sexta-feira, 3 de maio de 2019

Bolsonaro, trotskista e gramsciano

O presidente Jair Bolsonaro, de credenciais inequívocas na direita, de certa forma é trotskista e gramsciano. Acredita na revolução internacional permanente e aposta no estabelecimento de uma hegemonia cultural.

Bolsonaro precisa da derrota mundial da esquerda não para emergir como o líder de uma tendência, algo que jamais será, mas para subsistir. Em suas colocações e entrevistas, é frequente o raciocínio de que a era Lula não teve origem em circunstâncias muito particulares da conjuntura brasileira, mas em uma conjura de agitação e propaganda transnacional em grande parte tocada pelo Foro de São Paulo. O fim do ciclo petista no Brasil, em sua concepção, só se consolida com a repetição do fenômeno além fronteira.

Daí a importância da Venezuela em sua equação. A queda da ditadura venezuelana, se e quando se materializar, permitiria a Bolsonaro investir na radicalização no Brasil, jogando a pecha do autoritarismo na testa de seus adversários, estratégia para a qual o PT contribui de maneira estúpida, ao se solidarizar com o sangrento regime de Maduro.

Daí porque Bolsonaro se sente ameaçado por um eventual retorno de Cristina Kirchner ao poder na Argentina. E esta é a razão para a qual fez um apelo a políticos de direita no Uruguai para que derrotem a Frente Ampla naquele país. O presidente brasileiro porta-se como um cabo eleitoral de Trump, porque prefere nem pensar na hipótese de ter que lidar com alguém como Joe Biden à frente da Casa Branca. Não tanto pelas mudanças de orientação na política externa que um governo democrata faria, mas pelo impacto de uma derrota de Trump no imaginário da revolução mundial 'neocon'.


Trump não é mais uma pessoa, é uma ideia. Na visão do chanceler de Bolsonaro, o líder de uma reação da cristandade ocidental contra o globalismo. Bolsonaro precisa de Trump no poder e Maduro acuado para sustentar a sua narrativa. Assim como Trotski não acreditava na sobrevivência do socialismo em um só país, o bolsonarismo também anseia pela revolução mundial.

A vertente gramsciana do atual grupo no poder está na enorme preocupação com o suposto predomínio da esquerda no pensamento acadêmico, na intelectualidade, nos meios de comunicação. O bolsonarismo pensa a educação pública como uma ferramenta de disseminação de um pensamento político, de exercício de poder. Sem uma estratégia clara de como tomar de assalto estes aparelhos, o bolsonarismo pretende antagonizá-los, e no limite, sufocá-los financeiramente. Pela primeira vez na história brasileira, a educação pública torna-se não uma solução, mas um problema. Um obstáculo a ser transposto.

A visão de que as ameaças ao exercício do poder vêm da cultura e da conjuntura internacional foi exposta por clareza de uma espécie de um líder ancestral de alguns integrantes do governo, o general Sylvio Frota (1910-1996). Era o ministro do Exército que foi demitido por Ernesto Geisel em 1977 quando começava a articular a sua candidatura a presidente nas eleições indiretas. Frota queria aprofundar o movimento de 64, e não desmontá-lo com uma abertura, lenta, gradual e segura.

Para Frota, o marxismo buscava "infiltrar-se em quase todos os setores da vida pública brasileira, chamando de fascistas os que se opõem aos seus desígnios", conforme afirmou em uma ordem do dia de 1975, de acordo com o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, da Fundação Getulio Vargas. No seu livro de memórias, "Ideais Traídos", cujo nome é bastante sugestivo de sua visão sobre o processo de abertura, Frota argumentou que o governo Geisel era de centro-esquerda. Acreditava que havia 97 comunistas infiltrados dentro do governo federal. A política externa do governo de então, que restabeleceu relações diplomáticas com a China e aproximou-se das recém independentes nações da África, era alvo frequente de suas críticas.

A cruzada de Frota também era contra "a existência de um processo de domínio, pelo Estado, da economia nacional - inclusive de empresas privadas - de modo a condicionar o empresariado brasileiro aos ditames do governo", conforme registrou em sua carta de demissão. O ultraconservador Frota unia assim o anticomunismo à defesa do Estado mínimo.

A demissão sumária do general desarticulou a linha-dura e consolidou o fim do regime militar dentro de um processo negociado com a classe política. Frota tentou reagir, mas a cúpula do Exército não o acompanhou.

Bolsonaro era muito jovem à época desses acontecimentos, mas as figuras que sempre nominou como referências, como o ministro do GSI, Augusto Heleno, ou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, estavam na órbita do frotismo. O primeiro era ajudante de ordens do ministro, o segundo subchefe de operações do Centro de Inteligência do Exército (Ciex).

As forças que Frota reuniu em torno de si ficaram sem perspectiva de poder pouco mais de sete anos antes do insucesso da ala pragmática do regime em fazer o sucessor de Figueiredo. Não foram elas que perderam em 1985. Como escreveu Frota na sua despedida, "existe uma evidente intenção de alienar as Forças Armadas dos processos decisórios do país, açambarcados por um grupelho, encastelado no governo".

A baixa oficialidade daquele tempo, mera espectadora da briga dos estrelados, vive atualmente uma luta com os seguidores do polemista Olavo de Carvalho para deter a hegemonia do governo do capitão, mas talvez não esteja tão distante de seus contendores nas premissas básicas.

Brasil da hipocrisia


As simples armadilhas

O Brasil é dirigido por um bando de loucos, afirmou Lula. Ainda bem que não são cachaceiros, respondeu Bolsonaro. Os dois homens com mais apelo popular no Brasil falam uma linguagem rude e franca. Sabem que se comunicam com a maioria e desprezam as nuances sofisticadas para combaterem um ao outro.

Essa polaridade é um sinal dos tempos. Na verdade, Bolsonaro é um recém-chegado. Ele explodiu a outra polaridade, entre PSDB e PT, assim como em muitos lugares da Europa também foi para o espaço a alternância centro-direita e centro-esquerda.

Bolsonaro procura expressar o que acha ser a aspiração do homem comum. É disso que se trata: apresentar soluções simples e deixar que a complexidade fique para intelectuais e especialistas – os suspeitos de estarem enrolando e mantendo o status quo com suas avaliações mais profundas.

Creio que é dentro desse contexto que é preciso analisar a disposição de Bolsonaro de reduzir o apoio aos cursos de sociologia e filosofia. Ele quer se dedicar aos que dão retorno, como os de agricultura, medicina, administração.

Bolsonaro já foi contestado de muitas formas. Ficou claro que há uma previsão constitucional amparando esses cursos. A contestação que deve ter pegado mais fundo é a de natureza econômica: o avanço da robótica, da inteligência artificial, reacendeu a importância das ciências humanas. Asfixiá-las seria um lamentável atraso.

O próprio Japão, usado como argumento, já percebeu que os desdobramentos científicos tornaram um erro a ideia de subestimar as ciências humanas.

Não sei como essas coisas vão ser elaboradas na cabeça de Bolsonaro. Sinto que ele exprime uma espécie de senso comum talvez originado na suposição de que apenas o que se produz materialmente tem valor – outro equívoco bastante difundido entre as pessoas que buscam líderes simples e diretos para resolver os problemas do País.

Outra fonte de mal-entendidos é supor que sociologia e filosofia sejam matérias de esquerda, isto é, conduzam os que se dedicam a elas inevitavelmente a uma posição contestadora.

Se a direita que apoia Bolsonaro pensa assim e quer suprimir cursos, ela está, na verdade, capitulando intelectualmente, abandonando um campo por achar que a partida ali jamais será ganha ou, no mínimo, empatada.

No livro O Povo Contra a Democracia, Yasha Mounk, acho eu, acerta ao afirmar que esses líderes expressam posições populares e não adianta vê-los com olhar superior ou classificar seus seguidores como idiotas. Essa é uma tese que defendo, em termos semelhantes, desde o período eleitoral. O segredo, para ficarmos numa expressão popular, é mostrar às pessoas como o buraco é mais embaixo, nem todas as ideias simples são exequíveis.

Bolsonaro vetou um anúncio do Banco do Brasil (BB). Havia gays, tatuados e negros. Na sua visão estreita, a propaganda do banco é um instrumento da guerra cultural. O povo não pagará por ideias que confrontam a família.

A deputada Janaina Paschoal chegou a perguntar por que estatais fazem propaganda. No caso, o Banco do Brasil é apenas um ator num cenário competitivo em que estão também os bancos privados. A propaganda é uma forma de competir e assegurar uma fatia do mercado.

Mesmo aqueles que defendem a privatização do BB – talvez não seja o caso de Bolsonaro – deveriam estar interessados em que o banco não perca uma fatia de mercado. Se isso acontecer, sai mais barato, o País receberia menos por ele.

Tudo isso, na verdade, é apenas uma reflexão sobre a tática, a possibilidade de progressivamente levar às pessoas uma ideia de que as coisas são mais complexas, sem que com isso se considerem ludibriadas por um misterioso e onipresente sistema.

Bolsonaro tem dito que a propriedade privada é sagrada. Hoje usa esse argumento para refletir sobre a resistência dos fazendeiros às invasões de terras.

No entanto, há várias situações em que a tese da sacralidade tem de ser relativizada. Às vezes, um rio que passa na sua sagrada propriedade privada é o mesmo que passará em outras sagradas propriedades, ou terá de abastecer os que não têm nenhuma propriedade. É possível, em nome do seu pedaço de terra, arruinar um patrimônio comum?

Os políticos que propõem soluções simples para os problemas complexos vencem de goleada no Brasil de hoje. E, diria, em muitos pontos do globo, na atual conjuntura. O problema com eles é que o tempo vai passando e as pessoas que esperam soluções simples e rápidas se desapontam com facilidade. E o capital político escapa pelos dedos.

Os movimentos de Bolsonaro são uma espécie de contraponto à reforma da Previdência. No momento, é o tema que pode trazer algum alívio à economia, sem necessariamente despertar entusiasmo popular.

Ele parece atento a esse jogo. Tanto que descartou a ideia de mais um imposto que atingiria também as igrejas, sobretudo as evangélicas. E se concentra na guerra cultural, um campo em que as coisas não só se mexem com muita lentidão, como dependem do confronto de ideias e se realizam com armas próprias, dentro da diversidade.

A grande tarefa dos intelectuais é convencer as pessoas que desconfiam da sua atividade e mostrar pacientemente o seu valor. É importante não perder o vínculo com as pessoas que acreditam, como Bolsonaro, que ciências humanas não têm retorno.

A convergência das ciências humanas com a inteligência artificial, que vai revolucionar nossos cotidianos, é um bom argumento. Mostra que está em jogo o futuro de todos nós. E nos anima a argumentar que a desconfiança mútua é um fator de atraso.

Intimidar intelectualmente os simpatizantes do populismo não me parece o caminho adequado. O melhor é mostrar de forma amigável o que às vezes fazemos com arrogância: que as coisas são mais complicadas do que parecem.

Mentira é adubo

Hoje a política se constrói muito a partir da mentira, isto é, de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, à criação de ódio 
Mia Couto

'Deus vult': uma velha expressão na boca da extrema direita

“Deus vult”, expressão do latim que em português significa “Deus quer”, vem estampando camisetas, textos, tatuagens e tweets da extrema direita mundial desde que Donald Trump resolveu se lançar candidato à presidência dos EUA, em 2016.

O termo, que data do início do milênio passado (1095), faz referência ao grito do povo em resposta ao papa Urbano II, quando do anúncio da Primeira Cruzada pelo pontífice, explica Paulo Pachá, professor de história medieval da Universidade Federal Fluminense (UFF) nesta entrevista à Pública.

Pachá, autor do artigo Por que a extrema direita brasileira ama a Idade Média europeia, avalia que esse discurso medieval envolve uma série de preconceitos como racismo, homofobia, islamofobia e machismo. “Essa Idade Média aparece como um passado idealizado por esses grupos, onde você teria uma sociedade que é majoritariamente, se não exclusivamente, branca, cristã e patriarcal.”

No Brasil, essa referência cruzadista tem sido utilizada por bolsonaristas na esteira da direita alternativa norte-americana, também conhecida como alt-right. “Está decretada a nova cruzada. Deus vult!”, comemorou no Twitter o analista político Filipe Garcia Martins quando da vitória de Bolsonaro. Aluno de Olavo de Carvalho e atual assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Martins escreveu durante a posse: “A nova era chegou. É tudo nosso! Deus vult!”.

Estamos vendo nos últimos anos é como essas visões falsas e parciais sobre a Idade Média vêm sendo requisitadas para justificar atos de terror, massacres e todo tipo de opressão contra minorias. Se um discurso como esse frutificar, as consequências são essas

Além dele, outros apoiadores bolsonaristas têm feito uso da expressão. “Precisamos de um São Bernardo de Claraval [abade encarregado pelo papa de pregar a Segunda Cruzada] para animar novas Cruzadas. CHEGA”, escreveu o tuiteiro e youtuber Bernardo P. Küster, após ataques de terroristas muçulmanos contra cristãos no Sri Lanka em 21 de abril deste ano.

A produtora Brasil Paralelo, por exemplo, autora do documentário que relativiza o golpe militar, 1964 – O Brasil entre armas e livros, produziu recentemente uma série documental chamada Brasil – A última Cruzada, na qual apresenta uma interpretação de personalidades e pesquisadores de direita sobre a história brasileira. Também o portal Senso Incomum publicou no início de abril o podcast “Deus vult – As Cruzadas salvaram o mundo”, narrado pelo influenciador digital Flávio Morgenstern.

Apesar de estudar um período longínquo, Pachá acredita que “o discurso sobre o passado não é inócuo, ele tem consequências no nosso presente” e explica a seguir esse fenômeno que avalia não como revisão, mas sim negação da história e da ciência.

Vemos recorrentemente no discurso da extrema direita referências às Cruzadas e a uma “nova Cruzada” que estaria ocorrendo hoje. O que eles querem dizer com isso?

A primeira coisa é entender qual é o papel da Cruzada ou dessa nova Cruzada no pensamento da extrema direita, que é semelhante no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. Isso vem aparecendo de maneira congruente, o que é um pouco assustador.

Essas ideias de Cruzada e de Idade Média têm a ver com uma visão bastante idealizada e bastante parcial do que foi o período. O que atrai esses grupos é pensar que foi um tempo patriarcal, branco e cristão. Essa Idade Média nunca existiu, mas tem esse papel no pensamento desses grupos.

As Cruzadas são especialmente exaltadas porque são um momento no qual esses três elementos [patriarcal, cristã e branca] estão muito bem representados. Nessa visão das Cruzadas, você teria um movimento bélico liderado por um grupo visto como majoritariamente masculino; um elemento que envolve a questão religiosa — as Cruzadas como primordialmente um conflito religioso entre cristianismo e islamismo — e, além disso, a ideia de uma disputa plurissecular entre Ocidente e Oriente.

Recuperar as Cruzadas é desenvolver [uma narrativa sobre] como esses três elementos desempenharam papel fundamental durante a Idade Média. Você teria uma defesa da religião cristã contra o islamismo, um movimento militar — e, aí, todas as características de masculinidade, de virilidade, de força — e essa questão Oriente versus Ocidente, que leva à construção de uma ideia de civilização ocidental.

Bolsonaro estende sua missão divina à Argentina

Em discurso para uma plateia de evangélicos, na cidade catarinense de Camboriú, Jair Bolsonaro disse que foi salvo da facada por "milagre". Grudou no seu governo o selo de "missão de Deus". Parece confiar que todos aceitarão as presunções que cultiva a seu próprio respeito. Em matéria de política internacional, isso inclui concordar que sua missão divina lhe confere a prerrogativa de tratar a América Latina como uma espécie de Brasília hipertrofiada. Como não consegue apressar a derrubada do ditador Nicolás Maduro, decidiu interferir nos destinos da democracia na Argentina.


Numa de suas transmissões ao vivo pelas redes sociais, Bolsonaro disse que "ninguém aqui vai se envolver em questões de fora do país". Em seguida, meteu-se na eleição presidencial argentina, marcada para 27 de outubro. Disse ter "uma preocupação" com a hipótese de Cristina Kirchner, antecessora de Mauricio Macri, retornar ao poder. Ela "era ligada a Dilma, a Lula, à Venezuela e a Cuba. Se isso voltar, com toda a certeza, a Argentina vai entrar em uma situação semelhante à da Venezuela", declarou.

Mais cedo, numa entrevista ao SBT, Bolsonaro afirmara que considera o risco representado pela ascensão de Cristina Kirchner "mais importante" do que o flagelo da resistência de Nicolás Maduro no poder, pois a Argentina "seria uma outra Venezuela aqui no fundo".

Quer dizer: o capitão comparou um ditador venezuelano, que se manteve no cargo graças a um simulacro de eleição, com o hipotético retorno de uma presidente ao poder graças à vontade soberana dos argentinos. Igualou uma farsa eleitoral a uma campanha presidencial regular. Nivelou um pleito precedido da prisão dos opositores de Maduro, sem fiscalização e marcado pela fraude, a uma eventual alternância de poder na qual os argentinos não farão senão imitar os brasileiros no exercício do sacrossanto e democrático direito de fazer tolices por conta própria.

Qualquer presidente pode sonhar com o mito da excepcionalidade. Mas é inédita essa pretensão de Bolsonaro de converter o Brasil numa espécie de versão tupiniquim dos Estados Unidos. Faltam-lhe o topete de Donald Trump e, sobretudo, os mísseis do Pentágono para impor algum grau de submissão dos vizinhos à sua missão evangelizadora.

O mais assustador é que Bolsonaro aparentemente não está sendo cínico. Ele acredita mesmo que seu destino de glórias lhe dá o direito de exercer seu ineditismo no mundo para fins que desafiam a soberania alheia e o bom senso. Vá lá que se preocupe com a Venezuela. A ditadura de Maduro empurra para dentro do mapa do Brasil legiões de refugiados famintos. Mas o que justifica meter o bedelho na Argentina?

No discurso aos evangélicos, Bolsonaro admitiu indiretamente que outras pessoas poderiam desempenhar melhor as funções de presidente do Brasil. Mas parece considerar que sua Presidência é mais ou menos como o vinho. E tomará a forma do jarro que o Todo-Poderoso providenciar para abrigá-la. "Vocês sabem que Ele não escolhe o mais capacitado, mas capacita os escolhidos", afirmou.

Deus, como se sabe, existe e está em toda parte. Entretanto, Bolsonaro está empenhado em demonstrar que Ele já não dá expediente full time.

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Pilares na formação de professores que revolucionaram educação na Finlândia

O sucesso do sistema educacional da Finlândia tem sido objeto de estudo em todo o mundo desde que o país, que já foi um dos mais pobres da Europa, passou a despontar em rankings internacionais de educação, virou referência por conseguir promover ensino de qualidade de forma igualitária em toda a sua rede e, em consequência, viu seu Produto Iinterno Bruto (PIB) per capita se tornar um dos mais altos do mundo.

Por trás dessa revolução educacional está uma reforma iniciada nos anos 1970 que teve entre seus pontos centrais a qualificação e a valorização da carreira dos professores, explica Minna Mäkihonko, conselheira-sênior para educação docente e para educação inclusiva da Universidade da Finlândia.

Mäkihonko esteve neste mês em São Paulo para uma palestra na Fundação FHC (do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) e em busca de parcerias para estabelecer projetos com o modelo educacional finlandês no Brasil em escolas e universidades brasileiras.


Ela detalhou os cinco princípios-chave que passaram a guiar a formação de professores finlandeses, na busca por uma educação "que seja baseada em pesquisas e evidências coletadas em todo o mundo" e que prepare os docentes para "serem modelos de comportamento para toda a sociedade".

A própria Mäkihonko ressalta que nenhum modelo educacional pode ser copiado de um país para outro - sobretudo em países tão díspares entre si quanto a Finlândia, de 5,5 milhões de habitantes, e o Brasil, com 209 milhões de habitantes -, mas a experiência finlandesa serve para nortear mudanças.

"O que aprendemos é que apenas aumentar a certificação dos professores não necessariamente impactava a qualidade do aprendizado dos alunos", explicou ela. "Tivemos de olhar para a qualidade dessa educação, para o que oferecemos aos professores."

Para Mäkihonko, o ponto principal do treinamento de professores passa por "preparar os futuros professores para um mundo em mutação".

"Não sabemos para que tipo de mundo estamos treinando os professores. Por isso, é importante treiná-los para não apenas dar informações, mas ter a capacidade de encontrar, selecionar e analisar conhecimento."

A Finlândia é conhecida por ter adaptado suas salas de aula para o chamado "ensino baseado em projetos", em que os alunos - em vez de terem o conhecimento dividido por áreas estáticas, como matemática, línguas e geografia - aprendem com base em grandes projetos multidisciplinares, com grande autonomia.

Para Mäkihonko, isso exige professores que aprendam, em sua formação, a serem flexíveis e capazes de implementar "atividades inteligentes em situações novas".

Isso reflete uma questão importante da reforma educacional finlandesa: colocar os alunos como agentes ativos de seu próprio aprendizado.

Um relatório de 2010 da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) sobre a educação finlandesa aponta que "as salas de aula são centradas no aluno".

"O objetivo é aumentar a curiosidade dos estudantes e sua motivação para aprender, além de promover sua proatividade, autodirecionamento e criatividade, oferecendo-lhes problemas e desafios interessantes", diz o texto.

Colocar em prática esse ensino centrado no aluno não é fácil e exige professores que entendam o processo de aprendizado. Por isso, nas universidades de Educação finlandesas, futuros docentes aprendem "tanto métodos baseados em pesquisas quanto pacotes de ferramentas que possam ser usadas quando eles forem ensinar", explicou Mäkihonko.

E também aprendem a usá-las com autonomia. "No treinamento, podemos dizer a um professor qual livro ou método pode ajudar uma criança com dificuldade em matemática. Mas é ele, com seu expertise e profissionalismo, que vai decidir o que usar. Os professores é que terão de saber quais métodos serão úteis para cada tipo de situação."

Mäkihonko explicou que é exigido dos professores finlandeses "um profundo entendimento do conteúdo" que ensinam e da pedagogia adequada para cada faixa etária, de forma a "apoiar os alunos (na busca) por diferentes pontos de vista e para construir conexões entre (diferentes) conceitos".

Desde a reforma educacional dos anos 1970, a formação dos professores passou a ser centralizada em universidades (todas públicas), em cursos de cinco anos, com alto nível de exigência sobre os futuros professores. Todos são obrigados a fazer uma tese de mestrado para concluir sua formação. Nesse processo, disse Mäkihonko, "eles aprendem a ler artigos científicos e a estar a par das descobertas mais recentes em aprendizado, para se desenvolverem profissionalmente".

A OCDE explica que, tradicionalmente no mundo, "programas de treinamento de professores muitas vezes tratam a boa pedagogia como algo genérico, presumindo que habilidades (...) são igualmente aplicáveis a todas as disciplinas. Na Finlândia, como a educação é uma responsabilidade compartilhada entre a Faculdade de Educação e as faculdades de cada disciplina, há uma grande atenção à pedagogia específica para professores primários e professores das séries superiores".

Segundo o relatório da OCDE, outros fatores que parecem estar por trás do sucesso educacional da Finlândia são um "consenso político para educar todas as crianças juntas, em um sistema escolar conjunto; a expectativa de que todas as crianças conseguem atingir altos níveis (de aprendizado), a despeito de seu histórico familiar ou circunstâncias regionais; uma busca obstinada pela excelência de professores; responsabilidade compartilhada da escola pelos alunos com dificuldades; uso dos modestos recursos financeiros com foco na sala de aula e clima de confiança entre educadores e a comunidade".

Mendigos profissionais

Há ainda uma poda que é necessário fazer: eliminar da atual angústia que nos atormenta o cinismo que a macula e o parasitismo que a explora. A verdadeira razão e o verdadeiro instinto mandam curar as feridas. Só os mendigos profissionais deitam sal nas chagas para as avivar
Miguel Torga, Diário V

Conversa de botequim

O presidente Jair Bolsonaro insiste em discursar como se estivesse numa descontraída troca de comentários ligeiros, dando palpites de ocasião e falando de assuntos fora de seu conhecimento. De forma desastrada, já interferiu na Petrobrás e no Banco do Brasil (BB) e polemizou com técnicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas parece ter dificuldade para entender seu papel e suas limitações. Voltou a criticar os juros na terça-feira passada, num evento no Palácio do Planalto, um dia depois de ter pedido a redução da taxa ao presidente do BB, Rubem Novaes, numa cerimônia em Ribeirão Preto. No evento em Brasília, o comentário sobre o custo do dinheiro envolveu também o presidente da Caixa, Pedro Guimarães. Dessa vez, o presidente Bolsonaro fez uma ressalva. Negou a intenção de interferir nos bancos e qualificou seus palpites como “sugestões”: como conselhos, cada um cumpre se quiser. Fez a ressalva, obviamente, depois da reação negativa no mercado de capitais e das críticas na imprensa, mas terá mesmo reconhecido seu limite?

Tentando explicar-se, na terça-feira passada, a respeito do escorregão cometido em Ribeirão Preto, abusou novamente das palavras: “Ontem, eu apelei para o presidente do Banco do Brasil, para seu espírito patriótico, conservador, cristão, que atenda os ruralistas no tocante à taxa de juros”. Para começar, um ponto muito importante foi esquecido. Formular política agrícola é papel do primeiro escalão do Executivo. Isso envolve a responsabilidade pelo custo de qualquer subsídio. A conta cabe ao Tesouro. Não é função do BB formular e custear políticas setoriais.

Além de esquecer esses detalhes da formulação e da execução de políticas, o presidente Bolsonaro manifestou, mais uma vez, sua visão muito particular dos atributos de um bom gestor. Afinal, por que apelar ao espírito “conservador e cristão” de um presidente do BB? Conservadorismo e cristianismo são qualificações necessárias ao cargo? Constam da descrição de função? Presidentes do BB sem algum desses atributos terão sido incompetentes e, além disso, insensíveis às demandas de seus clientes? Nem todos são cristãos no primeiro escalão do Executivo, mas o presidente, quando se manifesta de forma espontânea, revela curiosas limitações de sua visão do mundo e das pessoas.


No mesmo discurso de terça-feira o presidente voltou a falar de sua discordância em relação a números e conceitos do IBGE: “Se fala em 12 milhões de desempregados. Sim, eu acho que é muito mais do que isso. E não vou polemizar novamente”. Mesmo assim, propôs uma revisão da metodologia usada na pesquisa oficial sobre o mercado de trabalho. Ele já havia questionado as informações oficiais sobre desemprego, mas, apesar do incômodo, os técnicos do IBGE limitaram-se a reafirmar a qualidade de seu trabalho e deixaram a polêmica para trás.

Mas o presidente da República insiste em criticar, como se pudesse discutir com especialistas. O menos importante, nesse episódio, foi sua confusão com números. Ele mencionou 12 milhões de desempregados. Mas a última pesquisa, divulgada na terça-feira de manhã, aponta uma taxa de 12,7% de desemprego e cita 13,4 milhões de desocupados. A mesma pesquisa, como vem ocorrendo há tempos, indica também a subutilização de 28,3 milhões de pessoas, 25% da força de trabalho. O levantamento quantifica pessoas desocupadas, pessoas ocupadas por tempo insuficiente, trabalhadores desalentados e a força de trabalho potencial. Seus padrões são internacionais. Mas o relatório talvez seja longo para a paciência do presidente.

Se o presidente da República tem dúvidas, peça esclarecimentos a algum auxiliar competente. Não caia no ridículo de contestar uma instituição respeitada internacionalmente e mantida livre de intervenção por diferentes governos e regimes. Ele tomaria esses cuidados se atentasse à sua função. Governar é muito diferente de mandar, de se meter em todos os assuntos e de dar palpites e opiniões como numa conversa de madrugada, num botequim. Palavra de presidente é como a moeda. Emitida sem critério, perde valor.

Editorial - O Estado de S. Paulo

Três sugestões em prol da liberdade de imprensa

Proibição de publicações, restrições econômicas e penas de prisão são padrões de comportamento bem conhecidos de governos repressivos, com os quais estes buscam suprimir a livre expressão de opinião em seus países.

Mas atualmente existem perigos que não são tão fáceis de se enxergar – especialmente na estrutura viral da internet: pessoas e, cada vez mais, robôs espalham mentiras, vídeos falsos e fotos com o objetivo de manipular.

Notícias falsas, campanhas de desinformação nas mídias sociais, calúnias e ameaças se tornaram práticas cotidianas, gerenciadas cada vez mais por profissionais de comunicação reais. Por exemplo, na RT (Russia Today) e ultimamente também na Al Jazeera, infelizmente, a comunicação parece amigável, às vezes até engraçada e espirituosa. Num mundo complicado, elas seduzem com uma oferta de simplificação.


Além disso, cada vez mais Estados estão tentando transformar a cosmopolita internet em uma intranet censurada do país. Observa-se isso no Irã, na China, na Rússia e na Turquia.

Há apenas uma resposta para isso: as pessoas devem aprender a diferenciar a mentira da verdade. Essa educação midiática deve tornar-se parte integrante do currículo escolar, e deve haver ofertas atraentes para adultos. Ofertas em que se deve ensinar que, no final, não só a liberdade dos meios de comunicação está ameaçada, mas também, potencialmente, a liberdade de se poder expressar a opinião no espaço "privado", sem medo de repressões.

Políticos democratas de todo o mundo, incluindo os da Europa e da Alemanha, se superam uns aos outros numa tentativa de cortejar a China. Não se importam com o fato de a liberdade de imprensa não existir nesse país e de que ofertas independentes de emissoras estrangeiras, como a da Deutsche Welle, são bloqueadas por lá. Quando se trata da China, representantes do empresariado pensam mais num grande negócio do que nos direitos humanos.

Também quando se trata do Irã, são as oportunidades econômicas que costumam ser discutidas, e não os mais de 20 jornalistas submetidos às prisões e torturas da Guarda Revolucionária. Em Bangladesh e no Paquistão, blogueiros arriscam suas vidas ao escrever criticamente sobre o crescente islamismo em seus países. E sequer uma palavra de apoio vem do exterior. O mundo exalta o príncipe herdeiro da Arábia Saudita porque as mulheres têm permissão para ir ao cinema, a estádios esportivos e agora até podem dirigir carros. Mas onde está o clamor contra o fato de o blogueiro Raif Badawi ainda estar numa prisão saudita?

A lista é muito longa. É uma lista triste. E hoje é um bom dia para que as pessoas se comprometam a avaliar os políticos pelo que eles estão fazendo contra os crescentes ataques à liberdade de imprensa. Diante de ditadores, eles ressaltam, de forma clara, quais são nossos valores? Eles estariam dispostos a desistir dos negócios caso esses valores fossem flagrantemente violados? Eles condicionam a doação de assistência ao desenvolvimento à situação dos direitos humanos e da liberdade de imprensa?

A liberdade de imprensa não é concedida somente a partir de cima. A situação legal é uma coisa, a atitude interior de cada jornalista é outra. Especialmente jornalistas de países com um sistema de mídia liberal devem servir de modelo aos colegas que trabalham em circunstâncias difíceis.

Para mim, ser jornalista significa sempre desconfiar das próprias crenças – ou da dos colegas – e sempre questionar a própria certeza. E, sim, também não ter medo de receber aplausos do lado errado. Eu, por exemplo, vejo com grande preocupação a discussão sobre se nós, na Alemanha, deveríamos conversar também com políticos do partido populista de direita AfD (Alternativa para a Alemanha). Ao ignorarmos grupos políticos inteiros, políticos desagradáveis ou outras figuras públicas que não se encaixam em nossa visão de mundo, deixamos uma lacuna que pode então ser preenchida por outros.

E com isso prejudicamos a liberdade de imprensa, que queremos celebrar nesta sexta-feira.
Ines Pohl, editora-chefe da Deutsche Welle

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Gente fora do mapa


Ministro da Educação imita senhoras católicas de 1964

O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, quer banir os livros de Paulo Freire e reprimir a “balbúrdia” nas universidades. O discurso não é exatamente novo. Já estava na boca das senhoras católicas que bradavam contra o comunismo em 1964.


Em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o ministro olavete descreveu as universidades como locais de “bagunça” e “arruaça”. Ele também protestou contra a suposta presença de “gente pelada”, como se os campi fossem praias de nudismo.

A imaginação de Weintraub parece ser fértil. A das ativistas católicas também era. A exemplo do ministro, elas acreditavam que os comunistas estavam em toda parte. Atrás da banca de jornal, no ponto de ônibus, debaixo da cama ou dentro do guarda-roupa, como ironizava o cronista Stanislaw Ponte Preta.

Em Belo Horizonte, as senhoras se uniram na Liga da Mulher Democrata (Limde). De rosário em punho, promoveram passeatas a favor do golpe militar e elegeram a Universidade Federal de Minas Gerais como alvo número um. Suas peripécias estão no livro “Campus UFMG”, que a historiadora Heloisa Starling lança no dia 11 pela editora Conceito.

Em abril de 1964, a Limde intimou o Ministério da Educação a intervir na UFMG para garantir “o afastamento definitivo de professores, livros e funcionários comunistas do convívio com os estudantes”.

Pouco depois, as ativistas reivindicaram a imediata proibição, em todo o país, do método Paulo Freire. Para elas, a técnica do educador para combater o analfabetismo era perigosa e subversiva.

Em 1965, a Limde organizou um abaixo-assinado pela “extinção da carreira de sociólogo”. O manifesto afirmava que era preciso evitar a formação de “agitadores comunistas”. Os sociólogos só conseguiriam habilitação formal em 1980, no fim da ditadura.

As senhoras mineiras eram ousadas. Um dia, indignadas com a realização de um encontro sindical em BH, reuniram a imprensa e prometeram deitar na pista do Aeroporto da Pampulha para impedir a aterrissagem de aviões.

Fica a dica para o ministro Weintraub.

Empobrecer, esquecer, deixar morrer

O projeto nacional de aumento do Produto Interno da Brutalidade Brasileira (PIBB) não é invenção de Jair Bolsonaro. Parte da sociedade brasileira sempre se deixou seduzir, por medo ou interesse próprio, aos cantos do bruto, esse ser que grita soluções simples, erradas e violentas aos problemas do país. Sob o bolsonarismo, a dedicação espalhafatosa a esse programa antiliberal rompe até mesmo com as convenções democráticas de etiqueta que gradualmente se firmaram nos últimos 30 anos.

Um ano atrás, escrevi que três verbos sintetizam o PIBB: matar, castigar e perdoar. O Brasil não é apenas o país que mais mata no mundo. Matamos com critério: o assassinato de negros, ambientalistas, jornalistas, LGBTs e mulheres despontam nos rankings mundiais. Castigamos pelo encarceramento em massa, pela arbitrariedade policial, pelo descaso com vítimas de crimes ambientais ou com qualquer outro grupo vulnerável. Numa trágica ironia, não matamos e castigamos os mesmos que perdoamos. Perdoamos, por exemplo, quem adquire vultosas dívidas com o Estado.


No governo Bolsonaro, “morte, castigo e perdão” se expandem: um projeto anticrime que legaliza e incentiva a letalidade da polícia que mais mata e morre no mundo; a defesa de que cada indivíduo cuide da própria segurança com seu revólver no cofre; a proposta de permitir que ruralistas atirem para matar quem ameace sua propriedade; o perdão de R$ 17 bilhões à dívida rural; a promessa geral de leniência ao “bolsonarista da esquina”, que faz o serviço sujo por sua conta (segundo evidências, crescem ataques homofóbicos e a violência doméstica, por exemplo).

O programa Empobrece Brasil é o mais robusto. Por trás de uma reforma da Previdência que promete liberar amarras do crescimento, cria múltiplas outras: declara guerra à cultura, à produção científica, à educação em geral e à educação pública em particular; na pública, uma guerra especial às humanidades, central na economia do conhecimento e da criatividade; guerra ao professor que conduzir inocentes ao pensamento livre e improdutivo; às proteções ambientais, reduzindo biodiversidade e destruindo a maior riqueza de uma economia pós-carbono. Passa também mensagens insólitas ao mercado internacional: o voluntarismo regulatório que interfere no Banco do Brasil e na Petrobras; a rejeição ao turismo gay (com muito poder aquisitivo, por sinal) e o convite ao turismo sexual; a corrosão do soft power brasileiro nas relações internacionais, que já faz o país sofrer retaliações no comércio (para não falar da vexatória dificuldade de achar sede para a homenagem a Bolsonaro em Nova York). Pergunte à ciência econômica o que faz um país crescer e tire suas conclusões.


Mas empobrecer não é suficiente. É preciso esquecer e deixar morrer: o governo busca inviabilizar a investigação de crimes da ditadura e extinguiu o trabalho de identificação de ossadas das vítimas; propõe “corrigir” menções ao golpe militar nos livros de história; desqualifica o trabalho das comissões da verdade e tenta construir um passado glorioso e heroico; busca “cortar custos” e “simplificar” o Censo, uma das grandes ferramentas de inteligência da política pública com base em evidências; faz vista grossa às crescentes invasões a terras indígenas; esvaziou o Mais Médicos, o que pode causar até 100 mil mortes precoces no interior do país.

Perdão pela lista cansativa, apesar de incompleta. Mais do que um amontoado de informações, a lista dimensiona o conjunto, os princípios aglutinadores e a lógica de fundo. A mão invisível da tragédia brasileira não está tão invisível. A Constituição de 1988 estabelece limites e define objetivos. O bruto não gosta de limites e abomina os objetivos.

P.S.: A “nova era” tem ofuscado o Febejapá, o Festival de Barbaridades Judiciais que Assolam o País, mas o Febejapá nunca para. Aproveitando-se de seu
"momentum' no coração de brasileiras e brasileiros, o STF publicou edital para contratação de “refeições institucionais” por R$ 1,1 milhão. Pedem-se: lagostas, camarões e vinhos com quatro prêmios internacionais. Brioche não, para prevenir qualquer mal-entendido.

Bolsonaro rende-se ao óbvio em rede nacional

Num raro instante de lucidez, o redator que preparou o discurso lido por Jair Bolsonaro em rede nacional de rádio e TV no Dia do Trabalhador acomodou nos lábios do presidente duas pérolas. Eis a primeira: "O caminho é longo". Agora, a segunda: "Unidos ultrapassaremos essas dificuldades iniciais!".

Parecem coisas óbvias. Mas Bolsonaro tropeça no óbvio desde que chegou ao Planalto. Tomado a sério, o reconhecimento de que o"caminho é longo" vale por um desmentido. É como se o capitão pedisse à plateia para esquecer o discuso da campanha, que vendia soluções fáceis, disponíveis na virada da primeira esquina.

A segunda obviedade é ainda mais valiosa. Além de admitir que sua gestão arrosta "dificuldades iniciais", Bolsonaro fala em união para superá-las. Se não for da boca para fora, esse "unidos ultrapassaremos" pode representar um convite ao diálogo com gente que pensa diferente — algo que, para o capitão, seria revolucionário.



Caindo-lhe a ficha sobre a longa distância a percorrer, Bolsonaro talvez pare de jogar pedras no seu próprio caminho. Falou tanto em governar "sem viés ideológico" que acabou enviesando sua gestão. Atrasou o relógio até a Era da Guerra Fria. Vê comunistas embaixo da cama. Não notou que a ideologia —a sua ou a dos outros— é o caminho mais longo entre um projeto e sua realização.

Se o redator do discurso de 1º de Maio foi fiel ao pensamento do orador, Bolsonaro precisa deflagrar um processo de desintoxicação de sua retórica. Jamais roçará algo parecido com uma união se continuar caçando esquerdistas em universidades, censurando comerciais por ojeriza à diversidade, idolatrando polemistas e concedendo salvo-conduto aos filhos para plantar bananeira dentro da sua Presidência.

Ou o capitão se ajusta ou o caminho do seu governo pode não ser tão longo. Ao contrário, talvez seja bem mais curto do que o presidente imagina.

Imagem do Dia


Mais desemprego, novos 'bicos' e menos esperança

Se depender do fortalecimento do mercado de trabalho, não há grande esperança de reanimação do consumo a curto prazo. E, na mão inversa, se depender da reanimação do consumo e, em consequência, da atividade econômica, também não há grande esperança de fortalecimento do mercado de trabalho.

Os números divulgados pelo IBGE na terça-feira mostram um quadro preocupante, expresso nessa espécie de ciclo vicioso. O Brasil fechou o primeiro trimestre com 13,4 milhões de pessoas desocupadas, o que corresponde a 12.7% da força de trabalho, 1,1 ponto ponto porcentual acima da taxa registrada no quarto trimestre de 2018.


Dentro do conceito de mão-de-obra subutilizada, que inclui quem trabalha menos do que poderia ou gostaria e também quem não está à procura de emprego, por desalento, esse contingente mais do que dobra — chegando a 28,3 milhões de pessoas. Praticamente empatado com a soma dos habitantes das cinco capitais mais populosas do País. Mais: nenhum setor apresentou um saldo positivo de contratações, nesse período.

Diante dessa dura realidade, é perfeitamente compreensível que o temor do desemprego volte a aumentar, como mostra o índice calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) — depois de recuo observado no fim do ano passado, acompanhando as expectativas otimistas manifestadas com a troca de governo, que, se imaginava, traria pelo menos uma redução de incertezas.

Bolsonaro já se mostrou bastante incomodado com a questão do desemprego. Melhor dizendo, com as estatísticas sobre desemprego. Ele chegou a levantar suspeitas sobre a correção dos critérios utilizados pelo IBGE, despertando fortes críticas de especialistas. Até o momento, porém, não se conhece nenhuma iniciativa específica do governo para pelo menos aliviar o quadro de desemprego no País, num prazo razoável.

É inegável que está em andamento, no mundo todo, uma reviravolta no mercado de trabalho, com a eliminação de várias funções e a criação de outras, principalmente na esteira da corrida tecnológica.

O Brasil, contudo, ainda não embarcou com força total nesse ciclo. A transformação de aplicativos como Uber e iFood nos maiores “empregadores” pode até dar a impressão contrária. Até o momento, porém, trata-se de mais um indicador da deterioração do mercado de trabalho, com até mesmo profissionais qualificados exercendo funções de motoristas ou entregadores de encomendas para garantir a sobrevivência. Um novo tipo de “bico”, mas ainda um “bico”.

Superação é a ordem do dia

Temos pouca capacidade de reação, mas não adianta: precisamos superar o temor e o medo
Maria Arminda do Nascimento Arruda, diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP 

Manifesto

Aos operários da construção civil:

Companheiros

Eugênio de Proença Sigaud
Que Deus e Vargas estejam convosco. A mim ambos desampararam; mas o momento não é de queixas, e sim de luta. Não me dirijo a toda a vossa classe, pois não sou um demagogo. Sou um homem vulgar, e vejo apenas (mal) o que está diante de meus olhos. Estou falando, portanto, com aqueles dentre vós que trabalham na construção em frente de minha janela. Um carrega quatro grandes táboas ao ombro; outro grimpa, com risco de vida, a precária torre do enguiçado elevador; qual bate o martelo, qual despeja nas fôrmas o cimento, qual mira a planta, qual usa a pá, qual serra (o bárbaro) os galhos de uma jovem mangueira, qual ajusta, neste momento, um pedaço de madeira na mesa da serra circular.

Espero. Olho este último homem. Tem o ar calmo, veste um macacão desbotado, usa uma espécie de gorro pardo na cabeça, um lápis vermelho na orelha, uma trena no bolso de trás; e, pela cara e corpo, não terá mais de 25 anos. Parece um homem normal; vede, porém, o que faz. Já ajustou a sua táboa; e agora a empurra lentamente contra a serra que gira. Começou. Um guincho alto, agudo e ao mesmo tempo choroso domina o batecum dos martelos e rompe o ar. Dir-se-ia o espasmo de um gato de metal, se houvesse gatos de metal. Varando o lenho, o aço chora; ou é a última vida da árvore arrancada do seio da floresta que solta esse grito lancinante e triste? De momento a momento seu estridor me vara os ouvidos como imponderável pua.

Além disso o que me mandais, irmão, são outros ruídos e muita poeira: dentro de uns cinco dias tereis acabado o esqueleto do segundo andar e então me olhareis de cima. E ireis aos poucos subindo para o céu, vós que começastes a trabalhar em um buraco do chão.

Então me tereis vedado todo o sol da manhã. Minha casa ficará úmida e sombria; e ireis subindo, subindo. Já disse que não me queixo; já disse: melhor, cronicarei à sombra, inventarei um estilo de orquídea para estas minhas flores de papel.

Nossos ofícios são bem diversos. Há homens que são escritores e fazem livros que são como verdadeiras casas, e ficam. Mas o cronista de jornal é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha, e vai.

Vós ides subindo, orgulhosos, as armações que armais, e breve estareis vendo o mar a leste e as montanhas azuladas a oeste. Oh, insensatos! Quando tiverdes acabado, sereis desalojados de vosso precário pouso e devolvidos às vossas favelas; ireis tão pobres como viestes, pois tudo o que hoje ganhais tendes de gastar; ireis na verdade ainda mais pobre do que sois, pois também tereis gastado algo que ninguém vos paga, que é a força de vossos braços, a mocidade de vossos corpos.

E ficará aqui um edifício alto e branco, feito por vós. Voltai uma semana depois e tentai entrar nele; um homem de boné vos barrará o passo e perguntará a que vindes e vos olhará com desconfiança e desdém. Aquele homem representa outro homem que se chama o proprietário; poderoso senhor que se apoia na mais sólida das ficções, a que chama propriedade. O homem da serra circular estará, certamente, com o ouvido embotado; em vossos pulmões haverá a lembrança de muita serragem e muito pó, e se algum de vós despencou do alto, sua viúva receberá o suficiente para morrer de fome um pouco mais devagar.

Não penseis que me apiedo de vós. Já disse que não sou demagogo; apenas me incomodais com vossa vã atividade. Eu vos concito, pois a parar com essa loucura – hoje, por exemplo, que o céu é azul e o sol é louro, e a areia da praia é tão meiga. Na areia poderemos fazer até castelos soberbos, onde abrigar o nosso íntimo sonho. Eles não darão renda a ninguém, mas também não esgotarão vossas forças. É verdade que assim tereis deixado de construir o lar de algumas famílias. Mas ficai sossegados: essas famílias já devem estar morando em algum lugar, provavelmente muito melhor do que vós mesmos.

Ouvi-me, pois, insensatos; ouvi-me a mim e não a essa infame e horrenda serra que a vós e a mim tanto azucrina. Vamos para a praia. E se o proprietário vier, se o banqueiro vier, se o governo vier, e perguntar com ferocidade: “Estais loucos?” – nós responderemos: “Não, senhores, não estamos loucos; estamos na praia jogando peteca”.

E eles recuarão, pálidos e contrafeitos.
Rubem Braga

A Previdência é uma pirâmide

É fundamental que a reforma da Previdência (PEC 6/2019) seja aprovada. O déficit dos regimes de Previdência do INSS, dos funcionários públicos (federais, estaduais e municipais), e dos militares chegou a colossais 5,5% do PIB em 2018.

Será que a indispensável reforma salva e equaciona as contas futuras da Previdência? Não. Lamento ser o portador deste "breaking news": os sistemas de Previdência do Brasil são um esquema de pirâmide, falidos e irremediáveis.


Governos anteriores afirmaram que não havia motivo para preocupação, pois o buraco é coberto pelo Tesouro. Ah, como eu adoro quando o governo me chama de "tesouro"! Este dinheiro sai do nosso bolso, por meio de impostos atuais e impostos futuros que nós e nossos filhos seremos coagidos a pagar.

Na década de 1960, o governo fez uma promessa sedutora e consagrou um pacto abominável com a geração de nossos pais e avós. Prometeu que, ainda que nossos pais não poupassem para sua velhice, o governo pouparia em seu nome. Bastava que contribuíssem mensalmente com 20% de seu salário para o governo. Pronto, o tal do regime de repartição virou lei.

Era uma fraude. O sistema de Previdência não ficou com o dinheiro que o governo tomou dos trabalhadores. O governo o gastou.

A pirâmide envolvia usar a contribuição de Pedro, jovem que está no mercado de trabalho, para pagar João, que está aposentado.

A promessa fraudulenta foi de que haveria cada vez mais trabalhadores entrando no mercado para sustentar o crescente número de aposentados, que vivem cada vez mais.

Por isso, desde 1997 o sistema passou a sangrar. Qual o tamanho do rombo total? O déficit atuarial dos sistemas —recursos que faltam para cobrir os compromissos futuros— é de cerca de estonteantes 250% do PIB.

Destes, estimo que a PEC 6 equacione algo como 60% do PIB. Para efeito de comparação, a dívida oficial acumulada pelo Estado desde 1822 é de 80% do PIB. Ainda faltarão três PECs de similar montante para se alcançar o equilíbrio financeiro da Previdência.

A Lei de Stein determina que aquilo que não pode continuar para sempre terá de parar. Stein não contava com a magia estatal. O governo é a grande ficção através da qual todos tentam viver às custas de todos os demais, dizia Bastiat.

A pergunta central é: o trabalhador brasileiro e seus filhos devem ser condenados a pagar eternamente a dívida gerada pelo pacto, mesmo sem ter chance de receber montante equiparável ao que contribuem (atualmente 30% do salário bruto)? Ou será melhor que os participantes do sistema apurem os haveres e ajustem as contas entre si?

O jovem trabalhador brasileiro em 2019 é como uma noiva iludida pelo parceiro que prometia que cuidaria dela pelo resto da vida.

Ao se casar, descobre que o marido já estava quebrado. O marido convoca a esposa ludibriada a pagar a dívida contribuindo com 30% de tudo que ela e os futuros filhos ganharem durante suas vidas, mesmo sabendo que os 30% serão insuficientes. O que deve fazer a mulher?

Uma separação de dívidas implica que o marido tenha de lidar com seu problema, preservando a família.

Esta é a ideia do regime de contas individuais, ou capitalização, proposto pelo ministro Guedes. O trabalhador deixa de sustentar o rombo do atual regime.

Assim, aquele que ganha R$ 2.000 passará a ganhar R$ 2.850. E, mesmo que poupe R$ 450 por mês em sua conta individual de aposentadoria, terá não apenas salário 20% maior do que hoje como também aposentadoria maior do que a prometida pelo governo.

A pirâmide deve ser descortinada antes que vincule mais gente e afunde o Brasil junto. Trabalhador, este pacto não é seu.
Hélio Beltrão