segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Brasil da piada


O Brasil contra o mundo

Em agosto de 2018, Jair Bolsonaro expôs sua visão particular das Nações Unidas. “Não serve para nada a ONU. É um local de reunião de comunistas”, afirmou. Em visita à Academia Militar das Agulhas Negras, onde assistiu a uma formatura de cadetes, o então candidato fez uma promessa: “Se eu for presidente, saio da ONU. Não serve pra nada essa instituição”.

É difícil que ele repita a bravata na terça-feira, quando debutará na Assembleia Geral. Mesmo assim, seu discurso tem potencial para agravar o desgaste do Brasil no exterior.

No último dia 11, o chanceler Ernesto Araújo ofereceu uma palinha do que pensa o governo. Em visita a Washington, ele esbravejou contra o “globalismo”, o “climatismo” e uma penca de pensadores mortos, como Jacques Lacan e Michel Foucault. Incluiu na lista a filósofa Rosa Luxemburgo, fuzilada por milícias de extrema-direita há exatos cem anos.

Em outra passagem, Araújo criticou os vegetarianos e disse que se vê num “apocalipse zumbi”. É como se sentem diplomatas mais experientes diante do Itamaraty da “nova era”.

“O Brasil tem um patrimônio diplomático construído ao longo de décadas. Agora ele está sendo posto a perder por uma guinada radical à extrema direita”, diz o embaixador aposentado Roberto Abdenur.

Ele se diz apreensivo com a estreia de Bolsonaro na ONU. “Estou muito preocupado com o discurso, porque temo que ele opte por uma linha de confrontação. Está se configurando um panorama muito negativo para o Brasil, que pode resultar em graves prejuízos políticos e econômicos”, alerta.

Com medo de protestos, o presidente já cancelou uma viagem a Nova York. Desta vez, terá que enfrentar os descontentes com a sua política antiambiental. Eles são cada vez mais numerosos: na sexta, a Greve Global pelo Clima tomou as ruas de 150 países. Os incêndios na Amazônia foram lembrados em dezenas de idiomas.

Amanhã, a ONU promoverá uma cúpula especial sobre a crise climática. Com a credibilidade em baixa, o Brasil não foi incluído entre as 60 delegações que usarão a palavra. Melhor assim. Um discurso negacionista causaria ainda mais desgaste à imagem do país.

Na quinta passada, Bolsonaro mostrou que não está alheio ao que o espera. “Tá na cara que eu vou ser cobrado”, admitiu, referindo-se à grita internacional contra as queimadas.

O presidente prometeu que “ninguém vai brigar com ninguém”, mas insistiu na tese de uma conspiração mundial contra o Brasil. “Vou enfrentar as críticas, vou enfrentar os chefes de Estado dos países que estão nessa campanha”, desafiou.

O embaixador Abdenur sugere que ele adote um tom menos belicoso. “O Brasil precisa se mostrar aberto ao diálogo com outros países. Existe uma preocupação legítima com a Amazônia, com a questão indígena e com os direitos humanos”, observa.

Essa preocupação não é coisa de “comunistas”, como sugere o presidente. Na última semana, 230 fundos de investimento pediram ao governo que adote medidas eficazes para proteger a Amazônia. Eles administram uma fortuna estimada em R$ 65 trilhões, cerca de dez vezes o PIB do Brasil.

Os novos 'cruzados'

No contexto da participação do Brasil na cena internacional, cujo ponto crucial será o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no próximo dia 24 de setembro, um sinal preocupante foi a participação do governo brasileiro na Cúpula da Demografia, em Budapeste, na qual o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, sugeriu uma espécie de cruzada antiglobalização e em defesa do cristianismo mais conservador. O Brasil foi representado pela ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que reiterou a disposição de o governo brasileiro liderar um bloco ultra-conservador na ONU.


Como se sabe, as cruzadas foram movimentos militares que partiram da Europa Ocidental com objetivo de conquistar a Palestina e tomar Jerusalém, que estava sob controle dos turcos muçulmanos. Foram nove cruzadas, um movimento quase permanente, que mobilizou a nobreza, camponeses e desocupados por mais de 200 anos, e se transformou numa alternativa de ascensão política, econômica e social. Ironicamente, ajudaram a acabar com o isolamento das sociedades feudais e fortalecer o comércio entre Oriente e Ocidente, principalmente no mar Mediterrâneo. Hoje, a expressão tem significado mais político e ideológico do que militar.

Em Portugal, que liderou uma das cruzadas, a morte do jovem rei Dom Sebastião, em 1578, na batalha de Alcácer-Quibir, deu origem ao sebastianismo, um movimento místico-secular que ocorreu durante a segunda metade do séc. XVI. Como não possuía herdeiros, o trono de Portugal ficou sob o manto do poderoso rei Filipe II, da Espanha. Criou-se uma lenda de que o Rei ainda estaria vivo, esperando o momento certo para retomar o trono e afastar o rei estrangeiro. O mito sebastianista nada mais é do que a esperança de chegada de um salvador, mesmo que fosse necessário um verdadeiro milagre, como a ressurreição do rei morto, D. Sebastião, o Desejado.

No Brasil, o sebastianismo popular se manifestou na crença de chegada de um “rei bom” e até hoje está presente em manifestações folclóricas, como a Folia de Reis. Influenciou movimentos populares de Norte a Sul, sendo o mais significativo o de Canudos, no sertão da Bahia, no qual Antonio Conselheiro pregava que D. Sebastião retornaria dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil, o que foi motivo para a intervenção do Exército. Foram necessárias quatro campanhas militares para derrotar os jagunços de Canudos. O livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, narra em detalhes essa tragédia nacional.



O mito sebastianista se manifesta de diferentes formas, mas todas têm como ponto de referência o surgimento de um “salvador da pátria”. Por isso mesmo, serve de caldo de cultura para o nosso velho populismo. Não à toa, o presidente Jair Bolsonaro é chamado de “Mito” por seus seguidores mais apaixonados. A facada que recebeu em plena campanha eleitoral e as quatro cirurgias dela decorrentes reforçam essa ideia no imaginário de seus seguidores. A forte relação de Bolsonaro com as igrejas neopentecostais também alimenta seu carisma, ainda mais por causa do forte engajamento político dessas correntes na política, que ultrapassou a fronteira entre o desejo de reconhecimento e o efetivo exercício do poder.

Há que separar, porém, os setores tradicionais que sempre defenderam o caráter laico do Estado, até por causa dos antigos vínculos entre a Igreja Católica e o Estado, daqueles que ambicionam uma espécie de nova teocracia. Depois do fracasso dos calvinistas franceses, nas invasões do Rio de Janeiro (1555) e Maranhão (1594), o protestantismo chegou ao Brasil no começo do século XIX, com os anglicanos (1816), devido à presença inglesa após a Abertura dos Portos(1808) por Dom João VI. Graças à liberdade religiosa, depois vieram congregacionistas (1855), presbiterianos (1859), metodistas (1867), batistas (1881), episcopais (1889) e luteranos (1900).

Mesmo com a Congregação Cristã do Brasil (1910) e a Assembléia de Deus (1911), somente na década de 1950, o movimento pentecostal brasileiro se fragmentou, com o surgimento das igrejas Evangelho Quadrangular (1954), Igreja do Nazareno (1958) e Cristã de Nova Vida (1960). A cisão desses movimentos deu origem às organizações pentecostais brasileiras: Brasil para Cristo (1955), do missionário Manoel de Mello e Silva; Deus é Amor (1962), de David M Miranda; e Casa da Bênção (1964), de Doriel de Oliveira.

O movimento que dá mais sustentação a Bolsonaro, porém, é formado por igrejas pentecostais que fazem uso intensivo dos meios de comunicação, com ênfase em milagres, curas e prosperidade pessoal: Igreja Universal do Reino de Deus (1977), de Edir Macedo; Igreja da Graça de Deus (1980), de R.R. Soares; a Renascer em Cristo (1986), de Estevam e Sônia Ernandes; Sara Nossa Terra (1992), de Robson Rodovalho; e Poder de Deus (1998), de Valdemiro Santiago. Hoje, devido à nova legislação eleitoral, se transformaram em poderosas forças políticas, que vão disputar as prefeituras nas próximas eleições municipais, como no Rio de Janeiro, em razão da facilidade de montar chapas de vereadores e levantar recursos financeiros, ao lado do desgaste dos partidos.

O futuro imprevisível

Uma coluna de jornal costuma dar a seu titular a duvidosa condição de oráculo. Alguns leitores, ao ver o colunista na rua, param para conversar, expressam suas aflições sobre a conjuntura política, econômica, cultural, e pedem sua opinião sobre o que irá acontecer --e a atual conjuntura mais que justifica essa aflição. Quando me fazem essa pergunta, só posso responder com a velha frase, de autoria incerta, mas de mortal precisão: quem diz que sabe o que vai acontecer é porque está muito mal informado.

Numa faxina recente, caiu-me às mãos um número da extinta revista Manchete, de 13 de janeiro de 1968, com Leila Diniz na capa. O prato forte era uma reportagem com videntes, daqui e de fora, sobre o que iria acontecer naquele ano. Resolvi ler.


Os videntes brasileiros previram grandes agitações estudantis no meio do ano, abalando o governo do ditador Costa e Silva, que, no entanto, terminaria seu mandato. Pois não é que houve mesmo o movimento estudantil, culminando na Passeata dos 100 mil, a 26 de junho? Mas isso não era difícil de prever, porque as agitações já vinham desde 1967. E Costa e Silva, como se sabe, não terminou seu mandato --morreria de um AVC, em 1969.

Os videntes europeus citados pela Manchete previram a vitória de Bob Kennedy na eleição presidencial americana, a tomada de Paris pelos ratos, a chegada do homem à Lua, a descoberta da cura do câncer e um desastre envolvendo um Beatle. Erraram tudo. Kennedy foi morto em campanha, os ratos fizeram forfait, o homem só chegaria à Lua em 1969, o câncer continuaria invicto e o único desastre envolvendo um Beatle foi a notícia do namoro de John Lennon com Yoko Ono. Ninguém previu a Primavera de Praga, o assassinato de Martin Luther King, a estreia da peça "Hair", o decreto do AI-5.

Hoje, mais difícil do que prever o que acontecerá no Brasil é se ainda haverá Brasil para acontecer.
Ruy Castro

Ágatha, Raoni e Marielle: a realidade que ameaça abafar a voz de Bolsonaro na ONU

Não tragam discursos. Tragam planos. O recado foi passado pelo secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, aos chefes de estado e de governo que começam a desembarcar nesta segunda-feira em Nova York.

O português sabe muito bem do que fala. Sua entidade vive provavelmente sua pior crise, em mais de 70 anos de história. E sua recuperação dependerá da vontade de líderes em trabalhar sobre planos concretos. E não mais um acúmulo de mentiras, declarações diplomáticas ou apertos de mãos.


No fundo, quando Jair Bolsonaro abrir a Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira, ele estará discursando para uma entidade decadente. O déficit em suas contas, o cinismo ecoado nos corredores, a manipulação de valores humanistas para que governos atinjam seus objetivos de poder, a tentativa de acobertar violações sexuais pelas tropas de paz e a incapacidade de manter a segurança no planeta são apenas extratos de um profundo mal-estar.

Guterres sabe que o palco mundial está repleto de goteiras, fissuras e vive um clima de dúvidas sobre o futuro da entidade. Algo parecido ao que se viveu quando o mundo viu o fracasso do plano da Liga das Nações, há quase cem anos.

Por isso, ele precisa de líderes que tragam para a mesa um plano sobre como trabalhar de forma conjunta em diversas áreas. De líderes que entendam que fortalecerão a soberania de seus países justamente ao admitir que, sozinhos, não serão capazes de dar respostas a desafios que não respeitam fronteiras soberanas.

A convocação enfrenta uma enorme resistência: neste ano, o palanque será ocupado por chefes de estado e de governo cujos atos são antagônico com o propósito da ONU de buscar soluções globais para problemas globais. Não serão poucos os que evocarão a tal “soberania”, uma forma diplomática de alertar: não se metam por aqui.

Certamente Bolsonaro recorrerá ao conceito ao tratar da Amazônia. Mas ele não estará sozinho nesta onda nacionalista, populista e míope. Outros usarão a mesma palavra para falar de seu direito de fechar suas fronteiras aos refugiados, para justificar o protecionismo comercial ou para rejeitar qualquer prestação de contas em relação às denúncias de execuções de opositores aos regimes.

Mas se Bolsonaro quiser reverter sua imagem profundamente desgastada no exterior, ele não poderá apenas chegar com um discurso. O que o mundo quer saber do presidente brasileiro é o que ele pretende fazer pelo Brasil, por suas minorias, e qual será sua contribuição ao mundo.

Talvez o presidente não saiba, mas ele desembarca em uma entidade que usou a imagem da “Mulher Maravilha” para promover o direito das mulheres e meninas pelo mundo. A fantasia, porém, não salvou Ágatha.

Tampouco salvou Marielle Franco seus inúmeros alertas sobre os riscos que corriam os defensores de direitos humanos no Brasil.

Bolsonaro, se quiser responder ao apelo internacional, terá de dizer o que o seu Governo fará de concreto para garantir a verdade sobre crimes, do presente e do passado. O que fará para ampliar as garantias democráticas e proteger inclusive seus opositores.

Se o presidente quiser atender ao pedido, terá de levar consigo um plano para atacar o discurso do ódio e denunciar qualquer tentação autoritária.

E, claro, tentar esclarecer como sua visão de que “bandido bom é bandido morto” é compatível com a carta das Nações Unidas – um livro pequeno que talvez fosse uma boa leitura de bordo no trajeto para NovaYork.

O mundo ainda aguarda por planos concretos sobre como lidar com o fenômeno das mudanças climáticas, a maior ameaça aos direitos humanos e à sobrevivência no planeta. Declarar a soberania sobre a Amazônia, portanto, tampouco servirá. Salvo, claro, para ser aplaudido por seus fieis.

Dizer que o Brasil está comprometido com os povos indígenas, sem dar provas, será ridicularizado diante das poucas palavras de Raoni, indicado para o prêmio Nobel da Paz e para o prêmio Sakharov.

Repetir o que a embaixadora do Brasil disse na ONU há duas semanas – que o país era “exemplo e inspiração” ao mundo no que se refere aos direitos humanos – soará como um slogan tão mentiroso quanto a palavra “democrática” no nome oficial do regime de Pyongyang.

Ágathas, Marielles e Raonis, portanto, ameaçam ofuscar qualquer tentativa de Bolsonaro de transformar o palanque da ONU em uma operação de publicidade global.

Elas representam a realidade do país, marcado por uma política pública de extermínio – de pessoas, do estado de direito, dos direitos humanos ou de bromas.

Imperdoável e intransigente, essa realidade dos crimes diários ameaça abafar a voz do presidente e fazer um barulho ensurdecedor. E em todos os idiomas oficiais das Nações Unidas.

Imagem do Dia

O que restou do lago Atescatempa, na Guatemala (Marvin Recinos -AFP)

Tempos vulgares

Peço licença às leitoras e leitores para substituir minha análise política semanal por ligeiras linhas sobre o espírito do nosso tempo. Começo com o alerta feito por Nietzche em seu retiro nos Alpes suíços em 1880:“Vejo subir a preamar do niilismo”. Prenunciava a chegada de tempos medíocres e vulgares.

“A história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Nesses tempos de baixeza moral, a atestar que o estágio civilizatório de um povo nem sempre segue o rumo da grandeza, urge dar novo sentido à frase acima de Karl Marx. A história se repete uma, duas, cinco ou mais vezes, e portando novas tragédias.

Olhe-se ao redor. Um clima de emboscada nos segue com agressões de todos os tipos. Insegurança nas ruas, gangues em todas as regiões, balas perdidas, querelas por pequenos incidentes – um esbarrão nos ônibus, um palavrão no trânsito. Fosse só isso, seria até suportável.

Mas os tempos são mais sombrios e abatem a moral de nossa gente. Oportunistas e carreiristas se abrigam em guetos na administração pública. Larápios se disseminam e corroem as riquezas da Nação. Em pleno tempo de Lava Jato, apoiam-se em modelagens tecnológicas para sugar bens do Estado.

A honradez cede lugar às artimanhas. Profissionais da política trocam a missão de bem servir à sociedade, ideal aristotélico, por uma profissão bem remunerada. Servir-se em lugar de servir. Muitos trocam a palavra e sua índole moral por uma prebenda.

Corações e cérebros escamoteiam a verdade, arrumam desculpas para explicar a mudança de posição em importantes decisões. As circunstâncias determinam o ir e vir. Firmeza de propósitos? Quimera.

Nessa paisagem de folhas secas, grupos se digladiam em redes sociais com xingamentos e acusações, multiplicando fake news em um cabo de guerra imaginário. Debater em um fórum de ideias? Não. O ódio racha a sociedade, a bílis escorre. É um jogo de soma zero.

Frios, apáticos, cegos, milhões não enxergam os horizontes do amanhã de prosperidade, caso substituíssem a mentira pela verdade, o deboche pelo respeito, o oportunismo pela oportunidade de ajudar os carentes, a indignidade pelo zelo, a torpeza pela civilidade. O que se vê são impostores e hipócritas.

A injustiça impera, apesar do Judiciário, do Ministério Público e dos sistemas de controle. O espetáculo motiva operadores do Direito, interessados apenas na visibilidade. A hipocrisia dá o tom. A maldade se bifurca na encruzilhada dos malfeitores. O primeiro germe da perfeição moral se manifesta quando alguém pratica o bem, ensina coisas certas, admira as virtudes. Mas esse germe é escasso, convenhamos.

O país se locupleta de pessoas refratárias a gestos dignos. Que navegam no pântano. Caçadores de fama, aproveitam o niilismo para surfar nas ondas do favorecimento. Resta pinçar o timoneiro Simon Bolívar, que há 170 anos perorava: “Não há boa fé na América, nem entre os homens nem entre as nações; os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas, a liberdade é anarquia e a vida, um tormento. A única coisa que se pode fazer em nossa América é emigrar”.
Gaudêncio Torquato

Ninguém gosta

Não é bom, não é correto, ficar falando isso. Nós, indígenas, queremos morar na nossa terra. Viver lá. Deixa viver do jeito nosso, do jeito que a gente quer viver. É isso que nós queremos. Eu acho que ele (Bolsonaro) não pensa direito. O coração dele não é bom. Eu não estou gostando
Raoni, líder Caiapó

Ágatha vai à cova e Witzel leva a filha à escola

Wilson Witzel teve um domingo assombrosamente normal. Plugou-se às redes sociais antes do nascer do Sol. Às 5h, postou um "parabéns" à cidade de São Gonçalo, que faz aniversário de 129 anos. Celebrou o Dia Mundial Sem Carro. "Eu apoio essa iniciativa por um mundo sem poluição". E pendurou nas redes uma foto na qual aparece de costas ao lado de sua caçula. "Minha filha, Beatriz, faz hoje a prova de ingresso para o Colégio Militar", anotou na legenda.

Beatriz Witzel, 11, é apenas três anos mais velha do que Ágatha Félix, 8, a menina que foi morta por um tiro de fuzil quando estava com sua mãe numa Kombi, durante operação policial no Complexo do Alemão. Executada na noite de sexta-feira, Ágatha foi sepultada neste domingo. Embora já fossem decorridos quase três dias da tragédia, o governador fluminense manteve em relação ao tema um silêncio tumular.


Por uma trapaça do destino, Ágatha foi conduzida à cova por sua família no mesmo dia em que o pai de Beatriz levou-a para a escola. Produziu-se um incômodo contraste entre o domingo normal de Witzel e a anormalidade decorrente da política de segurança baseada no lema do "tiro na cabecinha'. A execução de mais uma alma inocente, de fulgurante jovialidade, é um acontecimento do tipo que fere a rotina como uma lâmina fria, fazendo o cotidiano escapar do controle.

Ignore-se por um instante o tiro que matou Ágatha, e fixe-se a atenção no que aconteceu antes e depois do disparo. Antes, Witzel consolidou-se como narrador de uma nova era. Disse coisas assim: "A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo!" Ou assim: "Cova, a gente cava". Ou ainda: "Criminosos serão combatidos e caçados nas comunidades". Depois, o silêncio.

Banalizou-se o noticiário sobre policiais entrando em bairros onde moram pessoas pobres, confrontando-se com bandidos e matando "suspeitos". Em três casos extremos, abateram-se, por exemplo, suspeitos de portar armas e drogas. Um carregava uma furadeira. Outro, um guarda-chuva. Um terceiro levava na mochila um par de chuteiras, uma sandália de dedo e R$ 85,00. Tudo isso antes do tiro que transfixou o corpo de Ágatha. Depois, o silêncio de Witzel.

Pode-se imaginar que o governador não tenha perdido a loquacidade no ambiente familiar. Cercada de guarda-costas, Beatriz chegou da escola. E o pai-governador decerto perguntou: "Como foi a prova, minha querida?" A menina talvez tenha respondido: "Acho que fui bem, papai". Esse é um tipo de diálogo banal que os familiares de Ágatha jamais poderão travar.

Se a normalidade reinante no cotidiano de Wilson Witzel tem alguma serventia é para demonstrar que algo de muito anormal precisa acontecer no Rio de Janeiro e no Brasil.

Bolsonaro em Nova York

Bolsonaro deve falar amanhã em Nova York. É o acontecimento da semana, embora as semanas no Brasil surpreendam com frequência.

Escrevi um artigo tentando elaborar sobre o contexto que espera Bolsonaro. No passado não era assim. Os presidentes brasileiros inauguravam a sessão da ONU com discurso protocolar e bocejos na plateia.

Bolsonaro ignora o ímpeto das forças que despertou com sua política amazônica. Ninguém o avisou. Seu chanceler acha que a Nasa não distingue fogueira de queimada. Internamente, estimulou os predadores. Era evidente que o enfraquecimento da fiscalização, a promessa de trazer mineradoras americanas para atuar na Amazônia, tudo isso contribuiu para a frase que estava no ar: da próxima vez o fogo.


Nos Estados Unidos houve quem afirmasse que as queimadas na Amazônia são uma grande ameaça à segurança nacional e devem ser tratadas como armas de destruição massivas.

Macron recuperou, timidamente, o discurso de Mitterrand sobre soberania limitada. Mitterrand a mencionou em dois casos: destruição ambiental e grandes violações dos direitos humanos.

Esse debate aparece pouco no Brasil. Mais concretas são as consequências econômicas. Fundos de pensão estrangeiros, que administram trilhões, exigem uma política de preservação da Amazônia. No meio da semana, a Áustria fez saber que não apoiaria o tratado da Europa com o Mercosul por razões ambientais.

São muitas as oportunidades que o Brasil pode perder se insistir no tom de Bolsonaro. O centro do debate não é a soberania, mas o que o Brasil faz dela numa região específica que interessa ao planeta.

Num contexto tradicional de buscar as melhores vantagens para o país, a Amazônia é dos maiores trunfos para nossa diplomacia. Basta reconhecer como legítima a preocupação internacional, que não é apenas dos líderes mundiais, mas também de seus eleitores.

A partir daí, é possível definir um amplo campo de cooperação. Só não fico aflito porque sei que uma coisa é Bolsonaro e suas redes; outra é o Brasil real. Nove governadores da Amazônia Legal falam pela região e desenvolvem uma política própria. Sabem melhor o que estão fazendo porque conhecem a Amazônia e se preocupam com a sorte de 28 milhões de pessoas que vivem na região.

De uma certa forma, isso acontece também com o Trump nos Estados Unidos. Os governadores que levam a sério as mudanças climáticas desenvolvem uma política própria.

O problema, no caso brasileiro, é que Bolsonaro é um presidente bastante conhecido no exterior. Nova York não se importa tanto com a ONU e os discursos. Mas a imprensa e a televisão certamente vão se interessar. Será uma semana de grandes debates sobre o clima na ONU. Manifestações e tudo mais.

Não sei precisamente o que Bolsonaro falará. Mas, se falar o que pensa, vai escandalizar; se falar o que não pensa, talvez não seja convincente.

Se pelo menos citasse poetas maranhenses. O passivo já é grande. É preciso reconstruir a relação com os europeus, afastar as sempre presentes ameaças de boicote comercial.

Bolsonaro vê a Amazônia com os olhos dos fazendeiros que o apoiam. Critica os fiscais e ignora um campo em que precisa crescer: o combate à biopirataria.

O centro da tragédia de sua política amazônica é subestimar o conhecimento que a floresta pode produzir e o já acumulado pelos seus habitantes. No Pará existe um homem que cria cobras e vende seu veneno para a indústria farmacêutica. Ganha bem, e o veneno tem inúmeras utilidades medicinais. Novas espécies são identificadas pelos pesquisadores, às vezes cinco por semana.

O conhecimento da Amazônia é o instrumento estratégico que o Brasil precisa manobrar, definindo a cooperação estrangeira, direitos autorais de povos da floresta, enfim exercendo sua soberania nos fatos onde realmente ela interessa, e não em discursos para entusiasmar eleitores, cada vez menos entusiastas, cada vez mais envoltos nas brigas internas.

Quando não há horizontes, a sensação é de naufrágio, que, aliás, se define mesmo como a perda do horizonte.
Fernando Gabeira

Dizer que existe democracia no Brasil é uma enganação surrealista

Um dos maiores pensadores da História Moderna foi Lord Kenneth Clark, nascido em Londres em 1903, especialista em arte, professor em Oxford, diretor do Museu do Reino Unidos e que se notabilizou como um dos maiores historiadores do mundo, autor da obra clássica “Civilização, Uma Visão Pessoal”, lançada em 1969, quando ganhou o título de Barão. Um de seus pensamentos mais conhecidos diz tudo sobre ele: “Civilização? Jamais conheci alguma. Mas tenho certeza de que, se algum dia encontrá-la, saberei reconhecê-la”

Esta conclusão de Clark se adapta perfeitamente à atual situação do Brasil, porque aqui se diz que vivemos num regime democrático, mas isso “non ecziste”, como diria o célebre padre Óscar Quevedo.

Para que haja democracia é preciso que exista independência dos Poderes, como ensinou Charles-Louis de Montesquieu, que também era Barão, mas por nascimento. De família nobre, atacou duramente o regime monárquico absolutista. Era considerado filósofo, mas na verdade se consagrou como historiador e cientista político.


Este pressuposto fundamental de Montesquieu raramente foi obedecido no Brasil, de forma satisfatória. Pelo contrário, temos uma tradição de governos autoritários e ditatoriais, em que não houve a necessária separação entre poderes.

Agora, 33 anos depois da última ditadura, assiste-se ao crescimento da promiscuidade entre os três Poderes, que se tornaram dependentes entre si, a pretexto de “descriminalizar” a política, através da inviabilização da Lava Jato, tendo como contrapartida a blindagem da família presidencial e dos demais envolvidos em movimentações atípicas em qualquer dos três Poderes.

O mais curioso é que no Brasil esse tipo de conspiração se faz às claras. A proteção aos corruptos é feita sob argumento de garantir amplo direito de defesa. Foi o que justificou a libertação de José Dirceu, através de um habeas corpus que sua defesa nem pedira. E agora é a mesma justificativa para a pressão destinada a libertar Lula da Silva, o mentor do maior esquema de corrupção da História Universal.

Essas distorções não podem acontecer em regime democrático, mas o Brasil foge à regra. O economista Armínio Fraga declarou semana passada que “o maior problema do país é a desigualdade social”. A jornalista Miriam Leitão perguntou se ele era de esquerda. Fraga respondeu que estudara a questão e concluíra que nenhum país pode se desenvolver sem reduzir a desigualdade social.

Aqui no Brasil, um procurador que ganha média de R$ 80 mil mensais considera esse rendimento um “miseré”, sem perceber que isso significa 80 vezes o salário mensal da grande massa de trabalhadores brasileiros, diferença que não existe em nenhum país minimamente civilizado.

domingo, 22 de setembro de 2019

A estranha paixão do presidente Bolsonaro por juízes e magistrados

O Presidente Jair Bolsonaro é famoso por usar a paixão como imagem para as mais variadas circunstâncias. Já disse publicamente que havia começado a se apaixonar pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, apesar de ter vários atritos com ele. Disse a mesma coisa sobre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. E não precisa confessar sua paixão pelo presidente do Supremo, Dias Toffoli. Entre eles são só elogios recíprocos.

Que ele se apaixonou, antes ainda de ser eleito Presidente, pelo juiz e principal nome da Lava Jato, Sérgio Moro, ficou claro quando o chamou para oferecer-lhe o importante Ministério da Justiça. Agora, na verdade, parece que esses amores estão em crise.

Em compensação, Bolsonaro abriu um novo caminho de paixão com o outro juiz mais famoso depois de Moro, Marcelo Bretas, juiz da Lava Jato do Rio, com fama de ser tão ou mais duro em suas condenações do que Moro. E com uma particularidade: confessou que, como evangélico devoto, sua grande conselheira é a Bíblia, que ocupa um lugar especial em sua mesa de trabalho. O ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, que chegou a ser imaginado por Lula como candidato à Presidência da República, foi condenado por Bretas a 216 anos de prisão.

O primeiro vestígio de um início de paixão do presidente com o temido juiz Bretas apareceu na segunda-feira passada, quando o juiz descobriu que Jair Bolsonaro havia entrado em sua conta do Twitter. E não faltaram palavras ao rígido juiz da Lava Jato do Rio para mostrar em publico sua surpresa e seu agradecimento. Escreveu: “honrado por ter entre os seguidores dessa conta do Twitter o presidente da República do Brasil. Gratidão!”.

É possível, entretanto, que essa paixão tenha sido recíproca por interesse. O juiz savonarola do Rio não excluiu que, como seu amigo o ex-juiz Moro, poderia deixar a jurisprudência para tentar a sorte na política. E, principalmente, não descartou que gostaria de ocupar uma cadeira no Supremo.


Os dois sonhos de Bretas estão hoje nas mãos de Bolsonaro. O Presidente nesse primeiro mandato terá que mudar, de fato, dois ministros do Supremo, e já disse que gostaria de alguém “terrivelmente evangélico”. Quem mais evangélico do que Bretas que não esconde que sua grande conselheira ao emitir sentenças é a Bíblia, sempre em cima de sua mesa de trabalho? E pelo modo como andam as relações entre o Presidente e seu ministro Moro, logo o ministério da Justiça poderia ficar livre. Que melhor momento para o sonho de Bretas de entrar na política?

Talvez o juiz Bretas, que é um grande leitor da Bíblia, tenha visto que no Antigo Testamento os juízes não se diferenciavam dos governantes. No Livro dos Juízes fica claro, por exemplo, como em todo o mundo de Israel “julgar era sinônimo de reinar”. Os juízes acabaram sendo os caudilhos do povo de Israel. No discurso de São Paulo na Sinagoga de Antioquia da Pisídia (Atos,13,20) fica claro que os juízes haviam sido colocados por Deus “para que se abstivessem de condenar o que Deus havia disposto”. E foi o juiz, Samuel, o encarregado de ungir Davi como rei de Israel.

Não é estranho que evangélicos como Bolsonaro, Moro e Bretas, para quem a Bíblia é vista principalmente sobre o prisma do Antigo Testamento em que tudo gira ao redor dos desígnios de um Deus vingativo, não vejam uma separação clara entre a Justiça e a Política.

Há quem prefira ver também nessas paixões entre o presidente do Brasil e os juízes e magistrados com poder um interesse especial que é mais político do que religioso. Moro foi levado ao Governo por Bolsonaro porque ele sabia que tinha uma grande força popular. É possível que essa aproximação do Presidente com Bretas tenha a ver com os interesses que Bolsonaro e toda a sua família tiveram e têm na política do Rio, em que se formaram e cresceram e na qual estão envolvidos em litígios judiciais por suas estreitas relações com as milícias e com o assassinato, ainda sem mandantes, da vereadora Marielle Franco.

E Bretas não pode, além disso, deixar de ser cortejado por Bolsonaro já que existia uma foto dele que, ao mesmo tempo em que foi duramente criticada pela opinião pública democrática, não pôde deixar de ser aplaudida pelo Presidente da República mais apaixonado pelas armas que já existiu. Nessa foto, o juiz Bretas aparece com um moderno fuzil nas mãos. Precisou explicar que era para se formar em aulas de tiro para defesa própria, por ele sua família estarem gravemente ameaçados pelos que levou à cadeia.

É possível que sejam puras elucubrações de corredores políticos, mas não há dúvida de que se trata de um grande paradoxo. Bolsonaro, que em sua campanha enfatizou o fato de acabar com a velha política e reforçar a experiência da Lava Jato encarnada nos juízes Moro e Bretas, pode acabar, pelo contrário, arrancando-os da Justiça para colocá-los na política. Um, Moro, já está, e Bretas poderia chegar.

Para Bolsonaro, quando ao chegar à Presidência precisou constatar que seu filho, o senador Flávio, havia sido descoberto em práticas de corrupção política quando era deputado do Rio, sua maior preocupação não foi lutar contra a corrupção, eliminar a velha política dos conchavos e interesses pessoais, lutar por manter viva a separação entre os diferentes poderes para que uns não se contaminem com os outros. Sua paixão agora são os juízes e magistrados, principalmente os que podem ajudar seu filho e talvez parte de sua família a salvar-se da fogueira.

Há quem me pergunte por que colocaram o nome Jair no Presidente Bolsonaro, descendente de imigrantes italianos e alemães. Dado sua paixão por juízes e magistrados, há quem imagine que foi simbólico, já que Jair é o nome de um dos 14 juízes de Israel. Na verdade foi algo mais prosaico. Quando o futuro Presidente do Brasil nasceu havia um famoso jogador de futebol chamado Jair que fazia aniversário nesse mesmo dia. Sua mãe acrescentou o segundo nome de Messias a Jair porque contou que o parto de seu filho foi tão difícil que somente um milagre o fez nascer.

É verdade, entretanto, que Jair, que significa em hebraico “homem que foi iluminado por Deus”, é também o nome de um dos juízes da Bíblia. Mas pertence ao grupo dos chamados “juízes menores”. Por isso recebe na Bíblia somente três versículos no capítulo X, do Livros dos Juízes, apesar de ter exercido a profissão de juiz por tantos anos. Tudo o que se diz dele é: “Após Tola, Jair de Galaad foi juiz durante 22 anos. Tinha 30 filhos que andavam de burro, e possuía 30 cidades, que ainda se chamam as aldeias de Jair”. Era uma para cada filho.

Eram os tempos em que a tribo de Israel, que era constituída por nômades à procura de terra para fixar sua moradia e reinar sobre ela, chegou à fértil Palestina e à base de guerras e batalhas e de recaídas nos ídolos pelas quais eram castigados, se transformou afinal no povo escolhido por Deus.

Uma vez que Bolsonaro sempre pareceu, como católico e evangélico, mais do Velho Testamento do que do Novo, do Deus da espada e dos trovões do que do Deus acolhedor e criador de paz, não é estranho que tenha ficado, herdado de seu nome de velho juiz de Israel, com seu espírito combativo e armado e que lhe seja tão difícil a linguagem do diálogo com os diferentes e tão longe do mandato do Novo Testamento do “Bem aventurados os semeadores da paz”.

Todo o reinado, ainda breve, do capitão reformado, o Presidente Jair Messias Bolsonaro, que recebeu milhões de votos daqueles a quem prometeu lutar sem trégua contra a corrupção, está se revelando de um paradoxo singular. Pode acabar sendo, pelo contrário, o reinado em que será realizado o funeral da velha Lava Jato. As revelações, de fato, do The Intercept Brasil publicadas por alguns jornais, entre eles o EL PAÍS Brasil, que revelaram o modo pouco constitucional que Moro e seus procuradores chegam às condenações de políticos e empresários, estão produzindo uma profunda crise ética e de identidade.

O paradoxo feliz é que isso poderia servir para que ressurja um modo novo e mais limpo de julgar e condenar que, sem deixar de ser severo como exigem certos pecados de corrupção, que são afinal pecados contra os mais pobres, possa mostrar sua cara de verdadeira justiça, sem mesclas espúrias entre juízes e políticos. O Brasil vive, de fato na Justiça, um dos momentos mais delicados e graves de sua história. Seu futuro em boa parte dependerá de como ele será capaz de resolver esse enigma. O Brasil joga tudo hoje na crise da política contaminada pela Justiça, ou o contrário.

Os tempos em que os juízes eram, no passado, caudilhos e políticos foram varridos pela moderna legislação mundial que, em nome da democracia, separou rigorosamente os diferentes poderes para evitar essa contaminação entre eles que o Brasil sofre nesse momento.

Alguns chegam a chamar de bíblico esse abraço bolsonarista de contaminação entre a Justiça e a política e para isso gostariam até de modificar a Constituição, essa sim a bíblia dos novos tempos, em que já não cabem livres e escravos, fiéis e infiéis. Na bíblia laica da Constituição deveríamos ser todos filhos da liberdade que salva, e não da violência. Essa, desde a antiguidade, serviu mais à morte do que à vida, usada principalmente contra os escravos e os mais desamparados, inermes diante dos que se apresentavam como justiceiros enviados por Deus.

Brasil a(r)mado


Jair precisa falar na ONU como anti-Bolsonaro

Nove meses de governo foram suficientes para Jair Bolsonaro mostrar que sabe criar crises. Na próxima terça-feira, ele terá 20 minutos para revelar que também sabe desfazê-las. Esse é o tempo de duração do discurso que o presidente fará na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Pode continuar soando como um problema para a floresta amazônica. Mas dispõe da opção de se exibir ao mundo pela primeira vez com uma solução ambiental.

Em condições normais, os representantes de 193 países, os chefes de organismos internacionais, os líderes de organizações sociais e os repórteres dos principais meios de comunicação do mundo não dariam muita bola para Bolsonaro. Mas o capitão desdenhou tanto do meio ambiente em tão pouco tempo que acabou chamando a atenção do ambiente inteiro. Será ouvido com grande aplicação e enorme desconfiança.



Sob Bolsonaro, o governo fez uma opção preferencial pela falta de nexo. Desmontou o frágil aparato fiscalizatório do Ibama, desossou o ICM-Bio, desmoralizou dados científicos do Inpe sobre desmatamento e queimadas, refugou verbas doadas por Noruega e Alemanha para programas de proteção ambiental. Foi como se a nova administração desejasse estimular o desmatamento, a grilagem, a queimada e toda sorte de crocodilagem.

O flerte do presidente com o caos foi plenamente correspondido. E as autoridades de Brasília assistiram à proliferação das queimadas na floresta como se não tivessem nada a ver com as chamas. Instado a reagir, Bolsonaro demonstrou que seu compromisso com a verdade é mais fugaz do que se imaginava. Culpou as ONGs pelo fogo. Como calúnia não apaga incêndio, as labaredas se alastraram, ganhando as manchetes da imprensa internacional.

O governo só começou a agir depois que a imagem do Brasil já estava estilhaçada. Bolsonaro mandou publicar no Diário Oficial despacho ordenando aos ministros que tomassem providências visando a "preservação e a defesa da Floresta Amazônica, patrimônio nacional". Acionou a Polícia Federal contra os desmatadores e transformou as Forças Armadas num corpo de bombeiros hipertrofiado. Só faltou se reconciliar com a verdade.

Bolsonaro passou a trombetear a tese segundo a qual a queimada é um fenômeno anual que chega junto com a seca. Só ganhou repercussão agora porque a mídia o persegue. O Ipam, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, desfez a lorota com uma nota técnica. Nela, esmiuçou a encrenca. Comparando-se 2019 com a média dos três anos anteriores, há menos dias secos agora. A despeito disso, há agora uma quantidade maior de focos de mais focos de incêndio.

O relatório do Ipam anota a certa altura:"A ocorrência de incêndios em maior número, neste ano de estiagem mais suave, indica que o desmatamento é um fator de impulsionamento às chamas". Acrescenta noutro trecho: "Os dez municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndio foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento".

Quer dizer: há mais queimadas em 2019 porque o abate de árvores cresceu. O desmatamento é maior porque o governo afrouxou a fiscalização. Vem daí o interesse generalizado pelo discurso que fará na ONU o presidente do país que possui em seu território 35% da floresta amazônica.

O discurso do presidente só será bem sucedido se o orador conseguir restaurar a imagem do Brasil, desarmando retaliações oportunistas às exportações do agronegócio brasileiro. Significa dizer que o êxito depende fundamentalmente da capacidade de Bolsonaro de se expressar durante 20 minutos como um anti-Bolsonaro. Tomado pelo que disse na última quinta-feira numa de suas transmissões ao vivo pelas redes sociais, Bolsonaro não estimula o otimismo.

"Estou me preparando para um discurso bastante objetivo, diferente de outros presidentes que me antecederam. Ninguém vai brigar com ninguém lá, pode ficar tranquilo. Vou apanhar da mídia, que sempre tem do que reclamar, e vou falar como anda o Brasil nesta questão. Eles querem desgastar a imagem do Brasil para ver se criam um caos aqui. Quem se dá bem? O pessoal lá de fora. Se a nossa agricultura cair, outros países que vivem disso vão se dar bem."

Apanhar da mídia? Tolice. Se Bolsonaro retirasse energia da crise, a imprensa mudaria de assunto instantaneamente. O "caos" só existe porque o presidente fabrica crises do nada. Para que "o pessoal lá de fora" não consiga "se dar bem", é preciso que o presidente brasileiro pare de fornecer a matéria-prima usada pelos que desejam ver "nossa agricultura cair".

Lucro não é tudo: a sociedade exige um novo contrato social das empresas

Há dois tipos de capitalismo: o que gera valor para a sociedade e o que o espolia. Durante as últimas décadas, milhões de pessoas notaram que, apesar de terem trabalho, este é insuficiente para permitir uma vida digna; que o elevador social se desacelerou; que a desigualdade é imensa; que a cobiça parece o verbo mais conjugado pelas finanças, e que a crise climática poderia deixar um futuro abrasado de cinzas para seus filhos e netos. Se a promessa de um amanhã melhor, de uma vida melhor, que tem sido a base do capitalismo, se desvanece, o pensamento do homem entra em um círculo vicioso. Por que me sacrificar? Por onde seguir? Elizabeth Warren, a senadora democrata que quer chegar à Casa Branca, resume esta angústia: “As pessoas sentem que o sistema está arranjado contra elas. E sabe qual é a parte mais dolorosa? Elas têm razão”.

Onde estão as grandes empresas quando esta pena em cumprimento atravessa o planeta? Muitas estão brincando em seu jardim de recreio particular. “A cobiça corporativa está governando este país. E essa cobiça está destruindo os sonhos e as esperanças de milhões de norte-americanos”, criticava Bernie Sanders, outro dos candidatos democratas ao Salão Oval.

Em um mundo (até agora) de fronteiras gélidas, os problemas são jogos de espelhos entre as nações, e fica descoberto esse relato neoliberal de que a desregulação traria prosperidade a todos. Nos Estados Unidos, não por acaso, ao mesmo tempo em que o peso dos sindicatos decaía, os lucros empresariais, segundo a revista The Economist, passavam de 5% do PIB em 1989 para 8% atualmente.


Esses números procedem do dogma estabelecido em 1970 pelo economista Milton Friedman. O prêmio Nobel sustentava que o executivo-chefe, por ser um “empregado” dos acionistas, deve defender seus interesses, dando-lhes os maiores dividendos possíveis. Esta ideia, que fere como caminhar descalço sobre vidros quebrados, foi amplificada nas últimas décadas por escolas de negócios e executivos. O sistema métrico é o curto prazo, o sentido diário da companhia é um gráfico da Bolsa, e a cobiça, um cassino global. Friedman respondia assim numa entrevista: “Há alguma sociedade que você conheça que não se guie pela avareza? Você acha que a Rússia e a China não se guiam pela avareza? O que é a cobiça? Certamente, nenhum de nós é ambicioso, só o outro. O mundo se guia através de indivíduos que perseguem interesses diferentes”. Esta é a linha editorial que hoje continua escrevendo o destino de centenas de milhões de seres humanos.

Entretanto, as grandes empresas, sobretudo norte-americanas, sentiram que a mudança nos dias de hoje é trazida pela ira e pelo descontentamento, porque a sociedade exige companhias que melhorem suas vidas. Há algumas semanas, o Business Roundtable (BRT), um dos principais lobbies empresariais norte-americanos —que agrupa 181 grandes corporações como ExxonMobil, JPMorgan Chase, Apple e Walmart— lançou uma nota (que aliás não foi assinada por Blackstone, General Electric e Alcoa) em que redefinia o “propósito de uma empresa”. Os lucros dos acionistas passam a ser um objetivo a mais, e fala-se em “proteger o meio ambiente, fomentar a diversidade, a inclusão, a dignidade e o respeito”. O sentido, agora, é “criar valor para todos os grupos de interesse”. “Tudo isto terá como resultado um capitalismo mais sustentável e inclusivo”, afirma María Luisa Martínez Gistau, diretora de responsabilidade social corporativa do CaixaBank, da Espanha. O BRT só não explica como conseguirá tão bons propósitos.

Apesar de tudo, há esperança de que algo mude na CEOlândia. “É um sinal alentador. Mas só porque demonstra que os executivos-chefes entenderam a advertência: o pêndulo ameaça oscilar em direção contrária, e estão tentando controlar sua velocidade”, reflete Jeremy Lent, talvez um dos grandes pensadores de nossa era. Resta ver se a sociedade acredita na preocupação verde de uma petroleira como a Exxon ou do JPMorgan Chase, um banco que se tornou, segundo o BankTrack, uma rede de ONGs que vigia o comportamento financeiro, um dos maiores financiadores dos combustíveis fósseis do mundo, ao destinar mais de 196 bilhões de dólares (805 bilhões de reais) entre 2016 e 2018. “Porque a verdade é que o lobby não se compromete com nada extraordinário, apenas com o que deveria ser o comportamento básico de uma empresa”, critica Carlos Martín, diretor do Gabinete Econômico da central sindical espanhola Centrales Obreras. E acrescenta: “Os membros da BRT têm três características: são ambiciosos, querem deter o poder e são muito inteligentes. Viram o que se pode vir por aí com Sanders e Warren na esquerda do Partido Democrata e reagiram”. E as pesquisas lhes mostram que é um bom negócio mudar a forma de fazer negócios.
Confiança social

Pode ser, porque as corporações arrastaram a confiança social para a beira do precipício. Aí está o escândalo da Volkswagen, o comportamento do Facebook, a desonestidade do Wells Fargo e a atitude da Novartis. A farmacêutica acaba de apresentar um tratamento genético (Zolgensma) que poderia salvar crianças com atrofia muscular espinhal. Mas o preço, segundo o The New York Times, é de 2,1 milhões de dólares por paciente. Acredita-se que seja o medicamento mais caro da história. Nem sequer os gastos de pesquisa podem esconder a insensibilidade de uma empresa que recebe ajudas públicas. Estas são as empresas que guiarão o século XXI? Essa linha temporal é um pedestal manchado de vermelho. “O comunicado surge como uma resposta ao que se viveu nas últimas décadas. Os vícios do sistema econômico foram tais que os problemas de reputação ameaçam o próprio valor da companhia”, adverte Emilio Ontiveros, presidente da consultoria Analistas Financeiros Internacionais (AFI).

A sociedade ocidental sente que a democracia do acionista falhou. Existem vozes, é claro, que falam em outro registro e criticam alguns desses “vícios”. “Há rendimentos decrescentes despedindo as pessoas repetidamente”, reclama Jeff Ubben, fundador da firma ativista ValueAct Capital, na The Economist. “Não é a estratégia certa para o futuro”, acrescenta. Essas vozes, porém, são escassas, e o passado é outro país.

Logo após da divulgação da nota do Business Roundtable, outra associação, o Council of Institutional Investors —que representa muitas das companhias que estão no BRT e alguns dos maiores fundos de pensão dos EUA—, respondeu com contundência. “Responsabilização de todos significa responsabilização de ninguém. É o Governo, não as empresas, quem deve assumir a responsabilidade de definir e abordar os objetivos sociais com uma conexão limitada ou inexistente com o valor do acionista de longo prazo.”

As posições estão escritas em pedra. As empresas fogem, a declaração do BRT não deixa de ser palavras sobre um papel, a indústria do investimento se fecha no curto prazo, e qualquer CEO sabe que sem lucros será demitido. Então, o que fazer em um momento que exige redefinir o sentido das empresas? “Do meu ponto de vista”, diz Jeremy Lent, “as transformações que a nossa sociedade precisa só acontecerão quando os Governos forçarem as companhias a terem obrigatoriamente seus princípios sociais, ambientais e financeiros em seus estatutos”. Essa “afronta” ao cânone, que Elizabeth Warren também defende, tem resposta nas páginas conservadoras da economia. “As empresas não podem —e não devem— assumir responsabilidades sociais próprias do Estado, como educação, apoio ao bem-estar ou proteção ambiental. Além disso, a prática demonstra que as companhias são as instituições erradas para prestar assistência médica e apoio às pensões”, diz Martin Wolf, escritor e colunista do Financial Times.

Aqui a realidade se choca com esse Lego de vidro que é a natureza humana. “Propósito é o sabor do mês”, ironiza na The Economist Stephen Bainbridge, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). E pergunta: “Mas as empresas vão realmente impor um corte de 10% aos seus acionistas pelo bem dos grupos de interesse?”. E quando a empresa decidir que o lucro não é mais o seu principal objetivo, a quem prestará contas? Aos ativistas? Aos políticos? Questões não resolvidas, mas que revelam as dúvidas de um mundo em trânsito para outro tipo de sociedade.

Talvez este período esconda uma terceira via. Os ativos gerenciados sob critérios ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) na Europa, Canadá, Japão, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia cresceram de 22,9 para 30,7 trilhões de dólares (de 94,1 para 126,2 trilhões de reais) entre 2016 e o ano passado. “Se os executivos continuarem agindo em nome dos acionistas, mas estiverem cientes de que estão preocupados com questões sociais – o meio ambiente, por exemplo – assim como com os lucros, isso melhorará as coisas”, admite Oliver Hart, prêmio Nobel de Economia de 2016. “Se, pelo contrário, os gestores dirigem as empresas em função de seus próprios pontos de vista sobre questões sociais ou a importância dos grupos de interesse, isso poderia ser um passo na direção errada.”

Outra opção (já que a autorregulação nunca funcionou) seria criar uma estrutura que vigiasse e obrigasse os diretores a fazerem algo mais do que superalimentar os dividendos do acionista. Na última década, cerca de 3.000 empresas tiveram a classificação de B corporations. Isso significa que seu comportamento ético, social e ambiental foi certificado pela B-Lab, uma organização não governamental norte-americana. “A declaração do BRT é uma mostra de que a cultura empresarial mudou. Mas agora é hora de uma ação coletiva por meio da comunidade empresarial e dos políticos para trabalhar juntos e superar a primazia do acionista”, diz Andrew Kassoy, cofundador da B-Lab. O problema é que poucas grandes empresas assinaram esse protocolo, e a maioria é de marcas de consumo.

Apesar dos inúmeros pecados de muitas corporações, mudanças acontecem. Em 25 de agosto, cerca de trinta grandes companhias (Apple, Amazon, Unilever) deram o surpreendente passo de publicar uma página no suplemento dominical do The New York Times comprometendo-se a colocar o planeta à frente dos lucros. “É uma mudança que vem para ficar e surge de várias formas: a principal é que o contrato das empresas com a sociedade está sendo reformulado”, analisa Antoni Ballabriga, diretor global de Negócios Responsáveis do BBVA. E avança: “As empresas precisam se molhar mais e ver onde podem aportar maiores capacidades e gerar mudanças sistêmicas; precisamos passar das declarações para a ação”.

O executivo sabe o preço de decepcionar. O caso Villarejo —um escândalo de espionagem comercial envolvendo o BBVA na Espanha— teve impacto na reputação da sua instituição, que agora “enfrenta a necessidade de uma mudança radical em sua política de geração de lucro e, principalmente, de uma limpeza de imagem para aliviar os efeitos prejudiciais de sua imputação”, segundo Miguel Momobela, analista da corretora XTB. A colisão entre a ética e os lucros talvez seja o que o mundo precisa. Que ecloda a faísca, que o fogo se acenda; que escutem. “Dar rentabilidade aos acionistas é uma condição necessária para ter sucesso nos negócios no século XXI, mas não suficiente”, indica o economista José Carlos Diez, lembrando que “as empresas devem incorporar à sua estratégia cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e isso deve ser liderado pelo presidente e seu conselho de administração”.

O mundo acordou

As duas greves foram mera coincidência — uma local/nacional, a outra global/universal. Elas são tão díspares que poderiam ter ocorrido em planetas diferentes. Ainda assim (ou por isso mesmo), somadas em suas diferenças, produziram o retrato mais eloquente do nosso mundo à deriva.

A primeira foi convocada pelo Sindicato dos Metalúrgicos dos Estados Unidos, a outrora poderosa UAW, na sigla em inglês, e brotou na última unidade da GM em Flint (Michigan), histórico berço da paralisação trabalhista que em 1936 deu fama e força ao movimento sindical automotivo. Só que os tempos são outros, e hoje restam apenas 600 empregados naquela unidade. A UAW não recorria a paralisações há mais de uma década e conseguiu a adesão de 49 mil sindicalizados. E endureceu agora porque a GM decidira repassar ao sindicato a conta do seguro-saúde de seus trabalhadores. Mais: a empresa registrara um lucro de US$ 25 bilhões nos dois últimos anos, e sua CEO, Mary Berra, recebera um salário de US$ 22 milhões em 2018, 281 vezes superior ao do operário médio da empresa. Um deles resumiu assim o seu mundo em extinção: “Estamos lutando não só por nós, mas por nossos filhos e pelo futuro dos nossos filhos”.


A segunda greve repetiu mantra semelhante ao derramar por ruas e praças do planeta um mar de jovens de 150 países. Chamada de Greve Global pelo Clima, o movimento da garotada foi maximalista em tudo — ambição, propósito, participação, desdobramento. Turbinado pelo ativismo monotemático da adolescente sueca Greta Thunberg, que desde o início do ano contagia o mundo como porta-voz de sua geração contra a degradação ambiental do planeta, o movimento virou arrastão. Foi acolhido por empresários e sindicatos, ONGs e lideranças mundiais; cruzou gerações, classes sociais, raças e gêneros, e atravessou idiomas para dar um mesmo recado: a Terra arde. Um comunicado conjunto dos prefeitos de Nova York, Los Angeles e Paris informava: “Quando sua casa está pegando fogo, você soa o alarme”. A prefeitura de Nova York chegou a liberar 1,1 milhão de estudantes de suas escolas públicas para participar do ato.

À mesma época em que Greta emergia nas ruas de Estocolmo com protestos solitários que se transformaram em corrente mundial, decanos do bom jornalismo americano constataram a falência da grande mídia mundial na cobertura do estado de saúde do planeta. Exceto por alguns rompantes luminosos como os alertas de Rachel Carson nos anos 1960, e de Bill McKibben 20 anos depois, ambos na revista “New Yorker”, as coberturas ambientais não encontravam foco nem rumo, consistência nem equilíbrio. Daí o nascimento do projeto Covering Climate Now, iniciado pela “Columbia Journalism Review” e pela revista “The Nation”, de incentivo a coberturas ambientais. Passados cinco meses, mais de 250 publicações, instituições, jornalistas independentes e meios digitais mundo afora se juntaram à empreitada, somando uma audiência global de mais de 1 bilhão de pessoas.

Embora a defesa do meio ambiente pipoque por todos os poros do planeta — com direito até mesmo a citação do poeta bengali Daulat Qazi, que no século 17 escreveu “A terra é nossa existência, e nosso corpo a ela está atrelado” —, a causa tem carga política explosiva. Há quem veja na própria Greta a semente de um movimento irracional, um culto fundamentalista. “Ela parece uma personagem messiânica que veio nos salvar de nossos pecados”, alerta o editor Brendan O’Neill, da revista britânica “Spiked”. “O que leva o mundo adulto, ou uma parte dele, a se prostrar aos pés de uma criança sueca, em adoração sacrílega, como se estivesse na presença de um messias renascido?”, indaga em coluna na “Folha” o escritor João Pereira Coutinho.

Ou, como diria o presidente Jair Bolsonaro, o mundo entrou “em psicose ambientalista”. E o Brasil por ele governado não deverá estar entre os 60 países que, a partir de amanhã, participarão da Cúpula de Ação Climática da ONU para anunciar seus projetos de redução de gases de efeito estufa.

Pena, porque, como escreveu o editor da refinadíssima trimestral Lapham’s Quarterly, chegou a hora de saber se o capitalismo sobreviverá à mudança climática, ou se o clima alterado vai acabar com o capitalismo. E por trás das duas greves aqui citadas o relógio está ticando. Ele marca tempos distintos. No caso dos grevistas da indústria automobilística que emite CO2, o relógio marca o fim do mês, hora de pagar as contas. No ato dos ambientalistas, o relógio aponta para o fim do mundo, ou o tempo de adiá-lo. Urge acertar os dois ponteiros.
Dorrit Harazim

Pensamento do Dia


O culto personalista a Messias

O guru da Virgínia, Olavo de Carvalho, acaba de dar um novo tom, com ares de desespero, à militância bolsonarista. Diante do desembarque acelerado de aliados e apoiadores, ele estabeleceu a ordem unida: Messias, no Planalto, precisa de um exército de simpatizantes que seja só dele, e não de pautas. Sugeriu a montagem de uma espécie de banco de dados dos convertidos, cadastrando esses aspirantes a recrutas, que devem assumir a trincheira de defesa do presidente a qualquer custo. Se antes o mantra de convocação era “Deus acima de todos”, agora virou para “Bolsonaro acima de tudo”, em um culto personalista digno das maiores tiranias e que tem assombrado inclusive a base partidária, provocando rupturas e guerras abertas. Formulário com pedido de email, nome completo, celular e outros dados será distribuído entre ativistas da causa. Processar adversários, veicular louvações ao chefe, fazer o diabo pela celebração do Mito entraram no rol de artilharia. Os defensores do movimento agem como fanáticos sem noção, verdadeiros adoradores de uma seita que vai perdendo o senso do certo e do errado. Qualquer dia pregam gigantescos cartazes pelas ruas e nos prédios com a imagem de seu foco de idolatria. Para veneração geral, quem sabe! O rebanho não tolera resistências, críticas, reparos. Se o líder quer acobertar os erros dos filhos, distribuir benefícios à família, praticar nepotismo, desbaratar estruturas de fiscalização que o incomodaram, maquiar estatísticas, espalhar fake news, atacar parceiros internacionais gerando prejuízos em retaliações, ok. E daí? O Mito pode. Ele manda, ele sabe, ele quer o melhor (para quem?). Que ninguém venha questionar. Não importa a interlocução, não valem contra-argumentos, mesmo que legítimos. Meras futricas. A dialética para essa tropa de choque inexiste e quem insiste nela está a serviço de interesses do inimigo. Incrível aceitar como alguém pode se engajar numa presepada dessas. Típico de torcida organizada que parte ao quebra pau como solução de seus recalques. Olavo, no comando, prega daqui para frente um radicalismo ainda mais extremado e, a julgar pela predisposição da Primeira Família, está logrando o endosso dela à cruzada. Antes na pauta de prioridades, o combate à corrupção virou quimera e deve ser esquecido, abandonado, engavetado. O que importa, meta número um, é trucidar “o comunismo, seus idiotas!”. A invocação do guru vai com o xingamento incluído. O mandatário em pessoa adora o jeitão e os conselhos do alterego da Virgínia. Os filhotes Flávio, Carlos e Edu também não escondem a admiração. Na tática do clã e do general desbocado, o núcleo duro dessa república de desatinos, está traçada uma ofensiva implacável nos tribunais, entuchando a Justiça com processos aos montes contra os “esquerdistas” para que eles não tenham tempo de revidar. Na busca de respaldo dos oligarcas do magistrado, os bolsonaristas querem enterrar de vez a CPI da Lava Toga, sugerida no Congresso para desbaratar abusos do alto comissariado legal. Pode-se dizer que bolsonaristas e anti-lavajistas firmaram um acordo de interesses, um bem bolado de abafa geral, quase conluio, pela proteção comum da patota. O mandatário em pessoa não desejava o avanço de investigações na Receita Federal, no Coaf e na PF – responsáveis pelo que classificou de “devassa” a sua família – e conseguiu se acertar com o presidente do STF, Dias Toffoli, que emitiu um veto às averiguações sobre o filho Flávio. Toffoli assentiu com gosto ao desejo da Primeira Família e, por tabela, evitou que ele mesmo e colegas do Supremo passassem pelo mesmo constrangimento. O País que fique a ver navios sobre eventos obscuros do poder constituído. A Casa Grande, como sempre, vai mandando e governando na base de motivações pessoais. A Operação Lava Jato, que desbaratou o maior escândalo de desvio de dinheiro público da história, encontra-se no momento à míngua, com poucas ferramentas para seguir adiante. Afinal, procuradores, auditores e delegados ficaram sem acesso a informações estratégicas dos órgãos competentes. Investigações patinam por que o presidente, na base do demite e intimida, tem inibido o compartilhamento de dados. Quer, ao que tudo indica, centralizar em mãos quem, quando e como será inspecionado. Quadros de confiança, fiéis à ideologia do capitão, são conduzidos à PGR, ao novo Coaf, à Receita e à PF para a garantia do controle. Orientação clara e direta: aos amigos, a proteção. Os inimigos que se cuidem. Bolsonaro acima de tudo e de todos entrou em ação, buscando se perpetuar no poder para além de 2022. O resto, mero detalhe.

Justificativa de morte

Quando a gente vê imagens das crianças deitadas nas escolas, a gente esquece que, durante a Segunda Guerra Mundial, se não fosse o inglês ir para baixo da terra, no bombardeio dos nazistas, e Winston Churchill ter enfrentado, com sangue suor e lágrimas, o nazismo, o que seria da humanidade hoje? O que seria do mundo, se Napoleão, Victor, tivessem vencido as batalhas? Porque hoje, guardadas as proporções, é o mesmo que acontece com o crime organizado. E nós vamos nos abater? Não. Nós vamos, hoje, fazer com que nossas crianças, elas se recuperem de todo esse trauma. Vamos ajudar as famílias
Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro

'Não' da Áustria ameaça acordo Mercosul-UE

A União Europeia negociou com os quatro países do Mercosul por 20 anos para finalizar um acordo bilateral de livre-comércio. E aí veio o presidente Jair Bolsonaro, que não é conhecido exatamente como um defensor do meio ambiente. Sob seu governo, a floresta amazônica está queimando a um ritmo sem precedentes. Agora membros de quase todos os partidos do Parlamento da Áustria tiraram suas conclusões deste fato.

Quatro das cinco legendas votaram contra o acordo entre os blocos europeu e sul-americano numa votação no Parlamento da Áustria, em Viena, nesta quarta-feira. A ex-ministra austríaca da Agricultura, Elisabeth Köstinger, declarou após a votação que há "um mandato claro para os ministros responsáveis" para rejeitar o acordo em nível europeu.

O chefe da bancada do Partido Social-Democrata (SPÖ) no Parlamento, Jörg Leichtfried, descreveu a votação numa nota como "um grande sucesso para a proteção dos consumidores, do meio ambiente e dos animais, bem como dos direitos humanos".


De fato, o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a UE só pode entrar em vigor se todos os países envolvidos concordarem, ou seja: todos os parlamentos nacionais dos Estados-membros devem aprová-lo. É igualmente necessária a aprovação do Parlamento Europeu e, ainda, uma ratificação unânime pelos chefes de Estado e de Governo da União Europeia.

As negociações sobre o tratado comercial estão em curso desde 2000. Atualmente transcorre sua revisão jurídica, e no terceiro trimestre de 2020 o acordo poderá estar pronto para ser assinado, prevê a UE. O Mercosul – que inclui Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – tem uma população de mais de 260 milhões de habitantes e é um dos principais blocos econômicos do mundo, enquanto a União Europeia totaliza mais de 512 milhões de habitantes.

Não é de admirar que os líderes europeus se esforcem tanto para defender o tratado. "O acordo é muito importante para a Europa, tanto do ponto de vista econômico como geoestratégico", declarou Sabine Weyand, diretora-geral de Comércio da Comissão Europeia, ao jornal Handelsblatt.

O acordo visa reduzir gradualmente ou eliminar tarifas e impostos entre os dois blocos econômicos, mas, ao mesmo tempo, harmonizar normas – incluindo disposições como as do Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas, que se tornariam obrigatórias para os países sul-americanos.

Ao mesmo tempo, porém, a floresta tropical está ardendo apesar de todas as garantias, especialmente no Brasil. O presidente da França, Emmanuel Macron, já ameaçara opor-se ao acordo comercial, e ouviram-se ameaças semelhantes por parte da Irlanda e Luxemburgo. Os deputados do Parlamento em Viena transformam as palavras em ação.

A eurodeputada austríaca Monika Vana, do Partido Verde, convidou um representante indígena brasileiro para falar em Bruxelas. Mapu Huni Kuin, da etnia Huni Kuin, pediu que a UE sustasse o pacto. "Por favor, não assinem o acordo com o Mercosul", pediu o indígena perante o Parlamento Europeu. Se o acordo for assinado, mais terras na floresta tropical serão desmatadas para a produção agrícola, afirmou.

Para a Europa, o acordo de livre-comércio significaria, acima de tudo, a abolição de taxas alfandegárias elevadas sobre seus produtos industrializados exportados para a América do Sul. Em contrapartida, os produtos agrícolas provenientes dos quatro países sul-americanos teriam acesso mais fácil ao mercado europeu.

Ainda hoje, segundo a organização ambiental alemã WWF Deutschland, a produção de forragem para suínos, bovinos e aves na Alemanha exige uma enorme quantidade de terras. "Uma das causas dos incêndios devastadores na Amazônia pode ser encontrada nos comedouros alemães: a soja", acusa Eberhard Brandes, diretor do WWF, e grande parte deste produto vem da América do Sul.

A Comissão Europeia rebate que o acordo contém regulamentos vinculativos para a proteção da floresta tropical. De acordo com o resumo conhecido até agora, um artigo especial obriga ambas as partes a "implementar efetivamente" o Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas.

Além disso, o tratado contém compromissos em matéria de luta contra o desmatamento. Sobre essa questão, o resumo menciona iniciativas do setor privado que "fortalecem esses compromissos", como, por exemplo, de não comprar carne de fazendas "em áreas recentemente desmatadas". Os críticos, contudo, consideram tais disposições demasiado vagas.

Também falta a previsão de sanções, caso a floresta tropical e o clima não forem efetivamente protegidos, como foi recentemente confirmado pelo governo alemão em resposta a uma pergunta parlamentar. No entanto, há um "mecanismo de aplicação gradual e orientado para o diálogo", consta da resposta.

Enquanto isso a ministra do Meio Ambiente da Alemanha, Svenja Schulze, propôs a certificação da carne brasileira: "A soja e a carne bovina só podem ser importadas se for possível provar que a produção não prejudica a floresta tropical", disse à revista Spiegel.

Atualmente os países do Mercosul não são realmente importantes para a Alemanha, do ponto de vista econômico: apenas 2,6% dos investimentos alemães no mundo são direcionados às quatro nações, e nem mesmo 3% das mercadorias alemãs são vendidas na região.

No entanto, Andreas Renschler, presidente do Conselho da Indústria Alemã para a América Latina (LADW), lembra que só no Brasil estão presentes 1.600 empresas alemãs: "A preservação da floresta tropical faz parte dos nossos esforços para proteger o clima global", conclui.
Deutsche Welle