sábado, 4 de maio de 2019

Envenenando a democracia

As recentes eleições em Espanha assinalam um importante triunfo da esquerda, mas também da extrema direita, que, de um único salto, consegue colocar 24 deputados no parlamento. Agora há apenas quatro países europeus nos quais partidos abertamente fascistas, racistas ou neonazis, não têm representação parlamentar: Portugal, Irlanda, Malta e Luxemburgo.

João Miguel Tavares, colunista do jornal português “Público”, conhecido pelas suas posições conservadoras, defendeu há poucos dias que o crescimento destes movimentos de extrema direita talvez não constitua um ataque à democracia e sim “uma válvula de escape dos próprios sistemas democráticos, que vai permitindo integrar na sua dinâmica o cada vez mais elevado número de

O otimismo é tão raro no discurso da direita que só por isso Tavares merece ser escutado. Além disso, o que aconteceu com uma certa esquerda europeia não democrática, ao longo das últimas décadas, parece dar-lhe razão. Partidos e movimentos assumidamente contrários à “democracia burguesa” foram forçados a participar no jogo democrático, e, com o tempo, alguns acabaram por acreditar nele.


O caso português pode servir de exemplo. A seguir ao 25 de abril de 1974, a força política que representava a extrema esquerda no parlamento português era um pequeno partido, a União Democrática Popular, UDP, de inspiração albanesa. Das cinzas da UDP emergiu o Bloco de Esquerda, hoje com 19 deputados e que é uma das forças mais aguerridas, progressistas e inovadoras do atual cenário político. O Bloco de Esquerda foi o único partido português a apoiar os 15 jovens democratas angolanos presos no tempo do anterior presidente, José Eduardo dos Santos. Também se colocou sempre contra a deriva totalitária de Nicolás Maduro, na Venezuela.

Já o Partido Comunista Português, PCP, não foi capaz de se renovar, alimentando a nostalgia de uma era anterior à queda do Muro de Berlim, e apoiando a ditadura cubana, Nicolás Maduro e até a Coreia do Norte. Os comunistas portugueses mantêm a descrença na “democracia burguesa”, mas estão demasiado enfraquecidos (o partido vem perdendo deputados a cada eleição) para a enfrentarem.

O que concluo, a partir destes exemplos, é que, como sugere João Miguel Tavares, haverá movimentos de extrema direita que talvez possam ser absorvidos pelas modernas democracias. Uns não serão outra coisa senão um efêmero protesto de cidadãos confusos e desesperados. Depressa se extinguirão. Outros poderão até servir para, de alguma forma, revitalizar o sistema democrático. Suspeito, contudo, que a maioria dos novos partidos europeus de extrema direita são exatamente aquilo que parecem: cavalos de troia do fascismo. Não estão interessados em participar no jogo democrático; servem-se dele com o objetivo de o destruir.

Para impedir que estes movimentos infectem e enfraqueçam os organismos democráticos bastaria, provavelmente, aplicar as leis já existentes. A maioria dos países europeus aprovou legislação contra a apologia e a promoção do nazismo, do fascismo, do racismo, da homofobia e dos discursos de ódio — mas raramente a usa. Espero que comecem a usar.

Bolsonaro tem muito a aprender com a Argentina

A mais nova obsessão de Jair Bolsonaro se chama Cristina Kirchner. Nos últimos dias, o capitão derrama baldes de saliva num esforço para ensinar os eleitores da Argentina a votar direito. Explica que é melhor ter paciência com o presidente liberal Mauricio Macri e seus desacertos do que devolver a antecessora esquerdista ao poder nas eleições marcadas para o próximo mês de outubro.

A volta de Cristina à Presidência transformaria a Argentina numa nova Venezuela, ensina Bolsonaro ao eleitorado portenho. O presidente brasileiro faria um bem inestimável a si mesmo se começasse a olhar para o quintal do vizinho com olhos de aluno, não de professor. Convém observar o que há de concreto —a administração de Macri— não o que é apenas hipotético —a volta de Cristina.

A Presidência de Macri não é um bom exemplo para Bolsonaro. Mas tornou-se um fantástico aviso. Os dois têm muito em comum. Assim como Bolsonaro, Macri chegou à Presidência surfando a raiva da maioria do eleitorado com a velha política e o esquerdismo sem resultados. Assim como o capitão, Macri encostou sua administração na figura do presidente americano Donald Trump.

A esperança de prosperidade embutida no discurso liberal de Macri resultou em decepção. Nada levanta mais os percentuais de Cristina Kirchner nas pesquisas do que a queda dos indicadores econômicos. As reformas prometidas por Macri viraram suco. Seu discurso liberal virou pó. Em desespero, já recorreu até ao congelamento de preços contra a inflação.

Em quatro meses de governo, Bolsonaro produziu apenas polêmicas. A falta de resultados já se reflete nas pesquisas. Ou seja: Bolsonaro deveria extrair ensinamentos da Argentina, não dar lições ao vizinho.

Um governo sem dinheiro e sem razão

A primeira grande ofensiva do governo contra as universidades foi contida por alguma reação social, embora tímida. Reitores, professores, alguns parlamentares e a OAB não tiveram muita companhia na resistência à arbitrariedade.

A intimidação por meio de ameaça de asfixia financeira foi sustada até segunda ordem. Mas outras ordens virão e, menos discutido, a falta de dinheiro nua e crua de qualquer ideologia vai continuar por ainda muito tempo e afetar muito mais do que o ensino superior.

A gente razoável restante na administração federal contribuiu também para sustar a ameaça obscurantista, antes de mais nada discriminação inconstitucional, assim como tem agido para atenuar outros atropelamentos das leis e da mínima razão.

Por exemplo, houve panos quentes nos casos da Petrobras, do Banco do Brasil ou do desatino belicista em relação à Venezuela, para ficar em escândalos maiores.

Mas “a luta continua” para o bolsonarismo de inspiração revolucionária, motivo de convulsão e conflito permanentes, o que irrita até o Clube Militar.

Em nota publicada no site dessa associação de militares fora da ativa, o coronel Sérgio Paulo Muniz Costa reagiu com profunda revolta aos ataques da ala antiestablishment do governo às Forças Armadas, ao “assalto de aventureiros ignorantes mancomunados em uma nova internacional extremista”.

“É inadmissível que expoentes dessa linha exótica de pensamento, independentemente de onde estejam, continuem a exibir suas preferências ideológicas sem serem reprovados pela sociedade brasileira, usando saudações fascistas na conclusão de seus discursos...”, escreveu o coronel Muniz.

A impaciência se espalha por outros setores, mesmo entre empresários. No entanto, esperam calados o arrefecimento da baderna, em nome da aprovação de alguma “reforma” que tire o país da depressão.

Mesmo entre executivos do mercado financeiro, que na maioria colaboraram com a ascensão de Jair Bolsonaro, o prestígio presidencial despencou mais que entre o povo mais pobre.

Um governo pragmático procuraria evitar conflitos nesta situação em que o reparo da ruína econômica será muito difícil e em que a penúria terminal do governo vai provocar cortes letais de despesa, com efeitos políticos e econômicos relevantes.

Talvez gente do governo se divirta com a ideia de trucidar as universidades ou a ciência, projeto facilitado pela falta de dinheiro, situação que, de um fato da vida, se torna pretexto para pervertidos e ressentidos no poder. Mesmo nesse caso, haverá milhões de prejudicados na classe média-alta e na elite do país. Pode ser pior.

A falta de recursos para o Minha Casa Minha Vida afeta um programa que possibilita o lançamento de quase 80% dos imóveis residenciais. A miséria degrada ainda mais as estradas. Os recursos para investimentos (obras, equipamentos) do governo devem cair a um terço do que era gasto entre 2010 e 2014.

Técnicos do Ministério da Economia dizem que, se a arrecadação não melhorar, vai faltar verba para o pagamento de serviços essenciais para o funcionamento do governo.

São afetados os interesses de empresários, prefeitos, de quem quer que utilize algum serviço público, de rodovias a escolas, talvez hospitais, quase todo o mundo.

O sofrimento com a estagnação econômica tende a ser agravado pelo esgotamento orçamentário. O risco de difusão de conflitos aumenta, agravado pelas falanges extremistas do governismo.

Brasil na boca do povo


Lampião em vez de eletricidade?

O que diríamos se agora, neste século 21, em vez de eletricidade nos fizessem usar candeeiro ou lampião para iluminar as noites e, assim, não ofuscar os nossos olhos cansados por suportarem a claridade do sol? E se a decisão viesse da autoridade a quem cabe assegurar luzes ao presente e ao futuro?

É exatamente isso que ouvimos nos últimos dias do ministro da Educação, por um lado, e do presidente da República, por outro. Num perigoso campeonato de disparates, parece até que cada qual tenta triunfar na exteriorização do absurdo. O ministro decidiu punir a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA) cortando 30% do seu orçamento, sob a alegação de que se dedicam “à balburdia e a eventos ridículos”. Alegou até que há casos de “gente pelada” desfilando pelo campus...




A reação unânime dos setores universitários fez o ministro “recuar”. Mas no recuo apenas tomou fôlego para contra-atacar com mais força: em nome de “isonomia”, ou igualdade perante a lei, cortou 30% das verbas de todas as universidades federais no segundo semestre... Logo, queixou-se dos gastos do ensino superior e (cumprindo promessa de Jair Bolsonaro na campanha de candidato presidencial) mencionou a importância de implantar creches, já que uma criança custa dez vezes menos do que um aluno universitário.

A comparação é simplista, pois se trata de situações diferentes. O custo não define as necessidades por si só. Atender a recém-nascidos e ao ensino básico nada tem que ver com as universidades. Nem é suprimir ou diminuir a pesquisa e castrar a missão das universidades, fazendo delas entes amorfos (e mortos) que apenas expedem diplomas que pouco – ou nada – vão significar.

Falta verba? Mas, e o orçamento previsto, no qual estão calculados receita e despesa, já não vale?

Essa tal de “balbúrdia” ou “bagunça” que faria das universidades um antro de “gente pelada” seria a regra? Ou foi caso isolado, típico da vulgaridade que a televisão ajuda a semear e a reproduzir? Ou alguém crê que ensinar e educar se limitam à sala de aula?

Hoje, o fundamento da educação e do ensino não está na escola, mas na televisão e nas tais de “redes sociais”, em que não se sabe sequer quem informa ou deforma. A TV entra em nossas casas como assaltante. As “redes sociais” nos acompanham até na rua e no trânsito. A TV cultiva o horror. Os ininterruptos casos de constantes crimes se apresentam quase como se fossem regra da sociedade, não como exceção a combater. Soa até como se o crime fosse uma sina a que estivéssemos condenados. Algo como o “pecado original”, do qual não nos podemos livrar eternamente.

As “redes” dedicam-se à “fofoca”, esse monstro vestido de santo ou de palhaço, exímio em inventar qualquer coisa e propagar como verdade absoluta. A invencionice ou a mentira se alastram mais facilmente do que as verdades, pois se amoldam como água num recipiente. A verdade é dura, porém, imutável em si mesma.

Enquanto não atentarmos para isso, a educação formal da escola ficará sempre em segundo plano, relegada quase que apenas a uma obrigação para subir financeiramente na vida... E “subir” para se sobrepor ao outro, nunca para compartilhar.

A visão do “amor ao próximo”, de que falam os Evangelhos, tornou-se piegas ou desprezível até. A sociedade de consumo iguala bens essenciais a quinquilharias e, assim, abre a porta para confundir a noção do que seja educar.

O presidente Bolsonaro, por exemplo, atirou-se agora contra as ciências sociais, vendo antropologia, sociologia ou filosofia como um estorvo. Quer que as universidades se dediquem a veterinária, medicina e engenharia, desconhecendo que os Estados Unidos são o país com mais antropólogos e sociólogos no mundo. Em professores de filosofia são superados só pela França e pela Alemanha...

Deu a entender o presidente da República, até, que basta aprender a escrever e saber as operações fundamentais da aritmética – somar, diminuir, multiplicar e dividir. No século 18, ou até mesmo no início do século 20, quem conhecesse isso era sábio. Quem soubesse a “regra de três” era gênio!

Bolsonaro supera até as confusões e os disparates típicos de Lula. Agora, prometeu “uma limpa” no Ibama e nos demais órgãos ambientais. Desconhece que a defesa e a proteção da natureza estão ligadas à vida e quer facilitar o desmatamento e a perigosa adubação química. Não escuta as advertências da ciência sobre o aquecimento global causado pela poluição.

Em Ribeirão Preto, reunido com empresários do agronegócio, o disparate tomou forma perigosa. Prometeu isentar de punição os proprietários rurais que dispararem e matarem para repelir a ocupação de suas terras. A invasão de terras produtivas é crime, mas não pode abrir caminho a um crime maior. A propriedade não está acima do direito à vida.

No Dia do Trabalho (ou Dia do Trabalhador), em rede de TV e ignorando a data, Bolsonaro comprometeu-se a implantar “a plena liberdade econômica” prevista em recente “medida provisória”. Dito assim, simplificadamente na ganância dominante, isso significa até “a liberdade” de cobrar preços abusivos, sem que nos possamos defender da cobiça. E de explorar o trabalho. Nossos 13 milhões de desempregados estão à beira de suportar a humilhação em troca de um salário mínimo...

Exibicionismo e jactância em palavras ou gestos nunca deram segurança a ninguém. Nem às pessoas nem às coisas, menos ainda às instituições. Exibição e gabolice são sinais de egoísmo. Quando desafiam a realidade de milhões de pessoas são um sacrilégio, até.

Podemos admitir o triunfo do atraso e da catástrofe? Ou o lampião deve substituir a eletricidade?
Flávio Tavares

Bilhete a Jair

Jânio Quadros implicava com o biquíni e Jair Bolsonaro, com os gays. Jânio distribuía bilhetinhos e Jair, tuí­tes. Jânio não gostava de negociar com o Congresso e Jair, idem. Jânio se incomodava com os constrangimentos institucionais. Certa vez lançou uma provocação a seu ministro das Relações Exteriores, Afonso Arinos de Melo Franco: “Creio que a maioria dos ingleses pegaria em armas para defender o seu Parlamento. E o senhor, ministro, pegaria em armas para defender o Congresso brasileiro?”. Bolsonaro, em evento organizado por VEJA na pré-­cam­panha em 2017, disse: “Se o Kim Jong-­un lançasse uma bomba H que só atingisse o Parlamento (brasileiro), você acha que alguém ia chorar aqui?”. Os paralelos entre o efêmero presidente de 1961 e o atual são numerosos. Mais de meio século depois, o fantasma de Jânio continua a assombrar a política do país.

Entenda-se por “fantasma de Jânio” a herança de despreparo, aventureirismo e pouco-caso com as instituições que com indesejável fre­quên­cia se tem reencarnado nos ocupantes da cadeira presidencial. Fernando Collor foi o primeiro a vestir o modelo. Ao despreparo e ao aventureirismo juntava-se, nele, a mistificação de apresentar-se como “o caçador de marajás”, tal qual o outro empunhava a vassoura que varreria a corrupção. Faltava a Collor, no entanto, o vezo de fiscal de costumes que aproxima o atual presidente de seu remoto antecessor. Bolsonaro proibiu anúncio do Banco do Brasil que apresentava jovens de cores da pele, penteados, trajes e trejeitos diversos, e ainda comentou: “O Brasil não pode ser um país do mundo gay, do turismo gay”. Antes, havia proibido livro didático que expunha desenho da genitália feminina e feito circular, a título de alerta, vídeo com aberração sexual. Jânio, em sete meses de governo, proibiu, ou tentou proibir: biquínis nas praias; maiôs mais atrevidos nos desfiles de miss; anúncios na TV de maiôs e peças íntimas femininas; corridas de cavalo nos dias de semana; brigas de galo; lança-perfume; e — para culminar — espetáculos “de hipnotismo e letargia, de qualquer tipo ou forma, em clubes, auditórios, palcos ou estúdios de rádio e de televisão”.

Jânio de outrora e o Jair de hoje partilham as tendências: (1) de ocupar-se de coisas pequenas, mais próprias de delegados de polícia, juízes ou, no máximo, prefeitos; e (2) de acreditar que uma canetada muda tendências comportamentais. O biquíni, a despeito de Jânio, prosseguiu sua gloriosa carreira até o fio-dental, e promete ir além. O turismo de homossexuais, consolidado graças ao Carnaval e às paradas gay, não há de ser estancado pela bronca do chefe de governo. Diga-se a favor de Jânio que nunca foi desatinado como Bolsonaro ao acrescentar, quando falou sobre o turismo gay: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com mulher, fique à vontade”. Na constrangedora afirmação, o machismo mais tóxico se punha a serviço do mais predador dos turismos sexuais. Em outro plano, Jânio nunca cometeu o despautério de assacar contra o ensino da filosofia e da sociologia, nem a barbaridade de prometer aos fazendeiros licença para matar os invasores (uma inspirada reação na internet perguntou: “Índio também vai poder matar o invasor de suas terras?”).

Jornalistas do período e historiadores registraram as insuficiências do presidente de 1961. “Era evidente a má vontade de Jânio para com o Le­gislativo. Elegera-se sempre ‘contra os políticos’, ainda que fosse um dos maiores”, escreveu o jornalista Carlos Chagas. O historiador Thomas Skidmore, no conhecido "Brasil: de Getúlio a Castelo", afirma que faltavam a Jânio “discernimento e tenacidade para governar”, e, ao comentar suas dificuldades no dia a dia da administração, acrescenta: “Talvez estivesse agindo como alguém que sobe muito depressa e muito alto para sua capacidade”. Um autor de hoje, encarregado de analisar Bolsonaro, pode aplicar a semelhantes considerações um simples “copia e cola”. E com mais razão ainda pode fazê-lo socorrendo-se das brincadeiras que o jornalista Pompeu de Sousa estampava nas páginas do Diário Carioca. Assim como Jânio expedia seus bilhetinhos aos assessores, Pompeu (infelizmente sem parentesco com este que vos fala) publicava bilhetinhos ao presidente. O do dia 18 de março de 1961 vale para o Jair sem tirar nem pôr:

“Assim é seu governo, Excelência. Cada dia uma decisão, uma orientação, uma revogação do dia anterior. Uma revogação de si mesmo. Governo, Excelência, é exatamente o contrário disso. Por isso é que continuamos à espera de que Vossa Excelência comece a governar”.

Brasil pintado pra guerra

Quando os senhores falham, entramos nós das Forças Armadas. Quando acaba a saliva, entra a pólvora
Jair Bolsonaro, em cerimônia a novos diplomatas no Itamaraty

Equipe econômica demonstra não ter condições de tirar o país da grave crise

Vivemos tempos sombrios, mas a eleição de Jair Bolsonaro encheu o país de esperanças, sinal de um novo tempo. Era de se esperar que desde a época da campanha eleitoral o atual ministro Paulo Guedes e sua equipe já viessem estudando soluções para a crise econômica e social. Praticamente um ano se passou após Guedes surgir na política brasileira como futuro condutor da economia, e até agora, nada. As medidas mais importantes do governo, além do pacote anticrime, foram a extinção do imposto sindical obrigatório e o fim dos quase 700 conselhos federais, pois quase todos não têm a menor utilidade, salvo as exceções de praxe.

Quanto à crise econômica propriamente dita, até agora a única proposta é a reforma da Previdência Social, que não pode ser levada a sério, pois seus dados estão mantidos sob sigilo e o projeto não engloba os militares, um dos setores de maior déficit.


Todos sabem que o maior problema brasileiro é a dívida pública, que engessa os três níveis da República – federal, estadual e municipal. O ministro Paulo Guedes não dá uma só palavra a respeito, a numerosa equipe econômica também está fechada em copas, como dizem os jogadores de carteado.

O ministro garante que vai economizar R$ 1,1 trilhão em dez anos com a reforma, mas não explica como nem exibe os números. Outro dia, deixou passar a informação de que pretende faturar mais R$ 1 trilhão com as vendas dos ativos da Petrobras e os leilões do pré-sal, mas isso no prazo de 30 anos, e até lá Inês é morta, Bolsonaro e Guedes, também. E seu plano econômico consiste nisso. O resto é silêncio, como diria Érico Veríssimo.

De antemão, é claro que isso não vai dar certo. No caso da Previdência, não há movimentos para aumentar a receita evitado a chamada elisão tributária, como se denomina a redução do pagamento de impostos dentro da “legalidade”.

Na campanha, Bolsonaro por duas vezes citou o problema da pejotização, julgou-se que tomaria providências a esse respeito, mas foi ilusão. Hoje, no Brasil, não existem mais trabalhadores nem artistas bem sucedidos. Todos os executivos de empresas, atores, jornalistas, diretores de bancos e de qualquer tipo de empreendimento empresarial– todos esses enriquecidos empregados se tornaram falsas pessoas jurídicas aqui na filial Brazil, embora na matriz USA isso não ocorra, porque lá sonegação de impostos dá cadeia, perguntem ao grande ator Wesley Snipes.

Com a pejotização, a empresa deixa de pagar ao INSS 20% sobre o salário do empregado, mais 8% de FGTS, perfazendo 28% de elisão. Além disso, a empresa reduz seu Imposto de Renda, porque lança o salário do empregado integralmente na rubrica “Despesas Operacionais”, diminuindo o lucro real.

O empregado deixa de pagar 11% ao INSS e seu Imposto de Renda cai de 27,5% para até 10%, perfazendo elisão de 28,5%. Além disso, ele diminui ainda mais o IR ao embutir na contabilidade da falsa empresa todos os seus gastos pessoais com imóveis, veículos, empregados, viagens, compras, restaurantes, hotéis, o que você possa imaginar.

O mais impressionante é que não há discussão. Parece que as elisões fiscais não existem; a dívida pública, também. O grande debate econômico jamais é travado, até porque o Brasil vive uma era de radicalismos ideológicos. Não se procura simplesmente raciocinar sobre o que é certo e o que está errado. Hoje o que interessa é se posicionar contra ou a favor de Bolsonaro, num embate ridículo entre esquerdopatas e olavetes.

Pensamento do Dia


Brasil ainda dorme no banco da praça

O Brasil não se reconhece nem na chamada América Latina, algo que é estranho para nós, porque a África vive a si própria como uma entidade. Os africanos cantam a África como se fosse uma espécie de grande nação. Quando o Brasil fizer isso, vai se abrir para o continente 
Mia Couto 

Quando as inundações fazem parte da vida

O que fazer se, durante uma chuva, a água começar a entrar em casa? Essa pergunta atormenta milhares de pessoas, especialmente nos bairros mais pobres, a cada vez que o céu escurece nas metrópoles da América Latina.

E assim foi em Porto Alegre, em outubro de 2015, quando inundações e alagamentos entraram para a história como o segundo pior desastre relacionado a água ocorrido desde 1941. Cerca de 9.500 pessoas foram impactadas pelos fenômenos, que causaram danos materiais (públicos e privados) de 73 milhões de reais.


A dona de casa Rosimeri Faleiro tinha apenas um objetivo: conseguir que o único filho, com distrofia muscular de Duchenne, fosse resgatado. Matheus — que se locomove em cadeira de rodas elétrica e respira por aparelhos — precisou ser carregado em meio às águas pelo pai e um vizinho até a rua onde a ambulância do SAMU pôde parar. Entrou em coma a caminho do hospital e passou quatro meses internado.

“Minha preocupação era com os equipamentos dele, que são muito caros. Falei para o meu marido: vamos salvar o Matheus; todo o resto a gente recupera depois”, lembra Rosimeri.

Essa é apenas uma das muitas histórias registradas durante a pesquisa Convivendo com as inundações: um estudo para construir resiliência com as comunidades de Porto Alegre, realizada pelo Banco Mundial e a Prefeitura. Pela primeira vez no país, um relatório analisa em detalhes como as inundações e os alagamentos afetam a renda, a vida familiar, a saúde, o trabalho, os estudos e o acesso a serviços públicos.

O trabalho incluiu um levantamento feito em 1.500 domicílios nas regiões do Orçamento Participativo de Humaitá-Navegantes (que conta com cinco bairros) e das Ilhas (quatro áreas habitadas que ajudam a formar o bairro Arquipélago). Ambas têm em comum a vulnerabilidade social e aos desastres causados pelo excesso de água.

Esses foram alguns dados encontrados pela equipe:

57% dos entrevistados tiveram suas casas ou prédios inundados.
56% dos entrevistados não sabiam que a água chegaria à sua moradia.
70% do total dos entrevistados acreditam que provavelmente a sua residência será inundada ou alagada nos próximos 10 anos.

Metade das famílias declarando viver com uma renda mensal inferior a 1.000 reais teve que gastar mais de uma vez este valor para se recuperar; desse total, 19% gastaram mais de 5 vezes sua renda mensal.

Em um terço (34%) dos domicílios, pelo menos uma pessoa sofreu lesões, doenças, danos físicos ou psicológicos em decorrência do evento.

Os resultados fortalecem algumas noções discutidas em estudos anteriores, como o Relatório de Desenvolvimento Global 2014 e Choques Agregados na América Latina e Caribe. A primeira é a de que os desastres afetam desproporcionalmente os mais pobres, pois muitas vezes eles não têm informações suficientes para se prevenir, moradias seguras nem condições de se recuperar. A segunda é de que inundações e outros fenômenos podem levar à extrema pobreza: isso ocorre com 26 milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano, segundo o Banco Mundial.

Ainda de acordo com a instituição, que realizou análise baseada em dados de 117 países, as perdas médias de bem-estar devido a inundações, tempestades, terremotos e maremotos totalizam 520 bilhões de dólares por ano, valor 60% maior que o causado por perdas econômicas.

Esses dados se tornam ainda mais preocupantes quando se leva em conta que a incidência de fenômenos causadores de desastres triplicou na América Latina e no mundo entre 1970 e 2014, e deve continuar aumentando com as mudanças climáticas.

O relatório traz recomendações com o objetivo de amenizar os impactos sociais de futuros desastres em Porto Alegre. Entre elas:

- Implementar uma legislação municipal específica para a gestão de riscos de desastres, com enfoque na prevenção

- Reforçar a atuação da Defesa Civil

- Adequar a capacidade de drenagem

- Aperfeiçoar o sistema de previsão, monitoramento e alerta

Para continuar as discussões iniciadas no âmbito do estudo e implementar soluções — que passam por prevenção, resposta pós-desastre e recuperação de longo prazo —, formou-se em Porto Alegre o Grupo de Ação sobre Inundações e Alagamentos (GAIA), que une membros da Prefeitura e moradores das áreas impactadas.

A cogerente do estudo Pauline Cazaubon festeja esse avanço: “Em países em desenvolvimento, como o Brasil, o trabalho de gestão de riscos de desastres ainda se concentra na fase de resposta pós-desastre. É importante investir mais em prevenção e recuperação de longo prazo porque está comprovado que isso traz melhores resultados”. E isso requer não apenas recursos, mas também boas políticas públicas e diálogo intenso entre governo e cidadãos.
Mariana Kaipper Ceratti

Conspiração interna

Em um excelente ensaio, que deveria ser lido por todos, publicado na Veja, o Professor Claudio de Moura Castro descreve de uma forma raramente vista, a importância da educação para o desenvolvimento de cada país. Como se fizéssemos uma conspiração contra o Brasil, a mente brasileira impede o salto na educação brasileira.

Mesmo aqueles que se dedicam e defendem a educação, lutam para sair da tragédia, não para o Brasil dar o Salto na educação: ficarmos entre os melhores do mundo e oferecermos a mesma qualidade independente da renda e do endereço da criança, desCEPlizar e DesCFPlizar a educação.


Na última terça feira, na Assembléia do movimento Todos pela Educação foi dito que uma das nossas tarefas é convencer a população brasileira, a Mente do Brasil”, de que: Nesta Era do Conhecimento, educação não é apenas um direito de cada pessoa, mais ainda, educação é o motor do Progresso.

É possível, em um prazo de anos, o Brasil ter uma educação tão boa quanto as melhores do mundo, ficarmos e entre as primeiras classificações no PISA.

Que negar educação de qualidade para uma criança por causa de sua renda ou endereço impede o progresso econômico e social, impede aumentar a renda nacional e de distribui-la com justiça, conforme o talento da pessoa.

A maior tarefa dos que desejam fazer do Brasil um país educado é convencer o Brasil de que é preciso e é possível fazer isto, apesar de que em “nossa mente” estão entranhadas quatro ideias: a) nossa vocação é para o futebol, não para a inteligência, para as quadras, não para as escolas; b) escola com qualidade não é possível para todos, como antes não era para os escravos agora não seria para os pobres; c) que o motor do progresso está na economia e não na base da economia que é a educação; d) que a distribuição de renda passa antes pela distribuição do conhecimento, pelo cérebro antes do bolso, pela escola antes do banco, e pelo boletim escolar antes do contracheque.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Bolsonaro, trotskista e gramsciano

O presidente Jair Bolsonaro, de credenciais inequívocas na direita, de certa forma é trotskista e gramsciano. Acredita na revolução internacional permanente e aposta no estabelecimento de uma hegemonia cultural.

Bolsonaro precisa da derrota mundial da esquerda não para emergir como o líder de uma tendência, algo que jamais será, mas para subsistir. Em suas colocações e entrevistas, é frequente o raciocínio de que a era Lula não teve origem em circunstâncias muito particulares da conjuntura brasileira, mas em uma conjura de agitação e propaganda transnacional em grande parte tocada pelo Foro de São Paulo. O fim do ciclo petista no Brasil, em sua concepção, só se consolida com a repetição do fenômeno além fronteira.

Daí a importância da Venezuela em sua equação. A queda da ditadura venezuelana, se e quando se materializar, permitiria a Bolsonaro investir na radicalização no Brasil, jogando a pecha do autoritarismo na testa de seus adversários, estratégia para a qual o PT contribui de maneira estúpida, ao se solidarizar com o sangrento regime de Maduro.

Daí porque Bolsonaro se sente ameaçado por um eventual retorno de Cristina Kirchner ao poder na Argentina. E esta é a razão para a qual fez um apelo a políticos de direita no Uruguai para que derrotem a Frente Ampla naquele país. O presidente brasileiro porta-se como um cabo eleitoral de Trump, porque prefere nem pensar na hipótese de ter que lidar com alguém como Joe Biden à frente da Casa Branca. Não tanto pelas mudanças de orientação na política externa que um governo democrata faria, mas pelo impacto de uma derrota de Trump no imaginário da revolução mundial 'neocon'.


Trump não é mais uma pessoa, é uma ideia. Na visão do chanceler de Bolsonaro, o líder de uma reação da cristandade ocidental contra o globalismo. Bolsonaro precisa de Trump no poder e Maduro acuado para sustentar a sua narrativa. Assim como Trotski não acreditava na sobrevivência do socialismo em um só país, o bolsonarismo também anseia pela revolução mundial.

A vertente gramsciana do atual grupo no poder está na enorme preocupação com o suposto predomínio da esquerda no pensamento acadêmico, na intelectualidade, nos meios de comunicação. O bolsonarismo pensa a educação pública como uma ferramenta de disseminação de um pensamento político, de exercício de poder. Sem uma estratégia clara de como tomar de assalto estes aparelhos, o bolsonarismo pretende antagonizá-los, e no limite, sufocá-los financeiramente. Pela primeira vez na história brasileira, a educação pública torna-se não uma solução, mas um problema. Um obstáculo a ser transposto.

A visão de que as ameaças ao exercício do poder vêm da cultura e da conjuntura internacional foi exposta por clareza de uma espécie de um líder ancestral de alguns integrantes do governo, o general Sylvio Frota (1910-1996). Era o ministro do Exército que foi demitido por Ernesto Geisel em 1977 quando começava a articular a sua candidatura a presidente nas eleições indiretas. Frota queria aprofundar o movimento de 64, e não desmontá-lo com uma abertura, lenta, gradual e segura.

Para Frota, o marxismo buscava "infiltrar-se em quase todos os setores da vida pública brasileira, chamando de fascistas os que se opõem aos seus desígnios", conforme afirmou em uma ordem do dia de 1975, de acordo com o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, da Fundação Getulio Vargas. No seu livro de memórias, "Ideais Traídos", cujo nome é bastante sugestivo de sua visão sobre o processo de abertura, Frota argumentou que o governo Geisel era de centro-esquerda. Acreditava que havia 97 comunistas infiltrados dentro do governo federal. A política externa do governo de então, que restabeleceu relações diplomáticas com a China e aproximou-se das recém independentes nações da África, era alvo frequente de suas críticas.

A cruzada de Frota também era contra "a existência de um processo de domínio, pelo Estado, da economia nacional - inclusive de empresas privadas - de modo a condicionar o empresariado brasileiro aos ditames do governo", conforme registrou em sua carta de demissão. O ultraconservador Frota unia assim o anticomunismo à defesa do Estado mínimo.

A demissão sumária do general desarticulou a linha-dura e consolidou o fim do regime militar dentro de um processo negociado com a classe política. Frota tentou reagir, mas a cúpula do Exército não o acompanhou.

Bolsonaro era muito jovem à época desses acontecimentos, mas as figuras que sempre nominou como referências, como o ministro do GSI, Augusto Heleno, ou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, estavam na órbita do frotismo. O primeiro era ajudante de ordens do ministro, o segundo subchefe de operações do Centro de Inteligência do Exército (Ciex).

As forças que Frota reuniu em torno de si ficaram sem perspectiva de poder pouco mais de sete anos antes do insucesso da ala pragmática do regime em fazer o sucessor de Figueiredo. Não foram elas que perderam em 1985. Como escreveu Frota na sua despedida, "existe uma evidente intenção de alienar as Forças Armadas dos processos decisórios do país, açambarcados por um grupelho, encastelado no governo".

A baixa oficialidade daquele tempo, mera espectadora da briga dos estrelados, vive atualmente uma luta com os seguidores do polemista Olavo de Carvalho para deter a hegemonia do governo do capitão, mas talvez não esteja tão distante de seus contendores nas premissas básicas.

Brasil da hipocrisia


As simples armadilhas

O Brasil é dirigido por um bando de loucos, afirmou Lula. Ainda bem que não são cachaceiros, respondeu Bolsonaro. Os dois homens com mais apelo popular no Brasil falam uma linguagem rude e franca. Sabem que se comunicam com a maioria e desprezam as nuances sofisticadas para combaterem um ao outro.

Essa polaridade é um sinal dos tempos. Na verdade, Bolsonaro é um recém-chegado. Ele explodiu a outra polaridade, entre PSDB e PT, assim como em muitos lugares da Europa também foi para o espaço a alternância centro-direita e centro-esquerda.

Bolsonaro procura expressar o que acha ser a aspiração do homem comum. É disso que se trata: apresentar soluções simples e deixar que a complexidade fique para intelectuais e especialistas – os suspeitos de estarem enrolando e mantendo o status quo com suas avaliações mais profundas.

Creio que é dentro desse contexto que é preciso analisar a disposição de Bolsonaro de reduzir o apoio aos cursos de sociologia e filosofia. Ele quer se dedicar aos que dão retorno, como os de agricultura, medicina, administração.

Bolsonaro já foi contestado de muitas formas. Ficou claro que há uma previsão constitucional amparando esses cursos. A contestação que deve ter pegado mais fundo é a de natureza econômica: o avanço da robótica, da inteligência artificial, reacendeu a importância das ciências humanas. Asfixiá-las seria um lamentável atraso.

O próprio Japão, usado como argumento, já percebeu que os desdobramentos científicos tornaram um erro a ideia de subestimar as ciências humanas.

Não sei como essas coisas vão ser elaboradas na cabeça de Bolsonaro. Sinto que ele exprime uma espécie de senso comum talvez originado na suposição de que apenas o que se produz materialmente tem valor – outro equívoco bastante difundido entre as pessoas que buscam líderes simples e diretos para resolver os problemas do País.

Outra fonte de mal-entendidos é supor que sociologia e filosofia sejam matérias de esquerda, isto é, conduzam os que se dedicam a elas inevitavelmente a uma posição contestadora.

Se a direita que apoia Bolsonaro pensa assim e quer suprimir cursos, ela está, na verdade, capitulando intelectualmente, abandonando um campo por achar que a partida ali jamais será ganha ou, no mínimo, empatada.

No livro O Povo Contra a Democracia, Yasha Mounk, acho eu, acerta ao afirmar que esses líderes expressam posições populares e não adianta vê-los com olhar superior ou classificar seus seguidores como idiotas. Essa é uma tese que defendo, em termos semelhantes, desde o período eleitoral. O segredo, para ficarmos numa expressão popular, é mostrar às pessoas como o buraco é mais embaixo, nem todas as ideias simples são exequíveis.

Bolsonaro vetou um anúncio do Banco do Brasil (BB). Havia gays, tatuados e negros. Na sua visão estreita, a propaganda do banco é um instrumento da guerra cultural. O povo não pagará por ideias que confrontam a família.

A deputada Janaina Paschoal chegou a perguntar por que estatais fazem propaganda. No caso, o Banco do Brasil é apenas um ator num cenário competitivo em que estão também os bancos privados. A propaganda é uma forma de competir e assegurar uma fatia do mercado.

Mesmo aqueles que defendem a privatização do BB – talvez não seja o caso de Bolsonaro – deveriam estar interessados em que o banco não perca uma fatia de mercado. Se isso acontecer, sai mais barato, o País receberia menos por ele.

Tudo isso, na verdade, é apenas uma reflexão sobre a tática, a possibilidade de progressivamente levar às pessoas uma ideia de que as coisas são mais complexas, sem que com isso se considerem ludibriadas por um misterioso e onipresente sistema.

Bolsonaro tem dito que a propriedade privada é sagrada. Hoje usa esse argumento para refletir sobre a resistência dos fazendeiros às invasões de terras.

No entanto, há várias situações em que a tese da sacralidade tem de ser relativizada. Às vezes, um rio que passa na sua sagrada propriedade privada é o mesmo que passará em outras sagradas propriedades, ou terá de abastecer os que não têm nenhuma propriedade. É possível, em nome do seu pedaço de terra, arruinar um patrimônio comum?

Os políticos que propõem soluções simples para os problemas complexos vencem de goleada no Brasil de hoje. E, diria, em muitos pontos do globo, na atual conjuntura. O problema com eles é que o tempo vai passando e as pessoas que esperam soluções simples e rápidas se desapontam com facilidade. E o capital político escapa pelos dedos.

Os movimentos de Bolsonaro são uma espécie de contraponto à reforma da Previdência. No momento, é o tema que pode trazer algum alívio à economia, sem necessariamente despertar entusiasmo popular.

Ele parece atento a esse jogo. Tanto que descartou a ideia de mais um imposto que atingiria também as igrejas, sobretudo as evangélicas. E se concentra na guerra cultural, um campo em que as coisas não só se mexem com muita lentidão, como dependem do confronto de ideias e se realizam com armas próprias, dentro da diversidade.

A grande tarefa dos intelectuais é convencer as pessoas que desconfiam da sua atividade e mostrar pacientemente o seu valor. É importante não perder o vínculo com as pessoas que acreditam, como Bolsonaro, que ciências humanas não têm retorno.

A convergência das ciências humanas com a inteligência artificial, que vai revolucionar nossos cotidianos, é um bom argumento. Mostra que está em jogo o futuro de todos nós. E nos anima a argumentar que a desconfiança mútua é um fator de atraso.

Intimidar intelectualmente os simpatizantes do populismo não me parece o caminho adequado. O melhor é mostrar de forma amigável o que às vezes fazemos com arrogância: que as coisas são mais complicadas do que parecem.

Mentira é adubo

Hoje a política se constrói muito a partir da mentira, isto é, de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, à criação de ódio 
Mia Couto

'Deus vult': uma velha expressão na boca da extrema direita

“Deus vult”, expressão do latim que em português significa “Deus quer”, vem estampando camisetas, textos, tatuagens e tweets da extrema direita mundial desde que Donald Trump resolveu se lançar candidato à presidência dos EUA, em 2016.

O termo, que data do início do milênio passado (1095), faz referência ao grito do povo em resposta ao papa Urbano II, quando do anúncio da Primeira Cruzada pelo pontífice, explica Paulo Pachá, professor de história medieval da Universidade Federal Fluminense (UFF) nesta entrevista à Pública.

Pachá, autor do artigo Por que a extrema direita brasileira ama a Idade Média europeia, avalia que esse discurso medieval envolve uma série de preconceitos como racismo, homofobia, islamofobia e machismo. “Essa Idade Média aparece como um passado idealizado por esses grupos, onde você teria uma sociedade que é majoritariamente, se não exclusivamente, branca, cristã e patriarcal.”

No Brasil, essa referência cruzadista tem sido utilizada por bolsonaristas na esteira da direita alternativa norte-americana, também conhecida como alt-right. “Está decretada a nova cruzada. Deus vult!”, comemorou no Twitter o analista político Filipe Garcia Martins quando da vitória de Bolsonaro. Aluno de Olavo de Carvalho e atual assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Martins escreveu durante a posse: “A nova era chegou. É tudo nosso! Deus vult!”.

Estamos vendo nos últimos anos é como essas visões falsas e parciais sobre a Idade Média vêm sendo requisitadas para justificar atos de terror, massacres e todo tipo de opressão contra minorias. Se um discurso como esse frutificar, as consequências são essas

Além dele, outros apoiadores bolsonaristas têm feito uso da expressão. “Precisamos de um São Bernardo de Claraval [abade encarregado pelo papa de pregar a Segunda Cruzada] para animar novas Cruzadas. CHEGA”, escreveu o tuiteiro e youtuber Bernardo P. Küster, após ataques de terroristas muçulmanos contra cristãos no Sri Lanka em 21 de abril deste ano.

A produtora Brasil Paralelo, por exemplo, autora do documentário que relativiza o golpe militar, 1964 – O Brasil entre armas e livros, produziu recentemente uma série documental chamada Brasil – A última Cruzada, na qual apresenta uma interpretação de personalidades e pesquisadores de direita sobre a história brasileira. Também o portal Senso Incomum publicou no início de abril o podcast “Deus vult – As Cruzadas salvaram o mundo”, narrado pelo influenciador digital Flávio Morgenstern.

Apesar de estudar um período longínquo, Pachá acredita que “o discurso sobre o passado não é inócuo, ele tem consequências no nosso presente” e explica a seguir esse fenômeno que avalia não como revisão, mas sim negação da história e da ciência.

Vemos recorrentemente no discurso da extrema direita referências às Cruzadas e a uma “nova Cruzada” que estaria ocorrendo hoje. O que eles querem dizer com isso?

A primeira coisa é entender qual é o papel da Cruzada ou dessa nova Cruzada no pensamento da extrema direita, que é semelhante no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. Isso vem aparecendo de maneira congruente, o que é um pouco assustador.

Essas ideias de Cruzada e de Idade Média têm a ver com uma visão bastante idealizada e bastante parcial do que foi o período. O que atrai esses grupos é pensar que foi um tempo patriarcal, branco e cristão. Essa Idade Média nunca existiu, mas tem esse papel no pensamento desses grupos.

As Cruzadas são especialmente exaltadas porque são um momento no qual esses três elementos [patriarcal, cristã e branca] estão muito bem representados. Nessa visão das Cruzadas, você teria um movimento bélico liderado por um grupo visto como majoritariamente masculino; um elemento que envolve a questão religiosa — as Cruzadas como primordialmente um conflito religioso entre cristianismo e islamismo — e, além disso, a ideia de uma disputa plurissecular entre Ocidente e Oriente.

Recuperar as Cruzadas é desenvolver [uma narrativa sobre] como esses três elementos desempenharam papel fundamental durante a Idade Média. Você teria uma defesa da religião cristã contra o islamismo, um movimento militar — e, aí, todas as características de masculinidade, de virilidade, de força — e essa questão Oriente versus Ocidente, que leva à construção de uma ideia de civilização ocidental.

Bolsonaro estende sua missão divina à Argentina

Em discurso para uma plateia de evangélicos, na cidade catarinense de Camboriú, Jair Bolsonaro disse que foi salvo da facada por "milagre". Grudou no seu governo o selo de "missão de Deus". Parece confiar que todos aceitarão as presunções que cultiva a seu próprio respeito. Em matéria de política internacional, isso inclui concordar que sua missão divina lhe confere a prerrogativa de tratar a América Latina como uma espécie de Brasília hipertrofiada. Como não consegue apressar a derrubada do ditador Nicolás Maduro, decidiu interferir nos destinos da democracia na Argentina.


Numa de suas transmissões ao vivo pelas redes sociais, Bolsonaro disse que "ninguém aqui vai se envolver em questões de fora do país". Em seguida, meteu-se na eleição presidencial argentina, marcada para 27 de outubro. Disse ter "uma preocupação" com a hipótese de Cristina Kirchner, antecessora de Mauricio Macri, retornar ao poder. Ela "era ligada a Dilma, a Lula, à Venezuela e a Cuba. Se isso voltar, com toda a certeza, a Argentina vai entrar em uma situação semelhante à da Venezuela", declarou.

Mais cedo, numa entrevista ao SBT, Bolsonaro afirmara que considera o risco representado pela ascensão de Cristina Kirchner "mais importante" do que o flagelo da resistência de Nicolás Maduro no poder, pois a Argentina "seria uma outra Venezuela aqui no fundo".

Quer dizer: o capitão comparou um ditador venezuelano, que se manteve no cargo graças a um simulacro de eleição, com o hipotético retorno de uma presidente ao poder graças à vontade soberana dos argentinos. Igualou uma farsa eleitoral a uma campanha presidencial regular. Nivelou um pleito precedido da prisão dos opositores de Maduro, sem fiscalização e marcado pela fraude, a uma eventual alternância de poder na qual os argentinos não farão senão imitar os brasileiros no exercício do sacrossanto e democrático direito de fazer tolices por conta própria.

Qualquer presidente pode sonhar com o mito da excepcionalidade. Mas é inédita essa pretensão de Bolsonaro de converter o Brasil numa espécie de versão tupiniquim dos Estados Unidos. Faltam-lhe o topete de Donald Trump e, sobretudo, os mísseis do Pentágono para impor algum grau de submissão dos vizinhos à sua missão evangelizadora.

O mais assustador é que Bolsonaro aparentemente não está sendo cínico. Ele acredita mesmo que seu destino de glórias lhe dá o direito de exercer seu ineditismo no mundo para fins que desafiam a soberania alheia e o bom senso. Vá lá que se preocupe com a Venezuela. A ditadura de Maduro empurra para dentro do mapa do Brasil legiões de refugiados famintos. Mas o que justifica meter o bedelho na Argentina?

No discurso aos evangélicos, Bolsonaro admitiu indiretamente que outras pessoas poderiam desempenhar melhor as funções de presidente do Brasil. Mas parece considerar que sua Presidência é mais ou menos como o vinho. E tomará a forma do jarro que o Todo-Poderoso providenciar para abrigá-la. "Vocês sabem que Ele não escolhe o mais capacitado, mas capacita os escolhidos", afirmou.

Deus, como se sabe, existe e está em toda parte. Entretanto, Bolsonaro está empenhado em demonstrar que Ele já não dá expediente full time.

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Pilares na formação de professores que revolucionaram educação na Finlândia

O sucesso do sistema educacional da Finlândia tem sido objeto de estudo em todo o mundo desde que o país, que já foi um dos mais pobres da Europa, passou a despontar em rankings internacionais de educação, virou referência por conseguir promover ensino de qualidade de forma igualitária em toda a sua rede e, em consequência, viu seu Produto Iinterno Bruto (PIB) per capita se tornar um dos mais altos do mundo.

Por trás dessa revolução educacional está uma reforma iniciada nos anos 1970 que teve entre seus pontos centrais a qualificação e a valorização da carreira dos professores, explica Minna Mäkihonko, conselheira-sênior para educação docente e para educação inclusiva da Universidade da Finlândia.

Mäkihonko esteve neste mês em São Paulo para uma palestra na Fundação FHC (do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) e em busca de parcerias para estabelecer projetos com o modelo educacional finlandês no Brasil em escolas e universidades brasileiras.


Ela detalhou os cinco princípios-chave que passaram a guiar a formação de professores finlandeses, na busca por uma educação "que seja baseada em pesquisas e evidências coletadas em todo o mundo" e que prepare os docentes para "serem modelos de comportamento para toda a sociedade".

A própria Mäkihonko ressalta que nenhum modelo educacional pode ser copiado de um país para outro - sobretudo em países tão díspares entre si quanto a Finlândia, de 5,5 milhões de habitantes, e o Brasil, com 209 milhões de habitantes -, mas a experiência finlandesa serve para nortear mudanças.

"O que aprendemos é que apenas aumentar a certificação dos professores não necessariamente impactava a qualidade do aprendizado dos alunos", explicou ela. "Tivemos de olhar para a qualidade dessa educação, para o que oferecemos aos professores."

Para Mäkihonko, o ponto principal do treinamento de professores passa por "preparar os futuros professores para um mundo em mutação".

"Não sabemos para que tipo de mundo estamos treinando os professores. Por isso, é importante treiná-los para não apenas dar informações, mas ter a capacidade de encontrar, selecionar e analisar conhecimento."

A Finlândia é conhecida por ter adaptado suas salas de aula para o chamado "ensino baseado em projetos", em que os alunos - em vez de terem o conhecimento dividido por áreas estáticas, como matemática, línguas e geografia - aprendem com base em grandes projetos multidisciplinares, com grande autonomia.

Para Mäkihonko, isso exige professores que aprendam, em sua formação, a serem flexíveis e capazes de implementar "atividades inteligentes em situações novas".

Isso reflete uma questão importante da reforma educacional finlandesa: colocar os alunos como agentes ativos de seu próprio aprendizado.

Um relatório de 2010 da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) sobre a educação finlandesa aponta que "as salas de aula são centradas no aluno".

"O objetivo é aumentar a curiosidade dos estudantes e sua motivação para aprender, além de promover sua proatividade, autodirecionamento e criatividade, oferecendo-lhes problemas e desafios interessantes", diz o texto.

Colocar em prática esse ensino centrado no aluno não é fácil e exige professores que entendam o processo de aprendizado. Por isso, nas universidades de Educação finlandesas, futuros docentes aprendem "tanto métodos baseados em pesquisas quanto pacotes de ferramentas que possam ser usadas quando eles forem ensinar", explicou Mäkihonko.

E também aprendem a usá-las com autonomia. "No treinamento, podemos dizer a um professor qual livro ou método pode ajudar uma criança com dificuldade em matemática. Mas é ele, com seu expertise e profissionalismo, que vai decidir o que usar. Os professores é que terão de saber quais métodos serão úteis para cada tipo de situação."

Mäkihonko explicou que é exigido dos professores finlandeses "um profundo entendimento do conteúdo" que ensinam e da pedagogia adequada para cada faixa etária, de forma a "apoiar os alunos (na busca) por diferentes pontos de vista e para construir conexões entre (diferentes) conceitos".

Desde a reforma educacional dos anos 1970, a formação dos professores passou a ser centralizada em universidades (todas públicas), em cursos de cinco anos, com alto nível de exigência sobre os futuros professores. Todos são obrigados a fazer uma tese de mestrado para concluir sua formação. Nesse processo, disse Mäkihonko, "eles aprendem a ler artigos científicos e a estar a par das descobertas mais recentes em aprendizado, para se desenvolverem profissionalmente".

A OCDE explica que, tradicionalmente no mundo, "programas de treinamento de professores muitas vezes tratam a boa pedagogia como algo genérico, presumindo que habilidades (...) são igualmente aplicáveis a todas as disciplinas. Na Finlândia, como a educação é uma responsabilidade compartilhada entre a Faculdade de Educação e as faculdades de cada disciplina, há uma grande atenção à pedagogia específica para professores primários e professores das séries superiores".

Segundo o relatório da OCDE, outros fatores que parecem estar por trás do sucesso educacional da Finlândia são um "consenso político para educar todas as crianças juntas, em um sistema escolar conjunto; a expectativa de que todas as crianças conseguem atingir altos níveis (de aprendizado), a despeito de seu histórico familiar ou circunstâncias regionais; uma busca obstinada pela excelência de professores; responsabilidade compartilhada da escola pelos alunos com dificuldades; uso dos modestos recursos financeiros com foco na sala de aula e clima de confiança entre educadores e a comunidade".