sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O silêncio político e o silêncio bíblico


O silêncio não é uma flor fácil desta sociedade marcada pelo barulho e pelo estrondo, a dos eufemismos e das mentiras. Existem, no entanto, silêncios e silêncios. Há quem prefira o silêncio diante das ruidosas ameaças dos adversários, e quem o exerça para deixar a vingança nas mãos dos deuses. Neste momento complexo, em que o Brasil parece atravessar um perigoso deserto econômico, ético e social, sacudido por fantasmas de recessões e traições políticas, é estranho o silêncio das duas mulheres que há poucos meses travaram um duelo na disputa pela presidência da República.

Hoje, essas duas mulheres (Dilma Rousseff, de quem se disse que “ganhou perdendo”, e Marina Silva, que teria “perdido ganhando”) estão envoltas em um curioso silêncio. Naquele duelo, ganhou a luta a ex-guerilheira Rousseff, convencida por seus assessores e conselheiros de que só se livraria de Marina destruindo-a politicamente. A ambientalista foi assim apedrejada com as mentiras da propaganda eleitoral, que a apresentaram como um lobo feroz, disposta a tirar a comida da mesa dos pobres para dá-la aos ávidos banqueiros. Os pobres, que sabem como é amarga a fome, assustaram-se e abandonaram a heroína ambientalista apresentada como uma fera voraz das florestas. Hoje, passado o estrondo das palavras da disputa eleitoral, ambas essas mulheres de garra e que não desgostam do poder enfronharam-se no silêncio.

A presidenta Dilma passou seu primeiro mês de mandato sem falar. Quando o fez, suas palavras curiosamente surpreenderam pelos silêncios, pelo que não disse. Para falar na abertura do Congresso, preferiu enviar um representante. Não se ouviu ali sua voz. Ninguém sabe ainda o que ela pensa, por exemplo, do que prometeu nas eleições ou do que acusou os seus adversários naquela ocasião – e que hoje parece estar ela mesma levando a cabo.

O país de suas palavras-silêncio parece distante da realidade das pessoas comuns. Silencia sobre os problemas que abarrotam a mídia sobre a crise econômica, energética, hídrica e de ética na política frente ao tsunami de corrupção na Petrobras que, para ela, é difícil enxergar. Ninguém ainda se atreve a apostar, por exemplo, quanto tempo a presidenta levará para se livrar do espinho chamadoJoaquim Levy, que nomeou para sanear a economia.

Seu silêncio – enquanto pede que falem seus ministros, os mesmos que ontem obrigava a se manterem calados – deve ter um motivo político que, por enquanto, prefere não revelar. Fica, entretanto, cada dia mais claro que o Brasil que Dilma Rousseff segue desenhando não corresponde ao real. Nem sequer ao de seu criador e tutor, que hoje mais parece seu opositor. Lula está, dizem, mais assustado com os rumos do país e sua política que a calada presidenta.

Marina Silva, depois de ter perdido a batalha presidencial, também se cobriu com um estranho silêncio. Mas se o silêncio de Dilma parece político, o de Marina tem contornos bíblicos. É o que alguns chamam de “silêncio dos deuses”.

Acusada de sonhadora e pouco pragmática por seu estilo apocalíptico de defender a ecologia, Marina, filha da selva, observa em silêncio o descalabro ao qual o desprezo pelo meio ambiente está conduzindo o Brasil, que caminha para uma crise sem precedentes de falta de água e energia.

Durante a campanha, Marina bradou contra a velha política, a dos métodos fisiológicos de conceber a partilha do poder, que não leva em conta nem a ética das personagens, nem seu preparo técnico para estar à frente da governabilidade do país.

Também foi tachada de sonhadora porque, com suas exigências éticas, nunca conseguiria, se chegasse ao poder, ter uma maioria que lhe permitisse governar.

Hoje, Dilma acaba de ser derrotada no Congresso por uma maioria que está desmoronando, incapaz de continuar unida e fiel porque a velha política criticada por Marina está esgotada e necessita de uma renovação profunda, como demonstram Espanha e Grécia.

A farta lista de políticos corruptos ou corruptores do escândalo da Petrobras investigado no caso Lava Jato (que será divulgada após as alegrias do carnaval) deverá fazer sorrir tristemente a ambientalista, acusada de querer um Governo em mãos de políticos que fossem, se não santos, pelo menos decentes e não ladrões.

Leia mais o artigo de Juan Arias

Só dois para levar o sacolão?


Estamos à deriva


A saída não é jogar o comandante ao mar, nem o comandante ficar aferrado ao leme, sem reconhecer seus erros, indeciso e sem saber para onde levar o imenso barco

A leitura da imprensa e as conversas com as pessoas passam a sensação de que o País está à deriva, sem um rumo conhecido.

Os dados caóticos da economia, provocados por medidas irresponsáveis ao longo dos anos, apesar de todos os alertas esnobados pela euforia das ilusões criadas; a decepção com as mensagens otimistas que não se verificam em relação ao Pre-Sal, a Copa, os programas sociais; a perplexidade e a vergonha com a corrupção generalizada, com os escândalos repetidos, com os bilhões roubados, com a irresponsabilidade como a Petrobras, a Eletrobras e outras estatais foram administradas; o inconformismo com a traição da mudança radical do discurso eleitoral e para as medidas dos ajustes poucos dias depois.

Tudo isso passa a sensação de à deriva.

Mais grave é que não se vê alternativa. O governo está apenas começando depois de doze anos, sem a lua de mel de um novo mandato e com a perspectiva de ainda quatro longos anos.

E o Congresso, para onde a opinião pública deveria estar olhando em busca de um rumo, está demonstrando um total descaso com a crise, despreparado para enfrentar os desafios da história, perdido entre brigas menores, com um presidente que nesse momento crítico abre mão de seu papel de coordenador das forças parlamentares e prefere assumir a chefia de uma facção partidária a seu serviço.

A deriva termina provocando a tormenta no mar do povo indignado com a corrupção, a incompetência e o autoritarismo. Parece que as lideranças continuamos ignorando as mobilizações de 2013, sem percebermos que o povo que foi às ruas está esperando que uma faísca provoque mobilizações ainda maiores e com propósitos mais radicais.

O Brasil precisa encontrar um rumo por meio de um diálogo de suas lideranças que entendam a gravidade do momento, percebam a deriva em que estamos . O primeiro passo deveria ser dado pela presidente da república. Ela precisa fazer uma autocrítica, parar com a euforia, sair do marketing, pedir auxílio inclusive à oposição. E percebendo-se sinceridade e seriedade, todos devemos dialogar.

A deriva não leva a bom destino. Mas a saída não é jogar o comandante ao mar, nem o comandante ficar aferrado ao leme, sem reconhecer seus erros, indeciso e sem saber para onde levar o imenso barco chamado Brasil.

Cristovam Buarque 

A parte que cabe a Dilma e Lula


Dinheiro da corrupção pode ser localizado e, em parte, devolvido. Já as perdas, digamos, técnicas vão ficar por conta do povo
Quem começou o roubo na Petrobras, os políticos ou as empreiteiras? Para quem não tem nada a ver com isso, não faz diferença. Mas para quem está no rolo, pode fazer a diferença entre uma pena maior ou menos severa. Quem sabe até uma absolvição? — a esperança é livre aqui.

A versão dos políticos — no caso, do PT, PMDB e PP, principalmente, e de gente do governo Dilma — joga a culpa principal no cartel das empreiteiras, que existiria desde muita antes de os petistas chegarem ao poder. Fazendo combinações entre si, distribuindo as obras em reuniões secretas, acertando os preços, as empreiteiras dominavam de tal modo o negócio das grandes obras no Brasil que não havia saída senão, digamos, render-se a elas. Era isso ou não tocar os empreendimentos.

Sendo assim os fatos, com as empreiteiras se refestelando com os preços superfaturados, por que não tirar algum troco para a nobre tarefa de financiar atividades políticas? E atividades de partidos que visavam à nobre causa do povo — até muito justo, não é mesmo? Se isso for crime, dizem os autores dessa teoria, pelo menos é menor do que a montagem da quadrilha, quer dizer, do esquema.

A versão das empreiteiras é o inverso. Políticos dos partidos dos governos Lula e Dilma teriam montado uma máquina de fazer dinheiro para financiar eleições, de modo que não pagar propina e não entrar no esquema significava perder todas as obras.

E se as regras do jogo eram essas, se o preço seria mesmo elevado para pagar a caixinha política, por que não superfaturar um pouquinho mais para atender aos nobres interesses dos acionistas? Este seria um crime menor do que a montagem original da quadrilha etc.

No meio desses dois poderosos lados, sempre sobrava algum para executivos das empreiteiras e da estatal. Na verdade, alguns milhões.

Digamos que haja aí boa matéria para os advogados dos dois lados, mas, para a gente — cidadãos, contribuintes, eleitores, acionistas privados da Petrobras — não tem sentido algum. O gestor da coisa pública — para ficar bem solene — tinha que simplesmente chamar a Polícia Federal tão logo soubesse do esquema. Sem contar que, para o pessoal do PT, haveria aí um ótimo tema para atacar os seus antecessores no governo federal, aqueles neoliberais.

A mesma coisa vale para os donos das empreiteiras. Sabendo da quadrilha, que chamassem a polícia. Por que uma empresa eficiente, dona de tecnologia de primeira, precisaria se sujeitar a esse tipo de esquema que favorece a picaretagem?

Leia mais o artigo de Carlos Alberto Sardenberg

Alerta de monja


Corrigindo o erro é que se aprende. Mais do que perder ou ganhar eleições é saber agir na hora certa para beneficiar o maior número de seres. Administração pública precisa administrar também as privadas



Ladrões assaltaram a Petrobras e desestabilizaram o governo


Em política, aliás na vida em geral, não basta ver o fato. É preciso ver no fato: qual o seu conteúdo mais amplo do que o aparente, suas implicações, seus reflexos que às vezes se alonga no tempo. Refiro-me, como está no título, às ações conjuntas de um bando de ladrões que, além de roubarem bilhões (em dólares e reais), contribuíram, com os assaltos praticados, para desestabilizar politicamente o governo.

Não pode ser outra a interpretação dos capítulos em série que vêm manchetando os jornais, cujo desfecho ocorreu na tarde de terça-feira, quando, enfim, a presidente Dilma Rousseff anunciou a demissão de Graça Foster e a substituição de toda a atual diretoria da Petrobrás. Graça Foster não esperou o período pedido pela presidente e renunciou juntamente com cinco diretores, os quais não foram nominados.

A desestabilização do governo ficou caracterizada em dois fatos adicionais à demissão de Graça Foster: Dilma Rousseff, encarregou o ministro Joaquim Levy e Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, de procurarem no mercado nomes capazes de substituir Graça Foster. Isso acreditando que ela, Graça Foster, fosse permanecer por mais algum tempo. Isso de um lado. De outro, a troca da diretoria da Petrobrás só deveria ocorrer depois da publicação do balanço da empresa devidamente auditado. Sim, porque o que foi publicado há uma semana foi na verdade um relatório. No qual Graça Foster calculou em aproximadamente 88 bilhões de reais o prejuízo ocorrido em consequência da corrupção desenfreada que fez submergir a estatal abalando seriamente o Planalto.

A meu ver, a demissão não deveria estar condicionada à publicação do balanço, pois se tal não fosse feita, a nova diretoria teria que fazê-lo obrigatoriamente. Neste caso, focalizando de forma mais exata os prejuízos causados pelo maremoto da corrupção e seus efeitos na reavaliação dos ativos da empresa. Foi convocada uma reunião para sexta-feira do Conselho de Administração. O afastamento de Graça Foster teve repercussão colossal, mas não altera a análise a respeito do abalo que o governo sofreu nos seus alicerces. Principalmente porque o país não conhecia em sua história roubos praticados em série, reunindo tantos atores, como os que houve na Petrobrás.

E ninguém sabia de nada? Nenhum ex-diretor tinha conhecimento do que se passava? Para sublinhar pelo menos a omissão, vale recordar uma frase de Einstein: o que existe aparece. As ações desabaram na Bovespa, proporcionando um verdadeiro paraíso para os especuladores que, agora, encontraram a “sorte” de usarem argumentos para forçar a queda dos papéis, comprá-los a preços baixos e, no lance seguinte, revendê-los a preços mais altos. Para identificar a manobra financeira, legal mas não moral, basta verificar suas presenças nos pregões. Como sempre. Porém, este é outro assunto.

O essencial é concluir que, em todo esse redemoinho, Dilma Rousseff perdeu parcelas de seu poder político. Pois, assim não fosse, não delegaria a Joaquim Levy e Alexandre Tombini a tarefa de pesquisar no mercado nomes capazes (e capacitados) de assumir a maior empresa brasileira. Ela mesma o faria. Afinal de contas, a responsabilidade de nomear é sua. Aliás, intransferível.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Aviso

Toda a política do governo é cercar-se de garantias para se manter no poder
Adão Myszak

O janeiro negro do Planalto


Se alguém planejasse, não armaria tantas trapalhadas para que tantas coisas dessem errado em tão pouco tempo.
A eleição do deputado Eduardo Cunha para a presidência da Câmara foi apenas um detalhe na trajetória de um governo que parece ter feito uma opção preferencial pela trapalhada. Vale a pena atrasar o relógio.

A doutora Dilma ainda estava de férias e, em seu nome, saiu do Planalto a bala perdida que acertou a testa do ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Levou-o a um recuo público desnecessário, apenas humilhante, por causa de um comentário genérico sobre o salário-mínimo. Pouco depois, veio outra bala perdida, desta vez na direção do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, por ter dito que os critérios do seguro-desemprego estavam ultrapassados, coisa já anunciada pelo seu antecessor. Isso num governo que pretende carregar a bandeira de uma “pátria educadora", e cortou verbas do Ministério da Educação. Deu-se um apagão no sistema elétrico e o ministro de Minas e Energia prontamente informou que foi um acidente. A área técnica do governo desmentiu-o no ato.

Nenhuma dessas coisas precisava ter acontecido. “Pátria educadora" é conversa fiada. O Planalto não precisa atirar nos seus próprios ministros. O doutor das Minas e Energia não precisava dizer o que disse. Finalmente, se Eduardo Cunha tinha uma “ascendência irreversível" na Casa, a doutora deveria ter percebido que iria para frigideira com o petista Arlindo Chinaglia. Quem seria preferível para presidir a Casa: um petista, ou qualquer um? Conseguiu-se o milagre de dar conteúdo oposicionista ao doutor Cunha. Se a desarticulação política do Planalto e do PT tornavam a derrota inevitável, o ronco de poder emitido pelo comissariado nas últimas semanas foi apenas uma opção preferencial pela trapalhada. Um miado de leão, rugido de gato.

Essas foram iniciativas equivalentes à do sujeito que resolve atravessar a rua para escorregar na casca de banana da outra calçada. Verdadeira mágica, porque do outro lado da rua havia só a banana de Cunha. Na calçada em que anda o Planalto há cachos. O ano de 2014 fechou com o maior déficit das últimas décadas, desmentindo 12 meses de sucessivas lorotas. A Petrobras teve seu crédito rebaixado e suas ações valem menos que dois cocos em Ipanema. Isso e mais a certeza de que a Operação Lava-Jato vai desentranhar as contas do PT. (A regulamentação da Lei Anticorrupção está engavetada há um ano.)

O governo resolveu inflar seus desastres porque, na batalha da comunicação, egocentrismo e megalomania abafam a rotina. Mesmo assim, nem tudo são espinhos. Esse mesmo governo mandou passear o lobby das concessionárias de energia que pretendia espetar na Viúva uma conta de R$ 2,5 bilhões. Mandou passear também os clubes de futebol com suas dívidas de pelo menos R$ 1,5 bilhão. Muito justamente reduziu o crédito estudantil para jovens com desempenho pouco acima do medíocre no Enem. Contrariou os barões das escolas privadas, mas conteve a privatização de seus recursos. Essa batalha ainda não terminou, como ainda não entrou em cena a das operadoras de saúde, começada nos dias das festas de fim de ano.

Resta à doutora Dilma um consolo. Na oposição, a única novidade é que Aécio Neves deixou a barba crescer.

Leia mais o artigo de Elio Gaspari

A lagarta


O governo costuma ser um reflexo de quem o lidera.
Dilma não ama as pessoas e não é amada por elas. É simples assim.
Ricardo Noblat

Fichinha de R$ 88 bilhões


Até levar no blá-blá-blá, cheio de negativas, de evasivas, Graça Foster empurrava com a barriga. Mas foi só assustar o país, embasbacado com o rombo promovido na maior empresa do país responsável por boa parte da economia, com um possível estouro no caixa de R$ 88 bilhões, sua cabeça tinha mesmo que rolar.

Falar em medidas para investigar os corruptos infiltrados na empresa, anunciar que o balanço trimestral irá sair, defender com unhas e dentes a empresa em troca da punição dos ladrões, até aí se mantinha na corda bamba.

Mas quando revelou a verdade, ou a quase verdade, porque a verdade verdadeira talvez nunca se saiba, não tinha mais como se sustentar e evitar que o tsunami de corrupção governamental batesse nas portas dos gabinetes superiores.

Impossível, nem mesmo aos mais imbecis, desconhecer que essa montanha de dinheiro não podia sumir no ralo, entrar literalmente pelo cano e ir para as profundezas da terra. Também é muito para abastecer apenas um grupinho dentro da empresa, ou no paralelo, mesmo que cada um tirasse milhões.

(Qualquer calculadora revela com precisão que, com a bagatela de R$ 80 milhões por cabeça, poderiam ser feitas “doações” pessoais para 1.100 bandidos, o que é praticamente a lotação de uma penitenciária. Donde se conclui, que ainda falta muita gente.)

Para onde foi tanto dinheiro da soma revelada por Graça Foster, que ainda não tem suas cifras confirmadas? É uma dinheirama sem medida. Afinal, o Bradesco, no último ano, teve um mísero lucro de R$ 15 bilhões, mas o aparelhamento da Petrobras conseguiu em 12 anos roubar da empresa, que pertence ao Estado, R$ 5,8 bilhões por ano, no barato. E ninguém viu, ninguém sabe.

Isso só de um caso investigado, não se imagina o que vai sair se começarem a passar a limpo outras estatais e obras governamentais. Que não se esqueça a revelação de Ricardo Pessoa, chefe do cartel da Petrobras, dono da UTC Engenharia e amigo de Lula: “Lava Jato está prestes a mostrar que o que foi apresentado sobre a área de Abastecimento da Petrobras é muito pequeno quando se junta Pasadena, SBM, Angola, esquema argentino, Transpetro, Petroquímica. Ah, e o contrato de meio ambiente da Petrobras Internacional? Se somarmos tudo, Abastecimento é fichinha.” Uma fichinha até agora calculada em R$ 88 bilhões.

Se a administração petista se revela um desastre, vê-se agora que o aparelhamento causou ainda maior dano: roubaram o país com a cara mais lavada do mundo, sob a fachada de democracia socialista, que ainda agora os cretinos aplaudem. Resta-nos a conta e um país destrambelhado.

A violência mais perigosa

Não podemos falar em democracia plena se não conseguimos afiançar educação de qualidade para todos; se não oferecemos um bom sistema de saúde para o conjunto da população; se não possuímos isonomia jurídica (só vão para a cadeia pretos, pobres e prostitutas); se a corrupção tornou-se parte essencial do brasileiro; se há um fosso intransponível separando as classes sociais; se não compreendemos a ideia de bem público como bem comum. E se não temos sequer o direito de ir e vir. A nossa democracia se limita – e temos nos contentado com isso – ao exercício da escolha periódica dos governantes.
Se derrubamos a ditadura militar, não alcançamos recuperar integralmente a liberdade um dia perdida. Temos independência para votar, para opinar, para comprar, mas não para ir e vir – o que certifica a qualidade de vida de um povo. O tráfico de drogas, o sistema carcerário falido, a sensação de impunidade, a corrupção na polícia e no Judiciário, a pressão da sociedade consumista, a injustiça social, o contrabando de armas, o péssimo exemplo das autoridades, a impotência da população, tudo nos empurra para o encastelamento em edifícios superprotegidos, em casas-fortaleza, em condomínios fechados, onde, acreditando viver em cidadelas inexpugnáveis, apenas nos enredamos em solidão e egoísmo, apenas nos afastamos mais e mais das soluções para uma destinação coletiva.
Luiz Ruffato

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Sete dicas para descobrir o ladrão

*Tudo o que faz, o faz secretamente
*O que não consegue obter hoje, procura obtê-lo amanhã
*É leal para com seus cúmplices
*Está preparado a sacrificar-se pelo objeto de seu desejo, embora possa não ter valor nenhum para os outros
*Uma vez que o objeto desejado se torna sua propriedade, perde o interesse
*Não teme dificuldades
*Nada pode fazê-lo mudar de ocupação, ou seja, não quer ser ninguém exceto ele próprio
Maguid de Mezeritch século XVIII

Voltar a ser pobre na Venezuela (E aqui?)

A inflação galopante leva milhares de cidadãos a cair na pobreza. Os programas oficiais de ajuda não são suficientes
Com um déficit orçamentário estimado em 20% do Produto Interno Bruto (PIB) e com os preços do petróleo ameaçando permanecer a menos de 50 dólares por barril nos próximos meses, o ano de 2015 se apresenta para a Venezuela como um ano de perspectivas catastróficas. Mas em um momento em que ainda não se concretizaram as dificuldades previstas para este annus horribilis da economia venezuelana, o relatório que acaba de ser publicado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que estabelece com dados de 2013 que a pobreza está aumentando na Venezuela, representa um revés para o regime bolivariano.

O órgão da ONU destaca a Venezuela como o país com o pior desempenho em uma região caracterizada pelo estancamento do crescimento econômico e, por conseguinte, da mobilidade social. O relatório atinge fortemente o discurso do regime bolivariano, que, durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, legitimou seus atos políticos através da invocação constante de seus êxitos, imaginários ou reais, no combate contra a exclusão e a pobreza. Os porta-vozes governamentais sistematicamente se defendem com reconhecimentos de entidades técnicas da ONU, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) ou a própria Cepal, para dar credibilidade a suas vitórias.

O documento da Cepal sugere que a ascensão dos pobres na Venezuela foi superficial e volátil, sujeita ao vai-e-vem dos rendimentos com o petróleo e da vontade do Estado de repartir os lucros eventualmente produzidos.


Os programas de assistência social do Governo (chamados de “missões”), que em meio à crise poderiam servir para atenuar o empobrecimento, atendem apenas 10% das famílias pesquisadas. E o que é pior: o estudo determinou que quase metade dos beneficiários desses programas não é pobre. “Isso nos mostra que as missões não são abrangentes nem dão proteção social efetiva, porque não estão sendo concentradas no setor mais vulnerável da população”, ressaltou o sociólogo.
(...)
O sociólogo España destaca que tudo isso mostra que durante os últimos 15 anos não houve na Venezuela um programa para combater a pobreza de maneira estrutural, mas apenas uma campanha de distribuição dos lucros do petróleo com um sentido assistencialista. “É preciso criar um plano autêntico de superação da pobreza, baseado no esforço e na produtividade”.


Quem envenenou a Petrobras?


A mídia apenas notícia o que dizem investigadores e delatores premiados, ela não descobriu nada. Felizmente porém divulga o que não foi capaz de descobrir

Felizmente surgiu nestes últimos dias movimentos em defesa da Petrobras. Empresa que orgulha o Brasil e da qual o Brasil depende. Mas é surpreendente que estes movimentos não estejam denunciando quem envenenou nossa empresa.

A Petrobras foi envenenada por diretores corruptos aliados a empresas corruptas. Juntos superfaturaram obras, roubaram dinheiro do País, degradaram nossa empresa.

A Petrobras foi envenenada pelo aparelhamento partidário que escolheu dirigentes despreparados para os cargos, selecionados apenas pela carneirinho partidária.

A Petrobras foi envenenada pelo conluio entre os dirigentes políticos e os diretores aparelhados que ofereceram facilidades e lucro majorado às empresas, em troca de propinas para enriquecimento pessoal ou com o objetivo de financiar campanhas eleitorais.

A Petrobras foi envenenada pela manipulação dos preços de seus produtos reprimidos abaixo das necessidades financeiras, para esconder a inflação. O governo sacrificou a Petrobras com superfaturamento de obras para obter financiamento de campanha e rebaixamento nos preços de seus produtos para enganar a população.

A Petrobras foi envenenada pela exigência de investimentos além de suas possibilidades, como forma de justificar o marqueting de que o Pré-Sal salvaria a Nação, educaria as crianças, construiria a infra-estrutura.

A Petrobras foi envenenada pela teimosia de manter dirigentes que há meses não passam credibilidade, nem demonstram capacidade para conduzir a empresa.

A Petrobras foi envenenada pelo silêncio de muitos de seus servidores que sabiam ou desconfiavam dos mal feitos e da má gestão mas calaram por apego aos cargos, por partidarismo ou por medo.

A Petrobras foi envenenada também pela imprensa, mas não pelo fato de estar divulgando as notícias e sim pela incapacidade investigativa que descobrisse em tempo o que se passava dentro da empresa. Não fizeram com a Petrobras o que fizeram com o mensalão. Não é por acaso que o nome mensalão foi apelidado pela mídia e o nome Lava a Jato pela Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça. A mídia apenas notícia o que dizem investigadores e delatores premiados, ela não descobriu nada. Felizmente porém divulga o que não foi capaz de descobrir.

A Petrobras foi envenenada pela base de apoio do governo no Congresso, que não deixou que a CPI desnudasse em tempo o envenenamento a que ela estava sendo submetida.

E a Petrobras está sendo envenenada agora por aqueles que silenciaram durante todos os meses das descobertas das propinas, dos desmandos e agora dizem defender a nossa empresa, sem identificar os envenenadores, sem denunciar todos os responsáveis pelo crime ainda pior do que corrupção, crime de lesa pátria cometido.
Cristovam Buarque

Responda rápido


Dilma, a breve?

O Brasil evolui pelo que perde, e não pelo que ganha. Sempre houve no país uma desmontagem contínua de ilusões históricas. Com a história em marcha a ré, estranhamente, andamos para a frente. Hoje, sabemos que somos parte da estupidez secular do país. Assumir nossa doença talvez seja o início da sabedoria. O Brasil se descobre por subtração, não por soma. Chegaremos a uma vida social mais civilizada quando as ilusões chegarem ao ponto zero.
Teremos um 2015 agitado, o que é muito bom. Nunca um governo na História da República esteve tão maculado pela corrupção, nunca. O que o Brasil quer saber é se a oposição estará à altura da sua tarefa histórica. Se não cometerá os mesmo erros de 2005, no auge da crise do mensalão, quando não soube ler a conjuntura e abriu caminho para a consolidação do que o ministro Celso de Mello, em um dos votos no julgamento do mensalão, chamou de “projeto criminoso de poder.”
Marco Antonio Villa

Adeus às ilusões

O Brasil está sem assunto. O governo nos surripiou, entre outras coisas, o “assunto”. Tirando a tragédia da água que pode nos secar, estamos condenados a comentar apenas essa crise política e institucional que vivemos. Descobrimos, de boca aberta, a falência múltipla dos órgãos públicos. O Brasil está sendo destruído diante de nós e não podemos fazer nada. Os petistas no poder roubaram os melhores conceitos de uma verdadeira esquerda que pensa o Brasil dentro do mundo atual e se obstinam em usurpar um genuíno progressismo em nome de uma “verdade” deformada que instituíram. Quem quiser alguma positividade é “traidor neoliberal”, termo muito usado pelos “mestres” militantes que doutrinam milhares de jovens nas universidades.

A academia cultiva a “desigualdade” como uma flor. A miséria tem de ser mantida “in vitro” para justificar teorias velhas e absolver incompetência. Orgulham-se de um maniqueísmo esquemático, como se a verdade morasse no mais raso reducionismo. O capitalismo explica tudo e é tratado como uma pessoa: “Ih... Parece que hoje o capitalismo acordou de mau humor” ou “esse capitalismo é mesmo cruel e incorrigível – não para de explorar os pobres”.

O filósofo João Pereira Coutinho disse outro dia, na “Folha”, uma frase ótima: “Oprimido e opressor não esgotam as relações humanas possíveis, mesmo as desiguais. A luta de classes é uma escolha política, não um dado natural” – na mosca. Somos tecnicamente uma “democracia”, que, aliás, é vivida como porta aberta para o oportunismo: “Ah, na democracia tudo pode, é mais fácil roubar numa boa”. Achávamos a corrupção uma exceção, um pecado, mas hoje vemos que o PT transformou a corrupção em uma forma de gestão, em um instrumento de trabalho. Várias vezes citei uma frase do Baudrillard que explica a esquerda radical e repito-a: “O comunismo hoje desintegrado tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não por meio da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas por seu modelo de ‘desfuncionamento’ e da desestruturação da sociedade” – vide o novo eixo do mal da América Latina.

Essa zona geral do país começou com o nefasto Lula (o grande culpado de tudo), que teve a esperteza de transformar nossa anomalia secular em projeto de governo. Essa foi a realização mais profunda de seu governo: a adesão sem pudor do patrimonialismo burguês e o desenho de um novo e “peronista” patrimonialismo de Estado. Essa gente desmoralizou o escândalo, a indignação e a ética (essa palavra burguesa e antiga para eles). A maior realização desse governo foi a desmontagem da razão.

Não é sublime tudo isso?

Nunca antes em nossa história alianças tão espúrias tiveram o condão de nos ensinar tanto. A cada dia, nos tornamos mais desesperados porém mais sábios, mais cultos sobre essa grande chácara de oligarquias. Em nome da esperança, talvez tudo que ocorre hoje nos ensine muito. Estamos progredindo, pois estamos vendo melhor a secular engrenagem latrinária que funciona nos esgotos da pátria. Há qualquer coisa de novo nesta imundície. A verdade está nos intestinos.

A verdade está sempre no avesso do que dizem. São hábeis em criar um labirinto de desmentidos, protelações e enigmas que vão desqualificando as investigações de coisas como a Petrobras e todos os crimes de seus aliados. E a mentira vai se acumulando como estrume durante anos e acaba convencendo muitos ingênuos de que “sempre foi assim” ou de que “erraram com boa intenção”.

Não só roubaram cerca de R$ 10 bilhões (até agora) desviados da Petrobras e de outros aparelhos do Estado, mas roubaram também nossos mais generosos sentimentos – não arredaram os pés dos velhos dogmas da era stalinista, como, aliás, os antigos comunas fizeram desde que se recusaram a votar nos sociais-democratas alemães, fazendo Hitler subir ao poder. Já em 1924, Stálin chegou a afirmar: “O fascismo e a social-democracia não são inimigos, mas irmãos gêmeos”. A verdade é que os petistas nunca acreditaram na “democracia burguesa” – se orgulham de fingir-se de democratas para apodrecer a democracia por dentro. Um professor emérito da USP “se entregou” e disse: “Democracia é papo para enrolar o povo”. Se bem que o “povo” nem sabe o que é isso e prefere mesmo um autoritarismo populista. Um país de analfabetos sempre espera um salvador da pátria. Estamos prontos para ditadores e demagogos; para administradores e reformadores racionais, não. Enquanto isso, intelectuais sonham com um socialismo imaginário, pois têm medo de ser chamados de reacionários ou caretas. Continuam ativos os três tipos exemplares de “radicais”: os radicais de cervejaria, os radicais de enfermaria e os radicais de estrebaria. Os frívolos, os loucos e os burros. Uns bebem e falam em revolução; outros alucinam e os terceiros zurram. Que cenário maldito...

A “presidenta” está pagando pelo erro de querer ser socialista-brizolista e dirigir um país... ah... capitalista. Ignorou Davos na reunião da cúpula da economia e foi à Bolívia se vestir de inca na posse do Morales. Dilma perdeu o controle da zona geral que Lula sabia “desorganizar” com esmero e competência. Dilma não é competente nem para desorganizar. Não é apenas o fim de dois maus governos; é o despertar de um caos institucional que será mais grave do que pensávamos. Estamos diante de um momento histórico gravíssimo, com a união dos dois tumores gêmeos de nossa doença: a direita do atraso e a esquerda do atraso. Como escreveu Bobbio, se há uma coisa que une esquerda e direita é o ódio à democracia.

Arnaldo Jabor 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Definição


A palavra ‘democratizar’ tem sido usada por mentes de pessoas totalitárias para matar aquilo que a democracia tem de melhor, que é a liberdade de expressão. É preciso não esquecer que as ditaduras no Leste Europeu eram chamadas de democracias populares
Senador Jefferson Peres, do PDT do Amazonas (1932- 2008)

'Vamos precisar de um balde maior'

Quem seremos nós, sem água? Caberá a essa geração imperfeita enfrentar os desafios de um futuro que chegou antes
Quando a gente abre a torneira em São Paulo e não sai nada, e sabe que logo chegará o dia que não haverá nada no dia seguinte e no dia seguinte ao dia seguinte e assim por um tempo que ninguém sabe quanto será e quem diz que sabe mente, descobrimos que nos tiraram muito mais do que água. Essa é a parte aterrorizante. E é aterrorizante para além das vidas secas. O terror é menos pelo que só agora faltou, mais pelo que nunca existiu. O terror é dado pela perda das ilusões de que tudo estava sob controle. E, de repente, aqueles que repetiam que estávamos todos bem bem mostraram que, na verdade, estamos todos bem perdidos. O estado de torpor dos moradores de São Paulo foi perfurado pela realidade, abriu-se um rombo que talvez seja impossível fechar. No fundo desse buraco não há vazio, mas espelho. É nesse ponto que existe algo de fascinante. É quando o morador de São Paulo vira todos, encarna o humano dessa época, uma catástrofe diante da catástrofe. Nós, o futuro que chegou primeiro.

São Paulo sem água é uma imagem poderosa. A cidade expandida em que mais de 20 milhões vivem à beira de um rio que matamos. A cidade que virou estufa, abarrotada por carros que se movem mais e mais lentamente, queimando combustíveis fósseis e lançando gases na atmosfera. A cidade que desmatou o entorno dos mananciais e desprotegeu-se. A cidade em que, quando a chuva cai, parece que evapora antes de chegar ao chão convertido em concreto e, nas tempestades, alaga e é destruída porque o cimento não pode absorver a água. As chaminés das fábricas do século 20 da São Paulo “que amanhece trabalhando”, assim como os canos de descarga dos carros de cada dia, são falos decaídos. As ilusões de potência e de superação, o sem limites da modernidade, viram pó na cidade imensa, transformando São Paulo num monumento que ela não sonhou ser – e nós em seres trágicos.

O momento em que a máquina do mundo se abriu para a maioria foi no final desse janeiro, ao ser anunciado que poderia haver um rodízio 5X2 – cinco dias sem água, dois com água. A classe média correu a comprar caixas d’água extras e galões, houve quem estocou centenas de litros, os baldes viraram objetos de desejo. Lembrou “Tubarão”, o filme de Steven Spielberg que talvez tenha inaugurado o conceito de blockbuster, na cena em que o monstro emerge com uma boca capaz de palitar os dentes com o barco que pretendia caçá-lo e o xerife da cidade diz, na frase que ficou antológica para quem gosta de cinema: “Vamos precisar de um barco maior”. Parece que, por aqui, nós vamos precisar de um balde maior.


O futuro chegou antes e justamente no momento em que as instituições políticas e os grandes partidos estão desacreditados

Nosso momento presente é enorme. Precisaríamos ter na liderança um estadista, uma pessoa capaz de botar o interesse público acima de suas ambições eleitorais, alguém que compreende a amplitude do que está em jogo, um político com visão de século 21. Nosso desamparo é maior porque não temos essa figura nem no governo de São Paulo nem no governo do país. Temos no comando do estado alguém com uma mentalidade de vereador de cidade pequena. E nada contra vereadores de cidade pequena, existem os bons, apenas que para um governador o olhar precisa ser muito mais amplo e a política exercida num outro nível. E, no Planalto, temos uma presidente vendida como “gerente”, o que não é exatamente o que se espera de alguém que comanda um país, mas, como sempre pode piorar, se mostrou uma má gerente ainda no primeiro mandato.

O futuro chegou antes. E justamente no momento em que as instituições políticas e os grandes partidos estão desacreditados, em que se pode mentir para ganhar a eleição e dizer o contrário em seguida. É assim que a população descobre que as autoridades não só falsearam a realidade como não sabem o que fazer agora que a calamidade se instalou. As autoridades desautorizaram-se, num fenômeno político tão grave quanto complexo. E a população encontrou-se só e com o monstro na sala.

Leia mais o artigo de Eliane Brum

Desculpas, nem morta


Pedir desculpas não está no vocabulário dos políticos, empresários, funcionários públicos e governantes brasileiros. Parece a eles um gesto humilhante. O grande ato de humildade, que revela civilidade, não consta no DNA deles, saturados de arrogância e oxigenados pela prepotência. Enfim, cretinos. A sempre presente autoridade do "sabe com quem tá falando", vício danado de tempos coloniais, se incorpora quando se instalam como servidores públicos, quando se servem à vontade.

Não pedem desculpas, não dão satisfação. Quando alguém viu um desses políticos, de qualquer partido, confessar que sabia sobre o agravamento do problema hídrico e agora se desculpa porque não tomou as devidas providências? Também ninguém sabia de corrupção campeando há anos na Petrobras. Como não há um deles se mostrando consternado com a roubalheira que pode levar o país para o buraco, quebrar a maior empresa do país.

Se dizem autoridade, mas não passam de canalhas.

Dilma dá o exemplo de que não se deve pedir desculpas. Como não se desculpou nenhuma vez, não mostrou indignação com a canalhice vigente no país. É o governo da tirania de quem faz o que quer, quando quer e como acha melhor para sua imagem. Não é exemplo de democrata, mas a imagem de uma ditadora.

Na última semana, quando reinava soberana na Toca de Ali Babá, diante de uma cambada de ministros, se achava a dona da cocada. Era mais uma figura bufona. A democracia estava bem longe em Nova Iorque, onde o prefeito Bill de Blasio dava uma lição aos governantes de republiquetas.

Diante de uma possível meganevasca na cidade, tomou todas as medidas as mais exageradas (como só se viu depois) para enfrentar o temporal. Saíram ilesos a cidade e o prefeito, que junto à equipe municipal de meteorologia foi pedir desculpas na televisão por se prevenir tanto. Mereceu aplausos e apoio.

Um gesto que não se vê no Brasil. Nem falta previsão em casos de desastres esperados, ou em qualquer ato que atinja a população, como se recusam a pedir desculpas quando se mostraram os mais incapazes para administrar.