segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Guerra dos meninos é anomalia brasileira

Em condições normais, nenhuma intervenção humana seria capaz de alterar a monotonia da curva de mortalidade nas sociedades que venceram obstáculos elementares de nutrição e saúde.

Há um pico inicial na taxa de mortes no primeiro ano de vida, logo revertido, seguido de um incremento suave nas primeiras décadas, que se acentua bastante a partir dos 45 anos. O padrão entre os sexos também segue um curso previsível.
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De 0 a 80 anos, homens morrem mais que mulheres, mas a diferença é altamente concentrada nas três décadas que vão dos 45 aos 75 anos de idade. Características fisiológicas masculinas ainda não acessadas pela medicina provavelmente comandam essa divergência de rotas.

No Brasil, a escala da matança de meninos de 15 a 25 anos modificou o que a nossa economia de renda média faria prever. Essa curta etapa da vida, em que normalmente poucas pessoas morrem e as taxas de mortalidade entre homens e mulheres mal divergem, responde por 8,8% de toda a diferença de mortes entre brasileiros e brasileiras de 0 a 79 anos.

Na Alemanha, que poderíamos tomar por um país normal, apenas 1,2% da diferença na mortalidade entre os sexos ocorre na faixa de 15 a 25 anos. Em resumo, no Brasil morrem sete vezes a quantidade esperada de homens nessa faixa etária. São cerca de 20 mil vidas desperdiçadas a cada ano dessa arriscada juventude.

A violência é o fator que, em conjunto com a estúpida cifra de mortes no trânsito, retira o Brasil da trajetória demográfica que seu nível de desenvolvimento asseguraria. É uma guerra em que meninos matam e morrem aos montes, como naqueles conflitos africanos entre exércitos de crianças. Aqui, entretanto, eles são travados em regiões metropolitanas populosas.

Os senhores que vão tomar conta da segurança no Rio em nome da União deveriam estar cientes desse diagnóstico.

Fred & Ginger.

Seus produtos domésticos são tão poluentes quanto seu carro

A imagem que temos da poluição não voltará a ser a mesma. Uma equipe de cientistas dos Estados Unidos observou, na cidade de Los Angeles, que as emissões de produtos comumente usados em casa — como tintas, vernizes, purificadores de ar, laquê, tintas de impressão, adesivos, pesticidas, cosméticos e produtos limpeza — já contribuem tanto para a poluição atmosférica urbana quanto as emissões de automóveis.

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A explicação são os compostos orgânicos voláteis, hidrocarbonetos que se apresentam em estado gasoso à temperatura ambiente. A atmosfera oxida esses compostos, emitidos por produtos comuns no lar e, através de uma cascata de reações químicas, acabam sendo integrados em partículas suspensas de menos de 2,5 milionésimos de metro. Essas minúsculas partículas entram na parte mais profunda dos pulmões e podem causar doenças respiratórias.

"É surpreendente. Estamos há seis ou sete anos discutindo se era possível. E eu estava entre os defendiam que não era possível", afirma o engenheiro químico José Luis Jiménez, coautor do estudo, publicado na sexta-feira na revista Science. Apenas 5% do petróleo é refinado para obter ingredientes desses produtos para o consumo diário, enquanto 95% é destinado aos combustíveis. No entanto, os pesquisadores afirmam que as emissões de compostos orgânicos voláteis se dividem em 50% entre essas duas fontes em Los Angeles.

"Perfumes, desodorantes, xampus, adesivos, tintas... emitem compostos orgânicos voláteis. Medimos esses compostos na classe da minha universidade, e são muito mais altos pela manhã do que à tarde", explica Jiménez, nascido em Zaragoza, em 1968, e professor da Universidade do Colorado (EUA).

O estudo é baseado em dados coletados na cidade californiana com uma abrangência sem precedentes, mas Jiménez acredita que suas conclusões podem ser estendidas para outros países industrializados. No entanto, reconhece que a falta de dados torna "impossível saber se, na Espanha, é de 15% ou 40%" a porcentagem de compostos orgânicos voláteis emitida por produtos de consumo.


"Os compostos orgânicos voláteis são os grandes esquecidos na avaliação da qualidade do ar", diz Javier Roca, diretor técnico do Laboratório do Centro de Meio Ambiente da Universidade Politécnica da Catalunha. Roca, que não participou do novo estudo, lembra que há compostos orgânicos voláteis extremamente perigosos para a saúde, como o benzeno e o cloreto de vinil; e outros que podem causar danos significativos ao meio ambiente, tais como o acetaldeído, a anilina e o tricloroetileno.

"Cada Governo estabelece limites máximos para cada atividade industrial, e não está claro quais são os tipos de critérios seguidos. O benzeno é o único que aparece nas diretrizes europeias", afirma.

Em 2015, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Castela-Mancha, entre eles a química Florentina Villanueva, analisou os compostos orgânicos voláteis dentro de cerca de 20 casas na cidade de Puertollano, um polo industrial de 50.000 habitantes em Cidade Real. Não encontraram nada preocupante. Para Villanueva, os resultados do estudo de Los Angeles são "surpreendentes".

"Nos países em desenvolvimento, onde grandes quantidades de combustíveis fósseis ou madeira são queimados em ambientes fechados para cozinhar ou aquecer, as emissões de dióxido de nitrogênio ou de partículas podem afetar o ar exterior. No caso de compostos orgânicos voláteis de países desenvolvidos, claramente mais estudos serão necessários para que isso possa ser confirmado", afirma com ceticismo.

Villanueva lembra que não há legislação para o ar interior, enquanto o ar exterior é monitorado por redes de vigilância e sujeito a rigoroso controle. "Por enquanto, minha maior preocupação é como o ar interior afeta a saúde, uma vez que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, passamos 90% de nosso tempo em ambientes fechados, onde as concentrações de muitos poluentes podem ser duas a cinco vezes maiores, como no caso do formaldeído", alerta a pesquisadora. Esse gás incolor, classificado como cancerígeno, é encontrado em pequenas quantidades em muitos produtos de uso diário no lar, como lava-louças, amaciantes e cosméticos, segundo a Agência para o Registro de Substâncias Tóxicas e Doenças dos EUA.

Mario Montes, professor de engenharia química da Universidade do País Basco, acredita que o novo estudo é "impressionante em sua dimensão" e "rigoroso" em sua análise. Na sua opinião, a maior importância relativa dos compostos orgânicos voláteis no ar urbano é uma consequência natural da redução das emissões do tráfego. Na falta de dados concretos, Montes acredita que a situação na Espanha possa apresentar "a mesma tendência, com o habitual atraso em comparação com o que acontece nos EUA".

O novo trabalho foi liderado por pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica e da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, ambos localizados em Boulder (EUA). Jiménez, da Universidade do Colorado, pede tranquilidade: "Não há motivo para se preocupar. É uma oportunidade de sermos mais eficientes. Para reduzir a poluição mais rapidamente, é preciso saber de onde ela vem".

Lápide

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Cada página da história é uma lápide e um epitáfio. Embaixo dessas inscrições dormem os séculos
Raul Pompéia

Viva a ditadura

Abaixo a ditadura. A causa que uniu as esquerdas latino-americanas na segunda metade do século passado já havia se perdido quando o encantamento por Cuba cegou os que escolheram aplaudir os desmandos de Fidel Castro. Agora, diante da tirania venezuelana, foi enterrada de vez. Pior: substituída por “vivas”.

Em defesa do regime insano de Nicolás Maduro, partidos ditos de esquerda do Brasil e no que resta dos governos bolivarianos – Bolívia e Nicarágua – se negam a enxergar a desgraça que se abateu sobre os venezuelanos. Gente sem comida, sem remédios, sem qualquer saída que não seja a fronteira mais próxima.

Mais de um milhão já emigraram, a maior parte para a Colômbia e o Brasil.

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Cerca de 80% dos 30 milhões de venezuelanos vivem na pobreza, metade deles na miséria. Com inflação superando a casa dos 2.500%, o salário de um mês do sortudo que ainda está empregado mal dá para uma pasta de dentes.

Isso em um país com uma das maiores reservas de petróleo do planeta. E que sem o menor pudor atribui sua miséria a essa riqueza extraordinária. Repete a mesma cantilena cubana contra o imperialismo do Tio Sam, que deu sobrevida à ditadura de Fidel por mais de 50 anos.

Por aqui, mais do que vistas grossas às prisões de opositores e outras agressões aos direitos dos venezuelanos, o Partido dos Trabalhadores aplaude Maduro.

Em outubro, a presidente nacional da sigla, senadora Gleisi Hoffmann, louvou o ditador e o PSUV, vitoriosos em eleições cuja lisura foi questionada interna e externamente. Como se vivêssemos em outro planeta, a nota foi inserida no site do PT com o título “Venezuela: mais uma vez, exemplo de democracia e participação cidadã!”

Na sexta-feira, dois dias depois de o presidente Michel Temer decretar estado de emergência social em Roraima, que já recebeu mais de 40 mil refugiados venezuelanos, o PT, por meio de sua Secretaria de Relações Internacionais, disparou mais uma nota pró-ditadura vizinha.

Desta vez em repúdio à “ingerência imperialista” e à “postura subserviente” de chanceleres ao cancelar o convite a Maduro para a próxima reunião da Cúpula da Américas. Segundo a nota, o encontro de Lima, nos dias 13 e 14 de abril, poderá se transformar “em mero convescote do clube de amigos de Donald Trump”.

Surpreendente — mesmo para um partido que fantasia a realidade. Para o petismo, Maduro é perseguido assim como Lula. A fome e a evasão de milhares de venezuelanos são mentiras deslavadas, assim como o mensalão e a corrupção na Petrobras, Correios, fundos de pensão, etc.

A democracia que o PT afirma existir na Venezuela é tão verdadeira quanto a honestidade e a inocência do ex-presidente Lula.

Mary Zaidan

Cinco razões para descrer da intervenção no Rio

Claro que a ideia de uma intervenção capaz de pacificar o Rio de Janeiro é sedutora. Mas a versão segundo a qual as Forças Armadas travarão contra a bandidagem aquilo que Michel Temer chamou de “batalha em que nosso único caminho só pode ser o sucesso” transforma a iniciativa numa espécie de teatro de bonecos —do tipo em que o boneco é manipulado por pessoas vestidas de preto dos pés à cabeça.


Na coreografia do Rio, os manipuladores de Brasília querem que você acredite que o boneco-interventor (pode me chamar de general Walter Souza Braga Netto), levando a virtude no coldre e distribuindo rajadas de civilização, vai estraçalhar o crime organizado em dez meses. E Temer, em Brasília, vibrando. Reconquistando por procuração, sem sair do Jaburu, o território que separa as praias dos morros cariocas. Vão abaixo cinco razões para você não fazer papel de bobo.


1. Faltou planejamento: Decidida na terça-feira de Carnaval, a intervenção foi sacramentada na madrugada de sexta-feira. O decreto foi redigido a toque de caixa. O interventor Braga Netto, recém-chegado das férias, desconhecia a intervenção até 5 horas antes de sua efetivação. A absoluta ausência de planejamento revela que Michel Temer encontrou na astrologia, na quiromancia ou no tarô o otimismo que o levou a prometer que ''o governo dará respostas duras, firmes e adotará todas as providências necessárias para derrotar o crime organizado e as quadrilhas”, devolvendo a paz ao Rio até 31 de dezembro de 2018.

2. Falta Dinheiro: A União está endividada até a raiz dos seus cabelos, caro contribuinte. E a penúria, ninguém ignora, é o caminho mais longo entre um projejo e sua realização. Pois bem. Até o momento, o governo federal não disse uma mísera palavra sobre o custo financeiro da intervenção no Rio. Ao blog, um integrante do staff do ministro Henrique Meirelles (Fazenda) disse que é impossível estimar quanto será aplicado no Rio. Por quê? Ora, muito simples: não havendo planejamento, não há como fazer as contas. De antemão, o auxiliar de Meirelles reitera o óvio: “O cobertor do Tesouro Nacional é curto.”

3. Falta sintonia: Para Temer, o crime organizado do Rio é “uma metástase que se espalha pelo país”. Perguntou-se ao general-interventor se a coisa é mesmo tão grave. E Braga Netto, fazendo sinal de negativo com o dedo: “Muita mídia.” Quer dizer: como um médico que prefere culpar a radiografia a tratar a doença, o general parece responsabilizar o noticiário pela proliferação do sangue, dos assaltos e da violência. O primeiro passo para resolver um problema é falar a mesma língua. Mas Temer e seu preposto conseguem se desentender falando o mesmo idioma.

4. Sobra desconfiança: Na analogia construída pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a intervenção federal no Rio é comparável a um “salto triplo sem rede”. O deputado acrescentou: “Não dá para errar”. A metáfora circense é muito apropriada, pois os personagens envolvidos no trapézio da intervenção precisariam confiar um no outro de olhos fechados. Contudo, o próprio Maia, em privado, manifesta dúvidas quanto aos objetivos de Temer. E membros do alto comando do Exército suspeitam que a iniciativa tenha propósitos meramente eleitoreiros.

5. Falta nexo: em outubro de 2017, o ministro Torquato Jardim (Justiça) fez um diagnóstico aterrador da segurança pública no Rio. Conforme noticiado aqui, Torquato declarou que o governador Luiz Fernando Pezão e o secretário de Segurança do Estado, Roberto Sá, agora demissionário, não controlam a Polícia Militar. Pior: o comando da PM no Rio decorre de “acerto com deputado estadual e o crime organizado.” Muito pior: “Comandantes de batalhão são sócios do crime organizado no Rio.”

As declarações de Torquato abriram uma crise entre os palácios do Planalto e da Guanabara. Contudo, autoridades de Brasília admitiam longe dos refletores que o quadro era, já naquela época, de intervenção. Alegava-se que faltava a Brasília, além de dinheiro, autoridade moral para combater a corrupção alheia.

Cabe perguntar: com que autoridade o general Braga Netto, sendo um ''boneco'' de Temer, vai expurgar os corruptos da polícia? Ora, o presidente da República, ele próprio um colecionador de denúncias criminais, não demite auxiliares denunciados por ladroagem. Tampouco se importa de conviver com o correligionário Luiz Fernando Pezão, ex-secretário de Obras e ex-vice na gestão cleptocrata do presidiário Sergio Cabral.

É contra esse pano de fundo, tão impregnado de cinismo e hipocrisia, que a intervenção no Rio fica parecida com o teatro de bonecos. A diferença é que, no teatro original, a presença dos manipulares de preto no palco é enfatizada. O fingimento da plateia é parte do espetáculo. No palco organizado por Brasília, os manipuladores pedem que você acredite que eles não estão lá e que o general Braga Netto tem ampla autonomia e meios ilimitados para alcançar seus objetivos. . Ou seja: há mais verdade no teatro de mentirinha do que na pantomima da intervenção..

Paisagem brasileira

Hélio de Castro - Óleo sobre tela, assinado no canto inferior direito e verso, 40 cm x 50 cm
Paisagem com rio (1960), Hélio de Castro 

A desgraça como alegoria

Vou tentar fugir do pode não pode, do skindôlelê. Tudo pode. O “É Proibido Proibir” ecoou bonito como tema em vários blocos de rua este ano. Mas há de se pensar muito quando a “solução” das terríveis situações em que vivemos são saudadas como espetáculos desfilando em escolas de samba e em tropas do Exército nas ruas

À base de Bic’s ou Montblancs. Decretação de Intervenção Federal na segurança do Rio de Janeiro. Decretação de calamidade social em Roraima. De canetada em canetada, de pulo em pulo, de reunião em reunião, de declaração em declaração vai se tentando resolver as mazelas do país da forma mais desorganizada. Aos soquinhos. A última foi a extrema de botar general no comando geral da PM e o Exército nas ruas do Rio de Janeiro: o presidente Michel Temer deixa claro que não gostou nadica dos desfiles onde apareceu como, digamos, destaque.

A alegoria de mão virou, então, a caneta dos decretos. Preparem-se, outros Estados! Receberão baciadas de venezuelanos refugiados para darem um jeito. E certamente receberão, com a mala e a cuia na mão, além do fuzil, claro, os líderes meliantes cariocas vindos refugiados dos morros e matas. Quando o Morro do Alemão foi tomado há alguns anos, bandido correndo para tudo quanto é lado, a região metropolitana de São Paulo foi aprazível morada onde vários deles se fixaram.

Mas o que importa, não é mesmo? Além da imagem, da cara de bravo, frases bonitas, da imponência do discurso cheio de metáforas anunciando “restaurar a tranquilidade do povo”. “Nossos presídios não serão mais escritórios de bandidos, nem nossas praças continuarão a ser salões de festa do crime organizado. Nossas estradas devem ser rotas seguras para motoristas honestos", disse Temer, sem corar, do alto do pedestal.
Oi? Uai, a tal intervenção não é só no Rio de Janeiro?

Aí reside o perigo. Se a população que nessas primeiras horas estou vendo aplaudir a medida - até porque o povo carioca vivendo uma guerra insana se agarrará a qualquer coisa - der boa mídia - o Exército que se vire. Podem ser chamados para preencher outros buracos nacionais de poder, de incompetência, de desmandos. Até porque ou haverá uma chacina, ou os “elementos” se espalharão. Prender não tem onde. Já há sérias dúvidas de como os soldados irão comer, onde dormirão, essas coisinhas básicas.

O que irrita é que a falta de planejamento das medidas, da ordenação social, do desenvolvimento das cidades é tão comum que acabamos nos acostumando a arroubos em crises. Seja na segurança perdida, no transporte público travado, nas tragédias sem amparo.

O maniqueísmo culpa a imprensa. Duas cândidas escolas de samba do Rio batem no peito como vitoriosas porque botaram na avenida o que o ano inteiro passou diante dos nossos olhos e ouvidos, e, destaque-se, pela imprensa – assaltos, arrastões, tiroteios e balas perdidas, protestos e muitos etcs –esqueceram que elas próprias são dirigidas por meliantes que incentivam tudo isso. O governo seguiu o exemplo. Botou os soldados em marcha e anuncia que – ah, agora vai! – também vem por aí mais um Ministério! Da Segurança Pública. Dado o nível dos atuais ministros e indicações, só mais umas vagas abertas para negociações.

Tudo isso me lembra muito um problema que estou às voltas: formigas, formiguinhas. Pequeninas, andam em todos os cantos, menos onde poderiam ser pisadas. Impossíveis de serem contidas. Se abandonam um lugar, daqui a pouco surgem em outro local, sempre inusitado, birrentas, num organizado desfile e muita união.

Marli Gonçalves

Desobediência

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Sempre que os juristas tentam justificar a desobediência civil com fundamentos morais e legais constroem a sua argumentação sobre a imagem ou do objecto de consciência ou do homem que testa a constitucionalidade de um texto legal. O problema é que a situação do participante na desobediência civil não tem qualquer analogia com nenhum deles pela simples razão de que ele não existe nunca como individuo isolado; só pode funcionar e sobreviver como membro de um grupo. Isto raramente é admitido e, mesmo nas raras circunstâncias em que o é, só marginalmente é mencionado; "a desobediência civil praticada por um indivíduo não tem probabilidade de ter muito efeito. O indivíduo será olhado como um excêntrico mais interessante de observar do que de suprimir. A desobediência civil significativa, portanto, será praticada por um certo número de pessoas que têm uma comunidade de interesses" 
Hannah Arendth, "Desobediência Civil"

Temer improvisa combate à violência tirando sofá da sala

Conhece aquela história manjada do sofá? É parecida com a intervenção que o Temer fez no Rio. Ele acha que retirando o sofá da sala está resolvido o problema do adultério. Pois é, na falta de planejamento, de recursos e de uma polícia inteligente ele manda botar o Exército nas ruas – repõe o sofá na sala - e pronto: está resolvido o problema da segurança pública. É um show de pirotecnia que não vai dar certo, pois a droga distribuída no Rio envolve bilhões de reais e hoje, por incrível que pareça, é quem ajuda a movimentar a economia falida do estado. E mais: não se combate o crime criando mais um órgão para alimentar o cabide de emprego e sacrificar o contribuinte. Se o ministro da Justiça é incompetente, a solução é simples: demita-o. É mais honroso, melhor do que esquartejar o seu ministério.

Ao contrário do que ocorreu na Colômbia, onde os chefes das drogas foram mortos e alguns deportados para os Estados Unidos, no Rio e em outros estados da federação, o narcotráfico não tem apenas uma cabeça, mas várias. É como a Medusa da mitologia Grega: você extermina uma cabeça e logo aparecem outras e mais outras para fortalecer o monstro que o poder público germinou na terra apodrecida.

Charge do dia 18/02/2018

Boa parte da polícia do Rio está comprometida, tem afinidade com o tráfico e com a venda de armas. O poder público faliu, e o Pezão, para não ficar sem os dedos, preferiu entregar os anéis. Não resistiu a intervenção porque já não governa, chafurdou na lama da corrupção junto com o seu parceiro Cabral e perdeu a moral e a credibilidade para liderar o estado. A declaração inusitada de que aceitou passivamente a intervenção federal é o resultado de um governo fraco, corrupto e inepto. Seria menos vergonhoso que ele renunciasse ao cargo e fizesse uma declaração pública da sua ineficiência e incapacidade e saísse de fininho do palácio.

Na verdade, quem decretou a intervenção no Rio foi o Jornal Nacional com suas edições sobre a violência na cidade. Temer e seus auxiliares foram pautados pela TV Globo, como sempre. Por isso, não acredito na eficiência das suas medidas por improvisadas, pois o problema é epidêmico e envolve fazer uma assepsia na polícia e prender os milionários narcotraficantes intermediários e, por que não dizer, combater com rigor o comércio e o consumo das drogas em alta escala.

O ataque frontal à guerra do tráfico no Rio apenas inibe temporariamente o negócio, mas depois tudo volta ao normal. Durante o policiamento ostensivo, vive-se uma aparente segurança, os bandidos inteligentemente dão uma trégua para simular rendição e depois voltam aos pontos de venda das drogas a céu aberto. Há muito tempo o Rio vem dando sinais de falência na segurança. Os crimes brutais, os tiroteios e os arrastões evidenciam a falta de comando em um estado que foi tomado pela corrupção hierarquizada de cima para baixo. Quando uma criança é assassinada por bandidos ainda dentro do ventre da mãe, conclui-se que a nova geração já nasce morta, vítima dessa violência brutal desmedida que se instalou na cidade.

Engana-se quem pensa que a polícia do Rio vai colaborar com o Exército. Existem atritos entre as corporações: A PM diz-se autônoma e, portanto, vai fazer corpo mole, e a polícia civil, certamente, vai cruzar os braços e torcer pelo fracasso das operações do Exército, que não tem capacidade de desenvolver uma polícia inteligente, pois não foi preparado para fazer investigações no varejo.

A postura do governo federal, repito, é a do marido traído que vê no sofá da sala todos os seus males. Faz-se um alarde danado, alimenta a população de esperança, usa as medidas demagógicas e depois levanta acampamento deixando para atrás uma população assustada, insegura e desprotegida, pois o poder público no Rio de Janeiro definitivamente faliu.

Bem que gostaria de acreditar no arrefecimento da violência na cidade, mas duvido da eficácia da sua operação pela forma amadorística como é conduzida. O ministro da Defesa, Raul Jungmann, que já havia identificado o conflito entre o Exército e as forças policiais do estado, decidiu incentivar a intervenção para assumir sozinho a responsabilidade pelo combate a violência.

É uma aposta arriscada quando você desloca tropas do Exercito, formadas por jovens soldados, para combater outro exército, o da droga, que conhece palmo a palmo o seu campo de batalha.

O déficit de soberania da Amazônia

A crise venezuelana, que despejou de uma só vez cerca de 50 mil refugiados em Roraima, agravando a crise social do estado, expõe o desconcerto da política indigenista brasileira, que une a retórica esquerdista aos interesses geoestratégicos do capital internacional.

O general Augusto Heleno, que era o comandante militar da Amazônia, ao tempo da demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, em 2008, advertiu para os danos econômicos e sociais da expulsão dos arrozeiros, cuja produção respondia por 8% do PIB do estado.

Expulsos, tornaram-se favelados em Boa Vista e a economia local empobreceu. Eram mais de 300 famílias, além de seus empregados, quase todos de etnia indígena, mas sem a grife de “aldeados”. Os 1,7 milhão de hectares da reserva – quase o estado de Sergipe – ficaram com os 20 mil índios aldeados.

Aos demais 500 mil habitantes, sobraram os 25% da área do Estado que escapou das demarcações.

“Alertei sobre a falta de critério daquela demarcação ideológica. Economistas avisaram que a expulsão dos arrozeiros era medida social e economicamente desastrosa”, relembra o general.

E acrescenta: “Hoje, a situação criada pela ditadura bolivariana de Maduro poderia ser contornada pela ampliação da cultura arrozeira e pelo consequente emprego de boa parte da mão de obra estrangeira que chegou a Roraima. Infelizmente, vêm aí mais improvisação e desordem urbanas”.

Resultado de imagem para ongs chargeOs desacertos da política indigenista brasileira podem ser medidos em números: os 600 mil índios aldeados, de tribos diversas, são titulares de 13% do território nacional, enquanto os demais 200 milhões de brasileiros habitam apenas 11%. Os dados são do IBGE.

Acresce que, exatamente nessas terras indígenas, cuja extensão eles sequer abarcam, estão algumas das maiores reservas de minérios do planeta, fora do alcance do Estado brasileiro, mas não de grupos econômicos internacionais, que, via ONGs, estabelecem linha direta com as tribos, como se fossem nações independentes.

O comandante do Exército, general Villas-Boas, fala de “déficits de soberania” na região. Foi, quando comandante militar da Amazônia, surpreendido pela presença do rei da Noruega, Harald V, que, sem qualquer comunicado às autoridades brasileiras, foi hóspede dos yanomamis, entre 22 e 25 de abril de 2013. Só comunicou sua visita uma semana depois de deixar o país.

São mais de 100 mil ONGs, a maior parte estrangeiras, na Amazônia. Ditam a política indigenista, ao lado de órgãos da esquerda Católica, exercendo pleno domínio sobre a Funai.

Uma delas, a norueguesa Rainforest Foundation Norway, promoveu a visita do rei. A embaixadora daquele país, Aud Marit Wiig, defende o financiamento estrangeiro às comunidades indígenas. E ressalta que os da etnia Sami, sustentados por verbas de seu país, já têm hoje seu próprio parlamento. Daí para um assento na ONU é um passo. A Rainforest defende a ampliação das reservas.

E o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Igreja Católica, financia e incita invasões de índios a fazendas produtivas, algumas há mais de um século tituladas, segundo denúncia de uma CPI de 2015, da Câmara, presidida pelo deputado Alceu Moreira. Segundo ele, “esse crime é de laboratório e feito a muitas mãos”.

A solidariedade humana aos índios não se estende ao Nordeste. As vítimas das secas dispõem de exatamente zero ONGs para atendê-las. Lá, não há minérios: só humanos, sem direitos.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Paisagem brasileira

Mucugê (BA)

Pai do Dois Bicos

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Um morcego estonteado pousou certa vez no ninho da coruja, e ali ficaria de dentro se a coruja ao regressar não investisse contra ele.

– Miserável bicho! Pois te atreves a entrar em minha casa, sabendo que odeio a família dos ratos?

– Achas então que sou rato? Não tenho asas e não vôo como tu? Rato, eu? Essa é boa!…

A coruja não sabia discutir e, vencida de tais razões, poupou-lhe a pele.

Dias depois, o finório morcego planta-se no casebre do gato-do-mato. O gato entra, dá com ele e chia de cólera.

– Miserável bicho! Pois te atreves a entrar em minha toca, sabendo que detesto as aves?

– E quem te disse que sou ave? – retruca o cínico – sou muito bom bicho de pêlo, como tu, não vês?

– Mas voas!…

– Voo de mentira, por fingimento…

– Mas tem asas!

– Asas? Que tolice! O que faz a asa são as penas e quem já viu penas em morcego? Sou animal de pelo, dos legítimos, e inimigo das aves como tu. Ave, eu? É boa…

O gato embasbacou, e o morcego conseguiu retirar-se dali são e salvo.
Moral da Estória:
O segredo de certos homens está nesta política do morcego. É vermelho? Tome vermelho. É branco? Viva o branco!
Monteiro Lobato

Barbárie do Rio dá meia-sola no governo Temer

A barbárie do Rio de Janeiro revelou-se muito oportuna para Michel Temer. Potencializada pelo Carnaval, a barbárie estimulou o presidente. Ele andava meio desanimado com a perspectiva de ser empurrado para o rodapé de um noticiário monopolizado pelas eleições. A barbárie deu a Temer uma sensação de utilidade.

A barbárie permitiu que o chefe da nação fizesse rostos graves. Em menos de 24 horas, Temer perfilou-se diante das câmeras três vezes —em solenidade no Planalto, em rede nacional, em visita ao Rio. A barbárie aguçou a inteligência do presidente. As ideias agora brotam-lhe aos pares. Sob atmosfera sombria, vieram à luz duas providências.


Nenhum texto alternativo automático disponível.

Uma medida é inédita em tempos redemocratizados: o setor de segurança encontra-se sob intervenção federal no Rio. A outra iniciativa é recorrente: vem aí o Ministério Extraordinário da Segurança Pública.

A intervenção no Rio é prima-irmã da operação de garantia da lei e da ordem que transferiu os militares dos quarteis para o sopé das favelas cariocas. Mas a barbárie trouxe o comando unificado do general-interventor Walter Souza Braga Neto.

O novo ministério apenas absorverá pedaços do organograma da velha pasta da Justiça que, aliás, já trazia a Segurança Pública enganchada no nome desde o ano passado. A diferença é que a barbárie exigiu um ministro que lhe dedicasse atenção exclusiva.

A barbárie roçou no nariz de Temer as pesquisas encomendadas pelo PMDB, que guindavam a segurança pública ao topo das inquietações do brasileiro. Súbito, a reforma da Previdência, uma derrota esperando para acontecer na Câmara, foi substituída pela guerra contra a bandidagem, cujo objetivo é a restauração da paz.

Graças à barbárie, Temer se deu conta de que o futuro é um espaço bem mais seguro do que o passado que lhe rendeu duas denúncias criminais e uma equipe ministerial moralmente decomposta. O futuro permite a qualquer governante vender para seus governados mais crédulos uma felicidade jamais vista.

A barbárie mostrou ao presidente que no futuro cabe tudo, pois, sendo futuro, não pode ser apalpado nem conferido. O futuro que inclui um Rio pacificado talvez não chegue nunca. Mas a barbárie já terá sido de imensa serventia para Temer se o crime organizado perceber que pode ser ótimo para os negócios deixar Ipanema em paz durante os dez meses de intervenção federal.

A barbárie revelou ao país que Temer é capaz de quase tudo, menos de informar o montante de dinheiro que a União está disposta a jogar no buraco negro em que se converteu a segurança pública. Sem dinheiro, o discurso do novo Temer é uma espécie de inócuo com mesóclises.

Para sorte de Temer, a barbárie ofusca o senso crítico dos barbarizados. A cegueira coletiva facilita muito as coisas, pois o PMDB sujo de Brasília pode intervir na administração do PMDB mal lavado do Rio como se a facção de Temer não tivesse nada a ver com a quadrilha de Sérgio Cabral.

A barbárie dá ao país a sensação de que Temer está fazendo muito. É como se tudo estivesse em movimento sem que nada precisasse mudar de lugar. Reprovado por 70% dos brasileiros, Temer enxerga na barbárie a renascença de uma reeleição. Talvez não obtenha tudo o que imagina. Mas a barbárie do Rio de Janeiro deu meia-sola no governo de Michel Temer.

Aos poucos, Europa está se cansando do turismo

Uma multidão se aglomera em frente à Fontana di Trevi, em Roma. Chegar perto exige paciência e esforço para romper a barreira formada por turistas. Quando a aproximação é bem-sucedida, fica impossível admirar com calma a beleza de uma das principais atrações da capital italiana.

Situações assim são rotina em várias partes da Europa. E, há alguns anos, vêm começando a incomodar moradores, diante de um processo conhecido como turistificação – o processo de transformação espacial e socioeconômica de regiões em detrimento do interesse turístico.

Moradores veem sua qualidade de vida sendo reduzida ao serem obrigados a conviver com turistas, muitas vezes barulhentos e que não respeitam as regras locais. Em diversas regiões, a turistificação provoca a expulsão de habitantes devido à explosão nos preços dos aluguéis.

Veneza é um dos exemplos mais gritantes. A cidade italiana perdeu praticamente a metade de sua população em apenas 30 anos. Estimativas apontam que, se esse desenvolvimento seguir o ritmo atual, pode ocorrer a "extinção" dos venezianos na cidade.

Não somente moradias foram destinadas ao turismo, mas também muitas lojas locais. A estrutura da cidade sofre ainda com a circulação de cruzeiros na região, que danificam mais as já fragilizadas fundações dos prédios locais, feitas de madeira sobre um terreno pantanoso.

Outras cidades europeias, como Lisboa, Berlim, Madri, Amsterdã e Dubrovnik, sofrem problema semelhante. Na capital da Islândia, Reykjavík, de 122 mil habitantes, os números dão uma dimensão do fenômeno: em 2008, recebeu 450 mil visitantes; uma década depois, a cifra passa de 2,5 milhões.

Em Barcelona e em Palma de Mallorca, o descontentamento levou moradores a protestar em meados do ano passado contra o turismo de massa. Os manifestantes levavam cartazes com os dizeres "o turismo mata" e chegaram a comparar a atividade com o terrorismo.

Em 2017, o turismo internacional movimentou 1,3 bilhão de pessoas pelo mundo, um aumento de 7% em relação ao ano anterior. O maior aumento (8%) foi registrado na Europa, que recebeu 671 milhões de visitas. A Organização Mundial de Turismo (OMT) prevê a continuação deste crescimento, que deve chegar a 1,8 bilhão em 2030.

"O grande desafio neste cenário é garantir um crescimento sustentável, incentivando mudanças no comportamento dos turistas, encorajando práticas sustentável e minimizando qualquer efeito adverso que o desenvolvimento da atividade possa causar nos destinos", afirma Sofía Gutiérrez, do Departamento de Desenvolvimento do Turismo Sustentável da OMT.

Diante dos atuais problemas e da perspectiva de crescimento, algumas cidades europeias procuram caminhos para conter o turismo de massa e, ao mesmo tempo, promover a atividade de uma maneira sustentável.

"As cidades querem o turismo, mas perceberam que há um limite e agora buscam soluções para conduzir a onda de turistas sem acabar com a atividade", acrescenta Frank Herrmann, autor do livro FAIRreisen - Das Handbuch für alle, die umweltbewusst unterwegs sein wollen (Viagem justa – Manual para todos que querem viajar com consciência ambiental, em tradução livre).

Já Amsterdã anunciou, em outubro de 2017, a proibição da abertura de novos estabelecimentos comerciais voltados para turistas no centro da cidade, como lojas de suvenires e restaurantes fast-food. Além disso, já havia banido a circulação de ônibus turísticos e cruzeiros na região central, além de proibir a construção de novos hotéis.

A capital holandesa, assim como Barcelona e Berlim, adotou ainda regras para banir o aluguel temporário de moradias e conter desta maneira a explosão nos valores dos aluguéis. A ascensão de plataformas digitais, como Airbnb, facilitou esse tipo de negócio, tornando essa disponibilização de moradias muito mais lucrativo do que o convencional em cidades com intensa movimentação turística.

Gutiérrez destaca que, com a revolução tecnológica, esses modelos de negócios continuarão se expandindo e, por isso, é necessário que os destinos entendam as realidades deste novo mercado e regulamentem suas operações caso a caso.

Amsterdã está entre os destinos pioneiros que investiram na regulamentação do serviço. A cidade estipulou que proprietários de imóveis podem disponibilizar apartamentos em plataformas digitais, como Airbnb, por apenas 60 dias, e a partir de 2019, somente por 30 dias.

Em Barcelona, o governo congelou a concessão de licenças para novos hotéis e trava uma batalha contra o aluguel ilegal de apartamentos. Em dezembro de 2016, a prefeitura chegou a multar o Airbnb em mais de 600 mil euros por disponibilizar no portal moradias que não estavam legalizadas.

Na capital alemã, uma legislação proíbe desde o ano passado esse tipo de negócio sem a autorização prévia da prefeitura. A proibição, porém, enfrentou resistência do Airbnb e de donos de imóveis que entraram na Justiça contra a medida. Berlim voltou atrás e aprovou nesta semana o aluguel temporário de apartamentos inteiros sem legalização junto à prefeitura por até 60 dias por ano. O aluguel de quartos é permitido sem restrições.

Uma banalização

Imagem relacionadaDia desses li uma notícia sobre o espantoso caso da prisão japonesa na qual, a cada dois dias, um detento é torturado. Fiquei a meditar sobre isso. Afinal, o Japão é um país que nos encanta a todos por seu elevado nível civilizacional. Os carcereiros de suas prisões não são, em absoluto, pessoas desprovidas de educação - e muito pelo contrário.

Em Israel, não faz muito tempo, denunciaram que presos são torturados com golpes na cabeça e colocador a dormir em camas infestadas por insetos. É curioso: trata-se de outro país civilizado, notoriamente religioso. Seus carcereiros não são, evidentemente, bárbaros!

Da Suíça, outra referência mundial em civilidade, saiu um chocante relatório noticiando episódios de tortura praticados por policiais. Chamou-me a atenção o caso de um preso mantido nu e algemado com as mãos nas costas, sofrendo violências por inacreditáveis cinco horas! Isto surpreende, dado que os policiais suíços, cuidadosamente selecionados, são pessoas equilibradas.

Um outro episódio que me chamou a atenção foi o da prisão de Abu Ghraib, no Iraque, palco de repulsivos atos de tortura praticados por militares britânicos e norte-americanos. Afinal, são pessoas que receberam educação e treinamento. Li, pelos jornais, diversas reportagens retratando suas vidas - todas elas absolutamente normais, de "gente como a gente".

No Brasil não é diferente, e toda a população é testemunha disso. Passa-me pela lembrança, agora, o caso das dezenas de presos nus, sentados sobre cimento quente, expostos ao sol, sofrendo queimaduras horríveis - alguns chegaram a ficar com os ossos à mostra. Por que isso? Ao fim do cabo, os responsáveis pela gestão do sistema penitenciário são pessoas educadas, selecionadas segundo critérios bastante rígidos.

O fato, resumindo, é que a tortura faz-se presente em todos os países do mundo - dos mais avançados aos mais atrasados. Por que será? Fico a recordar um conceito elaborado pela filósofa Hannah Arendt, qual o da "banalidade do mal": em resultado da massificação de conceitos, podem surgir comunidades incapazes de fazer julgamentos morais. O mal torna-se, assim, banal. Será que a banalização da tortura teria alguma relação com o fato de tantos defenderem, ainda que de forma velada, que tudo é aceitável contra certo tipo de gente?

Pedro Valls Feu Rosa

Imagem do Dia

Port Alberni (Canadá)

Empulhação

As Forças Armadas, com o Exército à frente, são a organização mais respeitada do Brasil. Dão de 10 a 0 no Supremo Tribunal Federal, no Ministério Público, nos juízes que ganham o “auxílio-moradia”, na mídia e no Congresso Nacional. Ganham de longe de qualquer organização civil ─ sindicatos, empresas estatais ou privadas, confederações disso ou daquilo, clubes de futebol, OABs e similares. É melhor nem falar, então, da Igreja Católica e das CNBBs da vida ─ e muito menos desses lúgubres “movimentos sociais”, entidades de “minorias” e outros parasitas que vivem às custas do Tesouro Nacional. Enfim, as Forças Armadas têm mais prestigio que qualquer outra coisa organizada que exista neste país. Militar não rouba. Militar não falta ao serviço. Militar não é nomeado por político. É exatamente por essas razões ─ por ter nome limpo na praça, e valer mais aos olhos do público do que todos os três poderes juntos ─ que o Exército foi chamado para defender um Rio de Janeiro invadido, tomado e governado na prática por um exército de ocupação de criminosos. Mas é só por isso, e por nada mais: o governo chamou os militares, porque esta é a única maneira de tentar mostrar à população que está “fazendo alguma coisa” contra a derrota humilhante que lhe foi imposta pelos bandidos. O Exército não pode derrotar o crime no Rio de Janeiro. Nenhum exército foi feito para isso, em nenhum lugar do mundo. Pode haver algum alívio durante um certo tempo, mas depois a tropa tem de sair ─ e aí o crime volta a mandar, porque é o crime, e não o governo e sua polícia, quem manda no Rio de Janeiro.


O governo Michel Temer, no caso, é culpado por empulhação ─ mas só por empulhação. Pela situação do crime no Brasil, com seus 60.000 assassinatos por ano, recordes de roubos, estupros e violência em massa, e a entrega da segunda maior cidade do país à bandidagem, as responsabilidades vão muito além. A culpa pelo desastre, na verdade, é conjunta ─ o que não quer dizer, de jeito nenhum, que ela é dos cidadãos. Ela é de todos os que têm algum meio concreto de influir na questão e não fazem o seu dever. Como é possível enfrentar a sério o crime se temos leis, um sistema Judiciário e agentes do Estado que protegem ativamente os criminosos? Afinal, do jeito em que está a ordem pública no Brasil, eles têm praticamente o direito de cometer crimes. A maior parte da mídia mantém uma postura de hostilidade aberta à polícia ─ nada parece excitar tanto o fervor do noticiário do que as denúncias contra a “violência policial”. Obedece, ao mesmo tempo, a mandamentos de simpatia e compreensão perante os criminosos, sempre tratados apenas como “suspeitos”, vítimas da situação “social” e portadores prioritários de direitos. A maior parte dos 800.000 advogados do país é contra qualquer alteração que torne menos escandalosa a proteção e garantias fornecidas ao crime pelas leis atualmente em vigor. Policiais são assassinados em meio à mais completa indiferença ─ policial bom é policial morto, parecem pensar governo, oposição e quem está no meio dos dois. Os bispos, as ONGs, as entidades de defesa dos direitos humanos, as variadas “anistias” internacionais que andam por aí, as classes intelectuais, procuradores, juízes, políticos e mais uma manada de gente boa são terminantemente contra a repressão ao crime. Punição, segundo eles, “não resolve”. Sua proposta é esperarmos até o Brasil atingir o nível educacional, cultural e social da Noruega ─ aí sim, o problema estará resolvido.

A jornalista Dora Kramer, na sua coluna da última edição de VEJA, escreveu o que está para ser dito há muito tempo e ninguém diz: a cidade do Rio de Janeiro vive, hoje em dia, como se estivesse ocupada por uma tropa de invasão nazista. Nem mais nem menos. Um invasor do país tem de ser combatido com guerra, e não com decretos, criação de “ministérios de segurança” e a intervenção de um Exército que é mandado à frente de combate com as mãos amarradas. Não tem estratégia clara. Não tem missão definida. Não tem a proteção da lei. Não tem o direito de usar suas armas dentro da finalidade para a qual elas foram projetadas e construídas. Não tem meios adequados sequer para proteger os seus próprios soldados ─ muito menos, então, para atacar o inimigo. Enquanto for assim, o Rio continuará entregue aos invasores.

Escolas não são vozes indicadas para clamar por justiça e liberdade

O que me faz refletir no momento é a intensa repercussão, na esquerda brasileira, desses dois enredos vencedores. Historicamente, as escolas de samba têm diversas manifestações de crítica social e política. Caprichosos de Pilares, São Clemente, Unidos da Tijuca, Império Serrano e tantas outras enfrentaram a censura e até o boicote, sem grande repercussão. Por que, neste momento, Beija-Flor e Tuiuti viraram ícones da luta política?

A explicação que encontro é que está em falta um canal de expressão da revolta, da justa insatisfação e do desencanto do brasileiro com a situação do País. Por isso estão aceitando inadvertidamente o grito que sai da boca errada. As vencedoras não são as vozes indicadas para clamar por justiça e liberdade, porque ambas são usuárias, na vida interna, de práticas antidemocráticas.


A Beija-Flor fez enredos elogiosos à ditadura no início da década de 1970 e com isso subiu ao Grupo Especial, onde se mantém até hoje. Nos arquivos da ditadura se encontra uma carta dirigida ao general ditador, solicitando ajuda para manter a escola na elite do carnaval, para continuar louvando os feitos da “Revolução”. Chegada a democracia, não se inibiu de cantar em enredo os feitos do então presidente Lula. Há dois anos, louvou a Guiné Equatorial e seu ditador. Para mim, isso tem nome: oportunismo. Quando o samba-enredo nos conclama a “aprender com a Beija-Flor”, eu me pergunto se estou interessada nas lições que ela tem a ensinar.

Quanto ao Paraíso do Tuiuti, sua trajetória é maculada por episódios de truculência e pela adoção de práticas internas alheias à democracia. O grupo que tomou o poder na escola há cerca de 15 anos, após a chegada da escola ao Grupo Especial em 2001, foi o mesmo que, após levar a escola ao Grupo B, tramou a fusão dos grupos A e B para que a escola subisse sem vitória. No carnaval passado, última colocada, não foi rebaixada graças a um acidente que provocou a morte de uma profissional da imprensa, atropelada por um carro alegórico desgovernado do Tuiuti. Com isso, não houve rebaixamento e a escola ficou na elite.

Nos preparativos do carnaval deste ano, acabou com a disputa interna para escolha do samba-enredo, prática que faz parte das tradições e ritos das escolas e suas alas de compositores - e encomendou samba a compositores de reconhecido talento, em um atalho muito desrespeitoso com os poetas da escola. Zumbi, de onde nos assiste, deve estar envergonhado com esse “quilombo da favela”. Tanto quanto a maior parte dos brasileiros, quero justiça e igualdade. Mas, em momentos de polarização, a esquerda deve ficar atenta para não comprar gato por lebre.

O manifesto ausente

Há 120 anos, em 15 de janeiro de 1898, o jornal "Le Temps" publicou uma petição por um novo julgamento do major Ferdinand Esterhazy, o verdadeiro culpado pelo ato de traição atribuído a Alfred Dreyfus. Além de Émile Zola, autor do "Eu acuso", assinavam-na Anatole France, Émile Durkheim, Marcel Proust, Claude Monet e várias outras figuras da vida cultural francesa. Naquele dia, nascia a tradição moderna dos manifestos políticos de intelectuais. A catástrofe humanitária na Venezuela pede, urgentemente, um manifesto de nossos intelectuais de esquerda. Duvido, porém, que eles tenham a clareza moral necessária para escrevê-lo.

A petição de 1898 cumpriu relevante função pública, ao contrário da maioria dos manifestos que vieram depois, quase sempre consagrados a fins tolos, frívolos ou francamente abjetos. Como regra, intelectuais assinam declarações políticas para servir a um partido ou causa sectária --e isso nos melhores casos, ou seja, quando não se trata simplesmente de cimentar lucrativas relações profissionais ou acadêmicas. A constatação aplica-se a intelectuais de esquerda e de direita, mas principalmente aos primeiros, que cultivam mais tenazmente o hábito do abaixo-assinado.

Hoje, porém, devo pedir justamente a eles que façam, uma vez na vida, o que fizeram Zola e cia: escrever para proteger valores preciosos.

The Legitimacy of Maduro

Não conhecemos com precisão a dimensão da tragédia, pois o regime de Maduro proibiu o acesso à Venezuela da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA. Mas o relatório parcial que ela produziu descreve um cenário de desnutrição infantil e carência generalizada de medicamentos básicos. Reportagem do "Washington Post" revela que famílias desesperadas já abandonam seus filhos pequenos em orfanatos.

"As pessoas já não conseguem mais comida. Entregam seus filhos exatamente porque os amam", explicou Magdelis Salazar, assistente social em orfanato de Caracas. Junto com o fluxo de refugiados rumo à Colômbia e ao Brasil, configura-se a paisagem típica de um país em guerra --com a diferença de que não há guerra. Chico, Marilena, Comparato, Dallari, Alencastro, Maria Victoria, Fornazieri, Singer —onde estão vocês?

A aliança entre Caracas e Havana derivou do encontro do desvario ideológico chavista (o projeto da unidade da América Latina contra os EUA) com o cálculo realista castrista (a subvenção da economia cubana pelo petróleo venezuelano). No início de 2012, durante os dois meses de sua agonia em Cuba, Chávez organizou com os Castro a transição do poder para Maduro. O pacto desigual conferiu ao regime castrista o controle sobre os aparatos de segurança do Estado venezuelano, que é exercido por agentes dos órgãos de inteligência cubanos. A goma dos assessores cubanos imobiliza o chavismo crepuscular, prevenindo dissidências e impedindo uma saída negociada. O manifesto ausente faz falta pois Havana guarda a chave de uma solução pacífica para a Venezuela.

Nessas circunstâncias especiais, a palavra dos intelectuais de esquerda pode exercer uma efetiva influência indireta. O persistente silêncio deles serve como cobertura do apoio dos partidos brasileiros simpatizantes do castrismo à ditadura de Maduro. A ruptura do silêncio cúmplice --na hora do êxodo venezuelano e da pré-campanha presidencial no Brasil-- alteraria os termos da equação. O regime castrista precisa da legitimidade oferecida pela esquerda latino-americana. Sob pressão do PT, do PSOL e do PC do B, Havana possivelmente se moveria, reproduzindo o que fez no caso das Farc colombianas.

Nossos intelectuais de esquerda especializaram-se em manifestos partidários ou destinados a causas mesquinhas, como pedir o escalpo de algum articulista inconveniente. Que tal variar, em defesa dos direitos humanos dos venezuelanos comuns? Dessa vez, companheiros, vocês não são irrelevantes.

Demétrio Magnoli