sábado, 20 de abril de 2019
Muito além da caricatura
É o fenômeno conhecido como adaptação das impressões aos fatos. Mesmo assim, persiste a visão de que há um embate entre a ala circense e o grupo dos consistentes com placar favorável àquela. De acordo com essa concepção, o burlesco tenderia a prevalecer devido ao presidente, seus filhos e apoiadores mais barulhentos.
Um exame detido da realidade e desprovido da ideia preconcebida de que tudo é deboche e descaso no país desmente essa versão e demonstra a preferência do brasileiro pela seriedade, ponderação e competência. Fosse diferente, Bolsonaro, filhos e companhias toscas não teriam tido de engolir os recuos a que foram obrigados.
As relações com a China teriam ido para o espaço, a embaixada brasileira em Israel já estaria em Jerusalém, as escolas públicas ensinariam que a Terra é plana desde Adão e Eva, 45 embaixadores lotados mundo afora teriam voltado para Brasília, a tal da pauta conservadora de costumes estaria em franca tramitação no Congresso como protagonista da salvação nacional no lugar da reforma da Previdência, e por aí iríamos caso tivessem razão os que acreditam em bicho-papão.
Não que o presidente e partidários não gostariam de ver prevalecer suas crenças. A questão é que não podem. São impedidos pela materialidade democrática de fazer o que lhes dá nas respectivas telhas. Uma coisa é o desejo de um governante de atuar em determinada direção. Outra são os obstáculos impostos pela reação dos governados por intermédio de suas instâncias de representação e canais de comunicação. É a antiga e benfazeja regra de que o poder pode muito, mas não pode tudo. Nem aquele supremo, encarre¬gado da última palavra.
O que conseguiram os ministros Antonio Dias Toffoli e Alexandre de Mo-raes além de atrair repúdio generalizado ao Supremo Tribunal Federal e se expor ao ridículo de censurar um texto que passou a circular com franca amplitude depois da ordem contra a revista digital Crusoé? Nada.
Pois é disso que se trata: nada há para temer em atitudes desprovidas de eixo e fora do contexto democrático. Quanto mais caricatos seus autores, mais reação provocam, mais rápido tendem a cair do picadeiro porque, embora pareça, o Brasil não é um circo nem o brasileiro fica confortável vestido no figurino de palhaço.
Áudio da 'trava' comprova que Bolsonaro não é populista, só mente um pouo
Na política, o que te dizem em público nunca é tão importante quanto o que você ouve sem querer. Vazado do WhatsApp para as manchetes, o áudio em que o chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni informa aos caminhoneiros que "já demos uma trava na Petrobras" revela uma verdade inconveniente. Sob Jair Bolsonaro, o Planalto não represa preços de combustíveis, não cede a tentações populistas e não desautoriza o czar da Economia Paulo Guedes. Só mente um pouco.
Em viagem a Nova York, na semana passada, Guedes recebeu de Bolsonaro uma punhalada pelas costas. Soube pelos jornalistas que o presidente anulara com um "telefonaço" o reajuste do diesel. O ministro passou uma semana gastando baldes de saliva e o melhor do seu latim para convencer a plateia do seguinte: o que estava na cara não era uma intervenção populista do capitão na Petrobras, mas um telefonema inocente de um ignorante em economia tentando compreender a composição do preço do diesel.
Abra-se um parêntese para injetar na conversa fiada o áudio que Onyx enviou para um líder caminhoneiro, Marconi França. Foi postado num grupo de WhatsApp em 27 de março. Nele, o ministro soa assim: "Estamos trabalhando, o presidente está focado, tem várias coisas bacanas [...] para dar condição a que o caminhoneiro autônomo tenha o seu direito respeitado, seja valorizado. Estamos trabalhando muito. Já demos uma trava na Petrobras. Qualquer modificação de preço, no mínimo entre 15 e 30 dias de variação, não pode ter menos que isso." Fecha parêntese.
Em 26 de março, um dia antes de Onyx enviar aos caminhoneiros o seu mimo vocal, a Petrobras anunciara por meio de nota uma mudança na periodicidade dos reajustes do diesel. Em vez de subir semanalmente, o óleo passaria a ser reajustado em intervalos jamais inferiores a 15 dias. Pois bem, o reajuste que Bolsonaro mandou a Petrobras suspender foi anunciado em 11 de abril. Como combinado, eram transcorridos não 15, mas 16 dias desde a divulgação da nota.
Expostos os fatos, tirem-se as conclusões: 1) A Petrobras esticou o intervalo dos reajustes do diesel de 7 para 15 dias não porque quis, mas porque tomou uma "trava" do Planalto. Beleza. É do jogo. 2) É falsa a alegação de que Bolsonaro mandou suspender o reajuste de 11 de abril porque ficou surpreso. A canelada foi desferida com planejamento e método. 3) A anulação de um aumento feito dentro do prazo combinado foi, na verdade, uma "trava" dentro da outra. Bolsonaro deu de ombros para Guedes e deu ouvidos a Onyx, portador de ameaças de greve dos caminhoneiros.
A lambança custou R$ 32 bilhões em perda do valor de mercado da Petrobras. De volta a Brasília, Paulo Guedes trouxe Bolsonaro à realidade, jurou que a autonomia da estatal estava intacta e declarou que não se sentia atingido em sua autoridade. Na última quarta-feira, a Petrobras reajustou o diesel em 4,8%. Na véspera, o Planalto tentou mimar os caminhoneiros com o anúncio de um pacote que incluía desde promessas de recuperação de estradas até financiamento do BNDES.
De toda a novela restaram a "trava'', a desvalorização do papelório da Petrobras, a perda de valor de mercado da autoridade de Paulo Guedes e a evidência de que Bolsonaro, a exemplo de seus antecessores, não tem a mais remota ideia do que fazer para se livrar da constante ameaça da revolta da boleia. Parte dos caminhoneiros acena com a hipótese de puxar o freio de mão no próximo dia 29.
Você pode reagir ao áudio de Onyx e a tudo o que ele representa de duas maneiras. Numa, você se desespera com a inépcia do governo para resolver uma encrenca anunciada. Noutra, você faz como Paulo Guedes: se finge de bobo e declara, pelo bem do Brasil, que acredita piamente na conversão do intervencionista Bolsonaro ao evangelho liberal do seu Posto Ipiranga. O difícil é saber se a auto-enganação de Guedes sobreviverá a mais três Páscoas.
Notre Dame de Paris: duas observações
São três séculos gloriosos de civilização e arte, em que os homens se reproduzem como nunca; se alimentam como nunca; estudam como nunca; realizam trocas comerciais como nunca; constroem como nunca; e viajam como nunca. A prova?

Ali estava, apontava ele para a Notre-Dame. Longe iam os tempos em que as casas de culto eram pequenas, modestas, grosseiras. A catedral gótica era a expressão da riqueza de um tempo –riqueza material e, sobretudo, espiritual, com as paredes a elevarem-se para o céu como se fossem orações (cito de memória).
Para aquele homem, os medievais não eram fantasmas rústicos que viviam em outro planeta. Eram nossos contemporâneos, partilhando os desejos e os medos que é possível encontrar no homem do século 21.
Como professor que era, aconselhou-me bibliografia. Sobretudo Georges Duby, que eu li e agora reli. O homem medieval, escreveu o historiador francês, tinha medo da miséria, do outro, das epidemias, da violência e do além. E nós?
Nós não somos assim tão diferentes. Medo da miséria? Continua a ser uma angústia, mesmo ou sobretudo no meio de tanta afluência.
Medo do outro? Basta olhar para os nacionalismos agressivos, para quem os “estrangeiros” são os novos bárbaros.
Medo das epidemias? Nunca a saúde foi tão santificada como hoje.
Medo da violência? Uma preocupação que pode determinar resultados eleitorais.
Só não temos medo do além, talvez por não acreditarmos nele. Mas temos medo do aquém: o medo da morte nunca foi tão drástico.
A Notre-Dame de Paris não é uma relíquia do passado; é um monumento do presente onde podemos ver e projetar a nossa eterna humanidade.
2) Certa vez, contei a um grupo de amigos a minha visita à Capela Sistina. Falei do teto, daquele teto, que Michelangelo pintou em idade avançada. Alguém do grupo retorquiu: “E os pobres que passavam fome?”
É um comentário inteligente. Na cabeça do parceiro, se o papa não tivesse encomendado a obra a Michelangelo, ele teria comprado pão a todos os pobres de Roma, ou de Itália, ou da Europa.
Que a opção, no século 16, não fosse entre o teto ou os pobres mas entre o teto ou nada, eis uma hipótese que não perturbou aquela cabeça.
Agora, com o incêndio da Notre-Dame de Paris, esse argumento voltou a soar forte. Os milionários franceses já conseguiram juntar 900 milhões de euros para a reconstrução da catedral?
Hipocrisia, gritam os moralistas; eles deveriam gastar o dinheiro em ajuda humanitária, acrescentam. Uma vez mais, e na sabedoria dos moralistas, a opção não é entre a catedral ou nada; é entre a catedral ou uma ONG.
Se esse raciocínio fosse levado a sério, e aplicado retroativamente na história, não seria apenas o teto da Capela Sistina a desaparecer. Seria toda a arte ocidental, ou uma parte generosa dela, que sempre dependeu das boas graças dos mecenas.
De que nos servem as esculturas de Donatello se a família Médici não ajudava os pobres?
Que interessam as “Meninas” de Velázquez se Filipe 4º, rei de Espanha, não acabou com todos os miseráveis do país? (O país dele e, já agora, o país do lado, Portugal, então sob domínio filipino.)
E como tolerar Picasso ou Chagall se Peggy Gunggenheim não adotou todas as crianças órfãs do seu tempo?
É assim o mundo dos simples.
João Pereira Coutinho
O vergalho
– Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado!
– Meu senhor! gemia o outro.
– Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio – o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
– E, sim, nhonhô.
– Fez-te alguma coisa?
– É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
– Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
– Pois não, nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a cavar cá dentro uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio achei-lhe um miolo gaiato, fino e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, – transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera.
Vejam as sutilezas do maroto!
Machado de Assis, "Memórias póstumas de Brás Cubas"
Falar o que não querem ouvir
Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvirGeorge Orwell
Cavaleiros do apocalipse
O que era ainda apenas um mau sinal acabou se tornando uma ferida aberta em nossa democracia com a censura à revista Crusoé e ao site O Antagonista e inúmeras buscas em casa de pessoas que se expressam pelas redes sociais.
A notícia que a Crusoé publicou acabou sendo multiplicada à exaustão: Marcelo Odebrecht informou que Toffoli era o “amigo do amigo do meu pai”, apelido que aparecia em algumas mensagens dele. O que quer dizer isso? O amigo do pai de Marcelo é Lula. Ser amigo de Lula não é um fato isolado: milhares de brasileiros assumiriam essa condição. Toffoli era advogado-geral da União e possivelmente tratou com a Odebrecht das usinas de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia.
Mas até aí também não apareceu nada de mais. Houve corrupção na construção de Jirau? Digo que sim, e já estive lá depois que a Lava Jato levantou o tema. Fiz um pequeno documentário no próprio lugar.

Não vi o nome de Toffoli. O próprio documento da Odebrecht não o liga à corrupção, não houve referência a pagamentos. Não havia, portanto, uma razão para transpor um marco democrático e determinar a censura da revista e do site. O que Toffoli conseguiu com isso? Em primeiro lugar, multiplicou fantasticamente a divulgação de uma notícia que lhe era incômoda. Em segundo lugar, fortaleceu a suspeição de que havia realmente algo a esconder.
Não foi um lance inteligente para quem personifica um Poder moderador. Foi um curto-circuito na compreensão do que é o Brasil hoje e abre uma crise aguda, anuvia ainda mais uma atmosfera nebulosa.
Todo esse equívoco terá um desfecho. Se o Supremo realmente se preocupa com a gravidade da situação, deve resolvê-la logo. E Toffoli perderá – e creio que perde também as condições de seguir na presidência.
Esse é um desdobramento que me parece realmente superar a questão. Na verdade, a necessidade de ir um pouco mais a fundo se dá em outros problemas neste momento. E nada se realiza. O caso da morte de um músico por soldados do Exército, em Guadalupe, no Rio de Janeiro, é um deles.
É discutível se o caso não deveria ser enviado para a Justiça comum. Mesmo um julgamento perfeito na esfera militar ainda não esgota o tema. Era preciso um projeto de longas conversas com os soldados, entender de onde tiraram aquela confiança para disparar tantos tiros e desprezar os apelos de socorro.
Existe uma possibilidade de encontrarmos algumas ideias que circulam na dimensão política, uma banalização da violência. Não me arrisco a dizer que uma ou outra ideia das que correm tenha influenciado os jovens. Apenas digo que valeria a pena pesquisar.
Em quase todas as conversas sobre segurança, incluído o pacote de Sergio Moro, existe uma ênfase punitiva. Mas há um amplo caminho pelo trabalho preventivo e creio que o Exército, tantas vezes chamado a intervir, tem condições de trilhá-lo. Que ideia os soldados tinham do protocolo, que ideias os levaram a desprezar as regras? Isso não pode acontecer com soldados do Exército Brasileiro e certamente o estudo do caso tende a indicar alguns caminhos.
No caso de Guararema, onde a PM matou 11 assaltantes, toda a ênfase de Doria e de Bolsonaro foi na ação policial. Estive em Guararema seis meses antes para mostrar como a cidade se tornou segura, por meio do seu sistema de câmeras. Acompanhei casos na sala de controle, observei que mesmo pequenos atos de vandalismo estavam sob vigilância.
Claro que, na minha concepção de segurança, interpretaria Guararema como um sucesso das câmeras – um estímulo para outras cidades brasileiras. Isso não significa desvalorizar a ação policial. É louvá-las. Mas depois de um exame no cérebro da segurança de Guararema, que é a sala de controle, por sinal, ao lado do quartel da PM.
A política de Bolsonaro flerta com a morte constantemente. Isso me incomoda. Vivo nas estradas brasileiras. É meu trabalho cotidiano. Considero um absurdo a ideia de reduzir os radares. Vai aumentar os acidentes. Não sei de onde ele tirou isso, aliás parece um Jânio Quadros punk. Briga de galo, biquíni, saudades dos delírios amenos.
Já vi anseios por aumento do limite legal de velocidade na Alemanha. São outros carros, outras estradas. Bolsonaro quer suprimir os controladores de limites.
Nosso regime democrático baseia-se num sistema de pesos e contrapesos. Ultimamente, andam todos muito pesados. Um importante contrapeso acaba sendo a própria sociedade: o Brasil está em outra, espero.
Se os próprios ministros do STF observarem bem a reação que suas medidas provocaram, vão perceber que existe um consenso em torno da liberdade de expressão que não se pode mais ultrapassar, a não ser numa ditadura.
Bolsonaro, creio, continuará atirando a esmo. De repente aparece em Israel com uma ousada tese sobre a História. Presidentes não são historiadores. Os que eventualmente o forem sabem que presidente não dá opiniões tão radicais sobre um fato histórico.
De repente, congela preços, opina sobre os equipamentos irregulares que o Ibama pode queimar e ainda tem toda uma guerra cultural para fazer – comunistas, Paulo Freire, globalistas, teorias do aquecimento global, de gênero…
Se há alguma teoria que nos possa ajudar, entre todas, é a teoria do caos. Temos de estudá-la muito para tirar algo de positivo da confusão nacional.
Casa de intolerância e do vale-tudo
Poucas lideranças parecem preocupadas ou capazes de medir a consequência de seus atos. Conflito institucional é nome elegante demais para o que se passa.
É melhor dar nome a alguns desses bois, antes de passar a mais abstrações.

O então juiz Sergio Moro pulava cercas legais a fim de dar impulso político a seus processos e juízos, como no caso do vazamento do grampo de Dilma Rousseff, mas não apenas.
Ministros do Supremo tomam decisões ou instituem inquéritos de legalidade avacalhada a fim de contra-atacar, com bons ou péssimos motivos, a militância politizada de procuradores, por exemplo. No meio da zorra, censuram a imprensa, como no caso da revista Crusoé.
Parte do Congresso (por revanche) e parte do bolsonarismo (em sua guerrilha anti-establishment) querem assediar, depor ou aposentar ministros do STF e controlar o Supremo.
O presidente da República e a falange da ala antissistema do bolsonarismo hostilizam o Congresso. Por atos e omissões, Bolsonaro ataca a ideia de governo articulado e organizado, a começar pelo seu próprio.
Parte relevante da elite econômica acredita que vale quase tudo a fim de implementar um programa econômico, sendo corresponsável pela degradação.
Por omissão, colaboração cúmplice ou mesmo militância feroz, aceita arreganhos autoritários e o envenenamento do convívio democrático. Despreza as ideias de que o país precisa de paz social mínima e a de que um governo precisa de líderes com um mínimo de capacidade administrativa, política e intelectual.
O vale-tudo começa com o laceamento da lei, a tentativa de passar do limite da responsabilidade para o território da irresponsabilidade, onde o folgado institucional tenta manipular o jogo político e legal.
Dão jeitinhos, burlam normas, “se colar, colou”, extrapolam seus poderes, interpretam liberalmente as regras, de acordo com sua conveniência e seu particularismo atrozes. Nesse terreno se constrói a casa de tolerância do malandro com aspirações autocráticas.
Dessas feitorias pioneiras do arbítrio, várias lideranças do país, públicas e privadas, lançam ataques umas contra as outras e contra direitos em geral.
Essa mesquinharia temperada de autoritarismo faz com que a desordem política e econômica seja cada vez maior, assim como o risco de um acidente ou atentado institucional mais grave.
Dessas feitorias pioneiras do arbítrio, várias lideranças do país, públicas e privadas, lançam ataques umas contra as outras e contra direitos em geral. Essa mesquinharia temperada de autoritarismo faz com que a desordem política e econômica seja cada vez maior, assim como o risco de um acidente ou atentado institucional mais grave.
Essa descrição sumária vale para aspectos do governo Dilma Rousseff, em que a corrupção ainda mais sistemática e o esbulho mais ou menos legal, mas imenso, das contas públicas se tornaram instrumento político básico.
Vale para aspectos da Lava Jato, do juizado Moro, das monocracias tumultuárias do Supremo. Vale para o governo Bolsonaro e para os jacobinos reacionários e iletrados do bolsonarismo. Vale para empresários que pagam para ver qualquer reforma e cobram qualquer preço deste país de democracia periclitante.
Trata-se apenas de um esboço preliminar de descrição da crise. Como chegamos a esse ponto é assunto para outras colunas, as quais, no entanto, talvez tenham de imediato de se ocupar do risco de chegarmos a um ponto sem volta. Acontece. Nem é preciso falar de Venezuela. Há exemplos mais próximos, do Rio à Argentina.
sexta-feira, 19 de abril de 2019
Bem feito!
Meu lado racional torce para que Jair Bolsonaro pare de sabotar seu próprio governo e faça o que precisa ser feito. Se o barco afundar, todos nos tornaremos náufragos. Meu lado sádico, contudo, não resiste a dizer “bem feito!” à turma do mercado e a todos aqueles que acreditaram que o capitão reformado seria capaz de tocar uma agenda liberal.
Bolsonaro passou 28 anos na Câmara onde, além de esmerar-se na arte de fazer comentários que chocam a sensibilidade das pessoas normais, não desperdiçou oportunidades de votar em propostas conservadoras, intervencionistas, corporativistas e outras que violam pressupostos básicos do liberalismo.
Dá para conciliar conservadorismo e liberalismo? No mundo sublunar, sim. As pessoas escolhem para si os mais absurdos “blends” de crenças. Um Datafolha de 2010 mostrou que, dos brasileiros que se diziam ateus, 7% acreditavam em Adão e Eva e 23% eram partidários da evolução “comandada por Deus”.
O princípio da não contradição não faz surgir um raio exterminador que fulmine quem assuma posições incongruentes. Mas é forçoso reconhecer que a confiabilidade dos que sustentam combinações malucas de crenças é menor do que a daqueles que conseguem articular ideias coerentes.
E não vejo como se possa, de modo consequente, ser liberal na economia, mas não em relação aos costumes —ou vice-versa. É no mínimo exótico achar que o indivíduo é o melhor juiz para escolher qual carreira ele deve seguir e onde vai vender seus produtos, mas não para decidir como e com quem vai fazer sexo consensual, que substâncias ingerirá e que livros poderá ler.
Autoengano parece-me a melhor explicação para a atitude dos liberais que apoiaram a eleição do mais iliberal dos candidatos.
Liquidação dos cínicos
Há ainda uma poda que é necessário fazer: eliminar da atual angústia que nos atormenta o cinismo que a macula e o parasitismo que a explora. A verdadeira razão e o verdadeiro instinto mandam curar as feridas. Só os mendigos profissionais deitam sal nas chagas para as avivarMiguel Torga, "Diário V"
Rosáceas
Tenho lido e pesquisado sobre as relações entre as mudanças climáticas e as várias crises migratórias mundo afora, sobre as várias crises migratórias mundo afora e a ascensão do nacionalismo populista. O último relatório da ONU sobre o drama migratório global estimou em pouco mais de 40 milhões o número de pessoas desterradas e em mais de 20 milhões o número de refugiados.
Os desterrados são aqueles que deixam as regiões de origem em seus países e deslocam-se para outras ainda dentro das fronteiras. Os refugiados são aqueles que fogem de seus países para outros, geralmente mais desenvolvidos, onde esperam melhores condições de vida.
O dado perturbador é que a maioria acachapante dos desterrados e refugiados que a ONU contou em 2016 fugiu não de violência e conflitos como geralmente se supõe, mas de eventos catastróficos relacionados ao clima. Secas, inundações, temperaturas escorchantes e suas consequências, como a perda de lavouras e das condições de vida de muitos dos que dependem da produção agrícola de subsistência. Um estudo científico publicado em 2015 aponta a seca desastrosa que atingiu a Síria como fator de estresse para o conflito que mais tarde se daria.
A literatura sobre alterações climáticas e a deflagração de guerras e conflitos é vasta, e a correlação é bem estabelecida. Em alguns casos é possível ver mais do que meras correlações. Em alguns casos é possível afirmar que problemas climáticos causaram guerras e conflitos. Para acrescentar ofensa à injúria, alguns estudos mostram que o ponto em que estamos hoje não é o resultado acumulado de muitas e muitas décadas de descaso. O agravamento das mudanças climáticas é, na realidade, resultado dos últimos 25 a 30 anos.
Apesar dessas evidências e do temor que elas deveriam causar, vários líderes mundiais as ignoraram. Alguns, talvez, porque não viverão muito mais mesmo, caso do septuagenário que ocupa a Casa Branca. Outros pela mais profunda ignorância sobre qualquer tema, em particular sobre o complicado tema das mudanças climáticas. O ocupante do Palácio do Planalto, que em campanha ameaçou tirar o Brasil do Acordo de Paris, esvaziou o Ministério do Meio Ambiente, suspendeu contratos com organizações não governamentais ambientalistas e extinguiu secretarias que formulavam políticas públicas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas globais.
Por essa razão, inseriu no Ministério do Meio Ambiente representante da “nova direita” que anda fazendo estragos consideráveis na pasta pela qual é responsável. Não à toa, o Museu de História Natural de Nova York se recusou a prestar seu espaço para evento que homenagearia o presidente brasileiro em meados de maio, fato inusitado repercutido nas manchetes internacionais e locais.
É impossível afastar a angústia diante de tudo isso. Ainda que as besteiras de Damares Azul-Rosa Alves sirvam para que se possa rir um pouco — goiabeiras, mulheres submissas e coisa e tal. Portanto, pensem nas rosáceas. Elas sobreviveram às labaredas, vocês viram as labaredas? As belíssimas rosáceas do século XIII e suas pétalas divinamente coloridas por onde já atravessou a luz de tantos séculos continuam lá, não explodiram, não derreteram, como seria de imaginar.
A sobrevivência das rosáceas é uplifting, não porque acredito em milagres ou qualquer outra interpretação religiosa, intervenção divina ou seja lá o que for. A sobrevivência das rosáceas é uplifting porque ela simboliza a resistência do espírito humano que as concebeu e a capacidade que todos temos de apreciar a força e a beleza dessa resistência, mesmo que as circunstâncias sejam as mais violentas e cruéis.
Monica De Bolle
Bolsonaro, o amigo do amigo da imprensa
O socialista de direita Bolsonaro decidiu aparecer em sua melhor luz. Estava contente porque o Supremo Tribunal Federal resolveu superá-lo em trapalhadas, na pele do ministro Alexandre de Moraes. O juiz se expôs ao ridículo ao censurar uma revista e intimidar jornalistas e internautas que incomodaram o amigo do amigo Dias Toffoli, presidente do STF. “Minha posição”, disse Bolsonaro, “sempre será favorável à liberdade de expressão, direito legítimo e inviolável”. “Nós precisamos de vocês(jornalistas) para que a chama da democracia não se apague.” Era uma festa pelos 371 anos do Exército.
“O pessoal até brinca lá. Se você quiser fechar o STF, não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é desmerecendo o soldado e o cabo, não. O que é o STF, cara? Tipo, tira o poder da caneta de um ministro do STF, o que ele é na rua? Se você prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular a favor dos ministros?”, provocou Eduardo Bolsonaro. É importante lembrar.
O STF não mandou apreender os computadores do deputado nem entrou na casa dele. A presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber, reagiu com serenidade: “Soube da manifestação do filho do Bolsonaro e ele já foi desautorizado (pelo pai, então candidato) . De qualquer forma, nós juízes não nos deixamos abalar por manifestações inadequadas.”
A dupla de toga Moraes-Toffoli se deixou abalar. Jogou holofote sobre a revista "Crusoé", que nem ofendera ninguém. Criou um supremo mal-estar com a opinião pública, a Procuradoria-Geral e os colegas no STF. Agentes da Polícia Federal acordaram um aposentado que produz roupas para cachorros em São Paulo e protesta nas redes contra “a ditadura judicial”. Levaram o computador dele.
Bolsonaro expressa sem censura suas verdades mais íntimas. “Nazismo é de esquerda.” “Pode-se perdoar o Holocausto.” “O coronel Brilhante Ustra (torturador) é um herói.” “ (O ditador paraguaio) Stroessner foi um homem de visão, um estadista.” “Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê? (sobre o Museu Nacional incendiado). ” “A sociedade brasileira não gosta de homossexual.”
O presidente cita trecho bíblico: “Conheceis a verdade. E a verdade vos libertará”. A última “verdade” de Bolsonaro insulta a sociedade. “O Exército não matou ninguém”, disse sobre os 82 tiros disparados por soldados contra um carro de passeio. Matou sim. Fuzilou. E agora, são dois na conta do Exército e da Justiça Militar. O catador de papel Luciano Macedo, que correu para ajudar a família do músico Evaldo, não resistiu aos ferimentos e morreu. Deixa uma mulher grávida. Qual é a verdade que nos libertará?
Liberdade de imprensa piorou no Brasil em 2018
Na 105ª colocação, o Brasil caiu três posições em relação ao ano anterior e está localizado perto da "zona vermelha", assim como a Venezuela e outros países onde a situação é "difícil" para a imprensa, como Burundi, Iraque e Turquia.
A deterioração do Brasil responde a um ano "particularmente agitado", com o assassinato de quatro jornalistas e a crescente fragilidade dos profissionais independentes que cobrem temas ligados à corrupção ou ao crime organizado, afirmou a ONG.
As redes sociais, especialmente o Whatsapp, serviram para espalhar notícias falsas e desacreditar os veículos de imprensa críticos ao presidente, transformando os jornalistas em "alvos prediletos" dos seguidores de Bolsonaro.
Pela primeira vez em três anos, a Coreia do Norte não é a última colocada (posição 180) da lista, onde está agora o Turcomenistão. A Noruega está em primeiro lugar, seguida da Finlândia e da Suécia.
"Em essência, o clima no qual os jornalistas trabalham simplesmente se deteriorou em todo o mundo", disse Sylvie Ahrens-Urbanek, do escritório alemão da RSF. Segundo ela, a profissão está convivendo com um "clima de medo".
Ela considera especialmente alarmante a crescente retórica de ódio contra jornalistas na Europa e nos Estados Unidos, apesar de lembrar que o fenômeno é mundial. O ano de 2018 foi marcado em todo o mundo pela redução de onde se pode praticar o jornalismo com garantias.
Sobre a Venezuela, a "deriva autoritária" do governo de Nicolás Maduro aproxima o país da "zona negra", onde está o grupo em pior classificação, que tem na Eritreia, na Coreia do Norte e no Turcomenistão os últimos colocados.
Em 2018, a repressão da imprensa independente na Venezuela se intensificou, com prisões arbitrárias de jornalistas e violência das forças da ordem contra os repórteres.
As emissoras de rádio e televisão mais críticas ao governo tiveram suas licenças de transmissão cassadas, além de a imprensa estrangeira ter sofrido com prisões, interrogatórios e até expulsões da Venezuela.
Mas o país da América Latina que mais caiu no ranking de classificação foi a Nicarágua, descendo 24 posições, para o 114º lugar, em plena "zona vermelha", por conta da repressão à imprensa independente feita pelo governo de Daniel Ortega.
No contexto do agravamento da crise política no país e do aumento das manifestações contra o governo, a RSF diz que "o jornalismo é constantemente estigmatizado e atacado com campanhas de assédio e ameaças de morte, além de prisões arbitrárias".
"Durante as manifestações, os repórteres da Nicarágua consideraram que os opositores são frequentemente atacados e muitos deles foram forçados ao exílio para evitar a acusação de terrorismo e prisão", acrescenta.
O relatório também lembra que, pelo 22º ano consecutivo, o pior país para a imprensa na América Latina é Cuba, na 169º posição, apenas 11 colocações à frente do Turcomenistão.
A melhoria da cobertura da internet na ilha, que facilita o trabalho de "blogueiros" e alguns jornalistas independentes, não esconde que o regime, agora comandado por Miguel Díaz-Canel, segue controlando permanentemente a informação e usando a repressão, levando ao exílio as vozes mais críticas.
Na "zona vermelha" também se encontra o México, principal cemitério de jornalistas, dez deles assassinados em 2018, vítimas do crime organizado e de autoridades corruptas.
A autocensura, ligada à intimidação da classe política, cresceu em El Salvador, Honduras e Guatemala, enquanto que a situação está "alarmante" na Bolívia, 113ª da lista, por causa da censura imposta pelo governo de Evo Morales aos veículos de imprensa críticos.
O Chile, entretanto, caiu oito posições devido aos ataques sofridos para a proteção de fontes de jornalistas que trabalham nas reivindicações dos Mapuches ou a corrupção da classe política.
Deutsche Welle
A ordem é desconfiar
Desconfio dos discursos morais dos políticos, da religião. Se estudássemos as grandes frases morais de pessoas com poder, ao longo da História, veríamos que são muitas vezes prefácios a grandes tragédiasGonçalo M. Tavares
Apesar de vocês
Não obstante o alarido do bolsonarês castiço que assola a República, a reforma da Previdência vai passar. Não porque o presidente Jair Bolsonaro esteja particularmente empenhado nisso. Não será uma obra dele nem de seus três auxiliares falastrões que por uma dessas conjunturas inusitadas são filhos com questões familiares um tanto mal resolvidas e detentores de mandato parlamentar. Se dependesse desses quatro, caminharíamos de modo irremediável para o “buraco” em que o general Rêgo Barros disse recentemente que cairemos caso a reforma não seja feita.</p>
Ela será feita, cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, porque o mundo do dinheiro, dos negócios e da alta esfera política concorda com a fala do porta-voz. Funciona mais ou menos como a derrubada da inflação no governo FH e a manutenção da política econômica do antecessor na gestão Lula: ou é isso ou não tem governo. Quiçá país, na interpretação dos entendidos no assunto.
Prefeito do Rio por três vezes, Cesar Maia, pai do presidente da Câmara, aponta três eixos de sustentação efetiva do governo: Economia (Paulo Guedes), Justiça e Segurança (Sergio Moro) e administração substantiva (os militares do Planalto). Note agora o leitor que todos eles atuaram na última semana para desconstruir a barafunda que parecia levar a reforma a pique.
Moro e Guedes entenderam-se com Rodrigo Maia sobre a necessidade de a proposta da Previdência tramitar soberana, o vice-presidente Hamilton Mourão tranquilizou o PIB com encontro em São Paulo e o general Augusto Heleno certamente foi o autor oculto do apelo à “pacificação” feito por Bolsonaro em seguida a intenso tiroteio com o presidente da Câmara.
Os movimentos desse pessoal são o que realmente conta para medir a ampliação ou a redução de danos à reforma. O jogo aqui é de sobrevivência, uma vez que a aprovação do projeto é o primeiro passo, sem o qual não se vai a lugar algum. Sem ele, por exemplo, Moro não consegue nada com seu pacote de legislação anticrimes. Rodrigo Maia tampouco conseguirá imprimir relevância à sua terceira passagem pela presidência da Câmara (fundamental para o impulso do futuro) se a Previdência ficar empacada. Guedes também não levará adiante sua proposta de desvinculação constitucional das receitas da União.
Donde é de concluir que as coisas fluirão. A menos que o presidente da República resolva livrar-se de seus pilares, ou vice-versa, numa exacerbação de seu jeito rudimentar de ser, e, não sabendo exatamente do que se compõe a nova política, siga na trajetória malsã de negar-se ao exercício da boa política.
Nesta, já apontaram diversos autores credenciados, existe um caminho do meio a ser trilhado entre a hostilidade e a ilegalidade. Para tanto, porém, há que ter visão estratégica, inteligência, paciência, ponderação, noção dos limites do poder e, sobretudo, plano de voo claro e detalhado. E é aí que a fêmea da espécie dos suínos corre o risco de retorcer a própria cauda e pôr tudo irremediavelmente a perder.
Ela será feita, cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, porque o mundo do dinheiro, dos negócios e da alta esfera política concorda com a fala do porta-voz. Funciona mais ou menos como a derrubada da inflação no governo FH e a manutenção da política econômica do antecessor na gestão Lula: ou é isso ou não tem governo. Quiçá país, na interpretação dos entendidos no assunto.
Prefeito do Rio por três vezes, Cesar Maia, pai do presidente da Câmara, aponta três eixos de sustentação efetiva do governo: Economia (Paulo Guedes), Justiça e Segurança (Sergio Moro) e administração substantiva (os militares do Planalto). Note agora o leitor que todos eles atuaram na última semana para desconstruir a barafunda que parecia levar a reforma a pique.
Moro e Guedes entenderam-se com Rodrigo Maia sobre a necessidade de a proposta da Previdência tramitar soberana, o vice-presidente Hamilton Mourão tranquilizou o PIB com encontro em São Paulo e o general Augusto Heleno certamente foi o autor oculto do apelo à “pacificação” feito por Bolsonaro em seguida a intenso tiroteio com o presidente da Câmara.
Os movimentos desse pessoal são o que realmente conta para medir a ampliação ou a redução de danos à reforma. O jogo aqui é de sobrevivência, uma vez que a aprovação do projeto é o primeiro passo, sem o qual não se vai a lugar algum. Sem ele, por exemplo, Moro não consegue nada com seu pacote de legislação anticrimes. Rodrigo Maia tampouco conseguirá imprimir relevância à sua terceira passagem pela presidência da Câmara (fundamental para o impulso do futuro) se a Previdência ficar empacada. Guedes também não levará adiante sua proposta de desvinculação constitucional das receitas da União.
Donde é de concluir que as coisas fluirão. A menos que o presidente da República resolva livrar-se de seus pilares, ou vice-versa, numa exacerbação de seu jeito rudimentar de ser, e, não sabendo exatamente do que se compõe a nova política, siga na trajetória malsã de negar-se ao exercício da boa política.
Nesta, já apontaram diversos autores credenciados, existe um caminho do meio a ser trilhado entre a hostilidade e a ilegalidade. Para tanto, porém, há que ter visão estratégica, inteligência, paciência, ponderação, noção dos limites do poder e, sobretudo, plano de voo claro e detalhado. E é aí que a fêmea da espécie dos suínos corre o risco de retorcer a própria cauda e pôr tudo irremediavelmente a perder.
Toffoli fez de Bolsonaro estadista por 49 segundos
Ao trocar o figurino de supremo moderador pelo papel de censor, o "amigo do amigo do meu pai" proporcionou a Jair Bolsonaro uma pose inusitada. Deu-se numa cerimônia de comemoração do Dia do Exército, no Comando Militar do Sudeste, em São Paulo. Num discurso de pouco mais de seis minutos, o capitão reservou 49 segundos para executar a coreografia de um neo-estadista pró-liberdade de imprensa. Dirigindo-se aos "prezados integrantes da mídia", Bolsonaro propôs a superação das diferenças:
— Que pese alguns percalços entre nós, precisamos de vocês para que a chama da democracia não se apague. Precisamos de vocês cada vez mais. Palavras, letras e imagens. Que estejam perfeitamente irmanados com a verdade. Nós, juntos, trabalhando com esse objetivo, faremos um Brasil maior, grande e reconhecido em todo cenário mundial. É isso o que nós queremos. As pequenas diferenças fiquem para trás. O Brasil é maior do que todos nós juntos.
Atento à movimentação dos ventos, Bolsonaro percebeu que Dias Toffoli obteve o feito supremo de atrair para si a antipatia nacional. Nas redes sociais, habitat natural do presidente da República, a aversão ao "amigo do amigo do meu pai" reacendeu o pavio de sua inflamada militância. E o capitão não hesitou em converter Toffoli numa oportunidade a ser aproveitada.
A reconciliação improvável com a imprensa é mero degrau para atingir um posto de observação confortável, com vista para o processo de autocombustão de Toffoli. Em condições normais, Bolsonaro fará sua primeira indicação para o Supremo em novembro de 2020, quando o decano Celso de Mello completará 75 anos. A segunda indicação virá em agosto de 2021, com a aposentadoria compulsória de Marco Aurélio Mello.
O eventual impeachment de uma toga suprema encurtaria a ansiedade e aumentaria a cota de ministros afinados com os "novos tempos". Afastar ministro do Supremo é coisa inédita e difícil de acontecer. Mas se as trapalhadas de Toffoli servem para alguma coisa é para demonstrar que o impossível não passa de um vocábulo que carrega o possível dentro de si.
quinta-feira, 18 de abril de 2019
A Inquisição acabou no papel mas não nas cabeças

O exercício da memória é fundamental nos seres vivos e em particular dos humanos. É ela que nos possibilita evitar os perigos já conhecidos e voltar a obter satisfações semelhantes às anteriormente experienciadas. É ela que nos ajuda a progredir em eficácia e eficiência nas nossas tarefas e a evitar métodos inócuos ou perniciosos na tentativa de alcançar os fins pretendidos.
O funcionamento da memória é um dos processos mais complexos executados por esse órgão fascinante que é o cérebro humano. Mas a memória colectiva funciona doutra forma e vai-se desvanecendo, em grande parte porque a atenção mediática se centra na espuma dos dias.
Talvez por isso o parlamento português tenha decidido no ano passado, por unanimidade e em boa hora, estabelecer o Dia da Memória das Vítimas da Inquisição, a evocar anualmente, como “um resgate da memória das várias vítimas da Inquisição, desde os judeus a seguidores de outros credos, ou até maçónicos e homossexuais, entre outros cidadãos”. Fê-lo a partir da iniciativa dum grupo de cidadãos que apresentaram uma petição nesse sentido à Assembleia da República, a fim de lembrar as vítimas dos 45.000 processos da Inquisição, e onde se pedia que fosse erigido um memorial em Lisboa, no Rossio, em frente ao Teatro Nacional D. Maria II, onde era a sede do Tribunal do Santo Ofício e habitualmente se realizavam os autos-de-fé.
Segundo Anita Novinsky: “A instituição do Tribunal da Inquisição em Portugal foi obra de um jogo entre os interesses da Igreja e os do Estado”, tendo-se tornado um excelente negócio para alguns. A Cúria Romana vendeu-se pelo vil metal e vários cardeais receberam avultadas prebendas da coroa. O núncio da Santa Sé Capodiferro acumulou enormes riquezas, ajudando os cristãos-novos a fugir. Quando um navio que transportava os seus bens naufragou, o embaixador português comentou satisfeito: “Não é sem razão que esse barco, carregado de despojos do sangue de Nosso Senhor Jesus e dos presentes ofertados por seus inimigos, soçobrou no mar” (Herculano, 1975, tomo 2, p. 255).
A organização entrou no país de 1546, pela mão de D. João III, e manteve-se até 31 de Março de 1821, quando foi formalmente extinta, pelo parlamento. Entretanto: “(…) criou colaboracionistas, gratificou a delação e transformou, como disse o poeta Antero de Quental, a hipocrisia num vício nacional (…). Com a aplicação dos estatutos de pureza de sangue, antecipou de 400 anos o racismo do século XX” (Novinsky, A., A Inquisição, p. 24).
Quando temos a consciência de que só há cerca de 200 anos aquela malfadada máquina foi desmantelada (apesar de já não se queimarem pessoas na fogueira há muito), não nos admiramos ao verificar um certo espírito inquisitorial ainda presente na sociedade portuguesa. Pode-se revogar uma lei num dia, pode-se desmantelar uma instituição numa semana, mas as mentalidades demoram gerações a mudar. E dois séculos não são assim tantas gerações com potencial de mudança num país monolítico em matéria de religião, com uma mesma língua e com fronteiras estáveis há quase 900 anos.
É certo que com a instauração da democracia em 1974 e especialmente com a descolonização e a adesão à Europa, assim como a abertura das fronteiras, o país começou finalmente a abrir-se, a mudar, a complexificar-se. Com a globalização, as tecnologias de informação e comunicação e os movimentos migratórios aprofundou e acelerou tais mudanças.
As gerações mais novas têm o direito de conhecer as páginas negras de quase 300 anos da história nacional, não só por uma questão de combater o esquecimento mas em razão da cidadania e da formação das consciências, até porque os cantos de sereia dos populismos de direita e de esquerda ouvem-se cada vez mais alto por essa Europa fora. Os demónios andam por aí à solta com aparência de anjos de luz. Os discursos extremistas, as propostas políticas radicais, a falta de formação e a desinformação das populações estão a criar um caldo de cultura para o surgimento de um amado líder (leia-se ditador) que venha prometer-nos qualquer dia um reinado de mil anos. E depois não vai interessar muito se Hitler era de direita ou de esquerda, como teoriza o pobre Bolsonaro.
A Pide (polícia política do salazarismo), de má memória, foi um sucedâneo da Inquisição, assim como as políticas repressivas da ditadura, que replicaram práticas nazis, fascistas e estalinistas. Os efeitos da Inquisição ainda se fazem sentir em Portugal, nalgumas campanhas políticas, no politicamente correcto, nas causas fracturantes, no discurso de todos os donos da verdade e até nalguns acórdãos judiciais. Temos que estar atentos.
José Brissos-Lino ( Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias – Universidade de Lisboa)
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