sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Demissão

O q vc é quando ninguem está vendo ?
Este mundo não presta, venha outro. 
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

José Saramago

Troca-troca partidário envolve oferta de dinheiro

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Prepare-se para retirar as crianças da sala no mês que vem. Os políticos se autoconcenderam uma autorização para mudar de partido durante o mês de março sem sofrer punições. Abriu-se o que eles chamam de “janela partidária”. Nesse exato momento está acontecendo uma aberração que logo escalará as manchetes na forma de mais um escândalo: a pretexto de seduzir políticos com bom potencial de votos, partidos lavajatistas estão oferecendo dinheiro. É verba pública. Sai do fundo eleitoral. Alega-se que tudo será usado na campanha. Sabe Deus! Há ofertas de mais de R$ 2 milhões.

O Tribunal Superior Eleitoral acaba de potencializar esse balcão ao autorizar os partidos a despejaram na caixa registradora da eleição o dinheiro público do Fundo Partidário, que serve para bancar o funcionamento das legendas. Com isso, o fundo eleitoral, que era de R$ 1,7 bilhão, pode ser vitaminado em mais R$ 888 milhões, saltando para mais de R$ 2,5 bilhões.

Arma-se nos subterrâneos da política uma arapuca para o próximo presidente da República. Partidos fisiológicos de porte médio não gastarão dinheiro com candidatos ao Planalto. Muitos não disputarão nem os governos estaduais. Por quê? Querem concentrar seus investimentos na eleição de congressistas. Com bancadas maiores, os caciques desses partidos terão mais dinheiro do Fundo partidário e mais força para chantagear o sucessor de Michel Temer. Seja quem for, o próximo presidente será prisioneiro do mesmo círculo vicioso que produziu a Lava Jato. Os políticos desonestos não perdem por esperar. Eles sempre ganham.

Imagem do Dia

Robin Hood's Bay (Inglaterra)

O grande roubo

Repararam na denúncia contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu? 100 mil dólares, menos de 340 mil reais, esse é o valor de presentes que ele teria recebido de um empresário amigo - segundo denúncia formal da polícia. Claro que corrupção é corrupção - foram presentes em troca de favores do governo - mas vamos reconhecer: uma mixaria, um dinheiro de troco quando comparado aos valores descobertos pela Lava Jato aqui e na América Latina.

Eis alguns números: Israel tem uma população de 8,3 milhões e um PIB de US$ 350 bilhões. Portanto, um país de renda elevada. O governo lá gasta em torno de US$ 102 bilhões ao ano.

Tomemos agora El Salvador. População de 6,2 milhões, para um produto total de US$ 27,1 bilhões. O PIB per capita é muito pobre, de apenas US$ 4,3 mil/ano. E o governo tem despesas anuais de meros US$ 6,7 bilhões.

Quanto maior o governo e maiores suas despesas, maiores as possibilidades de corrupção, certo? Mas não foi bem assim.

O ex-presidente de El Salvador Mauricio Funes foi recentemente condenado pela Justiça de seu país a devolver ao governo 200 mil dólares. Seu filho, Diego Funes, tem que devolver um pouco mais, US$ 212 mil, mas pelo mesmo motivo, enriquecimento ilícito.

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Ou seja, o roubo per capita, digamos assim, é infinitamente maior em El Salvador. Tem mais, porém. O marqueteiro João Santana disse que Lula e Antônio Palocci mexeram os pauzinhos para que a Odebrecht financiasse a campanha de Funes, isso em 2009. Marcelo Odebrecht disse que atendeu o pleito e mandou mais de US$ 1,5 milhão para a campanha em El Salvador.

Entre parênteses: eleito, Funes recebeu empréstimo do BNDES, para cuja assinatura recebeu o então presidente Lula. E mais uma "coisinha": processado depois que deixou o governo, Funes conseguiu asilo político na Nicarágua, presidida por seu amigo bolivariano, Daniel Ortega. Interessante, não é mesmo?

Voltando ao tema central: não se trata de absolver Netanyahu por roubar pouco. Trata-se aqui de mostrar o tamanho inacreditável da corrupção espalhada pela América Latina, especialmente via Odebrecht.

Alguns exemplos: no Equador (população de 16,2 milhões, PIB de US$ 98,5 bilhões), o atual vice-presidente , Jorge Glas, está condenado a seis anos de prisão. Segundo a delação da Odebrecht, foram nada menos que US$ 33 milhões as propinas pagas a agentes públicos, incluindo o vice-presidente.

No Peru (31 milhões de habitantes, produto de US$ 210 bilhões) a Odebrecht declara pagamentos superiores a US$ 50 milhões. Um ex-presidente está preso, Ollanta Humala, um foragido, Alejandro Toledo, e o atual, Pedro Paulo Kuczynski, escapou do impeachment por oito votos. Todos acusados de serem "beneficiados" por recursos ilegais da Odebrecht.

No pequeno Panamá (população de 3,7 milhões, PIB de US$ 59 bilhões), a Odebrecht tinha, ainda tem, muitas obras - aeroporto, estradas e metrô - além de ter levantado um belíssimo museu, desenhado pelo celebrado arquiteto Frank Gehry. Na entrada desse museu, está lá: "Patrono Odebrecht". Segundo as delações da empreiteira brasileira, foram mais de US$ 60 milhões em propinas, boa parte do dinheiro depositada diretamente na conta dos filhos do então presidente Ricardo Martinelli.

É certamente a maior corrupção per capita da América Latina. O ex-presidente foi preso nos Estados Unidos, pela Interpol, depois de condenado em seu país. Os filhos estão foragidos. O governo do Panamá também recebeu financiamentos do BNDES.

Mario Vargas Llosa ironizou. Algum dia, comentou, a gente vai ter que dar um prêmio, levantar um monumento, alguma coisa assim, para a Odebrecht. Isso mesmo, por ter desvendado o tamanho da corrupção nesta América Latina.

Ela mesmo paga.

Roubar está sempre errado. Mas roubar tanto, em países tão pobres, com populações tão carentes, é certamente um grande roubo.

Em tempo: o ex-presidente da Guatemala Alvaro Colom foi preso na última terça-feira, com vários ex-ministros. Mas desta vez, a Odebrecht não está n o meio. Teria sido propina na compra de ônibus.

E todos, claro, incluindo Netanyahu, negam tudo.

Judiciário brasileiro é 3,5 vezes mais caro que o alemão

O custo do Poder Judiciário brasileiro voltou aos holofotes após a revelação de que juízes da Operação Lava Jato recebem auxílio-moradia mesmo quando possuem imóveis nas cidades em que trabalham. Em 2017, o auxílio-moradia para juízes e procuradores custou 399 milhões de reais aos cofres públicos. O valor, no entanto, empalidece quando comparado aos gastos totais do Judiciário: 84,8 bilhões de reais em 2016, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

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Os brasileiros pagam por um dos sistemas judiciários mais caros do mundo. O valor de 2016 representou 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. No mesmo período, os gastos com a Justiça na Alemanha alcançaram apenas 0,4% do PIB. Ou seja, o Judiciário brasileiro custa, relativamente, 3,5 vezes mais aos cofres públicos do que o alemão. A diferença é expressiva mesmo se for considerado que o PIB alemão é o dobro do brasileiro.

Outras comparações também evidenciam como os brasileiros gastam mais. Em 2015, o Judiciário alemão custou em média 150 euros (cerca de 600 reais) por habitante. No Brasil, a proporção foi de 413,51 reais no mesmo período. O valor mais alto na Alemanha não significa que seus habitantes pagaram proporcionalmente mais, já que a renda per capita dos alemães é quase cinco vezes a dos brasileiros.

Na questão salarial, o Brasil também destoa da Alemanha, especialmente no pagamento aos juízes. Segundo dados do CNJ, cada juiz custou aos cofres públicos 47,7 mil reais em 2016. O valor supera claramente o teto constitucional de 33 mil reais.

Para contornar o limite, salários são turbinados com extras, como o auxílio-moradia, auxílio-alimentação, auxílio-paletó, auxílio-educação, adicional mais alto nas férias, entre outros, que não são descontados no imposto de renda. Graças a esses penduricalhos, os magistrados ganham em média 572 mil reais por ano.

Na Alemanha, os valores podem variar conforme o tribunal (instâncias superiores pagam mais), o cargo (posições de chefia têm salário maior), o tempo de serviço e o estado da Federação. Os maiores salários são pagos aos juízes das cortes federais superiores. A média na Alemanha é de 110 mil euros anuais (442 mil reais) – consideravelmente inferior ao salário dos juízes do Brasil.

Nas cortes distritais, os valores são ainda mais baixos. Um juiz alemão experiente, com pelo menos 20 anos de carreira num tribunal distrital, pode almejar 77 mil euros anuais (310 mil reais) – quase a metade do salário dos ganhos médios dos juízes brasileiros.

Para os juízes em início de carreira, os valores são ainda mais baixos. Em alguns tribunais estaduais, como em Baden-Württemberg, um magistrado em início de carreira recebe 3.347 euros (13.450 reais) por mês.

Em média, quando consideradas as variações regionais, o salário inicial de um juiz é de 45 mil euros anuais (180.800 reais), segundo dados da Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça – juízes brasileiros podem receber o triplo desse valor já no início da carreira, graças ao salário-base e os penduricalhos.

Também não há extras comparáveis ao sistema brasileiro. Uma das raras benesses que os juízes alemães recebem é um auxílio para pagamento de despesas médicas. O mesmo vale para os procuradores.

Na Europa em geral, o auxílio-moradia que causou discórdia no Brasil só existe em países como Portugal, Ucrânia, Rússia, Turquia e Montenegro, segundo dados da Comissão Europeia.

Alguns estados alemães pagam um "bônus de Natal" para os servidores públicos (inclusive juízes), mas os valores não passam de algumas centenas de euros. Em Berlim, por exemplo, o bônus rendeu entre 640 e 900 euros extras para os magistrados no final do ano passado.

Tal como os juízes brasileiros, os alemães também costumam se queixar dos salários. Os ganhos iniciais de juízes estaduais e de instâncias superiores são menores do que em países vizinhos, como Áustria e Bélgica.

Em 2014, um grupo de juízes e procuradores do estado alemão de Saxônia-Anhalt se queixou dos valores junto ao Tribunal Constitucional Federal. Meses depois, a corte avaliou que, de fato, os salários de início de carreira do estado estavam abaixo do necessário para a subsistência. Recentemente, juízes e procuradores da Baixa Saxônia apresentaram queixa similar.

Segundo associações de juízes da Alemanha, tais salários desestimulam candidatos à magistratura, que acabam sendo levados a seguir a carreira advocatícia, onde os ganhos potenciais são maiores. Hoje há um déficit de 2 mil juízes nos tribunais estaduais do país, e os estados enfrentam dificuldades para preencher as vagas.

Em média, os juízes alemães em início de carreira ganham apenas 16% a mais que a renda média do país. No Brasil, os juízes ganham em média 2.100% a mais.

O contraste entre o sistema alemão e o brasileiro também ocorre no pessoal. Mesmo sendo mais caro até mesmo em valores absolutos (em 2015 o Judiciário alemão custou cerca de 50 bilhões de reais), o Brasil tem menos juízes do que o país europeu. São oito para cada grupo de 100 mil habitantes. Já a Alemanha tem cerca de 24 juízes por 100 mil habitantes.

Em ambos os países, o grosso do orçamento vai para o pagamento de pessoal. Mas as semelhanças param por aí. No Brasil, a folha de pagamento consumiu 89,5% dos 84,8 bilhões em 2016. Só que a maior parte desse valor não foi destinada aos magistrados, mas aos servidores (ativos e inativos) e auxiliares (terceirizados, estagiários, entre outros). Na Alemanha, a percentagem de gasto com pessoal se manteve em 70% do orçamento do Judiciário nos últimos anos.

O quadro do Judiciário brasileiro contava com 424 mil pessoas em 2016, e a proporção alcançou 205 funcionários para cada grupo de 100 mil habitantes. Na Alemanha, mal alcança 67 para cada 100 mil habitantes.

Deutsche Welle

'A grande tragédia brasileira é que o Estado não tem resposta para a violência'

Desde meados de 2016, as duas maiores facções criminosas do Brasil estão rompidas. A disputa entre a facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC)e o Comando Vermelho (CV) está presente nos conflitos que extrapolaram as cadeias e atingem a população de Manaus, Boa Vista, Porto Velho, Natal e o Rio de Janeiro. Recentemente, o secretário de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Goiás, Ricardo Balestreri, admitiu que a disputa entre as facções foi o principal motivo da rebelião que deixou nove mortos e 14 feridos no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia logo no primeiro dia do ano. Semanas depois, no final de janeiro, o Ceará viveu a maior chacina de sua história, com o assassinato de 14 pessoas no bairro de Cajazeiras, periferia de Fortaleza. A imprensa noticiou que os atiradores pertenciam à facção GDE (Guardiões do Estado), aliados locais do PCC, e que as vítimas participavam de um forró promovido pelo CV. A disputa do PCC pelo Estado — em que o CV era predominante — abertamente em áudios divulgados pelo UOL de um grupo de whatsapp que, segundo o portal, é de membros do PCC cearense.

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Para Camila Nunes Dias, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP), professora da Universidade Federal do ABC (UFABC) e autora do livro PCC: hegemonia nas prisões e monopólio da violência(Editora Saraiva), o mais preocupante é a incapacidade do Estado em se antecipar à violência gestada nas prisões. “Toda a redução ou o aumento da violência, nas ruas e nas prisões, vai depender da própria população carcerária e dos grupos criminosos”, analisa. Ela vê a disputa pelo domínio nas prisões como o principal motivo do rompimento entre os maiores grupos criminosos do país, diz não haver soluções de curto prazo para o conflito entre as facções e critica a política de guerra às drogas. “Já foi demonstrado que em nenhum lugar do mundo a guerra às drogas teve sucesso, nunca se conseguiu reduzir as demandas pelas substâncias proibidas e, portanto, ela é incapaz de impedir a comercialização”, afirma.

Quais são os principais reflexos do rompimento entre o PCC e o Comando Vermelho nas ruas e nas cadeias passados quase dois anos?

Acho que uma das questões mais centrais quando se trata a respeito dessa questão é a profunda incapacidade do Estado de garantir a segurança dos presos e das populações, sobretudo aquelas que vivem em territórios e regiões controladas por esses grupos. A gente percebe que a disseminação das facções, como esses grupos são chamados, traz um profundo impacto sobre a questão da violência de uma forma geral. Muitas vezes quando se anunciam programas que visam reduzir os homicídios e há uma queda na taxa de homicídios, por exemplo, como aconteceu no Ceará há alguns anos, essa queda muitas vezes está ligada à composição entre esses grupos, a alianças, acordos que eles fazem entre si. Como você teve o anúncio dos números do Ceará Pacífico [programa de redução da violência lançado em 2015 pelo governador Camilo Santana], por exemplo, você vê como essas políticas públicas são frágeis diante das dinâmicas das facções. Uma análise que para mim fica bastante evidente, não só diante desses acontecimentos atuais, mas pegando de uma perspectiva mais de longo prazo e cotejando isso tudo com a questão de política pública, você vê que na verdade não há política pública. Então quando a gente se vê numa situação em que os grupos deixam de conviver entre si e isso se rompe, o Estado, como não tem política pública, é incapaz de prevenir situações de extrema violência como as que estamos vendo agora no Ceará, no Rio Grande do Norte e em vários outros estados brasileiros.

Do início do ano para cá, já tivemos uma rebelião sangrenta no Goiás e, segundo a imprensa, a maior chacina da história do estado do Ceará. Ambos os episódios foram associados ao PCC e poderiam ser reflexos do rompimento com o CV. Isso sinaliza um aumento dos conflitos em nível regional por conta desse rompimento entre as facções?

Acho difícil avaliar se há uma escalada de crescimento nos conflitos. O PCC e o Comando Vermelho são dois grupos que têm uma maior presença nacional, principalmente o PCC, mas o CV também. Quando, há dois anos atrás, eles anunciaram uma ruptura, era claro que isso apontava para uma perspectiva de ter conflitos graves justamente por serem grupos de presença nacional e até então, desde a fundação do PCC – quando o Comando Vermelho já existia – eles conviviam entre si. Os presos de ambos os grupos ficavam nas mesmas penitenciárias, nas localidades onde um ou outro grupo tinha maior presença, e essa convivência era muitas vezes de colaboração, de parcerias comerciais. Quando há essa ruptura anunciada lá em junho de 2016, houve essa perspectiva de uma grande desestabilização entre os grupos criminosos dentro e fora das prisões. Os dois – CV e PCC – têm presença em quase todos os estados. E a gente vê, de 2016 para cá, que foram muitos momentos, picos de extrema violência e desestabilização. Tivemos episódios em Roraima, no Amazonas, Rio Grande do Norte, Ceará, enfim, vários estados viveram picos e crises de segurança e depois estabilizaram. Essa estabilização eu entendo que é fruto de um lado da própria ação do Estado, no sentido de apagar incêndios, e de outro lado é fruto de uma certa acomodação dos próprios grupos, afinal ninguém aguenta ficar se matando o tempo todo. Depois, ou estoura uma outra crise no mesmo local ou, como tem ocorrido de 2016 para cá, a crise e o pico de violência migram para outra localidade. Infelizmente, no Brasil, a gente não tem uma política de segurança pública e nem uma política prisional, os estados só se mexem e anunciam alguma coisa em situações de crise como essas que estamos assistindo. No Ceará, com essa crise agora, monta-se uma força-tarefa, assim como aconteceu em Alcaçuz [penitenciária estadual no Rio Grande do Norte, palco de uma rebelião que deixou 26 mortes]. Aquilo momentaneamente estabiliza, mas na verdade você não está mudando de uma maneira estrutural. Você momentaneamente segura essa tensão. Quando essas coisas acontecem, os holofotes se viram para o estados e algumas medidas emergenciais são tomadas. Os outros estados vivem situações semelhantes, mas enquanto a crise não explode, nada é feito. O que fica de tudo isso, em uma análise mais global, é que os estados não têm nenhuma capacidade de prevenir essa situação de violência – toda a redução ou o aumento da violência, nas ruas e nas prisões, vai depender da própria população carcerária e dos grupos criminosos. Essa é a grande tragédia brasileira. O Estado não tem respostas para dar a esse cenário. As respostas dadas: policiamento militarizado e mais prisões – essas são a raiz dos problemas e o Estado tem mostrado que não tem respostas.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Estereótipos e privilégios

Por inércia, a opinião pública vai-se habituando a chamar de “privilégio” a aposentadoria do servidor público, enquanto, de outra parte, dedica o mais reverencial silêncio às dinheiramas que são transmitidas por herança, praticamente livres de impostos, aos descendentes dos milionários. Se os filhos de ricos não são os maiores privilegiados deste país, os mais protegidos pela estrutura que pereniza a desigualdade, quem, então, é o privilegiado? Um professor que leciona e pesquisa por 30 ou 40 anos para depois se aposentar com proventos à altura do salário? O que dizer de quem herda bilhões sem nunca ter trabalhado, pagando uma ninharia de imposto?

Privilégio? Tomemos cuidado com as palavras. Elas são signos ideológicos, ensinava Bakhtin. Todas as palavras. Exemplos não faltam. Quando chamamos de “vândalos”, “baderneiros” ou “criminosos” os mascarados que atiram pedras nas vitrines no calor das manifestações de rua no Brasil, enquanto, de outra parte, chamamos de “jovens rebeldes” os também mascarados que praticam os mesmíssimos atos nos protestos em Caracas, quem fala em nossa fala é a ideologia, e nós não nos damos conta (a ideologia tem disso: ou é inconsciente, ou não é ideologia).

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Cuidado com as palavras. Uma trama de escolhas se esconde sob a superfície do léxico e o falante fala sem saber o que fala. A vida é assim. Há quase um século, o jornalista Walter Lippmann fez o diagnóstico preciso: nós nos comunicamos por estereótipos, que funcionam como rótulos simplificadores, mais ou menos como caricaturas, pelos quais a língua vai definindo as coisas de forma rasa, opaca, chapada e altamente eficiente. Palavras como “folião”, “torcedor”, “evangélico” e “sem-teto” são estereótipos. Servem para resumir os tipos humanos. Ao mesmo tempo, reduzem e apequenam a descrição desses mesmos tipos humanos. Não há como ler o mundo sem a ajuda dos estereótipos, mas, ao mesmo tempo, quem vê o mundo pela lente dos estereótipos, e só por ela, perde de vista as contradições que estão por baixo da superfície, ou seja, perde a visão do todo.

Agora um novo estereótipo vem sendo martelado nos meios de comunicação para enxovalhar o funcionário público. As palavras “privilégio” e “privilegiado” são os alicerces de uma campanha de desmoralização do funcionalismo. A campanha é oficial. Trata-se de uma ação deliberada de ninguém menos que o governo federal. Isso mesmo: os servidores brasileiros são caluniados pelos seus superiores hierárquicos (os governantes). Estamos diante de uma infâmia.

Sabemos todos que reformar a Previdência é uma agenda inadiável e imprescindível. Ninguém de posse da razão deixará de reconhecer essa verdade. O problema está, mais do que nas propostas mal costuradas, na propaganda insidiosa pela qual o governo alega defender a causa da reforma. O discurso oficial – endossado, estimulado, emulado e patrocinado por amplos setores do capital e da sociedade civil – escalou para o papel de vilão os funcionários públicos, que aparecem na foto como os causadores da “conta que não fecha”. Segundo a campanha, é preciso acabar com os “privilégios” que travam o desenvolvimento do Brasil. Não, o governo e seu coro não se estão referindo aos faraós do nosso crony capitalism de abadá, nem às celebridades hiperempreendedoras viciadas nas mamadeiras do BNDES. Para o governo, “privilegiados” são os que fizeram carreira no serviço público e se aposentaram.

Temos, enfim, que o funcionalismo é o novo vilão nacional. Mas que vilão é esse? São brasileiros comuns, que sobrevivem medianamente e um dia acreditaram na promessa do Estado de que, se topassem trabalhar recebendo proventos limitados, sem os altos benefícios e os bônus elevados que podem ser alcançados na iniciativa privada, teriam, no final da vida, uma aposentadoria digna. Agora, o mesmo Estado, que antes pedia renúncias no presente em nome da segurança futura, o mesmo Estado que afirmava, com base na lei, que a aposentadoria um pouco melhor era um direito, passa a estereotipar seus servidores como “privilegiados”.

Isso não está certo. Por mais que existam distorções – algumas aviltantes – nos holerites do funcionalismo, essa generalização não é justa. Em nome do respeito humano e da honestidade intelectual, temos o dever de questionar os bordões dessa campanha. O governo federal, secundado por seus corneteiros, que orientam, reverberam ou multiplicam a campanha, está conseguindo pregar na testa dos servidores o rótulo de sanguessugas, aproveitadores, parasitas; está conseguindo substituir o velho estereótipo do funcionário público, que já era muito ruim – o estereótipo do “barnabé”, do incompetente, do acomodado –, pelo novo estereótipo de chupim endinheirado. Chegamos, com isso, ao arremate caprichoso de um processo industrial de fabricação de estereótipos que consagrou uma certa ideologia – ela mesma um estereótipo obtuso – que só vê o Estado como fator de atraso e só vê virtude no mercado sem lei.

Ninguém aqui vai negar que o serviço público acomoda rapinagens inaceitáveis, como essa gambiarra criptojurídica, mal disfarçada sob a rubrica esperta de “auxílios” (auxílio-moradia, auxílio-livro, auxílio-isso, auxílio-aquilo), cujo propósito é burlar o teto constitucional. Essas distorções têm de acabar, é claro. Mas essa campanha corrosiva não quer acabar com as distorções. O propósito dela é outro: ela quer acabar com a respeitabilidade do servidor público no Brasil. Para quê? Talvez para esconder a real responsabilidade pelo rombo que aí está, responsabilidade que é dos governos e dos legisladores, sempre omissos, e não do funcionalismo.

E o truque está dando certo. Por obra de uma prestidigitação publicitária paga com recursos públicos, os servidores estão levando a culpa e se converteram no objeto do ódio invejoso de uma nação em crise. Onde está o privilégio?

De volta para o futuro

Um estrangeiro que tenha passado a primeira metade do mês de fevereiro no Brasil pode ficar com a impressão de que vivemos no melhor país do mundo. Milhões de pessoas fantasiadas ocuparam as ruas das cidades, em blocos organizados ou informais, demonstrando uma alegria incontida e uma despreocupação contagiante. A mídia, tanto a tradicional quanto a virtual, só teve olhos e espaço para explorar imagens de mulheres seminuas, famosos de ocasião, personalidades do dia. É como se suspendêssemos a vida por um momento.

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Enquanto isso, no Brasil real, as forças políticas, as que verdadeiramente importam, vão se movimentando visando as eleições gerais de outubro. O objetivo principal é perpetuar, a qualquer custo, os privilégios da elite que mantém o país refém de seus interesses desde sempre. Uma elite que usufrui das benesses do poder, pairando olímpica acima de partidos e ideologias, e que agora caça um nome que possa dar continuidade ao projeto de desmontagem do Estado, iniciado pelo presidente não eleito, Michel Temer.

O nome da vez é do apresentador de programas de auditório da Rede Globo de Televisão, Luciano Huck. Jovem e carismático, Huck tem como padrinho o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e como trunfo a superexposição de seu rosto todos os domingos, há 18 anos, em boa parte dos lares brasileiros, principalmente os de classe média baixa. Huck, que já havia renunciado à possibilidade de se candidatar à sucessão de Temer, sinaliza que pode voltar atrás, após seu bom desempenho na última pesquisa de intenções de voto do Datafolha.

Uma coisa é certa. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aparece liderando todas as simulações das eleições de outubro, dificilmente conseguirá transferir votos para um outro candidato. O personalismo caudilhista de Lula é de tal ordem que sua imagem há muito se descolou do PT e da esquerda. Seus eleitores são seus, não do partido. Ausente do pleito, seu espólio se dispersará. E aqui entra a aposta de Fernando Henrique, a de que Luciano Huck poderia amealhar boa parte dos votos destinados a Lula, pois ambos fascinam o mesmo público.

De qualquer maneira, esse mesmo público é também alvo dos evangélicos. Ano a ano, a bancada no Congresso ligada a igrejas pentecostais e neopentecostais cresce. Em 1998, eram 47 deputados federais, hoje já são 93 deputados federais e três senadores. O objetivo da campanha deste ano é chegar a 150 deputados federais e 15 senadores. A estratégia é lançar apenas um candidato ao Senado por Estado e um ou dois candidatos a deputado federal regionalmente ligados a igrejas evangélicas, e, mais que tudo, conquistar o eleitor do Norte e Nordeste ainda fiel a Lula.

Ou seja, cada vez mais, a aliança com os evangélicos se torna crucial para vencer as eleições presidenciais. Lula só conseguiu ser eleito Presidente da República em 2002, após três derrotas consecutivas, quando se aproximou dos evangélicos. Para agradar aos novos aliados, o PT acabou adotando uma agenda mais conservadora e pontos de discussão antes cruciais de seu programa – como aborto, relações homoafetivas, desarmamento, reforma agrária, entre outros – foram flexibilizados ou simplesmente engavetados.

O nome de Huck parece muito mais viável à elite brasileira que o do seu candidato natural, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pouco conhecido fora do Estado e destituído de carisma. E o apresentador de televisão poderia sem problema algum associar-se aos evangélicos. Até porque, no país do carnaval, as igrejas pentecostais e neopentecostais, que têm como rebanho preferencial a classe média baixa, adotam com unhas e dentes os mesmos interesses que são da elite...

Senão vejamos: a defesa incondicional do patrimônio privado, seja o do proprietário de centenas de imóveis urbanos, seja do latifundiário; o porte de armas extensivo a todos os cidadãos; a fé cega na iniciativa individual, e, portanto, crença no estado mínimo; o uso da força no estabelecimento da segurança pública – todos esses temas são convergentes entre os que estão no topo da pirâmide social e as lideranças evangélicas. Escola sem partido? Legislação anti-aborto? Esses detalhes não preocupam a elite brasileira, pois ela não usa os sistemas públicos de educação e saúde. E, cá entre nós, ela sempre se manteve acima da lei, porque, ao fim e ao cabo, a elite é a lei...

Gente fora do mapa

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Hong Kong, Fan Ho

Transporte grátis na terra do automóvel?

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Digam agora que os políticos não são mais capazes de grandes reformas! Está lá, preto no branco, na carta que a ministra do Meio Ambiente, Barbara Hendricks, o ministro da Agricultura, Christian Schmidt, e até mesmo o chefe da Chancelaria Federal, Peter Altmeier, enviaram à Comissão Europeia, em Bruxelas: a Alemanha avalia um transporte público gratuito. Ao menos em algumas cidades. E somente se nada mais ajudar, se a qualidade do ar em algumas cidades alemãs simplesmente não quiser melhorar.

Imagine só: simplesmente entrar no ônibus, no bonde ou no metrô sem ter que pagar. Não há dúvida: aí muitos cidadãos deixariam seus carros em casa, e o ar ficaria melhor – ao menos no longo prazo. Onde mais existe algo parecido no mundo? Talvez na Estônia, na Bélgica, aqui e ali na Rússia. Mas na Alemanha, a terra das autobahns e dos carros potentes de luxo? Isso seria de fato uma novidade.

Com razão, a associação das empresas de transporte alertou que o crescimento no número de passageiros seria enorme, e que novos bondes, mais funcionários e talvez também novos trilhos custariam bilhões. O dinheiro seria bancado pelo contribuinte. Os três ministros signatários da carta veem a coisa do mesmo jeito. Eles propõem que os municípios que desejarem acabar com a cobrança sejam apoiados pelo governo. Só para deixar claro de que valores estamos falando: hoje, todas as cidades alemãs juntas faturam 12 bilhões de euros por ano com passagens de transporte público.

O que essa iniciativa surpreendente de Berlim deixa claro é o tamanho do nervosismo nos ministérios responsáveis: ao longo de anos, sobretudo os carros a diesel fizeram com que os limites de emissões de óxidos de nitrogênio nas cidades alemãs fossem ultrapassados sem que houvesse consequências. Em nove dias, o Tribunal Administrativo Federal, em Leipzig, vai decidir se proibições de circulação são legais quando as emissões estiverem muito elevadas. E as chances de que isso aconteça não são ruins.

Só que o governo – tanto o atual, interino, como também o próximo – quer evitar a todo custo as proibições de circulação. E a Comissão Europeia já sinalizou que as medidas até aqui adotadas pelo governo alemão contra a poluição do ar não bastam. Por isso a midiática cúpula do diesel, no ano passado, com a indústria automobilística, as promessas de carros menos poluentes e de melhorias nos carros a diesel.

Claro que as passagens gratuitas em ônibus e bondes não são uma má ideia. E quem mais, além dos alemães, conseguiria pô-las em prática? O sistema de transporte público já é muito bom, sobretudo nas grandes cidades. Mas gratuito? Quanto tempo levaria para os municípios se adequarem à onda de passageiros, vindos de todo o mundo? O ar vai mesmo ficar melhor? E o governo agirá com esse mesmo radicalismo contra os responsáveis, as fabricantes de automóveis e seus sistemas a diesel? Sobre tudo isso ninguém falou.

Antigamente, o grito de guerra da indústria automotiva alemã era "cidadãos livres devem viajar livremente!" Com isso, queria-se dizer que, na Alemanha, não havia limite de velocidade nas autobahns nem de potência para os motores. Liberdade era pisar no acelerador. E agora, quem sabe, o sonho de todos os ambientalistas, ciclistas e pedestres vai se tornar realidade pela porta dos fundos. Porque os políticos, por muito tempo, ignoraram quantos poluentes foram lançados no país do automóvel.
Jens Thurau

Quando você viu pela tv....

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porto alegre, 2016
quando você viu na tv
aquelas pessoas em fila na chuva
à noite numa estrada
na fronteira de um país que não as deseja
e quando você viu as bombas
caírem sobre cidades distantes
com aquelas casas e ruas
tão sujas e tão diferentes
e quando você viu a polícia
na praça do país estrangeiro
partir pra cima de manifestantes
com bombas de gás lacrimogêneo
não pensou duas vezes
nem trocou o canal
e foi pegar comida
na geladeira
não reparou o que vinha
que era só uma questão de tempo
não interpretou como sinal a notícia
não precisou estocar mantimentos
agora a colher cai da boca
e o barulho de bomba é ali fora
e a polícia pra cima dos teus afetos
munida de espadas, sobre cavalos

Angélica Freitas

Não é Lula, é o déficit

Claro que o processo ainda não terminou. Mas está claro também que o maior problema de Lula agora não é saber se terá ou não seu nome na urna, mas se e quando será preso. Ele não foi apenas condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e por unanimidade. No conjunto, os votos dos três desembargadores do TRF-4 sustentam, com infinidade de argumentos, que houve um grande e organizado esquema para corromper a política, a democracia e a República. E que Lula estava no centro desse esquema.

Consequências: a primeira é que Lula tornou-se ficha suja, inelegível, portanto. A segunda: o ex-presidente tem outros seis processos, todos no mesmo esquema, ao cabo dos quais a condenação é mais do que provável. Por exemplo: se os juízes entenderam que o ex-presidente era dono oculto do apartamento do Guarujá, onde nunca passou um dia sequer, o que dizer do sítio, onde ele e sua família se instalaram e passaram muitos fins de semana e feriados?

Em todos esses outros casos, a julgar pelo teor dos votos de ontem, aparecem os mesmos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

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Claro que o ex-presidente ainda tem recursos nos tribunais. Mas o alcance e o tempo encolheram. No caso concluído ontem, só cabe o tal embargo declaratório, no mesmo tribunal. Trata-se de coisa simples, em que a defesa só pode pedir esclarecimentos sobre a redação da sentença. O julgamento disso é rápido, especialmente considerando o tempo do TRF-4,

Depois disso, o ex-presidente ainda pode ir ao Superior Tribunal de Justiça. Mas encerrado o processo no TRF-4, já pode ser decretada a execução da pena. Ou seja, Lula pode ser preso, em regime fechado.

Ainda há brechas para pedido de habeas corpus e tantos outros esperneios mas, de novo, a chance do ex-presidente é baixa. Mesmo porque, quando estiver batalhando no primeiro processo, nas cortes de Brasília, virão outras condenações em Curitiba e Porto Alegre.

Também é verdade que o PT poderá tentar registrar a candidatura de Lula, mesmo estando ele condenado. Aí, caberia ao Tribunal Eleitoral negar a candidatura, pela lei da ficha limpa. O caso pode chegar ao STF, mas o PT e seus aliados estarão cometendo suicídio eleitoral se insistirem com num candidato tão enrolado na Justiça.

Mais vale ainda para os aliados. Quem vai querer se suicidar junto?

Por outro lado, também está claro que o PT não vai conseguir incendiar o país. O ex-presidente passou por uma condução coercitiva - aliás considerada legal e pertinente no TRF-4 - foi julgado e condenado duas vezes e o que temos? Manifestações limitadas a militantes cada vez mais escassos. Pode haver algum quebra-quebra, mas as ruas não serão ocupadas pelas massas.

Dizem alguns: se Lula for preso, isso dará munição ao PT e à tese da vitimização.

Errado. Mais provável que aconteça a mesma coisa que se viu até aqui: protestos isolados e segue a vida.

Aliás, este é um ponto a favor da estabilidade institucional e política. Trata-se de um líder popular, ex-presidente, mas que, em processo regular da Justiça, foi considerado culpado. Cumpra-se a sentença, e pronto. É a lei, que vale para todos.

Além disso, a economia segue em processo de recuperação, agora apoiada pela expectativa dominante de que Lula não será candidato. Por isso, sobe a Bolsa e caem dólar e juros.

Dizem os petistas: sem o ex-presidente, a eleição é fraude. Ora, nem os candidatos de esquerda deixarão de participar do pleito, mesmo que gritem a favor dessa tese.

E mesmo o pessoal do PT passa a pensar no seu próprio futuro. Há candidatos a governador, senador, deputado - políticos que precisam fazer uma campanha minimamente organizada, para pedir votos a todos os eleitores, não apenas aos militantes. Não vão conseguir isso numa longa briga judicial ou tentando incendiar as urnas.

Tudo considerado, quem sabe agora haja mais espaço para o país se concentrar no seu grande problema. Não é Lula, é o brutal déficit das contas públicas que ameaça soterrar todo o esforço de recuperação.

Paisagem brasileira

João Pessoa (PB)

As balas perdidas encontram crianças aqui no Rio

Há quem diga que o carioca está desligado de seu sofrimento. Não está não. Quem está desligado de nosso sofrimento é o Governo Federal que não assumiu ainda as rédeas desta cidade. O Rio não pode continuar nas mãos deste desgoverno que promete tanto e nada faz.

Sofremos diariamente com notícias terríveis. Estamos perdendo nossas crianças e não me refiro apenas às vítimas fatais de tiroteios entre policiais e bandidos, bandidos e bandidos e policiais e policiais.

Refiro-me também ao desprezo que temos pelo nosso futuro. Como assim? Bem, em minha opinião, ao não demonstrar, com vigor, aos jovens, que não queremos continuar a viver sob o terror em que estamos vivendo. Temos que mostrar-lhes que não estamos nada satisfeitos com essa situação. Temos que lhes fazer ver que eles são o que temos de mais importante e que suas vidas são nosso maior valor.

Neste mês de fevereiro perdemos duas crianças e estamos com outra internada em estado grave, as três vítimas de tiros. A TV noticia as mortes e nos mantém a par do estado do pequenino internado, mas em seguida nos mostra a cidade em pleno batuque, sambando como se não houvesse vítimas a prantear.

Será que estamos com o coração tão leve a ponto de sambar e cantar, livres, leves e soltos?

Sei que muitas pessoas acham que o Carnaval alivia o sofrimento, permite que o povo desabafe. Acham que a festa anima e dá nova vida à cidade. Eu me pergunto o seguinte: não era melhor primeiro retomar o controle de nossa cidade e só então festejar o Carnaval? Ou será que acham que durante o Carnaval os bandidos viram anjos?

O governador Pezão, que foi vice-governador do presidiário Sergio Cabral, não teve tempo para ler o projeto do Governo Federal para a retomada da Segurança Pública aqui em nossa cidade pois tinha uma reunião em Brasília com outros governadores para assuntos de interesse geral do Brasil. Será que eram assuntos mais importantes que a tenebrosa situação do Rio de Janeiro?

O que não adianta é fingir que não estamos em perigo. É perigo e é grave, medonho, pois está roubando nosso maior tesouro, as crianças.

Perdemos, desde 2007, 44 crianças vítimas de tiroteios, segundo a ONG Rio de Paz. Em 2017 foram dez as vítimas. E agora, no início de 2018, já temos três vítimas:

Jeremias, de 13 anos, não estava na escola porque a instituição estava fechada por ordem da polícia. Morreu baleado.

Emiliy, de 3 anos, saía de uma lanchonete acompanhada dos pais. Morreu.

E nós estamos em estado de vigília pedindo a Deus pela recuperação de João Pedro, de 4 anos, que está numa UTI em estado grave. Foi vítima de um tiroteio.

Confesso que já ando com medo de ler os jornais, ou ligar a TV ou o rádio, e ficar sabendo de mais crianças vítimas de tiroteios.

E peço um favor: não digam que o Rio não sofre com essa situação. Sofre, sim. E muito.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Nome do problema não é Cristiane nem Segovia

O problema do governo tem nome e sobrenome. Políticos e jornalistas o chamam ora de Cristiane Brasil, ora de Fernando Segovia. Se estivessem certos, a solução seria simples. Bastariam uma esferográfica para a assinatura do presidente e um par de folhas para o ato de nomeação de outra pessoa para o Ministério do Trabalho e para a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal. Mas estão todos enganados.

Chama-se Michel Temer o problema do governo. Chegou ao Planalto como solução constitucional para a autocombustão que consumiu o mandato de Dilma Rousseff. Virou um problema porque, não tendo como elevar sua estatura política às dimensões exigidas pelo momento histórico, optou por rebaixar o pé-direito do Planalto. Revelou-se um pequeno presidente. Bem menor do que seria razoável.


Nesta quarta-feira, que deveria ser de cinzas, a ministra Cármen Lúcia manteve acesa a fogueira que transforma a novela Cristiane Brasil num filme de terror que já dura 44 dias. A magistrada reiterou que cabe ao STF, não ao STJ, a palavra final sobre a moralidade da nomeação de uma ministra do Trabalho com condenações trabalhistas. Mas se absteve de expedir um veredicto.

Se Michel fosse menos Temer, mandaria Roberto Jefferson e sua filha às favas e acomodaria no Ministério do Trabalho alguém com mais biografia do que folha corrida. Mas o subpresidente não tem músculos para desafiar o minúsculo PTB de Jefferson. Ou o partido indica outro nome ou as cenas de terror se prolongarão indefinidamente.

Quanto ao chefão da Polícia Federal, o investigado Temer concorda que ele falou demais. Mas decidiu ser compreensivo. O problema é que o ministro Luís Roberto Barroso avalia que Segóvia precisa de interrogatório, não de compreensão. Relator do processo em que Temer é suspeito de beneficiar uma empresa portuária, Barroso ouvirá Segovia na segunda-feira. Por que insinuou que o processo será arquivado? Por que deixou no ar a hipótese de punir o delagado que investiga o presidente?

Se Temer não fosse tão Temer, José Sarney jamais teria ousado indicar Segovia para o comando da PF. E o denunciado Eliseu Padilha não estaria na Casa Civil, pronto para avalizar um apadrinhado capaz de azeitar a Operação Abafa a Jato. E não haveria na coordenação política do Planalto um Carlos Marun para migrar da condição de ex-chefe da milícia parlamentar do bandido Eduardo Cunha para a de defensor número um do comandante da Polícia Federal.

Temer parece decidido a obrigar os brasileiros a viverem num Brasil alternativo. Um país fictício em que nada de reprovável acontece. Nesta ficção, em nome da continuidade das reformas, ninguém vai reparar que o presidente não está à altura do cargo que ocupa.

O humor das ruas

Não sobrou ninguém em pé. O Brasil da Lava-Jato emergiu nos blocos e nas escolas de samba numa bem-humorada devassa política. O compositor João Roberto Kelly expôs a fadiga com o Judiciário e seu augusto tribunal em marcha nacional: “Alô, alô, Gilmar/ Eu tô em cana, vem me soltar/ Eu roubei, eu roubei, eu roubei/ Não estou preso à toa/ Mas no mundo, não há quem escape/ De uma conversinha boa.”

No Rio, o bloco Imprensa Que Eu Gamo algemou com romantismo: “Quando a gente se encontrar/ Nem Gilmar vai nos soltar.”
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A mineira Orquestra Royal evoluiu na mordacidade das planilhas com nomes e codinomes: “Relaxa o Garotinho/ E solta o Bicudo/ Abraça o Mineirinho/ Com Supremo com tudo/ Cuida da Rosinha/ Adula o Angorá/ Libera o Barata/ E faz acordo com Jucá.”

A banda avançou na temporada eleitoral com “Bolsomico”, a desmemória da ditadura: “É melhor Jair/ Já ir embora/ Sair correndo/ Para a aula de História.”

Em Campinas (SP), os Marcheiros vislumbraram uma feição peculiar no horizonte da corrida presidencial: “Na aristocracia/ Desponta um nariz descomunal/ Com vontade de se enfiar/ No pleito eleitoral.”

Boca Nervosa emoldurava o sorriso na tela do YouTube, enquanto desconstruía outra candidatura (embargada em juízo) em “O homem mais honesto do Brasil”: “Com tanta honestidade/ É a nossa Santidade/ No Vaticano tá rolando um zum-zum-zum/ Ele foi canonizado e será pontificado/ O Papa Luiz 51/ Ei, ei, ei, que beleza/ Ele é mais santo que a Madre Teresa/ Acredite quem quiser/ É mais honesto que Chico Xavier.”

Prefeitos e governadores ascenderam a um grupo especial. Em São Paulo, por exemplo, ouvia-se: “É buraco na rua/ É o mato crescendo/ É um Deus nos acuda/ Quando está chovendo/ O farol não funciona/ A enchente aparece/ Liga 156, e nada acontece/ Enquanto isso, o prefeito gariiii…/ Fala de São Miguel/ E sonha com o (palácio do) Morumbi/ É isso aí!”

Em Belo Horizonte, João Batera e Dimas Lamounier retrataram a desilusão na periferia com gerações de governantes: “Há tempos tô esperando, esperando o metrô/ Eu era criancinha e hoje sou avô/ Tem mais de 30 anos e ainda não chegou/ Cadê a verba, desapareceu/ Será que tá em Brasília, ou o gato comeu.”

A 500 quilômetros, na Costa Atlântica, o Simpatia é Quase Amor insuflava Ipanema: “Ensaio de escola? Ele mela!/ Roda de samba? Atropela!/ Macumba? Não tolera!/ Só gosta de bloco Nutella!/ Ele não cuida? Nem zela!/ Casa de jongo? Cancela!/ Em nome de Deus? Apela!/ Qual o nome do hômi?/ É (…)

Pelos botequins, Luís Filipe Lima e Alfredo Del-Penho puxavam o coro: “Eu trabalho o ano inteiro/ E ainda acendo uma vela/ Só pra poder pagar/ O IPTU pro Crivella.”

À volta, o Barbas ironizava um incerto projeto de poder no “interesse de Deus”: “Ira e soberba, que preguiça de você/ Quanta avareza, solta a verba, quero ver/ Alô, seu prefeito/ Expulsa a gula de poder/ Olha… nosso corpo é luxúria/ Se inveja, se mistura/ E deixa o povo te benzer.”

Nas calçadas, Thiago de Souza e Daniel Battistonni arrematavam: “Marcelinho/ Não fique assim/ Quarta de Cinzas a folia/ Chega ao fim/ Marcelinho/ Não fique p***/ Que até a Páscoa/ Eles voltam para o culto!”

De São Cristóvão à Sapucaí, milhares do Tuiuti suplicavam pelo fim da servidão, decretada há 130 anos: “Meu Deus/ Meu Deus/ Se eu chorar não leve a mal/ Pela luz do candeeiro/ Liberte o cativeiro social”. Dominante, a crítica política aberta, mordaz, atrevida e até herética sugere que no Brasil da Lava-Jato floresce o desencanto, mas se renova a aposta num futuro diferente daquilo que o futuro costuma ser na Quarta-Feira de Cinzas.

José Casado

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Boas cinzas

A Quarta-Feira de Cinzas marca o fim do carnaval cuja fórmula era o oposto do nosso cotidiano. Vejo eu mesmo com 14 anos, berrando com a minha turma um inútil: “É hoje só/ Amanhã não tem mais!”. Protesto e mantra daquilo que nos leva à lua nessas jornadas curtas - tão ligeiras e gozosas como a própria vida que passa, ela própria, como um carnaval.

Vivemos num mundo marcado pelo proibido e pelo “amanhã” - um futuro que justificava as negativas porque seria vivido como realidade. Menino e moço, eu não fui cidadão na “terra do nunca” como o mítico moderno Peter Pan, mas no país do “não”. Na terra no “não temos”, “não pode”, “não é possível”, “a lei não permite”, “proibido para menores de 18 anos” ao lado do “daqui a pouco eu faço...”. Essas foram as expressões que - sem exagero - eu mais ouvi na minha rotina caseira, escolar e religiosa, bem como quando estava com a minha “turma” na esquina da rua Dr. Romualdo com a avenida Rio Branco, em Juiz de Fora; ou no “muro branco” de Icaraí, aqui em Niterói.


Em casa, eu internalizava o não entrelaçado ao “tenha muito cuidado”, essa outra dimensão da vida moral brasileira. A “turma” que competia com a minha família e aliava a vivência de proibições permanentes me dava uma certa saúde mental, embora tivesse também suas formas de negação e limites. Nela, eu aprendi o significado do pecado e do correto - essas dissimulações do velho não.

*

Nascemos no mundo do controle. É proibido fumar, a mentira é descoberta no olhar das pessoas e até o vento e a chuva (vindos de fora) - tal como os desconhecidos - são perigosos. Um universo de proibições e restrições permeia nossa morada. O perigo moral ronda o mundo. Muito antes de ler Guimarães Rosa, eu sabia que viver era muito perigoso. É claro que era! Nesse nosso Brasil, tudo - até mesmo usar calça comprida e fazer a barba - era regulado. Quando apareci na turma usando um sapato sem cadarço, perguntaram se, na loja onde eu o havia comprado, vendiam artigo para homem! Homem deveria ser duro, calado e feio. Não poderia usar camisa colorida nem sentar juntando as pernas. Se você apreciasse filmes musicais, você era imediatamente colocado no “gelo”. Ninguém seria seu amigo porque todas as pontes potenciais eram tão condenadas quanto as “desquitadas” num país que, em matéria de casamento, a questão básica não era se ele deveria durar para sempre, mas ser tão eterno quanto o outro mundo. As pessoas não escolhiam casar; era o casamento que as escolhiam.

Hoje, eu vejo que esse Brasil do não, do proibido e do amanhã estava centrado numa religiosidade cuja promessa era o paraíso a ser conquistado pelos obedientes, pelos pacientes, pelos que aceitavam o seu lugar - mesmo quando eram escravos, desviantes, marginais ou miseráveis. Neste mundo, tudo é proibido, mas, em compensação, “no céu”, no paraíso, no verdadeiro mundo real que era ironicamente o outro mundo, havia a felicidade eterna ao lado dos anjos, dos santos e de Deus. O paraíso seria a terra sem fronteira do sim.

*

Este mundo e o outro formam as margens ideológicas do imenso rio nacional. Num lado, fica o sim da minoria dos que podem fazer tudo; do outro, há o não da maioria proibida de tudo fazer. Seria o carnaval, essa festa sem centro ou sujeito, uma rosiana terceira margem?

*

No país do carnaval, há uma pergunta que não quer calar: por que, com toda essa roubalheira abusiva e nessa falência estrutural de serviços públicos essenciais, os brasileiros não reclamam em bloco e o País não explode numa reversão momesca?

Seria porque nas sociedades densamente antimodernas, fundadas na mais profunda opressão, existem mecanismos sociais de evasão, de compensação e de mistificação - válvulas de escape bem estabelecidas, como o carnaval?

Nesse caso, o carnaval seria o momento festivo do “sim” e do “pode tudo” na terra do não. E, como a liberdade licenciosa do reino de Momo está relacionada ao riso, ao canto, à dança, e aos desfiles nos quais os subordinados viram deuses e os ricos os aplaudem dos seus luxuosos camarotes, o carnaval é um drama fugaz que reverte o cotidiano. Tal teatro tem que terminar em cinzas.

Percorremos mais um carnaval. Fomos da opulenta carne fantasiada e sensualizada (boa de comer) dos desfiles, blocos e bailes, onde a regra é exibir sem vergonha todos os excessos. Sobretudo o de ter o direito e nada fazer num sistema que foi tocado a escravidão.

Não há como todo esse fogo não terminar em cinzas. Nesta pungência fria da morte.

Somos todos a vaca Hermien?

É possível identificar-se com a história da vaca Hermien, que se jogou do caminhão que a levava, junto com outras, ao matadouro e há um mês está fugindo pelos bosques da Holanda? Poderíamos dizer que sim, dada a rede de solidariedade que ela despertou em milhares de pessoas que estão angariando fundos para comprar o animal e assim permitir que termine seus dias em paz sem sofrer uma morte violenta.
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Hermien
Uma história na verdade insignificante que acabou se tornando um símbolo de identificação humana. Caberia perguntar-se o que desperta em nosso subconsciente esse animal que, em vez de se deixar levar passivamente para a morte, teve a coragem de saltar do caminhão e empreender uma fuga sem saber para onde, antes de se deixar sacrificar passivamente no matadouro.

Vivemos em um mundo dominado pela violência, onde os humanos nos sentimos cada vez mais massa passiva dominada por quem nos escraviza de mil formas sofisticadas fazendo-nos perder o sentido mais profundo da existência. Sentimo-nos, todos, e os despossuídos mais ainda, um número, uma peça dentro de uma sociedade que se torna cada vez mais passiva e resignada, “como gado levado ao matadouro”, segundo o sábio adágio popular.

A sociedade se descobre cada dia mais castrada em sua identidade, em sua liberdade de pensar e de criar, de ser mais que um número e uma peça no xadrez anônimo dos poderes de fato que nos vigiam, dominam e domesticam para que sejamos um produto que pode ser vendido e consumido. Somos todos vítimas destinadas ao sacrifício no altar do dinheiro, pelo bem comum, dizem, os novos sacerdotes do mercado.

Talvez por isso, milhares de pessoas tenham se sentido sensibilizadas, quase libertadas, ao se identificar com esse animal que intuiu por instinto que era conduzido ao martírio para se transformar em comida dos seus donos, os humanos, e saltou em busca de liberdade.


Essa ânsia de liberdade, a luta contra a morte, a resistência para não ser mais um na multidão anestesiada, as vontades de continuar gozando a vida sem que ninguém tenha o direito de nos sacrificar antes do tempo, pode ter sido o que sentem aqueles estão se identificando com o gesto da vaca Hermien, que disse “não” a quem se arrogava o direito de sacrificá-la. Libertar de uma morte não natural esse animal, que preferiu a fuga no vazio atirando-se do caminhão à aceitação passiva do matadouro, está sendo para muitos uma espécie de catarse. É como se a sociedade se perguntasse se, com nosso conformismo diante dos poderes e das ideologias que pretendem decidir autoritariamente nosso destino, não seria preferível saltar do caminhão da morte para redescobrir nossa dignidade humana. Essa dignidade que vemos metaforicamente refletida no gesto dessa vaca que disse não à multidão e se jogou no vazio que acabou sendo sua salvação.

Enfim descansando os ouvidos

Vai passar

Que tiro foi esse? É funk. Foi hit do Carnaval. Apropriadíssimo, no Brasil que mata gente como se fosse mosca.

Relaxa. A diva Elza Soares ensina: Esse momento trágico do Brasil vai passar. Ela que, aos 80, já viveu um de tudo, sabe muito que tudo passa.

No sábado, a primeira das Escolas de Samba paulistas, a Independente Tricolor, abriu a pista mandando: “Hoje o bicho vai pegar, vem ver, a plateia delirar, enlouquecer. Saiu da tela, entrou na mente. É o terror independente.”.



O terror anda mesmo muito independente – sai da tela e entra na mente. Todo dia. Toda hora.

No modo Carnaval, o brasileiro faz folia – deboche, ironia, zoação. Bagunça para aliviar desacertos. Como dá, puxa no gogó loucura temporária. Trégua nas desditas.

Então, relaxa.

Na rua, o Simpatia Quase Amor, do Rio zoou: “Ensaio de escola? Ele mela. Roda de samba? Atropela. Macumba? Não tolera. Só gosta de bloco nutella. Ele não cuida? Nem zela. Casa de jongo? Cancela. Em nome de Deus? Apela. Qual o nome do hômi?”

É o filho de múmia com cascavel, entrega a letra, que zoa o bispo-alcaide da cidade, de nome não citado, devidamente identificado. Forra.

No sambódromo carioca, a Beija Flor de Nilópolis, mandou reto:

(…)
Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou
Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!


Lá pra trás, quando a ditadura comia solta, em 1975, a mesma Escola atravessou o samba. “A Beija-Flor vem exaltar com galhardia o grande decênio do nosso Brasil, que segue avante, pelo céu, mar e terra, nas asas do progresso constante, onde tanta riqueza se encerra. Lembrando PIS, PASEP e também o FUNRURAL, que ampara o homem do campo com segurança total.” Desafinou.

Bala perdida? Passou.

Tudo passa.

Tânia Fusco