quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Estereótipos e privilégios

Por inércia, a opinião pública vai-se habituando a chamar de “privilégio” a aposentadoria do servidor público, enquanto, de outra parte, dedica o mais reverencial silêncio às dinheiramas que são transmitidas por herança, praticamente livres de impostos, aos descendentes dos milionários. Se os filhos de ricos não são os maiores privilegiados deste país, os mais protegidos pela estrutura que pereniza a desigualdade, quem, então, é o privilegiado? Um professor que leciona e pesquisa por 30 ou 40 anos para depois se aposentar com proventos à altura do salário? O que dizer de quem herda bilhões sem nunca ter trabalhado, pagando uma ninharia de imposto?

Privilégio? Tomemos cuidado com as palavras. Elas são signos ideológicos, ensinava Bakhtin. Todas as palavras. Exemplos não faltam. Quando chamamos de “vândalos”, “baderneiros” ou “criminosos” os mascarados que atiram pedras nas vitrines no calor das manifestações de rua no Brasil, enquanto, de outra parte, chamamos de “jovens rebeldes” os também mascarados que praticam os mesmíssimos atos nos protestos em Caracas, quem fala em nossa fala é a ideologia, e nós não nos damos conta (a ideologia tem disso: ou é inconsciente, ou não é ideologia).

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Cuidado com as palavras. Uma trama de escolhas se esconde sob a superfície do léxico e o falante fala sem saber o que fala. A vida é assim. Há quase um século, o jornalista Walter Lippmann fez o diagnóstico preciso: nós nos comunicamos por estereótipos, que funcionam como rótulos simplificadores, mais ou menos como caricaturas, pelos quais a língua vai definindo as coisas de forma rasa, opaca, chapada e altamente eficiente. Palavras como “folião”, “torcedor”, “evangélico” e “sem-teto” são estereótipos. Servem para resumir os tipos humanos. Ao mesmo tempo, reduzem e apequenam a descrição desses mesmos tipos humanos. Não há como ler o mundo sem a ajuda dos estereótipos, mas, ao mesmo tempo, quem vê o mundo pela lente dos estereótipos, e só por ela, perde de vista as contradições que estão por baixo da superfície, ou seja, perde a visão do todo.

Agora um novo estereótipo vem sendo martelado nos meios de comunicação para enxovalhar o funcionário público. As palavras “privilégio” e “privilegiado” são os alicerces de uma campanha de desmoralização do funcionalismo. A campanha é oficial. Trata-se de uma ação deliberada de ninguém menos que o governo federal. Isso mesmo: os servidores brasileiros são caluniados pelos seus superiores hierárquicos (os governantes). Estamos diante de uma infâmia.

Sabemos todos que reformar a Previdência é uma agenda inadiável e imprescindível. Ninguém de posse da razão deixará de reconhecer essa verdade. O problema está, mais do que nas propostas mal costuradas, na propaganda insidiosa pela qual o governo alega defender a causa da reforma. O discurso oficial – endossado, estimulado, emulado e patrocinado por amplos setores do capital e da sociedade civil – escalou para o papel de vilão os funcionários públicos, que aparecem na foto como os causadores da “conta que não fecha”. Segundo a campanha, é preciso acabar com os “privilégios” que travam o desenvolvimento do Brasil. Não, o governo e seu coro não se estão referindo aos faraós do nosso crony capitalism de abadá, nem às celebridades hiperempreendedoras viciadas nas mamadeiras do BNDES. Para o governo, “privilegiados” são os que fizeram carreira no serviço público e se aposentaram.

Temos, enfim, que o funcionalismo é o novo vilão nacional. Mas que vilão é esse? São brasileiros comuns, que sobrevivem medianamente e um dia acreditaram na promessa do Estado de que, se topassem trabalhar recebendo proventos limitados, sem os altos benefícios e os bônus elevados que podem ser alcançados na iniciativa privada, teriam, no final da vida, uma aposentadoria digna. Agora, o mesmo Estado, que antes pedia renúncias no presente em nome da segurança futura, o mesmo Estado que afirmava, com base na lei, que a aposentadoria um pouco melhor era um direito, passa a estereotipar seus servidores como “privilegiados”.

Isso não está certo. Por mais que existam distorções – algumas aviltantes – nos holerites do funcionalismo, essa generalização não é justa. Em nome do respeito humano e da honestidade intelectual, temos o dever de questionar os bordões dessa campanha. O governo federal, secundado por seus corneteiros, que orientam, reverberam ou multiplicam a campanha, está conseguindo pregar na testa dos servidores o rótulo de sanguessugas, aproveitadores, parasitas; está conseguindo substituir o velho estereótipo do funcionário público, que já era muito ruim – o estereótipo do “barnabé”, do incompetente, do acomodado –, pelo novo estereótipo de chupim endinheirado. Chegamos, com isso, ao arremate caprichoso de um processo industrial de fabricação de estereótipos que consagrou uma certa ideologia – ela mesma um estereótipo obtuso – que só vê o Estado como fator de atraso e só vê virtude no mercado sem lei.

Ninguém aqui vai negar que o serviço público acomoda rapinagens inaceitáveis, como essa gambiarra criptojurídica, mal disfarçada sob a rubrica esperta de “auxílios” (auxílio-moradia, auxílio-livro, auxílio-isso, auxílio-aquilo), cujo propósito é burlar o teto constitucional. Essas distorções têm de acabar, é claro. Mas essa campanha corrosiva não quer acabar com as distorções. O propósito dela é outro: ela quer acabar com a respeitabilidade do servidor público no Brasil. Para quê? Talvez para esconder a real responsabilidade pelo rombo que aí está, responsabilidade que é dos governos e dos legisladores, sempre omissos, e não do funcionalismo.

E o truque está dando certo. Por obra de uma prestidigitação publicitária paga com recursos públicos, os servidores estão levando a culpa e se converteram no objeto do ódio invejoso de uma nação em crise. Onde está o privilégio?

De volta para o futuro

Um estrangeiro que tenha passado a primeira metade do mês de fevereiro no Brasil pode ficar com a impressão de que vivemos no melhor país do mundo. Milhões de pessoas fantasiadas ocuparam as ruas das cidades, em blocos organizados ou informais, demonstrando uma alegria incontida e uma despreocupação contagiante. A mídia, tanto a tradicional quanto a virtual, só teve olhos e espaço para explorar imagens de mulheres seminuas, famosos de ocasião, personalidades do dia. É como se suspendêssemos a vida por um momento.

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Enquanto isso, no Brasil real, as forças políticas, as que verdadeiramente importam, vão se movimentando visando as eleições gerais de outubro. O objetivo principal é perpetuar, a qualquer custo, os privilégios da elite que mantém o país refém de seus interesses desde sempre. Uma elite que usufrui das benesses do poder, pairando olímpica acima de partidos e ideologias, e que agora caça um nome que possa dar continuidade ao projeto de desmontagem do Estado, iniciado pelo presidente não eleito, Michel Temer.

O nome da vez é do apresentador de programas de auditório da Rede Globo de Televisão, Luciano Huck. Jovem e carismático, Huck tem como padrinho o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e como trunfo a superexposição de seu rosto todos os domingos, há 18 anos, em boa parte dos lares brasileiros, principalmente os de classe média baixa. Huck, que já havia renunciado à possibilidade de se candidatar à sucessão de Temer, sinaliza que pode voltar atrás, após seu bom desempenho na última pesquisa de intenções de voto do Datafolha.

Uma coisa é certa. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aparece liderando todas as simulações das eleições de outubro, dificilmente conseguirá transferir votos para um outro candidato. O personalismo caudilhista de Lula é de tal ordem que sua imagem há muito se descolou do PT e da esquerda. Seus eleitores são seus, não do partido. Ausente do pleito, seu espólio se dispersará. E aqui entra a aposta de Fernando Henrique, a de que Luciano Huck poderia amealhar boa parte dos votos destinados a Lula, pois ambos fascinam o mesmo público.

De qualquer maneira, esse mesmo público é também alvo dos evangélicos. Ano a ano, a bancada no Congresso ligada a igrejas pentecostais e neopentecostais cresce. Em 1998, eram 47 deputados federais, hoje já são 93 deputados federais e três senadores. O objetivo da campanha deste ano é chegar a 150 deputados federais e 15 senadores. A estratégia é lançar apenas um candidato ao Senado por Estado e um ou dois candidatos a deputado federal regionalmente ligados a igrejas evangélicas, e, mais que tudo, conquistar o eleitor do Norte e Nordeste ainda fiel a Lula.

Ou seja, cada vez mais, a aliança com os evangélicos se torna crucial para vencer as eleições presidenciais. Lula só conseguiu ser eleito Presidente da República em 2002, após três derrotas consecutivas, quando se aproximou dos evangélicos. Para agradar aos novos aliados, o PT acabou adotando uma agenda mais conservadora e pontos de discussão antes cruciais de seu programa – como aborto, relações homoafetivas, desarmamento, reforma agrária, entre outros – foram flexibilizados ou simplesmente engavetados.

O nome de Huck parece muito mais viável à elite brasileira que o do seu candidato natural, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pouco conhecido fora do Estado e destituído de carisma. E o apresentador de televisão poderia sem problema algum associar-se aos evangélicos. Até porque, no país do carnaval, as igrejas pentecostais e neopentecostais, que têm como rebanho preferencial a classe média baixa, adotam com unhas e dentes os mesmos interesses que são da elite...

Senão vejamos: a defesa incondicional do patrimônio privado, seja o do proprietário de centenas de imóveis urbanos, seja do latifundiário; o porte de armas extensivo a todos os cidadãos; a fé cega na iniciativa individual, e, portanto, crença no estado mínimo; o uso da força no estabelecimento da segurança pública – todos esses temas são convergentes entre os que estão no topo da pirâmide social e as lideranças evangélicas. Escola sem partido? Legislação anti-aborto? Esses detalhes não preocupam a elite brasileira, pois ela não usa os sistemas públicos de educação e saúde. E, cá entre nós, ela sempre se manteve acima da lei, porque, ao fim e ao cabo, a elite é a lei...

Gente fora do mapa

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Hong Kong, Fan Ho

Transporte grátis na terra do automóvel?

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Digam agora que os políticos não são mais capazes de grandes reformas! Está lá, preto no branco, na carta que a ministra do Meio Ambiente, Barbara Hendricks, o ministro da Agricultura, Christian Schmidt, e até mesmo o chefe da Chancelaria Federal, Peter Altmeier, enviaram à Comissão Europeia, em Bruxelas: a Alemanha avalia um transporte público gratuito. Ao menos em algumas cidades. E somente se nada mais ajudar, se a qualidade do ar em algumas cidades alemãs simplesmente não quiser melhorar.

Imagine só: simplesmente entrar no ônibus, no bonde ou no metrô sem ter que pagar. Não há dúvida: aí muitos cidadãos deixariam seus carros em casa, e o ar ficaria melhor – ao menos no longo prazo. Onde mais existe algo parecido no mundo? Talvez na Estônia, na Bélgica, aqui e ali na Rússia. Mas na Alemanha, a terra das autobahns e dos carros potentes de luxo? Isso seria de fato uma novidade.

Com razão, a associação das empresas de transporte alertou que o crescimento no número de passageiros seria enorme, e que novos bondes, mais funcionários e talvez também novos trilhos custariam bilhões. O dinheiro seria bancado pelo contribuinte. Os três ministros signatários da carta veem a coisa do mesmo jeito. Eles propõem que os municípios que desejarem acabar com a cobrança sejam apoiados pelo governo. Só para deixar claro de que valores estamos falando: hoje, todas as cidades alemãs juntas faturam 12 bilhões de euros por ano com passagens de transporte público.

O que essa iniciativa surpreendente de Berlim deixa claro é o tamanho do nervosismo nos ministérios responsáveis: ao longo de anos, sobretudo os carros a diesel fizeram com que os limites de emissões de óxidos de nitrogênio nas cidades alemãs fossem ultrapassados sem que houvesse consequências. Em nove dias, o Tribunal Administrativo Federal, em Leipzig, vai decidir se proibições de circulação são legais quando as emissões estiverem muito elevadas. E as chances de que isso aconteça não são ruins.

Só que o governo – tanto o atual, interino, como também o próximo – quer evitar a todo custo as proibições de circulação. E a Comissão Europeia já sinalizou que as medidas até aqui adotadas pelo governo alemão contra a poluição do ar não bastam. Por isso a midiática cúpula do diesel, no ano passado, com a indústria automobilística, as promessas de carros menos poluentes e de melhorias nos carros a diesel.

Claro que as passagens gratuitas em ônibus e bondes não são uma má ideia. E quem mais, além dos alemães, conseguiria pô-las em prática? O sistema de transporte público já é muito bom, sobretudo nas grandes cidades. Mas gratuito? Quanto tempo levaria para os municípios se adequarem à onda de passageiros, vindos de todo o mundo? O ar vai mesmo ficar melhor? E o governo agirá com esse mesmo radicalismo contra os responsáveis, as fabricantes de automóveis e seus sistemas a diesel? Sobre tudo isso ninguém falou.

Antigamente, o grito de guerra da indústria automotiva alemã era "cidadãos livres devem viajar livremente!" Com isso, queria-se dizer que, na Alemanha, não havia limite de velocidade nas autobahns nem de potência para os motores. Liberdade era pisar no acelerador. E agora, quem sabe, o sonho de todos os ambientalistas, ciclistas e pedestres vai se tornar realidade pela porta dos fundos. Porque os políticos, por muito tempo, ignoraram quantos poluentes foram lançados no país do automóvel.
Jens Thurau

Quando você viu pela tv....

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porto alegre, 2016
quando você viu na tv
aquelas pessoas em fila na chuva
à noite numa estrada
na fronteira de um país que não as deseja
e quando você viu as bombas
caírem sobre cidades distantes
com aquelas casas e ruas
tão sujas e tão diferentes
e quando você viu a polícia
na praça do país estrangeiro
partir pra cima de manifestantes
com bombas de gás lacrimogêneo
não pensou duas vezes
nem trocou o canal
e foi pegar comida
na geladeira
não reparou o que vinha
que era só uma questão de tempo
não interpretou como sinal a notícia
não precisou estocar mantimentos
agora a colher cai da boca
e o barulho de bomba é ali fora
e a polícia pra cima dos teus afetos
munida de espadas, sobre cavalos

Angélica Freitas

Não é Lula, é o déficit

Claro que o processo ainda não terminou. Mas está claro também que o maior problema de Lula agora não é saber se terá ou não seu nome na urna, mas se e quando será preso. Ele não foi apenas condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e por unanimidade. No conjunto, os votos dos três desembargadores do TRF-4 sustentam, com infinidade de argumentos, que houve um grande e organizado esquema para corromper a política, a democracia e a República. E que Lula estava no centro desse esquema.

Consequências: a primeira é que Lula tornou-se ficha suja, inelegível, portanto. A segunda: o ex-presidente tem outros seis processos, todos no mesmo esquema, ao cabo dos quais a condenação é mais do que provável. Por exemplo: se os juízes entenderam que o ex-presidente era dono oculto do apartamento do Guarujá, onde nunca passou um dia sequer, o que dizer do sítio, onde ele e sua família se instalaram e passaram muitos fins de semana e feriados?

Em todos esses outros casos, a julgar pelo teor dos votos de ontem, aparecem os mesmos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

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Claro que o ex-presidente ainda tem recursos nos tribunais. Mas o alcance e o tempo encolheram. No caso concluído ontem, só cabe o tal embargo declaratório, no mesmo tribunal. Trata-se de coisa simples, em que a defesa só pode pedir esclarecimentos sobre a redação da sentença. O julgamento disso é rápido, especialmente considerando o tempo do TRF-4,

Depois disso, o ex-presidente ainda pode ir ao Superior Tribunal de Justiça. Mas encerrado o processo no TRF-4, já pode ser decretada a execução da pena. Ou seja, Lula pode ser preso, em regime fechado.

Ainda há brechas para pedido de habeas corpus e tantos outros esperneios mas, de novo, a chance do ex-presidente é baixa. Mesmo porque, quando estiver batalhando no primeiro processo, nas cortes de Brasília, virão outras condenações em Curitiba e Porto Alegre.

Também é verdade que o PT poderá tentar registrar a candidatura de Lula, mesmo estando ele condenado. Aí, caberia ao Tribunal Eleitoral negar a candidatura, pela lei da ficha limpa. O caso pode chegar ao STF, mas o PT e seus aliados estarão cometendo suicídio eleitoral se insistirem com num candidato tão enrolado na Justiça.

Mais vale ainda para os aliados. Quem vai querer se suicidar junto?

Por outro lado, também está claro que o PT não vai conseguir incendiar o país. O ex-presidente passou por uma condução coercitiva - aliás considerada legal e pertinente no TRF-4 - foi julgado e condenado duas vezes e o que temos? Manifestações limitadas a militantes cada vez mais escassos. Pode haver algum quebra-quebra, mas as ruas não serão ocupadas pelas massas.

Dizem alguns: se Lula for preso, isso dará munição ao PT e à tese da vitimização.

Errado. Mais provável que aconteça a mesma coisa que se viu até aqui: protestos isolados e segue a vida.

Aliás, este é um ponto a favor da estabilidade institucional e política. Trata-se de um líder popular, ex-presidente, mas que, em processo regular da Justiça, foi considerado culpado. Cumpra-se a sentença, e pronto. É a lei, que vale para todos.

Além disso, a economia segue em processo de recuperação, agora apoiada pela expectativa dominante de que Lula não será candidato. Por isso, sobe a Bolsa e caem dólar e juros.

Dizem os petistas: sem o ex-presidente, a eleição é fraude. Ora, nem os candidatos de esquerda deixarão de participar do pleito, mesmo que gritem a favor dessa tese.

E mesmo o pessoal do PT passa a pensar no seu próprio futuro. Há candidatos a governador, senador, deputado - políticos que precisam fazer uma campanha minimamente organizada, para pedir votos a todos os eleitores, não apenas aos militantes. Não vão conseguir isso numa longa briga judicial ou tentando incendiar as urnas.

Tudo considerado, quem sabe agora haja mais espaço para o país se concentrar no seu grande problema. Não é Lula, é o brutal déficit das contas públicas que ameaça soterrar todo o esforço de recuperação.

Paisagem brasileira

João Pessoa (PB)

As balas perdidas encontram crianças aqui no Rio

Há quem diga que o carioca está desligado de seu sofrimento. Não está não. Quem está desligado de nosso sofrimento é o Governo Federal que não assumiu ainda as rédeas desta cidade. O Rio não pode continuar nas mãos deste desgoverno que promete tanto e nada faz.

Sofremos diariamente com notícias terríveis. Estamos perdendo nossas crianças e não me refiro apenas às vítimas fatais de tiroteios entre policiais e bandidos, bandidos e bandidos e policiais e policiais.

Refiro-me também ao desprezo que temos pelo nosso futuro. Como assim? Bem, em minha opinião, ao não demonstrar, com vigor, aos jovens, que não queremos continuar a viver sob o terror em que estamos vivendo. Temos que mostrar-lhes que não estamos nada satisfeitos com essa situação. Temos que lhes fazer ver que eles são o que temos de mais importante e que suas vidas são nosso maior valor.

Neste mês de fevereiro perdemos duas crianças e estamos com outra internada em estado grave, as três vítimas de tiros. A TV noticia as mortes e nos mantém a par do estado do pequenino internado, mas em seguida nos mostra a cidade em pleno batuque, sambando como se não houvesse vítimas a prantear.

Será que estamos com o coração tão leve a ponto de sambar e cantar, livres, leves e soltos?

Sei que muitas pessoas acham que o Carnaval alivia o sofrimento, permite que o povo desabafe. Acham que a festa anima e dá nova vida à cidade. Eu me pergunto o seguinte: não era melhor primeiro retomar o controle de nossa cidade e só então festejar o Carnaval? Ou será que acham que durante o Carnaval os bandidos viram anjos?

O governador Pezão, que foi vice-governador do presidiário Sergio Cabral, não teve tempo para ler o projeto do Governo Federal para a retomada da Segurança Pública aqui em nossa cidade pois tinha uma reunião em Brasília com outros governadores para assuntos de interesse geral do Brasil. Será que eram assuntos mais importantes que a tenebrosa situação do Rio de Janeiro?

O que não adianta é fingir que não estamos em perigo. É perigo e é grave, medonho, pois está roubando nosso maior tesouro, as crianças.

Perdemos, desde 2007, 44 crianças vítimas de tiroteios, segundo a ONG Rio de Paz. Em 2017 foram dez as vítimas. E agora, no início de 2018, já temos três vítimas:

Jeremias, de 13 anos, não estava na escola porque a instituição estava fechada por ordem da polícia. Morreu baleado.

Emiliy, de 3 anos, saía de uma lanchonete acompanhada dos pais. Morreu.

E nós estamos em estado de vigília pedindo a Deus pela recuperação de João Pedro, de 4 anos, que está numa UTI em estado grave. Foi vítima de um tiroteio.

Confesso que já ando com medo de ler os jornais, ou ligar a TV ou o rádio, e ficar sabendo de mais crianças vítimas de tiroteios.

E peço um favor: não digam que o Rio não sofre com essa situação. Sofre, sim. E muito.

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Nome do problema não é Cristiane nem Segovia

O problema do governo tem nome e sobrenome. Políticos e jornalistas o chamam ora de Cristiane Brasil, ora de Fernando Segovia. Se estivessem certos, a solução seria simples. Bastariam uma esferográfica para a assinatura do presidente e um par de folhas para o ato de nomeação de outra pessoa para o Ministério do Trabalho e para a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal. Mas estão todos enganados.

Chama-se Michel Temer o problema do governo. Chegou ao Planalto como solução constitucional para a autocombustão que consumiu o mandato de Dilma Rousseff. Virou um problema porque, não tendo como elevar sua estatura política às dimensões exigidas pelo momento histórico, optou por rebaixar o pé-direito do Planalto. Revelou-se um pequeno presidente. Bem menor do que seria razoável.


Nesta quarta-feira, que deveria ser de cinzas, a ministra Cármen Lúcia manteve acesa a fogueira que transforma a novela Cristiane Brasil num filme de terror que já dura 44 dias. A magistrada reiterou que cabe ao STF, não ao STJ, a palavra final sobre a moralidade da nomeação de uma ministra do Trabalho com condenações trabalhistas. Mas se absteve de expedir um veredicto.

Se Michel fosse menos Temer, mandaria Roberto Jefferson e sua filha às favas e acomodaria no Ministério do Trabalho alguém com mais biografia do que folha corrida. Mas o subpresidente não tem músculos para desafiar o minúsculo PTB de Jefferson. Ou o partido indica outro nome ou as cenas de terror se prolongarão indefinidamente.

Quanto ao chefão da Polícia Federal, o investigado Temer concorda que ele falou demais. Mas decidiu ser compreensivo. O problema é que o ministro Luís Roberto Barroso avalia que Segóvia precisa de interrogatório, não de compreensão. Relator do processo em que Temer é suspeito de beneficiar uma empresa portuária, Barroso ouvirá Segovia na segunda-feira. Por que insinuou que o processo será arquivado? Por que deixou no ar a hipótese de punir o delagado que investiga o presidente?

Se Temer não fosse tão Temer, José Sarney jamais teria ousado indicar Segovia para o comando da PF. E o denunciado Eliseu Padilha não estaria na Casa Civil, pronto para avalizar um apadrinhado capaz de azeitar a Operação Abafa a Jato. E não haveria na coordenação política do Planalto um Carlos Marun para migrar da condição de ex-chefe da milícia parlamentar do bandido Eduardo Cunha para a de defensor número um do comandante da Polícia Federal.

Temer parece decidido a obrigar os brasileiros a viverem num Brasil alternativo. Um país fictício em que nada de reprovável acontece. Nesta ficção, em nome da continuidade das reformas, ninguém vai reparar que o presidente não está à altura do cargo que ocupa.

O humor das ruas

Não sobrou ninguém em pé. O Brasil da Lava-Jato emergiu nos blocos e nas escolas de samba numa bem-humorada devassa política. O compositor João Roberto Kelly expôs a fadiga com o Judiciário e seu augusto tribunal em marcha nacional: “Alô, alô, Gilmar/ Eu tô em cana, vem me soltar/ Eu roubei, eu roubei, eu roubei/ Não estou preso à toa/ Mas no mundo, não há quem escape/ De uma conversinha boa.”

No Rio, o bloco Imprensa Que Eu Gamo algemou com romantismo: “Quando a gente se encontrar/ Nem Gilmar vai nos soltar.”
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A mineira Orquestra Royal evoluiu na mordacidade das planilhas com nomes e codinomes: “Relaxa o Garotinho/ E solta o Bicudo/ Abraça o Mineirinho/ Com Supremo com tudo/ Cuida da Rosinha/ Adula o Angorá/ Libera o Barata/ E faz acordo com Jucá.”

A banda avançou na temporada eleitoral com “Bolsomico”, a desmemória da ditadura: “É melhor Jair/ Já ir embora/ Sair correndo/ Para a aula de História.”

Em Campinas (SP), os Marcheiros vislumbraram uma feição peculiar no horizonte da corrida presidencial: “Na aristocracia/ Desponta um nariz descomunal/ Com vontade de se enfiar/ No pleito eleitoral.”

Boca Nervosa emoldurava o sorriso na tela do YouTube, enquanto desconstruía outra candidatura (embargada em juízo) em “O homem mais honesto do Brasil”: “Com tanta honestidade/ É a nossa Santidade/ No Vaticano tá rolando um zum-zum-zum/ Ele foi canonizado e será pontificado/ O Papa Luiz 51/ Ei, ei, ei, que beleza/ Ele é mais santo que a Madre Teresa/ Acredite quem quiser/ É mais honesto que Chico Xavier.”

Prefeitos e governadores ascenderam a um grupo especial. Em São Paulo, por exemplo, ouvia-se: “É buraco na rua/ É o mato crescendo/ É um Deus nos acuda/ Quando está chovendo/ O farol não funciona/ A enchente aparece/ Liga 156, e nada acontece/ Enquanto isso, o prefeito gariiii…/ Fala de São Miguel/ E sonha com o (palácio do) Morumbi/ É isso aí!”

Em Belo Horizonte, João Batera e Dimas Lamounier retrataram a desilusão na periferia com gerações de governantes: “Há tempos tô esperando, esperando o metrô/ Eu era criancinha e hoje sou avô/ Tem mais de 30 anos e ainda não chegou/ Cadê a verba, desapareceu/ Será que tá em Brasília, ou o gato comeu.”

A 500 quilômetros, na Costa Atlântica, o Simpatia é Quase Amor insuflava Ipanema: “Ensaio de escola? Ele mela!/ Roda de samba? Atropela!/ Macumba? Não tolera!/ Só gosta de bloco Nutella!/ Ele não cuida? Nem zela!/ Casa de jongo? Cancela!/ Em nome de Deus? Apela!/ Qual o nome do hômi?/ É (…)

Pelos botequins, Luís Filipe Lima e Alfredo Del-Penho puxavam o coro: “Eu trabalho o ano inteiro/ E ainda acendo uma vela/ Só pra poder pagar/ O IPTU pro Crivella.”

À volta, o Barbas ironizava um incerto projeto de poder no “interesse de Deus”: “Ira e soberba, que preguiça de você/ Quanta avareza, solta a verba, quero ver/ Alô, seu prefeito/ Expulsa a gula de poder/ Olha… nosso corpo é luxúria/ Se inveja, se mistura/ E deixa o povo te benzer.”

Nas calçadas, Thiago de Souza e Daniel Battistonni arrematavam: “Marcelinho/ Não fique assim/ Quarta de Cinzas a folia/ Chega ao fim/ Marcelinho/ Não fique p***/ Que até a Páscoa/ Eles voltam para o culto!”

De São Cristóvão à Sapucaí, milhares do Tuiuti suplicavam pelo fim da servidão, decretada há 130 anos: “Meu Deus/ Meu Deus/ Se eu chorar não leve a mal/ Pela luz do candeeiro/ Liberte o cativeiro social”. Dominante, a crítica política aberta, mordaz, atrevida e até herética sugere que no Brasil da Lava-Jato floresce o desencanto, mas se renova a aposta num futuro diferente daquilo que o futuro costuma ser na Quarta-Feira de Cinzas.

José Casado

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Boas cinzas

A Quarta-Feira de Cinzas marca o fim do carnaval cuja fórmula era o oposto do nosso cotidiano. Vejo eu mesmo com 14 anos, berrando com a minha turma um inútil: “É hoje só/ Amanhã não tem mais!”. Protesto e mantra daquilo que nos leva à lua nessas jornadas curtas - tão ligeiras e gozosas como a própria vida que passa, ela própria, como um carnaval.

Vivemos num mundo marcado pelo proibido e pelo “amanhã” - um futuro que justificava as negativas porque seria vivido como realidade. Menino e moço, eu não fui cidadão na “terra do nunca” como o mítico moderno Peter Pan, mas no país do “não”. Na terra no “não temos”, “não pode”, “não é possível”, “a lei não permite”, “proibido para menores de 18 anos” ao lado do “daqui a pouco eu faço...”. Essas foram as expressões que - sem exagero - eu mais ouvi na minha rotina caseira, escolar e religiosa, bem como quando estava com a minha “turma” na esquina da rua Dr. Romualdo com a avenida Rio Branco, em Juiz de Fora; ou no “muro branco” de Icaraí, aqui em Niterói.


Em casa, eu internalizava o não entrelaçado ao “tenha muito cuidado”, essa outra dimensão da vida moral brasileira. A “turma” que competia com a minha família e aliava a vivência de proibições permanentes me dava uma certa saúde mental, embora tivesse também suas formas de negação e limites. Nela, eu aprendi o significado do pecado e do correto - essas dissimulações do velho não.

*

Nascemos no mundo do controle. É proibido fumar, a mentira é descoberta no olhar das pessoas e até o vento e a chuva (vindos de fora) - tal como os desconhecidos - são perigosos. Um universo de proibições e restrições permeia nossa morada. O perigo moral ronda o mundo. Muito antes de ler Guimarães Rosa, eu sabia que viver era muito perigoso. É claro que era! Nesse nosso Brasil, tudo - até mesmo usar calça comprida e fazer a barba - era regulado. Quando apareci na turma usando um sapato sem cadarço, perguntaram se, na loja onde eu o havia comprado, vendiam artigo para homem! Homem deveria ser duro, calado e feio. Não poderia usar camisa colorida nem sentar juntando as pernas. Se você apreciasse filmes musicais, você era imediatamente colocado no “gelo”. Ninguém seria seu amigo porque todas as pontes potenciais eram tão condenadas quanto as “desquitadas” num país que, em matéria de casamento, a questão básica não era se ele deveria durar para sempre, mas ser tão eterno quanto o outro mundo. As pessoas não escolhiam casar; era o casamento que as escolhiam.

Hoje, eu vejo que esse Brasil do não, do proibido e do amanhã estava centrado numa religiosidade cuja promessa era o paraíso a ser conquistado pelos obedientes, pelos pacientes, pelos que aceitavam o seu lugar - mesmo quando eram escravos, desviantes, marginais ou miseráveis. Neste mundo, tudo é proibido, mas, em compensação, “no céu”, no paraíso, no verdadeiro mundo real que era ironicamente o outro mundo, havia a felicidade eterna ao lado dos anjos, dos santos e de Deus. O paraíso seria a terra sem fronteira do sim.

*

Este mundo e o outro formam as margens ideológicas do imenso rio nacional. Num lado, fica o sim da minoria dos que podem fazer tudo; do outro, há o não da maioria proibida de tudo fazer. Seria o carnaval, essa festa sem centro ou sujeito, uma rosiana terceira margem?

*

No país do carnaval, há uma pergunta que não quer calar: por que, com toda essa roubalheira abusiva e nessa falência estrutural de serviços públicos essenciais, os brasileiros não reclamam em bloco e o País não explode numa reversão momesca?

Seria porque nas sociedades densamente antimodernas, fundadas na mais profunda opressão, existem mecanismos sociais de evasão, de compensação e de mistificação - válvulas de escape bem estabelecidas, como o carnaval?

Nesse caso, o carnaval seria o momento festivo do “sim” e do “pode tudo” na terra do não. E, como a liberdade licenciosa do reino de Momo está relacionada ao riso, ao canto, à dança, e aos desfiles nos quais os subordinados viram deuses e os ricos os aplaudem dos seus luxuosos camarotes, o carnaval é um drama fugaz que reverte o cotidiano. Tal teatro tem que terminar em cinzas.

Percorremos mais um carnaval. Fomos da opulenta carne fantasiada e sensualizada (boa de comer) dos desfiles, blocos e bailes, onde a regra é exibir sem vergonha todos os excessos. Sobretudo o de ter o direito e nada fazer num sistema que foi tocado a escravidão.

Não há como todo esse fogo não terminar em cinzas. Nesta pungência fria da morte.

Somos todos a vaca Hermien?

É possível identificar-se com a história da vaca Hermien, que se jogou do caminhão que a levava, junto com outras, ao matadouro e há um mês está fugindo pelos bosques da Holanda? Poderíamos dizer que sim, dada a rede de solidariedade que ela despertou em milhares de pessoas que estão angariando fundos para comprar o animal e assim permitir que termine seus dias em paz sem sofrer uma morte violenta.
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Hermien
Uma história na verdade insignificante que acabou se tornando um símbolo de identificação humana. Caberia perguntar-se o que desperta em nosso subconsciente esse animal que, em vez de se deixar levar passivamente para a morte, teve a coragem de saltar do caminhão e empreender uma fuga sem saber para onde, antes de se deixar sacrificar passivamente no matadouro.

Vivemos em um mundo dominado pela violência, onde os humanos nos sentimos cada vez mais massa passiva dominada por quem nos escraviza de mil formas sofisticadas fazendo-nos perder o sentido mais profundo da existência. Sentimo-nos, todos, e os despossuídos mais ainda, um número, uma peça dentro de uma sociedade que se torna cada vez mais passiva e resignada, “como gado levado ao matadouro”, segundo o sábio adágio popular.

A sociedade se descobre cada dia mais castrada em sua identidade, em sua liberdade de pensar e de criar, de ser mais que um número e uma peça no xadrez anônimo dos poderes de fato que nos vigiam, dominam e domesticam para que sejamos um produto que pode ser vendido e consumido. Somos todos vítimas destinadas ao sacrifício no altar do dinheiro, pelo bem comum, dizem, os novos sacerdotes do mercado.

Talvez por isso, milhares de pessoas tenham se sentido sensibilizadas, quase libertadas, ao se identificar com esse animal que intuiu por instinto que era conduzido ao martírio para se transformar em comida dos seus donos, os humanos, e saltou em busca de liberdade.


Essa ânsia de liberdade, a luta contra a morte, a resistência para não ser mais um na multidão anestesiada, as vontades de continuar gozando a vida sem que ninguém tenha o direito de nos sacrificar antes do tempo, pode ter sido o que sentem aqueles estão se identificando com o gesto da vaca Hermien, que disse “não” a quem se arrogava o direito de sacrificá-la. Libertar de uma morte não natural esse animal, que preferiu a fuga no vazio atirando-se do caminhão à aceitação passiva do matadouro, está sendo para muitos uma espécie de catarse. É como se a sociedade se perguntasse se, com nosso conformismo diante dos poderes e das ideologias que pretendem decidir autoritariamente nosso destino, não seria preferível saltar do caminhão da morte para redescobrir nossa dignidade humana. Essa dignidade que vemos metaforicamente refletida no gesto dessa vaca que disse não à multidão e se jogou no vazio que acabou sendo sua salvação.

Enfim descansando os ouvidos

Vai passar

Que tiro foi esse? É funk. Foi hit do Carnaval. Apropriadíssimo, no Brasil que mata gente como se fosse mosca.

Relaxa. A diva Elza Soares ensina: Esse momento trágico do Brasil vai passar. Ela que, aos 80, já viveu um de tudo, sabe muito que tudo passa.

No sábado, a primeira das Escolas de Samba paulistas, a Independente Tricolor, abriu a pista mandando: “Hoje o bicho vai pegar, vem ver, a plateia delirar, enlouquecer. Saiu da tela, entrou na mente. É o terror independente.”.



O terror anda mesmo muito independente – sai da tela e entra na mente. Todo dia. Toda hora.

No modo Carnaval, o brasileiro faz folia – deboche, ironia, zoação. Bagunça para aliviar desacertos. Como dá, puxa no gogó loucura temporária. Trégua nas desditas.

Então, relaxa.

Na rua, o Simpatia Quase Amor, do Rio zoou: “Ensaio de escola? Ele mela. Roda de samba? Atropela. Macumba? Não tolera. Só gosta de bloco nutella. Ele não cuida? Nem zela. Casa de jongo? Cancela. Em nome de Deus? Apela. Qual o nome do hômi?”

É o filho de múmia com cascavel, entrega a letra, que zoa o bispo-alcaide da cidade, de nome não citado, devidamente identificado. Forra.

No sambódromo carioca, a Beija Flor de Nilópolis, mandou reto:

(…)
Ganância veste terno e gravata
Onde a esperança sucumbiu
Vejo a liberdade aprisionada
Teu livro eu não sei ler, Brasil!
Mas o samba faz essa dor dentro do peito ir embora
Feito um arrastão de alegria e emoção o pranto rola
Meu canto é resistência
No ecoar de um tambor
Vêm ver brilhar
Mais um menino que você abandonou
Oh pátria amada, por onde andarás?
Seus filhos já não aguentam mais!


Lá pra trás, quando a ditadura comia solta, em 1975, a mesma Escola atravessou o samba. “A Beija-Flor vem exaltar com galhardia o grande decênio do nosso Brasil, que segue avante, pelo céu, mar e terra, nas asas do progresso constante, onde tanta riqueza se encerra. Lembrando PIS, PASEP e também o FUNRURAL, que ampara o homem do campo com segurança total.” Desafinou.

Bala perdida? Passou.

Tudo passa.

Tânia Fusco

Requisitos para a Presidência da República

Haverá turbulência na campanha eleitoral deste ano. A Lava Jato fragmentou reputações, acuando políticos que se apegam ao foro privilegiado e querem permanecer impunes. Há inúmeros interesses em jogo, enquanto os cidadãos buscam um supercandidato, ignorando as experiências com Jânio Quadros e Fernando Collor, que agravaram a crise político-econômica. Propostas demagógicas são inevitáveis, bem como guerra de informações para iludir o eleitorado.

Este se sensibiliza com as promessas de combate à corrupção, mas esse problema não é o único. Há outros que devemos reconhecer para analisar quem está capacitado para ser presidente.

A honestidade é condição indiscutível para assumir o cargo máximo da República, bem como qualquer outro posto. Devemos exigir também experiência como gestor para conduzir bem o Estado brasileiro.

Não basta prometer educação, saúde e segurança. Isso é muito vago para que possamos conferir se o candidato dará importância a questões como atualização do conteúdo programático, infraestrutura da rede de ensino, qualificação dos docentes, financiamento público das demandas do sistema educacional e princípios filosóficos para nortear a formação dos brasileirinhos, entre muitas facetas que envolvem cidadania, instrução, instituições culturais, lazer e circulação de informações.

O presidente precisa empenhar-se, quanto à saúde, em tudo que se refere à medicina preventiva, infraestrutura sanitária, emergências médicas, assistência ambulatorial, rede hospitalar, indústria farmacêutica, atendimento a categorias fragilizadas, formação de profissionais, programas de nutrição, saúde complementar e outras questões relativas ao bem-estar físico e mental da população.

Outra promessa nunca cumprida é em relação à segurança, mas isso vai além de assaltantes e arrastões na praia, porque envolve patrulhamento das fronteiras, proteção dos indivíduos em qualquer ambiente, socorro às vítimas de catástrofes e de criminosos, atualização contínua dos equipamentos, qualificação dos guardiões da sociedade, respeito aos direitos constitucionais, repressão equilibrada aos transgressores com sólido sistema prisional, presença constante das instituições do Estado e outros itens que assegurem a integridade física e mental de cada brasileiro.

Um presidente precisa ter acuidade também para a mobilidade espacial dos cidadãos, infraestrutura de transportes e comunicações, política agrária e ambiental, estabilidade da moeda, habitação popular, preservação da língua, circulação de bens e serviços, proteção do patrimônio público e privado, revitalização de bacias hidrográficas, formação de lideranças, energia, ciência, tecnologia, artes e artesanato e população indígena.

Nenhum ser humano consegue dominar tudo isso, mas um estadista precisa ter discernimento para formar uma equipe que cuide da máquina pública e altivez diante de sua base política a fim de que os cargos não sejam loteados com propósitos distantes do interesse nacional.

Caravanas de Chico, 32 anos atrasada

No verão de 1984, o governo do Rio --sob a liderança do governador Leonel Brizola e o planejamento urbano aos cuidados do arquiteto e urbanista e então secretário dos Transportes Jaime Lerner-- franqueou o túnel Rebouças, principal ligação entre as zonas norte e sul da cidade, aos ônibus. Até aquele momento só carros transitavam pelo Rebouças.

Uma pesquisa na internet no arquivo do "JB" documenta que inicialmente o encontro dos banhistas da zona norte com os frequentadores das belas praias da zona sul não foi muito harmonioso.

A "Coluna do Zózimo" de 27 de novembro de 1984 noticiava que se "criou uma palavra perfeita para definir a horda que invade as areias de Ipanema nos fins de semana ensolarados, despejados pelas amplas portas dos ônibus Padron, que fazem a ligação non-stop zona norte-zona sul. É a turma da galhofa. Galinha com farofa".

Não faltou sugestão para que a circulação no túnel fosse pedagiada ou que os ônibus somente circulassem nos dias úteis.

O sucesso do rock nacional "Nós Vamos Invadir sua Praia", da banda Ultraje a Rigor, lançado em 1985, ecoava esse encontro.

No fim de 2017, nosso maior artista popular em atividade, Chico Buarque, lançou o CD "Caravanas". Na belíssima faixa "As Caravanas", Chico descreve o desconforto dos ricos e brancos com os pobres e pretos nas praias da zona sul do Rio.

"Caravanas" está 32 anos atrasada.

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Por que o atraso? Há uma narrativa construída pela esquerda segundo a qual nossa crise econômica --perda de 9% de PIB per capita entre 2014 e 2016 (a segunda pior dos últimos 120 anos) e a maior taxa de desemprego da história-- é fruto da crise política. Esta, por sua vez, resulta de a parte mais rica da população não suportar o convívio nos mesmos espaços sociais com a parte mais pobre, resultado dos avanços sociais da era Lula. Uma das ideias emblemáticas desse discurso é que a elite branca não tolera conviver com pobres e pretos em aeroportos.

Segundo essa visão, todos os erros de política econômica do governo petista --do abortamento do ajuste fiscal em 2005, "pois gasto social é vida", e o ajuste era "rudimentar", à nova matriz econômica-- nada têm a ver com a crise.

A dificuldade com a ideia da sabotagem dos ricos à ascensão social dos pobres é que dela não se encontra nenhuma comprovação. No caso dos aeroportos no período petista, por exemplo, a mesma busca nos jornais, que encontrou inúmeras referências a desconforto com a invasão das praias em 1984, não consegue achar nada equivalente. O que se encontra, por outro lado, é muita gente de esquerda afirmando que a elite branca não aceita dividir os aeroportos com a nova classe C. Mas não há relatos concretos que comprovem essa percepção.

O que houve, na verdade, foi desconforto com a baixa qualidade da infraestrutura em geral, o que inclui aeroportos. Aliás, essa foi a motivação das manifestações de junho de 2013. Uma das frases que circularam com destaque na época foi que "em país rico as pessoas vão ao trabalho de transporte coletivo, e não de carro".

Mesmo no evento bem lamentável das praias cariocas em 1984, a pesquisa na imprensa do Rio à época mostra que os maiores problemas foram resolvidos quando o poder público se fez presente. O "JB" do dia 1º de janeiro de 1985 noticiou que os afogamentos e os roubos se reduziram com a melhora do policiamento e do serviço de salva-vidas.

No caso presente, nem foi preciso esperar a infraestrutura aeroportuária melhorar. As classes C e D foram expulsas dos aeroportos pela crise.

Diferentemente da sugestão de "Caravanas", não foi a raiva da elite branca que expulsou a população dos voos. A incompetência da gestão econômica petista fechou o túnel Rebouças da ascensão social.

Gente fora do mapa

O nosso samba, minha gente, é isso aí

Marcelo Crivella trancou o caixa da prefeitura à histórica subvenção de escolas de samba. O discurso foi de austeridade: em tempos de crise, as prioridades seriam outras. Colheu aplausos dos (loucos) que não gostam de carnaval e dos que, não sem razão, alegam que dinheiro público para cultura deveria ter destinação restrita, certamente vedada a produções — o desfile das escolas de samba entre elas — capazes de se financiar na iniciativa privada. E apanhou dos que defendem a indústria do carnaval e contabilizam os dividendos turísticos do evento para a cidade, dos que pensam que cabe ao Estado bancar a atividade cultural e dos que, com razão, identificaram, no fundamento da decisão do prefeito, uma imposição de natureza político-religiosa: o desprezo tirânico de lideranças evangélicas por manifestações derivadas de religiões de matriz africana.

Esse é o quadro do que se estabeleceu como debate público a respeito da relação econômica entre poder público e escolas de samba; mas é, sobretudo, um dos casos em que elemento presente nenhum na tela será mais importante do que aquele que falta e cuja ausência me espanta, o argumento essencial de por que nem sequer um centavo de dinheiro público deveria ser posto em escolas de samba: o fato de que, controladas por esquemas criminosos, monumentais tanques para lavagem de dinheiro imundo, entidades cujas contas não suportariam dez minutos de auditoria, é inaceitável que o Estado contribua com isso enquanto assim for. Ponto final. Esta é a chave arrumadora do debate — mas que, por covardia ou comodidade, está fora do debate: dinheiro público no carnaval das escolas de samba é dinheiro público na mão do jogo do bicho, das milícias e do tráfico de drogas e armas.

"Banana para o Brasil", representando políticos e empresários.
Carros alegórico da Beija Flor
A situação é de anomia e em muito extrapola o financiamento estrito dos desfiles. Por exemplo: a prefeitura construiu a Cidade do Samba, conjunto de galpões em que alegorias e fantasias são preparadas, e a entregou — como se propriedade privada — à Liga Independente das Escolas de Samba. Da mesma forma ocorre na organização estrutural do carnaval, monopólio da Liesa e território inacessível ao poder público, desde a comercialização de ingressos até a escolha de jurados e a apuração dos resultados. Duas perguntas — as mais urgentes tanto quanto nunca feitas: quando o Estado retomará os aparelhos públicos usados pelas agremiações para deflagrar o processo licitatório por meio do qual a gestão do espetáculo na Sapucaí passará à iniciativa privada? Quando o julgamento dos desfiles terá a óbvia independência decorrente de não ser dirigido pela elite da parte interessada?

Comandadas pelo complexo de atividades criminosas que fez o Rio de Janeiro refém e sustentadas pela sucessão de governantes que nos entregaram ao sequestrador, escolas de samba são peculiares instituições do Estado. Todas. Ou quase. E as que não são sonham ser. Nem sempre foi assim. Mas assim é há muito. São, acima de tudo, a perfeita representação da sociedade, tipicamente brasileira, entre Estado e crime organizado; centros de criação cultural e de vida comunitária (algumas poucas, cada vez menos) tanto quanto núcleos (quase todas) para exercício autoritário de poder; agremiações que (com modestas exceções) não sobreviveriam sem os braços trançados de bandidos e governantes; e que se acostumaram a exigir dinheiro do Estado tanto quanto se recusam a funcionar sob a lei do Estado, com o aval do Estado.

Aí está, descrita, a engenharia corrompida da farra. Um universo de podridão inescapável — isso se formos capazes de nos despir da paixão, no caso daqueles que, como eu, amam, cada vez mais à distância, uma escola de samba, o glorioso Império Serrano. Não posso, a propósito, deixar de registrar o constrangimento em ver jornalistas, que passam o ano todo se capitalizando com o discurso contra a desigualdade e em defesa da alforria, batendo cabeça para papai bicheiro quando se acerca o carnaval. A cobertura jornalística das escolas de samba há muito está, com respeitáveis exceções, contaminada por relações promíscuas.

Chego, pois, a meu ponto — desdobrado dessa cegueira voluntária. Se as escolas de samba, quase todas, não existiriam sem o casamento entre crime e Estado, tornam-se vergonhosos — farsantes mesmo — alguns dos desfiles apresentados em 2018, aqueles cujos enredos tiveram natureza crítica, carregados de protestos sociais e políticos, e exaltados como vigorosos acontecimentos no campo da liberdade. Depois de curiosa mais de década em que essa valentia seletiva se amorteceu (escolas de samba são de esquerda pelo mesmo mecanismo de adesão-pressão sob o qual artistas têm de ser?), houve agremiação — uma dessas com dono não exatamente democrata — apresentando-se contra a escravidão moderna, e até mesmo um vampirão houve, referência a Michel Temer, chefe de um governo a cujo Ministério da Cultura, porém, as escolas correram em busca de dinheiro.

Gosto, especialmente, do caso da grande Beija-Flor, propriedade de um dos barões do bicho, cujo crescimento bebeu gostoso na fonte — sede expressa não apenas em desfiles de exaltação aos generais — do regime militar, e que não faz muito desfilou em homenagem a uma ditadura africana, mas que, neste ano, resolveu, com um lindíssimo samba, protestar contra a intolerância, contra o opressor modelo político e social vigente no Brasil. Não foi uma autocrítica. Chora, cavaco.

Carlos Andreazza

A verdade do momento

O jornalista Fernando Gabeira publicou no jornal “O Globo” artigo sob o título “O momento da verdade”, no qual mostra que, ao não aceitar a condenação de Lula pela Justiça, o PT demonstra seu divórcio entre a imaginação política dos militantes e a verdade do sentimento da nação. Não houve, como esses dirigentes esperavam, um levante popular contra a Justiça. Porque não há uma causa em jogo. Trata-se apenas de manter ou não Lula na disputa presidencial, sem um rumo diferente para o Brasil.

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O que há de mais grave é que o PT não entendeu a gravidade do momento: não reconhece seus erros e não percebe que o mundo real aposentou a falsa verdade entranhada nas mentes de seus militantes. Depois de quase duas décadas, as falsas narrativas – da “ascensão da classe média pela Bolsa Família”, do “salto científico pelo Ciência sem Fronteiras”, da “revolução educacional pelas vagas na universidade” – transformaram-se em realidades alternativas, que não apenas criaram narrativas, mas fazem com que se acredite nelas.

A tragédia brasileira é não poder contar com o imenso potencial do PT e de Lula, porque eles perderam o sentimento da realidade, a noção da verdade, a credibilidade das propostas e o patrocínio de um novo rumo para o Brasil. E isso se deve ao fato de terem abandonado propostas de economia eficiente, sociedade justa, civilização sustentável, política ética. Perderam o vigor transformador que apresentavam, passando a acreditar na imagem de verdade que criaram para justificar o poder pelo poder, inclusive o de que Temer seria ótimo presidente se Dilma tivesse algum problema que a impedisse de continuar seu mandato.

O povo não foi à rua para atacar a Justiça porque não vê uma causa por trás do PT ou de Lula. Em 1964, foi preciso usar tanques e soldados para impedir o povo de ir à rua pela legalidade e pelas reformas em marcha lideradas por Goulart. Hoje, o impeachment foi feito dentro da legalidade: o substituto foi escolhido pelo PT, o partido ficou 13 anos no poder, sem deixar qualquer reforma em marcha, apesar da expansão de programas assistenciais ameaçados pela inflação e pela recessão.

O povo não foi para a rua porque não viu causa transformadora para defender e pela qual lutar, além de perceber no PT um partido condenado eticamente sob fortes evidências de corrupção na Petrobras, fundos de pensão, benefícios injustificados, remunerações superfaturadas, apartamento na praia e sítio de lazer.

A incapacidade para ver a realidade está impedindo o Brasil de beneficiar-se do que ainda sobrevive no PT, inclusive aqueles que não se corromperam pelo poder ou por dinheiro com falsas narrativas. O Brasil ganharia muito se eles fizessem uma autocrítica e pedissem desculpas ao país pelos erros cometidos. Seria a verdade do momento para ajudar o Brasil a enfrentar o arriscado futuro próximo, que está ameaçado pelos desastres cometidos. 

Enquanto agonizo

Ele se amontoa sobre o país. Hiperrealiza seus desejos, usa aliados como escória. Sem álibi, mandou o genro do compadre desqualificar a acusação, e deu errado. Segue trabalhando mal o luto. Um voo tão alto, uma queda tão grande. Revelou-se político de comodidade, tirou vantagem da desonestidade e alega princípios para abafar inconveniências. Chegou ao limite de querer aproveitar da própria decadência.

Um grupo e ele saem do Fórum seguindo na direção do passeio. Embora vários do cortejo sejam mais altos e estejam à frente dele, qualquer pessoa que os observe do outro lado da rua pode ver a cabeça dele ultrapassando por uma cabeça a dos seus apoiadores. Não é perspectiva, é subalternidade. Lembra livro de Willian Faulkner, Enquanto Agonizo, onde um pai brutal impõe a todos um enterro sem fim, não deixando a vida de ninguém fluir sem ter de pensar no seu egoísmo doentio.

A calçada, esturricada pelos pisões do povo e pedras soltas, segue reta como um fio de prumo até o pé do avião emprestado onde ele os deixará, indiferente aos terrenos resvalantes que o levaram a escorregar. Antes de embarcar, mirando o dilúvio, determina: meu reino por minha vitimização, façam ferver o coração, vai ser longa a condolência. Preparem o caixão e, se der certo, enterrem, com a toga preta do Supremo, o princípio da igualdade de todos perante a lei.

Alguns aliados não aduladores sentiram que havia alguma coisa ruim. Nem em silêncio era razoável aquela insensatez de celebrar como triunfo uma calamidade. Nem apropriado apiedar-se de um político mais que do povo. Uns diziam que era anomalia necrológio de homem vivo; outros, que não se chama crime de perseguição; todos julgavam sinistro candidato cuja glória é ser condenado por mentir.

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Ele estava se esvaziando rapidamente. Um tique nervoso, fruto de soberba banal, o levava a referir-se a si mesmo na terceira pessoa. “Não há qualquer rival de ‘o líder’ em todo o firmamento.” Era assim mesmo que se chamava, “o líder”, apelido privado que incorporou ao nome, marca da sua ambiguidade pública.

Como numa piada, arrumou advogado na ONU. Sentia-se um país. Não queria mais suar. Botaram na cabeça dele que se é vontade de Deus que as pessoas tenham opinião diferente sobre honestidade não cabe a ele discutir desígnios divinos. Suas proezas entardeceram e começaram a alimentar uma ordem política incapaz de produzir valores sociais. Vazio, deixou-se preencher pelo maior valor do mundo moderno, o ouro de tolo, que lambuza no presente a consequência do futuro.

Quando mais se encheu de medalhas, mas se esvaziou de ideias. “A abundância de diploma acaba com o diploma”, alguém alertou, e foi expulso da sala. E uma pessoa vazia na política não é mais um político. Enchendo-se de autoelogios e fúria, logo ele não sabe se é ou não é, ou que é que de fato é. Saiu do trilho, aumentou necessidades, até que as dádivas deram por conhecidos seus favores.

Enfraqueceu a autoridade por seu abuso e o hábito de confundir poder com relação e intimidade. No mundo das decisões apressadas, dissimulações, das interdições sobre as quais ninguém tem domínio, da liberdade irresponsável de ser o que você quiser ser, a transgressão percebeu a melhor das convergências. Com a autoridade participando, o erro ganha mais velocidade.

Seu talento para a evasão o tornou conhecido como aquele político “veloz estruturador de negócios e soluções”. Logo que recebeu a resposta da carta enviada aos brasileiros donos de banco, escrita em inglês, percebeu que pecado-salvação é mera questão de palavra. Harmonizou-se com a parceria de talentosos ocultadores de intenções para montar as ladainhas, a lenga-lenga a que deu o nome de política de governo.

Quando a Justiça abriu a porta dos seus transtornos desesperadores, ele já havia caído na mais sedutora armadilha da política atual, o dinheiro fácil, e não quis reconhecer o que fez. Saiu em desespero para pagar a promessa de 40 anos atrás. Mas sem dizer o que deveria ter dito ao juiz – o que o deteria na certeza de que alcançar seu objetivo primordial de ser respeitado, ser alguma coisa nova, é que compunha seu élan vital – pressupôs que a condição de vítima evitaria o caminho da desmoralização. Ele voltou a suar, como se estivesse espumando, feito um cavalo desembestado, convocou adoradores, dependentes, para a velha modalidade de ação heroica – camisa de partido, candidatura, comício, farisaísmo – na tentativa desesperada de incinerar a sentença e botar fogo na pavorosa jornada da Justiça de ousar apontar o dedo para quem sempre fez o que quis e nunca foi tão adequadamente contrariado.

Quando ouviu “estamos aqui e você tem de lidar conosco”, percebeu que escondera dos amigos o que os inimigos já sabiam. Falhou em grandeza, foi-se a profecia. Quem dera fosse capaz de suportar o sucesso com mais honestidade e a adversidade com mais autocontrole.

Um partido de esquerda moderno e com capacidade de diálogo deve parar de tratar de forma errada o erro. E reconhecer que um período de governo com um presidente deposto, três ex-presidentes da Câmara, senadores e inúmeros ministros de Estado presos ou processados, dirigentes partidários e governadores confinados ou envolvidos, a maior empresa do País dilapidada, a autoridade olímpica nacional presa, o bilionário do período encarcerado, a Copa investigada, fundos de pensão arruinados, o BNDES um clube de amigos, grandes empresários condenados, frugal intimidade com ditadores, etc., não foi um período virtuoso.

O que “o líder” quer é o refluxo da identidade perdida, fugir da responsabilidade confinado na condição de perseguido. Pelo alto, espalha simulacros de habeas corpus, certo de que a Justiça dos privilegiados prevalece e o ressuscita, como Lázaro. Por baixo, mantém agitada a agonia, seguro de que a manipulação do povo reabsorve a desordem que ele criou e a dissolve na sociedade até sumir sua autoria.