sábado, 18 de janeiro de 2020

Insegurança (sic) eleita

Passei a conhecer um homem que tentou vencer uma insegurança com os meios errados, sabe? Ele poderia ter tido nesse percurso um processo de engrandecimento, mas não foi isso que aconteceu. Ele tentou vencer aquela insegurança dele na marra, passando por cima de críticas em vez de se engrandecer e governar sem as ideologias, obsessões e fantasmas que ele trouxe quando assumiu. Acho que isso ainda pode acontecer, mas o que aprendi foi isso, um homem que não se engrandeceu no cargo, que perdeu essa oportunidade, de fazer um governo melhor do que ele
Thaís Oyama, autora de "Tormenta", livro sobre o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro

A luta entre razão e emoção

O mote da década de 50 acompanhou por anos a vida dos consumidores: “vale quanto pesa”. O símbolo da balança na embalagem garantia a legitimidade do sabonete e reforçava o conceito da “verdade verdadeira”. De lá para cá, a verdade passou a perder substantivos e a ganhar superlativos, dando vazão ao bordão desses tempos virtuais: “vale muito mais do que pesa”. Que embala propagandas, expressões sobre pessoas, políticos, jogadores de futebol etc.

E cai bem no momento em que a política começa a rejeitar velhos paradigmas. Nesse ano eleitoral, enquanto o superlativo dominará a política, a verdade se cobrirá de "fake news", dividindo os mundos real e virtual, a serem guiados por três ferramentas cognitivas: a razão, a emoção e a polarização.

O cenário da razão abriga eleitores conscientes, autônomos, que já não agem ao estilo “Maria vai com as outras”. Esse campo disputará o processo decisório com o da emoção. Basta medir a temperatura ou ver o desfile de adjetivos nas redes sociais entre bolsonaristas e oposicionistas.



Indignação, revolta, ódio se amalgamam nas bandas que dividem a sociedade: os adeptos do presidente Jair; os oposicionistas que não leem pela cartilha da direita-radical-conservadora; e os centristas, que olham em volta à procura de novos protagonistas.

Bolsonaro e Lula lideram o cabo de guerra, com linguagem embalada em celofane emotivo. Ambos se esforçam para antecipar a campanha usando metralhadoras expressivas para agregar parceiros e encantar as turbas com uma semântica desarrumada e destemperada.

Ora, quando falta razão, valem-se da emoção em mensagem subliminar, querendo dizer “somos gente como vocês”. Metáforas se produzem aos montes para garantir um suporte de simpatia.

Mas a movimentação social no Brasil mostra que a razão, no processo de tomada de decisões, amplia adeptos até nos setores populares, tradicionalmente emotivos. Os comportamentos racionais hoje em dia indicam reordenamento de valores, princípios e visões dos grupamentos sociais sobre sua cidadania.

É o caso de perguntar: que vetor influenciará mais na campanha deste ano? Atente-se para o ethos nacional, que agrega valores como cordialidade, improvisação, exagero, paixão, solidariedade. A “alma caliente” dos trópicos se contrapõe à frieza anglo-saxã. Ou seja, a emoção ganha da razão.

Mas o processo racional se expande ao correr do avanço civilizatório. As mudanças começam no campo individual. A pessoa, escondida no anonimato, descobre que pode ser cidadã. A cidadania deixa de ser bandeira de instituições e se torna desejo. Isto é, amplia-se a consciência do “EU" em contraponto ao conceito do "NÓS", esteira da propaganda política.

Maior autonomia desenvolve autogestão técnica, pela qual os indivíduos traçam rumos e selecionam meios de atingir seu intento. As pessoas já não aceitam as regras do poder normativo e fogem dos "currais" psicológicos que enclausuram pensamentos.

O campo social alarga os discursos, propicia a rebeldia das formas e provoca a rejeição a tudo que se assemelhe a totalizações. Classes sociais e categorias profissionais desfraldam suas bandeiras. Se muitos ainda votam com a emoção, outros fazem uso da razão: o voto sai do coração para subir à cabeça.

Foi-se Alvim, permaneceu política cultural tóxica

A presença de expressões de Joseph Goebbels, ex-ministro da Propaganda de Adolf Hitler, nos lábios de uma autoridade do Brasil não poderia ter outro desfecho senão a exoneração de Roberto Alvim da poltrona de secretário Nacional de Cultura. Apesar de a ficha de Jair Bolsonaro ter demorado algumas horas para cair, foi ao olho da rua um assessor que não deveria nem ter sido nomeado. Mas há um problema: permanece intacta a pretensão do presidente de colocar em pé uma política cultural tóxica.

Os detalhes da nova política foram aprovados por Bolsonaro. O secretário demitido esteve com o presidente na véspera. Participou de uma live. Recebeu efusivos elogios do chefe. A política do governo para esse setor parte de um diagnóstico segundo o qual a "cultura está doente". E seria necessário promover um "renascimento da arte".

Esses conceitos mimetizam, macaqueiam a teoria nazista da "arte degenerada", cujo expurgo Hitler promoveu na Alemanha. A pretexto de estimular um nacionalismo de viés governista, conspira-se contra a essência da manifestação artística, combate-se tudo o que possa parecer crítico, transgressor ou plural.

A ideia de que o Brasil precisa ser salvo de sua própria cultura —respeitada mundialmente pela diversidade— sobreviverá à saída de Alvim. O que nos conduz ao miolo da encrenca: o problema está no bunker do Planalto, não nos subúrbios do governo. Sob Bolsonaro, o palácio convive com a patologia da guerra. O lema de Bolsonaro é: "Nós estamos certos e todos os outros estão errados".

Estabelecida a lógica do bunker, o mundo ao redor deixa de ter importância. Guerreia-se pelo gosto de guerrear. Podendo se concentrar em guerras relevantes —contra a paralisia econômica, contra a corrupção, contra o analfabetismo— o governo dispersa energias com guerras imaginárias —contra coisas como o globalismo e o marxismo cultural. Bolsonaro e seus ideólogos criam os fantasmas que assustam o governo. 

Pensamento do Dia


Bolsonaro e sua circunstância

Não causa surpresa o derretimento acelerado da popularidade do presidente Jair Bolsonaro detectado por uma pesquisa XP/Ipespe recentemente divulgada. O levantamento mostrou que, em um ano, a expectativa positiva em relação ao desempenho do governo para o restante do mandato caiu nada menos que 23 pontos porcentuais, de 63% para 40%. O índice de entrevistados que consideram Bolsonaro “ruim” ou “péssimo” passou de 20% para 39% no mesmo período. Pode-se dizer que esses números refletem não um ou outro problema em especial, mas o conjunto da obra.

O governo Bolsonaro parece se esforçar para inspirar em cada vez mais brasileiros a sensação de que suas decisões estapafúrdias, que carecem de lastro jurídico ou mesmo de racionalidade, não são meros acidentes ou fruto de circunstâncias passageiras, e sim reflexo preciso daquilo que o presidente é.


Não se trata apenas de despreparo para o cargo, dificuldade que se poderia amenizar com alguma dedicação aos livros e atenção aos conselhos de quem já viveu a experiência de governar; a esta altura, passado um ano de mandato, já está claro que Bolsonaro desacredita deliberadamente o exercício da Presidência porque não saberia fazer de outra forma e, graças a essa limitação insuperável, convenceu-se de que foi eleito para desmoralizar a política e sua liturgia institucional, algo que ele faz como ninguém. Vista em retrospectiva, a reunião ministerial em que o presidente apareceu de chinelos e camisa (falsificada) de time de futebol logo nos primeiros dias de governo parece hoje, perto do que já vimos, um encontro de estadistas.

Num dia, o ministro da Educação aparece num vídeo dançando com um guarda-chuva, numa imitação circense do filme Dançando na Chuva, para acusar seus críticos de difundirem fake news; noutro, o secretário da Cultura toma emprestado trechos de um discurso de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha nazista, para anunciar o advento de uma cultura “nacional” financiada pelo Estado, causando horror e estupefação no País e fora dele. Entre um e outro desses momentos nada edificantes de seus assessores, o próprio presidente Bolsonaro achou tempo e oportunidade para fazer piadas de mau gosto sobre um vasto cardápio de temas grosseiros, como se estivesse em um churrasco com amigos.

Enquanto isso, sempre que pressionado a tomar decisões realmente relevantes para o País, como autorizar privatizações potencialmente polêmicas, cortar privilégios de servidores públicos e reduzir subsídios, o presidente hesitou. Mesmo a reforma da Previdência, que o governo celebra como um feito de Bolsonaro, foi sabotada em vários momentos pelo presidente, tendo sido aprovada graças à mobilização de parlamentares e alguns técnicos do governo. Preocupado em construir seu próprio partido e sua candidatura à reeleição, sobre a qual fala quase todos os dias, Bolsonaro dedica todo o seu tempo não a pensar em maneiras de promover o desenvolvimento do País, mas a alimentar polêmicas de cunho claramente eleitoreiro, enquanto assina medidas destinadas à irrelevância – mas só depois de causar tumulto e insegurança jurídica no País.

Quando confrontado pelos jornalistas a respeito disso ou a respeito dos cada vez mais volumosos problemas do clã Bolsonaro e de alguns de seus assessores mais próximos com a Justiça ou com a lisura administrativa, o presidente reage de forma truculenta. Mais recentemente, disse que os jornalistas são uma “espécie em extinção” e mandou que a imprensa tomasse “vergonha na cara” e tratasse de “deixar o governo em paz”.

Não são rompantes, e perde tempo quem acredita na possibilidade de que, com o tempo, Bolsonaro vá temperar seu comportamento. O assessor que se inspirou em Goebbels para anunciar o “renascimento da cultura nacional” só foi exonerado porque houve uma grita generalizada diante de tamanho absurdo. Noves fora o plágio nazista, o conteúdo da fala que custou o cargo ao tal secretário é essencialmente o que Bolsonaro já disse e repetiu inúmeras vezes, mesmo antes da eleição. Portanto, ninguém pode se dizer surpreendido, nem mesmo os eleitores mais ingênuos. Bolsonaro é Bolsonaro há muito tempo.

Goebbels tabajara

Alguém grafitou, no Twitter, que o inacreditável foi abolido no Brasil. Aqui tudo pode acontecer, já aconteceu ou está por acontecer.

O governo Bolsonaro praticamente se inaugurou no exterior com um sintomático forfait no encontro de Davos, no ano passado. Aquela foto com a mesa vazia, só com os placements de Araújo, Guedes, Moro e Bolsonaro, entrou para a história do vexame e da patetice universais no instante em que o fotógrafo fez clique.


Duvido que no momento exista país mais ridículo e ridicularizado que o Bolsonistão. Como somos um povo gozador, suspeito que só conseguimos sobreviver até agora aos fatos inacreditáveis de nosso dia a dia graças, exclusivamente, ao nosso bem-humorado estoicismo.

Dia desses, um dos personagens do chargista André Dahmer acusou seu interlocutor de não ser “lunático o suficiente para ganhar um cargo no governo”. Em vez de lunático, o “malvado” poderia ter dito: mentiroso, ignorante, semianalfabeto, corrupto, miliciano, evangélico. Ou, simplesmente, militar da reserva.

Bolsonaro escalou militares da reserva cuidando de escolas, do INSS, como se o programa prioritário de seu governo fosse punir servidores públicos e dar emprego aos colegas de farda. Se bem que ainda melhor do que ser oficial da reserva e ganhar uma boquinha no serviço público é ser filha de militar com pensão vitalícia. Uma delas embolsou em dezembro R$ 537 mil.

Prossigamos. Mentiroso é o que mais tem entre os áulicos do capitão Jair. Por osmose ou sabujice, eles distorcem fatos e números, reescrevem a história, e nem se avexam de atribuir à atual administração obras de governos anteriores. O ministro estratosférico Marcos Pontes, coonestado pelo vice Mourão, não exaltou a inauguração da nova Estação Antártica Comandante Ferraz como um projeto do governo Bolsonaro? Quando o presidente tomou posse, as obras da Estação – iniciadas ainda no governo Dilma – já estavam nos finalmentes.

Se a mentira é fruto da ignorância ou de confusão mental, a gente pode até fingir, misericordiosamente, que não prestou atenção, embora seja difícil fingir não ter ouvido o novo comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, afirmar, no dia de sua posse, que o Brasil já esteve com os EUA “em três guerras mundiais”: a primeira, a segunda, e...ih, a terceira eu perdi.

Por falar em ignorância, esta talvez seja a verruga mais saliente do atual governo, a característica predominante do presidente e sua corte. Nos dois sentidos que a palavra tem: falta de conhecimento & incivilidade.

O caso mais grave é o do ministro da Educação, Abraham Weintraub, campeão nacional de solecismos (“haviam emendas”), erros de crase, ortografia (“imprecionante”, “paralização”, “suspenção”) e até de pessoas (Franz “Cafta”). Dizem que ele só não engrossou o coro dos bolsodescontentes com a indicação para o Oscar do documentário Democracia em Vertigem por não saber se vertigem se escreve com g ou j. É uma vergonha sem paralelos da história do MEC.

Seu antiesquerdismo paranoico – acusou concursos públicos de dar preferência a candidatos marxistas e estudantes de plantarem maconha nos campi universitários – segue o mesmo padrão de histeria e leviandade de seus companheiros de armas infiltrados nos setores mais diretamente comprometidos com a gestão da Cultura, a menina dos olhos da política de reaparelhamento ideológico do Estado do bolsonarismo.

O presidente da Biblioteca Nacional, Rafael Nogueira, despontou do anonimato ao qualificar o rock como coisa de satanistas e abortistas. Por esse despautério, consolidou-se como um dos mais fortes candidatos ao Damares de Ouro deste ano.

Roberto Alvim, o demitido secretário especial de Cultura, um Goebbels tabajara por temperamento e carreirismo, assumira a liderança da guerra cultural em curso. Começou com um Waterloo moral, ao insultar Fernanda Montenegro e, ao invés de recolher-se a um bivaque, avançou suas tropas contra a Fundação Casa de Ruy Barbosa, cuja recém-empossada presidente, Leticia Dornelles, lá foi posta para ser o para-raios de um expurgo que não se satisfez com banir de seus quadros gente de comprovada experiência e competência em pesquisas e guarda de documentos preciosos.

Na segunda-feira, uma manifestação de ex-funcionários e usuários do acervo da Fundação culminou com a entrega de um abaixo-assinado de intelectuais, que chegou a ter 30.000 assinaturas, à nova e inadequada mandachuva da instituição, que tratou o protesto mais ou menos como o presidente tratou a imprensa mundial em Davos 2019.

Na quarta-feira, Dornelles aparou outro raio. O cientista político Christian Lynch, entusiasticamente nomeado por ela para um alto cargo na Casa, acabou vetado, em cima da hora, por Alvim, que descobriu ter Lynch manifestado, algum tempo atrás, “ideias execráveis” a respeito de Bolsonaro. Que eu saiba, só os bolsominions mais caturras ainda não execram o execrável.

Alvim também semeou uma crise no Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), autarquia federal por ele tutelada. A historiadora Kátia Bogéa, servidora de carreira no Iphan, foi substituída na presidência do órgão pelo arquiteto mineiro Flávio de Paula Moura, indicado por sua experiência como auxiliar da mãe no restauro de obras de arte.

Pelo mesmo “critério técnico” adotado na escolha do arquiteto, doutores em arquitetura, museólogos e profissionais com longa prática no Patrimônio foram trocados por apadrinhados de políticos da base aliada do governo, entre os quais o dono de uma oficina mecânica e um cinegrafista.

Não dá para acreditar. No entanto, acredite.

Ainda não acabou

O governo e as diretrizes oficiais continuam os mesmos. O surto de nazismo explícito de Roberto Alvim funciona para testar a sensibilidade de instituições e da sociedade para detectar o inadmissível. Teste positivo. Devem vir outros

Dez razões que levaram Bolsonaro a demitir Roberto Alvim

Por que o presidente Jair Bolsonaro demitiu Roberto Alvim? Será que discordava dos termos do discurso pomposo sobre os prêmios na Cultura? Não. Em nenhum momento discordou. O problema foi "apenas" a inspiração nazista? Não. Foi a repercussão. Interna e externa. Aqui vão 10 razões para a rápida exoneração, apesar das desculpas de Alvim. Seu "bombardeio cultural conservador" foi abortado em voo livre - mas só na aparência.

Bolsonaro o exonerou... 

1) Para não virar motivo de chacota e indignação internacional, logo agora que o amigo Trump pediu o ingresso do Brasil na OCDE, no lugar da Argentina. Nos principais sites de notícias do mundo, Goebbels ressuscitou graças ao governo Bolsonaro.

2) Para fazer média com os judeus. Se fosse uma fala contra nossas atrizes, nossos negros ou nossos gays, Alvim seria agraciado com elogios e cafunés. 


3) Para o Congresso não ficar de mal com ele, nas pessoas de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, e bloquear todos os seus ímpetos de legislar – e para não deixar o presidente do STF Dias Toffoli incomodado. Não convém, não convém.

4) Para não transformar Richard Wagner no hino oficial da Cultura, porque Bolsonaro detesta ópera e não entendeu a frase em alemão que estava na mesa de Alvim.

5) Para poder “bombardear” a arte e a cultura no Brasil com mais esperteza, sem ser tachado de nazista. O trecho fatal do discurso, segundo o próprio Alvim, foi “uma coincidência retórica” – entre o pensamento de Goebbels e o do presidente brasileiro, sobre "a arte pura, heroica, conservadora e imperativa"...Uma coincidência "infeliz". Só isso.

6) Para agradar a Olavo de Carvalho, que já estava achando Alvim ruim da cabeça. E se Olavo acha alguém louco...

7) Para não ouvir da imprensa que seu governo é formado em parte por lunáticos fanáticos, uma imprensa que “não tem vergonha na cara” e cisma em ser profissional e independente. Pela primeira vez, não rebateu as críticas.

8) Para o Brasil parar de insistir na demissão do “imprecionante” Abraham Weintraub. Por um tempo. Weintraub ganhou sobrevida na Educação com a saída de Alvim. 

9) Para ganhar tempo e adiar a demissão de Salles, outro trapalhão. Ele não ficará à frente do Meio Ambiente até o fim do mandato presidencial.

10) Para ganhar tempo e adiar a demissão de Damares. Ela não ficará à frente do Ministério da Mulher e Direitos Humanos até o fim do mandato presidencial.

"Roberto Alvim, quem?" foi o título de minha primeira coluna sobre esse obscuro e estranho secretário de nossa Cultura, que jamais representou os artistas.

Um capitão de olho no dinheiro e nos votos

Nos últimos tempos, o presidente Bolsonaro veio lançando uma lorota – mais uma – de que precisava, a todo custo, liberar a bolada de R$ 2 bilhões aos partidos, a título de fundo eleitoral, pois, do contrário, caso vetasse a destinação desses recursos, correria o risco de sofrer um impeachment. Nada mais enganoso. O capitão joga para a torcida e faz uso de um recorrente artifício de seu governo, as fake news, para ficar de bem com aliados e apoiadores. O movimento tem razões de ser. O mandatário vem sendo diariamente pressionado por manifestantes da própria base a ir contra a distribuição de dinheirama eleitoreira. Também a sua turba rechaça as benesses com verba pública.


Acredita ser vergonhoso o esquema. Mas Bolsonaro tem interesse direto nisso. Está em vias de criar a própria sigla, Aliança pelo Brasil. Necessita vitalmente de simpatizantes e dos quadros políticos. Precisa ficar de boa com a casta parlamentar. Em suma, não vai se furtar ao usufruto dessa importante arma para azeitar o sistema e se dar bem. É do jogo. O problema é que ele se faz de rogado. Culpa o Legislativo pela gastança fora de hora. Alega que está encurralado. Adota o jogo de cena. Bolsonaro tem um desafio importante pela frente. A campanha que definirá o novo quadro de poderes municipais pode influenciar diretamente na composição de seu governo. O mandatário quer estender o arco de aliança e de influência para outras camadas da população. Mira a baixa renda e precisa de prefeitos, vereadores e demais políticos locais para alcançar o objetivo.

A versão Bolsonaro na carapuça, digamos, mais popular vem sendo construída. O presidente estabeleceu como prioridade a capitalização de votos na base da pirâmide social, por meio de medidas com apelo nas classes “C”, “D” e “E”. Anseia fazer frente à atuação do PT e, em especial, a do demiurgo de Garanhuns, o Lula de volta às ruas, e está disposto a torrar mundos e fundos – mesmo aqueles dos quais não dispõe — para o intento. Precisa combinar com os russos e, fundamentalmente, com a equipe econômica do czar Paulo Guedes, que tem se empenhado em conter despesas e passou a tesoura nos excessos.

O passo escolhido por Bolsonaro para dar início a sua cruzada populista será o de uma reforma no programa mais bem-sucedido e reluzente do período petista, o Bolsa Família. Bolsonaro almeja ampliá-lo. Quer lhe propiciar nova roupagem, com maiores atrativos. Imagina passar dessa forma a imagem de um chefe de nação benevolente. Caudilhos como Hugo Chaves, da Venezuela, seguiram o mesmo roteiro e acabou por legar a herança que hoje todos conhecem: um país em frangalhos, quebrado, em caos. Por aqui, o capitão tem planos mirabolantes e caros. Vai conceder um bônus fixo a famílias necessitadas, equivalente a um 13º do programa, que deve provocar uma conta adicional de R$ 7 bilhões no orçamento do ano. Para proteger os cofres públicos da derrama, quer usar receitas do petróleo e do combate a fraudes no INSS. De um modo ou de outro, está fazendo caridade com o chapéu alheio.

Perdido em seus sonhos de garantia da cadeira do Planalto por mais um mandato, Bolsonaro abriu a carteira. Chegou a cogitar um desconto na conta de energia de templos religiosos. Foi convencido a voltar atrás. Não desistiu ainda de aumentos generosos ao funcionalismo público, mesmo diante da perspectiva de uma reforma administrativa que o ministro Guedes luta para implementar. Ele emite sinais trocados. Altera ao bel prazer e de acordo com as suas conveniências a escala de medidas vitais que deveria tomar como governante. O Bolsonaro que busca votos e dinheiro para causas pessoais é o maior inimigo do Bolsonaro presidente. E, por tabela, do País.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Brasil, país do passado

Daqui a algumas décadas, quando os livros (com muito texto, de preferência) tiverem a missão de discorrer sobre os anos Bolsonaro e os prejuízos por eles causados à imagem do Brasil no exterior, poucas cenas vão resumir tanto o período quanto a da quarta-feira 8, quando Bolsonaro ligou a câmera, postou-se de costas para ela e se deixou filmar para seus milhões de seguidores nas redes sociais. Em silêncio, assistiu por 8 minutos e 50 segundos ao pronunciamento de Donald Trump sobre os ataques do Irã, na véspera, a bases americanas no Iraque. Nada simbolizou mais até agora a vassalagem brasileira em relação aos Estados Unidos, uma postura que tem chocado gerações de diplomatas, de diferentes matizes ideológicos, não só por ir contra tudo que pregam as diretrizes da diplomacia mundial, mas também por trazer dividendos que o país conseguiria da mesma maneira. A mansidão para o lado de Trump seria só mais um traço da caricatura de um homem que se regozija de falar grosso para baixo e fino para o alto, se não viesse acompanhada por decisões e episódios que têm manchado uma reputação conquistada pelo Brasil — de alegria, esperança e boas perspectivas para o futuro —, fosse quem fosse o ocupante do terceiro andar do Planalto.

O currículo de contribuições para que o país do futuro passasse a ser visto como um palco do retrocesso é longo: a leniência diante do aumento das queimadas na Amazônia, a verborragia contra os direitos humanos de qualquer humano que não o apoie, a ideologização das relações bilaterais com países historicamente amigos, como a Argentina e a França, a mudança de posições antigas do Brasil de respeito à identidade de gênero, a ameaça de mudar a embaixada de Israel, gerando uma crise com países árabes, a obsessão olavista de que o Brasil esteve à beira de um regime comunista, a crise com o Irã por apoiar o assassinato americano ao general Qassem Soleimani. Tudo isso, ora gerando irritação, ora só deboches, não passa despercebido de quem observa o país.


Em outubro, o britânico Financial Times, principal jornal de economia do mundo, lido pelos grandes investidores internacionais, afirmou em uma reportagem que o vídeo gravado de madrugada pelo presidente, diretamente do Qatar, após o depoimento do porteiro do Vivendas da Barra ser noticiado pela TV Globo, “levanta questões sobre o estado mental de Bolsonaro”. “O Brasil tem se esforçado para aprovar a agenda de reformas, mas as frequentes explosões de Bolsonaro — que lhe deram o apelido de Trump Tropical — estão afastando apoios necessários para aprová-las”, afirmava o texto. O jornalão, de linha editorial conservadora, não está sozinho.

A coluna teve acesso a dezenas de telegramas diplomáticos enviados por postos na Europa ao longo de 2019, em que são feitas para Brasília análises do que está sendo publicado na mídia estrangeira sobre o Brasil. A deterioração da imagem nacional no exterior ganhou velocidade depois da crise na Amazônia. Um dos despachos, por exemplo, enviado da embaixada de Berlim, aponta um balanço trágico na imprensa alemã sobre o país.

Essa proporção seguiu, com algumas variações, ao longo do segundo semestre. No exterior, os avanços da política econômica são apagados por todo o resto, e nem o que sempre fez o Brasil brilhar tem surtido efeito. Em outubro, quando Sebastião Salgado recebeu o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, o prestígio do fotógrafo gerou algumas notícias positivas. Mas, dias depois, a bonança se mostrou passageira quando Salgado disparou críticas contra Bolsonaro. “Criticou que o presidente Jair Bolsonaro se referisse ao potencial econômico da Amazônia supostamente sem respeito pelas terras indígenas e sugeriu que os europeus estipulassem condições para a instituição do Acordo Mercosul-UE”, escreveu um diplomata lotado em Berlim.

A chegada de Ernesto Araújo ao comando do Itamaraty fez com que alguns dos mais experientes da carreira se afastassem ou fossem afastados de funções estratégicas. Os três ex-chanceleres brasileiros ainda no Itamaraty estão totalmente alijados. Antonio Patriota é o titular no Qatar. Luiz Alberto Figueiredo é o embaixador em Doha. O tratamento mais controverso tem sido dispensado a Mauro Vieira, que foi ministro no governo Dilma Rousseff e embaixador nos Estados Unidos, na Argentina e na ONU, assumirá nos próximos dias a inexpressiva embaixada de Zagreb, na Croácia. No Itamaraty, o comportamento de Araújo com Vieira tem sido considerado uma demonstração de ingratidão. Foi Vieira quem levou o atual chanceler para, em 2010, ser seu número dois em Washington, o maior posto da carreira de Araújo até ser alçado a número um do Itamaraty, menos pelo currículo e mais por seus predicados olavistas. O atual ministro também foi subchefe de gabinete de Mauro Vieira, quando foi ministro de Dilma.

Essa geração tem assistido ao desmonte de pilares que sempre distinguiram o Brasil, desde o Barão do Rio Branco, a exemplo do princípio de não intervenção em outras nações. Está na Constituição — Artigo 4º — que o Brasil “rege-se em suas relações internacionais” pela “não intervenção” na política interna de outros países. Não que se espere de Bolsonaro que ele conheça a Constituição — o jurista Conrado Hübner Mendes já conta pelo menos 17 episódios em que, em sua visão, Bolsonaro já cometeu crimes de responsabilidade (atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal). O comportamento do presidente nas relações internacionais pode configurar mais um. Bolsonaro vai contra a Constituição e assume sem constrangimento posições sobre política interna de outros países, a exemplo do que fez na eleição argentina, defendendo o voto em Mauricio Macri, e não em Alberto Fernández, ou ainda sobre a eleição americana deste ano, quando já afirmou até haver apoio divino a Trump. “Trump vai ser reeleito, alguém tem dúvida disso? Vai ser reeleito. Está o país indo muito bem, muito bem. Desemprego lá embaixo, a economia bombando, (ele) exercendo seu poder de persuasão no mundo todo, graças a Deus tem os Estados Unidos, que está fazendo tudo isso. Deus está no controle”, afirmou Bolsonaro, para quem talvez Deus e Trump sejam um só corpo.

Ernesto Araújo não está nem aí para os danos à imagem brasileira. A exemplo da Secretaria de Comunicação do Planalto, que até cancelou o contrato de clipping internacional, que era responsável por coletar e analisar tudo que sai sobre o Brasil na imprensa estrangeira, o Itamaraty também não tem nenhuma estratégia para conter o pessimismo que se tem hoje com o país. Esse papel, atualmente, tem cabido exclusivamente a Tereza Cristina. A ministra da Agricultura embarca neste mês para a Semana Verde, na Alemanha, com o objetivo de tentar mostrar que a sustentabilidade é de interesse do agronegócio. Ricardo Salles, a quem caberia o papel de defender o meio ambiente, não é ouvido. Na cúpula do Ministério da Agricultura, sabe-se que, hoje, ou ela faz isso, ou ninguém de peso no governo defenderá lá fora que, além de ser tech e pop, o Agro não mata a floresta.

“Bolsonaro tem de pensar no Brasil, nos interesses do Brasil, e não na visão pessoal dele sobre os fatos. Pouco importa se o presidente pensa A ou B, o importante são os interesses nacionais. E esses estão sendo sacrificados pela postura do presidente. Cada vez menos o Brasil é ouvido”, lamentou um ex-chanceler que deixou recentemente o posto. Ele está preocupado com os próximos anos: “Tudo isso foi no primeiro ano. E ainda faltam três. Não consigo imaginar quantos prejuízos mais teremos até 2022”.

É intolerável ouvir palavras de um nazista na boca do governo brasileiro

Há ações que não podemos aceitar. Há fronteiras que não podem ser transpostas. O secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, evocou a maior barbárie do século 20. O nazismo ficou marcado na historia da civilização mundial como aquilo que não se deve aceitar. Em vídeo, Alvim cita quase textualmente um discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler.

Em 48 anos de jornalismo, nunca pensei que tivesse que comentar sobre Joseph Goebbels. Havia a certeza na minha geração, nascida na década seguinte à 2º Guerra Mundial, que o pesadelo nazista estivesse superado. Uma arma poderosa no controle da nação alemã foi justamente a propaganda de Goebbels, que levou o povo àquele momento absolutamente triste da História. O que houve ali é analisado com frequência para ser repudiado.

É inaceitável ouvir as palavras de um monstro como Goebbels na boca de uma autoridade brasileira.


Várias palavras se repetem em ordem diferente, mas no mesmo sentido. O que disse Goebbels: “a arte alemã da próxima década será heroica”. O que disse Alvim: “a arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional”. Goebbels: “será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismos.” Agora, Alvim: “será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa.” Esses são alguns exemplos. Há outros. Goebbels: “será nacional com grande pathos e igualmente imperativa e vinculante ou não será nada.” Alvim: “posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo, ou então não será nada.”

A postura, a música ao fundo e o discurso do execrável ministro nazista. Alvim subiu na hierarquia bolsonarista atacando a inatacável Fernanda Montenegro. Atacou um símbolo. Faz parte da estratégia. Fernanda dedicou uma vida à cultura.

O governo coleciona erros e grosserias. Bolsonaro foi responsável por mais da metade dos ataques a jornalistas em 2019, por exemplo. Na transmissão de ontem pela internet, o presidente falou em revisar livros didáticos. Todo o autoritarismo usa a ideia de reescrever livros históricos.

A intenção é rever as críticas à ditadura. Bate num pilar desse momento da História que começa após a ditadura. A democracia foi um pacto nacional, não se pode reescrever o que foi a ditadura. Aquele período tem que ser entendido como foi: um momento infeliz da nossa História. Ulysses Guimarães disse em discurso que “conhecemos o caminho maldito”. Elogiar e repetir a ditadura é isso, um caminho maldito.

Outro elemento do nazismo é a xenofobia. A jornalista Thais Oyama fez um livro sobre 2019 e foi atacada pelo presidente. Bolsonaro se referiu a ela como “essa japonesa” que “não sei o que está fazendo aqui”. O Brasil tem orgulho de contar com os descendentes de japoneses. O presidente Bolsonaro é descendente de italianos e todos o consideramos brasileiro. Somos todos assim. Temos raízes nos povos de vários países do mundo. Não se pode ter xenofobia.

Alvim usou no seu discurso, o presidente e outras autoridades também. Deus não é propriedade de um grupo político, pátria tampouco e família todos têm. Não é exclusividade de um grupo político. Eles têm manipulado usando Deus, pátria e família. Isso sempre foi feito, inclusive pelo nazismo. Não se cita um nazista.

Aloprar ou recrudescer

Há semanas, agoniado com as investigações do Ministério Público do Rio sobre a “rachadinha” no gabinete de seu filho Flávio quando deputado estadual, Jair Bolsonaro ejaculou: “Se não tiver a cabeça no lugar, eu alopro!”. Aloprar significa ficar inquieto, agitado —aloprado. E Bolsonaro tem razão para aloprar —talvez já esteja sentindo a Justiça perigosamente perto das trampolinagens da família. Mas vamos ser justos. Num governo estrelado por tantos analfabetos, inclusive ele, surpreende vê-lo resgatar um verbo tão exótico e pouco usado.


O general João Batista Figueiredo, último presidente da ditadura, também apelou certa vez para um verbo incomum. Reagindo às tremendas pressões sobre ele, vindas tanto dos civis quanto da linha-dura militar, Figueiredo explodiu: “Olha que eu recrudesço!”. O país parou, expectante. Parecia uma ameaça —mas de quê, como e contra quem? No Pasquim, Jaguar botou seus dois calunguinhas para discutir. Um deles pergunta: “O que é ‘recrudesço’?”. E o outro: “Não sei. Mas tem cru no meio”.

Jânio Quadros passou à história por ter justificado sua renúncia à Presidência da República com o imortal “Fi-lo porque qui-lo”. Depois tentou emendar, dizendo que o certo era “Fi-lo porque o quis”, mas isso não alterou seu gambito politicamente suicida.

Michel Temer, por sua vez, deixou saudades por seu domínio da mesóclise: “Se perceber algo errado na condução de meu governo”, ele disse, “consertá-lo-ei”. E fê-lo bem ao dizê-lo —mas, se a Justiça continuar procurando algo errado em seu governo, encontrá-lo-á.

E Dilma Rousseff, que levou o pensamento lógico a níveis patafísicos, usava os verbos como ninguém, como nesta passagem que ainda intriga os filólogos: “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar ou perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”.

Só resta ao povo aloprar ou recrudescer.

Pensamento do Dia


Discurso de Roberto Alvim, que ecoa o nazismo, precisa ser debatido com urgência

No seu delirante discurso de ontem sobre o que considera o "renascimento da arte" no Brasil, o secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro, Roberto Alvim, não se limita a plagiar espantosamente Joseph Goebbels, o gênio do mal da propaganda hitlerista. Além do trecho que começou a viralizar na madrugada de hoje (lado a lado com palavras do ideólogo alemão), Alvim, num tom triunfalista medonho, traz à tona vários outros elementos que, há 90 anos, constituíram, no que toca à cultura, o nascimento do fascismo europeu e de sua forma germânica, o nazismo.

A ideia, ventilada por ele, de que o povo precisa ser salvo de uma "cultura doente" (primeiro sintoma, ele diz, de uma doença social) ecoa claramente a noção nazista da "arte degenerada", a ser expurgada. Parecido com o afã purificador que, em Berlim, incluiu até uma exposição de pinturas de grandes mestres modernos destinada a fomentar, no grande público, o horror a tudo que respirasse liberdade, crítica, transgressão, pluralidade.

A noção dos "mitos fundantes" nacionais, mencionados por Alvim (como se não tivessem sido jamais visitados por nossas artes, no país de Oswald, de Mário e da Tropicália), em muito lembra os ideais evocados pelo Führer, de uma Alemanha calcada em raízes pátrias profundas, carreadas por uma linhagem que remontaria à Antiguidade Clássica.



Na versão brasileira, contudo, Alvim acrescenta ingredientes do teofascismo, tendência política emergente tanto no fundamentalismo islâmico quanto na onda neopentecostal. Ele o faz ao vincular seu projeto de "arte da nova década" não só à família, mas à fé cristã da imensa maioria do povo brasileiro: Alvim crê numa pretensa revolução dos já proverbiais homens de bem contra o mal, esse alvo móvel representado por tudo o que foge à bitola equestre dos luminares das trevas que conduzem o Brasil à Nova Idade Média.

Um escritor, nas redes, ao referir-se ao secretário, comenta que a cultura brasileira jamais será a preconizada por "este palhaço". O problema é que a ascensão dos fascismos é sempre precedida pela impressão de que se trata de um bando de pândegos. É justamente dessa incredulidade que o monstro se vale para fixar suas garras na jugular do cidadão incauto.

Por isso o discurso de Alvim, que em outra conjuntura mereceria o lixo dos fundos da História, é uma peça que deve ser ouvida, transcrita e estudada, como sintoma de um evento maior que precisa ser debatido com urgência e intensidade proporcional à agressão que representa. Toda atenção é pouca.

Creiam: no fundo musical do discurso não são as Bachianas Brasileiras, mas a abertura de Lohengrin, ópera de Richard Wagner.

Um novo 'deus'

É uma cultura muito estranha, que acredita na transcendência tecnológica. Sua fé no humanismo individualista é absoluta. A revolução digital deu as costas ao mundo vivente, criando a alternativa do mundo virtual que é a Rede. Nossos celulares regem nossas vidas 
Richard Powers, Prêmio Pulitzer

O pobre espera a sua vez no governo Bolsonaro

O governo Bolsonaro se preocupa com os mais pobres? Tem políticas públicas para diminuir a miséria? Pensa em medidas para reduzir a desigualdade social?

Passado um ano de gestão, a única certeza é que, até agora, o Palácio do Planalto não contou o que quer e pretende fazer. O combate à pobreza é uma incógnita na Esplanada.

O presidente Jair Bolsonaro gastou, nos seus primeiros 12 meses, tempo com bobagens ideológicas nas redes sociais e vocabulário para atacar adversários e jornalistas.

A economia, de fato, deu passos (ainda que curtos) de retomada. No entanto, pouco se sabe qual a estratégia para aqueles que mais precisam de dinheiro e comida na mesa.

Bolsonaro não quer vincular seu governo de direita aos programas sociais da era petista, de esquerda, mas ele não apresenta alternativas. Como mostrou a Folha recentemente, os projetos estão empacados.

Contribuem para essa explícita falta de rumo as divergências entre as alas política e econômica do governo.

O Bolsa Família, principal bandeira social dos períodos de Lula e Dilma, é o maior exemplo. O programa de renda atinge sobretudo Norte e Nordeste, regiões em que Bolsonaro não esbanja popularidade.

O Planalto teve que se virar nos 30 para pagar a 13ª parcela prometida em campanha eleitoral. Tirou recursos das aposentadorias e pensões para tapar o buraco e evitar que as pessoas mais necessitadas ficassem sem o dinheiro no fim do ano.

Ao mesmo tempo, tenta arrancar do papel o que diz ser a reformulação do Bolsa Família. E aí surge outro problema. Uma ideia seria focar em aumento para os brasileiros em situação de extrema pobreza, que representam dois terços dos 13 milhões de famílias que hoje são atendidas.

Apoiado pelo núcleo político, o novo programa pode custar mais R$ 16 bilhões aos cofres públicos. A equipe econômica, sob a batuta do ministro Paulo Guedes, resiste ao plano.

Não está claro quando (e se) o governo vai anunciar as mudanças. E o pobre continua esperando a sua vez.

O silêncio que nos cura

Neurocientistas, estudiosos dos mecanismos cerebrais, estão descobrindo a dimensão terapêutica do silêncio. Dizem que, em contraposição ao ruído, o silêncio está se revelando um antídoto fundamental de prevenção, por exemplo, em distúrbios mentais como a depressão ou na doença de Alzheimer. E no bem-estar geral do organismo, a começar com um sono melhor e mais profundo.

E esses mesmos especialistas na dinâmica do cérebro e da memória alertam, por sua vez, para a falta de espaços de silêncio em nossa civilização do ruído, à qual se acrescentou o estrondo das redes sociais. O silêncio hoje se esconde, envergonhado, nos nichos dos que estão descobrindo suas vantagens para o corpo e para a alma.

Se a busca do silêncio foi um dia objetivo dos mosteiros, onde, aliás, os monges que tinham escolhido o silêncio viviam até 20 anos mais do que as pessoas comuns, hoje começa a ser uma busca das pessoas mais aprisionadas pelo ruído físico ou mental.


Se um dia o silêncio foi um luxo de poetas e místicos, hoje sua prática está se disseminando e é recomendada pelos médicos, na forma de meditação, exercícios de ioga ou fuga do barulho das grandes cidades para buscar, na nostalgia da cidadezinha perdida da infância, o silêncio da natureza.

E as crianças descobrem nesses oásis de paz, cada vez mais escassos, o silêncio do balido das ovelhas, o canto solene do galo ou o zumbido das abelhas criando mel, como algo inusitado para eles. Esses silêncios da natureza costumam ser uma descoberta agradável para os pequenos, filhos do ruído dos motores da cidade.

Existem os silêncios da leitura e o barulho da ignorância. Grita-se para ocultar as razões que nos faltam. O silêncio é indecifrável, mas impõe respeito. Em toda a literatura o silêncio é tratado com distinção. O místico espanhol Juan de la Cruz fala da "música calada e a solidão sonora". Hoje até a música se tornou ruído e solidão infunde medo.

Precisamos descobrir o silêncio das plantas à medida que crescem. Fazem isso em um silêncio cósmico. Brotam, crescem e se revelam sempre em silêncio. Conseguir escutar a voz de uma flor que vai abrindo suas pétalas à luz é esforço em vão. Florescem em silêncio absoluto. Goethe, o grande poeta e cientista alemão, admirava, em êxtase, no peitoril de sua janela, “o lento despertar da vida em silêncio”.

O místico islâmico sufista Rumi escreveu que o silêncio é "a linguagem do divino". E no livro de Jó se lê: "Guarda silêncio e te ensinarei a sabedoria". O silêncio é o coração do fogo de onde nascem as palavras mais prenhes de vida. O ruído é uma sacola de nozes vazias.

As palavras, algo que os poetas conhecem muito bem, são engendradas mais em silêncio que no barulho. Ainda escrito no ruído de nossa civilização, o silêncio precede a poesia e a fecunda. Algo como o silêncio imperceptível das mãos do torneiro moldando a lama para transformá-la em uma bela escultura.

Muitos dos males da mente são causados ​​por excesso de ruído. Há barulhos que descompõem a mente e a arrastam para a depressão, e silêncios que nos recompõem e nos harmonizam. As inimizades são ruído. Os abraços são silêncio.

O silêncio é o poema escrito na tela do infinito. A amizade e o perdão são um silêncio sonoro. O ódio é o ruído da larva que cresce dentro de nós.

Há ruídos que são silêncios profundos, como o do vento batendo no rosto em meio às dunas do deserto, ou o das pedras arrastadas pela água limpa de um arroio da montanha. Ele é criado no silêncio da vida que germina e destruído no estrondo das guerras.

O ruído nos leva a esquecer quem somos, e o silêncio nos revela. Tentamos mudar o mundo com ruídos e convulsões, mas só o salvaremos com a silenciosa entrega à vida.

Para concluir este artigo fui buscar um poema clássico sobre o silêncio. Escolhi um da coleção do grande escritor e poeta uruguaio Mario Benedetti. São apenas quatro versos e resumem a infinita literatura sobre o silêncio e suas belezas. Intitulado O Silêncio, sem adjetivos. Escreve Benedetti:

"Que esplêndida lagoa é o silêncio
Ali na margem um sino espera
Mas ninguém ousa afundar o remo
No espelho das águas quietas" (em tradução livre)

O silêncio está sempre grávido de palavras sem pronunciar. Aqui, neste sucinto poema, Benedetti propõe a bela metáfora dos sinos e do remo do barco que não se atrevem a interromper o silêncio sagrado do lago.

Felizes silêncios criativos de paz e diálogo para meus leitores neste 2020, que já começou a correr ruidoso com o temor da explosão de novos conflitos mundiais. Se Moisés foi capaz um dia de parar o sol, como conta a lenda bíblica, que nós sejamos capazes também de deter as mãos suicidas daqueles que ainda continuam amando mais o estrondo da guerra do que o silêncio da paz.

Bolsonaro sonha com volta da mordaça à imprensa

Não é só a lembrança do DOI-Codi que faz Jair Bolsonaro sentir saudades da ditadura. O presidente sonha com a volta do tempo em que o governo podia amordaçar a imprensa. Na impossibilidade de mandar censores às redações, ele ataca jornalistas que, por dever de ofício, são obrigados a ouvir suas grosserias diárias.

Ontem o capitão esbravejou em três turnos. De manhã, na porta do Alvorada, mandou uma repórter “calar a boca”. À tarde, no Planalto, afirmou aos gritos que os jornalistas não têm “vergonha na cara”. À noite, no Facebook, disse que a imprensa “estraga o país”.

A razão da ira foi a notícia de que o chefe da Secretaria de Comunicação mantém negócios com empresas que recebem verbas do governo. Fábio Wajngarten se formou em direito, mas incorreu num caso clássico de conflito de interesses. Ele aprova repasses de dinheiro público para emissoras que contratam sua firma particular.

A notícia não saiu nos blogs bolsonaristas. Foi revelada pela “Folha de S.Paulo”, que o presidente já chamou de “panfleto ordinário” e usina de “fake news”.

De acordo com levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas, Bolsonaro atacou a imprensa 121 vezes no primeiro ano de governo. Isso equivale, em média, a uma afronta a cada três dias.

Além de ofender jornalistas, ele usa o cargo para tentar sufocar empresas de comunicação que o criticam. Em agosto, editou uma medida provisória com o objetivo declarado de reduzir receitas do “Valor Econômico”. Em novembro, excluiu a “Folha” de uma licitação.

Na semana passada, o presidente disse que os jornalistas são uma “espécie em extinção”. Todo político autoritário deseja viver num mundo chapa-branca, sem perguntas incômodas e sem manchetes críticas ao poder. Na democracia, este sonho é irrealizável.

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O secretário da Cultura, Roberto Alvim, disse ontem que pretende usar dinheiro público para financiar filmes históricos de viés conservador. “Estamos tentando criar um cinema sadio, ligado aos nossos valores”, afirmou. Falta achar a Leni Riefenstahl da “nova era”.

Brasil milico


No país da pós-verdade

Historiadores relatam que, em busca das riquezas fabulosas do Eldorado, conquistadores europeus interrogavam insistentemente os nativos, até que recebessem — ou julgassem receber — a resposta que desejavam. Pero Vaz de Caminha escreve em sua famosa carta que, convidados a subir a bordo de uma caravela, alguns nativos examinaram atentamente um par de objetos e, em seguida, voltaram seu olhar para a terra. Os navegantes portugueses concluíram daí que eles estavam propondo trocar aqueles objetos por ouro e outras riquezas — interpretação que, evidentemente, mais se devia ao desejo que à realidade. “Isso tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos”, escreve Caminha.

Talvez tenhamos herdado do colonizador português nossa vocação para acreditar naquilo que queremos, mais do que naquilo que enxergamos. Não surpreende, portanto, que o recente fenômeno da pós-verdade tenha encontrado no Brasil terreno mais do que fértil: a pós-verdade conferiu, por assim dizer, legitimidade intelectual à persistente atitude do brasileiro de ignorar fatos e números que contrariem suas convicções. Sempre aplicamos à realidade o filtro do nosso desejo: se a realidade não corresponde ao que quero, pior para a realidade.


Outro traço distintivo do caráter nacional no século 21 é a obstinada recusa em reconhecer um erro. Parece que Mark Twain estava pensando nos brasileiros do futuro quando afirmou que é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que elas foram enganadas. Assim somos: preferimos nos agarrar a um engano até o túmulo a admitir que fomos feitos de bobos. Por fim, um terceiro traço que nos caracteriza, complementar aos outros dois, é a tendência a confundir fatos e opiniões, vontades e direitos, o que geralmente conduz à vitimização: quando desejos se transformam em direitos, se eu não tenho algo que quero será sempre por culpa do outro, não por incompetência minha.

Somados, esses três traços impedem qualquer conciliação entre os campos em disputa na sociedade fraturada em que vivemos hoje. Como esses campos parecem viver em realidades incompatíveis, sem qualquer interseção que permita um esboço de consenso, é inútil apelar à razão. No país das verdades alternativas, cada um escolhe a narrativa que mais lhe apetece, sem qualquer cerimônia. Todos têm razão e ninguém admite ser contrariado.

Como chegamos a esse ponto? Educação. Antigamente se aprendia desde criança que a gente não pode ter tudo que quer. Mesmo aqueles que não aprendiam isso em casa acabavam entendendo, porque a vida ensinava, e a realidade se impunha. A vida ensinava também que as pessoas são diferentes, têm graus variáveis de beleza e inteligência, talentos, aptidões e características individuais, mas isso não era motivo para inveja nem ressentimento. A beleza alheia não ofendia, a inteligência alheia não oprimia, os talentos alheios eram objeto de admiração, não de ódio — porque se aprendia também que o esforço, o sacrifício e a perseverança podiam levar qualquer pessoa à realização e à felicidade.

Hoje não é mais assim: em vez de entender que não podem ter tudo que querem, gerações de brasileiros estão sendo levadas a acreditar que a todo desejo equivale um direito — e nenhum dever. Uma pessoa desprovida de beleza tem o direito de ser top model; uma pessoa desprovida de inteligência ou disposição para estudar tem o direito de tirar nota 10 nas provas; uma pessoa desprovida de dinheiro tem o direito de ter um iPhone 11; uma pessoa que nasceu homem tem o direito de participar nas equipes femininas em competições esportivas — tudo “por assim o desejarmos”, como escreveu Caminha. É difícil acreditar que isso possa dar certo: pode existir pós-verdade, mas ainda não inventaram a pós-realidade. Indiferente ao que desejamos e ao sentido que damos às coisas, a realidade sempre se impõe, nem sempre de forma agradável.
Luciano Trigo