Os achados identificados pela equipe de auditoria confirmaram os indícios de irregularidades relatados na representação, ou seja, o Tesouro Nacional tem atrasado o repasse, às instituições financeiras, de recursos destinados ao pagamento de benefícios sociais (Bolsa Família, abono salarial e seguro-desemprego), previdenciários (INSS) e econômicos (subvenções em financiamentos bancários).
Procurador Júlio Marcelo de Oliveira, do TCU
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Crimes fiscais de 2013 e 2014
O Brasil nos tempos da cólera
Nunca na história recente do Brasil o interesse por política foi tão grande como agora. Fala-se de política em qualquer lugar e a qualquer hora. O chato é, neste momento, o brasileiro que não está nem aí para os rumos do nosso país. Esta sensação perpassa as classes sociais, as faixas etárias e as diversas regiões do país. É um sentimento nacional de ódio aos corruptos, ao seu partido e a suas lideranças, especialmente aquela que se apresentou durante anos como salvadora da pátria e, hoje, não tem coragem de caminhar, sem segurança, por uma simples rua de alguma cidade. Transformou-se em um espantalho. Só assusta — se assusta — algum passarinho desavisado.

Vivemos um impasse. E não há nenhum paralelo com qualquer momento da história republicana. O governo perdeu a legitimidade e mal completou três meses. E ainda faltam — impensáveis — 45 meses. Se as eleições fossem realizadas hoje, Dilma Rousseff sequer chegaria ao segundo turno. E o que fazer? É necessário encontrar uma saída para a greve crise que vivemos. Não cabe dar ouvidos aos covardes de plantão, aqueles que dizem que temos de tomar cuidado com a governabilidade, que não podemos colocar em risco a estabilidade econômica e que o enfrentamento aberto do projeto criminoso de poder é um perigo para a democracia. Devemos silenciar frente a tudo isso? Não, absolutamente não. Esta é a hora daqueles que têm compromisso com o Brasil. Protestar, ocupar as ruas é a tarefa que se coloca. É seguir a lição de Mário de Andrade. Não sejamos “espiões da vida, camuflados em técnicos da vida, espiando a multidão passar. Marchem com as multidões.” E no dia 12 as ruas estarão tomadas por aqueles que não querem simplesmente espiar a vida, mas desejam mudar a vida.
O projeto criminoso de poder acabou transformando a corrupção em algo natural. E o volume fabuloso de denúncias que horroriza a nação é visto positivamente, pois as denúncias estariam sendo apuradas. É inacreditável: em uma manobra orwelliana, o petrolão é definido como uma ação saneadora do Estado, e não como o maior desvio de recursos de uma empresa pública na história da humanidade. Seus asseclas — supostos intelectuais — buscaram algum tipo de justificativa. Como se no Brasil houvesse uma cultura da corrupção, um fator de longa duração. Erro crasso: imaginam que os brasileiros são à sua imagem e semelhança. Não são. Eles é que são corruptos — e nem precisam sair do armário. Já assumiram e faz tempo.
Cabe ressaltar que o movimento da História é surpreendente e imprevisível. No início de junho de 1992, quando a CPMI sobre as atividades de Paulo César Farias — denunciadas por Pedro Collor, irmão do presidente — estava iniciando seus trabalhos, o senador Fernando Henrique Cardoso fez questão de declarar que “impeachment é como bomba atômica, existe para não ser usado.” O deputado peemedebista Nélson Jobim foi enfático: “O Congresso não pode fazer uma CPI para investigar o presidente. Se vocês insistirem nisso, eu vou ao Supremo.” Mais cordato, mas não menos conciliador, o senador Marco Maciel (PFL-PE) declarou que a “CPI não vai produzir sequelas, pois as acusações foram feitas sem provas.” Líderes empresariais saíram em defesa do presidente. Emerson Kapaz, candidato a presidente da Fiesp, disse que as denúncias eram “uma grande irresponsabilidade. As pessoas precisam medir seus atos para não causar mais turbulência no Brasil, já tão afetado pela crise econômica.” E até juristas criticaram Pedro. Um deles, Celso Bastos, declarou que o irmão do presidente era de “um egoísmo elevado à última potência” e que ele “nunca pensou nos interesses da nação.” Quatro meses depois, Fernando Collor não era mais presidente do Brasil.
Hoje vivemos uma situação muito distinta em relação a 1992. Entre outros fatores, um é essencial: as ruas. Desta vez, são elas que estão impulsionando o Parlamento, e não o inverso, como naquele ano. O que ocorreu pelo Brasil, no dia 15 de março, é fato único na nossa história. Eu testemunhei dezenas de milhares de pessoas se manifestando em absoluta ordem na Avenida Paulista. Com indignação — e justa indignação — mas também com bom humor. Foi um reencontro com o Brasil. A auto-organização da sociedade civil é o novo, só não reconhece quem está comprometido com o projeto criminoso de poder — e são tantos que venderam suas consciências.
Esta será uma semana de muita tensão. E isto é bom para a democracia. Ruim é o silêncio ou o medo. As ruas voltaram a ser do povo, e não mais monopólio daqueles que têm ódio à democracia. Nós temos tudo para construir um grande país mas antes temos uma tarefa histórica: nos livrar dos corruptos. E sempre dentro da democracia, da lei e da ordem. São eles — e existem sim o nós e eles — que sempre desprezaram o Estado Democrático de Direito. Nunca é demais lembrar que o PT votou contra o texto final da Constituição.
Vivemos uma quadra histórica ímpar. Não é exagero que nós teremos muito a contar aos nossos filhos e netos. É aquele momento de decisão, de encruzilhada do destino nacional. Para onde vamos? Continuaremos a aceitar passivamente a destruição dos valores republicanos ou tomaremos uma atitude cívica, de acordo com bons momentos da nossa história?
Eles não passarão. E não passarão porque - paradoxalmente - uniram o Brasil contra eles. Ninguém aguenta mais. É hora de dar um passo adiante, de encurralar aqueles que transformaram o exercício de administração da coisa pública em negociata, em mercadoria. E deixar duas saídas: a renúncia ou o impeachment.
Marco Antonio Villa

O projeto criminoso de poder acabou transformando a corrupção em algo natural. E o volume fabuloso de denúncias que horroriza a nação é visto positivamente, pois as denúncias estariam sendo apuradas. É inacreditável: em uma manobra orwelliana, o petrolão é definido como uma ação saneadora do Estado, e não como o maior desvio de recursos de uma empresa pública na história da humanidade. Seus asseclas — supostos intelectuais — buscaram algum tipo de justificativa. Como se no Brasil houvesse uma cultura da corrupção, um fator de longa duração. Erro crasso: imaginam que os brasileiros são à sua imagem e semelhança. Não são. Eles é que são corruptos — e nem precisam sair do armário. Já assumiram e faz tempo.
Cabe ressaltar que o movimento da História é surpreendente e imprevisível. No início de junho de 1992, quando a CPMI sobre as atividades de Paulo César Farias — denunciadas por Pedro Collor, irmão do presidente — estava iniciando seus trabalhos, o senador Fernando Henrique Cardoso fez questão de declarar que “impeachment é como bomba atômica, existe para não ser usado.” O deputado peemedebista Nélson Jobim foi enfático: “O Congresso não pode fazer uma CPI para investigar o presidente. Se vocês insistirem nisso, eu vou ao Supremo.” Mais cordato, mas não menos conciliador, o senador Marco Maciel (PFL-PE) declarou que a “CPI não vai produzir sequelas, pois as acusações foram feitas sem provas.” Líderes empresariais saíram em defesa do presidente. Emerson Kapaz, candidato a presidente da Fiesp, disse que as denúncias eram “uma grande irresponsabilidade. As pessoas precisam medir seus atos para não causar mais turbulência no Brasil, já tão afetado pela crise econômica.” E até juristas criticaram Pedro. Um deles, Celso Bastos, declarou que o irmão do presidente era de “um egoísmo elevado à última potência” e que ele “nunca pensou nos interesses da nação.” Quatro meses depois, Fernando Collor não era mais presidente do Brasil.
Hoje vivemos uma situação muito distinta em relação a 1992. Entre outros fatores, um é essencial: as ruas. Desta vez, são elas que estão impulsionando o Parlamento, e não o inverso, como naquele ano. O que ocorreu pelo Brasil, no dia 15 de março, é fato único na nossa história. Eu testemunhei dezenas de milhares de pessoas se manifestando em absoluta ordem na Avenida Paulista. Com indignação — e justa indignação — mas também com bom humor. Foi um reencontro com o Brasil. A auto-organização da sociedade civil é o novo, só não reconhece quem está comprometido com o projeto criminoso de poder — e são tantos que venderam suas consciências.
Esta será uma semana de muita tensão. E isto é bom para a democracia. Ruim é o silêncio ou o medo. As ruas voltaram a ser do povo, e não mais monopólio daqueles que têm ódio à democracia. Nós temos tudo para construir um grande país mas antes temos uma tarefa histórica: nos livrar dos corruptos. E sempre dentro da democracia, da lei e da ordem. São eles — e existem sim o nós e eles — que sempre desprezaram o Estado Democrático de Direito. Nunca é demais lembrar que o PT votou contra o texto final da Constituição.
Vivemos uma quadra histórica ímpar. Não é exagero que nós teremos muito a contar aos nossos filhos e netos. É aquele momento de decisão, de encruzilhada do destino nacional. Para onde vamos? Continuaremos a aceitar passivamente a destruição dos valores republicanos ou tomaremos uma atitude cívica, de acordo com bons momentos da nossa história?
Eles não passarão. E não passarão porque - paradoxalmente - uniram o Brasil contra eles. Ninguém aguenta mais. É hora de dar um passo adiante, de encurralar aqueles que transformaram o exercício de administração da coisa pública em negociata, em mercadoria. E deixar duas saídas: a renúncia ou o impeachment.
Marco Antonio Villa
Quem governa? A hidra brasileira

Em pleno século XXI, o Brasil sai na vanguarda mundial e inova, como adoram os petistas. Passa-se a conviver com a hidra de quatro cabeças governantes, mas efetivamente apenas uma eleita democraticamente.
Qualquer estrangeiro fica estarrecido, porque ninguém tem tanta gente governando um país. E como a lambança teria que ser maior ainda cada uma fica de um lado.
A economia está sob o comando do ministro Joaquim Levy, a cabeça que está mandando no país quando se tratar do assunto. É aquele que cobra escanteiro, discuntindo cada medida e articulando com o Congresso, e vai para a área cabecear junto à população e ainda agarra no gol, defendendo a posição do governo. É o próprio multiministro.
Com o congelamento do aloprado Mercadante, da Casa Civil, e a saída de Pepe "Legal" Vargas, da Articulação Política, a cabeça política ficou nas mãos de Temer, ou toda na mão do PMDB. Se não bastasse controlar a Câmara e o Senado ainda tem como articulador o presidente do partido. São três cabeças pensantes peemedebistas, independentes de Dilma, a cabeça supostamente reinante.
Em meio à salada, ainda surge a cereja. Lula, eminência parda, é a cabeça dos movimentos, das críticas às embrulhadas presidenciais, dos conselhos de como evitar conflitos, dos ataques destrambelhados a oposição e zelites, mas ainda assim gerador de muitas outras violências. Mais do que um assessor especialíssimo, também é o criador da criatura, agora espumando com a desmiolada.
Resta, enfim, a última cabeça do momento. A da governante, aquela eleita para governar o país dos brasileiros. Mas o que governa? Na economia, manda um; na política, três que nunca foram afinados com ela; na assessoria, o Flagelo de Garanhuns e uma imensidão de palpiteiros.
E os restantes 38 ministros estão num saco de gatos sem saber a quem responder. Obedecem às ordens econômicas de Levy, às políticas do triunvirato, às de Lula? As ordens de Dilma, a presidente, nem se pode obedecer, porque ninguém sabe quais são. A presidenta virou uma peça decorativa do Planalto, como os presidentes no parlamentarismo. Ficará sua atuação restrita a chás, inaugurações e destemperos.
Se a presidente não preside ou finge presidir, o que está fazendo no Planalto? Talvez modernizando ainda mais o novo modelo e se aplicando como o rei Céphas Bansah, de Hohoe, que governa seu reino através do Skype a 6 mil quilômetros em Gana?
Nem só a vaca foi pro brejo, a governança se afoga num mar de cabeças.
A maior vítima é a verdade
Como czarina do setor elétrico desde 2004, Dilma sabia muito bem que não há como baixar o preço de energia senão aumentando a oferta
Em entrevista à TV Veja, o ministro Eduardo Braga disse que os estados então comandados pelo PSDB (São Paulo, Paraná e, na época, Minas Gerais) são responsáveis pelo aumento de mais de 50% na conta de luz do cidadão. Segundo ele, os entes federativos que defenderam o patrimônio de seus cidadãos da usurpação federal – leia-se MP 579, o conto do vigário da energia barata – são os culpados pela falência do setor elétrico.
Curioso esse ministro. Até aqui nada fez para tirar o setor do desastre provocado por sua chefa. Mas opera bem com a mentira e o transformismo. Dilma quis fazer cortesia com o chapéu alheio. Deu com os burros n’água, apesar de todos os alertas. Agora, com os brasileiros sofrendo forte confisco de renda por uma das contas de energia mais caras do mundo, Braga quer aplicar o conto-do-vigário. Mestre Houaiss no seu Dicionário da Língua Portuguesa diz de quem pratica este delito: “aquele que engana outrem com trapaças; vigarista, velhaco”.
Como czarina do setor elétrico desde 2004, Dilma sabia muito bem que não há como baixar o preço de energia senão aumentando a oferta. Quando decidiu anunciar na TV a canetada mágica que jogaria a tarifa para baixo em 20%, ela sabia que fazia isso à custa da usurpação das empresas estaduais de energia e da Eletrobras – esta, coitada, obrigada a assinar, foi sequestrada e depenada em R$ 10 bilhões pelo governo. Os estados que não assinaram, evitaram a falência de suas empresas.
O problema não foi só destruir o marco regulatório sem ouvir as partes. O pior foi incentivar o consumo em meio a escassez hídrica, quando as térmicas tiveram de ser acionadas a plena carga. Faltou a presidente explicar à Nação como faria a mágica de conciliar a energia cada vez mais cara com tarifas cada vez mais baixas. E mais: ao intervir no mercado e romper contratos, afugentou os interessados em investir no setor.
O rombo aberto desde 2012 já custou R$ 100 bilhões! De onde saiu o dinheiro para esconder o abismo? Do Tesouro Nacional, ou seja, do nosso bolso. Dilma deu com uma mão e tirou com a outra. Como os recursos não são infinitos, repassaram a barbeiragem para a conta de luz: 50% a 70% de aumento apenas em 2015 – e por enquanto. Só não tivemos que racionar energia ainda porque a economia, sobretudo a indústria, só anda para trás neste governo.
Se não bastasse a catástrofe financeira, os reservatórios subiram pouco no período chuvoso. Significa que, persistindo a média climática para o período seco, devemos chegar ao fim do ano com um nível de armazenamento em torno de 10%. Isto é, os problemas do setor em 2015 continuam em 2016. Nem esse quadro lamentável faz o governo assumir o estrago e incentivar uma campanha aberta, direta e franca de redução do consumo.
O discurso tranquilizador do Planalto destoa dos esforços desesperados do mesmo governo para aumentar a oferta (estímulo à geração térmica de pequeno porte, importação de energia da Argentina, leilões de gás com prazos de entrega reduzidos, etc). A Resolução 44 agora autoriza a venda de energia de empresas que tenham geradores a R$ 1.420,34 o megawatt hora! Dilma tinha prometido a R$ 9 e autoriza agora um valor 158 vezes maior! No dizer de um agente do setor: “Hoje a política é gerar energia a qualquer custo.” É a Dilma a qualquer custo fazendo qualquer coisa para sobreviver. Até quando?
A revolução do gás de xisto nos EUA e o colossal acordo da China com a Rússia para importação de gás deixam claro a correlação entre energia e competitividade global – sobretudo enquanto cerne de uma política industrial. Mesmo sabendo que o Brasil é um dos países com melhor massa critica no setor elétrico, Dilma atropelou tudo e todos em nome de seu populismo energético. As vítimas estão aí: a economia popular, a indústria e, sobretudo, a verdade.
O manifesto da virtude não contabilizada
O Brasil estava à deriva, até que veio o encontro nacional do PT em São Paulo.
Os presidentes dos 27 diretórios reuniram-se em torno do oráculo, e aí tudo
ficou claro como a pele da elite branca. É sempre assim: por mais tenebrosa que
seja a tempestade lá fora, quando o PT se junta em torno de Lula da Silva, tudo
fica belo e luminoso. Ficamos sabendo que a crise é pura inveja que os ricos
têm do povo. E saiu um novo manifesto -atenção, Brasil! - no qual o partido do
mensalão e do petrolão ensina aos brasileiros o que é virtude.
Dilma falou que sabe quanto a imprensa livre é importante, porque ela é uma pessoa que viveu sob uma ditadura. Atualmente, no Brasil, praticamente só Dilma viveu sob uma ditadura. Todos aprendemos a acompanhar, contritos, o sofrimento diuturno de Dilma Rousseff em sua resistência implacável aos militares. Quando começamos a achar que a batalha está concluída, o Palácio do Planalto solta mais um release sobre "Os anos de chumbo", e lá vamos nós sofrer mais um pouco ao lado de nossa heroína. Não há nada mais urgente hoje no Brasil do que apoiar Dilma contra o regime militar. Ela há de nos libertar desse inimigo morto e enterrado há 30 anos.
Enquanto a presidente luta heroicamente pela liberdade de expressão, que só ela sabe quanto é valiosa, seu partido costura docemente a mordaça. O PT já tentou colocar rédeas na mídia até através de um pacote de direitos humanos. Agora, o tal manifesto propõe uma nova regulamentação do direito de resposta. Os companheiros só vão sossegar quando a comunicação de massa no país alcançar o padrão de uma assembleia do partido. Chega de perseguição a guerreiros do povo brasileiro como João Vaccari. A cada denúncia publicada sobre as peripécias do tesoureiro na arrecadação de fundos para a revolução progressista, a mídia há de ter que abrir espaço para a resposta do guerreiro. E ele terá o sagrado direito de declarar, como seu antecessor Delúbio no mensalão, que há uma conspiração da direita contra o governo popular.
O manifesto divulgado pelo PT no dia 30 de março explica que o partido está sendo "atacado por suas virtudes". Não esclarece se entre essas virtudes está a formidável capacidade de captação de recursos junto às empresas investigadas na Lava Jato. Ou a invejável capacidade de escolher e cultivar os diretores certos para a Petrobras, sem os quais uma legião de parasitas e picaretas morreria de fome. Talvez por humildade exacerbada, o manifesto do PT não cita entre suas virtudes a façanha de ter jogado a maior empresa brasileira na lona, rebaixando-a ao grau de investimento especulativo. Tamanho virtuosismo realmente só poderia gerar inveja e perseguição.
"A campanha de agora é uma ofensiva de cerco e aniquilamento", diagnostica o manifesto. "Para isso, vale tudo. Inclusive criminalizar o PT." Eis o escândalo: estão criminalizando o PT. Será que não percebem que todos os crimes pelos quais os petistas têm sido indiciados, julgados e condenados são crimes decorrentes das suas virtudes? Será possível que essa elite golpista não aprendeu a distinguir o crime mau do crime bom?
Na reunião de cúpula, o assessor da Presidência, Marco Aurélio Garcia, esclareceu: "Ganhamos a eleição com uma narrativa que a presidente assumiu de forma corajosa". No dia seguinte, no Senado, o ministro da Fazenda tentava salvar a pele do governo com uma narrativa oposta a essa que a presidente assumiu corajosamente. Talvez seja por isso que as multidões voltaram às ruas: entenderam enfim que estão sendo governadas há 12 anos por uma narrativa.
Juiz pede socorro

Na semana passada chegou à mesa da corregedora nacional de Justiça, Nancy Adrighi, uma correspondência incomum: cinco sindicatos estaduais de servidores do Executivo, Legislativo e Judiciário pediram que o Conselho Nacional de Justiça determine “com urgência” uma devassa no Tribunal de Justiça do Espírito Santo. É o segundo requerimento de investigações sobre supostos atos criminosos no Judiciário capixaba, nos últimos vinte dias.
A denúncia inicial partiu de um juiz. Em cartas à presidência e à corregedoria local, o desembargador Pedro Valls Feu Rosa descreveu a “realidade sombria” da instituição, que “parece ter sido ‘projetada’ para impedir que certos processos tenham tramitação”.
Feu Rosa conhece como poucos a corte estadual, que já presidiu. Convive com ameaças. A mais recente chegou envelopada na tarde de sábado, 14 de março à sua casa, em Vitória. Avesso à escolta, mantém a rotina de passeios matinais e missa aos domingos. Por hábito, expõe no gabinete de trabalho a relação dos processos recebidos, com respectivas datas de entrada.
Não há um único preso por corrupção nas celas capixabas. No entanto, sobram processos: “Não são um ou dois, mas dezenas. E praticamente todos arrastam-se há anos, com pouco andamento e sem julgamentos” — registrou nas cartas. “São pessoas acusadas de desviarem milhões dos cofres públicos (...) Os anos se passam e os processos seguem em uma espécie de ‘limbo jurídico’, aguardando o dia — humilhante para uma instituição — da prescrição.”
Processos contra autoridades “desaparecem”, escreveu. “Confira-se: sou desembargador há 20 anos, presidente de Câmara Criminal, e nem assim consigo saber onde estão, e em qual estado, processos relativos a não uma, mas quatro operações policiais de ampla envergadura — três da Polícia Civil e uma da Polícia Federal.”
“Fui relator daquela deflagrada pela Polícia Federal”, prosseguiu. “Há uma gravação, no inquérito, de um senhor que se apresenta como ‘organizador da fila de licitações’. Diversos municípios são mencionados de forma clara e inequívoca. Pois bem: já se passaram quase dois anos, e sequer consigo saber onde estão os processos!”
“As denúncias contidas nestas quatro operações são gravíssimas, envolvendo desde corrupção até narcotráfico. E onde estão os processos? (...) É possível que não exista ‘fila de licitações’ ou sequer um dos atos de corrupção apontados. Sim, pode ser que não exista mesmo um corrupto sequer aqui no Espírito Santo — mas que se dê, até mesmo em benefício dos acusados, uma resposta. Eis o que peço enquanto juiz e cidadão: que o Poder Judiciário dê uma resposta!”
Aos 48 anos, Feu Rosa se diz cansado de ver o Judiciário “tantas vezes de joelhos diante de réus a troco de orçamento”. A omissão, escreveu, “custa caro à população, desestimula os bons políticos, assusta os investidores, custa vidas, dadas as consequências dos escandalosos níveis de corrupção registrados.”
Ele sugeriu a intervenção do Conselho Nacional de Justiça. O conselho é responsável constitucional pelo controle e transparência do Judiciário, mas tem sido gradualmente desidratado pela reação conservadora de parte da cúpula judicial. O caso do Espírito Santo é novidade nesse cenário: um juiz pede socorro para fazer a Justiça funcionar.
Leia mais o artigo de José Casado
Não é piada, mas outro engodo petista
Quando se pensava que se tinha visto o máximo de safadeza petista, eis que surge mais uma sacada com o selo PT de usurpação dos cofres públicos. E o mentor do novo vale tudo por dinheiro é o não menos canastrão Washington Quaquá, presidente regional do partido e prefeito de Maricá.
Outra vez, quando o próprio partido está às voltas com a corrupção, o "Sassá Mutema" dos desocupados se lixa para os escândalos envolvendo o próprio partido e lança projeto ainda mais escandaloso: Minha Casa Minha Pousada. Parece até paródia do programa governamental, mas é mais uma demonstração de desgoverno com financiamento público.
Segundo a propaganda, divulgada nas redes, jornais oficiosos e prestes a se espalhar pelo Estado, às custas do contribuinte, o descarado Quaquá bolou a picaretagem olímpica. "Vamos nos preparar para receber os turistas que virão para o Rio nas Olimpíadas de 2016". A convocação que ocupa quatro páginas de um jornal local anuncia que a Prefeitura vai ajudar a transformar "a sua casa em uma pequena pousada".
Quaquá não perde a oportunidade de usar e abusar dos cofres públicos para se autopromover e chega ao cúmulo de declarar, na propaganda, que a "Prefeitura quer que em 8 anos Maricá se transforme no quinto destino turístico do Brasil" (hoje não ocupa nem sequer a lista dos 100 no país).
Seria ridículo, se não fosse uma tragédia para o município, que assiste há sete anos os roubos e rombos frequentes no Erário para a gangue petista, chefiada por Quaquá, se entronizar de vez em Maricá.
Destinar dinheiro público para moradores (quer dizer, os cúmplices da roubalheira) transformarem as próprias casas em pequenas pousadas só tem mesmo a colaborar a que o dinheiro público pague melhorias em residências cadastradas.
O intuito de receber turistas durante as Olimpíadas, numa cidade a mais de 40 km do Rio, sem água, saneamento básico, saúde, estrutura hoteleira e outras mazelas, é mais uma forma de escamotear a administração corrupta que nos últimos anos vem assolando Maricá. Tudo sob os olhares complacentes dos petistas, da cambada de comissionados e de todos os Poderes que estão blindando a "quaquádrilha".
'Dieta fiscal' não combina com ministério gordo
Diante dos sacrifícios exigidos pelo ajuste, população espera contrapartida do Governo
Num momento em que a equipe econômica da presidenta Dilma faz campanha pelo ajuste fiscal — repassando, num primeiro momento, o custo desse equilíbrio das contas públicas para o contribuinte — a existência de 39 ministérios aumenta a sensação de que o Governo pretende continuar numa zona de conforto de eficiência bastante questionável. Quando Fernando Henrique Cardoso deixou o Governo, ele deixou 24 ministérios. Lula criou 13, na sequência, e Dilma criou outros dois. Durante a campanha eleitoral, o assunto pegou fogo, e a presidenta argumentava que não reduziria o número de ministérios, pois havia o risco de tirar o peso para assuntos importantes que hoje são tratados com status ministerial, caso da Secretaria de Política das Mulheres.
Mas, quanto mais ministérios, maior a chance de haver ‘buracos negros’ na administração, avaliam os especialistas, e o pior, abriria brechas para negócios paralelos, leia-se, propinas, que acelerassem o processo de trâmites burocráticos em Brasília. A ideia já havia sido ensaiada pelo Governo Dilma quando os protestos de 2013 levaram milhares às ruas do país, e a sociedade esperava uma resposta para a insatisfação popular com os serviços públicos. A presidenta já tinha esse diagnóstico, feito por um dos grandes empresários brasileiros, Jorge Gerdau, que esteve no Governo Dilma encabeçando a Câmara de Política e Gestão e Competitividade, visando melhorar a eficiência do setor público.
O assunto parecia ter sido esquecido, mas volta agora, provocado, também, diante dos pedidos de sacrifício que o Governo tem feito para o contribuinte e para as empresas. A Fazenda, por exemplo, acaba de aumentar dois impostos (PIS e Cofins) para 80.000 empresas a título de reforço de caixa para cumprir o superávit primário. Quando entrar em vigor, dentro de 90 dias, o aumento dos tributos incidirá sobre operações financeiras das companhias.
A presidenta Dilma já afirmou que promoverá “um grande corte” de gastos, e a ideia de que esse corte venha a ser de 80 bilhões de reais ganha força. Em 2013, o custo dos 39 ministérios era de 58 bilhões de reais, sem levar em conta autarquias ou secretarias vinculadas. Aglutinar algumas pastas não significa, necessariamente, tirar o status delas. O que a sociedade brasileira exige mais do que nunca é a excelência de resultados, seja do tamanho que for o ministério. Por ora, os 39 não deram sequer uma pista de que há mais benefícios ao país com a existência de mais ministros.
A classe política ainda não percebeu que os brasileiros invejam os Governos mais austeros, onde os governantes saem de metrô para seus trabalhos, como os prefeitos de Londres ou Nova York, colocam os filhos em escolas públicas, ou abrem mão de seus salários para dar o exemplo à população, como o ex-presidente uruguaio José Mujica. O mesmo vale para viagens oficiais com gigantes comitivas de assessores que nada agregam ao país. Num momento em que o Brasil está à flor da pele com as denúncias de corrupção, e decepcionado com a alta de inflação que afeta o seu bolso, além do medo do desemprego, uma dieta de verdade nos cargos ministeriais seria bem-vinda.
Os protegidos da sociedade
Os governos democráticos no Brasil abusam do direito de governar quando testam o limite do cidadão para a prudência e a temperançaDoutor Joaquim aplica Band-Aid no corpo do atropelado certo de que o paciente sofre, mas não é bem sua dor que interessa. Não pode operá-lo, temeroso da reação de quem provocou o acidente. Ganha tempo inadmissível dando aulas de ficção para enfermeiros de Chicago, pois sabe que a dona do hospital não está em condições de demiti-lo.Os governos democráticos no Brasil abusam do direito de governar quando testam o limite do cidadão para a prudência e a temperança.
Os apetites pessoais que têm levado nosso país a crises politicas rotineiras e sucessivas não nascem da sociedade. Uma geração de descendentes e vítimas do poder arbitrário está chegando ao fim, quatro gerações depois, vendo a democracia como uma volúpia do poder sobre o desejo das pessoas. Um estado de espírito que vai e volta, um período excelente, que não dura e nunca é o que estamos vivendo.
A morte do idealismo no Brasil e da simplicidade da politica é resultado da proliferação de líderes de comportamentos velados, cujo poder não é o recebido dos eleitores. É a politica exercida como autoexame, mesmo que sob a ótica de pessoas honestas, permitindo a vitória do mundo privado, pessoal, sobre a farsa do universo constitucional que não rege mais nada. Atualmente, dinheiro e vulgaridade dominam tudo, fazendo a política não se submeter ao princípio da verificação e, por isso, seu significado prático não precisa ser demonstrado. Bastam variações do velho modelo do presidencialismo de reeleição para capturar a energia social em direção a cópias de cópias de ideias de escassa autoridade. A relação entre a política e a sociedade não é mais essencial. Virou uma dominação fundada na correlação que seleciona membros para a construção de interesses e a formação de trincheiras de sócios em clubes exclusivos.
No momento em que o Estado quiser encontrar na sociedade uma coletividade essencial à sustentação do nosso país no mundo, ele deixará de ser a farsa deste modelo como o toleramos. E nele a politica será uma atividade simples, de pessoas que pretendem e possuem vocação para representar os outros. Por que hoje, se as coisas não são simples, não é por serem complicadas ou complexas, é por que andam falsas. E neste quadro, cada “novidade desnecessária” exige alguém necessário. E por causa disso no Brasil qualquer coisa só existe se for regulamentada. Nos países viáveis, só se regulamenta o que dá errado. É esta má tradição que confirma que nunca tivemos nenhum governo seguro de que a Constituição é a lei que protege a sociedade contra a falta de limites do governo.
Não deveriam ser efemeridades essas magníficas intuições econômicas e politicas desses 21 anos de presidentes de esquerda que não conseguiram ir além do condicionamento histórico de seus sonhos pessoais. Afinal, o governante aqui descumpre a lei dizendo que é para salvar a democracia. Mas o que sempre se viu é que tudo que é urgente para nossos democratas serve para justificar algum arbítrio e seu método injusto. O modelo político e econômico atual chegou ao fim. Se anda insepulto, é por ser protegido da sociedade.
Paulo Delgado
A morte do idealismo no Brasil e da simplicidade da politica é resultado da proliferação de líderes de comportamentos velados, cujo poder não é o recebido dos eleitores. É a politica exercida como autoexame, mesmo que sob a ótica de pessoas honestas, permitindo a vitória do mundo privado, pessoal, sobre a farsa do universo constitucional que não rege mais nada. Atualmente, dinheiro e vulgaridade dominam tudo, fazendo a política não se submeter ao princípio da verificação e, por isso, seu significado prático não precisa ser demonstrado. Bastam variações do velho modelo do presidencialismo de reeleição para capturar a energia social em direção a cópias de cópias de ideias de escassa autoridade. A relação entre a política e a sociedade não é mais essencial. Virou uma dominação fundada na correlação que seleciona membros para a construção de interesses e a formação de trincheiras de sócios em clubes exclusivos.
No momento em que o Estado quiser encontrar na sociedade uma coletividade essencial à sustentação do nosso país no mundo, ele deixará de ser a farsa deste modelo como o toleramos. E nele a politica será uma atividade simples, de pessoas que pretendem e possuem vocação para representar os outros. Por que hoje, se as coisas não são simples, não é por serem complicadas ou complexas, é por que andam falsas. E neste quadro, cada “novidade desnecessária” exige alguém necessário. E por causa disso no Brasil qualquer coisa só existe se for regulamentada. Nos países viáveis, só se regulamenta o que dá errado. É esta má tradição que confirma que nunca tivemos nenhum governo seguro de que a Constituição é a lei que protege a sociedade contra a falta de limites do governo.
Não deveriam ser efemeridades essas magníficas intuições econômicas e politicas desses 21 anos de presidentes de esquerda que não conseguiram ir além do condicionamento histórico de seus sonhos pessoais. Afinal, o governante aqui descumpre a lei dizendo que é para salvar a democracia. Mas o que sempre se viu é que tudo que é urgente para nossos democratas serve para justificar algum arbítrio e seu método injusto. O modelo político e econômico atual chegou ao fim. Se anda insepulto, é por ser protegido da sociedade.
Paulo Delgado
terça-feira, 7 de abril de 2015
Desmanchando o milagre que os portugueses fizeram
Não dá mais para segurar. Nem para compor, amaciar, tergiversar. Ou se adotam mudanças radicais e profundas nas instituições e nas pessoas ou o país se desagrega. Porque nunca se roubou tanto como nessa tríplice aliança entre governo, empreiteiras e políticos.
Governo, por nomear bandidos para a direção de suas empresas, ávidos de permitir o assalto ao patrimônio público, do qual retiram fortunas em benefício próprio. Empreiteiras, porque, mancomunadas com altos dirigentes das estruturas governamentais, superfaturam obras e serviços, obtendo contratos e aditivos falsos para enriquecer às custas dos cofres da nação. Políticos, porque responsáveis pelas nomeações, junto ao governo que dominam, exigindo das empreiteiras altos percentuais dos negócios escusos.
Os últimos meses estão mostrando que não apenas na Petrobras corria lama em vez de petróleo. Na construção de hidrelétricas e termoelétricas, na implantação de ferrovias e rodovias, portos e demais obras, é a mesma coisa. No fornecimento de produtos e na oferta de serviços, também. Até no organismo encarregado de zelar pela cobrança de impostos. Dificilmente se encontra um importante setor da administração pública que não esteja infestado por dirigentes corruptos, empresas privadas e políticos.
Urgente se torna derrubar o tripé. Primeiro através de um governo capaz de identificar, substituir e punir quantos bandidos estiverem incrustados em suas estruturas. Depois, por fiscalização tão rígida capaz de levar as empresas a perceber como mais lucrativa a honestidade do que a roubalheira. Por último, depois de ampla reforma política, depurar os partidos e afastar a corrupção das práticas eleitorais.
Como se chegará a tanto? Trocar o governo poderá constituir-se em solução extrema, caso ele não se recicle em tempo recorde por meio da defenestração de ministros ineptos, representantes de partidos, e sua substituição por técnicos e similares de comprovada capacidade, em condições de recuperar as empresas públicas danificadas. Importante também será, por meio do Congresso, delegar ao Ministério Público, o Judiciário e a Polícia Federal mecanismos de ação cirúrgica para a investigação, identificação e condenação de quantos estiverem implicados nesse festival de corrupção.
Fora daí será a desagregação nacional. Nossa transformação num conjunto cada vez mais dissociado de um futuro comum e da vontade de buscá-lo. Estará desfeito o milagre produzido pelos portugueses, que nos legaram um país uno e indivisível em meio ao fracionamento da América Espanhola.
Carlos Chagas
A 'aula' do professor
Uma coisa é dizer que pessoas no PT se envolveram em malfeitos. Outra é tentar qualificar o PT como uma organização criminosa. Não estou de acordo. Não me considero criminoso. Não tenho nada a ver com isso. Essa é uma das razões pelas quais temos que tomar medidas concretas, como a recusa do financiamento empresarial. Temos que chamar todos os partidos a fazer a mesma coisa. Aí vamos ver quem é quem. Não é possível que o PT, com 1,5 milhão de filiados, não seja capaz de se financiar. Pago R$ 1 mil por mês ao partido.
Marco Aurélio Garcia, alcunhado de "O Professor"
O PT e a avestruz

Vamos convir que a posição de vítima assumida pelo partido não tem nenhuma chance de vingar. O PT está no quarto mandato presidencial e é, portanto, responsável por tudo o que nele aconteceu e acontece. De nada adianta continuar culpando o ex-presidente FHC de todo mal que nos aflige, pois se esse argumento for levado a sério ele terminará sendo responsável por qualquer unha encravada. O que, sim, tem faltado ao governo e seu partido principal é o humilde reconhecimento de seus erros, algo que parece situar-se além da soberba reinante.
Se o País vive, do ponto de vista governamental e partidário, uma espécie de desmoronamento ético, isso se deve ao aparelhamento da máquina estatal, tornada mero instrumento de consecução de fins partidários. O discurso oficial é contra a corrupção, quando a prática partidária consiste em acobertá-la. O PT nem consegue punir seus envolvidos tanto no mensalão quanto no petrolão. Uns são considerados "guerreiros do povo brasileiro", outros ainda não o são por não terem sido condenados.
O atual tesoureiro continua protegido e a Petrobrás segue blindada na verdadeira apuração de suas responsabilidades. Tudo é um grande jogo de cena. Acontece que essa cena não está mais "colando", não gera nenhuma adesão dos cidadãos. O PT caiu na lama e não consegue sequer se levantar.
Em contrapartida, o País vive um despertar ético, demonstrando real preocupação com suas instituições. As manifestações de 15 de março foram uma efetiva tomada de consciência, com as ruas plenas de indignação, independentemente de faixa etária, classe social e gênero. O governo e seu partido não conseguem mais tapar o sol com a peneira. Não há marketing que resolva essa situação. Os mágicos ficaram sem mágica!
Não tem o menor cabimento o PT reclamar de uma grande orquestração da mídia, como se fosse ela a responsável pelas grandes manifestações de rua, pelos escândalos da Petrobrás, pela inflação e pelo PIB zero. Jornais, revistas e meios de comunicação em geral, em sua diversidade e pluralidade, retratam o que está acontecendo.
O que pretendem os dirigentes partidários? Que as ruas repletas de gente não sejam filmadas, retratadas e descritas? Que o PIB zero não seja comentado? Que a inflação que acomete os cidadãos seja desconsiderada, quando ela é sentida diariamente nos supermercados? Que a corrupção na Petrobrás não seja noticiada? Que o trabalho da Justiça e do Ministério Público seja denegrido?
A política petista de feroz crítica aos meios de comunicação consiste na tentativa de matar o mensageiro para que a mensagem não seja transmitida. Em vez de o partido enfrentar seus reais problemas, termina apelando para seu arsenal ideológico de ideias antiquadas e ultrapassadas, desta feita a de "controle social da mídia" ou "democratização dos meios de comunicação".
Para falar claro: trata-se da tentativa de restabelecer a censura no País, agora nos moldes do que já é feito na Venezuela, na Bolívia, na Argentina e no Equador, nessa via comunista, soviética, agora denominada "socialismo do século 21", como se assim a proposta autoritária se tornasse mais palatável! A moralidade é estropiada em nome de uma "superioridade moral do socialismo".
O PT não consegue nem se entender no que diz respeito ao seu apoio ao governo Dilma. A austeridade fiscal que está sendo introduzida não é a responsável pela inflação, pelo PIB zero, pela desvalorização do real e pelos altos juros. Estes nada mais são que consequências das políticas econômicas conduzidas pelo governo Dilma e pelo segundo mandato do governo Lula. São, reitero, meras consequências. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, nada mais está fazendo que tentar corrigir o descalabro reinante, que é produto do que foi feito até aqui.
Agora, que o partido se insurja contra o ministro e, indiretamente, contra a presidente, em nome das políticas desastradas que nos levaram até esta situação, é um manifesto contrassenso. Caberia, isso sim, apoiar a mudança de rumo, em nome da governabilidade e, sobretudo, do País, que é maior do que qualquer partido e que a soma de todos. Como pode a presidente exigir o apoio incondicional do PMDB quando o seu próprio partido é o maior opositor de sua política atual?
A proposta de alguns setores partidários de radicalização do processo político, por meio de uma nova aliança com os movimentos ditos sociais, é de uma grande irresponsabilidade. Movimentos como o MST são expressões de um projeto político de tipo marxista, para instalar no País um regime totalitário de tipo socialista.
Trata-se, no caso, de uma organização de tipo leninista, que tem vários braços, como os Sem-Teto, as Mulheres Campesinas, os Atingidos pelas Barragens, os Pequenos Agricultores e a Via Campesina. Todos obedecem a uma mesma estratégia e ao mesmo comando, tendo na Venezuela e em Cuba seus maiores exemplos. A faceta social é mera roupagem.
Insistir nessa via significaria lançar o País na ingovernabilidade e numa eventual crise institucional. Quando Lula chamou o "exército do Stédile" às ruas, ele conclamou essa milícia a se preparar. Permaneceram ele e os seus apoiadores cegos e surdos aos clamores populares.
No dia 15 de março, um dos seus dizeres era: "A rua brasileira jamais será vermelha!". Como bem expressaram os manifestantes em suas roupas: "Ela é e sempre será verde-amarela!".
Brasil pressiona pela mudança
Brasileiros lembram o sábio Diógenes, aquele que só pediu a Alexandre que se afastasse porque lhe estava roubando o solO Brasil não está em crise porque as pessoas saem à rua para protestar. É o contrário: decidiram fazer isso porque desejam mudar o velho Brasil. Querem que o país se supere e ressuscite da crise, e não acreditam mais nas promessas de seus atuais governantes, convencidos como estão de que eles mentiram.
Vai fazer dois anos que neste país os indignados saíram pela primeira vez de suas casas para exigir melhorias em alguns serviços públicos para que fossem dignos de um país moderno, e protestar contra a corrupção. Na época não gritavam “Fora, Dilma” nem “Fora, PT”.
Para aplacar o mau humor das pessoas, a presidenta fez cinco promessas aos brasileiros, entre as quais um plebiscito nacional para a reforma política – que se mostrou inútil por ser anticonstitucional – e o combate sem trégua contra a corrupção.
As promessas não só não foram levadas adiante como também, hoje, a situação do Brasil é muito pior do que na época. A reforma políticase enreda em si mesma porque os encarregados de fazê-la não querem perder seus privilégios, enquanto a corrupção, em vez de ter sido freada, irrompeu como uma bomba nuclear com o novo escândalo da Lava Jato, que fez o do mensalão empalidecer. E outros novos escândalos já estão na fila da investigação judicial.
Os brasileiros se cansaram de promessas e escândalos, e se radicalizaram: desta vez pedem até uma nova República, outro Brasil. Querem que os que prometeram o que não souberam ou não quiseram cumprir saiam para dar lugar a outros. Por ora, talvez não saibam com quem substituí-los, mas sabem que querem algo novo e diferente.
Esse clima que o Brasil vive e que as manifestações anunciadas para o próximo dia 12 poderiam confirmar ou desmentir me fizeram recordar o que se conta, entre história e lenda, do filósofo grego Diógenes, que há 2.500 anos andava com uma lanterna em busca de “um homem”, ou seja, um que fosse honesto, e não corrupto.
Como os EUA 'viraram o jogo' contra a corrupção
No século 19, a falta de um funcionalismo público profissional favorecia o apadrinhamento nos Estados Unidos. Grandes projetos de infraestrutura manchados por corrupção; apadrinhamento político nos governos federal, estadual e local, bem como o uso de cargos públicos para obter ganhos privados e manter-se no poder.
O cenário acima poderia descrever a situação atual de diversos países do mundo - inclusive do Brasil -, mas se refere especificamente aos Estados Unidos do fim do século 19.
No período a partir de 1870, conhecido como “Gilded Age” (Era Dourada), o surgimento de uma sociedade mais urbanizada e industrializada e de novas fontes de riqueza nunca antes vistas, em um momento de rápido crescimento econômico nos EUA, evidenciou os altos níveis de corrupção política no país.
Seriam necessárias algumas décadas e a adoção de várias medidas de regulação para que o problema fosse controlado.
Apesar de ressaltarem que a corrupção não foi totalmente erradicada nos EUA, analistas concordam que as reformas adotadas na virada do século 19 para o 20 foram essenciais para combater o problema e fazer com que o país hoje se situe entre aqueles com baixos níveis deste tipo de delito.
No mais recente Índice de Percepção da Corrupção, divulgado em dezembro passado pela Transparência Internacional, os EUA aparecem na 17ª posição entre 175 países, ao lado de Irlanda, Hong Kong e Barbados. O Brasil ficou em 69º lugar, ao lado de Bulgária, Grécia, Itália, Romênia, Senegal e Suazilândia.
Segundo analistas, nas décadas finais do século 19, práticas até então dominantes nos EUA, como clientelismo e apadrinhamento político, começaram a ser menos toleradas.
“Muitas práticas que simplesmente eram encaradas como normais em períodos anteriores da história americana passaram a ser vistas como problemas”, disse à BBC Brasil o historiador Alan Lessoff, professor da Illinois State University.

O cenário acima poderia descrever a situação atual de diversos países do mundo - inclusive do Brasil -, mas se refere especificamente aos Estados Unidos do fim do século 19.
No período a partir de 1870, conhecido como “Gilded Age” (Era Dourada), o surgimento de uma sociedade mais urbanizada e industrializada e de novas fontes de riqueza nunca antes vistas, em um momento de rápido crescimento econômico nos EUA, evidenciou os altos níveis de corrupção política no país.
Seriam necessárias algumas décadas e a adoção de várias medidas de regulação para que o problema fosse controlado.
Apesar de ressaltarem que a corrupção não foi totalmente erradicada nos EUA, analistas concordam que as reformas adotadas na virada do século 19 para o 20 foram essenciais para combater o problema e fazer com que o país hoje se situe entre aqueles com baixos níveis deste tipo de delito.
No mais recente Índice de Percepção da Corrupção, divulgado em dezembro passado pela Transparência Internacional, os EUA aparecem na 17ª posição entre 175 países, ao lado de Irlanda, Hong Kong e Barbados. O Brasil ficou em 69º lugar, ao lado de Bulgária, Grécia, Itália, Romênia, Senegal e Suazilândia.
Segundo analistas, nas décadas finais do século 19, práticas até então dominantes nos EUA, como clientelismo e apadrinhamento político, começaram a ser menos toleradas.
“Muitas práticas que simplesmente eram encaradas como normais em períodos anteriores da história americana passaram a ser vistas como problemas”, disse à BBC Brasil o historiador Alan Lessoff, professor da Illinois State University.
Dilma vai cair, só não se sabe o tempo da agonia
Não há a menor perspectiva de final feliz para a crise política, econômica, social e ética que devasta o governo federal. São escândalos e notícias negativas que se acumulam, inexoravelmente. A grande mídia nem precisa fazer manipulação, basta publicar o que está acontecendo, sem maiores comentários. E a tendência é a situação piorar, progressivamente, para desespero da troika formada pelo Planalto, PT e Instituto Lula (não necessariamente nesta ordem).
Não há dúvida de que Dilma Vana Rousseff virou uma espécie de rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. A administração federal está absolutamente paralisada e o país caminha com as próprias pernas, vivendo uma experiência surrealista de “laissez-faire”, que pode até ser positiva, pois é melhor não ter governo algum do que suportar um governo tão incompetente.
A presidente poderia se manter assim até o fim do novo mandato, ninguém ligaria, como aconteceu recentemente na Bélgica, que passou vários anos sem ter primeiro-ministro, não entrou em crise econômica ou ética, seguiu se desenvolvendo, uma maravilha. Mas acontece que aqui no Brasil as coisas estão bem diferentes e Dilma Rousseff tem muito mais problemas do que a simpática e educada rainha Fabíola.
Neste início de mandato, as investigações da força-tarefa da Operação Lava Jato já estão encontrando cada vez mais provas sobre gravíssimos atos de corrupção em outros setores do governo, como a construção de hidrelétricas e ferrovias. E na fila, aguardando apuração, estão os fundos de pensão, o BNDES, a Eletrobrás e outras estatais, além do chamado Sistema S e de muitos ministérios.
Na verdade, é um nunca-acabar de escândalos, que não atingem apenas o Executivo, pois a opinião pública está consciente de que Legislativo e Judiciários também estão apodrecidos. Embora o país esteja mergulhado numa gravíssima crise econômica, os salários das autoridades dos Três Poderes estão cada vez mais altos, com inaceitáveis mordomias, incluindo os cartões corporativos, cujos gastos são mantidos sob sigilo absoluto, vejam a que ponto essa gente chega.
Não há governo capaz de resistir a tamanho bombardeio. É ilusão achar que Dilma Rousseff possa acabar incólume como Lula, simplesmente repetindo que não sabia de nada.
A situação se complica ainda mais, porque ninguém consegue apoiar Dilma Rousseff, nem mesmo o ex-presidente Lula, que a conduziu ao poder. Na semana passada, o grupo majoritário do PT divulgou um manifesto de críticas ao governo federal, com ponderações compartilhadas por todas as demais alas do partido.
As centrais sindicais também já desembarcaram do governo. Durante evento organizado pelos movimentos sociais na última terça-feira, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, criticou os tarifaços de luz, da água e dos combustíveis, além das propostas do ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy.
No Congresso, não existe mais base aliada desde o início de fevereiro, quando o presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ) instituiu o primado regimental dos blocos partidários e assumiu pessoalmente o comando do principal deles, formado por 227 deputados, deixando o PT completamente isolado.
Por fim, é sempre bom lembrar que nunca antes, na História deste país, um governo conseguiu se preservar no poder sem contar com apoio da maioria dos parlamentares. O resto é folclore.

A presidente poderia se manter assim até o fim do novo mandato, ninguém ligaria, como aconteceu recentemente na Bélgica, que passou vários anos sem ter primeiro-ministro, não entrou em crise econômica ou ética, seguiu se desenvolvendo, uma maravilha. Mas acontece que aqui no Brasil as coisas estão bem diferentes e Dilma Rousseff tem muito mais problemas do que a simpática e educada rainha Fabíola.
Neste início de mandato, as investigações da força-tarefa da Operação Lava Jato já estão encontrando cada vez mais provas sobre gravíssimos atos de corrupção em outros setores do governo, como a construção de hidrelétricas e ferrovias. E na fila, aguardando apuração, estão os fundos de pensão, o BNDES, a Eletrobrás e outras estatais, além do chamado Sistema S e de muitos ministérios.
Na verdade, é um nunca-acabar de escândalos, que não atingem apenas o Executivo, pois a opinião pública está consciente de que Legislativo e Judiciários também estão apodrecidos. Embora o país esteja mergulhado numa gravíssima crise econômica, os salários das autoridades dos Três Poderes estão cada vez mais altos, com inaceitáveis mordomias, incluindo os cartões corporativos, cujos gastos são mantidos sob sigilo absoluto, vejam a que ponto essa gente chega.
Não há governo capaz de resistir a tamanho bombardeio. É ilusão achar que Dilma Rousseff possa acabar incólume como Lula, simplesmente repetindo que não sabia de nada.
A situação se complica ainda mais, porque ninguém consegue apoiar Dilma Rousseff, nem mesmo o ex-presidente Lula, que a conduziu ao poder. Na semana passada, o grupo majoritário do PT divulgou um manifesto de críticas ao governo federal, com ponderações compartilhadas por todas as demais alas do partido.
As centrais sindicais também já desembarcaram do governo. Durante evento organizado pelos movimentos sociais na última terça-feira, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, criticou os tarifaços de luz, da água e dos combustíveis, além das propostas do ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy.
No Congresso, não existe mais base aliada desde o início de fevereiro, quando o presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ) instituiu o primado regimental dos blocos partidários e assumiu pessoalmente o comando do principal deles, formado por 227 deputados, deixando o PT completamente isolado.
Por fim, é sempre bom lembrar que nunca antes, na História deste país, um governo conseguiu se preservar no poder sem contar com apoio da maioria dos parlamentares. O resto é folclore.
Cretinice da empulhação
"O Brasil sempre foi isso. No Brasil, sempre a forma de destruir seu adversário era chamar de corrupto."
Renato Janine Ribeiro, novo ministro da Educação, há duas
semanas baixou o cacete no governo Dilma, mas com a posse como ministro passou
a adoçar os lábios presidenciais.
Entregar a educação de um país a um cretino é uma tremenda
falta de educação, no mínimo. Agora recebe até o título de “ministro educador
numa Pátria Educadora”.
Quando ainda o cargo serve como cala boca a mais um filósofo
no melhor estilo Mangabeira Unger, demonstra que Dilma e o PT estão cooptando
tudo que não presta para formar um governo de fachada. Comparar o novo ministro
a Darcy Ribeiro e Paulo Freire, como fez Dilma, é um acinte de uma “incompetenta”
e mostra do que o PT é capaz para dourar suas safadezas. Janine, nem em
milhares de reencarnações, poderá chegar aos pés daqueles dois e de muitos
outros nomes que honraram a educação brasileira.
O desgoverno continua ladeira abaixo na hora de mostrar
capacidade. Compara o melhor com a escória e diz reunir as melhores mentes
quando forma um batalhão de imbecis e aproveitadores.
O partido dos últimos dias
Rodando quase 1500 km no estado do Piauí, nem sempre com internet, vivi, como grande parte do planeta, o assombro da queda do avião nos Alpes. Um amigo mostrou um desenho circulando na internet: Lula batendo na porta da cabine de um avião, gritando: “Abra essa maldita porta!” É apenas um dos centenas de memes que circulam na rede. Mas impreciso. Dilma não quer se suicidar, nem deseja nossa morte. Lula, se entrasse na cabine, não teria mais condições de controlar o avião. Os tempos mudaram, e, parcialmente, a crise brasileira é também produto de sua política.
Numa pausa no Hotel Nobre (R$20 a diária com ventilador e R$40 com ar condicionado) abri a janela para noite da cidade de Castelo do Piauí e acho que compreendi melhor o rumo das coisas no Brasil.
Dilma perdeu a iniciativa na política. Quem impõe sua agenda é o PMDB. Pragmático, confuso, controlando o Congresso, o PMDB dá as cartas. Não sabemos aonde quer chegar. Percebemos apenas que marca Dilma para não deixá-la andar.
Dilma perdeu a iniciativa na economia. Foi necessário chamar um técnico, como somos obrigados a fazer quando máquinas e conexões desandam em nossa casa. Joaquim Levy conduz a política econômica, dialoga com o Congresso e, de vez em quando, inadvertidamente, critica a própria Dilma. O programa de isenção para estimular as empresas foi chamado de brincadeira que custou caro.
Numa palestra em inglês, Levy disse que Dilma nem sempre toma o caminho mais fácil para realizar as coisas e, às vezes, não é eficaz. A primeira etapa da frase parece-me até elogiosa: nem sempre escolhe o caminho mais fácil. Esse traço está presente em muitas pessoas que venceram adversidades, ou recusaram caminhos eticamente condenáveis.
Nem sempre somos eficazes como queríamos. Isto é válido para todos, de uma certa forma. O problema é que Dilma é presidente, e Levy, seu ministro.
Ministros não falam assim de seus presidentes, sobretudo quando se encontram isolados, são recebidos com batidas de caçarola ou perdem, vertiginosamente, a aprovação popular, ao cabo de uma eleição cheia de falsas promessas.
Domingo que vem haverá novas manifestações. O tema será “Fora Dilma”. Possivelmente, os manifestantes pedirão que leve o PT com ela.
Na minha análise, Dilma está saindo de forma lenta e gradual. Ao perder terreno para o PMDB, deixa, discretamente a política, onde nunca entrou com os dois pés.
Ao escolher Joaquim Levy e definir um necessário ajuste econômico, perde terreno para o PSDB, que defendia uma correção de rumos.
Resta o campo social, área muito difícil de fazer avançar em tempos de crise econômica. Seu único trunfo é o PT, que combate a nova política e já está pronto a atribuí-la ao adversário, caso fracasse.
Dilma escolheu um novo secretario de comunicação. Ouço alguém dizer na rádio que uma das qualidades de Edinho Silva é acordar cedo e ler todos os jornais. A entrevista não esclarece se ele entende o que lê. Talvez tenha um pouco de resistência a políticos tratados no diminutivo. No entanto, nunca soube dos conhecimentos de Edinho na comunicação. Se as tivesse, já teria sido chamado, pois a crise já dura meses.
Leio que numa recente reunião, no mesmo tom militar, o PT afirmou que estava diante de uma campanha de cerco e aniquilamento. Simples assim: estavam marchando pela floresta e, repente, os adversários armaram um cerco de vários anéis. Jamais se perguntam como entraram nessa enrascada. Lula se diz o brasileiro mais indignado com a corrupção que ele mesmo comandou, ao montar o esquema político na Petrobras.
Já não são muitos os que levam Lula ao pé da letra. Alguns petistas bem-intencionados falam que a saída é voltar às origens. No passado, quando nos estrepávamos, sempre surgia alguém dizendo: “Precisamos voltar às origens, reler Marx”.
É uma saída com tintas religiosas. Muitas novas seitas surgiram assim: é preciso reler a Bíblia e dar a ela uma verdadeira interpretação.
Não há livro que salve quando não se examina nem se assume em profundidade os erros cometidos. A história não se explica com categorias religiosas, por mais respeitáveis que sejam os impulsos místicos.
A chamada volta às origens criaria apenas o PT do reino de Deus, o PT dos últimos dias, o PT quadrangular.
Fernando Gabeira
Numa pausa no Hotel Nobre (R$20 a diária com ventilador e R$40 com ar condicionado) abri a janela para noite da cidade de Castelo do Piauí e acho que compreendi melhor o rumo das coisas no Brasil.
Dilma perdeu a iniciativa na política. Quem impõe sua agenda é o PMDB. Pragmático, confuso, controlando o Congresso, o PMDB dá as cartas. Não sabemos aonde quer chegar. Percebemos apenas que marca Dilma para não deixá-la andar.
Dilma perdeu a iniciativa na economia. Foi necessário chamar um técnico, como somos obrigados a fazer quando máquinas e conexões desandam em nossa casa. Joaquim Levy conduz a política econômica, dialoga com o Congresso e, de vez em quando, inadvertidamente, critica a própria Dilma. O programa de isenção para estimular as empresas foi chamado de brincadeira que custou caro.
Numa palestra em inglês, Levy disse que Dilma nem sempre toma o caminho mais fácil para realizar as coisas e, às vezes, não é eficaz. A primeira etapa da frase parece-me até elogiosa: nem sempre escolhe o caminho mais fácil. Esse traço está presente em muitas pessoas que venceram adversidades, ou recusaram caminhos eticamente condenáveis.
Nem sempre somos eficazes como queríamos. Isto é válido para todos, de uma certa forma. O problema é que Dilma é presidente, e Levy, seu ministro.
Ministros não falam assim de seus presidentes, sobretudo quando se encontram isolados, são recebidos com batidas de caçarola ou perdem, vertiginosamente, a aprovação popular, ao cabo de uma eleição cheia de falsas promessas.
Domingo que vem haverá novas manifestações. O tema será “Fora Dilma”. Possivelmente, os manifestantes pedirão que leve o PT com ela.
Na minha análise, Dilma está saindo de forma lenta e gradual. Ao perder terreno para o PMDB, deixa, discretamente a política, onde nunca entrou com os dois pés.
Ao escolher Joaquim Levy e definir um necessário ajuste econômico, perde terreno para o PSDB, que defendia uma correção de rumos.
Resta o campo social, área muito difícil de fazer avançar em tempos de crise econômica. Seu único trunfo é o PT, que combate a nova política e já está pronto a atribuí-la ao adversário, caso fracasse.
Dilma escolheu um novo secretario de comunicação. Ouço alguém dizer na rádio que uma das qualidades de Edinho Silva é acordar cedo e ler todos os jornais. A entrevista não esclarece se ele entende o que lê. Talvez tenha um pouco de resistência a políticos tratados no diminutivo. No entanto, nunca soube dos conhecimentos de Edinho na comunicação. Se as tivesse, já teria sido chamado, pois a crise já dura meses.
Creio que todos esses fatores fazem com que Dilma vá deixando lentamente a cena política, como a luz de um navio visto do cais, distanciando-se num oceano escuro. O partido dela acha, no meu entender com razão, que os mais vulneráveis devem sofrer menos, ganhar um tempo de adaptação à crise. Mas o PT não faz nenhum gesto para reduzir ministérios e demitir os milhares de companheiros que se acomodaram na máquina do governo. Nem tem a mínima ideia de por onde começar a cortar os gastos oficiais. O PT apenas defende os pobres, mas se dedica radicalmente a ampliar a própria riqueza
Leio que numa recente reunião, no mesmo tom militar, o PT afirmou que estava diante de uma campanha de cerco e aniquilamento. Simples assim: estavam marchando pela floresta e, repente, os adversários armaram um cerco de vários anéis. Jamais se perguntam como entraram nessa enrascada. Lula se diz o brasileiro mais indignado com a corrupção que ele mesmo comandou, ao montar o esquema político na Petrobras.
Já não são muitos os que levam Lula ao pé da letra. Alguns petistas bem-intencionados falam que a saída é voltar às origens. No passado, quando nos estrepávamos, sempre surgia alguém dizendo: “Precisamos voltar às origens, reler Marx”.
É uma saída com tintas religiosas. Muitas novas seitas surgiram assim: é preciso reler a Bíblia e dar a ela uma verdadeira interpretação.
Não há livro que salve quando não se examina nem se assume em profundidade os erros cometidos. A história não se explica com categorias religiosas, por mais respeitáveis que sejam os impulsos místicos.
A chamada volta às origens criaria apenas o PT do reino de Deus, o PT dos últimos dias, o PT quadrangular.
Fernando Gabeira
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