quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Nulo também diz o que pensa

Por um voto em branco, você está dizendo que você tem uma consciência política, mas você não concorda com qualquer um dos partidos existentes
José Saramago

Taí o que eles queriam

O grande cabo eleitoral na boca de se ir às urnas é o medo. Como lá atrás, o eleitor segue o que manda o cabresto, não mais do coronel, mas do triunvirato oligárquico da política, do empresariado e da mídia.

O Brasil foi às urnas para eleger o Caçador de Marajás, filho dileto do coronelismo político, com apoio do empresariado, para acabar com o privilégio das elites. Essas continuaram se fartando à tripa forra. E os marajás aumentaram em número e mamaram com mais vigor.

Depois apostou no Pai dos Pobres, pelego visceral de privilégio até em camburão da ditadura (nunca ia na caçamba). Por trás dos out-doors sobre o fim da miséria, a farra era megalomaníaca. A bica estava sempre aberta para as elites, principalmente dos banqueiros e mídia, enquanto pingava migalhas para a miserabilidade. Com imensa generosidade, multiplicou os milionários entre amigos, padrinhos, parentes e outros assemelhados das "esquerdas", que no Brasil são milhares de bocas famintas por dinheiro.

Agora chega-se ao dilema entre o coturno e a sacolinha, entre o verde e o vermelho, o que dá marrom. É a cor do futuro: "barro". 

O candidato Gandola significaria o poder ser tomado pelos militares via voto democrático. É o que alardeiam como profecia. Mas as instituições, segundo tanto gostam de vangloriar-se, não estão sólidas? Ou não estariam assim tão democráticas? Se até mesmo o "Comandante", ex-ministro da Casa Civil de Lula, condenado, mas desfilando em noites de autógrafos, já declarou que o adversário seria apenas um "Temer, mais redicalizado", o que temer, sem trocadilho? Vai se ter medo de quê quando as Forças Armadas foram sempre bem aquinhoadas (e muito bem nos governos petistas)?

Talvez o "golpe militar" seja mais um fantasma camarada que a criatividade do comissariado tenha transformado em dragão. Mas por mais que ponha fogo pela ventas não assará criancinhas como se profetiza. Há muitas décadas de pensamento separando as Forças de hoje das de 1964, porque o mundo é outro.

O candidato Poste, incensado pelo esquerdismo caiçara, que tem como patrono um presidiário, não está muito longe de fazer estrago como o possível adversário. Se um acena com o militarismo, o outro hasteia o autoritarismo populista, que se instalou com a fartura de dinheiro para comprar seus mercenários. Entre o coturno pisando o Planalto, preferem um país comandado da cadeia de Curitiba ou gerenciado por um ex-presidiário indultado, e não eleito. Um acinte a qualquer Estado de Direito tão perigoso quanto o tacão do coturno.

Os dois são farinha do conservadorismo que ainda governa "pelo povo e para o povo" a preços de mercado negro. São representantes de governos de crime. Na calada dos porões, um matou; outro assaltou. As caras que devem liderar nas urnas carregam passados de vergonha dos ideários que defendem. Medíocres máscaras. O medo é implantado para manter a polarização que tanto agrada aos poderes para melhor manter sob o relho os assustados.

O Brasil que se quer está bem longe, e cada vez mais, de se tornar realidade. Talvez bem lá na frente se possa fazer alguma mudança, mas tem que se começar agora fazendo faxina nas cabeças. 
Luiz Gadelha

Sucessão escancara falta de quadros da política

De todas as evidências que a sucessão de 2018 escancara, a mais incômoda é a absoluta falta de quadros da política nacional. O líder das pesquisas, Jair Bolsonaro, era até ontem um deputado com 27 anos de mandato e nenhuma obra relevante a exibir. O vice-líder é Fernando Haddad, um ex-prefeito cujo mandato o eleitor de São Paulo se recusou a renovar, impondo-lhe uma derrota de primeiro turno.

O país está de novo às voltas com uma disputa do tipo PT versus anti-PT. A diferença é que o eleitor anti-petista se deslocou da centro-deireita para a extrema-direita. Incompetência do PSDB. Há 16 anos fora do Planalto, o tucanato não conseguiu oferecer esperança que justificasse o seu retorno. Aécio, a oferta de 2014, virou lama. Alckmin, a aposta de 2018, está na posição do jogador que corre o risco de levantar da mesa de pôquer sem dinheiro para o táxi.

O PT celebra a ascensão meteórica de Haddad como um renascimento. Nada mais ilusório. Depois de dois mega-escândalos e um impeachment, tudo o que o petismo foi capaz de oferecer foi um novo poste. O único líder do partido com luz própria está na cadeia. Sofrerá novas condenações. Ainda que eleja mais um preposto, Lula talvez não consiga mais disputar eleições. Costuma-se dizer que o brasileiro não sabe votar. Mas a verdade é que o eleitor não pode escolher o que não está na vitrine.

Pensamento do Dia


A ansiedade e o medo dominam a reta final da campanha política

Inicio estas linhas com meu coração pulsando mais rápido do que o normal. Os problemas se acumulam – na família, entre amigos e no país. Nem a beleza do dia, coberta pelo céu azul-profundo, consegue acalmar o animal raivoso que também habita dentro de mim. Enfrento o papel em branco, mas não sei ao certo o que quero dizer ou transmitir, para mim ou para você, leitor, a quem dirijo este desabafo.

Quisera, por exemplo, poder iniciar estas linhas sem me preocupar com informações, pesquisas, análises, notícias falsas, redes sociais, entrevistas, colunas, programas políticos (na televisão e no rádio) etc., mas, sobretudo, com os medos que, neste instante, insistem em dominar meu corpo inteiro, contendo, enfim, meu já contido verbo.

Quisera, quem sabe, retirar de minhas costas esse peso para o qual também contribuí. Sei que essas tarefas são quase impossíveis. Tento, então, driblar o sentimento (ou ressentimento?) de decepção que, em cada eleição, também toma conta de mim. Entro em todas elas cheio de esperanças, mas a realidade logo me deixa atônito. E o ânimo, para recuperá-la, além de dobrado, é escasso. Mas não dou o braço a torcer, ainda que seja eu o último a crer em meu sofrido país.

É provável que esteja dizendo bobagem, mas as eleições deste ano são parecidas com muitas outras, especialmente com a de 1989. Aliás, essa aparente bobagem já foi dita por gente graúda. E você sabe no que deram aquelas eleições, polarizadas pela insensatez. Salvou-as, após, um mineiro que, na Presidência, soube ser conciliador.

O que hoje estranha e causa medo não é, em si, a polarização que se avizinha cada vez mais. A democracia leva sempre à polarização. Refiro-me àquela polarização insensata, quase diabólica, movida a ódio. Ela poderá nos levar a escolher entre um preso (ou nosso Poder Judiciário não vale nada?) e um esfaqueado. Um quer eleger mais um “poste”, um representante seu, não seu candidato. Por meio dele, quer manter-se vivo e ativo, como se fosse apenas uma “ideia”. O outro é um político que, ao longo de 28 anos, na Câmara dos Deputados, verbalizou barbaridades. Qual, então, merecerá nosso voto, leitor? Tenho medo de que a vitória de qualquer deles só nos traga mais desgosto.

Nesta reta final, nossa política está tão vazia de propostas com um mínimo de princípio, meio e fim que muitas famílias proibiram, terminantemente, nas reuniões que habitualmente realizam, qualquer conversa sobre política. Esse intragável assunto está suspenso pelo menos até o próximo dia 7, se não chegarem à conclusão de que essa proibição deva continuar até o segundo turno.

Finalmente, na realidade, e para nos deixar ainda mais ansiosos, nada está decidido, segundo o cientista político Lúcio Rennó (UnB): “A eleição está aberta e será definida pelo grau de abstenção e pelo que acontecer na reta final. Em 2014”, lembra Rennó, “duas semanas antes, poucos imaginavam que Marina não estaria no segundo turno”.

Que Deus fortaleça nossa sociedade civil e a ajude a afastar – de um lado e de outro – o perigo de golpe que paira no ar contra ela. Que nenhum deles, sobretudo o do PT, faça com que se cumpra a profecia de Luiz Felipe Pondé: “Se Lula ganhar as eleições, o Brasil terá um retrocesso ao Paleolítico, sem querer ofender nossos ancestrais”.

Nosso país está em perigo! Não provoquemos seus 206 milhões de habitantes. O inferno poderá estar aqui, perto de nós.

Elefante em casa

O Estado brasileiro é paquidérmico, corporativo, ineficiente e caro. Destaco a necessidade da Reforma da Previdência, que contempla dois problemas fundamentais. O primeiro é a desigualdade. O País precisa de uma regra única. Alguns se aposentam com pouco mais de 50 anos de idade, recebendo mais de R$ 20 mil por mês e acumulando pensão e aposentadoria, enquanto outros recebem um salário mínimo de benefício.

A reforma precisa atingir a todos, incluindo os funcionários públicos, privados e os militares. O segundo problema é a sustentabilidade. O Brasil está envelhecendo e gasta-se de 13% a 14% do PIB com a previdência, percentuais semelhantes ao da Alemanha, onde a população já envelheceu
Gil Castello Branco, secretário-geral da Associação Contas Abertas

Intolerância

Quando comecei a trabalhar em jornal, época em que os dinossauros caminhavam felizes sobre a Terra e vocês ainda não eram nascidos, havia censura. Havia departamentos de censura, um conselho superior de censura e um monte de censores para povoá-los e brandir a tesoura: cidadãos que acordavam de manhã cedo, tomavam banho, tomavam café, escovavam os dentes e iam para o escritório para censurar o trabalho alheio. Ganhavam bem para fazer o que o povo faz hoje de graça na internet. Eu não tenho nenhuma saudade daqueles tempos mas, pensando bem, acho que preferia aqueles censores estatutários às hordas linchadoras do Facebook.

Aquela censura era escancarada e despertava o melhor em todos nós, que a desafiávamos escrevendo nas entrelinhas, buscando figuras de retórica e modos de dizer as coisas sem dizer. Enfrentá-la era um desafio cotidiano, uma adrenalina constante. Descobrir as pistas espalhadas pelos jornais em forma de receitas de bolo e previsões do tempo era emocionante, romances e filmes censurados ganhavam o tempero apimentado da proibição.

Havia heroísmo em desafiar a censura, não em exercê-la.

Dona Solange, aquela, que chegou a inspirar música do Leo Jaime, mudou de sobrenome e foi viver no interior, zero orgulho da sua profissão. Os vizinhos, que a consideravam uma senhora reservada porém gentil, jamais desconfiaram do que ela fazia antes de se aposentar.

Os censores de redes sociais, ao contrário, se acham os reis — e rainhas — da cocada preta. Estão convencidos da grandeza da sua missão, certos de que lincham por motivos nobres. Seu ódio é puro e benfazejo, e suas vítimas deveriam se sentir gratas pelas lições. Só falam no imperativo:



— Calaboca!

— Leia!

— Estude!

— Aprenda!

— Silencie e respeite!

— Peça desculpas!

— Deixe de se fazer de vítima!

Palavras não tiram pedaço — mas tiram. O corpo sai inteiro de um ataque, mas a alma sai em frangalhos. E aí entra em cena algo muito pior do que a dona Solange: a autocensura. Nos tempos da censura, lutava-se para que opiniões e ideias sobrevivessem; hoje elas são abortadas antes de nascer. Não há glória em desafiar militantes raivosos, não há heroísmo em enfrentar ofensas disparadas por trás da tela.

A internet é um vasto território de absurdos sem resposta e de pensamentos silenciados, porque qualquer pessoa menos beligerante — quero crer a maioria de nós — prefere ficar calada a externar uma opinião que pode eventualmente ser mal interpretada — e será: na internet tudo o que pode (e tudo o que não pode) ser mal interpretado será sempre mal interpretado. Para que despertar as bestas do apocalipse? Melhor levantar e ir tomar um café, dar um telefonema, regar as plantas, passar batido.

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Um dos documentos importantes desse Museu da Intolerância é o texto em que Fabiana Cozza renuncia ao seu papel no musical sobre Dona Ivone Lara, e que acabou dando panos para as mangas até aqui no jornal. Ela foi massacrada por ativistas de movimentos negros por não ser suficientemente escura para o papel, e abre o seu desabafo, dirigido “aos irmãos”, com as suas credenciais genéticas: “Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca, Pai: Oswaldo dos Santos, negro, Cor (na certidão de nascimento): parda”.

Fabiana escreveu com sentimento e expôs as suas feridas, dilacerada pelo linchamento sofrido ao comemorar, dias antes, a felicidade com o convite para a produção:

“Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro.”

Ler o que escreveram os inquisidores na sua página é de assustar mesmo, fere e ofende até a quem não tem nada a ver com a história. Não consigo imaginar o quanto aquelas palavras não magoaram Fabiana. Mas renunciar ao papel não pôs fim à violência — agora ela está sendo acusada de ter denunciado a agressividade dos agressores.

“Irmã vírgula, não somos irmãos. E nós pretos vírgula, pq vc não é preta. E pare de colocar os negros como raivosos por exigir que o certo fosse feito. Tinha mais q sair mesmo.”

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Fiquei horrorizada em ver tanta gente se sentindo autorizada a dizer quem o outro é, como o outro é, como o outro pode ou não se sentir. A Arte, enquanto isso, escondida num canto, cobrindo a cabeça de cinzas. Como se Dona Ivone Lara fosse só uma cor, como se o delicado trabalho de representá-la em toda a sua grandeza não envolvesse tanto mais. Fabiana Cozza conheceu Dona Ivone, cantou com ela, foi escolhida pela família para o papel. É negra, mas não é Pantone 321-2 C. Todos a ela.

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Sou branca (Pantone 58-6 C) e desqualificada de saída para entrar nessa discussão.

Mas aí é que está: todos deveríamos poder discutir tudo. Racismo não pode ser discutido só entre pretos ou só entre brancos, como feminismo não pode ser discutido só por mulheres. Ou lutamos pela inclusão de todos, e por todos os lados, ou vamos nos afastar cada vez mais, fechados nas nossas bolhas, ouvidos tapados para o outro, fervendo cada qual na sua ilha de ódio.
Cora Rónai 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O dinheiro dá asas!

No Supremo, você tem gabinete distribuindo senha para soltar corrupto. Sem qualquer forma de direito e numa espécie de ação entre amigos
Luís Roberto Barroso, ministro do STF

Brasil falha em proteger suas crianças e adolescentes

Apesar de uma legislação infanto-juvenil avançada, metade das crianças e adolescentes brasileiros (49,7%) não tem acesso a pelo menos um dos seguintes direitos fundamentais: educação, informação, proteção contra o trabalho infantil, moradia, água e saneamento. Além disso, mais de 34% de meninas e meninos de até 17 anos vivem em casas com renda per capita insuficiente para comprar uma cesta básica, ou menos de R$ 350.

O cruzamento desses dados – que fazem parte do relatório do Unicef Pobreza na infância e na adolescência, divulgado em agosto – revela que, no Brasil, a pobreza na infância e na adolescência é complexa e tem múltiplas dimensões, que vão além do dinheiro e da legislação.

"O Brasil tem uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças e adolescentes, mas também é um dos países onde crianças e adolescentes estão mais desprotegidos", afirma o coordenador da Comissão da Infância e do Juventude do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos de São Paulo), Ariel de Castro Alves.

Ele se refere ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Aprovado em 1990, o ECA é referência mundial como legislação de proteção à criança e ao adolescente e foi formulado a partir da Constituição Federal de 1988, uma das primeiras a contemplar a proteção integral e os direitos e garantias fundamentais da criança e do adolescente.

"A legislação brasileira é excelente, uma das mais modernas do mundo, mas não é cumprida. Começamos pelo descumprimento da própria Constituição, já que crianças e adolescentes, na prática, jamais foram prioridade no Brasil", diz a presidente da Comissão de Direitos da Criança e do Adolescente da OAB, Silvana do Monte Moreira.

De acordo com o Unicef, mais de 18 milhões de meninas e meninos vivem na pobreza. Entre os direitos fundamentais, o acesso ao saneamento é o direito mais descumprido e afeta mais de 13,3 milhões de crianças e adolescentes, seguido pela educação (8,8 milhões), água (7,6 milhões), informação (6,8 milhões), moradia (5,9 milhões) e proteção contra o trabalho infantil (2,5 milhões). Quase 14 mil crianças e adolescentes não têm acesso a nenhum dos seis direitos.

Um relatório de 2017, também do Unicef, mostrou que o Brasil é, entre os países onde não há conflito armado, o quinto em assassinato de crianças e adolescentes, atrás apenas de Venezuela, Colômbia, El Salvador e Honduras. A Fundação Abrinq afirma que o número de mortes violentas de pessoas menores de 19 anos passou de 5 mil, em 1990, para 10,9 mil, em 2015.


Antes do ECA, a criança fora da escola, explorada no trabalho infantil ou vítima de violência, entre outros exemplos de violação de direitos, não era considerada um "sujeito de direito". "Com a promulgação do estatuto, quem passou a estar em situação irregular foi a família, o Estado e toda a sociedade, que não garantiram proteção integral às crianças e aos adolescentes", diz Alves.

O ECA prevê que todo município tenha os seguintes programas especializados para crianças e adolescentes: atendimento de famílias e fortalecimento de vínculos; enfrentamento ao abuso e exploração; erradicação do trabalho infantil; atendimento de drogadição; atendimento às vítimas de maus-tratos e violência; convivência familiar e comunitária, incluindo programas de apoio sociofamiliar e acolhimento institucional; medidas socioeducativas e programas de oportunidades e inclusão, visando o preparo dos jovens para o mercado de trabalho.

Só que essa não é realidade na maioria das cidades. Parte do problema pode ser explicada pela política de cortes orçamentários em políticas públicas e programas sociais, que enfraqueceu principalmente órgãos de formulação e monitoramento da população infanto-juvenil, como o Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), o PPCAAM (Programa de Proteção de Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte) e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). "Esses cortes e a falta de atenção ao ECA têm ampliado as desigualdades sociais e gerado mais pobreza para as crianças, adolescentes e seus familiares", analisa Alves.

Moreira também ressalta a incapacidade do Estado em atender demandas protetivas do público infanto-juvenil. "As varas da infância acumulam competências com outras áreas, como criminal em algumas comarcas, do idoso em outras, além de não terem equipes técnicas para atender os casos que lá chegam. E, quando têm, os técnicos são insuficientes", comenta.

O desrespeito aos direitos básicos gera, junto com a pobreza, um outro problema: a criminalidade infanto-juvenil. De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça, o Brasil tem 189 mil adolescentes cumprindo medidas socioeducativas. Em 2015 eram 96 mil. O aumento no número de menores infratores fomenta discussões sobre a redução da maioridade penal, hoje em 18 anos, e coloca em evidência o ECA, que é atacado por aqueles que defendem a diminuição da maioridade para 16 anos.

Para os especialistas, a redução da maioridade penal é uma medida simplista para um problema complexo. "Essa proposta, que ganha força em períodos pré-eleitorais, é demagógica e ilusória", afirma Alves. "O principal argumento contra é que cuidado e prevenção, através de políticas sociais, custa muito menos que repressão: cada aluno na rede pública custa, em média, R$ 2 mil por ano, enquanto que um interno na Fundação Casa de São Paulo custa cerca de R$ 10 mil por mês", argumenta o coordenador, citando dados do Condepe.

A redução da maioridade penal também lançaria mais cedo o menor infrator dentro de um sistema que, na prática, é de formação de criminosos. "Teríamos criminosos ‘profissionalizados' nas cadeias mais cedo, dentro de um sistema prisional falido, que é dominado pelo crime organizado e pela corrupção e que nunca resolveu o problema da violência, pois a reincidência, conforme dados da CPI do Sistema Carcerário, é de 70%", afirma Alves.

O atual encarceramento dos jovens infratores na Fundação Casa também não é a solução. "A Fundação Casa de São Paulo tem apresentado reincidência de 20%, e esse percentual não leva em conta os jovens que completam 18 anos e vão para as cadeias pela prática de novos crimes", informa Alves.

"De socioeducativas, as unidades voltadas aos jovens infratores nada têm. São apenas espaços amontoados de adolescentes jogados em locais imundos, insalubres e em número superior à capacidade", afirma Moreira. "É cômodo para o Estado tender a medidas retrógradas, como a redução da maioridade penal ou o aumento do tempo de internação do adolescente infrator, pois é mais fácil punir que prevenir, prender que educar."

"Temos que incluir socialmente e garantir oportunidades à juventude. Se o adolescente procura escola, trabalho e profissionalização, mas não encontra vaga, ele vai para o crime. O crime só inclui quando o Estado exclui", diz Alves.

Deutsche Welle

Pensamento do Dia


'Pinochmann'

Não posso ainda afirmar que Marcio Pochmann seja o pior economista do Brasil, mais por excesso de competição do que por falta de esforço, mas garanto que ganha fácil o título de mais desonesto.

Não me entendam mal. Não se trata aqui de usar a velha falácia "ad hominem", qual seja, tentar desmerecer o argumento pelas falhas de seu autor, mas sim apontar as falhas do autor pelas carências, no caso gritante, de seus argumentos.

A questão no fundo é simples. Pochmann afirmou que um imposto de 1% sobre grandes fortunas eliminaria o déficit previsto para 2019, R$ 139 bilhões, conforme o Orçamento para o ano que vem.
Isto requereria que grandes fortunas montassem a R$ 13,9 trilhões; todavia, segundo os dados da Receita Federal, o conjunto total de bens e direitos declarados pelos pouco mais de 27 milhões de contribuintes que preencheram o formulário do Imposto de Renda atingia R$ 8 trilhões.

Posto de outra forma, nem tributando todos os declarantes de IR a proposta de Pochmann chegaria perto de resolver o enorme desequilíbrio fiscal do país.

Confrontado à simples aritmética, Pochmann pôs em prática um enorme arsenal de desonestidade, sem jamais enfrentar a questão.

Começa atribuindo a desordem fiscal ao atual governo. Em que pesem decisões equivocadas, como levar adiante a proposta de reajuste do funcionalismo gestada no governo Rousseff, não é preciso mais do que saber contar para perceber a falsidade do argumento.

Quando Dilma assumiu o superávit do governo federal era (a preços de hoje) de R$ 126 bilhões; quando saiu o déficit superava R$ 170 bilhões, deterioração da ordem de R$ 300 bilhões. Primeira mentira.

A segunda é mais sutil, mas não menos desonesta. Pochmann faz malabarismos para mostrar que a dívida do governo não subiu no período Dilma, utilizando-se para tanto do conceito de dívida líquida, que deduz da dívida total as reservas internacionais de posse do BC.

Ocorre que, quando o dólar se encarece as reservas se apreciam, fenômeno que reduz a dívida líquida. Todavia, isto não reflete de forma alguma o desempenho fiscal do país, apenas a valorização do dólar.
A medida correta de endividamento fiscal é a dívida bruta, que saltou de 52% para 67% do PIB no período Dilma (e, em julho deste ano, atingiu 77% do PIB).

Em outras palavras, o avanço do endividamento do governo foi muito maior com Dilma, fato escamoteado por Pochmann. Segunda mentira.

De passagem, Pochmann menciona que o desemprego subiu de 8,4% para 11,7%, sem se dignar a esclarecer a qual período se refere.

Já eu noto que o desemprego (ajustado à sazonalidade) era pouco inferior a 8% quando Dilma assumiu, 11% quando foi impedida e hoje se encontra na casa de 12% (depois de bater em 13% no início de 2017), ou seja, o grande salto ocorreu precisamente no governo Rousseff. Terceira mentira.
Pochmann conclui seu artigo agora afirmando que, além da taxação de grandes fortunas, seriam necessárias também a reformulação do imposto sobre heranças e taxação de dividendos para fechar as contas.

Não admite que errou e também não mostra de onde tirou a estimativa do "potencial arrecadatório" equivalente a 1,5% do PIB. Quarta mentira (e um tanto a mais de mistificação).
Quando afirmarem que o pragmatismo há de prevalecer caso Fernando Haddad se eleja presidente, lembrem-se que Pinochmann, o economista mais desonesto do país, é também o coordenador de seu programa econômico.

Ode aos calhordas

Os calhordas são casados com damas gordas
Que às vezes se entregam à benemerência:
As damas dos calhordas chamam-se calhôrdas
E cumprem seu dever com eficiência.

Os filhos dos calhordas vivem muito bem
E fazem tolices que são perdoadas.
Quanto aos calhordas pessoalmente porém
Não fazem tolices - nunca fazem nada.


Quando um calhorda se dirige a mim
Sinto no seu olho certa complacência.
Ela acha que o pobre e o remediado
Devem procurar viver com decência.
Os calhordas às vezes ficam resfriados
E essa notícia logo sai nos jornais:
'O Sr. Calhorda acha-se acamado
E as lamentações da Pátria são gerais.'

Os calhordas não morrem - não morrem jamais.
Reservam o bronze para futuros bustos
Que outros calhordas de nova geração
Hão de inaugurar em meio de arbustos.

O calhorda diz: 'Eu pessoalmente
Acho que as coisas não vão indo bem
Pois há muita gente má e despeitada
Que não está contente com aquilo que tem.'

Os calhordas recebem muitos telegramas
E manifestações de alegres escolares
Que por este meio vão se acalhordando
E amanhã serão calhordas exemplares.

Os calhordas sorriem ao Banco e ao Poder
E são recebidos pelas Embaixadas.
Gostam muito de missas de ação de graças
E às sextas-feiras comem peixadas.

Rubem Braga

Nome e foto de Lula são usados na campanha para enganar o eleitor

Aliados de Lula no PT e demais partidos afrontam a Justiça Eleitoral, que proibiu o uso do nome e imagem do ex-presidente e presidiário Lula na campanha. Santinhos, cartazes e propaganda no rádio e na TV reproduzem a mentira de que Lula é o candidato, com objetivo de associar seu nome a aliados onde grande parte do eleitorado lulista, desinformado, não sabe que a sua candidatura foi impugnada em razão de sua condenação à prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.

Cartazes em Pernambuco mostram Lula “candidato a presidente” ao lado de Paulo Câmara, que tenta a reeleição para o governo.

Em Alagoas, 300 mil “santinhos” associam a inexistente “candidatura” de Lula a candidatos oportunistas, que tentam pegar carona no lulismo.

Em estados como Mato Grosso do Sul há um derrame de milhares de “santinhos” ilegais de Lula nas ruas e em caixas de correio.

Pra frente Brasil


A polaridade como problema

Para um olhar distanciado – se isso é possível quando vivemos a primeira lei de Murphy segundo a qual “se algo pode dar errado, dará” – um dos fatos mais notáveis dessa eleição é a polaridade lida como uma indesejável “polarização”. Como prenúncio de crise e violência. Como o lado negativo da concorrência eleitoral inevitável no “Estado Democrático de Direito”.


Competição sem a qual não haveria senso de realismo e de renovação como algo central da democracia tal como a conhecemos nos seus dilemas, riscos e qualidades. A menos que se pense em novas regras para o regime democrático – e tais formulações têm surgido tanto nos seus feitios fascistas quanto nos liberais (no sentido preciso de articular de modo franco e possível individualismo, liberdade e igualdade) – toda derradeira fase de um processo eleitoral ou de substituição de atores em papéis exclusivos, só pode terminar num dualismo. Numa oposição final que, diferentemente dos sistemas fechados nos quais os governantes são substituídos por assassinatos incestuosos como ocorria na Roma Antiga, é um belo exemplo disso e os nossos “golpes de Estado” são assassinatos políticos nos quais uma polaridade tida como irreversível é resolvida pela eliminação do adversário. Todos conhecemos esse caso que, como uma compulsão, teima em retornar. Nele, a discordância transforma-se em hierarquia pela submissão ou eliminação do outro.

A pergunta de fundo, portanto, é como ter Política (com “p” maiúsculo) sem polaridades? Sobretudo quando sabemos que as democracias se fundam na paradoxal adversidade destinada a resolver os clamores da maioria pelo voto dessa mesma maioria. Nelas, nada é perfeito, exceto o Ditador ou a Nomenclatura que está acima da lei e na raiz da manutenção de privilégios garantidos e irremovíveis.

O que parece revelado ao cronista de outro planeta não é o risco expresso na batida oposição entre “direta e esquerda” ou em outros dualismos, mas é a sua interpretação restritiva. A busca do “centro”, como se o centro não fosse, uma vez criado, engendrar outros dualismos, não funciona. O cuidado é garantir a competição dentro dos limites das leis e do bom senso.

Reconhecer isso não é dizer que o enredo e os atores sejam ideais. Longe disso. Mas onde existiriam artistas e enredos perfeitos?

Onde se faz história controlando, como advertia Marx, todas as circunstâncias? Se um voto por cidadão é criticável, sabemos bem o quanto é perverso o voto apenas por um partido ou segmento.

Um observador distanciado sugere que as polaridades são indigestas em sociedades e sistemas fundados na lógica aristocrática do mais ou menos, do maior e do menor, passando – como a nossa – pela multiplicidade de intermediários, os quais permitem o jeitinho e o apêndice jurídico. Enfim, tudo isso que tem permitido mudar não mudando e crescer sem distribuir.

No Brasil ainda dominado pela “turma do deixa disso”, como dizia o Millôr, passamos pela prova do um ou outro e, a menos que se tenha plena consciência de que democracia é uma responsabilidade de governantes ou governados, a eleição será sempre um perigo.

Até que se compreenda que uma eleição não dá de presente um país a qualquer um. E que ela nomeia por tempo determinado quem representa a nossa honra, a nossa honestidade e o nosso bem-estar.

Pior do que a polarização política é a social que consolida no limite da decência ricos e pobres, governantes impunes por legislações obsoletas; e dominantes e dominados. Privilegiados e gente comum. Esses que, dentro do feitio paradoxal da democracia, têm – graças às polarizações – o poder de escolher.

Reforma de meia tigela

No Brasil, privilégio é uma vantagem que os outros usufruem. Nos casos pessoais, são sempre direitos adquiridos
Gil Castello Branco, secretário-geral da Associação Contas Abertas

A morte do amadurecimento

Um amigo de meu filho, de 35 anos, me contou que numa reunião com professores e pais, na escola de seu filho de sete anos (escola esta frequentada por ele, assim como pelos meus filhos até o vestibular), um pai cobrou que na nota fosse levado em conta o conteúdo “dentro das possibilidades do seu filho”. Há uma recusa ao amadurecimento no ar.

Na mesma escola, anos atrás, numa reunião dessas, ouvi uma mãe cobrar da escola que “heroínas femininas fossem usadas em sala de aula para que as meninas fossem empoderadas”, e, da mesma mãe, “que a escola deveria dar mais atenção à África do que à história romana, grega, hebraica e mesopotâmica”. 

Pensei como deveria ser um saco, para uma professora, depois de um dia inteiro de aulas, ter que aturar pais metendo o bedelho no que não entendem e, literalmente, enchendo o saco.

Sim, o mundo está bem chato. O sapiens está saturado de ruídos. Espécie pré-histórica, evoluída num cenário do alto do Paleolítico, em meio à preponderância do silêncio, agora, com iPhones na mão, assola o mundo com opiniões. Falam muito da destruição do ambiente; temo que o sapiens se destrua falando demais.

Exemplos dessa pedagogia contra o amadurecimento já estão na universidade. E logo estarão nas empresas. Pais e psicólogos atacarão o RH das empresas com ameaças de processos jurídicos, como já ensaiam nas escolas e universidades, porque essas empresas não estarão levando em conta a “economia da autoestima” de seus filhos estagiários. 

Exagero? Não exagero. O mundo marcha a passos largos para o retardamento mental como uma opção pedagógica. Frase insensível à vulnerabilidade das pessoas?

Há um culto da vulnerabilidade por aí. Pais e profissionais cada vez mais fazem pressão para que as instituições de ensino relativizem normas de avaliação em nome de ficar “dentro das possibilidades” de seus filhos.

Entre as várias hipóteses possíveis, julgo que a raiva reprimida de ter que perder tempo, dinheiro e saúde cuidando dos filhos faz com que muitos pais exagerem nas provas de “amor e cuidado” com eles, exigindo que o resto do mundo os ame, como eles mesmos não são capazes.

Exagero? Talvez um pouco, mas não muito. Lanço mão de uma tática argumentativa chamada hipérbole (quando você exagera num argumento para defender uma hipótese que está aquém da afirmação exagerada), por causa do desespero que dá ver os pais destruírem a vida dos filhos fazendo deles zumbis adictos de formas institucionais de distribuição de autoestima. 

Fala-se muito de educação, mas ela já foi para o saco há muito tempo. A fúria de fazer o mundo melhor nos destruirá a todos. O esvaziamento dos vínculos familiares pressiona o Estado e as escolas para cumprir o papel de pais narcisistas e de saco cheio. Aliás, todo mundo está de saco cheio, o Sapiens não se aguenta mais. Uma espécie pré-histórica perdida na redes.

Entre 1990 e 2010, o termo “estudantes vulneráveis” passou de 55 referências para 1.136. De 2015 a 2016 houve 1.407 referências ao mesmo termo. A fonte é LexisNexis Database. Quem a cita é o sociólogo Frank Furedi, no seu mais novo livro, “What’s Happened To The University? A Sociological Exploration of its Infantilisation” (o que aconteceu com a universidade? Uma exploração sociológica de sua infantilização, ed. Routledge, 214 págs.), sem tradução no Brasil. Proponho a leitura para pais, professores e pesquisadores do assunto.
A conclusão do autor, que se dedica a esse campo, no mínimo, desde 2004, quando publicou seu “Therapy Culture” (cultura da terapia), também sem tradução no Brasil, é que ao optarmos por uma narrativa da vulnerabilidade, optamos por estudantes infantis. 

Numa linguagem exagerada, estamos criando uma sociedade de inseguros afetivos e cognitivos. Os idiotas da tecnologia acham que porque existem crianças de três anos que mexem em iPads, elas são mais inteligentes. Numa espécie de lamarckismo para idiotas, pensam que, como os pais usam muito iPads, os filhos nascem sabendo mexer neles.

Furedi devia ser leitura obrigatória para quem pede para a escola levar em conta, na avaliação, as possibilidades do filho. E o pior é que esse pai se acha o máximo. Um dos efeitos colaterais da maior escolaridade é que a pessoa fica menos cuidadosa em assuntos que não domina. Fiéis às bobagens fragmentadas que leem, enviesadas por modinhas do Face, esses pais jogam o amadurecimento dos filhos no lixo.

Luiz Felipe Pondé

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Esquerdo x Direitopatas, Brasil à parte

Apesar da dramaticidade feroz do presente, é como se ele não existisse. O mais dos movimentos são determinados pelo passado. O invisível é que faz o visível. E isso torna muito complicado entender o que se passa a tempo de não cometer erros fatais numa campanha tão curta e de tão cruciais implicações para o futuro.

Jair Bolsonaro pintado como ameaça iminente para a democracia é o exemplo mais evidente. Quem tem tanques e está querendo dar golpe não sai à rua pedindo votos. Antidemocrático declarado, com papel passado, com promessa solene de volta atrás, com “plano de guerra” aprovado em convenção nacional (2015) para a desmontagem das instituições republicanas já semi-implementado, com juras de amor diárias a ditadores com mãos sujas de sangue e supremas cortes recheadas de fantoches é o PT. Todas essas figuras sinistras da América do Sul e da África que estão enchendo o Brasil e o mundo de refugiados, com poucas exceções, são amigos diletos de Luís Ignácio Lula da Silva. Boa parte desses cujas “milícias” hoje atiram contra quem lhes pede eleições limpas foi bancada pelo BNDES do PT para chegar pelo voto às posições de que agora recusam-se a apear pelo voto.


Está mais atrasada a esquerda jurássica entrincheirada no Foro de São Paulo que a China e a antiga União Soviética na revisão do seu passado totalitário. O Foro de São Paulo, para ser exato, é declaradamente uma reação a esse “revisionismo”. É porque sabe que do “sonho” não restou nada que a esquerda bolivariana reacionária é um perigo real. Pra eles ou vai, ou racha! A Lava Jato tirou o lulismo do armário. Do confronto entre ele e as instituições democráticas, está jurado, só um sairá vivo. Tanto Haddad quanto Ciro Gomes têm como primeiro compromisso de campanha eliminar sumariamente o que ha de independente no Judiciário e no Ministério Público. “Lula livre, Brasil preso“! Para o lixo com o que resta da lei e da ordem institucional vigentes!

Onde acabaria o governo que começasse assim?

O ódio de Lula à democracia vem sendo gestado, gole por gole de fel, à vista do Brasil inteiro. Mas Fernando Henrique Cardoso não acredita nele. Não é o presente, é o passado que determina esse comportamento. Pior para Geraldo Alkmin – o homem certo no momento psicológico errado – que só confessou acreditar no Lula como ele é depois que o medo de fingir que não tornou-se maior que o de aceitar que sim. Jair Bolsonaro só teve de aquiescer: “Sim, eu também vejo o que vocês estão vendo; eu também ouço o que vocês têm ouvido“. E lá veio, para começar, 1/3 do eleitorado, os “direitopatas” à frente com seus 30 anos de sapos vomitados. Memórias também!

Mas o presente é o presente. Homofobia, misoginia, racismo? De Lula para baixo, qual o habitante deste planeta que se insere em todos os milímetros de exigências de pensamento, palavras e obras dos Grandes Inquisidores das sub-ideologias de ódio que vieram para reeditar a luta de classes como farsa? Nem o esfaqueador Adélio acredita honestamente que a eleição de Jair Bolsonaro levará a um genocídio LGBT. E depois, havendo Bolsonaro volta a haver imprensa.

Já quanto à venezuelização…

Deter o lulismo é a condição para a continuação da conversa. O resto é passado. E a eleição está como está. A opção entre Bolsonaro e Alkmin está espremida entre o “poste” e o “sub-poste”. Se correr o bicho pega, se parar o bicho come. A hora é de fazer contas. E se de Brasil se tratar, é a vez do do meio se mostrar magnânimo. A distensão tem de começar já. É preciso resistir à tentação das agressões irreversíveis agora porque será necessário construir um consenso do Brasil verde-e-amarelo inteiro em velocidade recorde logo adiante.

Pelo lado dos economistas as diferenças são só de grau. O quadro é agudo e as manobras de ressureição não variam muito. A questão, como sempre, é muito mais de tirar boca de bezerro de cima de teta e mão de ladrão com e sem alvará de dentro de cofre público que de escolher que contas fazer. Tirar o presunto da janela em vez de ficar espantando mosca, enfim. E para isso o que mais pesa é com que vontade um governo afirma essa disposição. Quem dá o tom é o maestro. Só não entendeu o que o tom de Lula fez com o Brasil quem não tem idade suficiente para ter memória viva do que nós fomos para comparar com o que nós viramos e tem na “narrativa” do próprio Lula e dos seus esbirros de palco, de sala de aula e de redação as únicas referências do passado do Brasil.

Este país nunca teve antes (nem terá agora) uma vontade autêntica de resolver de uma vez por todas esse problema sentada na cadeira presidencial. Mas agora a questão é de vida ou morte. E os primeiros a saber disso são os quadros do alto escalão do funcionalismo. Ainda que, como categoria, sejam eles próprios a essência do problema, a qualidade da elite dos nossos administradores públicos profissionais é indiscutível. E a frustração dos melhores entre eles por governos sucessivos se terem mantido surdos aos seus alertas e desperdiçado o seu know how na oferta de soluções em favor das ambições de presidentes que queriam ser reis, partidos que se queriam eternos e até de ministros que queriam ser presidente está mais que registrada na crônica das muitas estações do calvário do Brasil.

O Judiciário não aparelhado, se não for resgatado agora sabe que também cai definitivamente sob o domínio do crime. E o Legislativo, mesmo com todos os restos do passado que vão permanecer lá dentro, está tão ansioso quanto o resto do Brasil para provar que pode ser melhor do que tem sido, ou morte.

É nisso que é preciso investir. Vai ter de haver uma mudança, e grande como nunca houve. E isso vai exigir o concurso de todo o melhor do Brasil. A dúvida é quanto conseguiremos aproveitar da condição extrema a que chegamos para avançar de fato e tornar parte dessa mudança irreversível. Essa deve ser a pauta da reforma política. Ela é que determinará quanto tempo ficaremos livres de ter de fazer a próxima cirurgia de emergência.
Fernão Lara Mesquita

Democracias podem morrer

Democracias podem morrer quando líderes eleitos violam as regras democráticas, incentivam a violência, contestam a legitimidade dos adversários e atacam as liberdades civis. O diagnóstico de estudiosos como Steven Levitsky se baseia nos exemplos de Putin, Erdogan, Chávez, Maduro e Trump, mas omite um aspecto importante: a sensação dos cidadãos de que não contam no funcionamento da democracia produz desprezo pelo regime e a ideia de que pouco importa se ele for substituído por alternativas autoritárias.


O Brasil tem democracia, mas seu sistema de representação está em crise. Mais de 90% de entrevistados de pesquisas de opinião declaram não se sentir representados por nenhum partido político e apenas 16 milhões de eleitores são filiados a eles. Em 2014, 45% de entrevistados de uma pesquisa declararam que a democracia pode funcionar sem os partidos políticos e outro tanto disse a mesma coisa do Congresso Nacional. Em 2013, quase 2 milhões de manifestantes já haviam dito isso, mas os partidos não se abriram aos jovens desejosos de ingressar na vida pública, e a distância entre governados e governantes só aumentou.

O Brasil é um caso extremo de fragmentação partidária, com 35 partidos, e outros 50 pedem registro, mas os eleitores não se sentem representados. Os programas partidários são frágeis em termos de disputas de projetos para o País e não enfrentam os desafios da governabilidade. A fragmentação corrói a responsabilidade dos partidos que, dominados por oligarquias que se perpetuam na sua direção, carecem de democracia interna e estão fechados à participação de seus apoiadores.

A resistência dos partidos brasileiros a adotar mecanismos como o de eleições primárias do sistema norte-americano é uma indicação do bloqueio à participação dos eleitores. Nas primárias, com base na posição dos postulantes a candidato, eleitores escolhem delegados às convenções partidárias, que tomam a decisão final. Milhões de pessoas se mobilizam, às vezes por mais de um ano, fazendo os candidatos considerarem as demandas específicas dos eleitores. O processo é inclusivo e vitaliza a democracia representativa.

No Brasil, a qualidade da democracia está em questão. Giovanni Sartori, cientista político italiano, discutindo o significado original da palavra grega demokratia, composta por demos (povo) e kratos (poder), argumentou que esse regime assegura a soberania do povo pela interação de dois princípios fundamentais: o demos-proteção e o demos-empoderamento. O primeiro assegura a liberdade e protege os cidadãos do arbítrio, o segundo garante o seu poder de escolher, influenciar e controlar quem governa em seu nome. O voto, então, é o instrumento pelo qual os eleitores garantem direitos, escolhem governantes e defendem seus interesses.

Mas ele não esgota o princípio de autogoverno dos cidadãos, reclama o entendimento dos eleitores sobre o que está em jogo na política e prevê meios de eles influírem no andamento do processo. Isso remete ao papel dos partidos para evitar que no interregno entre eleições os cidadãos sejam apenas objeto da ação dos eleitos. Para tanto o sistema eleitoral precisa traduzir os desejos e aspirações dos cidadãos no funcionamento das instituições. Se isso está bloqueado, as pessoas se frustram com a política, retiram a sua confiança nas instituições e duvidam que a democracia resolva os problemas da sociedade.

O sistema eleitoral brasileiro tem distorções que comprometem suas funções, como a desproporcionalidade entre a população das circunscrições eleitorais e seu teto de cadeiras na Câmara, resultando em pesos distintos dos eleitores dos Estados, violando o princípio “um homem, um voto”. O caso mais grave é o de São Paulo, que deveria ter mais de cem representantes, mas tem apenas 70, enquanto Roraima, Amapá, Acre e outros têm oito, mas deveriam ter menos.

O sistema proporcional de lista aberta com distritos de mais de 30 milhões de eleitores, como São Paulo, encarece as campanhas, dificulta a escolha de candidatos, estimula a personalização do voto em detrimento de projetos coletivos e favorece a competição entre candidatos do mesmo partido. Outra distorção é o sistema de coligações, que frauda o voto proporcional baseado em posições político-ideológicas e faz o eleitor eleger quem tem posição oposta à sua. O Congresso descontinuou as coligações para as eleições proporcionais a partir de 2020, mas sua manutenção em 2018 afetará a formação da próxima maioria governativa.

As distorções não acabam por aí. A desigualdade da inclusão política das mulheres, que a despeito de serem maioria na população têm menos de 10% de representação parlamentar, é algo gritante. As distorções também dizem respeito ao financiamento de campanhas, cujos recursos serão distribuídos pelas oligarquias partidárias que buscam continuar na liderança dos partidos, bloqueando a renovação política do Congresso. O fundo de financiamento de campanhas criado em 2017 reservou mais recursos aos maiores partidos, dificultando a indicação e a eleição de nomes novos para o Parlamento.

A crise recoloca a reforma política na ordem do dia. Os candidatos à Presidência têm de dizer como pretendem recuperar a confiança das pessoas na política. A agenda de reformas, além da recuperação da economia, inclui a revisão do sistema eleitoral com a adoção de distritos menores, o fortalecimento da relação entre representados e representantes e novas normas de funcionamento dos partidos. O País precisa de uma efetiva cláusula de barreira para diminuir a fragmentação dos partidos e eles precisam ser submetidos a regras de democracia interna se não quiserem ser rejeitados pelos eleitores. Os candidatos precisam sinalizar, portanto, com que maioria querem governar para serem capazes de realizar as reformas requeridas pela democracia brasileira.

O País não resiste a mais crises políticas.

Um presidente nada pode

São mal-informados e, de certa forma, inocentes, os eleitores que acreditam nas promessas mirabolantes de seus candidatos. É incrível como estão seguros e cheios de si os brasileiros que votarão em Bolsonaro pensando que ele vai mesmo resolver tudo na bala. E também os que aceitam sem questionar que Haddad vai conseguir dar uma virada na economia apenas porque tem o apoio do mártir Luiz Inácio.

O fato é que um presidente sozinho nada pode. Ele precisa de apoio do Congresso, do Judiciário e dos diversos mecanismos de controle do Estado para poder encaminhar, debater e aprovar medidas que de fato resultem em mudanças estruturais na vida da nação. Precisa também do apoio dos brasileiros, da sociedade organizada para tocar suas pautas.

Você pode dizer que todo presidente recém-eleito chega fortalecido pelas urnas. Pode ser, mas se o quadro até aqui pintado for este mesmo, o presidente eleito chegará ao Planalto com mais oposição do que apoio.


Mas, o pior é que, na verdade, esta é uma eleição sem propostas. A questão política é tão preponderante que propostas, projetos, ideias de inovação na gestão pública não fazem parte do cardápio da mais crucial sucessão presidencial desde a redemocratização. Além das menções ligeiras, sem profundidade, com nenhuma contestação, pouco ou quase nada se sabe sobre o que querem fazer do país os candidatos a presidente. Estamos num deserto sem qualquer vista para o futuro. O Brasil corre perigo.


Mesmo nos debates, entrevistas e sabatinas promovidos por TVs, jornais, revistas, rádios e sites o tema é predominantemente político. Queria ouvir dos eleitores de Bolsonaro o que eles podem dizer sobre as propostas do seu candidato para a geração de empregos, a dívida pública, o saneamento básico. Duvido que saibam. Tampouco saberiam dizer qual a fórmula dele para a segurança pública. Sim, apesar de ser o candidato mais identificado com a segurança, nada se sabe sobre o que fará para conter a criminalidade no país.

Os eleitores sabem quase tão somente que Bolsonaro é duro, agressivo, misógino, homofóbico, racista e quer liberar o porte de armas de maneira indiscriminada. E daí? Daí, nada. Bolsonaro é uma incógnita. Nem mesmo o seu lado mais civilizado, exercido pelo economista Paulo Guedes, pode ser levado muito a sério. Já foi chamado de exótico e mentiroso e não é respeitado pelos seus pares. Suas ideias ultraliberalizantes são tão simplistas quanto inadequadas.


O mesmo pode se dizer dos eleitores de Haddad. Desconhecem o que propõe o candidato. Como o capitão do PSL, o poste de Lula tem que se ocupar muito mais com a sua defesa e a do seu partido, responsável pelo maior escândalo de corrupção do planeta. Claro que os temas estão todos elencados no programa de governo que ele mesmo ajudou a construir. Mas papel aceita tudo e não é contestado. Um dos principais desenhistas do programa, o economista Marcio Pochmann, ultra-estatista, já foi até desautorizado publicamente por Haddad.

Enquanto isso, o eleitor fica no ar. Os mais esclarecidos podem até saber mais ou menos como pensa cada corrente antagônica que os dois representam, mas se quiser detalhes terá que pesquisar, ir no site dos partidos e ler o que propõem. Mas aí, como já disse, o mundo é cor de rosa por absoluta falta de contra-argumentação.

Bolsonaro não tem TV e não pode, portanto, trazer conteúdo para os 12 segundos de que dispõe. A TV de Haddad prefere dourar a própria pílula, atacar Temer, ignorar Dilma e louvar, louvar e louvar Lula.

O que se ouve aqui e ali dos candidatos são pitacos, para usar um termo apropriado. Mesmo a proposta de Ciro Gomes de limpar o seu nome no SPC merece detalhamento, que ele mesmo disse que uma hora vai apresentar. Geraldo Alckmin, dono do maior tempo de TV, pode se dar ao luxo de apresentar no horário algumas das suas ideias, mas a pressão com a derrota que se avizinha fez do programa dele um campo de guerra. Pode ser a solução, difícil, para ele, mas certamente não será a solução para os problemas do país.

Você pode estar certo se disser: “Dane-se, conheço a ideia central do meu candidato e sei que ele vai corresponder”. Claro, o direito de votar é seu, mas convenhamos que ter informação ajuda muito mais do que atrapalha. Salvo o pouco que se extrai de algumas entrevistas colhidas pelas ruas da cidade, por insistência dos repórteres, pouco mais se sabe do caminho por onde os candidatos a presidente querem levar o Brasil.