quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Própria para delinquentes


Lobo em pele de ovelha


Assim ofuscados pelo cetro, pelas insígnias reais, por seu cortejo, títulos fulgurantes de sereníssimo, clementíssimo, alto e poderoso senhor, reverenciamos num príncipe uma espécie de divindade terrestre, de natureza mais que humana. Mas abre esse anti-sileno e não encontrarás mais que um tirano, quer dizer, um inimigo mortal dos cidadãos, que detesta a paz interior e está disposto a suscitar a discórdia e perseguir as pessoas de bem, flagelo das leis, destruidor das cidades e devastados da Igreja, ladrão sacrílego, incestuoso, em suma, como diz o provérbio grego, um amontoado de todos os vícios

Erasmo de Roterdã

Lição para o Brasil de hoje


“Era uma bela manhã de agosto. O vento era suave. Uma tripulação contente e satisfeita levantava a vela, disparava uma saudação, e navegava para fora do local onde hoje fica Slussen (nota: a área da eclusa que separa o lago Mälaren do Mar Báltico, no centro de Estocolmo).

Milhares de moradores contemplavam o orgulho da superpotência, um dos maiores e mais fortemente armados navios de guerra, o que faria a guerra contra os católicos no continente.

Em vez disso, eles viram o Vasa dar uma violenta guinada assim que saiu do abrigo. O navio se endireitou, mas foi  logo empurrado para baixo por uma rajada. Desta vez tão fortemente que a água começou a jorrar para dentro das aberturas dos canhões.

O maior navio da frota adernou rapidamente, virou e afundou em 10 de agosto de 1628, após uma viagem de 1300 metros.

Neste domingo, faz 50 anos que o Vasa foi resgatado pelo engenheiro naval Anders Franzén, depois de uma longa luta contra aqueles que queriam explodir os destroços e com eles fazer móveis de madeira.

Isso deu à Suécia seu mais impressionante museu, com os mais bem conservados restos de um naufrágio dos anos 1600 que o mundo já viu.
Como bônus, nós também temos um permanente lembrete sobre o perigo do autoritarismo e do pensamento de grupo - partidos, organizações e empresas deveriam fazer visitas regulares ao Museu Vasa, para sempre lembrar-se dos riscos que correm.

Para os responsáveis, o naufrágio do Vasa não foi uma surpresa. Os interrogatórios revelaram mais tarde que eles provavelmente suspeitavam de que as coisas não iam bem, mas cada um culpava o outro.

Ninguém se atreveu a informar o rei de que seus planos forçados não eram factíveis.  O Almirante de Esquadra alegou que o Capitão deveria ter protestado, e o Capitão disse que era o Almirante Clas Fleming quem deveria ter feito isso.
O Rei Gustav II Adolf havia exigido um navio poderoso e o queria imediatamente. O projeto não foi testado e o barco tinha não apenas mais canhões na parte superior, como também menos peso na parte inferior, do que o habitual. Já no porto o defeito era óbvio.

Na primavera de 1628, a estabilidade do Vasa foi testada por 30 marinheiros correndo para trás e para frente no convés. O Vasa começou a balançar violentamente.

O Almirante Fleming reagiu imediatamente, interrompendo o teste e fingindo que tudo estava em ordem. Ele era um dos homens mais talentosos da frota, mas ele também queria agradar, ele não queria criar problemas e decepcionar o chefe.

Soa um pouco como algum local de trabalho perto de você? Em 400 anos, a construção de navios conseguiu se transformar, mas o ser humano continua o mesmo”.

***
O texto acima é de Johan Norberg, publicado originalmente em sueco no jornal Metro de Estocolmo, em 20 de abril de 2011, sobre o fim do Vasa, único navio de guerra do século XVII existente no mundo. Com 95% do casco original do barco preservado é um tesouro artístico único e uma das maiores atrações turísticas do mundo. Afundou no dia do lançamento ao mar, após percorrer apenas 1 milha náutica (menos de 2 km). Graças às condições especiais das águas do Báltico, foi recuperado mais de 330 anos depois, praticamente intacto. O navio encontra-se exposto num museu especialmente edificado para acolher o navio, em Estocolmo.

O texto foi traduzido por Sandra Paulsen no artigo O Vasa -Lições para o Brasil de hoje 

'Aos que vierem depois de nós'


                        I

Realmente, vivemos tempos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes,
em que é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

                        II

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

                        III

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Bertolt Brecht

Desperdício em sala de aula 'drena' investimentos


Na América Latina e no Brasil, perde-se 1 dia de aula por semana por conta do desperdício de tempo, diz Banco Mundial
Alunos brasileiros perdem em média um dia de aula por semana por conta de desperdício de tempo em sala de aula, gasto com atrasos, excesso de tarefas burocráticas (fazer chamada, limpar a lousa e distribuir trabalhos) e em aulas mal preparadas pelo professor - tempo este que deixa de ser gasto com o ensino de conteúdo.

Essa foi uma das principais conclusões de um estudo recém-lançado pelo Banco Mundial que analisou o trabalho de professores na América Latina e seu impacto sobre a qualidade do aprendizado, a formação dos alunos e o desempenho desses países em rankings internacionais de educação.

A pesquisadora Barbara Bruns, uma das autoras do estudo, lembra que o tempo de interação entre aluno e professor é o momento para qual se destinam, em última instância, todos os investimentos em educação. "Nada desse investimento terá impacto na melhoria do aprendizado, a não ser que impacte sobre o que ocorre na sala de aula", diz ela.

O Banco Mundial avaliou 15,6 mil salas de aula, mais da metade delas no Brasil (classes dos ensinos fundamental e médio em MG, PE e RJ), e calcula que, em média, apenas 64% do tempo da classe seja usado para transmissão de conteúdo, 20 pontos percentuais abaixo de padrões internacionais.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014


'Não há uma cidade, um estado no Brasil, sem obra superfaturada'


Para promotor especialista em carteis, algumas empresas atuam como a máfia
Mudam os esquemas, mas os protagonistas continuam os mesmos. Ano após ano, grandes empresas – em especial, construtoras – são apontadas como pivôs de escândalos suspeitos de desviar uma fortuna dos cofres públicos no Brasil. O mais atual, que atinge a empresa estatal mais importante do país, a Petrobras, revelado pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal (PF), pode ter causado um rombo de até 10 bilhões de reais. Para o promotor de Justiça de São Paulo, Marcelo Batlouni Mendroni, especialista em investigar crimes financeiros e cartéis, somente uma ampla reforma na legislação diminuirá a ocorrência de casos de corrupção que, na avaliação dele, é endêmica.

“Não há uma prefeitura, um Estado no Brasil, sem contratos superfaturados de obras, de prestação de serviços”, disse o promotor, doutor pela Universidad Complutense de Madrid, na Espanha, com pós doutorado na Università di Bologna, na Itália. Em entrevista ao El País, na sede do Gedec, órgão do Ministério Público paulista criado em 2008 para investigar delitos de ordem econômica, Mendroni comparou as empresas envolvidas em escândalos dessa natureza à máfia italiana.

O promotor é autor da denúncia, de 2012, um grupo de empreiteiras suspeitas de fraudar uma concorrência pública para obras do metrô paulista. Embora sejam casos completamente distintos – um afeta o Governo Federal, comandado pelo PT, e o outro o Governo paulista, a cargo do PSDB –, chama a atenção a repetição dos “personagens” da esfera privada. Dentre as denunciadas pela Promotoria de São Paulo há dois anos, seis estão agora sob a mira da Operação Lava Jato da PF: as construtoras Camargo Corrêa, Mendes Júnior, OAS, Queiroz Galvão, Iesa e Odebrecht – todas negam irregularidades. Na semana passada, 36 investigados, entre eles executivos de oito construtoras, foram detidos pela Polícia Federal.
Leia a entrevista do promotor Marcelo Mendroni 

Somos cúmplices



A corrupção se converteu no ambiente da sociedade. É tão velha como a prostituição encontra terreno fértil numa sociedade que premia o cinismo e o êxito rápido. E parte da cultura globalizante que tira do rumo os códigos morais como consequência das exigências sociais. Somos corresponsáveis pela corrupção 
Jorge Zepeda Patterson

Paisagem Brasileira

Aguilon,Tempo chuvoso em Ouro Preto

A calçada dos milhões


Propaganda de supermercado? Oferta de televisão em programa popular? Promoção de loja de eletrodomésticos? Nova comédia de sucesso no cinema? Quem dera.

O título é mesmo de mais um rombo em nome do progresso “revolucionário” (como se esse precisasse de adjetivo) das Organizações Quaquá, monopólio petista dos rombos nos cofres públicos de Maricá.

Sempre disposto a desenvolver o município com as velhas receitas rançosas e conservadoras, colorizadas de bolivarianismo, o multifuncional prefeito Quaquá protagonizou outro escandaloso roubo no Erário: mais de R$ 8 milhões para a recuperação “ecológica” das calçadas de 1,5 m de largura em alguns trechos do Centro. Obra digna de um Nabucodonossor de esquina, insuperável até mesmo pela Calçada da Fama em Hollywood, nem tão cara assim.

O calçamento passa incólume (será que nada viram?) pela mídia local e é recebido pelos basbaques de sempre com o estrondo de aplausos, quiçá com reverências carnavalescas do comissariado e daqueles sempre afeitos a aplaudir pouca bosta e se calar diante dos desmandos, falcatruas e desgoverno. Faz parte da pirotecnia da empulhação.

Eleito e reeleito como um símbolo da revolução no município, ficou no meio-fio como um pierrô pré-revolução russa. Se tornou verdadeiramente um “coroné” da Velha República dando esmolas em troca de votos de cabresto, levando o desenvolvimento com obras de barrigada.

A caricata postura de político de meia tigela tem propiciado ao município as maravilhas de obras, com verbas estaduais e federais, de que se apropria indevidamente para justificar a permanência no trono, em troca dos favores da bica comissariada e das esmolas de bolsas. Ambas também escandalosas.

O número de apadrinhados dentro da administração supera os 3 mil, logicamente para não fazer nada, a ponto de o governo sair alugando casarões para abrigar parte da gentalha da boquinha, que a outra está em casa na sombra e água fresca de só aparecer para receber na boca do caixa.


A farra se completa com a distribuição, além do Bolsa Família, da modalidade Bolsa Mumbuca, atendendo mais de 14 mil famílias beneficiadas com R$ 85 num universo populacional de 120 mil habitantes. É sinal de que muita gente está no nível de pobreza e o indigno prefeito nada faz para desenvolver o município e melhorar a vida da população mais necessitada. O interesse é sustentar esses eleitores de cabresto com suas bolsas e calçadas para “beneficiar deficientes físicos e visuais” para continuar mamando com a gente do seu curral. Mesmo que para isso o município sem afunde na maracutaia e ignorância dos basbaques. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Única coisa que sabe


Brasil tem 155 mil em regime de escravidão


Quase 36 milhões de homens, mulheres e crianças - 0,5% da população global - vivem em situação de escravidão moderna no mundo, segundo levantamento divulgado nesta segunda-feira pela organização de direitos humanos Walk Free Foundation.

O Brasil, apesar de ter um dos menores índices de escravidão do continente americano (atrás de Canadá, EUA e Cuba), ainda abriga 155,3 mil pessoas nessa situação, que abrange desde trabalho forçado ou por dívidas, tráfico humano ou sexual até casamentos forçados, em que uma das partes é subserviente.

"Depois da Europa, o continente americano é a região com a menor prevalência de escravatura moderna no mundo. Ainda assim, cerca de 1,28 milhão de pessoas (no continente) são vítimas de escravatura, na sua maioria por meio do tráfico sexual e exploração laboral, (sobretudo) trabalhadores agrícolas com baixas qualificações e elevada mobilidade", diz o relatório.

"Um dos principais fatores na região são as fortes tendências migratórias transnacionais, que levam pessoas vulneráveis a abandonar seus lares em busca de trabalho. As condições de trabalho são muitas vezes deploráveis e podem incluir servidão por dívida, confinamento físico, ausência de dias de descanso, falta de água potável, retenção de salários e horas extras ilegais, muitas vezes sob ameaça de deportação."

Não surpreende, portanto, que o empobrecido Haiti lidere o ranking da região: 2,3% de sua população vive em condições de escravatura moderna, segundo o Índice Global de Escravatura.

O relatório destaca que o Brasil está entre os países com "respostas governamentais mais firmes" contra o problema, ao encorajar as empresas a pressionarem pelo fim do trabalho escravo nas diversas etapas de sua cadeia produtiva.

Número de multimilionários dobrou depois da crise


Segundo a ONG, taxa de 1,5% sobre a riqueza da parcela da população mais abastada levaria educação a todas as crianças do mundo e serviços de saúde aos países mais pobres.
 A organização britânica de luta contra a pobreza Oxfam fez um apelo contra a desigualdade social e econômica, ao apresentar um novo relatório em Londres. Segundo o documento, o número de multimilionários no mundo duplicou depois da crise econômica de 2008, passando de 793 pessoas em 2009 para 1.645 hoje.

Além disso, o relatório afirma que uma pequena taxa anual de 1,5% sobre o patrimônio dos multimilionários seria o suficiente para assegurar que cada criança do mundo tenha acesso à educação e para levar serviços de saúde aos países mais pobres.

"Hoje a riqueza está aumentando, e vai continuar sendo assim a não ser que os governos ajam", disse a diretora executiva da Oxfam International, Winnie Byanyima. "Não devemos permitir que doutrinas econômicas de visão estreita e o interesse próprio dos ricos e poderosos nos deixem cegos para esses fatos."

Segundo o relatório, 70% das pessoas vivem em países onde a distância entre ricos e pobres aumentou nos últimos 30 anos. O documento reconhece que a desigualdade entre os países diminuiu nos últimos 14 anos, mas afirma que o mais importante é a desigualdade entre a população de um país.

A Oxfam calcula que a riqueza somada das 85 pessoas mais ricas do mundo cresce 668 milhões de dólares por dia. Essas pessoas têm um patrimônio equivalente ao da metade mais pobre do planeta, afirma.

O pré-sal da corrupção


Não adianta querer lutar contra a corrupção se não houver governança e planejamento
Ministro Augusto Nardes, presidente do Tribunal de Contas da União

Fizemos uma análise das contas, nos padrões internacionais, do governo da presidente Dilma. Descobrimos 2,3 trilhões de reais que não estavam contabilizados em relação ao passivo dos funcionários da Previdência. É um cálculo que deveria estar no balanço da União. O valor está relacionado às previsões do déficit da Previdência para os próximos 50 anos. Isso deu para mostrar que o Brasil não tem transparência na auditoria financeira. Ilustração tubo

A arrogância da doutora


O que nos tortura, a mim e a toda gente honesta, é que com o caráter arrogante, impudente e revoltado que é o teu, mergulhas o mundo todo numa funesta discórdia
Erasmo de Roterdã (1466-1536)

A 'reforma política' da PF pode acabar com o PT


A Operação Lava Jato, agora na apropriadamente apelidada etapa do Juízo Final, pode fazer aquilo que todo governo em crise promete: uma reforma política. Ao atacar de frente os corruptores, a Polícia Federal tem a oportunidade de expor o elo que costuma escapar nos escândalos do gênero.

A confirmar as suspeitas, ao fim poderá estar claro que empresas fornecedoras da Petrobras roubaram da estatal por meio de propinas e superfaturamentos, e usaram parte deste mesmo recurso para molhar a mão de políticos e operadores que permitiram a instalação do esquema.

É quase um círculo perfeito, no que tange o financiamento dos políticos. Em campanhas, dinheiro desviado pode ser reinvestido legalmente em quem abriu a porta do cofre.

Depois do mensalão e das duras condenações aplicadas particularmente aos atores não-políticos do esquema, o pagamento aos políticos precisava de novos e menos arriscados mecanismos.

A reforma política proposta pelo governo não resolve os problemas e ainda cria outros. Mas involuntariamente a PF fará avançar essa agenda, se conseguir ir até o fim. Resta saber o que sairá disso, visto que agentes que irão debater as novas regras poderão fazê-lo do banco dos réus.

O escândalo da Petrobras ameaça a todos, mas só um partido corre risco existencial com ele: o PT.

Em seus governos, o partido colocou a estatal no topo da agenda; fez controle inflacionário ao represar reajustes de combustível, enquanto Lula embebia as mãos com petróleo, à Getúlio. Para cada descoberta no pré-sal, contudo, parece ter havido uma contrapartida obscura.

PMDB, PP e outros estão citados, mas o PT tinha o leme. Depois de sobreviver ao mensalão e sofrer derrotas apesar de reeleger Dilma, o que sobrará do partido se o que se insinua na Lava Jato for comprovado?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Muda?


A inocência do poder

Considerando-se todas as circunstâncias apontadas há anos por quem acompanha o assunto, é de surpreender que tenha demorado tanto tempo para o "petrolão" vir à luz
 Claudio Weber Abramo, diretor-executivo da Transparência Brasil

O domingo acordou o Brasil com a primeira fala presidencial direto de Brisbane. Sem qualquer sinal de repúdio aos atos, que nunca tiveram a sua indignação. Dilma usou e abusou dos chavões de campanha e do PT. E fez questão de afirmar que é a primeira investigação efetiva sobre corrupção no Brasil. “A primeira. E que vai fundo”.

A presidente mais parece um ET, ou mandatária teleguiada, vivendo em outro mundo. Num rompante de quem dá pouco caso ao que ela mesma considera o maior escândalo da história brasileira, garante que “o Brasil não se abalará”. Dilma, talvez em jogo de cena, não se dá conta de que o abalo é catastrófico, o país se revolta. E não vê outra coisa que a repetição de velhas afirmações, gastas e surradas.   

 Nada mais se deve esperar de Dilma, quando voltar da Austrália, sobre o Petrolão. No exterior, também confirmou que “nada disso é estranho para nós”. Uma passagem bem paradoxal para um governo que se afirma o mais investigador de todos os tempos. 

Se não era “estranho”, por que precisou-se de um juiz federal do Paraná para levantar o caso quando estava tudo correndo em Brasília, na boca do caixa? Também nunca vão explicar como deixaram correr solta a maior corrupção, e bilionária, dentro da estatal que é o xodó presidencial. Ninguém sabia, mas os envolvidos são do alto escalão tanto das empresas como da estatal. Não há raia miúda no caso. É tudo tubarão de primeira inclusive no Congresso.

Dilma continua em campanha, como todo o PT, para amenizar, ou tentar ao menos, os golpes seguidos que recebe desde que reeleita. É a primeira vez num país em que o mandatário parece não ter nada o que comemorar tantos são os desastres políticos, econômicos e sociais espoucando como foguetório pela vitória eleitoral.

Embora um dia antes, Cardosão, o ministro fiel da Justiça brasileira (lembrando que está de olho em vaga no STF), tenha anunciado que não se vai admitir a “politização” do escândalo – outro chavão de campanha, Dilma admitiu que o caso vai interferir em todos os segmentos. “(O caso) mudará para sempre a relação entre a sociedade, o Estado e a empresa privada”.


Profetiza mas não explica o porquê de um rombo bilionário, envolvendo empresas, “operadores” de partido, senadores e deputados, gente do Executivo, continuou por anos convivendo com a miséria, a violência, a falta de assistência médica, o sofrimento do povo, e todos os problemas nacionais de importância para o povo, sem que ninguém soubesse de nada. Em tantos anos de silêncio, não houve uma voz, mesmo que pequeníssima não clamasse sobre a roubalheira. E Lula e Dilma, claro, não sabiam de nada.

Os soldados do Parque dos Búfalos


 Em meio à crise hídrica, São Paulo usará parque com ao menos sete nascentes para construir casas populares. Comunidade organiza movimento de resistência 
Uma área de mais de 994.000 metros quadrados situada na zona sul de São Paulo foi anunciada pelo prefeito Fernando Haddad, no final do mês de outubro, como o terreno para a construção de mais de 3.800 unidades de moradia popular. “Aqui nasce uma cidade com quase 15.000 pessoas”, disse o prefeito no dia do lançamento do projeto habitacional que será feito em parceria com os governos estadual e federal, com previsão de entrega em 2016.

A "nova" cidade, porém, nasceu muito antes desse dia. A área em questão é chamada de Parque dos Búfalos, por causa dos animais que chegaram a habitar o local há alguns anos. É um local margeado pela Represa Billings e que corta no meio os bairros do Jardim Apura e o Santa Amélia, no distrito de Cidade Ademar que abriga 430.000 pessoas. Não fosse esse, o parque mais próximo da região seria o Ibirapuera, que fica a uma distância de 20 quilômetros, quase duas horas de ônibus. Por ser o único local da região destinado ao lazer, o Parque dos Búfalos atrai um público formado pelos moradores dos bairros vizinhos, que praticam corrida, caminhada, parapente e ciclismo diariamente.
O parque mais próximo da região é o Ibirapuera, que fica a uma distância de 20 quilômetros, quase duas horas de ônibus

Além da represa Billings, que em parte abastece São Paulo, Diadema, São Bernardo e Santo André, o Parque dos Búfalos tem ao menos sete nascentes espalhadas por seu terreno. Por essas questões, tanto de cunho ambiental, quanto social, a população se organizou para reivindicar que o local seja mantido como um parque e que ganhe toda a infraestrutura para isso – não há banheiros, tampouco quadras ou equipamentos.


O terreno do Parque dos Búfalos foi declarado de utilidade pública em 2012, pelo ex-prefeito Gilberto Kassab. No final de 2013, Fernando Haddad revogou essa lei. O terreno o ajudaria a cumprir a meta de entregar 55.000 casas populares prometidas durante a campanha. Com a notícia de que o parque viraria terreno para parte dessa promessa, os moradores começaram a se organizar. Por meio da ONG Minha Sampa, há um movimento de pressão online que pede a manutenção do parque.

Crescem as doações anuais feitas ao PT


É fácil seguir a rota da corrupção. Desde o escândalo do mensalão, as empreiteiras e grupos empresariais que fazem negócios com o PT passaram a fazer generosas doações anuais ao partido, independentemente de se tratar de ano eleitoral. Como as doações estão registradas na Justiça Eleitoral, as evidências de corrupção são claríssimas.

Em 2011, por exemplo, o PT arrecadou R$ 50,7 milhões, e a metade desses recursos foi doada por empreiteiras que têm contratos com o governo. Somente a Andrade Gutierrez doou R$ 4,6 milhões. Houve doações também de pessoas físicas, 33 no total, mas, curiosamente, apenas duas em cheques. Todas as demais foram em dinheiro.

Para se ter uma ideia da generosidade dos empresários, o PT obteve 89,5% das doações a partidos em 2011. Seu adversário PSDB, apenas R$ 2,3 milhões (4,3% do total), e o aliado PMDB, R$ 2,8 milhões.


Em 2013, que também não foi ano eleitoral, as doações ao PT tiveram aumento espantoso, de 70%, e dos R$ 79,8 milhões recebidos, quase R$ 60 milhões – o equivalente a 75% do total – vieram de empresas construtoras.