sexta-feira, 8 de outubro de 2021

No mundo da Dreadnoughts, inesxiste menina pobre sem absorvente

O que o veto do presidente Jair Bolsonaro à distribuição gratuita de absorventes para estudantes pobres e mulheres em situação de rua tem a ver com a Dreadnoughts Internacional, a inoxidável offshore de Paulo Guedes, com patrimônio de ao menos US$ 9,55 milhões?

A propósito: Sérgio Rodrigues, colunista desta Folha, sinta-se desafiado a fazer um ensaio combinando o nome dessas empresas dos ricos com seu grau de alienação da realidade. Ou de arrogância. Espero responder à pergunta inicial no curso do texto.


Consta que o ministro está indignado com a proporção que tomou a notícia, não a fake news, de que ele tem a tal empresa nas Ilhas Virgens Britânicas. Compreenda-se a sua fúria. Ele contou tudo à Comissão de Ética Pública. Por alguma razão inexplicada, a dita-cuja não viu contradição entre a sua empresa (e as de Roberto Campos Neto) e a lei 12.813. Há ainda o Código de Conduta da Alta Administração Federal, que também veda tal prática.

Um endinheirado qualquer ter uma offshore, devidamente declarada à Receita, não é crime. Quando se é ministro da Economia ou presidente do BC, o ordenamento jurídico define a prática como ilegal. E o código a considera antiética. Não se conferiu à tal comissão a faculdade de reinterpretar os dois textos.

A escalada do dólar, que tira comida da boca do pobre, deixa Guedes e Campos Neto mais ricos. A frase lhes pareceu, assim, de um jacobinismo juvenil? É que a alienação ou a impiedade de alguns ricos têm a idade da Terra e pedem o contraste. Ainda que a cotação da moeda não guardasse nenhuma relação com decisões tomadas pela dupla —e guarda—, isso estaria dado pela “árvore dos acontecimentos”.

Voltemos a falar daquele estrato social em que meninas deixam de ir à escola porque não dispõem de produtos para a higiene íntima. É bem provável que, num ambiente de prosperidade e de uma gestão virtuosa da economia, as peripécias da dupla não fossem percebidas por aquilo que são: um escândalo, antes de mais nada, moral, como apontei desde a primeira hora no programa “O É da Coisa” e em minha coluna no UOL.

As offshores, por si, não fazem de Guedes ou de Campos Neto larápios ou ladrões de dinheiro público. Ocorre que eles são personagens centrais de decisões que têm consequências e não podem, pois, ter o próprio patrimônio protegido das suas escolhas. O que este governo fez, por exemplo, para minorar os efeitos da estúpida inflação de alimentos? O câmbio inflacionou também o mercado de ossos.

Não proponho aqui enforcar o último dono de offshore com as tripas do último reacionário. Eu até os vejo com certa piedade. Não é que sintam prazer diante da miséria. Eles simplesmente não a entendem como questão urgente. O liberalismo à moda da casa —e peço escusas, leitor, por ainda acreditar numa versão virtuosa— especializou-se em dizer por que os pobres teriam direitos demais no Brasil. E jamais se ocupou de explicar as proteínas de menos.

Certamente há uma penca de hipócritas que transformam o sofrimento dos pobres em mero discurso ideológico, advogando soluções que seriam, antes de tudo, problemas. Não são nem meus interlocutores nem meus opositores. No mais das vezes, diga-se, são irrelevantes no debate e só servem para fazer a fama de cronistas vigaristas, que têm a grande coragem de se opor a minorias militantes.

Sou um conservador em muita coisa. Um dos traços do meu conservadorismo está em considerar que a coragem sempre será a coragem contra os poderosos, nunca contra quem os contesta, por menos razão que tenha ou por mais bobagens que diga. É a minha escolha há mais de 40 anos. Estes tempos insanos, no entanto, deram à luz também este tipo ordinário: seu destemor está em não ter receio de esfregar verdades na cara de quem nada pode.

Esses poderosos alienados não existem no vácuo. Há um ambiente também intelectual que os explica, em que menina pobre não menstrua. São, a seu modo, vítimas morais de sua concepção de mundo. Mas jamais terão de se submeter ao sopão de ossos. Que as urnas tentem corrigir os desatinos. E se não? O apocalipse não virá. Países não fecham; países pioram. Que o Brasil melhore ao menos.

Pensamento do Dia

 


Mentira como negócio

Desde que surgiu, o Facebook proclama que sua missão é “tornar o mundo mais aberto e conectado”, o que presume valorização das relações pessoais e de laços sociais. Seus algoritmos, contudo, foram programados basicamente para gerar o máximo de engajamento, o que tende a privilegiar a publicação e o compartilhamento frenético de conteúdos muitas vezes nocivos à saúde e à democracia.

Esse modelo de negócios foi denunciado no dia 5 passado por uma ex-programadora do Facebook, Frances Haugen, em depoimento ao Congresso dos EUA. Segundo ela, entre os conteúdos que geram mais interação no Facebook estão os que “fazem mal às crianças, alimentam a divisão e enfraquecem a nossa democracia”.

Maarten Wolterink (Holanda)

A suspeita é antiga. Frances Haugen tornou públicos documentos internos do Facebook que comprovariam que a empresa tinha evidências desses impactos, e não só não fez nada para reduzi-los, como pode tê-los maximizado. A se confirmar a veracidade da denúncia, ficará claro que o Facebook não se importa com o fato de que os conteúdos tóxicos que seu sistema favorece ajudam a tornar o mundo mais fechado e dividido, desde que esse engajamento lhe dê lucro e colabore para consolidar seu monopólio.

O Facebook alega que promove a responsabilidade social removendo conteúdos danosos, mas os documentos mostram que a empresa tomou medidas contra apenas uma pequena fração das publicações contendo discursos de ódio e incitação à violência.

Em 2018, o Facebook anunciou que, a fim de mitigar a radicalização, priorizaria publicações de amigos e família. Seus pesquisadores, no entanto, coletaram evidências do efeito oposto: “A desinformação, a toxicidade e o conteúdo violento prevalecem desordenadamente nos compartilhamentos”. Os documentos mostram ainda que pesquisadores do Instagram – uma das redes do Facebook, assim como o WhatsApp – mensuraram que, para 13,5% das adolescentes, a plataforma agravou ideações suicidas e para 17%, suas desordens alimentares.

Cientistas da Equipe de Integridade – da qual Haugen fazia parte – trabalharam em uma série de potenciais mudanças para reverter a tendência dos algoritmos a premiar ultrajes e mentiras. Mas os memorandos revelam que Mark Zuckerberg, o dono do Facebook, resistiu a várias dessas soluções, porque poderiam diminuir o engajamento dos usuários.

Em um artigo recente na revista The Atlantic, os psicólogos Jonathan Haidt e Tobias Rose-Stockwell fizeram uma recensão da literatura científica evidenciando que as redes contribuem para a ansiedade e depressão entre adolescentes e para a polarização política. Reunindo as melhores recomendações dessas pesquisas, os autores sugerem maneiras de remediar esses males.

Uma seria reduzir a frequência e a intensidade das performances públicas. As mídias criam mais incentivos a arroubos moralistas do que à comunicação autêntica. Reduzir a valorização do engajamento, hoje absoluta, seria um modo de induzir os usuários a julgar as publicações por seu mérito, ao invés de submetê-los a uma contínua disputa por popularidade. Outra possibilidade é reduzir o contágio da desinformação, por exemplo, utilizando a Inteligência Artificial para identificar conteúdos tóxicos e advertir os usuários.

A questão em relação a essas e outras ferramentas é quem as implementaria: os governos, as próprias redes, os usuários? O problema ganhou nova dimensão graças às denúncias de Frances Haugen. Nos EUA, já se discute uma expansão da Lei de Privacidade Infantil Online, tornando ilegal computar informações pessoais de crianças. Outra possibilidade é limitar a prerrogativa das redes sociais de não serem responsabilizadas por conteúdos publicados por seus usuários, mesmo quando moderados por elas.

Sejam quais forem as soluções encontradas, o fato é que alguma forma de regulação se faz necessária. Não se pode, a pretexto de preservar a livre-iniciativa, deixar que uma empresa construa um gigantesco monopólio, estimule a disseminação de mentiras para ampliar seu lucro e concentre poder de maneira assustadora sem que seja submetida a limites democraticamente estabelecidos.

Recado papal


Menos armas e mais comida, menos hipocrisia e mais transparência, mais vacinas distribuídas igualmente e menos fuzis vendidos imprudentemente
Papa Francisco

A onda anticorrupção se foi e nada deixou

O forte sentimento de repulsa à corrupção foi central na crise que irrompeu em 2013 e desembocou na eleição de Bolsonaro daí a cinco anos. Cabe agora perguntar se terá algum papel nas urnas de 2022.

Décadas atrás, o pensador americano Theodore Lowi observou que o tema decerto tinha menos a ver com a presumível multiplicação das falcatruas —coisa difícil de medir— do que com a sua serventia como arma política em disputas acirradas. Argumentou ainda que, nessa condição, por não exprimir um compromisso permanente de partidos ou líderes, mais parecia uma sequência de ondas fadadas a perder força depois de arrebentar.


No Brasil, a bandeira anticorrupção foi quase sempre empunhada pela direita. Carlos Lacerda e a UDN (União Democrática Nacional) contra Getúlio Vargas nos anos 1950; Jânio Quadros com sua vassourinha contra a "bandalheira", na campanha de 1960; os golpistas de 1964 contra João Goulart; Fernando Collor contra os "marajás" em 1989. A exceção foi o PT quando, nos anos 1990, ensaiou substituir o discurso classista pela defesa da moralidade política, ensejando o apelido "UDN de macacão".

Mais uma vez, a retórica da luta contra a corrupção, ingrediente essencial do impeachment de Dilma Rousseff e da vitória de Bolsonaro, perdeu vigor. A mais clara evidência disso foi o destino de Sergio Moro, herói e algoz da Operação Lava Jato, ao colocá-la a serviço do populismo de extrema direita. Pesquisa do Ipesp mostra que, entre janeiro de 2020 e agosto de 2021, o ex-juiz perdeu 50% das intenções de voto para a Presidência da República. Nenhum dos outros possíveis presidenciáveis dá prioridade ao enfrentamento da corrupção. A onda passou, sem deixar legado institucional algum.

Fora da agenda dos partidos e dos candidatos, a certeza de que política e corrupção são unha e carne é disseminada entre os brasileiros. Reforça a percepção de que a economia funciona em benefício dos mais ricos e de que os políticos não ligam para o povo, alimentando a esperança numa solução personificada em um líder forte.

Esse é um dos achados do estudo da Ipsos Global Advisor intitulado "O Sentimento do Sistema Roto 2021" —que abrangeu 25 países. Colômbia, Brasil e Peru se destacam entre aqueles onde a corrupção percebida se enlaça fortemente com a sensação de que o sistema político se rompeu e não funciona para os cidadãos.

Enquanto assim for, o populismo de direita poderá ser vencido nas urnas --o que provavelmente acontecerá em 2022--, mas as suas raízes continuarão fortes na sociedade descrente. Cedo ou tarde, tornará a envenenar a vida política brasileira.

Consumir procurando uma felicidade que nunca chega, como compramos para construir nossa identidade

Consumismo é consumir mais do que precisamos, consumir para construir uma identidade própria, consumir para mostrar um estado socioeconômico, consumir pelo tédio, consumir para aplacar a ansiedade, consumir procurando uma felicidade que nunca chega. Ao consumo são atribuídas uma série de vantagens que ele na verdade não tem, mas o consumismo continua sendo encorajado, já que é o combustível principal do atual sistema econômico. O shopping, cheio de luzes chamativas e cores, de tentações inescapáveis e de emoções plastificadas, poderia muito bem ser uma imagem icônica de uma sociedade que se dirige despreocupadamente ao abismo.

“A razão pela que consumimos dessa forma, além de nossas necessidades, é porque o consumo é ideológico em seu núcleo”, diz Steve Miles, sociólogo da Universidade Metropolitana de Manchester e autor de livros como como Consumerism: as a way of life (Consumismo como meio de vida). “Somos obrigados a consumir de modos que não são naturais, mas que servem para manter o status quo”. A forma paradigmática dessa maneira irracional de consumir é a prática do shopping (ir às compras), fortemente publicitada por certo cinema e pela televisão: comprar por comprar se transforma em uma atividade de lazer de fim de semana e até em uma terapia para momentos de crise. A protagonista da série volta ao anoitecer para casa, com os braços cheios de sacolas de lojas, muito mais tranquila após passar a tarde percorrendo as lojas do centro. Agora isso sequer é necessário: basta uma conexão com a internet para comprar de casa produtos vindos de todo o planeta e tê-los em pouco tempo na porta de casa. Uma engrenagem azeitada nos incita constantemente a comprar: o gasto mundial em mercadotecnia em 2021 será de 657 bilhões de dólares (3,5 trilhões de reais), segundo um estudo da agência Magna, que se materializa nos 6.000 estímulos publicitários que recebemos todos os dias, de acordo com a Neuromedia.

Gianfranco Uber (Itália)

O início do consumismo como o conhecemos costuma ser colocado nos Estados Unidos dos anos cinquenta. Na época, o desenvolvimento industrial e o clima econômico permitiram que fossem produzidos produtos baratos em grande escala para consumidores em grande escala. A indústria da publicidade se tornou maciça e sofisticada, e os créditos ao consumo se tornaram frequentes. O consumo se associava ao crescente bem-estar do pós-guerra, à casa confortável e cheia de eletrodomésticos, ao aumento das possibilidades de entretenimento. Para a socióloga do Boston College Juiet Schor, o consumismo é um fenômeno próprio das sociedades desiguais em que os de baixo tentam se equiparar aos de cima pelo modo de consumir, o que chama de consumismo competitivo.

Se antes vivia-se em bairros mais ou menos homogêneos (por exemplo, o bairro operário de periferia e os aprazíveis subúrbios norte-americanos dos anos cinquenta), onde as diferenças de classe não eram tão notórias, com a chamada incorporação da mulher ao trabalho —na verdade, a mulher sempre trabalhou na reprodução e nos cuidados— e o desenvolvimento dos veículos de comunicação maciça, as pessoas cada vez se viram mais expostas a outros grupos de referência com os quais se comparar e aos que imitar. Hoje em dia ocorrem fenômenos curiosos: o Instagram é uma rede internacional na qual estamos expostos aos estilos de vida dos privilegiados e daqueles que fingem sê-lo (influencers posando em idílicos iates, piscinas de sonho e viagens exóticas), o que move muitos a esse consumismo aspiracional. Ao mesmo tempo, marcas de luxo como a Gucci, Louis Vuitton e Versace são cada vez mais comuns em bairros pobres, e estrelas da classe trabalhadora, como os cantores de trap, fazem alarde (e publicidade) delas.

“Esta época se caracteriza por um consumo e uma produção acima dos limites biofísicos do planeta e tem a ver com a aceleração da economia que produziu a liberalização dos mercados, a globalização: há um consumo feito por pessoas precarizadas que não significa necessariamente um maior bem-estar”, diz Brenda Chávez, autora de livros como Al borde de un ataque de compras (À beira de um ataque de compras), que também aponta problemas como o desmatamento de florestas como a amazônica. “Se continuarmos nesse ritmo, consumindo mais do que a Terra pode produzir, o colapso ambiental pode estar próximo”, diz a jornalista. Gastamos a cada ano como se tivéssemos à nossa disposição 1,7 planetas Terra, de acordo com a organização Global Footprint Network.

Prova de que o consumo de hoje não tem tanto a ver com as necessidades são os relatos das empresas através de sua publicidade: na verdade, já não se publicitam produtos, ninguém diz que seu detergente lava mais branco. O que se publicitam são os valores. Nosso consumo se transforma assim em um complemento e uma definição de nossa personalidade. “Compramos uma marca porque está alinhada aos nossos valores e porque nos emociona”, diz o psicólogo Albert Vinyals, professor da Escola Superior de Comércio e Distribuição (ESCODI) da Universidade Autônoma de Barcelona e autor de El consumidor tarado (O consumidor estúpido). “Paradoxalmente, entre os valores que fomentam o consumo podem estar a sustentabilidade e, até mesmo, o anticonsumismo”. De fato, nos últimos tempos, o orgânico, o sustentável, o ecológico e até o rebelde e anticapitalista podem servir para nos fazer comprar mais. Mesmo sendo comum sermos motivados a consumir menos e consumir melhor, não está claro que mudar o modo de consumo irá mudar as coisas profundamente, além de aumentar o leque de opções para consumir. “A sociedade de consumo não irá desaparecer”, afirma o sociólogo Steve Miles, “está, na verdade, recalibrando, redefinindo, está se reinventando para camuflar a profundidade de suas credenciais ideológicas”.

Um estudo da ESCODI detecta certas tendências no consumo em tempos de pandemia: até 60% dos pesquisados, entre 18 e 45 anos, estão dispostos a diminuir seu consumo e a fazê-lo de modo mais sustentável, se mantém a preferência pela compra pela internet, mesmo em tempos de “nova normalidade”, e se torna visível um repúdio aos modelos de baixo custo que fizeram fortuna após a crise anterior. Além disso, alguns setores do consumo estão mudando do pagar pela propriedade ao pagar pelo uso. “Em outros casos”, diz Vinyals, “o que se valoriza é a experiência e até a exibição: há jovens que alugam uma Ferrari por um dia para tirar fotos e colocá-las nas redes sociais”.
Sergio C. Fanjul

O drama das crianças brasileiras deportadas para o Haiti

Mais de 7 mil migrantes que se encontravam em baixo da Ponte Internacional, na cidade fronteiriça texana de Del Rio, já foram deportados para o Haiti, segundo dados publicados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) na segunda-feira. Entre elas, estavam 381 crianças nascidas no Chile e 85 no Brasil. Estas são, portanto, brasileiras natas, ainda que de pais haitianos. Elas têm o direito de ser assistidas pelo governo brasileiro e de ser repatriadas.

Mas ao chegarem, forçadas pelo governo americano, ao aeroporto de Porto Príncipe ou de Cabo Haitiano, cidade no norte do Haiti que também recebe os voos vindos do Sul dos Estados Unidos, essas crianças e seus pais estão jogados no meio de um país à beira do colapso, em meio a uma violência quase generalizada pelas gangues que dominam, hoje em dia, grandes partes da região. Cada pessoa recebeu da OIM 120 dólares, o salário mínimo haitiano, suficiente apenas para sobreviver os primeiros dias num país que suas famílias, na maioria das vezes, tinham abandonado há muitos anos.


Na mídia, diz-se que o governo brasileiro, através da embaixada em Porto Príncipe, já está fornecendo ajuda a essas crianças. Estive no aeroporto da capital haitiana na ocasião da chegada de alguns voos, mas não encontrei nenhum representante do governo brasileiro. Por outro lado, encontrei haitianos que, durante anos e anos, tinham vivido e trabalhado no Brasil, onde seus filhos haviam nascido.

Alguns deles não sabiam que o governo brasileiro tem obrigação de ajudá-los; outros não sabiam como acionar tal ajuda. Assim, acabam se espalhando pelo Haiti, uns com a ajuda de familiares, outros se refugiando em favelas, na busca de uma moradia barata. Muitos carregam traumas pelos acontecimentos em tais viagens. Afinal, para se chegar do Chile ou do Brasil até a fronteira com os Estados Unidos, leva-se de um a dois meses. Neste percurso, eles gastam milhares de dólares com os "coyotes" – os facilitadores na travessia de um país para o outro.

Há relatos chocantes de passagens de migrantes pelas selvas do Peru e, principalmente, pelo região de Darién, no Panamá, com sua selva densa e perigosa de atravessar. Lá, na região que liga o país à Colômbia, eles são vítimas de gangues que roubam e matam. O mesmo perigo espera os migrantes no México, onde regiões inteiras estão sobre o domínio de bandos criminosos.

Além de haitianos e migrantes hispano-americanos, há também muitos brasileiros tentando entrar nos Estados Unidos de forma ilegal. Nos últimos tempos, houve inclusive notícias de crimes contra eles. Estão à busca de uma vida melhor, já que a situação econômica de muitos países – como o Brasil e o Chile – tem se deteriorado ultimamente. Assim, os EUA se transformam, cada vez mais, na "terra prometida" para muitos latinos. E também na única opção.

Cheguei ao Brasil no começo do século, quando o otimismo com o futuro era palpável. Havia uma onda de governos "progressistas" na região, que ensaiavam iniciativas de mais inclusão social. Hoje, olhando para o caos e a miséria que ronda o Haiti, encontro muitas similaridades com cidades brasileiras. A falta de comprometimento das administrações públicas com a melhoria das vidas dos cidadãos se reflete numa negligência com as cidades e seus habitantes.

Pergunto-me o que será dessas crianças haitiano-brasileiras, que, com pouca idade, já sentiram na pele as veias abertas da América Latina. Uma região cada vez mais fragilizada pela fragmentação das instituições governamentais e dominada pelas gangues do tráfico de drogas, de armas e humano. A América Latina se encontra num estado lamentável, numa emergência humanitária. E, aparentemente, sem governantes responsáveis e com visão de futuro para dar uma esperança à população. Dar uma perspectiva às crianças brasileiras que chegaram, sem querer, ao caos haitiano, já seria um começo. Pelo menos isso.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Dentro do meu coração...

“Somos sensíveis, amorosos, desagradáveis e instáveis porque (querendo ou não) temos um coração. Grande ou pequeno, generoso ou sovina, vaidoso ou humilde, duro ou mole. Quando ele para de bater é sinal de que o nosso corpo anoiteceu na profunda indiferença da morte.”

Ademais – continuou Demostenes, um amigo de infância que se recupera de um ataque cardíaco hospedado aqui em casa –, o coração é uma gaveta ou uma imensa caixa-forte guardadora de sentimentos, acontecimentos e pessoas. Sendo músculo e bomba, ele tem afinidade com os atletas e com os que jamais deixam de trabalhar. Mas, como os velhos automóveis, pode parar de funcionar.

– Olha, Roberto – continuou Demostenes com a serenidade de velho amigo –, enquanto a anestesia dopava a minha consciência, eu ouvia a minha alma e a equipe de médicos que futucava meu coração. Pensei no dentista e, surpreso, descobri que tratar de uma cárie era pior do que a viagem que os cirurgiões faziam no meu coração.

– Verdade? Ainda bem que não doeu nada – falei entre o descrente e o aliviado.

– De fato, Roberto, eles desvendaram o meu coração, desentupiram uma coronária e de quebra mapearam ventrículos e válvulas. Tudo vasculharam, mas nada souberam do lado negro de inveja ou dos rios entupidos pelo ressentimento e pela angústia. Uma verdadeira Amazônia que eu, em plena cirurgia, percorria invocando meus avós, pais, tios, amigos e irmãos; meus filhos e netos, meus trabalhos, amores e perdas. Os caras nem sequer tocaram no álbum de retrato dos mortos enterrados no meu peito. O ventrículo do erotismo, por exemplo, permaneceu virgem e a memória daquele beijo primeiro que o invadiu escapou ilesa da angioplastia. O mesmo ocorreu com o último ósculo dado no idoso um tanto atordoado pelas lúcidas recordações do coração, enquanto buliam no seu coração...

Curavam a veia, mas nada fizeram para sanar o coração como um bombeador de fantasias.

– Num dado momento, Roberto, tentei falar, mas a tristeza não deixou. Como era possível que o meu coração tivesse abandonado o coração que entesourava dores, perdas e gozos entre tantas preciosidades descarnadas que fazem a minha vida?

Ah! Amigo, o meu coração foi dividido com muita gente. Eu planejei meticulosamente, como faz um gângster de filme americano, entregá-lo para todo mundo. Meu coração jamais foi meu, sendo como é uma verdadeira casa da sogra. Um albergue aberto aos meus filhos, netos, amigos, alunos e viajantes.

Jamais cogitei de deixá-lo nas mãos firmes de cirurgiões e, sobretudo, de políticos – esses doutores em assassinar moralidades. Envolto, então, pelo torpor que me deixava pensar os extremos, eu juntava conscientemente o coração físico que vai morrer com o outro: o coração que guarda a minha vida e que – queira Deus – vai bater de quando em vez em outros corações até ser definitivamente esquecido.

– Quando num ecocardiograma – continuou Demostenes – o meu coração foi examinado, maravilhou-me descobrir que, na sua banal feição fisiológica, havia uma banda. O examinador buscava padrões, mas meus ouvidos musicais distinguiam um piano, um violino, um saxofone e pelo menos dois pandeiros.

– Roberto, o coração falava sua língua lida como patologia, mas para meus ouvidos era a prova daquilo que chamamos de “ritmo” e de harmonia. Uma música que vem do fundo de cada ser vivo e que, fora de seus algozes peitorais, inspira musicalidade.

– Mas, Demostenes, vem cá. Em nenhum momento você teve medo ou ficou angustiado?

– Não! Tivesse eu meus planos juvenis, com certeza. Mas em nenhum momento rezei para os deuses que eu tanto amo e respeito. Mas tive uma imensa saudade do meu velho coração, que vovó Emerentina dizia que podia cair porque estava pendurado por um fio...

– Hoje eu sei, meu querido amigo, que corações não caem. Eles sobem ou se enterram na lama insípida que produzem ao longo de vidas sem sentido. De existências ranzinzas sem beleza e sentimento. Idoso, é claro que penso na morte, mas, eu velho, a velha senhora como um grato epílogo de um livro ou de uma melodia de Jerome Kern. Estou seguro, porém, que vou sentir muita saudade...

PS: Demostenes e eu falamos muito. Conversamos toda a semana até que ele e sua esposa, a santa Glorinha, voltaram para o sítio onde moram. Tentei traduzir aqui sutilezas emocionais que um coração amigo exprimia. Imagine agora juntar as vozes de todos os corações. Que sinfonia de inexprimível beleza, amor e saudade elas iriam orquestrar. Não haveria nada mais sublime. Porque um coração cabe dentro do outro e do outro e do outro e do outro...

Dezenove milhões

Dezenove milhões de quê? De quilos de ouro achados, ou perdidos? De árvores plantadas, ou de incêndios nas matas? De mortes ou de curas? Dezenove milhões de quê?

Pode ser R$ 19 milhões de renda anual? Sim, pode; milhares – não milhões, mas milhares – de brasileiros ganham tudo isso a cada ano, e alguns ganham ainda muito mais. Pode ser o abate semestral de cabeças de bovinos no Brasil? Pode, mas de fato no primeiro semestre do ano corrente tal abate ficou pouco abaixo de 15 milhões. Pode ser um prêmio da Mega-Sena? Também pode, um bom prêmio, por certo! Quem sabe 19 milhões seja a população de um país, ou de um estado brasileiro? Dezenove milhões é a população da Venezuela, e Guatemala e Equador têm, cada, um pouco menos. No Brasil, só SP e MG possuem mais de 19 milhões de habitantes; o RJ, terceiro mais populoso, não chega a 17!

Então, 19 milhões de quê?


Essa é a quantidade de brasileiros passando fome, hoje! Pessoas em estado caracterizado como “insegurança alimentar grave”! Uma das fotos da semana na imprensa internacional é de brasileiros disputando ossos descartados por um açougue!

Quem deveria estar fazendo grandes esforços para reduzir esse número disse, recentemente, que “nada é tão ruim que não possa piorar”. O que esperar desse governante? Nada de bom, por suposto! Mas ele mesmo já disse nada entender de economia, que essas questões devem ser tratadas com o posto Ipiranga!

(Uma digressão: não seria o caso de os detentores da marca “posto Ipiranga” processá-lo em razão do descrédito à que a expressão foi levada?)

Continuando. O posto Ipiranga está preso em uma ideologia superada – nem mais o FMI a professa – e nos aprisiona a todos. Para levantar algum dinheiro para pagar um auxílio – bem inferior ao necessário, e inferior também ao aprovado pelo Congresso ano passado – decide elevar o custo do crédito, prejudicando milhões – certamente mais que 19 – de pequenas empresas e pessoas físicas, ajudando de sobra a agravar a fome e a elevar a inflação.

Como outra fonte de recursos, manobra para dar tom de legalidade à recusa, pelo Estado, de pagar o que deve. Providências para reduzir a prática estatal, já de longa data, de jogar para o futuro o acerto financeiro de seus variados desacertos, como impedir reajustes legais e outros? Nenhuma!

A mais clara, mais evidente, mais eficaz, mais necessária e mais justa providência não é vista por quem, além de cego pela ideologia, poderia ser diretamente afetado: elevar impostos sobre aqueles que, por ganharem valores anuais muito acima dos milhões de reais, pagam uma das mais baixas cargas tributárias do planeta e papagueiam que a mesma é muito elevada! Elevada mesmo para quem passa fome, mas não para todos!

Melhor esquecer a corrupção, petistas

Como publicamos ontem, para 28% dos entrevistados pelo instituto de pesquisas Quaest, Lula é o melhor candidato para combater a corrupção. Está à frente de Jair Bolsonaro, com 24%, e Sergio Moro, com 14%, segundo o mesmo instituto. Esse resultado seria o coroamento da estratégia tão malandra quanto exitosa da demonização da Lava Jato e a consequente anulação das condenações de Lula, julgado por um juiz que teria sido parcial contra a alma mais honesta do Brasil (quiçá do mundo), para tirar proveito político disso e se tornar ministro de Jair Bolsonaro, outro que teria lucrado com a prisão do chefão petista.

É uma realidade paralela que, embora não tenha vasos comunicantes com a verdade dos fatos, pode ter turvado a visão de uma parcela significativa dos brasileiros sobre o ex-condenado Lula, apontado como o chefe de uma organização criminosa que saqueou a Petrobras e áreas circunstantes. Mas eu seria parcimonioso, muito parcimonioso, ao comemorar a difusão da realidade paralela.


A mesma pesquisa da Quaest mostra que a soma dos que não acham que Lula é o melhor candidato para combater a corrupção alcança 53%, aí incluídos Jair Bolsonaro, Sergio Moro, Ciro Gomes, João Doria, Datena, Luiza Trajano, Eduardo Leite e outros. Se somarmos a porção dos entrevistados que não souberam ou não quiseram responder, 19%, esse número sobe para 72%. Ainda que, numa pesquisa futura, metade desses últimos acabe entrando na realidade paralela, Lula teria um total favorável de 37% — um número assombroso para qualquer pessoa que tenha mais de dois neurônios, sem dúvida, mas que está longe de ser a maioria absoluta.

É preciso que se diga que a mesma sondagem aponta que a corrupção é o maior problema do Brasil apenas para 10% dos entrevistados. E que a vantagem de Lula é superior nos quesitos que mais causam insônia aos cidadãos: saúde (37%) e economia (44%). Ou seja, quanto pior o país ficar nessas áreas, melhor para o ex-condenado.

Na verdade, os petistas têm de torcer para que corrupção não se torne assunto importante na eleição de 2022, ainda mais se Sergio Moro entrar na disputa. Se isso ocorrer, não haverá um Gilmar Mendes capaz de deter as campanhas que mostrarão impiedosamente a roubalheira perpetrada sob os auspícios de Lula. E um debate direto com ex-juiz da Lava Jato sobre o tema não deverá ser propriamente um passeio para o chefão da organização.

Melhor deixar a corrupção para lá, petistas, sob pena de o Pixuleco voltar com força.

Pensamento do Dia

 

Seyran Caferli (Azerbaijão)

Desespero eleitoral inflaciona custo Bolsonaro

Nunca houve um presidente da República que tenha provocado tantos retrocessos ao Brasil como Jair Bolsonaro nem um governo tão disfuncional quanto o seu. O fato novo a menos de um ano das eleições é que nunca existiu um candidato à reeleição com tantos flancos de exposição e tantos recordes negativos quanto ele. E isso é um fator a agravar exponencialmente o já impagável custo Bolsonaro.

Temos o primeiro presidente a buscar ser reeleito sem ter sequer um partido, que não lidera as intenções de voto, que tem o governo mais mal avaliado desde que o instituto da reeleição foi criado, que ostenta o maior índice de desempregados e que é, de todos os que disputaram novo mandato, aquele cujo governo enfrenta a maior inflação (acima dos 10% em 12 meses) um ano antes do pleito.


Saindo dos índices mensuráveis, quando se entra na seara política, o que se tem é um presidente isolado, inconfiável aos olhos das instituições, cujas decisões passaram a ser manietadas, quando não abertamente tuteladas, pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Congresso.

Um quadro assim é de difícil reversão. Daqui até o fim do ano, os dissabores no caminho de Bolsonaro tendem a se avolumar. Outubro terminará com o presidente indiciado pela CPI da Covid e com seus crimes, de responsabilidade e comuns, cometidos na gestão da pandemia enunciados em voz alta. Provavelmente o aliado Augusto Aras não fará nada com isso, mas os propósitos de registro histórico, denúncia internacional e reparação para os milhões de enlutados da pandemia tratarão de aumentar a queda livre de popularidade do capitão.

Novembro e dezembro serão meses de desespero orçamentário. E é um risco ter alguém como Bolsonaro, sem apreço algum a equilíbrio, do fiscal ao democrático, assim acuado. Lula tende a consolidar sua liderança, as definições de candidatos no campo do centro devem avançar, e ao presidente só restarão os truques populistas para tentar se viabilizar eleitoralmente.

Paulo Guedes ainda resiste aos apelos pela prorrogação pura e simples do auxílio emergencial, o que desobrigaria o governo de tirar uma receita da cartola para cobri-lo, ou aos palpites para que o benefício seja elevado para além dos R$ 300 com que aquiesceu. Mas está nas cordas diante da necessidade de explicar as condições em que manteve ativa uma empresa offshore enquanto esteve no posto, e seus adversários, na oposição e no governo, estão dispostos a explorar isso.

Além disso, mesmo se resolver fazer o milagre do crescimento do Bolsa Família afetando responsabilidade fiscal, o governo ainda tem um caminho tortuoso pela frente, que passa pela aprovação da reforma do Imposto de Renda e de uma Proposta de Emenda à Constituição que dê um verniz de legalidade à pedalada com precatórios. Isso tudo num Congresso em que senadores e deputados estarão cada vez mais preocupados com a própria reeleição e medirão sempre a conveniência de se atrelar a um governo em franca decomposição.

Tudo isso significa que Bolsonaro é carta fora do baralho e o segundo turno sem ele é o cenário mais provável? Não. Com o instituto da reeleição, o peso da máquina e da vantagem de o governante disputar no exercício do mandato é imenso.

Basta lembrar que Dilma Rousseff se reelegeu na bacia das almas, contando com um marketing de destruição dos rivais e adiando o cavalo de pau numa economia que já ruía.

Bolsonaro pode barbarizar no fiscal e ainda recorrer a toda a caixa de ferramentas de crimes virtuais usada em 2018 sem controle da Justiça Eleitoral nem o devido cuidado por parte da imprensa e dos adversários. Sua intenção de tentar inclusive melar o pleito, se for preciso, está dada.

Por tudo isso, a candidatura Bolsonaro vai aprofundar o estrago ao Brasil que sua Presidência acidental e desastrosa já causou. Será mais um ano de crise permanente.

O replantio de boa política

A poucas semanas da abertura da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a ser realizada em Glasgow, cientistas brasileiros divulgaram estudo que mostra como o desmatamento e a elevação da temperatura poderão tornar quase inviável a vida humana na Amazônia.

Segundo o texto divulgado, 12 milhões de brasileiros que vivem na região estarão expostos a ondas de calor extremo até 2100, caso se confirmem as perigosas tendências atuais. Um calor tão forte que seria intolerável para os humanos.

Ao redigirem o estudo, os cientistas levaram em conta a mudança do clima em todo o planeta e o desmatamento da Amazônia, com o risco de transformação de grandes áreas de florestas em savanas. Se o combate à mudança climática depende de uma ação global, alertam, o combate ao desmatamento está nas nossas mãos.


“Podemos controlar o corte de árvores, podemos não desmatar”, disse ao jornal Valor Econômico o climatologista Paulo Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Temos que fazer isso e temos que reflorestar.”

Na opinião do cientista, é necessário promover um entendimento nacional e global sobre a necessidade de se revegetar a Amazônia. “Este cenário não é para 2100”, alerta. “A floresta está em caminho avançado de savanização.”

Percepção global sobre os riscos de desmatamento da Amazônia já existe. E a pressão do resto do planeta sobre o atual governo brasileiro para reverter o quadro vai crescer na conferência de Glasgow. O isolamento do país em relação ao tema, desde 2019, vai aumentar.

Enquanto a atual política ambiental estiver em vigor, resta à sociedade civil e aos movimentos de oposição buscar aquilo que foi sugerido pelo climatologista: um entendimento nacional sobre a necessidade não apenas de conter o desmatamento, mas de replantar a floresta.

A busca de uma nova política ambiental poderia se transformar em um dos principais pilares de uma plataforma mínima de consenso entre os candidatos a ocupar o gabinete onde hoje está Jair Bolsonaro. O outro pilar, igualmente consensual, seria a defesa da democracia.

Parecem bandeiras óbvias. Mas não são. Elas são claras para aquela parcela do eleitorado que tem acesso à informação de boa qualidade sobre a saúde do planeta e a crescente radicalização política, que coloca em risco conquistas democráticas já dadas como parte irreversível de nosso cotidiano.

A radicalização tem funcionado como um motor de produção de lucros para empresas responsáveis pelas redes sociais. Quanto mais forem motivadas pelo ódio, informam pesquisadores e ex-empregados dessas empresas, mais as pessoas permanecem ligadas nas redes e nos anúncios publicados por seus patrocinadores.

A eleição de Bolsonaro demonstrou que não são poucos os eleitores seduzidos por tentações autoritárias e por promessas de desenvolvimento que desprezam os limites do planeta. Não seria sábio menosprezar o peso político desses eleitores.

Até hoje o debate tem horizonte curto. Discute-se quem vai às ruas junto de quem vai para protestar contra o governo. Ou para defender o improvável impeachment de Bolsonaro. As vaias de militantes de esquerda na manifestação da Avenida Paulista ao pré-candidato do PDT, Ciro Gomes, mostram que ainda há um longo caminho para a convivência civilizada entre as oposições.

A agenda política ainda parece tomada, de um lado, pela constatação de que o segundo turno provavelmente contará com a presença de Bolsonaro e do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. E, de outro, pelas negociações em torno da construção de uma possível via alternativa para 2022.

Nenhuma palavra, até o momento, sobre os dois temas que dominam o noticiário internacional a respeito do Brasil nos últimos meses: o desmatamento da Amazônia e a erosão da democracia por iniciativa do próprio presidente da República.

Ninguém vai pedir a pré-candidatos como Lula e o governador de São Paulo, João Dória, que estabeleçam uma pauta econômica comum. As diferenças entre eles não permitiriam que um debate entre suas equipes durasse mais do que 15 minutos.

A persistirem as atuais tendências eleitorais, porém, Lula, Doria ou Ciro Gomes têm chances de enfrentar Bolsonaro em um segundo turno das eleições. Ou seja, enfrentar um presidente que é sinônimo de ameaças tanto ao meio ambiente quanto à democracia.

A busca de consensos, embora difícil, pode produzir bons resultados. Representantes de empresas e instituições privadas já assinaram manifestos em defesa das florestas e do regime democrático. Ex-ministros de diferentes governos também já se posicionaram em defesa da Amazônia e das urnas eletrônicas.

Pois os candidatos de oposição cujos nomes poderão estar nas mesmas urnas têm diante de si a possibilidade de tecer um consenso mínimo sobre temas essenciais ao futuro de um país que se quer civilizado, livre e ambientalmente responsável. A possibilidade de juntos dizerem não ao desmatamento e sim ao regime democrático.

Se não basta deter a derrubada de árvores, como alertou o climatologista do Inpe, também não será suficiente deter a escalada autoritária. Na Amazônia, como em todo o Brasil, é preciso promover o replantio. Da floresta, claro. Mas também da boa política.

Taxas, números e ainda os velhos mitos

Na semana em que os Estados Unidos batem 700 mil mortes com 43,5 milhões de casos e o Brasil, 600 mil mortes com quase 22 milhões de casos de Covid-19, nos perguntamos como chegamos até aqui. De pouco adianta considerarmos as diferenças de tamanho de população, e portanto a desproporção nos números, ou tampouco quem teve o braço poderoso do SUS como arma salvífica, ou quem morreu em casa porquanto não teve como pagar o serviço privado, como vimos em Nova York. Essas parecem frias questões estatísticas, e ainda que muito graves, se esmaecem frente aos fatos atuais que assistimos, sem surpresa, virem à tona no Brasil, do que chamaríamos más práticas médicas, passíveis de esclarecimento, apuração e punição.

Se a qualidade de nossa presença no mundo está determinada por nosso equilíbrio emocional, psicológico e espiritual, essa vigilância do viver “aqui e agora”, em momento tão inaudito e demarcador de nossas vidas, ela exige igualmente a perda da inocência e a crítica permanente. Em meio ao desmonte desse esquema hospitalar e de uso compulsório de medicamentos que há mais de um ano sabíamos que não funcionavam para prevenção ou tratamento da Covid-19, revimos o documento que um grupo de pesquisadores e médicos escreveram no ano passado, incluindo os resultados finais de estudos bem conduzidos e revisados por pares, sobre a cloroquina e ivermectina. Este documento hoje se incorpora ao dossiê da CPI do Senado, por solicitação da mesma, para subsídio científico.

Nesse clima, lendo a recém publicada biografia do professor Didier Raoult (“Une folie française”, Ed. Gallimard) procuramos entender como o criador obstinado do engodo da cloroquina, em meio à maior crise sanitária dos últimos cem anos no planeta, colocou lenha explosiva numa fogueira já bem ardente. Entendemos perfeitamente como personalidades de muita inteligência e capacidade de articulação e argumentação podem seduzir até dirigentes com um eficiente manipular das vaidades humanas. Nascido em Dakar, no Senegal, filho de médico, exemplo de fruto dos estertores do império colonial francês, sua trajetória recente revela uma vez mais como paixões e crenças tomam o lugar da razão em tempos críticos. Com fotos suas com várias personalidades em seu gabinete, de presidentes da república francesa, e escritores famosos, como Michel Onfray, que esteve a seu lado em diversas aparições públicas, não era tão conhecido fora de suas lides o dr. Raoult, com pesquisas reconhecidas na área das rickettsioses, até que recebe uma dotação milionária do presidente Sarkozy, para seu instituto, e inicia uma profusão de publicações científicas. Bernard-Henri Lévy, o controverso filósofo contemporâneo, que também já adoecera de malária em suas viagens à África, chega a incensá-lo como “um personagem fora do comum, maior que a própria vida”.

Fundador de cinco start-ups, chamado de “druida, gaulês, sábio ou guru”, genial para uns e charlatão para outros, nega qualquer veleidade financeira, mas de fato foi após aportes de grants vultosos, que passou a ter um protagonismo mais condizente com sua personalidade e de modo corretamente premonitório declarou que vírus emergentes seriam a grande ameaça deste século, comparável àquela das grandes pestes da Idade Média e que a transmissão por aerossol seria inevitável. Bingo, mas francamente, muitos de nós sabíamos isso, e o próprio Bill Gates o dissera em entrevista dada em 2015. Com alarde anunciou em fim de fevereiro de 2020, para um auditório lotado e mesmerizado por sua verve, como discípulos de Platão na Academia de Atenas, que “os pragmáticos chineses haviam descoberto que a cloroquina é ativa in vitro” e que essa seria “a mais fácil infecção respiratória a ser tratada”. A partir daí, quando começavam as primeiras mortes pela doença na França, o professor Raoult entra na vida cotidiana dos franceses quase que por efração, um arrombamento.

Resta sempre o alerta, que norteia nosso olhar cauteloso e crítico de médicos, frente a quem insista em reiterar que “as pessoas interpretam o que elas veem e fazem suas ilusões”.

A República dos Idiótes

Na semana passada, chegou-me às vistas um tuíte da deputada Carla Zambelli, do PSL, com o seguinte comentário:

“Sou trans e quero ser respeitada. Meu corpo, minhas regras.”

Incrédulo, talvez com a pressão um pouco baixa, tirei meus óculos, sacudi a cabeça, e, ao torná-los ao rosto, fiz como recomendava Guimarães Rosa a Miguilim – mirei bem a mensagem antes de novamente a ler.

Foi quando pude entender que a deputada se reportava a um vídeo de internet com pessoas que se autodeclaravam “transvacinadas” e ostentavam em suas camisetas o seguinte slogan: “me sinto vacinado em um corpo não vacinado”.

O grupo, que passaria despercebido, não fosse o impulso de autoridades da República como Zambelli, afirmava ser discriminado por sentir seus corpos resistentes e protegidos contra a COVID-19, mesmo não tendo recebido a vacina.

O movimento parece que tem até uma pauta definida de reivindicações, que, em suma, se resume no desejo de sua escolha antivacinal ser tratada com a mesma liberdade e respeito social destinados a indivíduos transgêneros.


O leitor deve estar pensando: é piada. O governador Doria mexeu tanto nos feriados em São Paulo que deve ser primeiro de abril no calendário do colunista, e ele está nos pregando uma peça.

Antes fosse, caros leitores. Seria uma piada ruim, grotesca, mas ainda assim seria uma piada. No entanto, sinto pena de dizer que essa gente, de fato, existe, e tem ganhado espaço em razão da simpatia, mesmo que jocosa, pouco importa, de celebridades bolsonaristas.

Nesses termos, o assunto, claro, atraiu a contrariedade de grupos que defendem os direitos de indivíduos transgêneros, e que viram na bandeira dos “transvacinados” uma tentativa de ridicularizar a sua própria.

Tem razão o inconformismo dos transgêneros. Mas, quem me conhece, sabe o quanto defendo a liberdade de expressão e de manifestação de todos, e, portanto, vou arriscar um conselho aos transvacinados.

Troquem de nome. Passem a se chamar “idiótes”. Assim mesmo, com acento agudo e terminação em “es”.

Segundo a lição do filólogo alemão Werner Jaeguer, o termo “idiótes” é grego, tem origem no século IV a.C, e foi cunhado para designar indivíduos que não se enquadravam na comunidade, vivendo enfiados em seu próprio mundinho, em torno apenas de seus próprios apetites.

Acredito que a definição se encaixe como uma luva ao movimento.

E quem sabe, com o tempo, e o apoio de tanta gente importante, o grupo não cruze rios e montanhas, desbrave fronteiras, e de posse de seu nome grego possa cumprir pelo avesso o sonho de Platão, fundando a República dos Idiótes.

Enquanto isso, o uso do termo imporá um certo ar de intelectualidade, um quê de “chic”. Com a vantagem de não ofender a terceiros, e, de quebra, permitir ao grupelho e seus simpatizantes lacração certa na internet, dissimulando uma fingida adaptação à linguagem neutra.

Fica a dica.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Ministro da Economia do Cazaquistão

Não terá sido de propósito. Nem Paulo Guedes, um visionário, enxergaria tão longe. Sua offshore foi constituída em 2014 e abastecida entre aquele ano e o seguinte. Investidor privado, decerto pretendia proteger parte de seus dinheiros da economia brasileira sob a gestão de Dilma Rousseff. Deu certo. O tempo passaria. E a empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal, continuaria dando certo: hoje servindo a que o ora ministro — não terá sido de propósito — proteja alguns de seus milhões de si próprio. Homem de sorte.

Sorte à parte, esse é o aspecto imoral da história: que o ministro da Economia — o fiador da bagaça, um estelionato eleitoral — tenha uma porção de seu patrimônio a salvo dos efeitos do governo fiado, o de Jair Bolsonaro. O sujeito serve a um populista-autocrático que é o centro gerador constante de instabilidades que minimiza e chama de “barulho”, mas tem uma fortuna isenta dos produtos da imprevisibilidade do chefe (e, claro, da mordida do Leão).

Não terá sido de propósito. Os dinheiros estavam lá; e lá ficaram. Ficaram, como por inércia, até que tivéssemos — não terá sido de propósito — um ministro da Economia com grana em offshore. (Tudo declarado.)

Essa imoralidade não é pouca coisa. Guedes vendeu a união entre conservadores e liberais como o casamento, afinal, da ordem com o progresso. Ele, liberal reformista, domaria a natureza beligerante de Bolsonaro, líder corporativista que erguera empresa familiar dentro do Estado. Com dinheiros tantos fora do Brasil, mesmo ante a inauguração da nova era, não estarão errados os que identificarem na inércia do ministro a admissão de que não seria tão fácil quanto apregoara.


Não terá sido de propósito. Os dinheiros já estavam lá; e lá ficaram. Ficaram, como por inércia, para que o ministro — investidor instintivo — não precisasse confiar 100% nas próprias promessas. Para que não precisasse confiar 100% em si. (Tudo declarado.) Não terá sido de propósito.

(Houve, no entanto, quem, emparedado pela peste, confiasse 100% no tratamento precoce, tornado — sob aval do Ministério da Economia — política de Estado. Nada a ver com a liberdade do médico para receitar. Não. Política de Estado, conforme visto no Amazonas. Política de Estado, chancelada pelos experimentos da Prevent Senior. Política de Estado, exposta pela blitz de Bolsonaro e seus empresários — com Guedes na marcha — contra e sobre o Supremo. Um estímulo, o remedinho, para que as pessoas se sentissem seguras, protegidas e fossem às ruas. Buscava-se a tal imunidade de rebanho, sem que a economia desacelerasse. Colheu-se a subestimação do vírus, a negligência na compra de vacinas e a interrupção do auxílio emergencial no auge da pandemia entre nós. Tudo expresso no Orçamento, os gatilhos para que a pobreza se acirrasse. Não haveria segunda onda. A economia crescia em V. São quase 600 mil os mortos. O atraso na vacinação condicionando a lenta retomada econômica do país.)

Tudo declarado. Não terá sido de propósito.

Todo mundo sabe — e repete — que não é ilegal ter dinheiro fora do Brasil, mesmo em empresas offshore, desde que obtido de modo lícito e devidamente comunicado aos órgãos de controle e fiscalização. Verdadeiro. No caso de um ministro de Estado, porém, há camadas adicionais de exigências — aquelas que derivam da ética pública. Pergunta objetiva: ministro da Economia com grana em offshore é aceitável? Mesmo que sem realizar trânsitos cambiais, é aceitável?

Ainda que declarada e sem qualquer movimentação, fatos são que a empresa offshore do ministro da Economia opera sob condições de sigilo inacessíveis à imensa maioria da população e lhe resguarda milhões dos puxadinhos tributários em que mexe para piorar a situação e dos conflitos institucionais forjados artificialmente pelo presidente a que serve como fachada liberal. É legal. E eticamente fedido.

Não terá sido de propósito. Os dinheiros já estavam lá; e lá ficaram. Ficaram, como por inércia. E declarados. O homem teve sorte. Deu certo. Paulo Guedes, pisando as virgens ilhas distraidamente, poupou os seus guedes do custo Bolsonaro-Guedes. O investidor Guedes se antecipando — sem saber — ao ministro Guedes. Mirou em Dilma; colheu defesa também contra o mito e seu 7 de Setembro permanente.

E assim ficaremos — com Guedes protegido contra o Mantega em que se converteria, somente mais uma imoralidade — se comprovado for que o ministro não mexeu na grana desde que tornado o responsável pela política econômica do Brasil. Não está claro. Não ainda. E não será com silêncio — fingindo que nada há — que o ministro esclarecerá que não violou o Código de Conduta da Administração Federal. E há também a Lei de Conflito de Interesses.

Falta transparência. A margem para que um ministro — tanto mais o da Economia — mantenha, sob seu controle direto, uma offshore é estreitíssima. Terá alguma decisão do ministro beneficiado quem mantém investimentos em offshores sediadas em paraísos fiscais? Por que não moveu a grana, por exemplo, para um blind trust? Ou fez isso, colocando os recursos aos cuidados de terceiros sobre os quais não tem influência? Fez? Guedes precisa falar.

São três — segundo os documentos divulgados nos Pandora Papers — os ministros da Economia com dinheiros em offshores: os de Cazaquistão, Paquistão e Gana. Não terá sido de propósito.

Um projeto para o País

Com recorde de desaprovação popular e sem ter o que apresentar como realização de seu governo, Jair Bolsonaro repete, com frequência crescente, o seu mantra: não fosse ele, o PT teria voltado ao poder. Na lógica bolsonarista, o governo não precisa apresentar nenhum resultado. O dever de Bolsonaro na Presidência da República se resumiria apenas e tão somente a manter Lula longe do Palácio do Planalto.

Essa tática, que parece tão resolutamente antipetista, é uma farsa, já que atende perfeitamente aos interesses do PT. A quase completa ausência de resultados do governo Bolsonaro é o cenário dos sonhos de Lula. Não há como negar. O desgoverno de Bolsonaro é caminho muito favorável para Lula voltar ao poder.


Mas o mantra bolsonarista – não fosse Bolsonaro, o PT teria voltado ao poder – tem ainda outra evidente contradição. Nenhum candidato é eleito apenas para ocupar um espaço vazio. Jair Bolsonaro não foi eleito para impedir que Lula, diretamente ou por meio de algum de seus postes, voltasse ao poder. Bolsonaro foi eleito – eis a verdade que o bolsonarismo tenta esconder – para governar.

É acintoso o desconforto de Bolsonaro e de seus apoiadores com essa realidade tão básica: um presidente da República é eleito para governar. Quando confrontados com a ausência de resultados do governo Bolsonaro, seus apoiadores logo revidam com a subespécie do mantra bolsonarista: apesar de tudo, em 2022, no segundo turno com Lula, voto é em Bolsonaro.

Deve-se ressaltar que a manobra também é comum entre os lulistas. Quando confrontados com o legado de corrupção, incompetência e negacionismo do PT, os lulistas logo revidam: mas, num segundo turno entre Lula e Bolsonaro, em quem você vota? E ficam indignados se o interlocutor mostra que o exercício dos direitos políticos numa democracia é necessariamente mais amplo do que essa asfixiante disjuntiva.

A transformação da política em mero embate de negativos é profundamente perniciosa ao País. A rigor, não se pode nem mesmo dizer que se trata de luta entre forças políticas antagônicas. É mero choque de rejeições: o anti-Lula versus o anti-Bolsonaro.

Nesse cenário – e ainda tendo um longo tempo até as eleições de 2022 –, é muito oportuna a observação feita por Alfredo Setubal, presidente da Itaúsa, ao tratar da relação entre o empresariado e as administrações petistas, em entrevista ao jornal O Globo. “Ele (Lula) gastou muito para eleger a Dilma, o déficit fiscal foi enorme. As consequências foram muito ruins e culminaram na recessão a partir de 2014 e no impeachment da Dilma. Mas, mais que anti-Lula, os empresários querem alguma coisa pró-Brasil. Eu não acho que é um sentimento anti-Lula, eu acho que é um sentimento de mudança. Esse modelo não está dando certo. Por isso se fala da terceira via”, disse Alfredo Setubal.

Lula e Bolsonaro almejam o mero choque de rejeições. Mas tal embate é rigorosamente insuficiente para o País superar a crise econômica, política, social e moral na qual foi mergulhado. A experiência de 2018 é bastante pedagógica. Elegeu-se um presidente da República cuja única proposta consistiu – e ainda consiste – em ser o anti-Lula, e ele vai entregar um Brasil em piores condições do que recebeu.

O bolsonarismo é terreno fértil para o lulopetismo, e vice-versa, porque os dois não vivem de governar, mas de vencer eleições a qualquer custo. É urgente, portanto, que as lideranças políticas, em sintonia com a sociedade civil organizada, apresentem propostas consistentes, aptas a enfrentar com responsabilidade os problemas do País.

Uma campanha nessas bases, protagonizada por candidatos genuinamente interessados em revigorar a democracia e unir os brasileiros em torno de ideias sólidas para tirar o Brasil do atraso, terá o condão de deixar evidente que Lula e Bolsonaro pouco têm a oferecer ao País além de cizânia e impostura. Nunca é demais lembrar que, nas duas disputas pela Presidência da República com Fernando Henrique Cardoso, Lula perdeu no primeiro turno.

Mais do que ser anti-Lula ou anti-Bolsonaro, o que faz falta é ter um projeto para o País. Essa é a melhor resposta contra as forças do atraso.

Pensamento do Dia

 


Missão: redução da desigualdade

Recentemente, a propósito da tentativa de aprovar a volta dos jogos de azar no país, petistas denunciaram que o sonho de Bolsonaro é transformar o Brasil numa Cuba da época do ditador Fulgencio Batista, um cassino onde os americanos iam se divertir. Os bolsonaristas há muito atacam o PT afirmando que o ex-presidente Lula pretende transformar o Brasil numa ditadura como a cubana, regime apoiado pelo petismo.

O paralelo cruzado reflete bem a polarização que já está marcando a campanha presidencial antecipada do ano que vem e escancara o caminho que existe para uma candidatura de terceira via que tenha um projeto para o país que não seja nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O grande problema do mundo atualmente é a desigualdade de renda, que sempre esteve presente, mas ganhou dimensão planetária nos últimos anos, especialmente em países periféricos como o Brasil.

Não apenas no Brasil, a relação entre democracia e capitalismo já não é mais tão absoluta quanto foi nos últimos anos do século passado. Buscam-se modelos para aperfeiçoar a democracia representativa, que tem como um dos pilares a ideia de “uma pessoa, um voto”, criticada na China, pois não levaria às escolhas mais corretas, muito sujeitas a pressões financeiras.


Um modelo meritocrático é o que se busca nas empresas privadas ocidentais, e o que temos de fazer é buscar a legitimação da democracia representativa por reformas estruturais na educação e na distribuição de renda e das regras eleitorais, para que o cidadão tenha capacidade de escolher melhor candidatos melhores. O economista francês Thomas Piketty, um dos mais atuantes debatedores da desigualdade como fator de enfraquecimento das economias ocidentais, em seu mais recente livro em português, editado pela Intrínseca, faz uma análise sobre “uma breve história da desigualdade”. Em seguida será lançado o novo livro “Vivement le socialisme!”, ainda sem título em português.

Em entrevista à revista Le Point, Piketty diz que os Estados Unidos “inventaram um imposto progressivo bastante elevado, como em nenhum outro lugar, mas logo em seguida, com o mesmo vigor, foram no sentido oposto”. Referia-se à política do presidente Ronald Reagan, que, segundo ele, embora não fosse absurda, não deu certo. “Trinta anos mais tarde, constatamos que os americanos não alcançaram o aumento de renda esperado e, ao contrário, a taxa de crescimento da renda por habitante caiu pela metade entre 1990 e 2020.”

Piketty cita a questão da educação, fundamental na redução da desigualdade, como indicativo negativo do desenvolvimento americano: “O país ainda tem grandes universidades, ricas e no topo dos rankings, mas 70% dos americanos mais pobres não têm acesso a uma boa educação”. Piketty diz que o Imposto de Renda progressivo “permitiu reduzir muito a desigualdade sem impedir o crescimento, pois a receita gerada — pelos encargos — serviu para investir na educação, na saúde e nas infraestruturas”. Não é à toa que bilionários e milionários americanos fazem campanha pedindo para pagar mais impostos.

Entre nós, a discussão sobre a desigualdade de renda ganha contornos ideológicos que transformam o capitalismo na maldição da humanidade, e o comunismo, abandonado por Cuba e pela própria China, na salvação. Recentemente, o ex-presidente Lula festejou o centenário do Partido Comunista Chinês ressaltando que a China tem um partido político forte e um governo forte, por isso o governo tem controle e poder de comando.

Partido único e governo forte são a receita perfeita para a imposição de ideias e decisões do Partido Comunista da China, mas não nas democracias ocidentais como a nossa. O próprio Piketty, em entrevistas, já reconheceu “a tremenda redução da desigualdade de renda em termos globais, advinda da elevação de padrão de vida nas partes pobres do planeta nos últimos 30 anos, um aspecto muito positivo da globalização”. Ao analisar o modelo de desenvolvimento chinês, deveríamos fazer o mesmo que eles, em direção contrária: copiar as coisas boas do socialismo e adaptá-las ao capitalismo.

Os ETs estão chegando

Pode parecer exótico acreditar em extraterrestres. Estranho mesmo, no entanto, é falar de humanos que perderam a consciência da culpa enquanto destroem o meio ambiente; acham cafona uma abordagem de misericórdia e compaixão quando exploram os semelhantes à fome; ou expulsam indígenas das terras em favor do agronegócio. Sou mais os ETs.

Por esses e outros indícios de que perdemos nossa humanidade, tem tudo a ver a realização do 5º Congresso Mundial de Ufologia, previsto para ocorrer em Barcelona (Espanha), entre 8 e 10 deste mês. O encontro reunirá as principais cabeças pensantes do tema, no mundo, e um dos questionamentos será: “E se houver uma intervenção alienígena agora?”.

Haverá quem levante sobrancelhas e torça o nariz, diante do tema, afinal isso não é papo das elites cultas. Outros podem considerar que os curiosos pelo tema são desprovidos do saber clássico. Enquanto isso, no mundo cósmico e na Via Láctea, “mistérios sempre há de pintar por aí”.

Um ufólogo, que não anotei o nome, disse parecer inegável que, no atual estágio de vida, estamos diante de uma oportunidade e de um ultimato. Teríamos esgotado todos os meios educativos do Planeta e, por isso ele entende que nos encontramos a ponto de uma invasão de ETs. Estaríamos fracassando na nossa humanidade. O ufólogo acha que precisamos mudar o rumo das coisas ou haverá mesmo uma intervenção alienígena.

Claro, quem quiser pode achar maluquice. Mas, soa pretensioso dizer que somos únicos num Universo infinito. “Há muitos planetas habitáveis”, diz a letra da música. A conclusão do ufólogo pode ser radical e polêmica, mas a origem do pensamento é correta. Nós avançamos em todos os estágios no jogo da perversidade. E se antes, parecia termos consciência de nossas culpas, se antes refletíamos, a sensação é de que está tudo banalizado.

Em muitos casos, e dependendo do País, como é o caso do Brasil, parte da população não tem mais consciência histórica, ambiental, cultural, ética. Estar no mundo já não traz a consciência de preservação para muita gente. Não sei em que instante parte da humanidade perdeu a noção do bem. E o peso da culpa na prática do mal.

Por coincidência, tomei conhecimento do congresso de ufologia quando lia o livro “Covid-19, a Mãe Terra contra-ataca a Humanidade”, do teólogo Leonardo Boff. Ele diz que é preciso considerar o coronavírus dentro de um contexto em que a Terra foi agredida e que ela começou a reagir.

“O covid-19 possui duas origens: o ataque humano e o contra-ataque da Mãe Terra. Se nossa relação (daqui por diante) não for cuidadosa e respeitosa, ela poderá nos enviar outros vírus ainda mais letais. E, eventualmente, pode não nos querer mais. Ela continuará, mas sem nós”.

Leonardo Boff e os ufólogos falam de coisas distintas. Um, analisa a pandemia. Os outros, as nossas inconsequências. Mas, ambos, partem do mesmo princípio: chegamos até aqui cometendo abusos contra a nave mãe. E combinam na avaliação: os homens, esses seres “superiores”, se sentem no direito de fazer o que bem entender.

Lembrei-me de uma frase do escritor russo Dostoiévski, no mega romance “Os Irmãos Karamazov”. Diz: “Se Deus não existe, tudo é permitido?”. A consciência que predomina em muitas pessoas é a de que podemos fazer qualquer coisa, ainda que isso prejudique alguém. Ou de que não interessa fazer o bem, se isso não lhes traz vantagem.

Chegamos ao ponto de que os objetivos do capitalismo selvagem é que determinam nossos desejos, nossas ações. Vamos e venhamos, os ufólogos estão certos: que venham os ETs.
Cícero Belmar

O mundo chegou ao tempo da renda básica

A pandemia recolocou a desigualdade no topo da agenda global. A ideia da Renda Básica se fortaleceu. Vários experimentos estão em curso. Na Finlândia, no Quênia, no Canadá, na Holanda e outros países. Desde 2008, o interesse já vinha aumentando. Rutger Bregman é cirúrgico: “mais pessoas estão sedentas por um antídoto verdadeiro e radical tanto para a xenofobia quanto para a desigualdade”.

Aqui no Brasil, é agora incontornável a adoção de alguma forma de Renda Básica. Criada por lei em 2005 como renda básica universal, agora o STF determinou que o governo federal comece a pagar. Virou urgência. A fome tem pressa. A convulsão social está na espreita. Não é figura de retórica. O governo tem que encarar o problema e buscar formação de consenso com o apoio da sociedade civil e do Congresso, onde uma Frente Parlamentar está mobilizada.


Em 2019 eram 24 milhões na pobreza extrema. Agora são 35 milhões, segundo a FGV social. Além disto, 32 milhões de brasileiros deixaram a classe “C” e retrocederam para as “D” e “E”. Estima-se que a insegurança alimentar atinge 117 milhões de brasileiros. Cresceram a miséria, a pobreza e a desigualdade. Vem daí a pergunta: quem vai pagar a conta?

A decisão força a sociedade, o Congresso e o governo a olhar de frente o conflito distributivo na repartição do bolo do Orçamento da União. Significa reestruturar os gastos públicos e reorganizar os programas de assistência social, para começar. Marcos Lisboa mostrou que os aumentos de carga tributária – que cresceu 6 pontos mais que o PIB entre 1998 e 2007 -, se perdem nos interesses que capturam o Estado: subsídios para o setor privado e reajustes para as corporações. É a “nossa disfuncional economia política”, diz ele.

Além de reestruturar gastos, poderá ser necessário outro aumento de carga tributária, combinado com emissão de dívida e atuação do Banco Central na compra de títulos. Persio Arida afirmou há poucos dias que não está escrito em nenhuma teoria que existe um patamar ideal para a relação dívida/PIB. É preciso conciliar responsabilidade social com responsabilidade fiscal. Mas há que se reconhecer que o debate está enviesado por mitos. Investimentos em áreas que alavancam o crescimento não causam inflação, desde que a economia tenha espaço para crescer.

Ao contrário do discurso neoliberal, nas economias avançadas os países se endividaram regularmente. A dívida pública disparou. Nos Estados Unidos, chegou a 120% do PIB no ano passado. Ruchir Sharma afirma: “o encolhimento do Estado é um mito…as idéias de livre-mercado não enxugaram o Estado”. Por exemplo, nos Estados Unidos e no Reino Unido, diz ele. Como o Brasil, também estes países continuam fugindo para a frente, com endividamento.

Todos na esteira da financeirização macroeconômica global. No meio do caminho, se o mundo não encarar a desigualdade, o capitalismo vai dar um tiro no pé. Imaginemos um capitalismo sem mercado!

Diferença já não é entre esquerda ou direita, mas entre futuro e passado

Stephanie Grisham, que foi porta-voz da Casa Branca entre julho de 2019 e abril de 2020, está lançando no mercado norte-americano um livro de pequenas intrigas políticas, “I’ll take your questions now”, que traz, entre outras, uma curiosa revelação: a de que Donald Trump integrou ao seu gabinete uma espécie de Shazam e DJ particular, apelidado de “homem da música”. O trabalho deste personagem consistiria em apaziguar as constantes birras e zangas do presidente.


O cargo, inédito em regimes republicanos modernos, foi muito popular nas monarquias europeias, durante séculos. Era, afinal, parte do ofício dos bardos, menestréis e bobos da corte. Suponho que terá caído em desuso nas democracias modernas, não por ineficácia dos bardos, mas porque em democracia ninguém está disposto a aturar as birras dos presidentes. Regra geral, quanto mais avançada for uma democracia, menos tolerante se mostra para com as pirraças de presidentes e políticos em geral. A ligeireza com que a democracia norte-americana tolerou os amuos, as grosserias e os crimes de Trump durante quatro loucos e longos anos diz muito sobre sua frágil saúde, e, em particular, sobre a infantilização e a degradação intelectual, ética e moral do Partido Republicano.

Stephanie não revela no livro o nome do suposto DJ. Contudo, segundo alguns jornais norte-americanos, ele não seria outro senão Max Miller, ex-namorado da própria Stephanie. A relação terminou após Miller agredir a namorada. A designação de “homem da música” teria sido dada pelo próprio Trump, impressionado com a capacidade de Miller em reconhecer qualquer melodia aos primeiros acordes. Stephanie revela ainda que a música preferida de Trump seria “Memory”, que Andrew Lloyd Webber escreveu para o musical “Cats”.

O que mais surpreende em toda esta bizarra historieta não são as birras de Trump, tampouco a presença no seu gabinete de um moderno menestrel, mas o bom gosto musical de ambos. A canção parece mais apropriada para apaziguar não tanto Donald Trump, mas os americanos de bom senso, democratas e republicanos, que sempre o combateram: “Quando o amanhecer chegar, esta noite será só uma lembrança / Um dia novo irá começar”.

O novo dia já começou. Contudo, ainda é cedo para cantar vitória sobre a irracionalidade, a imaturidade e o populismo. Por um lado, embora Donald Trump tenha sido derrotado, o seu pensamento (se podemos chamar-lhe assim) continua a dominar as estruturas do Partido Republicano. Por outro lado, também o Partido Democrata enfrenta, no seu próprio seio, correntes obscurantistas.

Nos dias que correm, as diferenças já não são tanto entre quem está à esquerda ou à direita, mas entre quem está à frente, no futuro, e quem luta pelo direito de permanecer lá atrás, no passado — pondo em causa o futuro de todos. Quem defende políticas ambientais, por exemplo, está à frente. Quem não acredita que o aquecimento global é consequência direta da incúria humana está atrás. Também está atrás quem insiste em construir muros, em vez de pontes, dividindo a humanidade em todo o tipo de tribos. E isso uma certa esquerda faz tão bem, ou até melhor, do que a pior direita.