sábado, 3 de novembro de 2018
A tranquila força da nossa democracia
A turma que apostou na teoria do “risco democrático”, agora, está com um problema: a internet. A internet é uma máquina de não esquecimento. Está tudo lá, registrado. Milhares de artigos, entrevistas, manifestos e “alertas” afirmando que a democracia iria ser destruída, de um modo ou outro, caso Bolsonaro ganhasse as eleições.
Pois bem. Ele ganhou, e agora o tempo está correndo.
Se a democracia de fato soçobrar, no Brasil, logo saberemos. Em um ou dois anos teremos já uma boa imagem do que ocorrerá com nossas instituições. Caso nossos ilustres acadêmicos estiverem certos, nos tornaremos uma nova Venezuela ou alguma variação próxima.
O catálogo de grandes alertas é inesgotável. Agora é “civilização contra a barbárie”, diz Wagner Moura, com um olhar que só ele saberia fazer. Do exterior, a imaginação flutuou nas estrelas. Leio de um professor americano que andou por aqui como uma espécie de Roger Waters da ciência política, durante as eleições, que Bolsonaro irá mover uma guerra às facções criminosas do país, e quando a violência explodir suspenderá a Constituição e dará fim a nossa democracia.
Leio outro que nos convoca a resistir enquanto for tempo. Enquanto ainda dispusermos de algum espaço e antes que “nossas liberdades sejam retiradas” pelo novo presidente.
Não há nenhuma necessidade de discutirmos muito sobre a correção, ou não, da retórica catastrofista sobre o Brasil. Basta esperar. Estamos diante de uma espécie de experimento natural. Se o grande alerta estiver errado e nossa democracia sobreviver ao inominável monstro de Glicério (cidade natal do novo presidente), tenho convicção de nossos bons intelectuais farão uma discreta e silenciosa autocrítica.
Não será preciso nenhum texto ou declaração pública (eles não o fariam, de qualquer maneira), nem mesmo um post, nas redes sociais.
Sugiro apenas um brinde solitário em homenagem a nossa democracia e a nossas instituições, que julgaram tão mal. E quem sabe algum arrependimento pelo pecadinho tão impróprio a um acadêmico: ceder à tentação da militância.
Ou pior: dar trela e transformar em tese acadêmica aquilo que não passava, no fim das contas, de retórica de campanha de um partido político.
Não vale, neste debate, fazer uma confusão bastante elementar: caso a catástrofe não aconteça, sair pela tangente sugerindo que a democracia não terminou, mas que passamos por um retrocesso democrático, por conta da agenda conservadora do governo Bolsonaro.
Vamos imaginar. O Congresso aprova, a partir de uma proposta apoiada pelo governo, a redução da maioridade penal para 17 anos. O projeto alcança 308 votos na Câmara e 49, no Senado, em dois turnos.
Haveria algum problema democrático em uma decisão como esta? De minha parte, sou contra a redução da maioridade penal, o que é irrelevante. O aspecto relevante é: foi eleito um presidente com esta proposta, explicitamente defendida por anos a fio. Ato seguinte, ela recebe apoio do governo e é aprovada pelo Congresso.
Sua aprovação será, portanto, um resultado da nossa democracia, ainda que possa desagradar uma imensa legião de brasileiros.
O mesmo raciocínio vale para os demais itens da pauta conservadora, como a (ainda vaga) ideia de flexibilizar o estatuto do desarmamento. Tudo por uma simples razão: a democracia não se decide pelo que eu, você, um punhado de intelectuais, ou o maracanã lotado de gente movida pelas melhores intenções achamos que é certo fazer.
A democracia, como não se cansava de repetir Norberto Bobbio, é o império das regras do jogo. É um sistema feito de freios e contrapesos, equilíbrio entre poderes e respeito à Constituição. Respeitadas as regras do jogo, nada diz sobre a qualidade da democracia se os seus resultados, isto é, se as decisões tomadas pelos cidadãos (nas eleições), pelo parlamento, sob a vigilância da Suprema Corte, forem consideradas por alguns como progressistas ou conservadoras.
O que me espantou, nesta eleição, mais uma vez, é o mais completo desprezo que boa parte do mundo intelectual tem pela simples ideia do pluralismo e da tolerância como uma modo de ser que é próprio da democracia.
Mais de 55 milhões de pessoas votam em um candidato, mas no dia seguinte isto é tomado como a mera expressão de um erro, tragédia, piada ou, como escutei de um bom amigo e intelectual, de uma campanha que não passou de “estridência ideológica vazia”.
O novo governo já começa a enfrentar os problemas do mundo real da política, a necessidade de votos para a reforma da Previdência, a pauta da autonomia do Banco Central, no Congresso, a composição do ministério e formação da base partidária.
O curso da política de carne e osso segue, a ritmo acelerado, enquanto uma estranha parte da sociedade parece não ter percebido que a campanha eleitoral terminou, que a democracia fez valer sua voz, e as instituições, talvez para desgosto de muitos, cumpriram exemplarmente o seu papel. Fernando Schüler
Pois bem. Ele ganhou, e agora o tempo está correndo.
Se a democracia de fato soçobrar, no Brasil, logo saberemos. Em um ou dois anos teremos já uma boa imagem do que ocorrerá com nossas instituições. Caso nossos ilustres acadêmicos estiverem certos, nos tornaremos uma nova Venezuela ou alguma variação próxima.
O catálogo de grandes alertas é inesgotável. Agora é “civilização contra a barbárie”, diz Wagner Moura, com um olhar que só ele saberia fazer. Do exterior, a imaginação flutuou nas estrelas. Leio de um professor americano que andou por aqui como uma espécie de Roger Waters da ciência política, durante as eleições, que Bolsonaro irá mover uma guerra às facções criminosas do país, e quando a violência explodir suspenderá a Constituição e dará fim a nossa democracia.
Leio outro que nos convoca a resistir enquanto for tempo. Enquanto ainda dispusermos de algum espaço e antes que “nossas liberdades sejam retiradas” pelo novo presidente.
Não há nenhuma necessidade de discutirmos muito sobre a correção, ou não, da retórica catastrofista sobre o Brasil. Basta esperar. Estamos diante de uma espécie de experimento natural. Se o grande alerta estiver errado e nossa democracia sobreviver ao inominável monstro de Glicério (cidade natal do novo presidente), tenho convicção de nossos bons intelectuais farão uma discreta e silenciosa autocrítica.
Não será preciso nenhum texto ou declaração pública (eles não o fariam, de qualquer maneira), nem mesmo um post, nas redes sociais.
Sugiro apenas um brinde solitário em homenagem a nossa democracia e a nossas instituições, que julgaram tão mal. E quem sabe algum arrependimento pelo pecadinho tão impróprio a um acadêmico: ceder à tentação da militância.
Ou pior: dar trela e transformar em tese acadêmica aquilo que não passava, no fim das contas, de retórica de campanha de um partido político.
Não vale, neste debate, fazer uma confusão bastante elementar: caso a catástrofe não aconteça, sair pela tangente sugerindo que a democracia não terminou, mas que passamos por um retrocesso democrático, por conta da agenda conservadora do governo Bolsonaro.
Vamos imaginar. O Congresso aprova, a partir de uma proposta apoiada pelo governo, a redução da maioridade penal para 17 anos. O projeto alcança 308 votos na Câmara e 49, no Senado, em dois turnos.
Haveria algum problema democrático em uma decisão como esta? De minha parte, sou contra a redução da maioridade penal, o que é irrelevante. O aspecto relevante é: foi eleito um presidente com esta proposta, explicitamente defendida por anos a fio. Ato seguinte, ela recebe apoio do governo e é aprovada pelo Congresso.
Sua aprovação será, portanto, um resultado da nossa democracia, ainda que possa desagradar uma imensa legião de brasileiros.
O mesmo raciocínio vale para os demais itens da pauta conservadora, como a (ainda vaga) ideia de flexibilizar o estatuto do desarmamento. Tudo por uma simples razão: a democracia não se decide pelo que eu, você, um punhado de intelectuais, ou o maracanã lotado de gente movida pelas melhores intenções achamos que é certo fazer.
A democracia, como não se cansava de repetir Norberto Bobbio, é o império das regras do jogo. É um sistema feito de freios e contrapesos, equilíbrio entre poderes e respeito à Constituição. Respeitadas as regras do jogo, nada diz sobre a qualidade da democracia se os seus resultados, isto é, se as decisões tomadas pelos cidadãos (nas eleições), pelo parlamento, sob a vigilância da Suprema Corte, forem consideradas por alguns como progressistas ou conservadoras.
O que me espantou, nesta eleição, mais uma vez, é o mais completo desprezo que boa parte do mundo intelectual tem pela simples ideia do pluralismo e da tolerância como uma modo de ser que é próprio da democracia.
Mais de 55 milhões de pessoas votam em um candidato, mas no dia seguinte isto é tomado como a mera expressão de um erro, tragédia, piada ou, como escutei de um bom amigo e intelectual, de uma campanha que não passou de “estridência ideológica vazia”.
O novo governo já começa a enfrentar os problemas do mundo real da política, a necessidade de votos para a reforma da Previdência, a pauta da autonomia do Banco Central, no Congresso, a composição do ministério e formação da base partidária.
O curso da política de carne e osso segue, a ritmo acelerado, enquanto uma estranha parte da sociedade parece não ter percebido que a campanha eleitoral terminou, que a democracia fez valer sua voz, e as instituições, talvez para desgosto de muitos, cumpriram exemplarmente o seu papel. Fernando Schüler
Revolução moral
Celso Lafer, em seu livro Desafios, sinaliza que a mentira, a violência, a relação entre política e cultura, a identidade política, o papel dos intelectuais na vida pública, os desafios da governabilidade, os direitos humanos como caminho da convergência da ética e da política, a passagem do dever dos súditos para o direito dos cidadãos, tudo isso é fundamental para a compreensão da democracia, encarada na perspectiva da relação governantes-governados. Numa democracia, enfatiza, as regras do jogo pressupõem a distribuição do poder entre os governados – o princípio da maioria, em consonância com a fórmula de Bobbio, é que é melhor “contar cabeças do que cortar cabeças” – e a limitação do poder dos governantes, em obediência ao dever que têm de respeitar o direito dos governados, vistos como cidadãos, e não como súditos ( Celso Lafer – Desafios – pág. 202).
Conhecidos os resultados das urnas, impõe-se restabelecer a concórdia.
Olavo Bilac, nas suas crônicas reunidas no livro Vossa Insolência, a propósito do episódio conhecido como a Revolta da Vacina adverte que são três os elementos de desordem: a ambição dos que sabem ler, mas não têm juízo, a ferocidade desocupada dos vagabundos e dos facínoras e a ingenuidade dos analfabetos, que, coitados, são sempre os menos responsáveis e sempre os que mais sofrem.
Gostemos ou não dos resultados das urnas, é o momento de relembrar um dos princípios fundamentais da nossa Constituição, segundo o qual todo o poder emana do povo, que o exerce por meio dos representantes eleitos.
É também o momento de nos lembrarmos da ética, utilizando-a para definir o próprio compromisso em relação à futura atuação.
Em artigo publicado no Correio Braziliense em 17/3/2010, lembrei que, embora o excesso de repetição tenda a desgastar ou banalizar o significado de uma palavra, a ética parece resistir, impávida, e vem se transformando em referência para a decisão de voto de mais e mais brasileiros. Melhor ainda, a pressão pela ética espraia-se pelo tecido social, passando a ser requisito no mundo corporativo, tanto na condução dos negócios quanto na atuação do profissional e nas relações com os consumidores.
Definida por derivação do conceito filosófico original, a ética suscitou e continua a suscitar ações da sociedade civil organizada, como as campanhas contra a candidatura de políticos ficha-suja, a impunidade para a malversação de dinheiro público, as más práticas da imprensa e até mesmo a selvageria que impera no mercado financeiro mundial, dominado pela sede de lucro a qualquer preço.
São sinais que apontam para a percepção da ética como um dos valores indispensáveis à construção de uma nação moderna, voltada para a democracia, o desenvolvimento sustentado, a qualidade de vida de seus habitantes e a correção de vergonhosas desigualdades. Nessa perspectiva, fica claro que deverá ser um dos grandes impulsos para o surgimento de uma nova geração de eleitos.
No mundo corporativo, a crescente valorização da ética deverá balizar todas as suas vertentes, porque as exceções comprometerão os resultados esperados.
A ética está indissoluvelmente ligada à cidadania, condição que implica o conhecimento e o exercício pleno de direitos e deveres inerentes à vida em sociedade. E a cidadania, por sua vez, é decorrência quase natural da educação, entendida em seu sentido mais amplo e nobre. Em outras palavras, se é verdade que ninguém nasce cidadão, também é verdade que todos podem se tornar cidadãos desde que tenham acesso à educação. O processo de formação e a prática cidadã podem – e devem – ter início na família, continuar na escola, invadir a trajetória profissional e prosseguir ao longo da vida.
Daí a importância de vincular os ensinamentos teóricos a exemplos de posturas éticas, em especial os que são transmitidos às novas gerações nas fases da vida em que estão mais abertas à aquisição de valores e princípios, isto é, na infância e na adolescência.
Para a depuração dos valores distorcidos que ainda prevalecem em largos segmentos da sociedade, não é possível ignorar a responsabilidade de cada um, principalmente daqueles que tiveram a sorte de ser moldados desde a infância e juventude pelo figurino da ética e se esmeram em cultivar a sua prática. A esses não é mais permitido o conforto da omissão e do simples protesto.
A primeira e suprema responsabilidade de quem pretende administrar é administrar a si mesmo. É o que ensina Dee Hock no seu excelente livro Nascimento da Era Caórdica. Sem administração do eu ninguém está preparado para ter autoridade. Quanto mais autoridade tiver, mais perigoso vai se tornando. É a administração do eu que merece metade do nosso tempo e o melhor da nossa capacidade, para que não nos escapem os elementos éticos, morais e espirituais de tal empreitada (obra citada, pág. 74).
A revolução moral que varreu todo o País deve ser prestigiada e apoiada por todos os cidadãos, não nos esquecendo de que “todo o poder emana do povo”, como estatui a nossa Constituição.
Sonhos e realidade
Um dos livros em que encontro as semelhanças é de Mark Lilla, uma crítica aos liberais com um subtítulo interessante: Depois das políticas de identidade. A julgar pelo livro de Lilla (The Once and Future Liberal: After Identity Politics), a vitória de Trump suscitou o mesmo movimento nos EUA e no Brasil: resistência. Lilla põe essa palavra entre aspas, pois significa uma oposição a tudo o que Trump representa, sem ainda uma visão clara de futuro.

A vitória de uma figura controvertida acabou despertando nos EUA uma grande solidariedade entre os derrotados, campanhas, marchas, abaixo-assinados. Mas ainda são raras aqui, no Brasil, onde Bolsonaro acaba de vencer, as visões críticas do período que abriu o caminho para que ele triunfasse.
Lilla fala no descaminho dos democratas por se terem fixado nas políticas identitárias: mulheres, homossexuais, indígenas e negros. Não que seja contra essas lutas.
Sua análise da campanha republicana mostra que na maior parte do tempo ela se fixava em temas nacionais, que interessam a todos. O exame do site democrata, no entanto, revela grande peso às lutas fragmentárias, que interessam a setores bem específicos do eleitorado.
Lilla considera um erro a fixação nas lutas identitárias porque elas afastam um pouco as pessoas dos temas mais amplos, que envolvem o bem comum. As pessoas mergulhadas nessas lutas têm tendência menor a defender temas nacionais, sair para uma conversa nas ruas sobre o que ele chama o bem comum.
Coincidência ou não, eu já tinha manifestado em artigos a mesma reserva quanto ao alcance das lutas identitárias na eleição brasileira. Também na minha crítica ressaltava a ausência da ênfase no bem comum, só que nos meus textos não usava essa expressão, mas a adesão a um projeto nacional.
Num artigo afirmava que as lutas que ainda chamam das minorias tendem a criar a necessária solidariedade de grupo, regras e objetivos próprios. Mas ela se dá em oposição a uma sociedade que ainda não reconhece esses direitos.
Torna-se muito difícil conversar com o homem comum, encontrar um assunto que mobilize todos, e não apenas alguns setores da sociedade. No caso brasileiro, os três grandes temas nacionais em jogo passaram um pouco ao largo das forças de esquerda. Um deles era a corrupção. A esquerda o subestima de modo geral e o escamoteia especificamente quando o PT é o maior acusado.
Um segundo grande tema nacional foi a segurança. A visão clássica e tradicional da esquerda é condicioná-la à melhoria das condições econômicas, da educação, da renda. Como a expectativa é de respostas em curto prazo, o discurso cai no vazio e é facilmente ironizado.
Um terceiro tema, mais intelectualizado, foi a discussão sobre o tamanho e o papel do Estado na economia. Também aí a perspectiva privatizante pareceu mais atraente. E não só pela teoria. As manifestações de 2013, em parte, revelaram a precariedade dos serviços públicos.
A corrupção também passou a ser uma chave para explicar o fracasso do governo. Tenho a impressão de que é a conversa na rua quando não se tem nada a dizer sobre aqueles temas.
Uma das características da luta identitária é a autoexpressão: sou gay, negro ou indígena e tenho orgulho de minha condição. Isso é irretocável na posição pessoal. No entanto, Lilla observa em seu livro que numa campanha eleitoral não é a autoexpressão que conta, mas a persuasão.
O exemplo que usa para definir o comportamento dos liberais nos EUA talvez seja aplicado também à esquerda brasileira. Lilla compara as eleições à pesca. É preciso acordar cedo e pescar até tarde, lá onde o peixe existe, e não onde você gostaria que estivesse. Se o peixe morde a isca e se debate, dê linha e espere que se acalme.
Mas, para o escritor, os liberais ficaram na praia discorrendo sobre os problemas do mar, sobre a necessidade de a vida aquática abrir mão de seus privilégios. Tudo na esperança de os peixes confessarem coletivamente seus pecados e nadarem mansamente para ser pescados. Se esse é o seu enfoque da pesca, lembra Lilla, o melhor é se tornar vegetariano.
Nesta altura, não se podem comparar totalmente as táticas. No caso brasileiro, se, de um lado, a luta identitária pode ter dificultado um pouco a conquista da maioria, o caminho eleitoral das minorias acabou comprometendo o seu futuro. Isso simplesmente porque no tema central, a corrupção, o PT, embora não seja o único, é o maior acusado. A associação entre o partido e as minorias acabou trazendo para elas também a desconfiança do homem comum.
Não sei ainda como as coisas se vão recompor. Se as lideranças minoritárias fizerem uma análise do que se passou, creio que um dos seus passos será libertar-se de governos. Para isso é preciso ter uma nova visão da importância dos recursos materiais na política. O período que se encerra foi marcado por campanhas milionárias. O PT venceu com uma em 2002 e não reaprendeu o caminho da austeridade.
A vitória de Bolsonaro, a julgar pela de Trump, deve suscitar um grande movimento, que até lembrou aos liberais americanos que eles têm mais energia do que suspeitavam.
Aqui, no Brasil, enquanto estiverem gravitando em torno de um partido acusado de corrupção, os simpatizantes da esquerda podem até descobrir uma energia insuspeitada. No entanto, a chance de essa energia se dissolver em vão é muito grande, sobretudo se as pessoas não pararem um segundo para pensar, achando que o momento é como a Quarta-Feira de Cinzas em Salvador, onde todos saem às ruas cantando e dançando as mesmas músicas do carnaval que passou.
Faria bem um tempo de reflexão, estudos e debates. Foi tudo tão rápido e, para alguns, tão surpreendente que, a rigor, nem o governo nem a oposição sabem precisamente o que fazer.
sexta-feira, 2 de novembro de 2018
O soldado Moro
Segundo Bolsonaro, Moro agiu como “soldado, indo à guerra sem medo de morrer”. De fato, Moro sabia que os ataques seriam implacáveis, mas balançou os prós e contras e assumiu a trincheira com inimigos definidos, objetivos claros e a ambição de reunir todo o aparato federal possível para jogar o combate à corrupção e ao crime organizado no centro do governo e da própria agenda política.
Ao resgatar para a Justiça o recém-criado Ministério da Segurança Pública, Moro terá uma Polícia Federal fortalecida, a Controladoria-Geral da República e, se a lei permitir, também o Coaf, unidade de inteligência para detectar movimentações atípicas e crimes financeiros transnacionais.

Assim, Moro deixa de ser o juiz de Curitiba e passa a ser o principal responsável pelo combate à corrupção na administração pública e o “xerife” contra organizações criminosas que pululam pelo País afora. Lutará também por novas regras anticorrupção, contra a lei de abuso de autoridade e para evitar retrocessos na Lava Jato. Com ele, vai ser difícil “estancar a sangria”.
Moro nem deve ter se dado conta disso, mas pode vir também a ter um papel adicional: funcionar como escudo contra quaisquer ameaças ou investidas verbais contra o estado democrático de direito. Por mais que tenha divergências, até rusgas, com um ministro ou outro, nesse caso cerrará fileiras com o Supremo pela Constituição.
Bolsonaro, que disparou graças à condenação firme à corrupção, prometeu aparato e munição a Moro, seu maior troféu na formação do Ministério. Estava tão feliz pelo golaço que ontem mesmo deu entrevista coletiva, leve, coloquial. Só errou ao barrar os jornais, uma implicância boba. E atiçou a curiosidade ao admitir que tem “pouco contato” com o vice, general Hamilton Mourão, mas isso é outra história.
A ida de Sérgio Moro para a Justiça, porém, ainda vai dar muito pano para a manga da oposição, particularmente do PT. Ontem, petistas diziam que “caiu a máscara” de Moro e enumeravam decisões que tomou como magistrado que, segundo eles, prejudicaram diretamente o ex-presidente Lula, preso em Curitiba e impedido pela Lei da Ficha Limpa de concorrer contra Bolsonaro na eleição.
Segundo eles, tudo está explicado. O vazamento da conversa entre a então presidente Dilma Rousseff e Lula às vésperas da nomeação dele para a Casa Civil, com o foro privilegiado de brinde, além da divulgação de parte da delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci contra Lula e o PT bem no meio da eleição. Agora, o partido promete passar das palavras aos atos, ou melhor, às ações para tentar até mesmo anular a condenação – logo, a prisão – de Lula.
Não dará em nada, mas chateia, cria saias, ou melhor, “togas-justas” no Supremo e engrossa o discurso de entidades internacionais que até agora ainda querem acreditar que o impeachment de Dilma foi “golpe” e que Lula é “preso político”.
Como se diz no jargão da economia, Moro já tinha precificado essa reação e essas acusações antes de desembarcar no Rio ontem para dizer sim a Jair Bolsonaro. Além da vaidade, da ambição profissional e do sonho de se firmar para sempre como o líder do combate à corrupção – tudo isso legítimo –, Moro aceitou o cargo com duas certezas: a de que dará um choque na corrupção sistêmica e a de que o Brasil nunca será como antes. Boa sorte!
Mano Brown e a música do PT
Disse mais o vocalista dos Racionais:afirmou não gostar de política “porque política não rima, não tem suingue, não tem balanço, não tem nada que me interesse. Eu gosto de música.'' A política já foi bossa nova, já foi rock´n´roll, já deu samba e fez Hip hop. Contudo, hoje é dissonante. Sua rima é pobre, o charme é zero, o resultado é ralo. Em especial, a banda do PT parou para ver o tempo passar. Calou o som que possuiu um dia.
O cidadão comum tem questões, medos e anseios que o sistema não compreende. Seu presente é incerto e ainda mais o futuro. Foram imensas as transformações que o atingiram na sua tradicional concepção de família, no que tinha por ideal como emprego; revolucionou a tecnologia o mundo do trabalho. Na segurança, no mais elementar ato de cidadania que é o de andar nas ruas, o terror de uma bala perdida encontrar um dos seus.

Mas nem por isso a política deixou de ser necessária, um imperativo para a humanidade, num mundo muito mais complexo que antes. Disse Caetano Veloso que “ele [Jair Bolsonaro] trouxe complexidade”; na verdade, JB a revelou. A complexidade que o PT não apreende, pois tanto quanto Bolsonaro parece fazer parte de outro século, de outra realidade. Com o agravante, como assinalou Mano Brown, de perder o pulso das ruas, muito mais que a eleição.
Em virtude disto, é inevitável reconhecer que o país precisa de uma nova oposição cuja maior virtude residirá na disposição para reconhecer erros e se corrigir, na organização de uma ampla frente ampla capaz de reavaliar o mundo e reinterpreta-lo. Um mundo com Donalds Trumps, que fazem Marine Le Pen parecer uma freira moderada; num tempo em que o dimensional Jair Bolsonaro é eleito presidente num país multirracional, multicultural e multifacetado de glórias e tragédias.
O PT, no entanto, sob esta perspectiva, parece incapaz de reunir e arejar os derrotados por Bolsonaro: PDT, PSB, PSOL, PSTU, PCdoB, MDB, PSDB; a sociedade. Menos ainda aqueles que contra o PT anularam ou votaram no ex-capitão, e mesmo assim não se sentem representados porque, no fim, não era exatamente o que queriam.
Opartido foi para a derrota acreditando que, na segunda-feira, ainda amanheceria como protagonista da oposição, sem que tivesse muito mais a dizer a não ser atribuir culpas aos outros por sua derrota diante de Bolsonaro. Uma derrota recheada de erros estratégicos, de teimosia, de estreitismo político, econômico e intelectual. Nem o parceiro PCdoB ficou para o café da manhã.
Suspeito que o PT não tenha, infelizmente, nada a dizer senão que, logo mais, sem tardar, irá lançar mão da surrada palavra de ordem “Fora Bolsonaro”, repetindo o que fez com Collor, FHC e mais recentemente com Michel Temer, sem mostrar as saídas do labirinto; apenas, mais uma vez, amaldiçoando a escuridão que de fato existe. E isto já não basta pois a realidade ficou, como indicou Caetano, mais complexa e Jair Bolsonaro é um aflitivo exemplo vivo disso, dessa complexidade e desse enigma que precisam ser decifrados.
Ok, reconheça-se que hoje é muito fácil falar mal do PT. Quase não há custo e ainda pode soar como providencial, oportunista e velado tributo à nova ordem que se instalou com a eleição. Mas, é melhor encarar a realidade de que há um longo caminho para a oposição e para reconstrução da política no Brasil.
Neste momento, o caminho consiste em baixar a bola do PT, até para reintegrar parcela de seus membros. Descobrir e colocar novos atores em cena. Encontrar novas rimas, novo balanço, redescobrir o suingue de uma nova política. Compor sua música.
Carlos Melo
A grande ameaça
Com Moro, Bolsonaro tranca o PT na sua fábula
Com um único movimento, o capitão atingiu dois objetivos: grudou o selo de moralidade da Lava Jato no casco do seu futuro governo e manteve o PT no círculo vicioso da criminalização da política. Como se sabe, o PT foi criminalizada pelos criminosos petistas que violaram cofres públicos ou autorizaram o roubo, beneficiando-se dele. Lula meteu-se nessa encrenca porque quis.
Ao içar Sergio Moro de Curitiba para Brasília, Bolsonaro ofereceu ao PT um demônio providencial para o qual transferir as culpas por todos os seus fiascos. O tempo que os rivais utilizariam para estruturar a oposição é desperdiçado no esforço para tentar transformar corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa em perseguiução política.
A nota do PT bateu bumbo: “Moro sempre foi um juiz parcial, sempre agiu com intenções políticas, e isso fica evidenciado aos olhos do Brasil e do mundo, quando ele assume um cargo no governo que ajudou a eleger com suas decisões contra Lula e a campanha de difamação do PT que ele alimentou, em cumplicidade com a maior parte da mídia.”
Ao morder a isca de Bolsonaro, o PT revela que não aprendeu muita coisa com o castigo das urnas. Quem elegeu o capitão foi a maior força política da temporada de 2018: o antipetismo. Trancafiado em sua fábula, o PT ainda não notou. Entretanto, perto do maremoto provocado pela aversão do eleitorado ao PT, a influência de Moro e o poder da mídia não passam de chuviscos.
Sob nova direção
Sim, é ótimo reduzir os ministérios e outras máquinas de cooptação e de torrar dinheiro público, onde qualquer mequetrefe tem carro com motorista, que é o simbolo mais afrontoso dos privilégios que ele promete acabar. Além de cortar cargos, é preciso cortar carros, e motoristas, gasolina e oficina. Quem pode ser contra isso?

Só a ideia de chamar o juiz Sergio Moro para o Ministério da Justiça, ainda que ele não aceitasse, já seria uma sinalização de forte apoio à Lava-Jato e ao fim da impunidade, que é pior do que a corrupção em si. Corrupção há em toda parte, mas impunidade institucionalizada só aqui e em cleptocracias africanas.
Para isto, quanto mais estatais, melhor: o aparelhamento e as indicações políticas resultam no que se viu na Petrobras e em outras estatais. As privatizadas são movidas a eficiência e resultados, a corrupção é prejuízo para os acionistas. Quanto mais crescem, melhor para emprego e salários, e maiores os impostos pagos ao Estado. O que é melhor?
É patético o PT achar que os 45 milhões de votos em Haddad foram para o partido. Assim como o antipetismo elegeu Bolsonaro, foi o antibolsonarismo que deu essa votação a Haddad. Por isso, Ciro Gomes, o PDT e outros partidos querem formar uma frente de oposição — sem o PT.
Mas as hordas fanáticas ainda continuam se escoiceando em combate, com um lado insistindo na denúncia falsa da histórica fake do “kit gay”, e o outro, na fake “a ONU determinou que Lula fosse solto”, que foi só uma recomendação de dois conselheiros de um subcomitê, sem efeito legal no Brasil.
O que é pior: não saber perder ou não saber ganhar?
Uma ciência política cética
O número de títulos recentes que trazem um olhar cético sobre a democracia cresce. No caso específico que analiso aqui, esse olhar cético cai sobre a figura do eleitor. Não conhecemos nenhum sistema político melhor, mas isso não deve nos impedir de refletir de forma menos apaixonada sobre a democracia.
Existem dois modos de se fazer ciência política. Um primeiro, mais conhecido, pensa a democracia como projeto a ser aperfeiçoado nas suas virtudes. Modo muito necessário, que não é posto em dúvida por nenhum autor que represente uma abordagem mais empírica e cética da ciência política (este é o segundo modo de se fazer ciência política). As virtudes da democracia são o voto, os limites institucionais do poder representativo, a liberdade, a autonomia dos poderes, enfim, os pesos e contrapesos.

Bartels e Achen, em 2016, no seu “Democracy for Realists” (Democracia para Realistas), com sólida base empírica, nos chamavam a atenção para o fato de que a democracia é carregada de expectativas míticas (“folk theory of democracy”). Uma delas é que eleitores com maior formação educacional fazem escolhas “melhores” ou escapam de viés ideológico pesado na sua prática como eleitor. Pelo contrário, sabemos que muitos intelectuais, professores acadêmicos e jornalistas (os especialistas) votam a partir de cargas ideológicas latentes ou explícitas muito distantes do que se poderia chamar de escolhas racionais. Insistências em partidos e ou candidatos duvidosos são frequentemente objeto de culto devocional por parte de especialistas. Isso é óbvio.
Pessoas não especialistas não dispõem de tempo ou interesse prioritário dedicado a política e eleições. Na maioria das vezes estão morrendo, enterrando mortos, casando ou separando, tendo filhos e pagando contas demais para dar atenção ao tema. Segundo nossos dois autores, a maioria esmagadora das pessoas, quando se envolvem e debatem política, o fazem para reforçar suas crenças e destruir as dos outros, como as mídias sociais deixam muito claro.
Outra obra, ainda mais cética, também de 2016, escrita por Jason Brennan, “Against Democracy” (Contra a Democracia), vai mais longe em seu ceticismo para com a competência do eleitor. Os inteligentinhos não devem entender o título do livro ou a discussão que ele traz como uma proposta tosca de sistemas totalitários.
A dúvida de Brennan, que apresento aqui apenas em um dos seus aspectos, é se há competência na maioria esmagadora dos eleitores para decidir quem deve fazer a complexa gestão das sociedades. Brennan nos apresenta uma tipologia lúdica, mas nem por isso menos potente.
Os eleitores estariam divididos em três tipos. Os dois primeiros, representantes da maioria esmagadora; o terceiro, uma figura extremamente rara entre os eleitores. O primeiro são os “hobbits”, eleitores sem nenhum conhecimento sobre política ou temas como gestão de governo. Costumam ser desinteressados e votam de modo absolutamente inconsistente. Estes são disputados a ferro e fogo (por conta de seu peso numérico) pelo segundo tipo, os “hooligans”, eleitores aguerridos, com maior conhecimento de política, mas absolutamente enviesados ideologicamente, e cegos a qualquer crítica ao seu modo de pensar. O Brasil está tomado por “hooligans” nas mídias sociais. Agressivos, assertivos e impermeáveis a qualquer racionalidade cética em relação às suas crenças.
Por último, os “vulcanos” —referência ao personagem do planeta Vulcan, Mr Spock, do filme “Jornada nas Estrelas”, conhecido por sua inteligência superior, científica, sincera e racional. Um tanto blasés, bem informados e sem viés ideológico, não têm nenhum impacto nos resultados eleitorais, devido ao seu caráter numérico insignificante e à sua visão complexa da política. Em tese, salvariam a democracia de sua derrocada populista. Mas, infelizmente, são raríssimos. E a democracia é um regime de quantidades.
Outra obra cética é “People vs Democracy” (Povo x Democracia), de Yascha Mounk, essa de 2018. Para o autor, existem duas grandes ameaças à democracia. A primeira vem do caráter populista dela e de como as mídias sociais empoderam o indivíduo em sua tentação populista. Democracias podem eleger líderes muito populares e muito autoritários. Outra ameaça são agências como o Banco Central Europeu esvaziar o voto por considerá-lo irrelevante e incompetente em assuntos econômicos. Alguém discordaria que o cidadão comum não entende nada de economia complexa?
Luiz Felipe Pondé
No fundo do poço
Quatro anos atrás, apenas quatro anos atrás, o ex-presidente Lula estava no topo do mundo — ou, pelo menos, acreditava que não havia ninguém acima dele no resto do planeta. Tinha sido presidente da República, eleito e reeleito, por oito anos seguidos. Nesse período, por uma razão ou outra, convenceu os grandes colossos do pensamento político brasileiro e internacional de que seu governo havia sido um fabuloso sucesso, e de que ele, pessoalmente, era um novo Stupor Mundi, o “Espanto do Mundo” neste despertar do século XXI. “He’s the man”,disse dele Barack Obama — ele é “o cara”. Outros altos lordes da cena mundial, do secretário-geral da ONU ao Santo Padre o Papa, lhe prestavam homenagem. Economistas, sociólogos e filósofos acreditavam que Lula conseguira “avanços sociais” inéditos para o Brasil — uma combinação rara de distribuição de renda, eliminação da pobreza e progresso econômico. Tinha eleito sua sucessora Dilma Rousseff, uma nulidade da qual ninguém jamais ouvira falar — e, mais ainda, conseguira o quase milagre da sua reeleição, em 2014. Tinha sobrevivido a pelo menos um escândalo gigante, o da corrupção em massa de parlamentares do mensalão. Tinha descoberto o pré-sal e ia fazer o Brasil entrar na Opep. Tinha construído um estádio bilionário para o Sport Club Corinthians Paulista.
O que aconteceu com Lula e com o PT em tão pouco tempo? É extraordinariamente pesado para Lula, depois de usar um maciço sistema de forças, pressões e dinheiro para convencer o público de que é um “preso político” condenado sem “provas”, receber a sentença que ele recebeu do eleitorado brasileiro: não, não queremos mais que você seja presidente; queremos, isto sim, que você continue na cadeia. Está na cara que em algum momento, entre as alturas de 2014 e o desastre da eleição de 2018, alguma coisa deu horrivelmente errado. O que foi? Na verdade, muitas coisas deram errado — ou, mais exatamente, quase nada mais deu certo desde o momento em que, já no segundo governo Dilma, a Justiça brasileira começou a investigar de verdade a corrupção no governo. A Operação Lava-Jato foi um terremoto em câmera lenta. Continua até hoje a mandar gente para a penitenciária, mas no início praticamente ninguém acreditava que aquilo fosse dar em alguma coisa. Nunca tinha dado. Por que iria dar agora?
Acontece que a Lava-Jato e o trabalho do juiz Sergio Moro, mais o Ministério Público, a Polícia Federal e o TRF4 de Porto Alegre, acabaram, sim, dando em muita coisa — na verdade, jamais uma ação do Judiciário brasileiro deu em tanta coisa. Eventualmente, com o tempo, mostraram que o rei estava nu, ao provar que nos governos de Lula e de Dilma a prática da corrupção superou a roubalheira de qualquer outra época, talvez em qualquer lugar do mundo. Lula esteve entre os que não acreditaram que a terra começava a tremer. Estava errado.
Pior que estar errado é continuar errando, e nisso Lula tem se mostrado insuperável ao longo de seus anos de desmanche. Não é tão complicado assim entender o porquê. Um dos problemas do ex-presidente é essa coisa de dizerem o tempo todo que ele é um gênio da política, um cérebro com capacidade sobrenatural para sair ganhando de qualquer desastre em que se mete. Falam assim os devotos, os admiradores liberais, a mídia, o mundo e os adversários. A complicação é que o ex-presidente acredita nisso tudo. Parece não compreender que, quando os entendidos em política anunciam que Lula é capaz de voar, quem tem de acreditar é a plateia, não ele. Mas Lula acredita — e, como não voa, só pode mesmo acabar despencando no chão. Talvez ninguém tenha resumido a situação tão bem quanto o senador eleito Cid Gomes, do Ceará, ao ser confrontado com um pelotão de fiéis que gritavam “Lula, Lula”, logo após o naufrágio no primeiro turno. “O Lula está na cadeia, babaca.”
A sequência é bem conhecida. Lula errou horrendamente quando escolheu Dilma para guardar sua cadeira de presidente por quatro anos. Errou de novo quando ela não quis sair e inventou de ser reeleita; em vez de exigir que o “poste” fosse embora para que ele próprio se lançasse candidato à Presidência, como planejava, fez de conta que estava tudo bem. Seguiu-se, daí, a maior calamidade que Lula e o PT poderiam esperar — Dilma foi um desastre ainda pior depois da reeleição, e tanto ele como o partido ficaram olhando, sem fazer nada, enquanto a grande “gerente” mandava tudo para o espaço. Quando o povo foi para a rua, em multidões cada vez maiores, Lula e o PT decidiram que não estava acontecendo nada; era só um bando de “coxinhas” fazendo barulho no domingão. Quando perceberam, enfim, que aquilo tudo estava simplesmente levando ao impeachment de Dilma, perderam de novo. Lula tentou ser ministro — foi barrado pela Justiça, que a essa altura já estava roncando à sua volta. Mudou-se para Brasília, imaginando que tinha poder para virar a votação no Congresso a favor de Dilma. A sucessora acabou deposta por quase três quartos dos votos.
Não passou pela cabeça de Lula nem pela dos dirigentes do PT, a essa altura, que a situação toda estava indo para o saco. Ao contrário: acharam que a grande ideia era “ir para cima” e balançar ainda mais o barco. Inventou-se a lenda do golpe — não colou. Partiram para uma briga com a opinião pública, do tipo “ou eu ou ele”, entre Lula e Sergio Moro, o “juizinho do interior” — deu Moro, disparado. Em vez de montar uma defesa jurídica profissional, técnica e voltada para a eficácia, Lula decidiu transformar seu processo numa “causa política”, sonhando que “a população” fosse bloquear o trabalho normal da Justiça e salvar o seu couro — apesar de todas as provas de que “a população”, já fazia muito tempo, estava pouco ligando para o que lhe acontecia. Ficou apostando em safar-se com trapaças jurídicas miúdas, ou com traficâncias no submundo dos tribunais superiores, ou com acertos secretos na “segunda turma” do STF — capaz, no imaginário petista, de salvar da cadeia não só Lula, mas quem Lula mandasse ser salvo. Não deu em nada. Com ele já trancado em sua cela em Curitiba, montou-se a fantasia de um acampamento gigante em torno da prisão, que ali ficaria “até Lula ser solto”. No seu momento de maior esplendor, o cerco reuniu 500 pessoas. Chegou a ficar com setenta. Há muito tempo não existe mais. A “convulsão social” com “derramamento de sangue” prometida pelo alto-comando do PT jamais apareceu. “A ONU” mandou soltar Lula, anunciou-se através do mundo. Ninguém ligou — possivelmente nem a ONU.
A última tentativa de virar o jogo, com a campanha eleitoral, teve o seu desfecho neste domingo, com o resultado que se sabe. Como em quase tudo o que tem acontecido com Lula e o PT no passado recente, foi uma sucessão de erros, cegueira e ilusões. Começou com a alucinação de que Lula, preso e condenado em duas instâncias a doze anos de xadrez, seria o candidato do partido. Daí em diante só piorou. Em nenhum momento o ex-presidente tentou entender por que, afinal de contas, tanta gente estava querendo votar em Jair Bolsonaro. Nem ele nem o seu sistema de apoio se interessaram em pensar um pouco nas propostas do adversário — e muito menos em propor alguma alternativa a elas.
Lula e o PT tiveram uma ilusão fatal, também, com a sua celebradíssima capacidade de “transferir votos” e de transformar “postes” em governantes vitoriosos. Há transferência a favor, claro, mas hoje em dia o problema é que Lula, ao mesmo tempo, transfere voto contra para os seus candidatos; ganha um, perde dois. Já transferiu com sucesso votos para Dilma e para o próprio Fernando Haddad, presenteado com a prefeitura de São Paulo. Mas aí era outro Lula. Já há dois anos, na última vez que se pôde medir seu condão de transferir votos, não transferiu nada — não funcionou, aliás, com o mesmo Haddad, que perdeu a prefeitura no primeiro turno para um adversário que nunca tinha disputado uma eleição na vida. O PT, nas eleições municipais de 2016, foi moído nas urnas. Lula, a essa altura, era um Lula a caminho da cadeia; já não conseguia eleger postes, como não elegeu agora. A ficha demorou a cair. A votação do primeiro turno avisou: “Fora, Lula”. E qual a primeira coisa que Haddad fez logo depois de ter ouvido esse recado? Foi visitar Lula na cadeia.
Houve uma tentativa aparentemente desesperada, aí, para virar a casaca — mas já era tarde demais. Os cérebros estratégicos do partido acharam melhor, no segundo turno, que Haddad se transformasse num personagem de ficção, inexistente até a véspera. Queriam que ele aparecesse, de repente, como um sujeito que não tinha nada a ver com Lula. Tiraram o nome do ex-presidente da campanha, e sumiram as máscaras com o rosto de Lula sobrepondo-se ao de Haddad. O vermelho foi suprimido da paleta de cores do PT — tudo ficou subitamente verde-amarelo. O programa do candidato foi mudado: apagaram alguns dos pontos mais claramente suicidas e instruíram o até então Lula-Haddad-Lula-Haddad-Lula-Haddad a fazer uma cara de Fernando Henrique. Perda de tempo. Galinha que anda com pato, como ensina o dito popular, acaba morrendo afogada. Haddad andou tanto com Lula que acabou entrando na água com ele. Entrou vestido de verde-amarelo, mas a roupa a essa altura não adiantava mais nada. Também não adiantou fingir que era Haddad.
Em seu desabamento progressivo, Lula, com a ajuda empolgada do PT, quis representar o papel de mártir. Péssima ideia. Brasileiro, no fundo, não gosta de gente que está na cadeia. Não acha que as penitenciárias estejam cheias de injustiçados. Acha o contrário — que há muita gente culpada do lado de fora. Para a maioria do eleitorado, Lula não é vítima, nem preso político. É só um político ladrão que foi condenado — como deveriam ser nove entre dez dos que continuam soltos. Não é um julgamento sereno, mas é assim que a massa pensa e continuará pensando, e vai apenas perder seu tempo quem quiser convencê-la do contrário. Revela muito da decomposição política de Lula e do PT o fato de terem achado que uma cela de cadeia é um lugar capaz de despertar admiração no povo ou de servir como centro de comando de uma campanha eleitoral.
A vida é cheia de surpresas, como acaba de mostrar a eleição de Bolsonaro, e coisas que nunca aconteceram antes sempre podem acontecer um dia. Lula e seu complexo de forças, mais a quase totalidade dos que se dedicam a explicar o que ocorre na política brasileira, precisariam recomeçar do zero para ter alguma chance de entender, algum dia, o que está havendo com o Brasil de 2018 — e o que pode vir pela frente. Há várias maneiras de fazer isso, mas uma delas, certamente, é admitir que existe neste país uma imensa quantidade de gente inconformada com quase tudo o que o poder público lhe serviu nos últimos trinta anos, de José Sarney a Michel Temer. Os políticos perderam o controle das ruas — e para a esquerda, que sempre imaginou que a rua estaria do seu lado, a perda é uma calamidade ainda maior. O fato real é que Lula e seu partido não têm mais nada a ver com a massa, como não tinham nas manifestações de 2015 e 2016. Quem leva gente à praça pública, hoje, é o presidente eleito Jair Bolsonaro. Enquanto essa realidade não for encarada com firmeza, ele continuará sem competição verdadeira.
Neste domingo, ao se encerrar a apuração do segundo turno da eleição presidencial de 2018, Lula estava na lona — ou, se quiserem, continuava na sua viagem rumo ao fundo do poço, que ele iniciou dois ou três anos atrás e imaginou que fosse capaz de interromper com uma vitória eleitoral milagrosa. Seu candidato, Fernando Haddad, foi derrotado por um adversário que até seis meses atrás não existia na política brasileira. Confirmou-se, no segundo turno, o que foi anunciado no primeiro: Lula, hoje, é uma garantia de derrota para tudo o que aparece ligado ao seu nome. Quer ganhar uma eleição? Mostre ao eleitorado, como fez Jair Bolsonaro, que você é 100% contra Lula. Seu partido virou picadinho. Sua reputação continua em ruínas, e só afundou mais com a ação arruaceira do PT para tumultuar o pleito. Pior que tudo, Lula sai das eleições no mesmo lugar onde estava quando entrou nelas: na cadeia, cumprindo há sete meses uma pena de doze anos por corrupção e lavagem de dinheiro. Após mais de trinta anos no centro das decisões, pode estar a caminho de ser eliminado como uma força ativa na vida política do Brasil.
O que aconteceu com Lula e com o PT em tão pouco tempo? É extraordinariamente pesado para Lula, depois de usar um maciço sistema de forças, pressões e dinheiro para convencer o público de que é um “preso político” condenado sem “provas”, receber a sentença que ele recebeu do eleitorado brasileiro: não, não queremos mais que você seja presidente; queremos, isto sim, que você continue na cadeia. Está na cara que em algum momento, entre as alturas de 2014 e o desastre da eleição de 2018, alguma coisa deu horrivelmente errado. O que foi? Na verdade, muitas coisas deram errado — ou, mais exatamente, quase nada mais deu certo desde o momento em que, já no segundo governo Dilma, a Justiça brasileira começou a investigar de verdade a corrupção no governo. A Operação Lava-Jato foi um terremoto em câmera lenta. Continua até hoje a mandar gente para a penitenciária, mas no início praticamente ninguém acreditava que aquilo fosse dar em alguma coisa. Nunca tinha dado. Por que iria dar agora?
Acontece que a Lava-Jato e o trabalho do juiz Sergio Moro, mais o Ministério Público, a Polícia Federal e o TRF4 de Porto Alegre, acabaram, sim, dando em muita coisa — na verdade, jamais uma ação do Judiciário brasileiro deu em tanta coisa. Eventualmente, com o tempo, mostraram que o rei estava nu, ao provar que nos governos de Lula e de Dilma a prática da corrupção superou a roubalheira de qualquer outra época, talvez em qualquer lugar do mundo. Lula esteve entre os que não acreditaram que a terra começava a tremer. Estava errado.
Pior que estar errado é continuar errando, e nisso Lula tem se mostrado insuperável ao longo de seus anos de desmanche. Não é tão complicado assim entender o porquê. Um dos problemas do ex-presidente é essa coisa de dizerem o tempo todo que ele é um gênio da política, um cérebro com capacidade sobrenatural para sair ganhando de qualquer desastre em que se mete. Falam assim os devotos, os admiradores liberais, a mídia, o mundo e os adversários. A complicação é que o ex-presidente acredita nisso tudo. Parece não compreender que, quando os entendidos em política anunciam que Lula é capaz de voar, quem tem de acreditar é a plateia, não ele. Mas Lula acredita — e, como não voa, só pode mesmo acabar despencando no chão. Talvez ninguém tenha resumido a situação tão bem quanto o senador eleito Cid Gomes, do Ceará, ao ser confrontado com um pelotão de fiéis que gritavam “Lula, Lula”, logo após o naufrágio no primeiro turno. “O Lula está na cadeia, babaca.”
Sua principal conquista, hoje, se resume a sair um dia da prisão — pouca coisa para quem já esteve na primeiríssima classe da vida. O fato é que o ex-presidente não soube reagir quando começou a sofrer derrotas, e a melhor demonstração disso é que não quis, em nenhum momento, admitir que tinha sido derrotado em alguma coisa. Em vez disso, e de pensar com seriedade nas causas de seus problemas, resolveu embarcar num cruzeiro de ilusões. Problema? Que problema? No primeiro tombo complicado, no episódio do mensalão, começou dizendo que tinha sido “apunhalado pelas costas” e que o povo merecia “desculpas” — mas, um minuto depois de ver que ia escapar do desastre a preço de custo, voltou atrás e passou a jurar que não havia acontecido nada de errado, imaginem só que absurdo. Daí em diante, nunca mais acertou o passo. Como se livrou do primeiro desastre, achou que iria se livrar de todos — só que, na vida real, não estava se livrando de nada. Estava apenas aumentando o tamanho do buraco em que tinha se enfiado.
A sequência é bem conhecida. Lula errou horrendamente quando escolheu Dilma para guardar sua cadeira de presidente por quatro anos. Errou de novo quando ela não quis sair e inventou de ser reeleita; em vez de exigir que o “poste” fosse embora para que ele próprio se lançasse candidato à Presidência, como planejava, fez de conta que estava tudo bem. Seguiu-se, daí, a maior calamidade que Lula e o PT poderiam esperar — Dilma foi um desastre ainda pior depois da reeleição, e tanto ele como o partido ficaram olhando, sem fazer nada, enquanto a grande “gerente” mandava tudo para o espaço. Quando o povo foi para a rua, em multidões cada vez maiores, Lula e o PT decidiram que não estava acontecendo nada; era só um bando de “coxinhas” fazendo barulho no domingão. Quando perceberam, enfim, que aquilo tudo estava simplesmente levando ao impeachment de Dilma, perderam de novo. Lula tentou ser ministro — foi barrado pela Justiça, que a essa altura já estava roncando à sua volta. Mudou-se para Brasília, imaginando que tinha poder para virar a votação no Congresso a favor de Dilma. A sucessora acabou deposta por quase três quartos dos votos.
Não passou pela cabeça de Lula nem pela dos dirigentes do PT, a essa altura, que a situação toda estava indo para o saco. Ao contrário: acharam que a grande ideia era “ir para cima” e balançar ainda mais o barco. Inventou-se a lenda do golpe — não colou. Partiram para uma briga com a opinião pública, do tipo “ou eu ou ele”, entre Lula e Sergio Moro, o “juizinho do interior” — deu Moro, disparado. Em vez de montar uma defesa jurídica profissional, técnica e voltada para a eficácia, Lula decidiu transformar seu processo numa “causa política”, sonhando que “a população” fosse bloquear o trabalho normal da Justiça e salvar o seu couro — apesar de todas as provas de que “a população”, já fazia muito tempo, estava pouco ligando para o que lhe acontecia. Ficou apostando em safar-se com trapaças jurídicas miúdas, ou com traficâncias no submundo dos tribunais superiores, ou com acertos secretos na “segunda turma” do STF — capaz, no imaginário petista, de salvar da cadeia não só Lula, mas quem Lula mandasse ser salvo. Não deu em nada. Com ele já trancado em sua cela em Curitiba, montou-se a fantasia de um acampamento gigante em torno da prisão, que ali ficaria “até Lula ser solto”. No seu momento de maior esplendor, o cerco reuniu 500 pessoas. Chegou a ficar com setenta. Há muito tempo não existe mais. A “convulsão social” com “derramamento de sangue” prometida pelo alto-comando do PT jamais apareceu. “A ONU” mandou soltar Lula, anunciou-se através do mundo. Ninguém ligou — possivelmente nem a ONU.
A última tentativa de virar o jogo, com a campanha eleitoral, teve o seu desfecho neste domingo, com o resultado que se sabe. Como em quase tudo o que tem acontecido com Lula e o PT no passado recente, foi uma sucessão de erros, cegueira e ilusões. Começou com a alucinação de que Lula, preso e condenado em duas instâncias a doze anos de xadrez, seria o candidato do partido. Daí em diante só piorou. Em nenhum momento o ex-presidente tentou entender por que, afinal de contas, tanta gente estava querendo votar em Jair Bolsonaro. Nem ele nem o seu sistema de apoio se interessaram em pensar um pouco nas propostas do adversário — e muito menos em propor alguma alternativa a elas.
Ficaram repetindo, do começo ao fim, a mesma lista de acusações a Bolsonaro, apesar do evidente pouco-caso da maioria do eleitorado em relação a todas elas — homofobia, racismo, fascismo, elogio à tortura, desprezo à mulher, defesa do porte de armas, intenção de criar uma ditadura no Brasil. Deram a impressão de não ter percebido que nada disso tirou um voto sequer do concorrente. Nem mesmo notaram a realidade básica de que não podiam tratar como “inimigo”, ou “ameaça”, um candidato que não era nem inimigo nem ameaça para os 50 milhões de brasileiros que votaram nele no primeiro turno. Onde está o “gênio político” que não prestou atenção a nenhuma dessas coisas?
Lula e o PT tiveram uma ilusão fatal, também, com a sua celebradíssima capacidade de “transferir votos” e de transformar “postes” em governantes vitoriosos. Há transferência a favor, claro, mas hoje em dia o problema é que Lula, ao mesmo tempo, transfere voto contra para os seus candidatos; ganha um, perde dois. Já transferiu com sucesso votos para Dilma e para o próprio Fernando Haddad, presenteado com a prefeitura de São Paulo. Mas aí era outro Lula. Já há dois anos, na última vez que se pôde medir seu condão de transferir votos, não transferiu nada — não funcionou, aliás, com o mesmo Haddad, que perdeu a prefeitura no primeiro turno para um adversário que nunca tinha disputado uma eleição na vida. O PT, nas eleições municipais de 2016, foi moído nas urnas. Lula, a essa altura, era um Lula a caminho da cadeia; já não conseguia eleger postes, como não elegeu agora. A ficha demorou a cair. A votação do primeiro turno avisou: “Fora, Lula”. E qual a primeira coisa que Haddad fez logo depois de ter ouvido esse recado? Foi visitar Lula na cadeia.
Houve uma tentativa aparentemente desesperada, aí, para virar a casaca — mas já era tarde demais. Os cérebros estratégicos do partido acharam melhor, no segundo turno, que Haddad se transformasse num personagem de ficção, inexistente até a véspera. Queriam que ele aparecesse, de repente, como um sujeito que não tinha nada a ver com Lula. Tiraram o nome do ex-presidente da campanha, e sumiram as máscaras com o rosto de Lula sobrepondo-se ao de Haddad. O vermelho foi suprimido da paleta de cores do PT — tudo ficou subitamente verde-amarelo. O programa do candidato foi mudado: apagaram alguns dos pontos mais claramente suicidas e instruíram o até então Lula-Haddad-Lula-Haddad-Lula-Haddad a fazer uma cara de Fernando Henrique. Perda de tempo. Galinha que anda com pato, como ensina o dito popular, acaba morrendo afogada. Haddad andou tanto com Lula que acabou entrando na água com ele. Entrou vestido de verde-amarelo, mas a roupa a essa altura não adiantava mais nada. Também não adiantou fingir que era Haddad.
Em seu desabamento progressivo, Lula, com a ajuda empolgada do PT, quis representar o papel de mártir. Péssima ideia. Brasileiro, no fundo, não gosta de gente que está na cadeia. Não acha que as penitenciárias estejam cheias de injustiçados. Acha o contrário — que há muita gente culpada do lado de fora. Para a maioria do eleitorado, Lula não é vítima, nem preso político. É só um político ladrão que foi condenado — como deveriam ser nove entre dez dos que continuam soltos. Não é um julgamento sereno, mas é assim que a massa pensa e continuará pensando, e vai apenas perder seu tempo quem quiser convencê-la do contrário. Revela muito da decomposição política de Lula e do PT o fato de terem achado que uma cela de cadeia é um lugar capaz de despertar admiração no povo ou de servir como centro de comando de uma campanha eleitoral.
A vida é cheia de surpresas, como acaba de mostrar a eleição de Bolsonaro, e coisas que nunca aconteceram antes sempre podem acontecer um dia. Lula e seu complexo de forças, mais a quase totalidade dos que se dedicam a explicar o que ocorre na política brasileira, precisariam recomeçar do zero para ter alguma chance de entender, algum dia, o que está havendo com o Brasil de 2018 — e o que pode vir pela frente. Há várias maneiras de fazer isso, mas uma delas, certamente, é admitir que existe neste país uma imensa quantidade de gente inconformada com quase tudo o que o poder público lhe serviu nos últimos trinta anos, de José Sarney a Michel Temer. Os políticos perderam o controle das ruas — e para a esquerda, que sempre imaginou que a rua estaria do seu lado, a perda é uma calamidade ainda maior. O fato real é que Lula e seu partido não têm mais nada a ver com a massa, como não tinham nas manifestações de 2015 e 2016. Quem leva gente à praça pública, hoje, é o presidente eleito Jair Bolsonaro. Enquanto essa realidade não for encarada com firmeza, ele continuará sem competição verdadeira.
A insanidade das sacolas plásticas no Brasil
Estou na fila do caixa de um grande supermercado no Rio. Antes de sair, assegurei-me que o meu celular estava carregado. Pois eu sei que vou ter tempo para ler um jornal inteiro. A fila diante de mim nem é tão longa assim, são só seis outros clientes. O problema é outro: a sacola plástica.
Pois, por motivos cuja plausibilidade até agora tem me escapado, tudo o que se compra no Brasil tem que ser embalado em sacos plásticos. E isso, mesmo quando é retirado uns minutos mais tarde, como um pacotinho de chicletes.
Por isso, todo comerciante brasileiro que se preze tem um monte de sacos plásticos sob o balcão: sacolas azuis, pretas, brancas, em geral de qualidade duvidosa, rasgando logo. Por que ainda não se inventaram no Brasil bolsas plásticas que não arrebentem: esse permanecerá um dos eternos mistérios deste país
O medo de rasgar é também o motivo por que tudo é duas vezes mais lento no supermercado, pois tem que ser embalado logo em duas sacolas. O complicado processo de acondicionar uma dentro da outra devora o tempo de todos.
E assim o tempo escoa na fila. A caixa espera pacientemente até cada cliente ter realmente colocado tudo em duas sacolas, antes de atender ao próximo comprador. Decerto seria possível resolver esse problema bem facilmente, com uma ripa divisória, mas o atraso tecnológico não é o tema desta coluna.
Outra coisa que me surpreende: o supermercado recompensa os clientes que não usem sacolas plásticas com um desconto de três centavos para cada cinco produtos comprados. Então se deveria pensar que, num país com 13 milhões de desempregados, essa possibilidade de poupar fosse avidamente empregada.
Mas, longe disso, nem mesmo as caixas parecem conhecer a regra – embora a lei que obriga o supermercado a dar esse desconto esteja pregada nas paredes. Eu, pelo menos, tenho sempre que lembrar as funcionárias, toda vez que arrumo minhas compras numa mochila.
Faço isso de modo bem demonstrativo, para mostrar às outras pessoas: "Vejam só: vai rápido e é muito mais prático." Sou alemão, e temos esse jeito de querer sempre educar o resto do mundo. Mas nesse caso acho até que se justifique, pois o problema é sério.
No Brasil são distribuídas cerca de 1,5 milhão de sacolinhas por hora, como divulgou o Ministério do Meio Ambiente. Portanto chega-se a 13 bilhões de sacos plásticos por ano. Onde eles vão parar? Na maioria das vezes, infelizmente, na rua, e dali para o esgoto, que acaba entupido. Ou na floresta, num rio ou no mar, e por fim na barriga de uma baleia, matando-a.
Para fabricar uma bolsa plástica, utiliza-se petróleo ou gás natural, água e energia, e são liberados efluentes (dejetos líquidos). Portanto sua produção é altamente poluente.
As que seguem para os depósitos de lixo causam problemas, pois o plástico retém a água, impermeabilizando o solo e os aterros, dificultando a biodegradação dos resíduos orgânicos. De acordo com dados da associação de direitos do consumidor Proteste, as sacolas plásticas duram 200 anos quando são enterradas junto com o lixo comum. Isso, após terem sido utilizadas só por uns minutos.
É certo que os brasileiros não são os campeões mundiais das bolsas plásticas: os americanos jogam fora, a cada ano, 100 bilhões delas, o que significa o desperdício de 12 milhões de galões de petróleo. E também sei que no Brasil muitos lhes dão uma breve segunda vida, como sacos de lixo. Além disso, desenvolveu-se no país uma verdadeira cultura da sacola plástica. Por vezes me parece que os vendedores têm medo de ofender o freguês se não oferecerem a sacolinha.
Apesar disso, os brasileiros deveriam dar uma olhada no mundo, por exemplo para países como Bangladesh, Quênia ou Ruanda, onde sacos plásticos são banidos. É isso mesmo: esses países em desenvolvimento estão muito à frente. A pequena Ruanda, que já foi devastada por um genocídio, é considerada até mesmo como país mais limpo da África – coisa que posso confirmar, pois estive lá.
Outro exemplo: na Indonésia, uma das principais nações produtoras de lixo plástico, duas comunidades islâmicas conclamam o total de seus 100 milhões de fiéis a evitarem o material e a adotarem bolsas de bambu. Não seria essa uma boa ideia para a Assembleia de Deus ou a Igreja Universal?
Na Alemanha, aliás paga-se no supermercado entre 0,40 e 1,25 real por cada sacolinha plástica, o que resultou na redução do consumo a menos da metade, desde 2015. Hoje, os cidadãos do país gastam, em média, 29 sacolas por ano. Ou seja, exatamente tantas quantas o homem à minha frente na fila do supermercado acaba de usar para embalar suas compras.
Mas espera-se que em breve tudo isso vá mudar, pois parece que está chegando o fim dos sacos plásticos descartáveis nos supermercados. Uma nova lei banirá por completo seu uso no estado do Rio de Janeiro. Em seu lugar, bolsas reutilizáveis até 60 vezes e, depois, biodegradáveis, e com uma resistência mínima de dez quilos.
É grande a minha esperança de que essa lei seja implementada no próximo ano e que não se gere uma polêmica como em São Paulo. Lá, os sacos plásticos foram banidos dos supermercados, depois voltaram, foram proibidos novamente, e no fim tudo ficou como sempre esteve.
O que me dá esperança são os canudinhos. A versão plástica foi proibida no Rio, eles agora devem ser biodegradáveis. É fato que muitos estabelecimentos ainda ignoram a lei, mas recentemente, na feira, um vendedor de cocos me entregou um canudinho de palha, dizendo: "Aqui, custa um pouco mais para mim, mas é melhor para o planeta".
Philipp Lichterbeck
Pois, por motivos cuja plausibilidade até agora tem me escapado, tudo o que se compra no Brasil tem que ser embalado em sacos plásticos. E isso, mesmo quando é retirado uns minutos mais tarde, como um pacotinho de chicletes.
Por isso, todo comerciante brasileiro que se preze tem um monte de sacos plásticos sob o balcão: sacolas azuis, pretas, brancas, em geral de qualidade duvidosa, rasgando logo. Por que ainda não se inventaram no Brasil bolsas plásticas que não arrebentem: esse permanecerá um dos eternos mistérios deste país
O medo de rasgar é também o motivo por que tudo é duas vezes mais lento no supermercado, pois tem que ser embalado logo em duas sacolas. O complicado processo de acondicionar uma dentro da outra devora o tempo de todos.
E assim o tempo escoa na fila. A caixa espera pacientemente até cada cliente ter realmente colocado tudo em duas sacolas, antes de atender ao próximo comprador. Decerto seria possível resolver esse problema bem facilmente, com uma ripa divisória, mas o atraso tecnológico não é o tema desta coluna.
Outra coisa que me surpreende: o supermercado recompensa os clientes que não usem sacolas plásticas com um desconto de três centavos para cada cinco produtos comprados. Então se deveria pensar que, num país com 13 milhões de desempregados, essa possibilidade de poupar fosse avidamente empregada.
Mas, longe disso, nem mesmo as caixas parecem conhecer a regra – embora a lei que obriga o supermercado a dar esse desconto esteja pregada nas paredes. Eu, pelo menos, tenho sempre que lembrar as funcionárias, toda vez que arrumo minhas compras numa mochila.
Faço isso de modo bem demonstrativo, para mostrar às outras pessoas: "Vejam só: vai rápido e é muito mais prático." Sou alemão, e temos esse jeito de querer sempre educar o resto do mundo. Mas nesse caso acho até que se justifique, pois o problema é sério.
No Brasil são distribuídas cerca de 1,5 milhão de sacolinhas por hora, como divulgou o Ministério do Meio Ambiente. Portanto chega-se a 13 bilhões de sacos plásticos por ano. Onde eles vão parar? Na maioria das vezes, infelizmente, na rua, e dali para o esgoto, que acaba entupido. Ou na floresta, num rio ou no mar, e por fim na barriga de uma baleia, matando-a.
Para fabricar uma bolsa plástica, utiliza-se petróleo ou gás natural, água e energia, e são liberados efluentes (dejetos líquidos). Portanto sua produção é altamente poluente.
As que seguem para os depósitos de lixo causam problemas, pois o plástico retém a água, impermeabilizando o solo e os aterros, dificultando a biodegradação dos resíduos orgânicos. De acordo com dados da associação de direitos do consumidor Proteste, as sacolas plásticas duram 200 anos quando são enterradas junto com o lixo comum. Isso, após terem sido utilizadas só por uns minutos.
É certo que os brasileiros não são os campeões mundiais das bolsas plásticas: os americanos jogam fora, a cada ano, 100 bilhões delas, o que significa o desperdício de 12 milhões de galões de petróleo. E também sei que no Brasil muitos lhes dão uma breve segunda vida, como sacos de lixo. Além disso, desenvolveu-se no país uma verdadeira cultura da sacola plástica. Por vezes me parece que os vendedores têm medo de ofender o freguês se não oferecerem a sacolinha.
Apesar disso, os brasileiros deveriam dar uma olhada no mundo, por exemplo para países como Bangladesh, Quênia ou Ruanda, onde sacos plásticos são banidos. É isso mesmo: esses países em desenvolvimento estão muito à frente. A pequena Ruanda, que já foi devastada por um genocídio, é considerada até mesmo como país mais limpo da África – coisa que posso confirmar, pois estive lá.
Outro exemplo: na Indonésia, uma das principais nações produtoras de lixo plástico, duas comunidades islâmicas conclamam o total de seus 100 milhões de fiéis a evitarem o material e a adotarem bolsas de bambu. Não seria essa uma boa ideia para a Assembleia de Deus ou a Igreja Universal?
Na Alemanha, aliás paga-se no supermercado entre 0,40 e 1,25 real por cada sacolinha plástica, o que resultou na redução do consumo a menos da metade, desde 2015. Hoje, os cidadãos do país gastam, em média, 29 sacolas por ano. Ou seja, exatamente tantas quantas o homem à minha frente na fila do supermercado acaba de usar para embalar suas compras.
Mas espera-se que em breve tudo isso vá mudar, pois parece que está chegando o fim dos sacos plásticos descartáveis nos supermercados. Uma nova lei banirá por completo seu uso no estado do Rio de Janeiro. Em seu lugar, bolsas reutilizáveis até 60 vezes e, depois, biodegradáveis, e com uma resistência mínima de dez quilos.
É grande a minha esperança de que essa lei seja implementada no próximo ano e que não se gere uma polêmica como em São Paulo. Lá, os sacos plásticos foram banidos dos supermercados, depois voltaram, foram proibidos novamente, e no fim tudo ficou como sempre esteve.
O que me dá esperança são os canudinhos. A versão plástica foi proibida no Rio, eles agora devem ser biodegradáveis. É fato que muitos estabelecimentos ainda ignoram a lei, mas recentemente, na feira, um vendedor de cocos me entregou um canudinho de palha, dizendo: "Aqui, custa um pouco mais para mim, mas é melhor para o planeta".
Philipp Lichterbeck
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Enquanto isso...
Esquerda errará mais se começar a briga para saber quem será o líder da oposição antes da autocrítica dos erros e a formulação de rumo para o futuroCristovam Buarque
Falta combinar com os eleitores
Dentro do primeiro, o maior problema está na previdência, pública e privada, que gera déficits e desigualdades. No segundo, o principal entrave está no sistema tributário. As empresas pagam impostos elevados e gastam muito tempo, energia e dinheiro para pagá-los corretamente.

Há provas. Hoje, de cada 100 reais que o governo federal gasta, 50 vão para pagamento de aposentadorias e pensões. Há sete anos, eram 32 reais, ou 32% da despesa geral. E o sistema previdenciário não arrecada o dinheiro necessário para o pagamento dos benefícios. Resultado: o governo gasta cada vez mais com aposentadorias (e, portanto, cada vez menos com todos os demais serviços e investimentos) e usa a receita de outros impostos para financiar as aposentadorias.
No lado micro, a prova cabal está no extraordinário estudo do Banco Mundial, Fazendo Negócios, cuja versão 2018 foi divulgada ontem. Trata-se de avaliar a facilidade (ou dificuldade) para fazer negócios honestamente.
O Brasil até que melhorou. No ano passado, entre 190 países, estava na posição 125º, ou seja, na parte baixa da tabela. Na última versão, subiu para 109º, tendo melhorado na maior parte dos quesitos, como mais facilidade para abrir empresas. Mas no item “Pagando impostos”, não houve qualquer avanço. O Brasil continua na posição 184ª. Considerando que os seis últimos são países sem relevância, pode-se dizer com todas as letras: o Brasil tem o pior sistema tributário do mundo.
Mas o pior de tudo é que nada disso é novidade. Qualquer pessoa que lida com negócios sabe o inferno que é pagar impostos corretamente. Mais ainda, os temas, macro e micro, estão colocados há bastante tempo, de modo que as diversas soluções estão disponíveis.
Por exemplo, tem uma reforma da previdência prontinha para ser votada na Congresso. Não é a ideal, mas quebra um bom galho – garante uma economia de uns R$ 500 bilhões em dez anos. Está lá também um projeto de reforma tributária que simplifica bastante o sistema, reunindo vários impostos numa única guia.
Por que não se resolve?
Porque nos tem faltado um governo com clara maioria eleitoral e que tenha assumido essa agenda de reformas.
O governo Temer tentou boa parte dessa agenda e, de fato, avançou em pontos como o teto de gastos públicos e a reforma trabalhista. Mas faltaram votos e moral para continuar o serviço.
O futuro governo Bolsonaro tem os votos e promete colocar os corruptos à parte. Além disso, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, tem colocado uma agenda que faz inteiro sentido.
Primeiro de tudo, buscar o equilíbrio das contas públicas, começando pela principal fonte de desequilíbrio, o gasto previdenciário.
Tudo depende disso. Por exemplo: não adianta nada cortar todos os gastos se a previdência continua gerando déficits. Não adianta nada privatizar estatais e resgatar parte da dívida pública, o que permitiria reduzir juros, se a estrutura básica de gastos continuar gerando déficits. Seria matar uma dívida e começar outra.
Tem que ser tudo combinado. Por exemplo, começar o ajuste fiscal, com a reforma da previdência que está aí, e apoiar esse esforço com privatizações.
Tudo considerado, a agenda econômica do futuro governo está correta.
Porém, ah!, porém, essa agenda não foi claramente apresentada aos eleitores. Os milhões que votaram em Bolsonaro votaram pela reforma da previdência, essa que está no Congresso e que Paulo Guedes quer aprovada?
Ainda dá tempo. O presidente eleito tem a força das urnas. Mas ele precisa ir a público e dizer que tais e tais reformas são necessárias para a retomada do crescimento. Dizer claramente e convencer seus eleitores, e a sociedade, que esse é o caminho. Sem isso, não formará maioria no Congresso para votar as reformas.
Bolsonaro, o 'mito', derrotou a 'ideia' Lula
Na dicotomia da época, o PSDB, que tivera dois mandatos, viu o PT chegar ao quarto, mas numa eleição que foi apertada, em que o derrotado obtivera 50 milhões de votos. Seu líder, então incontestado, Aécio Neves, não repetiu o vexame dos correligionários derrotados antes – Serra, Alckmin e novamente Serra – e voltou ao Senado como alternativa confiável aos desgovernos petistas.
Mas jogou-a literalmente no lixo, dedicando-se à vadiagem no cumprimento do que lhe restava do mandato. O neto do fundador da Nova República, Tancredo Neves, deixou de ser a esperança de opção viável aos desmandos do PT de Lula e passou a figurar na galeria do opróbrio ao ser pilhado numa delação premiada de corruptores, acusado de se vender para fazer o papel de oposição de fancaria. O impeachment interrompeu a desatinada gestão de Dilma, substituída pelo vice escolhido pelo demiurgo de Garanhuns, Temer, do MDB, que assumiu e impediu o salto no abismo, ficando, porém, atolado na própria lama.
Em janeiro, de volta pra casa outra vez, o cidadão sem mandato sonhou com o “não reeleja ninguém” para entrar nos aposentos de rei pelas urnas. Chefões partidários embolsaram bilhões, apostaram no velho voto de cabresto do neocoronelismo e pactuaram pela impunidade geral para se blindarem. Mas, ocupados em só enxergar seus umbigos, deixaram que o PSL, partido de um deputado só, registrasse a candidatura do capitão Jair Bolsonaro para conduzir a massa contra a autossuficiência de Lula, ladrão conforme processo julgado em segunda instância com pena de 12 anos e 1 mês a cumprir.
O oficial, esfaqueado e expulso da campanha, teve 10 milhões de votos a mais do que o preboste do preso.
Na cela “de estado-maior” da Polícia Federal em Curitiba, limitado à visão da própria cara hirsuta, este exerceu o culto à personalidade com requintes sadomasoquistas e desprezo pela sorte e dignidade de seus devotos fiéis. Desafiou a Lei da Ficha Limpa, iniciativa popular que ele sancionara, transformou um ex-prefeito da maior cidade do País em capacho, porta-voz, pau-mandado, preposto, poste e, por fim, portador da própria identidade, codinome, como Estela foi de Dilma na guerra suja contra a ditadura.
Essa empáfia escravizou a esquerda Rouanet ao absurdo de insultar 57 milhões, 796 mil e 986 brasileiros que haviam decidido livrar-se dele de nazistas, súditos do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, que não se perca pelo nome, da Alemanha de Weimar: a ignorância apregoada pela arrogância.
Com R$ 1,2 milhão, 800 vezes menos do que Palocci disse que Dilma gastara há quatro anos, oito segundos da exposição obrigatória contra 6 minutos e 3 segundos de Alckmin na TV, carregando as fezes na bolsa de colostomia e se ausentando dos debates, Bolsonaro fez da megalomania de Lula sua força, em redes sociais em que falou o que o povo exigia ouvir.
A apoteose triunfal do “mito” que derrotou a “ideia” produziu efeitos colaterais. Inspirou a renovação de 52% da Câmara; elegeu governadores nos três maiores colégios eleitorais; anulou a rasura na Constituição com que Lewandowski, Calheiros e Kátia permitiram a Dilma disputar e perder a eleição; e forçou o intervalo na carreira longeva de coveiros da república podre.
O nostálgico da ditadura, que votou na Vila Militar, tem missões espinhosas a cumprir: debelar a violência, coibir o furto em repartições públicas e estatais, estancar a sangria do erário em privilégios da casta de políticos e marajás e seguir os exemplos impressos nos livros postos na mesa para figurarem no primeiro pronunciamento público após a vitória, por live. Ali repousavam a Constituição e um livro de Churchill, o maior estadista do século 20.
Não lhe será fácil cumprir as promessas de reformas, liberdade e democracia, citadas na manchete do Estado anteontem. Vai enfrentar a oposição irresponsável, impatriótica e egocêntrica do presidiário mais famoso do Brasil, que perdurará até cem anos depois de sua morte. E não poderá fazê-lo com truculência nem terá boa inspiração nos ditadores que ornam a parede do gabinete que ocupou. Sobre Jânio e Collor, dois antecessores que prometeram à cidadania varrer a corrupção e acabar com os marajás, tem a vantagem de aprender com os erros que levaram o primeiro à renúncia e o outro ao impeachment.
Talvez o ajude recorrer a boas cabeças da economia que trabalharam para candidatos rivais, como os autores do Plano Real e a equipe do governo Temer, para travarem o bom combate ocupando o “posto Ipiranga” sob a batuta de Paulo Guedes. Poderá ainda atender à cidadania se nomear bons ministros para o Supremo Tribunal Federal e levar o Congresso a promover uma reforma política que ponha fim a Fundo Partidário, horário obrigatório e outros entulhos da ditadura dos partidos, de que o povo também quer se livrar em favor da desejável igualdade.
Saio das eleições de domingo como se tivesse levado uma surra
Saio das eleições do último domingo como se tivesse levado uma surra. Que começou no primeiro turno. O equilíbrio do centro desapareceu, e a radicalização só me trouxe sofrimento. Os dois candidatos mais rejeitados conseguiram chegar ao segundo turno. Por outro lado, mais de 43 milhões de brasileiros não compareceram às urnas, votaram em branco ou anularam o voto. Mas a melancolia, leitor, que quase me abateu, tem outras causas. Uma delas está na senectude, que às vezes desperta inevitável (e às vezes doloroso) acerto de contas. Pertenço a uma geração que viveu muitas crises ao longo dos anos, mas que também conheceu, na vida pública, exemplos realmente admiráveis.
Um importante alerta: os eleitores que elegeram Jair Bolsonaro não podem permitir que o populismo da esquerda, que quase acabou com o país, seja trocado pelo populismo da direita, que é irmão gêmeo do primeiro. Contra isso, farei o que posso: rezar, rezar e rezar…
A democracia tem a chance de melhorar. Políticos, jornalistas e publicitários terão que se reciclar. A revolução tecnológica trouxe o cidadão comum para dentro do ringue eleitoral. Enfim: os meios para ganhar eleição têm que ser revistos. Tudo será difícil daqui para a frente. A reforma política, que sempre foi a mais importante, agora é inadiável. Há “políticos” que foram justiçados. Há, porém, os injustiçados. Estes foram pegos pelo imprevisível tsunami que desabou sobre o país.
Volto ao risco do populismo da direita, outro caminho seguro para o autoritarismo. O recente espetáculo eleitoral, belo por sua própria natureza, poderá terminar feio. Basta que Jair Bolsonaro não consiga vestir a casaca de presidente e continue a dizer o que sempre disse como oficial de artilharia e/ou como parlamentar por 28 anos.
É tudo muito curioso. Se não houvesse a fatídica facada em Juiz de Fora, o resultado das eleições talvez fosse outro. Quando poderia exibir suas qualidades, mas igualmente seus defeitos, o cruel atentado transformou o capitão da reserva em mito, enquanto, de fato, grande parte de seus eleitores apenas buscava alguém que fosse contra o PT. Ou contra o sistema, que teve no PT seu incentivador. O PT traiu a si próprio. Insistiu na tese de que é o único detentor da verdade histórica.
Jair Bolsonaro, ironicamente, talvez conscientemente, adotou na campanha o repto do ex-presidente Lula, representado pela frase “eles contra nós”, dita vezes sem conta em reuniões petistas espalhadas pelo país. Valeu-se dessa sugestão e conseguiu “unir os diferentes para derrotar os contrários”. O feitiço virou contra o feiticeiro. Todavia, imprudentemente, fez dos adversários verdadeiros inimigos, em desrespeito ao velho e bom regime democrático. E dificultou a espinhosa missão que terá pela frente – a de unir e pacificar o país de norte a sul.
Esse estado de espírito, que logo após a vitória pareceu que poderia tornar-se permanente, não pode prevalecer. O sucesso do presidente eleito depende dessa árdua e complexa missão. Felizmente, são bons os sinais em seu primeiro discurso: “Este governo será defensor da democracia, da Constituição e da liberdade”. E ainda explicou: “Não é a palavra vã de um homem. É um juramento a Deus”.
Tenho hoje, como tive ontem, o direito de sonhar com um país menos injusto. Desejo, ardentemente, que meus filhos, mas, sobretudo, meus netos, possam viver em permanente paz, distantes das ideologias que transformam seres humanos em autênticos autômatos.
Acreditemos no país, leitor!
Um importante alerta: os eleitores que elegeram Jair Bolsonaro não podem permitir que o populismo da esquerda, que quase acabou com o país, seja trocado pelo populismo da direita, que é irmão gêmeo do primeiro. Contra isso, farei o que posso: rezar, rezar e rezar…
A democracia tem a chance de melhorar. Políticos, jornalistas e publicitários terão que se reciclar. A revolução tecnológica trouxe o cidadão comum para dentro do ringue eleitoral. Enfim: os meios para ganhar eleição têm que ser revistos. Tudo será difícil daqui para a frente. A reforma política, que sempre foi a mais importante, agora é inadiável. Há “políticos” que foram justiçados. Há, porém, os injustiçados. Estes foram pegos pelo imprevisível tsunami que desabou sobre o país.
Volto ao risco do populismo da direita, outro caminho seguro para o autoritarismo. O recente espetáculo eleitoral, belo por sua própria natureza, poderá terminar feio. Basta que Jair Bolsonaro não consiga vestir a casaca de presidente e continue a dizer o que sempre disse como oficial de artilharia e/ou como parlamentar por 28 anos.
É tudo muito curioso. Se não houvesse a fatídica facada em Juiz de Fora, o resultado das eleições talvez fosse outro. Quando poderia exibir suas qualidades, mas igualmente seus defeitos, o cruel atentado transformou o capitão da reserva em mito, enquanto, de fato, grande parte de seus eleitores apenas buscava alguém que fosse contra o PT. Ou contra o sistema, que teve no PT seu incentivador. O PT traiu a si próprio. Insistiu na tese de que é o único detentor da verdade histórica.
Jair Bolsonaro, ironicamente, talvez conscientemente, adotou na campanha o repto do ex-presidente Lula, representado pela frase “eles contra nós”, dita vezes sem conta em reuniões petistas espalhadas pelo país. Valeu-se dessa sugestão e conseguiu “unir os diferentes para derrotar os contrários”. O feitiço virou contra o feiticeiro. Todavia, imprudentemente, fez dos adversários verdadeiros inimigos, em desrespeito ao velho e bom regime democrático. E dificultou a espinhosa missão que terá pela frente – a de unir e pacificar o país de norte a sul.
Esse estado de espírito, que logo após a vitória pareceu que poderia tornar-se permanente, não pode prevalecer. O sucesso do presidente eleito depende dessa árdua e complexa missão. Felizmente, são bons os sinais em seu primeiro discurso: “Este governo será defensor da democracia, da Constituição e da liberdade”. E ainda explicou: “Não é a palavra vã de um homem. É um juramento a Deus”.
Tenho hoje, como tive ontem, o direito de sonhar com um país menos injusto. Desejo, ardentemente, que meus filhos, mas, sobretudo, meus netos, possam viver em permanente paz, distantes das ideologias que transformam seres humanos em autênticos autômatos.
Acreditemos no país, leitor!
A saída, onde a saída?
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