quarta-feira, 27 de março de 2024

O fascismo mudou, mas não está morto

Estamos assistindo à volta do fascismo? Será que Donald Trump, para usar o exemplo contemporâneo mais importante, é um fascista? E a francesa Marine Le Pen? Ou Viktor Orbán, da Hungria? A resposta depende do que se entende por “fascismo”. Porque o que presenciamos hoje não é apenas autoritarismo. É um autoritarismo com características fascistas.

Precisamos começar com duas distinções. A primeira é entre o nazismo e o fascismo. Como o falecido Umberto Eco, humanista e escritor, observou em um ensaio sobre “O Fascismo Eterno”, publicado na “New York Review of Books” em 1995, o “Mein Kampf de Hitler é um manifesto de um programa político completo”. No poder, o nazismo foi, tal como o stalinismo, “totalitário”: ele controlava tudo. O fascismo de Mussolini era diferente. Nas palavras de Eco, “Mussolini não tinha uma filosofia: tinha apenas retórica... O fascismo era um totalitarismo confuso, uma colagem de ideias filosóficas e políticas diferentes, um emaranhado de contradições”. Trump é igualmente “confuso”.


A segunda distinção é entre o passado e hoje. Os fascismos dos anos 1920 e 1930 surgiram da Primeira Guerra Mundial. Eram naturalmente militaristas tanto nos meios como nos objetivos. Além disso, naquela época a organização centralizada era necessária para que as ordens fossem difundidas. Hoje em dia, as redes sociais farão grande parte desse trabalho.

Portanto, o fascismo de hoje é diferente daquele do passado. Mas isso não significa que a noção seja desprovida de sentido. No seu ensaio, Eco descreve uma série de características do “Ur-Fascismo - ou Fascismo Eterno”.

Uma característica é o culto à tradição. Os fascistas veneram o passado. O corolário é que eles rejeitam o moderno. “O Iluminismo, a Era da Razão, é visto como o início da depravação moderna. Neste sentido, o Fascismo Eterno pode ser definido como irracionalismo”, escreve Eco.

Outra característica é o culto da ação pela ação, da qual decorre outra: a hostilidade à crítica analítica. E segue-se daí que o “Ur-Fascismo... busca o consenso com a exploração e a exacerbação do medo natural da diferença... Assim, o Fascismo Eterno é racista por definição”.

Outro aspecto é que “o Fascismo Eterno tem sua origem na frustração individual ou social. É por isso que uma das características mais típicas do fascismo histórico era seu atrativo para uma classe média frustrada”.

O Fascismo Eterno une os seguidores que recruta nas fileiras da classe média insatisfeita por meio do nacionalismo. Esses seguidores, diz Eco, “precisam sentir-se humilhados pela riqueza ostentosa e pela força dos seus inimigos”. Além do mais, para o Fascismo Eterno “não há luta pela vida, pelo contrário, a vida é vivida para a luta”.

Em seguida, para Eco, está o fato de que o Fascismo Eterno defende um elitismo popular. “Cada cidadão está entre as melhores pessoas do mundo”, escreve ele em seu ensaio. E mais: “Todos são educados para se tornarem heróis”.

Para o Fascismo Eterno, “o Povo é concebido como uma... entidade monolítica que expressa a Vontade Comum”, acrescenta Eco. “Já que não há como um grande número de seres humanos terem uma vontade comum, o Líder se coloca como seu intérprete”.

No populismo de direita de hoje nota-se o culto ao passado e às tradições, a hostilidade à crítica, o medo das diferenças e o racismo, as origens na frustração social, o nacionalismo, a crença fervorosa em conspirações e a visão de que o “povo” é uma elite

A origem do machismo característico do Fascismo Eterno é que “o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais”. Aqui está implícito tanto o desdém pelas mulheres como a intolerância e a condenação de hábitos sexuais fora do padrão.

Por fim, o “Fascismo Eterno fala a Novilíngua” - ele mente de maneira sistemática. Como Hannah Arendt observou em uma entrevista à “New York Review of Books” em 1978: “Se todo mundo sempre mente para você, a consequência não é que você acredita nas mentiras, mas sim que ninguém acredita mais em nada”. Os seguidores acreditam no líder simplesmente porque ele veste o manto sagrado da liderança.

Esta é uma lista fascinante. Se olhamos para o populismo de direita de hoje, notamos precisamente os cultos ao passado e à tradição, a hostilidade a qualquer forma de crítica, o medo das diferenças e o racismo, as origens na frustração social, o nacionalismo e a crença fervorosa em conspirações, a visão de que o “povo” é uma elite, o papel do líder em dizer a seus seguidores o que é verdade, a vontade de poder e o machismo.

Ainda este mês, Trump descreveu os imigrantes como “animais”, ameaçou um “banho de sangue” se não ganhar as eleições e enalteceu os insurrecionistas de 6 de janeiro de 2021 como “patriotas incríveis”. Sabemos que ele e seus seguidores pretendem encher a burocracia e o Judiciário com pessoas leais a ele e criticam o sistema judicial por responsabilizá-lo por seu atos: afinal de contas, ele está acima da lei. Não menos importante, ele transformou o Partido Republicano em um partido de sua propriedade.

Sim, os movimentos de hoje também são diferentes dos movimentos dos anos 1920 e 1930. Trump não glorifica a guerra, a não ser as guerras econômicas e comerciais. Mas ele glorifica Putin, a quem chamou de “gênio” por conta de sua guerra contra a Ucrânia. Os políticos europeus com raízes no passado fascista também são diferentes entre si. No entanto, eles compartilham, sim, muitas características do Fascismo Eterno, em especial o tradicionalismo, o nacionalismo e o racismo, mas não têm outras, em particular a glorificação da violência.

O fascismo da Alemanha ou da Itália dos anos 1920 e 1930 não existe hoje, exceto, talvez, na Rússia. Mas o mesmo poderia ser dito de outras tradições. O conservadorismo não é o que era há um século, e o mesmo vale para o liberalismo e o socialismo. As ideias e propostas concretas das tradições políticas são alteradas com a sociedade, a economia e a tecnologia. Isso não é nenhuma surpresa. Mas essas tradições ainda têm um núcleo comum de atitudes em relação à história, à política e à sociedade. Isto também é verdade para o fascismo. A história não se repete. Mas ela rima. Está rimando agora. Não seja complacente. É perigoso dar uma volta com o fascismo.

‘Caso Hungria’ é ponta de iceberg de cooperação global da extrema direita


A presença de Jair Bolsonaro numa embaixada de um país liderado por Viktor Orbán é apenas a ponta do iceberg de uma coordenação global do movimento de extrema-direita no mundo.

Com reuniões secretas, encontros virtuais e uma cooperação real, grupos extremistas no Brasil, Europa e EUA adotam posições similares em debates internacionais, copiam slogans, métodos de atuação e apoios recíprocos.

No caso húngaro, a relação entre Bolsonaro e Orbán foi construída ao longo dos quatro anos em que o brasileiro esteve no poder. Foi em seu governo que, pela primeira vez, houve uma visita de um chanceler do país para a Hungria. Foram estabelecidas posições comuns sobre temas como imigração, aborto, religião e votos na ONU. O governo de extrema-direita da Hungria de Viktor Orbán pediu ainda uma parceria com Jair Bolsonaro para financiar a ajuda comunidades de cristãos no Oriente Médio.

Mas o então chanceler Ernesto Araújo não foi o único a fazer suas peregrinações para Budapeste. No total, foram seis visitas de alto escalão entre os dois países, inclusive de Eduardo Bolsonaro e Damares Alves, em menos de doze meses.

Outro personagem central na relação era Angela Gandra, secretária de Família no Ministério de Direitos Humanos.

Durante seu mandato, Bolsonaro visitou o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán. A viagem foi usada como uma espécie de reconhecimento internacional ao projeto mais avançado da extrema-direita para impor seu modelo.

Insignificante para o comércio brasileiro, marginal no debate geopolítico, pária dentro da Europa e com um peso irrisório no palco internacional, a Hungria foi uma parada na turnê europeia de Bolsonaro que apenas atendeu aos interesses do movimento de extrema-direita.

A tríade entre Donald Trump, Jair Bolsonaro e Viktor Orbán também era evidente na diplomacia. Quando o americano foi derrotado nas urnas, ele passou para o Brasil a liderança de uma aliança ultraconservadora e que tinha como objetivo redefinir a agenda internacional na questão de direitos humanos.

Quando Bolsonaro foi derrotado nas urnas, essa liderança foi repassada do Brasil para a Hungria.

Aliado da Hungria em temas como a defesa de um modelo único de família, usando o cristianismo como instrumento de exclusão e resistente a qualquer direito ao movimento LGBT, o grupo mais radical do bolsonarismo jamais deixou de elogiar o que acadêmicos chamam de o “autocrata mais sofisticado do Ocidente”. Em doze anos, o governo abandonou alguns dos princípios básicos do estado de direito e criou uma nova realidade política.

Com espaço e apoio estatal, o movimento de extrema-direita mundial passou a ter em Orbán uma espécie de hub e campo de testes para políticas ultraconservadoras.

Orbán assumiu o poder em 2010, depois de um governo corrupto de esquerda e que admitiu que enganou a população ao adotar medidas de austeridade para lidar com a crise de 2008. Ganhou o voto de jovens, da elite urbana, da classe média e até de parte dos intelectuais. Sua guinada autoritária, porém, afastou muitos desses grupos da base de Orbán. Nos últimos anos, o húngaro conseguiu controlar a Corte Constitucional, o Ministério Público e dois terços do Parlamento. Dias depois de perder as eleições municipais em Budapeste, ele aprovou uma nova lei reduzindo as competências das prefeituras.

Uma das estratégias da extrema-direita húngara foi a de controlar rádios, televisões e jornais. Em 2018, donos de 400 meios de comunicação na Hungria decidiram doar seus impérios para uma obscura fundação. Uma semana depois, Orbán assinou um decreto isentando essa fusão de qualquer controle externo.

A coordenação entre jornais regionais, revistas, rádios e TVs passou a ser completo e, para sustentar a máquina de imprensa, o orçamento vem do estado, por meio de publicidade e compra de espaço nesses jornais para campanhas de conscientização. Já as empresas que fazem publicidade nos poucos jornais contrários ao governo temem perder contratos públicos, enquanto regiões inteiras do país passaram a depender apenas de noticias oficiais.

O governo húngaro ainda se lançou numa operação para excluir a sociedade civil de consultas ou formação de políticas públicas.

A relação com a Hungria é apenas parte de uma teia maior e sólida. Na Espanha, o partido ultranacionalistas e herdeiro do franquismo, o Vox, mantém uma estreita relação com os filhos do ex-presidente. Em Portugal, o Chega tem parte de seu trabalho inspirado na extrema-direita brasileira.

Com os EUA, a aproximação envolveu até mesmo o uso das mesmas palavras e termos nos discursos feitos por Bolsonaro e por Trump, em 2019, na abertura da Assembleia Geral da ONU.

Quando o capitólio foi invadido, em 6 de janeiro de 2021, bolsonaristas minimizaram os ataques, causando a indignação de políticos americanos.

A derrota do americano contra Biden ainda foi seguida por declarações por parte de Bolsonaro que confirmavam a narrativa do movimento de apoio a Trump de que a eleição havia sido fraudada.

A cooperação também envolve a preparação de eleições e campanhas de desinformação. Fernando Cerimedo, que trabalhou na campanha eleitoral de Javier Milei na Argentina, foi apontado nos documentos da Política Federal como parte da operação que supostamente teria orquestrado uma proliferação de desinformação para abrir caminho a um golpe de Estado no Brasil.

As informações estavam na decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), que autorizou prisões e buscas contra ex-ministros e integrantes do núcleo duro do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ao longo da campanha do vencedor da eleição na Argentina, Cerimedo atraiu a atenção da imprensa argentina, justamente por conta de suas polêmicas no Brasil.

Agora, a PF apontou que ele fazia parte do que foi chamado de “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral” durante as investigações. O grupo composto ainda por nomes como Mauro Cid e Anderson Torres tinha como função a “produção, divulgação e amplificação de notícias falsas quanto a lisura das eleições presidenciais de 2022 com a finalidade de estimular seguidores a permanecerem na frente de quartéis e instalações, das Forças Armadas, no intuito de criar o ambiente propício para o golpe de Estado, conforme exposto no tópico ‘Das Medidas para Desacreditar o Processo Eleitoral’ constante na presente representação”.

Mércia Albuquerque e a resistência à ditadura

Em 2 de abril de 1964, militares amarraram Gregório Bezerra à traseira de um jipe e o arrastaram seminu pelas ruas do Recife. Preso nas primeiras horas do golpe, o ex-deputado foi espancado e exibido como um troféu do novo regime. A brutalidade chocou a jovem advogada Mércia Albuquerque, que presenciou a covardia contra o velho comunista.

“Gregório, apenas com um calção preto e uma corda de três pontas amarrada no pescoço, era arrastado por soldados, seguidos de perto por um carro de combate, com pés que haviam sido banhados em soda cáustica, sangrando”, registrou Mércia. Naquele dia, ela tomou uma decisão: abandonaria o emprego para defender presos políticos.

A advogada virou referência para vítimas do arbítrio em todo o Nordeste. Denunciou torturas, peitou coronéis, ajudou a localizar desaparecidos vivos e mortos. Para aguentar o tranco, despejou suas angústias e num diário secreto, recém-publicado pela Editora Potiguariana. O livro inspira “Lady Tempestade”, monólogo de Andrea Beltrão que tem lotado todas as sessões no Teatro Poeira.

“As prisões continuam indiscriminadamente, revestidas de imensa violência”, escreve Mércia, em outubro de 1973. “O pânico domina o Recife, um terror envolve as universidades. As famílias intranquilas, sem segurança”, prossegue, dias depois. “Não sei até quando vai durar essa chacina”, desespera-se, no mês seguinte.

O leitor acompanha a advogada em peregrinação por cadeias, hospitais e necrotérios. Testemunha sua revolta com os maus-tratos aos presos, que recebiam comida podre e tinham pertences roubados pelos carcereiros. “O DOI é um lugar horrível”, anota. “Os percevejos infestam as celas, o mau cheiro é terrível, restos de fezes, sangue, vômitos dentro da cela”.

Mércia narra o calvário de “homens transformados em bagaços” em ambientes que compara a campos de concentração. “Presos submetidos a tortura medieval, cortes provocados com tesoura e ponta de faca, queimaduras com cigarros, pau de arara, cadeira do dragão”, enumera.

Ela descreve os torturadores como seres necrófilos, que “vibram com a morte” e “explicam os atos anormais como amor à pátria”. Num momento de alívio cômico, reproduz diálogo com o diretor da cadeia de Itamaracá. “Dr. Ednaldo me disse que mais lhe dói a morte de um cavalo do que a de um preso político. Ao que repliquei: ‘Faz muito bem em defender sua espécie. Eu defendo a minha, os homens’”.

A altivez lhe traria problemas com a repressão. Mesmo sem se envolver com a política, ela foi presa 12 vezes. Numa, foi ameaçada com revólver na cabeça. Em outra, arremessada para fora de uma viatura. “Não me arrependo de nada”, escreve a advogada, que morreria em 2003.

Entre testemunhos de coragem, o diário também revela passagens de fraqueza e desespero. “Desejo ficar só para chorar, sinto uma tristeza imensa e me perco no escuro da minha amargura, da minha descrença em tudo”, anota. Com a saúde fragilizada, ela ouve do médico que só conseguirá engravidar se parar de trabalhar. “Luto pelos filhos dos outros, entram em minha vida, amarguram-me a existência e ainda me privam de ter filhos”, ironiza.

Às vésperas dos 60 anos do golpe, o resgate de Mércia joga nova luz sobre a atuação de advogados que resistiram à ditadura. “Nunca deixei de ajudar quem me procura”, orgulha-se a pernambucana, em novembro de 1973. “Levei a paz, devolvi filhos a pais, dei a alegria antes do Natal a cinco lares”, festeja, ao registrar a libertação de cinco clientes no mês seguinte.

O oásis de paz

A aprovação de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que determina cessar-fogo na Faixa de Gaza, após seis meses de conflito entre Israel e o Hamas, parece um daqueles oásis que os olhos cansados de guerra demoram a identificar.

Por ser do Conselho de Segurança, a resolução tem poder coercitivo – e a legitimidade que lhe confere a chancela do órgão mais importante da ONU. Mesmo assim, porém, nada garante que o governo de Israel esteja disposto a seguir a determinação.

Até pelo contrário, o ministro israelense de Relações Exteriores, Israel Katz, disse que seu país não suspenderá fogo “até que o último dos reféns volte para casa”. Como não há data previsível para isso, por enquanto tudo fica como está.

O Hamas, responsável pelo sequestro de civis em seu ataque a Israel, que deu origem ao conflito, se disse disposto a efetuar troca imediata de reféns por prisioneiros palestinos. Tudo dependerá, no entanto de minuciosas negociações.

Quando teremos paz, então? Ainda é difícil saber. A resolução de cessar-fogo chegou atrasada, pois deveria coincidir com o início do mês do Ramadã, período sagrado para o islamismo. Sua implementação pode atrasar ainda um pouco mais.

O Conselho de Segurança só conseguiu sair do impasse depois que os Estados Unidos decidiram se abster na votação. Ou seja, resolveram não usar o poder de veto que cabe a cada um dos cinco membros permanentes.

O texto, apresentado pelos 10 membros não permanentes do conselho, estabelece um “cessar-fogo duradouro” e pede às partes que criem condições para que o conflito se mantenha suspenso mesmo depois do Ramadã.

A bola agora está com Israel. Somente o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu poderá ordenar a paralisação de uma ofensiva que deixou terra arrasada por onde passou.

E aqui entramos no terreno minado da política. A extrema-direita de Israel, que apoia Netanyahu, reluta em ceder às Nações Unidas. Talvez prefira ir até o fim na ocupação de Gaza, mesmo que isso signifique a perda de muitas outras vidas.

O governo israelense também não parece se sensibilizar com a posição de seu maior aliado, os Estados Unidos. O presidente Joe Biden já disse que Netanyahu precisa prestar mais atenção às “vidas inocentes perdidas”.

Biden alertou ainda que Israel ultrapassaria uma “linha vermelha” caso venha a invadir a cidade de Rafah, ao sul da Faixa de Gaza, onde estão um milhão de palestinos.

Até mesmo o ex-presidente Donald Trump, de posições mais favoráveis ao governo israelense, demonstrou cautela após a decisão do Conselho de Segurança.

“Israel precisa tomar cuidado, pois está perdendo muito apoio pelo mundo”, alertou Trump, em entrevista a um jornal conservador, Israel Hayom, citada pelo The New York Times. “Vocês têm que concluir a tarefa e prosseguir para a paz, para uma vida normal para Israel e todo o mundo”.

O desfecho do conflito, que tem potencial para se transformar em uma tragédia ainda bem maior, dependerá do resto de bom senso que ainda puder existir junto às lideranças de Israel e do Hamas.

Os excessos dos dois lados, até aqui, não apenas ampliam a dor dos habitantes da Faixa de Gaza, como exportam exemplos de polarização e radicalismo prontamente acolhidos ao redor do mundo por políticos dispostos a elevar a temperatura política.

Esse parece ter sido o caso dos governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e de Goiás, Ronaldo Caiado, que estiveram em Israel.

A viagem ocorreu depois do conflito diplomático que envolveu os dois países, após as declarações do presidente Luís Inácio Lula da Silva, segundo as quais apenas no Holocausto teria havido massacre tão grande de inocentes como no atual conflito em Gaza.

“Fiz questão de levar meu pedido de desculpas a todos os israelenses por uma fala infeliz do presidente da República”, disse Caiado.

Marcou pontos com a extrema-direita bolsonarista, que gosta de portar bandeiras de Israel em suas manifestações? Provavelmente sim. O que pode ser útil ao seu projeto de concorrer ao cargo de presidente da República em 2026.

No mais, serviu apenas para acirrar os ânimos em um país já suficientemente polarizado. Como se o Brasil precisasse de um ingrediente a mais, importado do Oriente Médio, para a sua já conturbada disputa política.

Quando se referem ao conflito em Gaza, a esquerda e a direita no Brasil têm sido estridentes e inflexíveis em seus pontos de vista. Há pouco espaço nas declarações para a defesa da boa e velha solução negociada de conflitos.

Talvez seja o reflexo de um mundo igualmente polarizado, onde o bom senso muitas vezes desaparece no horizonte. Parece menos com um oásis e mais com uma miragem.

segunda-feira, 25 de março de 2024

A ‘burcarização’ da política

Em “Submissão”, Mohammed Ben Abbes, apoiado por uma frente ampla política, é eleito presidente da França. Até a vitória, mostra-se tipo cordato, democrático, embora desde o início não esconda as garras — sua chapa chama-se Fraternidade Muçulmana. Logo coloca em marcha suas crenças religiosas, explicitadas em políticas de governo, apesar de o Estado ser laico. Por estar ancorado em convicções como liberdade de expressão e opinião, mesmo em defesa de quem tenha laivos ditatoriais, o eleitorado tolerou o santo e agora ajoelha no milho.

É a burcarização da sociedade.

O romance de Michel Houellebecq, de 2015, pode ser visto como distopia, à semelhança de “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley. Mais fácil entendê-lo como alarme dirigido aos liberais radicais. Defensores contumazes da circulação de ideias, formam uma turma que por vezes morre pela boca. A liberdade irrestrita de manifestação não tem limites? Estão aí as redes sociais como exemplo da terra sem a lei dos homens, onde reinam lunáticos e jagunços, em campanha permanente contra o asseio.


Na ficção de Houellebecq, autor provocativo aos olhos dos identitários, a vitória do candidato muçulmano deu-se a despeito de todos os sinais de que governaria à luz dos ditames de sua religião. Havia uma soberba intelectual de que as regras democráticas estariam imunes a pistoleiros. Tá. Parece ingênuo pensar que a política seja algo limpo e honesto. A sociedade não é constituída apenas por anjos.

Fora da boa ficção, a História está aí com seu mundo terreno e infernos em rotação. Não esqueça que o nazismo chegou ao poder pelas urnas; as milícias hitleristas já perseguiam os judeus nas ruas de Munique e Berlim. Ali havia eleitores entusiasmados com os crimes — e brigariam se chamados de antissemitas. Noutro diapasão, mais tupiniquim e sem ser bazófia, Bolsonaro jamais escondeu ser homofóbico, misógino e golpista. Foi eleito. Há 60 anos ocorria em São Paulo a Marcha da Família com Deus pela Liberdade com milhares de fiéis pedindo golpe militar. Por longos anos, relembro, aqueles pais de família e senhoras constritas acharam normal seus adversários serem torturados, mortos ou sequelados. Quem liga para isso? Não se tratava de gente que pensasse como eles. Para o inferno!

Até que um dia elegem algum Mohammed Ben Abbes, e seus filhos acabam no pau de arara.

Houellebecq é escritor, cria histórias e personagens. Sua escrita incomoda a esquerda e a direita porque traz sempre uma contemporaneidade amarga e ácida, incômoda, difícil de digerir sem um esgar. Arte que não mexe com o estômago não é arte, escrevia outro pensador francês, Roland Barthes. “Submissão”, claro, foi acusado de intolerância com a religião, de cevar preconceitos (você conhece o tatibitate). Por acaso, o lançamento do livro foi simultâneo ao atentado contra o semanário satírico Charlie Hebdo. Doze pessoas foram mortas. O jornal costumava ironizar Maomé e seus fiéis. Em torno dos assassinatos e do enredo da obra, a França se perguntou: é certo brincar com a crença alheia? É meu direito discordar do catecismo? Ou achar engraçado quem jejua em dia santo? Quantas virgens ganharei? Por fim: não crer em Deus não é algo a respeitar?

A literatura brasileira contemporânea parece mais preocupada em seguir uma toada engajada — e em fazer justiça pelas próprias mãos. É mais o “espírito do tempo e menos uma individualidade própria”. Tem muito Itamar Vieira Junior e pouco Reinaldo Moraes para criar personagens neopentecostais usurpadores da fé e da poupança popular. Eu vos direi, se dizem cristãos atados ao Velho Testamento, portanto ainda antes de Jesus.

Ao criar a França muçulmana, Houellebecq talvez tenha pensado no Brasil. Aqui evangélicos eleitos com o dinheiro do fundo eleitoral atrasam a política pública de saúde, a liberdade individual das mulheres e até o currículo escolar; evocam Jesus para combater a descriminalização da maconha. Na pandemia, esconjuraram o “fique em casa”. Nunca acredite em dízimo digital!

Mas nenhum escritor imaginaria o seguinte enredo: um ditador sul-americano, aquele que encarcera os adversários políticos, ganha apoio à sua reeleição de um pastor-empresário-empreendedor. Aleluia. Em troca, como acontece no Brasil, abocanha isenções fiscais.

Pensamento do Dia

 


Vontade

Li "Guerra e Paz" tardiamente, intimidada tanto pelas mais de 1.500 páginas da obra-prima de Tolstói quanto pelo glossário de nomes, sobrenomes e apelidos do romance.

O príncipe Nicolai Andreiévitch Bolkónski pode aparecer como o Príncipe, ou Nicolai, ou Andreiévitch ou Bolkónski; pai de outro príncipe, Andrei, também Bolkónski, que além de atender pelas mesmas alcunhas do genitor, volta e meia é chamado de Nicolaiévich, filho de Nicolai.

Para não se perder no enredo, é aconselhável ter uma tabela periódica dos personagens à mão. Uma vez vencida a dificuldade, no entanto, "Guerra e Paz" se revela um daqueles amigos inesquecíveis, dos quais o leitor sente saudade mesmo antes de virar a última página.

O que a minha ignorância não contava era que, ao fim da saga, Tolstói arrematasse o livro com uma tese sobre a vontade inarredável dos povos. Segundo a teoria, Napoleão seria mero agente de uma ânsia coletiva da população de se mover para o leste, assim como a resistência de Kutuzov e a subsequente vitória de Wellington, em Waterloo, seria o contrafluxo desse impulso, em direção ao oeste.


As guinadas da história seriam causadas menos pela ambição, estratégia ou o poder de heróis revolucionários, generais e imperadores e mais pelo somatório dos ínfimos desejos da manada de Zé Ninguéns.

"Chegando ao infinitamente pequeno, a Matemática, a mais exata das ciências, […] adota o novo método da totalização das incógnitas infinitamente pequenas. […] Se o objetivo da História é o estudo do movimento dos povos e da Humanidade, e não descrever episódios da vida de alguns homens, ela deve […] pesquisar as leis comuns a todos os elementos de liberdade infinitamente pequenos, iguais e indissoluvelmente ligados entre si."

A tentativa de Tolstói de submeter a história aos infinitesimais da matemática lhe valeu críticas de aberração determinista, charlatanismo, farsa e fatalismo, partidas de filósofos e escritores peso-pesado, que apesar de o admirarem como artista desprezaram-no como pensador.

Quem sou eu para discordar de Flaubert e Turgueniev? Mas meu catastrofismo enxerga valor na afirmação do gênio. Há impulsos incontroláveis que nos movem e nos impelem, muitas vezes, na direção do infortúnio.

Tolstói morreu em 1910 e não viveu as duas grandes guerras do século 20, que elevaram ao absurdo a oscilação para leste e oeste descrita pelo escritor.

As tensões que levaram a Europa ao autoaniquilamento já estavam latentes no século 19. O nacionalismo, o antissemitismo arraigado, o expansionismo, a disputa pela supremacia do continente, o temor da Rússia, a corrida armamentista, a Revolução Industrial, o endividamento das nações, a desigualdade social e a insurreição da plebe.

A velha ordem, calcada no valor da terra e na hierarquia monárquica e religiosa, feneceu e a Europa se viu ameaçada pela instabilidade social e política, além de regida por uma economia volátil, que desconhecia fronteiras.

A insegurança fez germinar, no estômago de cada europeu, a necessidade de eliminar o inimigo, fosse ele o vizinho, o país fronteiriço, o partido oposto, o miserável do gueto ou o seguidor de outro deus. Uma sanha que, atravessado o século, encontraria em Adolf Hitler a sua mais completa tradução.

Hoje, assim como no século 19, vivemos o fim do mundo como o conhecemos, abatidos por um sentimento de falência e medo. Munidos de smartphones, manifestamos nosso pânico, raiva e incerteza na nuvem, num perpétuo estado de plebiscito que glorificou o extremismo.

Tarcísio de Freitas não posa de mito e bem poderia ter dado uma declaração vaselina ao rebater as críticas feitas à truculência da ação da polícia na Operação Verão, na Baixada Santista, mas não. Depois de ressaltar o apoio que recebeu dos empresários, o governador mandou para o raio que os parta os descontentes, arrematando com um "não estou nem aí".

De fato, exausta e descrente de uma solução factível para o problema crônico da miséria e da segurança pública, parte relevante do eleitorado flerta com a possibilidade do extermínio sumário das Faixas de Gaza do país.

Tolstói tem lá sua razão. Não são Putin, o Hamas, Netanyahu, Trump, Erdogan, Kim Jong-un, Noriega, Maduro, Messias, Braga Netto, Heleno, Milei e o Chega, somos nós mesmos e a nossa velha pulsão de morte.

Beijar os nomes

Quando na Argentina se inaugurou o memorial às vítimas da ditadura, as mães que eram nossas guias mostravam-nos, poderia dizer-se que com o orgulho com que as mães costumam falar dos seus filhos: “Olha, este é o meu filho, ali está o de Juan Gelman, este é um sobrinho…”. Eram simplesmente nomes gravados na pedra, nomes beijados mil vezes, eu próprio os beijei, como se beijavam em Madrid os nomes das vítimas do pior atentado ocorrido na Europa hoje, 11 de Março, cinco anos depois de um dia que dificilmente poderemos esquecer porque o terror cavou bem fundo, até ao coração da sociedade espanhola. Para conseguir, seguramente, que desprezássemos mais as suas causas e, de uma vez para sempre, o método que empregam, o terror como único argumento, malditos sejam.

Hoje via as mães abraçadas, as vítimas contemplando-se, querendo, talvez, ver no olhar dos outros o olhar dos seus desaparecidos. Recordei que há tempos tinha dito que essa imagem era lacerantemente bela. Pilar pede que a recupere. Com o meu abraço às vítimas e o meu beijo aos nomes escritos na nossa memória.

Em Espanha, solidarizar-se é um verbo que todos os dias se conjuga simultaneamente nos seus três tempos: presente, passado e futuro. A lembrança da solidariedade passada reforça a solidariedade de que o presente necessita, e ambas, juntas, preparam o caminho para que a solidariedade, no futuro, volte a manifestar-se em toda a sua grandeza. O 11 de Março não foi só um dia de dor e de lágrimas, foi também o dia em que o espírito solidário do povo espanhol ascendeu ao sublime com uma dignidade que profundamente me tocou e que ainda hoje me emociona quando o recordo. O belo não é apenas uma categoria do estético, podemos encontrá-lo também na acção moral. Por isso direi que poucas vezes, em qualquer lugar do mundo, o rosto de um povo ferido pela tragédia terá tido tanta beleza.

José Saramago, "O caderno"

Sob o domínio do medo

A história universal nos vai repassando inúmeros fatores de medo que extrapolam os indivíduos, tomam corpo coletivo e produzem consequências: medo da guerra, da fome, da peste, da morte, dos terremotos, de assalto, do diabo, das bruxas, do estrangeiro, da mulher, da solidão, medo do fim do mundo.

O noticiário diário está carregado de manifestações equivalentes. Por toda parte chegam reações hostis ao grande afluxo de imigrantes e de refugiados. O candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, quer aniquilá-los. As levas de africanos diariamente despejados no litoral da Europa vêm fortalecendo movimentos xenofóbicos em países que se julgavam culturalmente avançados e livres de preconceitos selvagens desse tipo.


Na Alemanha – e não só por lá – carros elétricos começam a ser depredados porque se espalha o medo de que o produto chinês está acabando com a indústria automobilística local e, com isso, ameaçando o emprego de milhões.

Na França e na Espanha, os agricultores tomaram estradas e avenidas nas grandes cidades com seus tratores e máquinas agrícolas, porque não conseguem competir com o alimento importado. Os avanços em direção à substituição de combustíveis fósseis por energia limpa, que pareciam inquestionáveis e inexoráveis nos países industrializados, vão sendo ameaçados por manifestações e por novas leis que exigem se não a reversão, pelo menos o alargamento dos prazos desse processo.

As redes sociais estão repletas de mensagens de ódio e de medo porque as pessoas se sentem cada vez mais derrubadas, empobrecidas e ameaçadas nos seus direitos. Espalha-se o sentimento que o francês chama de “malaise”, um mal-estar generalizado, muitas vezes destituído de sintomas claros.

As consequências não se restringem aos debates e às manifestações nos Parlamentos, na academia, nas praças públicas ou, mesmo, ao esperneio dos que se sentem prejudicados. Por toda parte, aparecem os profetas de toda espécie de apocalipse, dispostos a explorar esses sentimentos e essa energia social acumulada para seus projetos totalitários, supostamente salvadores. Culpam as políticas verdes, a excessiva tolerância das autoridades para com os imigrantes e as pautas identitárias. Querem alastramento do protecionismo comercial e se rebelam contra o que entendem como aniquilamento do seu presente. Essa é a principal razão pela qual os partidos de extrema direita estão se fortalecendo na Europa e nos Estados Unidos.

A saída para isso é mais democracia, e não menos. Mas em certas horas, como agora, é difícil encontrar quem escute mensagens assim.

As forças da desordem

O triunfo do Chega nas recentes eleições em Portugal não foi uma surpresa. Porém, doeu a muitos como se fosse. A ideia romântica de que Portugal estaria, de alguma forma mágica, protegido do avanço da ultradireita, caiu por terra com escândalo e fragor.

Como em tantos outros países, incluindo o Brasil, a ascensão da ultradireita prejudicou em primeiro lugar os movimentos conservadores tradicionais. Antes de Donald Trump ser um nome conhecido no mundo, havia em Portugal uma direita urbana e civilizada, com personalidades amáveis e de grande cultura, respeitadas por toda a gente, como Diogo Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires ou Adriano Moreira.

A meia centena de deputados do Chega que agora acede ao belo edifício do Parlamento português, no tradicional bairro de São Bento, não tem proximidade alguma, nem ideológica, nem sociológica, nem civilizacional, com aquelas personalidades. São uma coleção disparatada de oportunistas, charlatães, desordeiros, e pequenos delinquentes, com poucos princípios e escassa cultura política (estou sendo generoso). Não chegam ao Parlamento com o objetivo de propor soluções. O seu único propósito, porque só isso sabem fazer, é tumultuar. Enfim, são agentes da desordem.


O fortalecimento global da ultradireita é, em larga medida, responsabilidade da esquerda. Enquanto a direita perdia a civilidade, a esquerda perdia os sonhos. Pior: perdia a capacidade de sonhar, dividindo-se em lutas tribais e debatendo aos gritos o sexo dos anjos. Ao mesmo tempo, os problemas do planeta agigantavam-se, com o aquecimento global aprofundando as desigualdades entre os países do norte e do sul, e as novas tecnologias sofisticando velhas mentiras.

Numa democracia saudável é importante que exista espaço para a direita e para a esquerda, para convergências, para divergências e até, diante da singularidade e magnitude de alguns dos problemas que enfrentamos hoje, para ideias e movimentos inteiramente originais. Agentes da desordem, porém, não servem à democracia. São uma doença dos sistemas democráticos e precisam ser identificados e tratados como tal.

Estas forças da desordem constituem, além de tudo o resto, paradoxos deprimentes. O Chega, por exemplo, pretende fechar a porta aos emigrantes. Entre os seus novos deputados, contudo, destaca-se um brasileiro, e um ex-imigrante português. O brasileiro, que é negro, produziu há poucos dias um bizarro discurso, defendendo uma Europa só para os brancos, e uma África só para os negros. O colega, tentando ultrapassá-lo em ingenuidade, confessou que durante muito tempo foi imigrante ilegal num outro país europeu.

Para travar esta onda seria necessário que os democratas, de esquerda e de direita, se juntassem na defesa da democracia. O novo primeiro-ministro português, o social-democrata Luís Montenegro, afirmou durante toda a campanha eleitoral não estar disponível para alianças com o Chega. A esquerda deveria apoiá-lo, incentivá-lo, acarinhá-lo, ao invés de esperar que Montenegro venha a ser defenestrado através de um golpe palaciano no seio do seu próprio partido, ou que o governo tropece e caia, de pura fraqueza, ao virar da esquina. Infelizmente, o mais certo é que caia. Então, as forças da desordem voltarão a ganhar.

domingo, 24 de março de 2024

Mas não há mais boas notícias no mundo?

Habituado há meio século, devido à minha profissão de jornalista, a ler todas as manhãs as notícias do mundo que, como disse François Mauriac , é a oração do homem secular, hoje as primeiras cinco dessas notícias foram crimes. E que crimes ! E o pior é que sinto a ansiedade de não saber se estou lendo as verdades ou as mentiras do planeta, mesmo aquelas que acontecem na porta da minha casa. E vivemos oscilando entre a verdade e a falsidade, ao mesmo tempo que a mentira cresce, enquanto a verdade se encolhe de vergonha.

É curioso que os famosos e velhos jornais de “notícias positivas”, que acabaram sucumbindo por falta de leitores apesar de serem oferecidos gratuitamente, possam retornar devido ao excesso de más notícias que nos assola. E o pior é que as novas tecnologias nos arrastam para a dificuldade de conseguir distinguir entre a verdade e a falsidade.

E hoje existe um perigo adicional. Não há dúvida de que os seres humanos sempre foram mais atraídos por más notícias do que por boas notícias. Gostamos de sangue. Sim, a psicologia explica bem. Inútil negar. Tudo o que é trágico, impensável, horrível, degenerado, impossível, desperta a nossa curiosidade e os nossos instintos sádicos. O normal, o habitual, o que não choca nem abala o subsolo dos nossos impulsos de morte, deixa de atrair a nossa curiosidade inata.

O trágico neste momento é que tudo isso pode acabar infectando até mesmo a informação considerada grave, aquela que possui instrumentos de controle de informação, aquela que sabemos, ou sabíamos, que poderíamos confiar. Refiro-me à informação dos meios de comunicação tradicionais para quem foi motivo de orgulho poder garantir que toda a informação publicada trazia a garantia de autenticidade.

Você se lembra da famosa regra das cinco perguntas sobre uma notícia: quem, onde, quando, como e por quê? Já sei que dois jornalistas que observam o mesmo acontecimento nunca verão a mesma coisa, uma vez que a informação será peneirada pelos mecanismos internos de observação do jornalista. Mas sem dúvida evitam mentiras consensuais e exploradas.

Às vezes pergunto-me, e discuto o assunto com os meus amigos, se a sensação de que estamos no pior de todos os mundos, num momento de degradação moral e de aumento da violência como nunca experimentamos antes, se deve a uma realidade. Ou se isso será antes o resultado do fato de que mesmo os meios de comunicação mais sérios e credíveis, levados pelo sucesso causado pelas más e por vezes falsas notícias, podem tornar-se lucrativos.

E o problema não é apenas brincar com fogo ao levar ao extremo as más notícias que, aparentemente, aumentam o número de leitores, mas podemos acabar por convencer o nosso mundo de que nunca estivemos piores. Sim, estávamos no passado. Mas não dizemos que hoje a democracia está em crise, que a extrema direita e toda a violência que ela acarreta está a crescer? É verdade, mas esquecemos quando a democracia, as liberdades individuais e as preocupações sociais não existiam. Havia apenas senhores e escravos, impérios e legiões de pessoas miseráveis. Quando o machismo era motivo de orgulho, a mulher era um simples instrumento de prazer, a liberdade era apenas para um punhado de privilegiados que a impunham pela força, e matar até crianças que nasciam com defeito era uma obrigação dos pais.

Talvez na minha idade devesse ser menos otimista, sublinhando que os tempos passados foram melhores, mas pelo contrário, precisamente porque já vivi tanto, creio ter uma capacidade extra para compreender que, com todas as notícias negativas, das quais uma boa parte é falsa, a sociedade deu passos gigantescos na sensibilização para os direitos humanos, para a luta contra a ignomínia e a infâmia dos regimes de tirania do passado , quando até os direitos mais básicos eram inconcebíveis. Igualdade entre homens e mulheres? Direitos das crianças? E sobre os animais? Bem, isso parecia loucura à época.

Ou seja: talvez cegos e envenenados pelo abuso de notícias negativas, corremos o risco de caminhar com um véu sobre os olhos que nos impede de ver as conquistas que, embora às vezes aos trancos e barrancos, o ser humano tem conseguido alcançar. Nunca se viveu tanto e com tantas comodidades.

Vamos abrir as janelas, deixar entrar a luz do que já conquistamos; vamos nos armar e lutar contra as mentiras. E por favor, sim, que as crianças, a quem pertence o futuro que lhes preparamos, não sejam as vítimas inocentes dos pecados de um capitalismo que tenta apoderar-se de tudo, inclusive do mais sagrado que existe: a verdade, a única capaz de nos libertar.

Não existem fake-news: só mentira em massa

A queda de popularidade do governo registrada em pesquisa recente pode ser pensada, entre outras coisas, como sinal, quase evidente, de que a máquina de propaganda e sedução bolso-conspiratória-evangélico-fascista continua funcionando a todo vapor. De fato, ela continua amplamente livre, leve e solta, trabalhando da mesma forma que possibilitou a chegada ao poder do governo do terror e da destruição nacional, em 2018.

Sabemos, e qualquer pessoa minimamente informada sabe, que a economia da vida, depois de um ano de governo de frente ampla de Lula III, vai razoavelmente bem: o PIB 200% maior do que a julgamento original do “mercado” é um número expressivo. A inflação está controlada e houve aumento real do emprego formal. Há estabilidade e previsibilidade, as bolsas sociais foram retomadas e valorizadas, e são anunciados investimentos industriais internacionais no país.

Porém, no mesmo dia em que o governo apresentou um importante acordo para formalizar e garantir direitos para um milhão de trabalhadores uberizados, na semana em que o IPEA anunciou o aumento recorde da renda do trabalho no país, de 11,7%, que não se via há trinta anos, veio a público o choque do poder efetivo da política neofascista no Brasil: uma pesquisa revelou o aumento significativo dos que consideram ruins as políticas e o estado da economia no Brasil, as mesmas que tudo indica serem boas.


A recusa liminar em reconhecer o trabalho do governo se dá principalmente na faixa de brasileiros que ganham entre 2 e 5 salários mínimos… ou seja, dos trabalhadores pobres, e da classe média baixa, faixa onde também se concentra a grande massa de evangélicos do país.

De fato, para o real povo unido bolso-golpista, evangélicos de direita em busca de poder, e todo os demais tipos de bolsonarismos, a economia do Brasil “nunca foi tão mal”, “o país está arruinado” e “empresas fecham a cada segundo”, como circula cotidianamente em suas amplas redes técnicas nacionais de política, sempre sem dados, mas sempre de forma massiva.

Prosseguindo em seu modo privilegiado de produzir poder, pelo show, pelo escândalo e pela impertinência agressiva, mentiras grosseiras e belicosas constelam aquelas massas sob controle, que gozam, como determinam seus senhores, consumindo tal “informação”, e também produzindo-a. O sujeito aí é a mentira hiper ágil, construída com rigor e método, de linguagem e de política de circulação, na internet.

No mundo deste povo, como já devemos saber, não se lê um jornal, não se considera a história, e o dispositivo geral de controle ideológico liberal, a Rede Globo, por exemplo, se tornou proibido, e deve ser descartado, como a ideia de “globolixo” criada por eles explicita, todos os dias. Como se sabe, há muito eles cindiram a cultura política comum, vivem em um “Brasil paralelo” técnico, de seu próprio “mito”. E, como revelou a pesquisa Quest, eles nos impõem de fato seu terror interno, com muita facilidade, uma das caras da barbárie brasileira de hoje.

A situação exige precisão, entendimento e ação política. Não estamos mais de nenhum modo em 2018, quando progressistas de todos os matizes, com seus partidos, de massa ou não, e seus intelectuais, descobriam, em cima da eleição, que Jair Bolsonaro era uma realidade política forte. E quando ainda se duvidava do caráter neofascista do personagem. Quando pouco ou nada se sabia do mundo cão da internet, das práticas de violência e degradação, calúnia, difamação e declarações permanentes de morte nas redes de massa da extrema direita, impulsionadas ilegalmente.

Quando nada se sabia sobre o ódio e a mentira serem políticas fortes. Quando não vimos o primeiro robô vírus dos Bolsonaros na rede, para reproduzir automaticamente suas falsificações, que apareceu em 2011… realidade que nos parecia irrelevante. Quando não vimos o sistema nacional de organização de massas, em 2015 e 2016, em chats de YouTube e redes de WhatsApp, participando com a maior força do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de Lula, já pedindo então golpe de Estado aos seus generais…

Eles funcionavam em massa, congregando grupos em todo país, sem nenhuma referência ao capitão Jair Bolsonaro em seu projeto já ativo de ditadura. Não estamos mais no tempo em que um candidato tampão do PT à presidência – partido que acreditava que ganharia a eleição mesmo com Lula preso, e com a guerra nacional total aberta contra ele, porque tinha certeza, até setembro de 2018…, que sua disputa era com Geraldo Alckmin, e com o falecido PSDB… – podia convocar jornalistas há uma semana da eleição, para dizer que descobriu “coisas horríveis sendo ditas contra ele na internet”, em que, na propaganda fascista mais branda, ele era um pedófilo criminoso.

E quando a massa de milhões de cafajestes, que até hoje não sabemos chamar pelo nome político preciso, exultava maníaca e feroz com o símbolo da verdade de sua campanha: não uma vassoura, para varrer a corrupção de seus rachadões e seus torturadores e sicários milicianos, nem uma estrela voando no céu da felicidade universal…, mas uma mamadeira de crianças, com bico em formato de pênis. Isso foi feito no Brasil.

Isso foi feito com base na construção material de uma estrutura concreta, indústria cultural real, de uma rede de propaganda fascista no país, que se desenvolve continuamente há dez anos. E estas verdadeiras estruturas materiais da propaganda fascista – onde ódio, mistificação religiosa e recusa de história e realidade dos fatos, são um único processo de sentido – estão totalmente intocadas.

O governo que conseguiu vencer por um fio este movimento em 2022 acredita que apenas retomar as políticas materiais de 2003 é suficiente para dar conta da paixão alucinatória, fundida às redes do grupo nacional de ódio. Continua não entendendo que essa subjetivação é alimentada permanentemente por uma estrutura material de produção e reprodução de memes, mentiras e violência imaginária totalmente liberada. Propaganda de massas permanente, baseada na força do sadismo, como performance psíquica humana.

Por isso, trata-se de fascismo. Infelizmente, aumentar a bolsa família, aumentar a faixa de exclusão de imposto de renda dos mais pobres, empregar mais pessoas, garantir direitos aos trabalhadores de plataformas, nada significa nas redes do controle psicossocial do bolsonarismo. Ali, para algo que varia entre 20% e 30% dos brasileiros, só o que o núcleo político fascista e evangélico diz e promove de fato é.

É espantosa nossa incapacidade histórica continuada de compreender que toda política da direita se dá nesta outra “esfera pública”, inteiramente controlada, e muitas vezes criminosa ao ser alimentada. Quanto mais tempo levamos para punir o seu movimento golpista de 2022, mais forte se torna a presença social do movimento. Nosso verdadeiro negacionismo a este respeito faz claramente parte da força do fascismo entre nós.

Já está na hora das esquerdas, e da esquerda no governo, compreenderem que o móvel de todo bolsonarismo é a sua lógica da mentira estrutural permanente, que se sustenta em seu sistema de propaganda em rede, permanente. Uma catástrofe política e “cultural” que a esquerda não combateu, e não combate, há mais de dez anos.

Afinal, como todos sabemos muito bem, “o comunismo está tomando o país”, “as eleições de 2022 foram fraudadas” e “a economia do governo Lula é de terra arrasada”.

Estamos brincando com fogo, e pólvora, sem nenhuma desculpa ou justificativa mais.

quarta-feira, 20 de março de 2024

Pensamento do Dia

 


'Polinização cruzada' na política faz extremistas usarem argumentos da direita e da esquerda

Uma imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — um líder de esquerda — com elementos do nazismo passou a circular em redes sociais como o X (antigo Twitter) depois da comparação feita por Lula entre a guerra em Gaza e o holocausto.

As montagens de Lula com o bigode de Hitler e rodeado de suásticas, no entanto, não se tratavam de críticas ou ironia ao discurso do presidente brasileiro, e nem de usuários falsos que tentam prejudicar a imagem de Lula — mas sim de manifestações de apoio.

Elas foram publicadas por extremistas que abraçam ideias políticas de diferentes vertentes conforme elas sejam convenientes às suas visões pessoais.

"Usuários da rede, criaram, inclusive, o termo 'lulismo esotérico' [fazendo uma relação direta com o 'hitlerismo esotérico', interpretações místicas dadas ao nazismo no contexto do pós-guerra] e estão produzindo propaganda", afirma a pesquisadora Michele Prado, pesquisadora do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo) e fellow na organização Social Change Initiative em Belfast, Irlanda do Norte.

Embora as ideias sejam aparentemente antagônicas, de acordo com a pesquisadora, o episódio se trata de um exemplo claro do conceito de "polinização cruzada".

Na natureza, esse termo se refere a um processo em que o pólen é transferido entre flores de plantas diferentes para promover a fertilização e diversidade genética.

Já no contexto discurso político, é usado para ilustrar a troca ou mistura de ideias extremistas entre grupos de espectros políticos aparentemente antagônicos.

E o presidente de esquerda brasileiro associado ao nazismo não é o único exemplo, como mostraremos ao longo desta reportagem.


Em 2020, Christopher Way, diretor do FBI, usou o termo "salad bar ideology" (algo como "ideologia self-service"), para descrever essa mistura de ideias que culminam em um extremismo violento.

Segundo Way, para quem trabalha com antiterrorismo, tentar encaixar os discursos em categorias bem definidas é um desafio.

"Uma das coisas que vemos cada vez mais são pessoas fazendo misturas confusas, uma variedade de ideologias diferentes."

De acordo com David Magalhães, coordenador do Observatório da Extrema Direita, um dos objetivos desses grupos extremistas é fazer oposição às ideologias dominantes.

"Temos um conjunto de ideias apoiadas por uma maioria e sustentadas em pilares liberais, como política parlamentar, tripartição de poder, respeito pelos direitos das minorias e a definição do papel do estado na economia. Grupos extremistas, sejam de direita ou de esquerda, buscarão desafiar essas bases no espectro ideológico."

Esses grupos, de acordo com os pesquisadores ouvidos na reportagem, escolhem partes de diferentes ideologias de forma a criar um conjunto que responda à crenças e queixas pessoais - que podem ser legítimas ou não.

"Comunidades de extrema direita, por exemplo, geralmente odeiam a ideia do Islã, mas ao mesmo tempo, algumas abraçam partes do islamismo radical. Temos comunidades de extrema direita antissemitas que estão apoiando o Hamas nos ataques de 7 de outubro como um meio de incentivar uma 'limpeza étnica'", exemplifica.

O pesquisador menciona, ainda, a existência de um grupo neonazista cultista [satanista] que usa elementos islâmicos para se descrever e apoia ataques terroristas que ocorreram no Ocidente.

Apesar da mistura de ideias aparentemente opostas, há também pontos de convergência entre os extremistas de diferentes "linhas". Entre eles, os pesquisadores citam: a crença em teorias da conspiração, posicionamentos anti-LGBTQIA+ e o antissemitismo.

Moustafa Ayad, diretor-executivo do ISD (Institute for Strategic Dialogue), explica as imagens de Lula associadas ao nazismo como uma oportunidade usada por extremistas para alcançar pessoas de grupos diferentes.

"Em certos casos, ao manifestar uma oposição a Israel, eles acentuam essa postura como uma declaração contra a fé judaica em sua totalidade."

"Hitler é considerado um reflexo desse pensamento. Se uma figura pública como Lula adota uma posição que pode provocar essa resposta, os extremistas veem isso como uma oportunidade estratégica para interseccionar e disseminar essas ideias de maneira mais ampla. É uma oportunidade de aproximá-los de uma audiência específica que eles não podiam alcançar antes."

Michele Prado menciona o grupo 'Nova Resistência' como mais um exemplo de polinização cruzada no cenário brasileiro.

"Trata-se de um grupo neo-fascista que incorpora uma variedade de conceitos provenientes de diversas ideologias extremistas, formando uma abordagem única. Essa estratégia, inclusive, visa ampliar sua base de apoio e recrutar mais adeptos."

Na avaliação de Prado, a Nova Resistência mistura conceitos de extrema esquerda, como o nacional-revolucionarismo (transformação radical da sociedade), terceiro-mundismo (cooperação entre países em desenvolvimento), nacional-bolchevismo (síntese entre ideias bolcheviques e nacionalismo), até extrema direita violenta, incorporando conceitos neo-fascistas (ressurgimento de ideias associadas ao fascismo).

"A Nova Resistência faz esse extremismo híbrido, e isso se reflete inclusive nos números, como eles conseguiram aumentar consideravelmente o número de seguidores no canal deles, no YouTube. E os discursos deles estão muito disseminados, inclusive, em veículos de mídia alternativa da esquerda. O grupo é um bom exemplo, um exemplo assim do extremismo híbrido, onde ocorre essa polinização cruzada de forma estrutural, inclusive."

Prado aponta que o o grupo também expressa discursos antissemitas, antiliberalismo político e se coloca contra pautas LGBTQIA+.

Uma das figuras públicas que já demonstrou afinidade com o grupo foi o deputado Robinson Farinazzo (PDT-SP), que em 2022 posou para uma foto na Avenida Paulista ao lado de militantes que seguravam uma bandeira com uma estrela verde e as letras "NR" ao centro.

O grupo, inclusive, apoiou campanhas de candidatos do PDT, como a o próprio Farinazzo, de Cabo Daciolo e Aldo Rebelo (que tentaram vagas no Senado por Rio de Janeiro e São Paulo).

A BBC News Brasil procurou o grupo e os políticos citados, mas não obteve resposta.

Michele Prado aponta que há indícios da chamada "polinização cruzada" desde os anos 90, quando a internet começou a ser democratizada.

"Na época, os ideais extremistas eram compartilhados em fóruns online de forma mais unilateral. Você tinha um produtor de conteúdo e um receptor passivo. E uns dos primeiros grupos a utilizar essa ferramenta da internet foram os neonazistas, que entenderam o quanto aquilo seria um instrumento para amplificar suas ideias além de fronteiras físicas."

O fenômeno tomou uma nova forma, de acordo com a pesquisadora, entre os anos 2000 e 2010, quando as pessoas começam a ser produtoras, mas ainda em um ritmo menor.

"A partir disso o Estado Islâmico, por exemplo, conseguiu radicalizar pessoas online, inclusive de países em paz."

Para Prado, o cenário atual é mais complexo, já que com as redes sociais, os indivíduos não são apenas consumidores passivos de conteúdo extremista, mas também produtores ativos.

"Hoje, enfrentamos um cenário chamado de extremismo pós-organizacional, onde não existem mais estruturas hierárquicas como antes, nos anos 2000. Para ser um extremista afiliado a um grupo não é mais necessário passar por processos de iniciação ou ter contato com um radicalizador."

É aí, aponta a pesquisadora, que surgem interações antes pouco prováveis entre extremistas que possuem ideologias que podem parecer opostas, mas que têm pontos convergentes.

A falta de um líder claro, analisa Moustafa Ayad, faz com que cada influenciador possa agir online isoladamente, sem a necessidade de um grupo por trás dele.

"Alguns deles estão vinculados a grupos formais, mas escolhem e selecionam entre os grupos aos quais estão afiliados, ou afirmam não ter filiação e estão apenas promovendo uma ideologia."

As redes sociais tornaram mais fácil o acesso a discursos extremistas.

Se antes uma pessoa precisava de muita pesquisa para chegar a comunidades extremistas — e poderia passar sua vida sem saber da existência delas — agora pode ser impactada facilmente por diferentes ideais violentos sem dificuldade.

Espaços não vigiados, como o Telegram, são câmaras de eco e muito propícios para a proliferação de ideias extremistas, aponta David Magalhães.

O pesquisador conta um exemplo de polinização cruzada que detectou ao acompanhar grupos dentro dessa rede social durante a pandemia.

"A direita criticava as ‘big pharmas' [grandes farmacêuticas], mas com uma visão populista, que acredita que o poder está sendo controlado por uma elite (corrupta) e há a necessidade de devolver o poder ao povo (puro). Em certa medida, essas ideias encontraram correspondência com discurso de parte da esquerda que tem um discurso anticapitalista, contra os grandes conglomerados econômicos."

Moustafa Ayad complementa dizendo que há uma dificuldade em barrar grupos com discursos criminosos.

"Lembro-me de uma repressão a grupos brasileiros no Telegram devido à promoção de ideologias neonazistas. Mas essas comunidades persistem, uma vez que é viável derrubar canais, mas eles se reconstituem rapidamente. Ao alterarem seus nomes ou se desvincularem de uma estrutura formalizada, conseguem recriar-se de maneira constante."

A falta de clareza também dificulta o monitoramento de pesquisadores e agentes de segurança pública que atuam no combate ao terrorismo e ataques violentos.

"Como as autoridades policiais, por exemplo, definiriam uma possível ameaça que mistura neo-nazismo, mostrando forte apoio ao Terceiro Reich, mas se identificam como pessoas de esquerda, propagando também ideias do nacional-socialismo? É complexo, e muitas vezes a confusão impede que sejam classificados como perigosos", diz Ayad.

Ainda que sejam grupos minoritários, Ayad aponta que esses extremistas podem influenciar outros a cometerem ataques.

"Esse extremismo composto, inclusive, foi notado nas evidências de investigações dos criminosos que cometeram alguns ataques a escolas no Brasil", afirma Michele Prado.

"É o caso de Cambé, no Paraná, onde o jovem que cometeu os crimes havia se radicalizado em mais de um tipo de ideologia."

Os ataques, conforme explicam os pesquisadores, não são necessariamente em massa, direcionados a grandes grupos como são os que focam em escolas.

Podem ser também direcionados a indivíduos, com motivação ideológica, de raça ou de gênero, conclui Prado.

Murar o medo

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já eram para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos.


Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção [narrativa] de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A Guerra-Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. E porque se trata de novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação… Precisamos de intervenção com legitimidade divina… O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente situação de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas [incomodas] como, por exemplo, estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivos se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida… A verdade é que… pesa uma condenação antecipada pelo simples fato de serem mulheres.

A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente… Citarei Eduardo Galeano acerca disso que é o medo global:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quem não tem medo da fome, tem medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.”

E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
Mia Couto, Conferências do Estoril (2011)

Liberdade, desigualdade, agressividade

O clássico “liberdade, igualdade, fraternidade”, que deu suporte à construção das modernas democracias, parece foi substituído pelas palavras e atitudes que intitulam o presente texto. Liberdade só para os fortes; desigualdade sendo até celebrada como instrumento de “desenvolvimento”, e agressividade como meio de “progresso” na vida, de indivíduos e nações. Triste e perigosa transformação!

A defesa da liberdade individual irrestrita, sem limites mesmo com consequências danosas para terceiros, tem levado à desigualdade e à agressividade crescentes, afastando-nos do sonho original.

Como acolher pleitos de que a liberdade individual não pode ser restringida? Qualquer um pode ter o “direito” de dirigir do lado esquerdo da pista, mesmo estando no Brasil, ou do direito, quando na Inglaterra? E o “direito” de difundir falsidades ou ocultar verdades, apenas por que trazem benefício a quem as espalha ou oculta? E o “direito” de mascarar que o fumo e a queima de combustíveis fósseis fazem mal? A extensão da “liberdade” pessoal ao capital, por sua vez, é que possibilita a destruição da biosfera, em proveito de poucos: ainda hoje, nada menos que 77% dos humanos vivem com menos de R$3.000,00/mês (fonte: Our World in Data)!


Oligopólio e manipulação de mercados são consequências da liberdade sem peias ao capital. Por mais que algumas dessas estruturas sejam denunciadas, é forçoso reconhecer que esta é, hoje, a forma dominante de organização da economia, local e mundialmente. Alguns dos efeitos desse tipo de organização, além da destruição citada, são a obesidade crescente da população (e custos cada vez maiores em mortes e em despesas com saúde!), decorrente da “liberdade” de anunciar o consumo de refrigerantes como sendo a porta da felicidade, ou de opioides como solução dos males sociais de solidão e desagregação social, ou defender mais armas para se chegar à paz! Levando, ainda, à ampliação da desigualdade.

Processo que desemboca em maior agressividade, tanto para “subir na vida” (para tal, “danem-se os princípios morais”!), como para se defender daqueles que não “subiram na vida” e passaram a ser vistos como “inferiores” e “invasores”, a exemplo de quem busca sair do Sul Global migrando ao Norte Global. Tidos, por alguns possíveis dirigentes de grandes nações, como “animais”.

A agressividade se manifesta também no discurso político: Ocidente X Oriente; líder A x líder B; alguns ameaçando guerra nuclear; outros praticando genocídios.

E onde estão sendo aplicadas políticas, coerentes e eficazes para além do discurso, para ampliar as liberdades, desde que preservada a qualidade de vida de terceiros, para reduzir as desigualdades e para promover a fraternidade? Não é loucura esperar que esses valores e atitudes sejam reabilitados e floresçam, apesar da manutenção de políticas que os estão solapando e minando?

A mudança de rumo tem de ser radical! Talvez seja hora de inverter dogmas assentados em muitas constituições e proibir que maiores de 35 anos assumam cargos diretivos em municípios, estados e nações!

Gaza: o que virá depois de um cessar-fogo provisório?

Passados cinco meses de bombardeios maciços e operações militares terrestres de Israel, resultando em mais de 30 mil mortes de palestinos, entre as quais 10 mil crianças, a Faixa de Gaza tornou-se um campo de ruínas. Além da destruição de 6 hospitais e 12 universidades, tudo o que dizia respeito à vida social foi arrasado: mesquitas, tribunais, escolas, arquivo histórico, museus, centros culturais. A infraestrutura civil de água, esgoto e eletricidade também foi aniquilada.

As ordens militares de evacuação da população resultaram em deslocamento forçado do norte para o centro, logo alvo de bombardeios, para o sul e, dali, para Rafah —agora também sob ataque.

Todo esse quadro é agravado por impedimentos, por parte dos israelenses, para a distribuição de ajuda humanitária —apesar de uma das medidas provisórias impostas pela Corte Internacional de Justiça (CIJ) ter obrigado Israel a facilitar o acesso do apoio internacional à região.

O volume de ajuda humanitária entrou em colapso em razão dos ataques de Israel a policiais —suspeitos de serem militantes do Hamas— que vigiam os comboios. Nas últimas semanas, 62 caminhões entraram em Gaza —bem abaixo dos 200 por dia que Israel se comprometera a liberar, ainda que se estime que para atender às necessidade básicas da população seriam necessários 500 veículos.


Há piquetes de civis israelenses, compostos inclusive por mulheres e adolescentes, muitos deles com machadinhas e cortadores de caixas, que atacam os comboios a pretexto "de impedir que a ajuda vá para o Hamas". O ministro da Segurança Nacional, Ben-Gvir, indicou que a polícia não iria reprimir protestos bloqueando o acesso dos caminhões.

Apesar das tentativas de dissuasão por parte dos aliados ocidentais, o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, promete que Israel atacará Rafah depois de evacuar 1 milhão e meio de refugiados. Mas qualquer ordem de evacuação nas presentes condições na região —sem abrigo, comida, água e atendimento médico— provocaria sofrimentos cruéis e seria uma flagrante violação do direito internacional humanitário e dos direitos humanos.

Os aliados ocidentais de Israel, diante desse quadro humanitário horrífico, reafirmam mais uma vez o direito de defesa do país de atacar o Hamas, ainda que essa defesa tenha se constituído na retaliação contra a população civil em Gaza. Imersos numa enorme contradição, esses países começaram a cobrar de Israel a proteção aos civis palestinos, a entrada da ajuda humanitária e, ainda, a proposta de um cessar-fogo de seis semanas. Dessa forma, iniciaram o lançamento de ajuda fundamental básica por aviões, como também anunciaram uma rota marítima com a construção de um píer flutuante, permitindo assegurar o fornecimento regular. Calcula-se, porém, que esse porto deverá levar dois meses para ser construído.

Depois de serem vetadas no Conselho de Segurança da ONU todas as resoluções impondo um cessar-fogo (inclusive as do Brasil), os aliados de Israel negociam com os países árabes, que têm acesso ao Hamas, um cessar-fogo de seis semanas —sem muito sucesso até este começo do Ramadã.

A pergunta obrigatória é: o que vai acontecer caso se realize esse cessar-fogo provisório de seis semanas? Israel vai bombardear Raffah? Continuará a desrespeitar as medidas provisórias ditadas pela CIJ, não protegendo os palestinos de Gaza de atos de genocídio, como o deslocamento forçado da população, a privação do acesso à comida e água e a obstrução de ajuda humanitária, incluindo combustíveis, abrigo, roupas e higiene? E quanto à destruição da vida dos palestinos em Gaza?

Não há nada mais macabro e cruel que uma pausa de atos de genocídio com prazo marcado de antemão para sua continuidade. Todos os Estados-membros da ONU que respeitam o direito internacional, incluindo o Brasil, devem tomar medidas para que esse cessar-fogo seja permanente. Nenhum crime pode ser interrompido com data marcada para sua continuidade.

domingo, 17 de março de 2024

Pensamento do Dia

 


A glória de ser medíocre

Cada vez mais gostamos de ser medíocres no Brasil. Sofremos uma absurda atração pela cultura da mediocridade e a elevamos a objetivo nacional. Estamos conseguindo, e com que brilho! Caminhamos para a liderança mundial em muitos quesitos. Consulte os índices de qualidade de vida, de desenvolvimento humano, de educação, de violência, de saúde pública, de saneamento, de habitação. Percorra nossas estradas, nossos portos e aeroportos, nossas escolas. Visite os estádios superfaturados e abandonados neste país que ainda usa o futebol como ópio do povo.

A atração fatal pela mediocridade se espalha em todos os níveis da sociedade. Alguns exemplos: quem acha que nosso Congresso é composto por mentes brilhantes? Quem acha que pessoas capazes ocupam nossos ministérios? Como Eike Batista chegou tão longe e acabou em Bangu? Seria apenas pela aliança com um governador que levou 16 milhões de dólares dele para o exterior? Por que tantos turistas compulsórios visitam Curitiba tendo a PF como cicerone? Onde foi que um presidente afirmou que nunca tinha lido um livro – e não lhe fez falta? Por que tantos?

Se você acha que a cultura da mediocridade para aí, está enganado. Escute com atenção as músicas que fizeram maior sucesso em 2016, curta a riqueza das letras e das melodias, encante-se com a mesmice e o ridículo. Veja um programa na televisão, desses que arrancam dinheiro do espectador a cada minuto, eleve-se ao nível da danação intelectual ou caia no fundo do poço da exploração humana. Sintonize a grade das tvs abertas e delicie-se com o vazio que elas nos impingem travestido de entretenimento. Leia também os best-sellers, mergulhe na profundidade de suas páginas, repare quanta sabedoria eles lhe trazem, quanta novidade divulgam, quanta sede de escrever diários de bananas eles propagam. Não se esqueça de ver os filmes nacionais de maior bilheteria: como são inteligentes, criativos, nem um pouco machistas e, cá entre nós, que humor. Que humor requintado! Gaste oito ou dez horas por dia, como nossos jovens, enfrentando os games e seus inspiradores combates, ache-se mais esperto, mais genial, com neurônios mais rápidos, longe da alienação e do vício.

Observe bem as propagandas nas mídias, admire os estereótipos tão maravilhosamente engendrados pelas mentes sedutoras das agências, tão sedutoras que a crise passa longe dos produtos que anunciam. Mergulhe de cabeça nos posts inovadores do Facebook ou nas mensagens do “zapzap” e sinta-se pronto para conquistar o Vale do Silício, depois do implante de um cilício mental.

A lista não tem fim. Estamos conseguindo, a passo acelerado, a mediocridade. Viva! Como é bom ser medíocre, a grande mania nacional! Deixemos que outros pensem por nós. O melhor é que a opção pela mediocridade é nossa, o gosto é nosso, as consequências cairão em nossas cabeças.
Luís Giffoni

A natureza das alegrias

Embora a experiência me tenha ensinado que se descobrem homens felizes em maior proporção nos desertos, nos mosteiros e no sacrifício do que entre os sedentários dos oásis férteis ou das ilhas ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do alimento se opusesse à natureza da felicidade. Acontece simplesmente que, onde os bens são em maior número, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se enganarem quanto à natureza das suas alegrias: elas, efetivamente, parecem provir das coisas, quando eles as recebem do sentido que essas coisas assumem em tal império ou em tal morada ou em tal propriedade. Para já, pode acontecer que eles, na abastança, se enganem com maior facilidade e façam circular mais vezes riquezas vãs. Como os homens do deserto ou do mosteiro não possuem nada, sabem muito bem donde lhes vêm as alegrias e é-lhes assim mais fácil salvarem a própria fonte do seu fervor.

Antoine de Saint-Exupéry, "Cidadela"

Borracha no futuro

Um estudo revela que 13 milhões de brasileiros deixaram de passar fome em 2023, o custo alto dos alimentos desacelerou, a economia obtém ganhos, a vida democrática supera os sobressaltos, mas decresce a avaliação positiva de Lula (PT). Algo semelhante ocorre nos EUA, onde esses fatores estão normalizados, porém, cresce nas preferências eleitorais a figura de Trump, um delinquente polimorfo. Na Argentina, 60% da população esfomeia, mas é elevado o índice de aprovação de Milei. Na alucinação, osso é filé.

São anomalias. Começa a ficar claro que elas reabrem de algum modo a noção de política. Por menos práticos que sejam pronunciamentos políticos de filósofos, vale evocar as posições públicas de Jurgen Habermas nos anos 1980 contra o neoconservadorismo irracionalista na Alemanha, assim como a sua especulação de que "se tivesse de apostar qual o próximo país que se tornaria fascista, minha aposta poderia ser: os EUA". Sem bola de cristal, anteviu Trump.


Entre nós, é recorrente a análise de que vivemos numa sociedade de classes com uma esquerda atrasada. Dessa redundância acaciana nada se conclui sobre a subjetividade política dos brasileiros nem sobre a dissonância entre seus comportamentos sociais e a infraestrutura socioeconômica. As massas acordaram para a experiência política, mas sob formas perversas, captadas pela extrema direita, a saber, setor financeiro, agronegócio e coorte de reacionários religiosos.

Acontece que a política parece ter-se deslocado da base normativa das formas democráticas para preocupações populares como anticorrupção e comunitarismo religioso. Da linguagem desses fatores está ausente não só a esquerda, mas também a formação política (sindicalista, social-democrata) de Lula. O que sai da boca do povo não aparece no radar de Brasília.

O fenômeno pertence ao neopopulismo global, com núcleos organizadores regionais, que delegam tarefas. No ato de 25 de fevereiro, na Paulista, mesmo com maioria branca, terceira idade e renda média, os 200 mil aderentes constituíam o estrato inferior de uma divisão de classes nas incumbências visíveis, com as quais o núcleo já não se compromete diretamente. Algo como a camada externa de uma cebola, que oculta outras. Com o mesmo odor.

O decréscimo da popularidade de Lula é da mesma natureza do sinal enviado pela presença de uma multidão daquele tamanho ao redor de uma personagem trêfega e desconexa. Mas no fenômeno das anomalias em pauta, desconexão é coerência: o abilolado que mete a mão no esgoto extremista é o mesmo que depositará o voto na urna da ultradireita, outubro à vista. Um índice resiliente da ideia antipolítica de nação sem democracia nem justiça social: olho no retrovisor e borracha passada no futuro.

Não foi por mal

A estupidez sempre foi uma característica protegida e é fácil explicar porquê. Os estúpidos não têm culpa de ser estúpidos. A maioria (a mais esperta) até odeia ser estúpida.

Ser estúpido é um azar. Prejudica. Dá mais trabalho. Atrapalha. Causa atrasos e malentendidos. A única vantagem de ser estúpido é ser-se capaz de enfurecer os espertalhões com muito pouco esforço.

Como é proibido chamar estúpidas às pessoas – mesmo àquelas que não são –, a estupidez é um flagelo invisível. Apesar de ser a causa principal – alguns diriam a única – de tudo o que corre mal, a estupidez atira sempre com as culpas para outra causa qualquer.


Teoricamente, é possível retraduzir o discurso público para obter as equivalências da estupidez que são culturalmente autorizadas.

São palavras como incompetência, falta de profissionalismo, estreiteza de vistas, inocência, simplicidade, e uma imperturbável alegria de viver.

Mas é muito bom sinal aceitar a estupidez e fazer o respectivo desconto. Quando alguém nos diz, desculpando as acções de um estúpido, que “não foi por mal”, a única maneira justa e saudável de reagir é aceitar esse apelo à intenção.

O inferno não está cheio de boas intenções. Pelo contrário, não há uma única boa intenção no inferno. O inferno está é cheio de bons resultados.

Se isto fosse uma tese, chamar-se-ia “Intenção, Resultado e Merecimento na Cultura Portuguesa”. Felizmente, isto deixa-se complicar até mais não, mas não aqui.

Ao longo da vida – mais depressa para quem dá aulas –, vemos que os grandes esforços andam divorciados dos grandes resultados, que a qualidade humana é completamente independente do talento e da inteligência, e que as intenções estão entre as poucas coisas que se podem julgar com generosidade.

Cada vez é mais fácil preferir um mau resultado, obtido com boas intenções, a um bom resultado, obtido com más.

A estupidez também precisa de ser reenquadrada: não acredito que os estúpidos sejam todos bonzinhos.