservadora do Governo daquele país. 

A comunidade judaica do Brasil já havia questionado em maio passado o uso da bandeira de Israel nas marchas pró-Bolsonaro, onde se exaltava a ditadura e se pedia o fechamento do Congresso e do STF. A Confederação Israelita do Brasil (Conib) criticou aquele uso político da bandeira de Israel com essas palavras: “A Conib tem um firme compromisso com a democracia e com as liberdades públicas e lamenta a presença da bandeira de Israel, uma democracia vibrante, em atos em que ocorrem ataques às instituições democráticas”. 

Se o uso da bandeira de Israel em atos contra a democracia já havia ofendido a comunidade judaica do Brasil, o segundo país da América Latina (depois da Argentina) com maior número de judeus, é de se imaginar o que pensará agora, quando esses símbolos nacionais e religiosos, como a bandeira e a Estrela de Davi, são usados pelos narcotraficantes para delimitar seus territórios nas já escravizadas favelas do Rio. Segundo a reportagem da TV Globo, quem se autodenomina líder do “Complexo de Israel” diz professar a fé evangélica e pratica a intolerância religiosa. Ele responde a um processo por destruir um terreiro de umbanda e mandou retirar a imagem de uma santa.

 É possível que esses traficantes não tenham dimensão do significado do uso indevido de tais símbolos de Israel. Quem não pode deixar de entender isso é o presidente Bolsonaro, que até agora permaneceu mudo. Não condenou o uso indevido da bandeira de Israel, país do qual se diz amigo e seguidor. É certo que os judeus militam em diferentes partidos políticos no Brasil e no mundo, mas seus valores foram e são os da democracia, da justiça social já sancionada pelos profetas da Bíblia e do respeito pelas crenças alheias. 

Os judeus do mundo levam sobre suas costas o peso do genocídio do Holocausto, no qual seis milhões de inocentes pereceram nas mãos dos nazistas de Hitler e que se transformou no símbolo de todos os genocídios. Hoje o tema vem à tona no Brasil por ocasião da política de Bolsonaro em relação à pandemia, na qual ele parece mais preocupado com a crise econômica e a sua reeleição à presidência do que com as vítimas —já entre as mais numerosas do mundo. 

Nunca fui amante das bandeiras nem dos hinos nacionais que costumam evocar batalhas, conquistas e sangue. Mas acredito que se o mundo sofre de algo hoje é de falta de respeito pelos símbolos sagrados e profanos que caracterizam a idiossincrasia de um povo, com seus valores particulares que juntos formam o grande caleidoscópio da criatividade humana e da convivência social. Qualquer ato para tornar infames esses símbolos, que acabam tendo valor sagrado para os que os usam, é ferir gravemente o que o coração humano tem de mais íntimo: suas convicções pessoais e religiosas. 

Bolsonaro continuará calado ante esse uso bastardo dos símbolos de Israel e dos judeus, que começa a ser feito até por traficantes nas favelas do Rio? Seu silêncio, na linguagem da Bíblia, seria chamado de blasfêmia.

Vida líquida

Os deuses das religiões mundiais estão isolados em uma caverna pós-moderna. Impulsivos e desesperadamente estendem seus tentáculos na busca de permanecerem vivos e operantes, como a gritarem que é necessária uma nova Idade Média, um mundo de negação de todo o conhecimento. As sombras da ignorância da metáfora platônica avançam sobre as mentes e fragmentam as estruturas intelectivas do homem moderno.

Timidamente, ele busca sua defesa em protótipos, modelos, paradigmas e em fórmulas cientificistas, que ao invés de funcionarem como lanternas perante a penumbra do anticonhecimento, o joga ainda mais num mundo pastoso, onde todos os sentimentos, crenças, deuses, ciências, religiões e teorias se mesclam, perdendo a sua identidade e deformando-se em uma espécie de conhecimento pré-científico.


Liquidez da vida, diluição do poder de autoridade, algoritmos no comando das decisões humanas. O homem deixa de ser a medida de todas as coisas. O antropocentrismo é escanteado em detrimento de um “devir” prenhe de incógnitas, paradoxos e fórmulas vazias, tudo são indagações que tanto o espírito humano quanto os seus conhecimentos construídos jazem ignorantes. Parece mesmo que o mundo atual deixou de ter características sólidas, passa pela fase do estado líquido, e, aquém do estado gasoso, estaciona no estado pastoso, onde sua melhor representação é o de um pântano, onde tudo são obscuridades e mistérios, onde qualquer senso de racionalidade e de moralidade desaparece.

Situação agônica, o homem jamais foi totalmente tomado como um ser completamente racional. Sua subjetividade vem sendo descentralizada no mundo da cultura e sofrendo historicamente um enorme desgaste com o advento de conceitos como o de evolucionismo, ideologia, inconsciente, super-homem e morte do homem. De Darwin, passando por Marx, Freud, Nietzsche, até chegar em Foucault, todos eles diagnosticaram e prognosticaram um terrível fim para o homem. Não restam dúvidas: a vida hodierna é líquida, fluída, volátil, incerta, insegura. Parafraseando Zygmunt Bauman, podemos dizer que todas as relações sociais humanas escorrem entre os nossos dedos.

Mas o desejo e a vontade do homem tendem ao infinito. Para Yuval Harari, superados os problemas da guerra, da fome e das pestes, “as novas conquistas da humanidade serão provavelmente a imortalidade, a felicidade e a divindade”, uma espécie de trindade que pode, talvez, dar ao homem o status de Deus. Mas, paradoxalmente, no mundo da biotecnologia e da tecnologia da informação, governado pelos algoritmos, o humano está destinado à retaguarda. Num mundo de alta tecnologia o conhecimento humano poderá estar dramaticamente sujeito a um tipo de metamorfose jamais pensada. Poder e saber, palavras e coisas, construção e destruição do homem.

Talvez, um farol a guiar o homem pós-moderno nesse caminhar por um mundo cada vez mais fluido, seja, como ensina Bauman ao falar da vida líquida, a construção de uma ética planetária: “as condições necessárias para garantir a sobrevivência humana (ou, ao menos, para aumentar suas probabilidades) deixaram de ser divisíveis e localizáveis. O sofrimento e os problemas de nossos dias têm, em todas as suas múltiplas formas e verdades, raízes planetárias que precisam de soluções planetárias”.

De fato, num amanhã liquido dominado por uma extremada tecnologia com um imenso domínio sobre a vida e sobre as ações das pessoas, indagar-se-á, como fez Primo Levy: será isto ainda um homem?

sábado, 1 de agosto de 2020

Pensamento do Dia


Livre expressão de pensamento, desde que a favor do governo

O direito à livre expressão de pensamento é sempre invocado pelo presidente Jair Bolsonaro toda vez que seus seguidores nas redes sociais sentem-se ameaçados ou tolhidos. Mas é bom saber que o que ele defende para sua gente não vale para os que possam criticá-lo. Nos últimos dias, acumula-se uma série de fatos de que o negócio é diferente para uso interno do governo.

O Gabinete de Segurança Institucional da presidência da República, segundo o GLOBO, prepara norma que permitirá ao governo processar servidores públicos pelo que eles publicarem nas redes sociais em sua vida privada. Minuta da norma diz que servidores e prestadores de serviços devem compreender “que suas atividades nas redes podem impactar a imagem da organização”.



O servidor público federal poderá ser processado desde que os atos ou comportamentos praticados nas redes guardem “relação direta ou indireta com o cargo que ocupa, com suas atribuições ou com a instituição à qual esteja vinculado”. Na mesma linha, a Controladoria Geral da República baixou uma norma em que defende a punição do servidor que critique o governo nas redes.

Se o fizer, de acordo com a norma, ele terá descumprido o “dever de lealdade”, uma vez que o que disse atingiu a imagem e feriu a credibilidade da instituição que integra. Em meados do mês passado, servidores do Ministério da Saúde foram obrigados a assinar um documento em que se tornam sujeitos à Lei de Segurança Nacional caso vazem informações sensíveis.

O ministro André Mendonça jura que não sabia que a Secretaria de Operações Integradas do Ministério da Justiça monitora 579 funcionários públicos federais da área de segurança que se declararam antifascistas nas redes sociais. Não soube explicar, ou então não lhe perguntaram, por que a secretaria não faz a mesma coisa com funcionários públicos federais fascistas.

Mendonça, bom de bico, enrolou, enrolou, e tentou sair de fininho: “Tomei conhecimento desse possível dossiê pela imprensa. [...] É de rotina que se produzam relatórios para se prevenir situações que gerem insegurança para as pessoas, com potenciais de conflito, depredação, atos de violência contra o patrimônio público, então não é uma atividade que surgiu agora".

Dito de outra maneira: liberdade de expressão para servidor público só a favor do governo. Contra, a porta da rua é a serventia da casa.

É a vida... dos outros

Nós temos três ondas a questão da vida, a recessão, e em cima da miséria, vem o socialismo. É isso que vocês querem no Brasil? Temos é que enfrentar as coisas, acontece.
 
Eu estou no grupo de risco. Eu nunca negligenciei, eu sabia que um dia ia pegar. Como infelizmente, eu acho que quase todos vocês vão pegar um dia. Tem medo do quê? Enfrenta. Lamento. Lamento as mortes, tá certo. Morre gente todo dia de uma série de causas e é a vida
Jair Bolsonaro

Generais caíram no conto do Centrão

Era óbvio que um bando de generais ingênuos e neófitos na articulação parlamentar não ia montar uma base no Congresso para Jair Bolsonaro. Caíram na conversa mole do primeiro esperto que se apresentou, o líder do PP e do ex-blocão, Arthur Lira, e prometeu que, em troca de cargos e verbas, o Planalto levaria o apoio fechado de 220 deputados. A votação do Fundeb, com 492 votos contra o governo, mostrou que o rei estava nu: Bolsonaro não tem, nunca teve e nunca terá tropa de choque desse tamanho, e nem adesão incondicional do Centrão.

Mas a saída do MDB e do DEM do bloco e, logo depois, o anúncio do PTB e do Pros de que também estão em retirada, passam a ideia de que a casa caiu de vez. Não é bem assim. No blocão, no Centrão ou em qualquer outro canto, MDB e DEM continuam os mesmos. Por exemplo, votando, em sua maioria, contra um eventual pedido de impeachment de Bolsonaro nas atuais condições de temperatura e pressão – sem povo nas ruas e desidratação total de sua popularidade. O que não quer dizer que, se essas circunstâncias mudarem, não apoiarão no futuro. O que fariam de qualquer jeito, com ou sem blocão, Centrão ou coisa que o valha.


Da mesma forma que se lixaram para as propostas da equipe econômica sobre o Fundo da Educação, esses partidos vão se posicionar em relação a outras reformas, como a tributária, segundo seus próprios interesses – que, aliás, estão explícitos no projeto do presidente e líder do MDB, Baleia Rossi, que começou a tramitar antes da proposta do governo. Reforma tributária, se houver, não será a de Paulo Guedes, mas sim a de Rodrigo Maia, Baleia, Aguinaldo Ribeiro e outros. Mas, se for obtido um acordo em torno dela e de outras reformas como a Lei do Gás e a independência do Banco Central  o governo poderá até capitalizar vitórias, como fez na Previdência.

Ou seja, nada está totalmente perdido. Nem ganho. O que ficou claro nos movimentos partidários da semana é que os articuladores do Planalto estavam comprando gato por lebre das mãos de Arthur Lira, que coordenou a distribuição de cargos ao Centrão, prometeu vitórias e não entregou. Foi ele, com a ambição de ser o próximo presidente da Câmara, o principal alvo da operação. Agora, cada um desses partidos vai negociar em separado.

Por trás do reagrupamento de forças há, naturalmente, projetos de poder que vão além de cargos e do comando do Legislativo. A reedição da velha Aliança Democrática de MDB e DEM (hoje minguada com 63 deputados) pode prenunciar uma articulação centrista para 2022, agregando também PSDB e o PSD em torno da candidatura João Dória. Mas esse não foi o objetivo mais imediato, e nem é coisa para já.

A implosão da narrativa do Centrão como alicerce da estabilidade política ao governo era uma pedra cantada para quem acompanha o dia-a-dia do Congresso. Só os incautos generais do Planalto parecem ter acreditado que a profusão de emendas e cargos distribuídos nos últimos meses havia consolidado uma base parlamentar. Não consolidou e nem vai consolidar, nem que Maquiavel seja contratado como articulador político. É missão impossível quando o presidente da República só olha para o próprio umbigo e faz política de forma desagregadora. A confiança, matéria prima básica dos acordos políticos, sumiu das prateleiras.
Helena Chagas

O autódromo e a floresta do Camboatá, uma fábula carioca

Não sei se chamo de escândalo. Roubalheira. Ou burrice. Na dúvida, tudo junto. Precisamos impedir que se passe a boiada no Rio. Pensamos na Amazônia e esquecemos que há florestas em perigo na nossa esquina. Cerca de 180 mil árvores na Floresta do Camboatá podem ser dizimadas, com bênção oficial, para construir um autódromo de quase R$ 1 bilhão. Tudo para levar a Fórmula 1 de Interlagos, em São Paulo, para a Zona Norte do Rio. Rixa provinciana, inoportuna, sem sentido. Pior, um crime ambiental. Uma audiência pública virtual prevista para 7 de agosto, agora, é passo decisivo para se ir adiante com o novo autódromo.

Esses verdes ecochatos são todos contra o desenvolvimento econômico, não é mesmo? Vamos aproveitar a pandemia para passar a motosserra no desconhecido Camboatá, naquela região carente, cimentada e calorenta de Deodoro e Guadalupe. Você já ouviu falar?

Os influenciadores ricos da Zona Sul só visitam o Jardim Botânico e o Parque Lage. Nem sabem onde fica o Camboatá.

Com árvores raras de até 20 metros, floresta
está ameaçada pela construção de um circuito de F1 
Eu nunca fui ao Camboatá nem conhecia sua história. O nome vem de uma árvore comum, com flores brancas e frutos que atraem pássaros. Último lugar de Mata Atlântica de áreas planas na cidade, com fauna e flora em extinção. Só restam no Brasil 12% de Mata Atlântica. O Camboatá tem 200 hectares, equivalente a 200 campos de futebol, com nascentes e áreas úmidas onde, nas cheias, ressurgem os peixes rivulídeos, conhecidos como peixes das nuvens, porque reaparecem com as chuvas. Peixes nas nuvens me remetem ao realismo fantástico latino-americano.

Como trocar oxigênio e beleza eternos por especulação imobiliária e uma pista de 5.835 metros de extensão com uso esporádico nos GPs? Um projeto que nem sabemos se ficará pelo meio ou se será abandonado após a construção, como tantos elefantes brancos de obras megalômanas. Querem destravar logo. E construir o circuito em um ano, para ter a F1 já no Rio em 2021. Que chá de cogumelo esse pessoal toma? 

O terreno é do Exército. Havia ali paióis de munição. Cientistas do Jardim Botânico, entre eles o biólogo e pesquisador Haroldo Lima, minha maior fonte para este artigo, começaram a catalogar as árvores do Camboatá na década de 1980 a pedido dos militares. No governo Cabral, em 2010, surgiu a conversa de construir ali um autódromo. E como as péssimas ideias sempre sobrevivem no Rio, quando há muita grana envolvida, a pressão aumentou agora.

Vamos comemorar, cariocas, vamos tirar a F1 dos paulistas, num ano em que o Grande Prêmio Brasil foi cancelado por conta da pandemia descontrolada. Por que será que insistem no novo autódromo num estado quebrado, falido, desigual, com necessidades urgentes como escolas, hospitais, saneamento, moradias dignas e segurança? Como assim? Ah, esqueci. Tem aquela história de “legado” pra boi dormir.

Faz quatro anos desde a Olimpíada do Rio. O Brasil prometeu a 2 bilhões de espectadores criar a Floresta dos Atletas. No Maracanã, os atletas plantaram, em totens, sementes que seriam levadas para Deodoro. Lindo. Seria “um legado olímpico verde”. Faltou dinheiro. Tinha de faltar. Precisávamos de joias e barras de ouro. As sementes viraram arbustos em um sítio. Com manutenção cara. Somente em dezembro do ano passado, três anos após os Jogos Olímpicos, foram replantadas as 13.725 mudas de 207 espécies da Mata Atlântica com o esforço de Patricia Amorim. Os custos de mais de R$ 3 milhões foram cobertos por empresas devedoras que causaram danos ambientais.

Quanto papo me-engana-que-eu-gosto no Camboatá. A turma do autódromo do Rio promete compensar a destruição da floresta com propostas inexequíveis, como “um novo corredor verde entre maciços da região”. Tudo para rotular o projeto de “autódromo verde e sustentável”. O único verde que esse pessoal idolatra, sério, deve ser o dólar.

Os argumentos a favor são os de sempre. “O dinheiro não será público, será privado”. “F1 trará receita milionária para o Rio”. “Vamos plantar árvores para compensar a derrubada da floresta”. “Atrairemos turismo para uma área degradada”. Tem cara de maracutaia, tem focinho de maracutaia. O autódromo será um lindo cartão postal, já pensou se nem uso tiver? 

O hexacampeão mundial Lewis Hamilton já se disse contra o autódromo no Camboatá. “Vão derrubar árvores? Amo o Rio. Mas não quero correr em um circuito que prejudique uma terra tão bonita para nosso futuro”. Felipe Massa também reprovou. Correr sobre as cinzas de árvores nativas não pega bem. O mundo dos negócios não está mais disposto a associar suas marcas à devastação de uma floresta rara.

Construam o autódromo em outro lugar, gritam os ambientalistas e Caetano Veloso, que morou adolescente em Guadalupe. O Movimento SOS Camboatá sugeriu seis outros lugares no entorno para a construção do circuito, sem mexer na floresta. Mas, sabe como é, tem coisa aí. Meu apelo é mais radical. Esqueçam esse autódromo do Rio, que virou para o presidente B. uma obsessão semelhante à cloroquina. Quer porque quer a F1 no Rio. Lembram o Ronaldão falando que “não se faz Copa com hospitais”? Sempre é bom lembrar. Um copo vazio está cheio de ar.

Quantas negociatas se escondem por trás? Os idealizadores do GP no Rio alegam que vão derrubar (apenas) 30 mil árvores. Mas esse é só o espaço ocupado pela pista e pelo aparato necessário às corridas. Os restantes 41% do terreno serão “cedidos à Rio Motorpark”, subsidiária da americana Rio Motorsports”, como “contrapartida imobiliária”. Ou seja, para construir condomínios, prédios, derrubar mais árvores.

O projeto está cheio de pegadinhas. A empresa Rio Motorpark foi criada às pressas, 11 dias antes de ser anunciada sua escolha. Sem capital e sem estrutura para obra desse porte. Sua garantia é um “bank” não autorizado pelo Banco Central. 

Tenho uma esperança. O projeto é tão esdrúxulo que não vingará. E não será apenas por uma reação ambientalista, mas do business da F1, que planeja futuramente corridas sustentáveis, com carbono zero e combustível não poluente. A história do Camboatá vai correr o mundo. Vai virar uma luta de todos. A boiada não vai pastar na floresta carioca.

* Este artigo foi editado para corrigir um erro na versão original. Eu dizia que as mudas dos atletas olimpicos não haviam sido replantadas. Mas a Floresta dos Atletas existe e está em Deodoro. Minhas desculpas à prefeitura do Rio e aos leitores.

'Não devemos nos curvar aos imperadores digitais'

Contra a ameaça de regulamentação, a história do sonho americano. Diante dos congressistas que passaram mais de um ano investigando os possíveis danos que o enorme tamanho de suas empresas pode causar aos consumidores e à concorrência, e que finalmente conseguiram reuni-los para questioná-los, mesmo que de maneira virtual, os chefes Gigantes da tecnologia invocam suas histórias de sucesso genuinamente americanas nesta quarta-feira. Quatro das pessoas mais poderosas do mundo ―os CEOs do Facebook, Apple, Amazon e Google― destacaram em seus discursos iniciais os benefícios que trazem ao país e argumentaram que sua necessidade de crescer constantemente se deve justamente à competição que enfrentam.


“Para cumprir nossas promessas aos consumidores neste país, precisamos que os trabalhadores americanos tragam produtos para os consumidores americanos”, disse Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, em sua primeira aparição no Congresso. “A China está construindo sua própria versão da Internet focada em idéias muito diferentes e está exportando essa visão para outros países”, disse Mark Zuckerberg, do Facebook, em sua quarta aparição.

Junto com eles também aparecem Sundar Pichai, do Google, e Tim Cook, da Apple, que defendeu que a empresa é “uma empresa exclusivamente americana, e cujo sucesso só é possível neste país”. Os quatro empresários, que testemunham por videoconferência a partir de seus escritórios, participam de uma audiência marcante na longa investigação, que acumula dezenas de entrevistas e centenas de milhares de documentos, conduzida pelos legisladores dos Estados Unidos sobre a posição no mercado e as práticas de empresas cujo tamanho e poder se multiplicaram nos últimos anos.

O democrata David Cicilline, presidente da subcomissão antitruste da Câmara dos Deputados, onde a audiência é realizada, apelou para as essências americanas, mas, no seu caso, para defender a necessidade de limitar o poder das grandes tecnologias. “Nossos pais fundadores não se curvaram a um rei”, lembrou ele em seu discurso inicial, com mais de uma hora de atraso. “Nem devemos nos curvar aos imperadores da economia digital”.

Seu domínio do mercado, acusam os congressistas, diminui a inovação e reduz a concorrência. O objetivo dos membros do comitê é determinar se o tremendo crescimento das quatro empresas os colocou em posições ilegais de monopólio, suprimindo a concorrência em áreas como pesquisa na Internet (Google), vendas on-line (Amazon), marketing de aplicativos móveis (Apple) ou distribuição de informações (Facebook). “Simplificando: eles têm poder demais”, disse Cicilline, que anunciou que seus quatro convidados nesta quarta-feira não vão gostar das conclusões da investigação, que planejam tornar pública no outono.

A necessidade de limitar gigantes da tecnologia também é compartilhada pelo presidente Trump, que não perdeu a oportunidade de atacar empresas que são alvo regular de sua fúria. Em particular, as empresas de mídia social, com as quais ele está travando uma batalha que se intensificou nos últimos meses, depois que o Twitter e o Facebook tomaram medidas contra suas mensagens por violarem suas regras. Em resposta, Trump emitiu uma ordem executiva pedindo para reconsiderar a regulamentação que protege as empresas de Internet do conteúdo que elas publicam. “Se o Congresso não trouxer justiça às grandes tecnológicas, algo que deveria ter feito anos atrás, eu mesmo farei isso com ordens executivas. Em Washington, tem sido tudo conversa e nenhuma ação há anos, e o povo do nosso país está farto disso‘‘, tuitou Trump, pouco antes do início da audiência.

O tuíte do presidente enfatiza que, nesta quarta-feira, não são apenas os executivos que passam por um exame, mas também o próprio Congresso, que passou anos tentando agir contra as empresas de tecnologia, mas não conseguiu aprovar nenhuma legislação a esse respeito.

Os executivos defendem que, apesar da imagem onipresente de suas marcas, eles também enfrentam forte concorrência. “Por exemplo, as pessoas têm mais maneiras de procurar informações do que nunca, e isso acontece cada vez mais fora do contexto de um mecanismo de busca”, disse Pichai, do Google.

“As empresas não são ruins apenas porque são grandes”, disse Zuckerberg, que lembra que o Facebook alcançou seu sucesso “à maneira americana, começando do nada”. Bezos também queria destacar a mesma ideia. “Eu amo empreendedores de garagem, eu era um deles”, explicou. “Mas assim como o mundo precisa de pequenas empresas, também precisa de grandes empresas”.

Possíveis práticas monopolistas, que estão no centro dessa investigação no Congresso, não são o único aspecto das empresas que criaram os membros do subcomitê. Os legisladores republicanos foram rápidos em expressar sua queixa recorrente de que os gigantes da tecnologia suprimem consistentemente pontos de vista conservadores. O congressista Jim Jordan, em seu discurso inicial, acusou as empresas de “tentar impactar as eleições” e “censurar os conservadores”,

A audiência histórica servirá para moldar a futura legislação de monopólio. Mas grandes mudanças regulatórias não são esperadas iminentemente. Portanto, seu valor mais imediato será oferecer ao público uma visão do funcionamento das empresas que, além do escrutínio no Congresso, enfrentam investigações do Departamento de Justiça e da Comissão Federal de Comércio.
Pablo Guimón