quarta-feira, 5 de maio de 2021

Pesquisa entre cidades bolsonaristas e não bolsonaristas confirma: negacionismo mata

Já que estamos falando de CPI da Covid, vale a pena entrar nas conclusões da mais nova e profunda pesquisa sobre os efeitos do negacionismo no número de casos e de mortes no Brasil: nos municípios onde o presidente Jair Bolsonaro teve mais de 50% dos votos no segundo turno de 2018, o risco de infecção foi 299% e o de mortes, 415% maior do que nos municípios onde ele perdeu a eleição.

Quando o foco fecha nas cidades mais ferrenhamente bolsonaristas, em que ele obteve mais de 70% no segundo turno, o resultado é ainda mais alarmante: quem vive num desses municípios chegou a ter 567% a mais de chance de se infectar e 647% a mais de risco de morrer do que numa cidade onde ele teve menos de 30% dos votos. Isso equivale a sete vezes mais mortes nas cidades onde Bolsonaro ganhou com ampla margem.

“O estudo joga luzes e mostra, metodologicamente, os efeitos nefastos do negacionismo dos líderes, particularmente sobre seus próprios apoiadores e seguidores”, registraram os autores, professores Sandro Cabral (Insper), Nobuiuki Ito (Ibmec) e Leandro Pongeluppe (Universidade de Toronto, Canadá). (Link).

Eles planejaram e executaram um trabalho ambicioso, que condensou os dados de mortes e casos de, nada mais nada menos, todos os 5.570 municípios brasileiros, durante as primeiras 52 semanas da pandemia, equivalentes a um ano. Todo esse banco gigantesco de dois milhões de dados foi cruzado com as informações do TSE sobre os resultados de 2018 em cada cidade.


É claro que outros fatores influenciam no maior ou menor risco de cidadãos e cidadãs por distribuição geográfica, renda, condições sanitárias, mas o estudo nos leva a uma conclusão lógica: onde as pessoas seguiram as orientações erradas e anticientíficas de Bolsonaro, todos ficaram mais expostos ao coronavírus.

Se o presidente combate ostensivamente o isolamento social e as máscaras – únicas “vacinas” possíveis antes das vacinas reais – as pessoas, particularmente as que votaram nele, passam a se aglomerar, a sair sem máscara, a se arriscar. Logo, a se contaminar e a contaminar os demais, inclusive quem não votou em Bolsonaro. E o risco de morte é maior para todos.

Um dado reforça a tese e é de fácil identificação visual nos gráficos da pesquisa: foi na sétima semana da pandemia, quando Bolsonaro fez o último (último!) pronunciamento oficial sobre a covid, no rádio e na TV, que o risco de infecção e morte aumentou claramente nos municípios com maioria bolsonarista em relação aos não bolsonaristas.

Dez semanas depois (na 17.ª), esse descolamento entre os registros nos dois blocos de cidades passa a ter fortíssima significância estatística. Com um detalhe: a partir da 38.ª semana, o distanciamento dispara. A dedução parece também lógica: ocorreu exatamente a partir das eleições municipais, quando os candidatos alinhados ao Planalto replicaram nos municípios bolsonaristas o discurso tóxico do “mito” no combate à pandemia.

A CPI, que começa quente hoje, com o depoimento do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, tem uma profusão de dados e vários caminhos a percorrer no negacionismo de Bolsonaro e de seu governo, incluindo uma guerra insana contra as vacinas, que levou o chefe da Casa Civil a se vacinar escondido. A pesquisa mostra até onde esse negacionismo levou o País.

Como destacaram os professores na apresentação do trabalho, “o estilo negacionista pode ser desastroso para toda a Nação e para a comunidade internacional”. Sim, o mundo não tem mais fronteiras, muito menos as regiões, Estados e municípios brasileiros. É impossível isolar os que se guiam pela ciência e a medicina dos que seguem cegamente os exemplos e as orientações perversas do presidente. Todos saem perdendo. E o resultado é perturbador.

Baratas em pânico

Certa vez escrevi que a vida de uma barata não valia nada no Brasil. Em pânico, sem ter para onde fugir, elas estavam morrendo em massa por uma campanha de dedetização então em curso por algum governo. De Jair Bolsonaro em diante, a frase precisa ser outra: o que não vale nada é a vida do brasileiro.

Diante de uma pandemia que acabara de surgir e já assombrava o mundo, Bolsonaro classificou-a como uma "gripezinha", que pouparia quem tivesse "histórico de atleta" e só mataria os velhos, o que, segundo ele, não era nada demais. Nos meses seguintes, à medida que a peste se espalhava e o Brasil enterrava pais e avós, Bolsonaro continuou a fomentá-la, exibindo-se sem máscara, promovendo aglomerações e debochando dos mortos e de suas famílias.

Em seguida, saiu à praça como camelô da cloroquina, droga tão eficaz no tratamento precoce da doença quanto no da ejaculação precoce. Obrigou o Exército a fabricá-la e médicos e hospitais a prescrevê-la, o que resultou em ainda mais mortes, agora também de nossos filhos e netos. Não satisfeito, Bolsonaro desdenhou das vacinas, sabotou sua importação e suspendeu compras. Muitos que estariam hoje se beneficiando delas já foram para o cemitério.

Bolsonaro pôde fazer o que quis porque, livre dos profissionais que tentavam impor as medidas adequadas, escalou como ministro cenográfico um palhaço de farda, Eduardo Pazuello, pronto a trocar a chefia da faxina de um quartel pela de executor de uma política de extermínio.

Nunca uma CPI teve tantos e tão bem documentados crimes a investigar. Afinal, tudo o que Bolsonaro, Pazuello e seus asseclas disseram e fizeram foi gravado —até por eles mesmos, certos da impunidade. Trataram os brasileiros como se fôssemos baratas, mas, agora, num surto de covardia que só não causa mais repugnância porque esperado, quem busca buracos para se esconder, como baratas em pânico, são eles.

Os brasileiros que a escola não alcança

"Nunca vi a escola como um negócio que futuramente me daria retorno. Eu ia para a escola quando mais novo, pois era obrigado." Essa é a visão que um ex-estudante da rede pública tinha da escola. Ele agora faz parte da estatística de alunos que não concluíram a educação básica. Dados da PNAD Educação 2019 apontaram que 20% das 50 milhões de pessoas de 14 a 29 anos no país não completaram alguma das etapas da educação básica.


O segundo maior motivo para a evasão escolar foi a "falta de interesse" e correspondeu a 29% do total de alunos que abandonaram a escola – o primeiro motivo é a necessidade de trabalhar (39%). Ao fazermos do diploma do ensino médio um pré-requisito para quase todos os empregos formais atualmente, criamos uma dificuldade de inserção no mercado de trabalho para aqueles que não o possuem. Nesse cenário, esses jovens acabam aceitando qualquer emprego para sobreviver, mesmo aqueles em que podem ser explorados ou não ter acesso a direitos trabalhistas básicos.

Por essa razão, acho o termo "falta de interesse" raso e perigoso, pois ao definirmos 2,9 milhões de jovens assim, estamos, consequentemente, assumindo que eles simplesmente escolheram ter uma vida adulta de dificuldade financeira, falta de oportunidades e sujeita a exploração no mercado de trabalho. Além disso, perdemos a oportunidade de os ouvir para entender o que faltou na escola para eles, se viam sentido nela.
Histórico de reprovação

Para entender um pouco as histórias de vida por trás da "falta de interesse", tive a oportunidade de conversar com quatro estudantes que abandonaram a escola e se enquadram no perfil. Um deles é do Amapá; uma é da Bahia; um, do Rio Grande do Sul; e o outro, de São Paulo.

Por coincidência, todos tinham histórico de reprovação antes de optarem por parar de frequentar a escola. "Na última vez que reprovei, caiu a minha ficha. No primeiro dia de aula quando voltei, pensei que tinha ido para o terceiro ano e não tinha ido. Naquele dia eu chorei tanto, meu Deus do céu", diz o aluno do Sul. Segundo os estudantes, se não tivessem repetido outras vezes, não teriam desistido.

Como os pais lidaram com as reprovações e a desistência? De acordo com os estudantes, de forma um tanto quanto indiferente. Segundo a aluna da Bahia: "Quando eu contei, eles já esperavam. Sabe a cara deles de 'tanto faz para mim, já esperava isso de você'. Aí meu pai disse que não valeria a pena tentar mais, pois iria reprovar novamente. Ali, para mim, meu mundo caiu. Coloquei na cabeça e nem tento mais. Sei que vou fracassar de novo. Foi ali que pensei, realmente devo parar, mas sinto muito falta".
Distante do "mundo real"

O maior motivo das reprovações foram as faltas. Eles simplesmente não tinham vontade de ir para a escola. Não viam sentido nem relação entre a instituição e o "mundo real" que conheciam. Principalmente, não enxergavam a escola como um instrumento de acesso a um futuro com mais oportunidades.

"Eu já tinha um pensamento de que estudo, lá na frente, não faria falta pra mim", diz o aluno de São Paulo. Já o do Amapá disse que "vivia bagunçando, queria ficar jogando bola. Fui expulso de uma escola, até hoje não me querem lá. Fui com alguns amigos. Ai me lasquei, né?"

Talvez a grande dificuldade seja fazer com que esses jovens vejam sentido na escola. Certamente não será tentando os convencer, a qualquer custo, de que é importante ler livros, ter acesso à literatura clássica e aprender matemática. Falta um sentido mais prático. Penso que, primeiro, precisamos buscar formas de tornar o mais visual, óbvio e explícito possível a relação entre escolaridade e mercado de trabalho. Dessa forma, pelo menos, iremos conseguir trazer para a conversa esses alunos "desinteressados". Eles poderão se apropriar mais da escola sabendo que ela terá uma relação direta com os seus sonhos e planos futuros. Pois todos eles têm sonhos, mas não associam a escola como instrumento para os alcançar.

Com eles na conversa e como parte ativa na construção de como a escola deveria ser, poderemos os ouvir e, principalmente, aprender com eles. Quais são as demandas que eles têm, mas que a escola não cobre? Como gostariam que fosse? O que falta para verem sentido nela? Dessa forma, teríamos na construção da educação brasileira também as vozes desses milhões de alunos que atualmente, infelizmente, não se interessam por ela.
Vinícius De Andrade

terça-feira, 4 de maio de 2021

Pensamento do Dia

 


El Salvador vira modelo 'democrático' dos Bolsonaro

Muito se tem falado nos últimos anos a respeito das novas formas de minar a democracia, sem a necessidade de golpes de Estado clássicos, com tanques e tropas nas ruas. Regimes e governantes eleitos pelo povo, em processos que nem necessariamente são evitados de fraude eleitoral, passam a minar as instituições imediatamente após empossados, com o objetivo claro de blindar seus governos de críticas, fiscalização e oposição e se perpetuar no poder.

O processo está em curso, sem nenhuma tentativa de disfarce, em El Salvador. Eleito em 2019 para presidir o País, o jovem publicitário Nayib Bukele, obteve em fevereiro deste ano uma importante vitória legislativa, conquistando 61 das 80 cadeiras legislativas. O triunfo teve resultado imediata: empossada, a nova Assembleia Legislativa depôs todos os juízes da Suprema Corte e o procurador-geral que eram críticos ao regime de Bukele.

E foi aí que o presidente do pequeno país americano caiu nas graças do bolsonarismo, carente de espelhos desde a queda de Donald Trump. Na ausência de um primo rico num país grande e democrático, o jeito é se espelhar em alguém mais próximo.


Bukele reúne algumas das características caras ao bolsonarismo: é jovem, com perfil autoritário (já chegou a invadir o parlamento com força policial para pressionar por uma votação), teve ascendência meteórica na política, costuma atribuir a si mesmo desígnios divinos para tomar decisões, vem de um partido de extrema-direita que chegou ao poder depois de vencer a esquerda combalida por denúncias de corrupção e usa as redes sociais com maestria.

Sem esconder a inspiração, sobretudo depois que o Supremo Tribunal Federal virou a pedra no sapato para os arreganhos autoritários de Jair Bolsonaro, seu filho Eduardo, o suposto especialista em política externa da família, passou o fim de semana numa escalada de admiração por Bukele no Twitter. Chegou a exaltar a deposição da Suprema Corte: "Tudo constitucional", escreveu, com indisfarçada inveja.

"Juízes julgam casos, se quiserem ditar políticas que saiam às ruas para se elegerem", afirmou.

Fez a postagem em cima de outra em que o presidente salvadorenho convida os "amigos da América Latina" a uma espécie de intercâmbio político, um convite para a criação de uma "Ursal da direita", para usar um dos fetiches da direita nas eleições de 2018.

Não é de hoje que Eduardo Bolsonaro, Filipe Martins, Ernesto Araújo e o próprio Bolsonaro tentam emular regimes que corroem a democracia por dentro, implodindo suas instituições. As sucessivas manifestações, inclusive no último fim de semana, tendo o STF como alvo nada mais são do que investidas para plantar na sociedade a semente da insatisfação com o funcionamento do estado democrático de direito e tentar aumentar o apoio a saídas golpistas, como intervenção militar de alguma espécie.

Há, inclusive, narrativas que falseiam o que diz a Constituição a esse respeito, para criar a fantasia de que é "tudo constitucional", como diz Eduardo Bolsonaro, cuja inteligência limitada sempre faz com que deixe patentes todas as suas intenções.

Acontece que o Brasil não é El Salvador, e a popularidade combalida de Bolsonaro, graças à sua desastrosa condução da economia, não dá a ele algo nem próximo do aval que Bukele obteve nas urnas em fevereiro para colocar em marcha seu golpe branco.

Ainda assim, repito uma cantilena muito comum a esse espaço, mas que continuarei proferindo enquanto a ameaça golpista constantemente brandida pelo bolsonarismo prosseguir: ou as instituições ficam vigilantes para reagir a tentativas de fragilizá-las, ou só perceberão a infiltração quando ela tiver comprometido a estrutura do prédio da democracia constitucional.

Apagão de emprego e capital

O pastor anglicano Thomas Malthus era um pessimista, em meio ao otimismo iluminista do final do século 18. Atribuía aos impulsos sexuais o crescimento da população e, em decorrência, o aumento da pobreza. Era um darwinista social, como o ministro da Economia, Paulo Guedes, que acha absurdo as pessoas quererem viver até os 100 anos e os filhos de porteiros sonharem com aquele canudo de papel do samba O pequeno burguês, grande sucesso de Martinho da Vila.

Somente Thomas Malthus explica a naturalidade com que o presidente Jair Bolsonaro e Guedes estão lidando com a crise sanitária e os 400 mil mortos pela covid-19 já contabilizados no Brasil. A teoria econômica malthusiana sustentava-se na tese de que a produção de alimentos não acompanharia o crescimento da população; porém, com a má alimentação e as doenças, haveria um reequilíbrio, com a redução da expectativa de vida e da taxa de natalidade. Mais semelhança com pensamento dominante no Palácio do Planalto e no Ministério da Fazenda, impossível.

Entretanto, àquela época, a teoria malthusiana já havia sido ultrapassada pelo desenvolvimento do capitalismo, cujas inovações permitiram a maior produção de alimentos, de bens e de serviços. Hoje, a população inglesa é três vezes maior e 10 vezes mais rica do que há 200 anos. Mesmo na China, que até recentemente proibia os casais de terem mais de um filho, em decorrência do fracasso do “Grande salto para a frente” de Mao Zedong (45 milhões de chineses morreram de fome), o problema alimentar foi resolvido. Em grande parte, graças ao Brasil, que se tornou seu maior fornecedor de grãos e proteínas.


Com a pandemia, no entanto, milhões de brasileiros estão mergulhados na miséria absoluta, sem ter nem o que comer em casa por falta de renda. São números acachapantes: 14,4% de desempregados e redução da massa salarial da ordem de 7,4%,uma perda de R$16,8 bilhões, entre o trimestre encerrado em fevereiro de 2021 e o mesmo período do ano passado, segundo o Instituto Brasi- leiro de Geografia e Estatística (IBGE). A menor queda foi na agrope- cuária (-0,8%). A administração pública, porém, teve aumento surreal nos rendimentos, de 5,3%. Tem algo errado aí.

As atividades de alojamento e alimentação perderam 1,5 milhão de empregos, maior queda percentual (-27,4%). A indústria fechou cerca de 1,3 milhão de postos (-10,8%), mesmo número dos serviços domésticos (-20,6%). O comércio perdeu 1,98 milhão de vagas (-11%). Somente a agropecuária (226mil) e o setor público (374 mil) elevaram o número de vagas. Durante a pandemia, houve um aumento de 2 milhões de desempregados; ou seja, a situação já era muito grave no mercado formal antes disso, com 12,4 milhões de desempregados. Um dado chama muita atenção: a perda de rendimento de empregadores (-5,4%) e dos trabalhadores domésticos (-3,6%).

O agravante é que nada será como antes, porque a covid-19 acelerou transformações no mundo do trabalho que vieram para ficar, com a substituição de mão de obra por mais tecnologia e a adoção do trabalho avulso e remoto. Além disso, 10,5 milhões de pessoas deixaram de procurar emprego, dos quais 1,2 milhão passaram a compor o grupo de desalentados, que chegou ao patamar recorde de quase 6milhões, um aumento de 27% em um ano.

Empresas com mais capacidade de investimentos aproveitam a oportunidade para avançar sobre os concorrentes e obter ganhos de produtividade. Entretanto, tão grave quanto o desemprego é o apagão de capital de micro, pequenos e médios empreendedores, que encerraram suas atividades e queimaram suas economias para sobrevivência das suas famílias. Guedes, entretanto, vê na pandemia uma oportunidade de ouro para descontruir políticas públicas, sem pôr nada no lugar, porque suas teorias ultraliberais estão tão ultrapassadas quanto as teses malthusianas.

Precisamos escapar do universo paralelo de Lula e Bolsonaro

A manifestação na Avenida Paulista, no último sábado, simboliza a apropriação indébita e a impostura que ocorrem sob Jair Bolsonaro. O presidente que se elegeu aproveitando-se da bandeira anticorrupção da Lava Jato não só ajudou a destruir a operação, em conluio tácito com o PT e demais partidos implicados em crimes, como agora se utiliza de uma das figuras políticas mais associadas à corrupção do PT, o mensaleiro Roberto Jefferson, para fazer discurso na via paulistana que serviu de palco para os maiores protestos contra a corrupção já registrados no país, depois da redemocratização.

Foi como se descortinássemos um universo paralelo: o verde-amarelo de 2016 agora é do bolsonarismo; no alto da caminhão de som, Roberto Jefferson no lugar de personalidades respeitáveis; ao invés de exigência de democracia e fortalecimento das instituições, gritos por intervenção militar e fechamento do STF.


Por ocasião das manifestações de 2016, havia um grupo de aloprados com as mesmas bandeiras, ainda sem Bolsonaro, que ocupava uma pequena porção da avenida, pedindo absurdos idênticos: intervenção militar e correlatos. Não chegava a um quarteirão. O número dessas pessoas não aumentou tanto assim desde então. O problema é que, agora, eles são os únicos a ir para a rua. Está certo que, ao contrário dos demais, esse pessoal que aplaudiu Roberto Jefferson se comporta como aliado do vírus da Covid. Mas é de se perguntar se a maioria hoje silenciosa só está recolhida por causa da pandemia ou se apresente mais do que cansada diante das sucessivas derrotas da Lava Jato em todas as frentes e do espetáculo estarrecedor que se desenrola sem freios em Brasília. Essa maioria hoje silenciosa não quer fechar instituição nenhuma e não quer saber de militar tomando poder. Continua a querer manutenção das liberdades democráticas, instituições que funcionam, honradez e honestidade.

É compreensível o cansaço de repetir as demandas, apontar as mesmas picaretagens e redundar nos protestos. Também é prudente não ir à rua, com um vírus ameaçador como o da Covid circulando livremente pelo Brasil. Mas nem o cansaço nem a prudência deveriam resultar em resignação. Estaria a maioria de 2016, hoje silenciosa, resignada? Essa impassibilidade pode se traduzir em duas formas perigosas nas próximas eleições, sem que a ordem implique hierarquia em matéria de risco: a primeira delas é a conclusão de que Lula é a opção mais sensata depois de quatro anos de selvageria. Lula também tinha o mesmo Roberto Jefferson e tudo o que ele representa ao lado dele. Lula também tem uma visão autoritária, como expressaram os anos em que permaneceu no poder e o programa de governo do seu poste. Lula também deu no que deu, ao operar desvio de dinheiro público no varejo e no atacado. A outra forma perigosa é reprisar 2018 e votar em Bolsonaro, a fim de evitar Lula, fechando os olhos para as ignomínias cometidas por ele, para a sua sociopatia, para o aparelhamento das instituições na defesa da sua família e para as alianças com os corruptos especializados em operar no varejo — e que fatalmente pularão para o atacado.

Lula e Bolsonaro são duas faces de uma mesma podridão sistêmica. Assistir a Lula pregando por democracia e honestidade na paradigmática avenida Paulista será assistir igualmente a um espetáculo protagonizado num universo paralelo, só mudarão as cores. Não nos resignemos com essa gente. É preciso sanear a democracia brasileira. Trata-se de tarefa difícil — eu mesmo, aqui nesta trincheira, não consigo ver a paisagem clareada neste momento –, mas não é impossível. A democracia costuma se comportar como uma floresta que, depois de devastada, regenera-se com rapidez surpreendente mesmo para os especialistas. O que estava previsto para renascer em décadas recupera-se em questão de meses.

Apostemos na democracia, na sua capacidade de regeneração, e escapemos do universo paralelo de Bolsonaro e Lula.

Recolhidos e cansados, sim; resignados, nunca.

Assim caminha o Brasil...

 


O exército de 5,9 milhões de 'desempregados' de fora do índice oficial

De um ano para cá, mais de um milhão de brasileiros desistiram de procurar emprego. Alguns porque buscavam há meses, sem sucesso. Outros, porque simplesmente não veem novas vagas sendo abertas na cidade onde moram.

As razões são várias.

Apesar de estarem disponíveis para trabalhar, essas pessoas não entram no cálculo da taxa de desemprego. Para ser considerado desempregado, pelos parâmetros internacionais de estatística, é preciso estar ativamente buscando uma vaga.

Isso não significa necessariamente, contudo, que a situação financeira dos chamados desalentados seja mais confortável do que a dos que estão oficialmente desempregados, os 14,4 milhões contabilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com os dados divulgados na sexta, os desalentados somaram 5,9 milhões em fevereiro, recorde na série histórica da Pnad Contínua, que começa em 2012. O levantamento é feito em trimestres móveis - o dado de fevereiro, portanto, é uma média composta com dezembro e janeiro.

O número é 26,8% maior do que o registrado um ano atrás, no trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2020, o que significa um aumento de 1,259 milhão de pessoas.

Este foi o oitavo mês consecutivo em que o desalento cresceu a uma velocidade superior a 20% no país.


"Esse aumento tem um motivo bem claro, que é a questão da pandemia. Tem muita gente com medo [de ficar doente], muita gente que sabe que as atividades estão fechando, que por isso acaba não saindo para procurar emprego", diz o economista Bruno Ottoni, pesquisador do IDados e do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).


Essa dinâmica tem um impacto indireto importante sobre a própria taxa de desemprego, já que as pessoas que estão fora da força de trabalho não entram na conta. A estimativa de Ottoni para o dado divulgado nesta sexta, por exemplo, era desemprego de 14,8%, 0,4 ponto percentual acima do que foi efetivamente registrado, 14,4%.

"O dado do desalento surpreendeu. Eu esperava que mais gente tivesse voltado ao mercado de trabalho em fevereiro - a pandemia ainda não tinha piorado como em março, quando vieram as medidas mais restritivas", pontua o economista.

O desalento reduz a taxa de participação no mercado de trabalho, que é a relação entre a quantidade de pessoas que estão de fato empregadas ou à procura pelo total de pessoas em idade para trabalhar - uma boa medida para enxergar o chamado "desemprego oculto".

Em fevereiro, a taxa de participação foi de 56,8%, 4,9 pontos percentuais a menos do que o registrado no mesmo período do ano passado, 61%.

Caso o percentual tivesse se mantido constante, conforme calcula o economista Alberto Ramos, Diretor de Pesquisa Econômica para a América Latina do Goldman Sachs, a taxa de desemprego teria atingido expressivos 21,2% em fevereiro.

Essa discrepância sinaliza que o desemprego tem um espaço mais restrito para melhora à medida que a economia tiver espaço para crescer.

"A taxa pode não reduzir de forma significativa quando a epidemia for controlada, à medida que os desalentados voltem a procurar emprego e retornem à força de trabalho em ritmo mais acelerado do que a criação de novas vagas", escreveu o economista em relatório enviado a clientes.

Além do desalento, a Pnad Contínua também acompanha o que chama de subocupação: aqueles que trabalharam no mês de referência, mas menos horas do que gostariam ou precisariam - é o trabalhador que faz um bico quando aparece, por exemplo.

Em fevereiro, 6,9 milhões de pessoas estavam nessa situação.

A pesquisa agrega esses e outros grupos na taxa de subutilização da força de trabalho, uma medida mais ampla e, por isso, um bom retrato dos problemas do mercado de trabalho que vão além da taxa de desemprego.

No trimestre móvel encerrado em fevereiro, o volume de pessoas subutilizadas no Brasil chegou a 32,6 milhões. Nesse total estão incluídos os 14,4 milhões oficialmente desempregados, os 5,9 milhões de desalentados, os 6,9 milhões subocupados e outros 5,4 milhões que compõem a força de trabalho potencial junto com os desalentados.

Ottoni batizou esse último grupo de "indisponíveis". São aqueles que gostariam de trabalhar e chegaram a procurar, mas não podiam no período de referência da pesquisa. Aí entram, por exemplo, mulheres que tiveram filhos e têm de ficar em casa porque não há disponibilidade de creches na região em que moram.

Para o economista, a ampla vacinação é condição fundamental para a recuperação da economia brasileira e, por consequência, do mercado de trabalho.

É o ritmo de imunização que vai ditar a velocidade de recuperação.

A expectativa, diz ele, é que o desemprego aumente um pouco nos próximos meses, com o retorno dos desalentados à força de trabalho. A partir do segundo semestre, à medida que a economia conseguir gerar mais vagas para absorver os trabalhadores disponíveis, o indicador deve começar a melhorar.

O insuportável estado vulgar

O que não podia suportar era aquele estado vulgar das coisas, aquela sufocante apatia que lhes dava um ar de seres que se consomem num lento aniquilamento. Por momentos, parecia esquecer-se de tudo. Mas eis que de repente, a um golpe ou a um ruído, a angústia voltava a obsedar-lhe a alma. Ele não tinha sentidos senão para sofrer e desejar inutilmente.
Lúcio Cardoso

Almoço das 400 mil mortes

Tá cada vez mais down na high society. Como canta Elis Regina, a crise já está virando zona. Deve dar indigestão sentar-se ao lado do homem que regurgita 400 mil mortes por Covid-19. Deveria dar, ao menos. Crime de lesa-humanidade não compõe boa entrada para o almoço. Ao andar de cima, indigestão é para os fracos. É para o filho do porteiro que estudou na universidade pelo Fies, pensam. Para quem está acostumado a lecionar economia no Chile de Pinochet, os fracos devem ser os outros.

E daí? A mesa está posta, o vinho servido, a máscara descartada, a branquitude presente. Por que não desfrutar do almoço enquanto o resto do país volta ao mapa mundial da fome e, se não fossem campanhas como a Tem Gente com Fome e o auxílio que o governo não queria, seria ainda pior?

Enfileiram-se as empresas com hashtag vidas negras importam. Importam sim, dirão, exceto as 400 mil vidas que perdemos por inação e ação de quem se assenta ao seu lado na mesa.


De entrada, serviremos uma porção de ar. Ar puro. O mesmo ar que faltou em Manaus. O mesmo ar de cuja escassez o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, soube ao menos quatro dias antes do colapso no Amazonas. Em 11 de janeiro, Pazuello relatou a conversa que teve com a cunhada cujo irmão estava “sem oxigênio nem para passar o dia”: “O que você vai fazer?”, ela perguntou. Resposta do ex-ministro: “Nada. Você e todo mundo vão esperar chegar o oxigênio e ser distribuído. Vamos com calma.” Em homenagem a todos que padeceram sem ar, a entrada no almoço de hoje com o presidente será: ar. Respirem sem parcimônia!

Óbvio, a bebida não pode faltar. Serviremos água e vinho. Água, claro, é potável. Diferente da água que circula no estado do Rio de Janeiro, apesar do martelo no leilão e o sorriso para foto. Em homenagem ao veto presidencial de 8 de julho de 2020, serviremos a água potável que o governo federal negou fornecer, no auge da pandemia, a indígenas, quilombolas e povos tradicionais em extrema situação de vulnerabilidade. Serviremos água cristalina diretamente tirada da boca de indígenas. Aos espíritos mais festivos, dispostos a celebrar o feito macabro de 400 mil mortes por Covid-19, serviremos vinho.

Serviremos o cálice do sangue de todas as mortes que poderiam ter sido evitadas e não foram.

De prato principal, serviremos cloroquina, azitromicina e ivermectina. Mais precisamente, serviremos 31 milhões de comprimidos sem eficácia contra a Covid-19, a mesma quantidade enviada pelo governo federal aos estados. Gastamos R$ 126,5 milhões com esse prato principal. Espero que apreciem!

Esperamos também que não morram ao inalar cloroquina nebulizada, como aconteceu com uma paciente em Manaus em 2 de março, após médicos aplicarem esta terapia ineficaz, mas difundida pelo homem que se assenta ao seu lado. Teremos, ademais, um prato surpresa. Sigiloso. Como também são sigilosos os gastos no valor de R$ 150 mil do Exército brasileiro na pandemia, autorizados em fevereiro pelo presidente.

De sobremesa, teremos crimes contra a humanidade e genocídio. Mas não se preocupe, os outros que sentirão o amargo. Os senhores e as senhoras sentirão apenas a doçura do leite condensado, muito leite condensado. Sentirão apenas o frescor da fila VIP da vacina em Miami, a brisa dos jatinhos sobrevoando Trancoso, a água no rosto durante o passeio de jet-ski nas férias pagas com dinheiro público.

Ao final, tiraremos uma foto. Uma foto alegre, onde possamos ver todos os seus dentes e peles alvas. Num país onde não há justiça, o que nos resta é a memória: uma forma de eternizar, antes que esta nos falhe novamente, quem com a morte se assentou na mesa dos hipócritas.​

E por falar em utopia

Ao participar há dias de um debate sobre utopia, não foi difícil constatar que estamos vivendo justamente o contrário, uma distopia como nunca vivemos: um acúmulo de crises — sanitária, política, econômica, ética, social, ambiental. Por isso, para muitos, a utopia do século XXI é a sustentabilidade, isto é, o equilíbrio entre progresso, bem-estar social e conservação dos recursos naturais. E, se não o fim, pelo menos a redução das distâncias obscenas entre riqueza e pobreza.

Aliás, a utopia sempre foi, digamos, meio utópica, desde o começo. Thomas Morus, o filósofo autor do livro “Utopia”, que em grego quer dizer “não lugar”, “lugar que não existe”, apresentava em 1516 o cenário de uma sociedade em que todos seriam felizes, ninguém era dono de nada, todos eram ricos. Porém o criador desse paraíso utópico morreu infeliz. Preso na Torre de Londres, foi executado por ordem de Henrique VIII. Quer dizer: o criador da utopia teve um fim distópico.

O Brasil tinha 3 anos de idade quando entrou para a história da utopia. Em 1503, o navegador italiano Américo Vespúcio exclamou: “Aqui é o paraíso”. Era a Ilha de Fernando de Noronha, que, ao que tudo indica, inspirou Morus a escrever seu famoso livro. De um jeito ou de outro, experimentamos sempre o sentimento da utopia. Seja olhando para a frente, como “país do futuro” (por sinal, Stefan Zweig suicidou-se aqui, ele e a mulher), ou para trás, com nostalgia de anos dourados, em geral idealizados. Não se pode esquecer que a lenda situava o Eldorado, o país do ouro, entre o Brasil e a Venezuela. Estamos sempre esperando alcançar algo que nunca chega ou que já passou.

“Utopia selvagem”, de Darcy Ribeiro, sonha substituir o país oficial centrado na figura do branco, do índio e do negro por um povo novo, miscigenado —“um povo para ser a mais bela nação da Terra”. O antropólogo viveu durante dez anos entre as tribos dos kadiwéus, terenas, kaiowás e bororos.

Por se tratar do terreno que envolve a imaginação e o sonho, a utopia está sempre presente nele de alguma maneira, como inspiração ou como referência. Um dos poemas mais populares de Manuel Bandeira é “Vou-me embora pra Pasárgada”, o lugar ideal onde o poeta quer se refugiar: “Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei”. Noutra versão, o compositor e poeta Dorival Caymmi canta: “Eu vou pra Maracangalha, eu vou (...) Se Anália não quiser ir , eu vou só...”.

O professor Francisco Ortega, estudioso do fenômeno médico-fisicalista, tem uma tese original: “Não podendo mudar o mundo, tentamos mudar o corpo, o único espaço que restou à utopia”. Seriam as utopias corporais substituindo as sociais.

Essa “ideologia” do corpo sarado, siliconado cria a obsessão por intervenções como bodybuilding, cuting, tatuagem e piercing —na língua, no nariz, no bico dos seios e até nos lugares mais recônditos da mulher e do homem. A mais comum dessas mudanças consiste nas cirurgias plásticas.

Mas nossa grande utopia mesmo é o fim da pandemia e a comprovação pela CPI da Covid dos responsáveis pelo genocídio de mais de 400 mil pessoas em pouco mais de um ano no Brasil.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Horizontes escurecidos

Há uma época em que as desilusões, o cansaço da luta e uma íntima convicção de que afinal a vida não vale tão grandes esforços convertem-se, para determinados espíritos, numa nuvem que aumenta aos poucos, até obscurecer todo o horizonte. O jogador sente então que a partida está definitivamente perdida e examina, sem saber o que fazer delas, as cartas que ainda lhe restam nas mãos. Não é exatamente este o sentimento dos velhos, ou melhor, daqueles que lutaram a vida inteira por uma tranquilidade que sempre se sentiram cada vez mais distantes?
Lúcio Cardoso

No Dia da Liberdade de Imprensa, perguntar é preciso

“Você é freelancer?”, me inquiriu Grande Otelo.

Eu entrevistava o ator, glória das artes nacionais, e o assunto era o passado das escolas de samba. Otelo, também compositor, era parceiro de Herivelto Martins no clássico “Praça XI”, e eu queria saber detalhes sobre as gambiarras que as escolas carregavam para iluminar os desfiles pioneiros naquele canto do Rio. Foi aí que ele deixou de lado o sorriso de comediante e botou o “freelancer” no meio. Eu ainda redargui que não, orgulhoso da carteira profissional recém assinada pelo jornal. Mesmo assim, Otelo completou irônico:

“Pois, meu filho, isso é pergunta de freelancer!” – e se recusou a responder.

Décadas depois eu continuo sem saber o que seria uma pergunta de “freelancer”, mas seja o que fosse, fosse o que seria, eu estou me lembrando dela porque hoje é o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa e eis a ocasião propícia para dizer que não só toda maneira de amor vale a pena, mas toda maneira de perguntar mais ainda.

Semana passada, a uma repórter que queria uma explicação sobre sua foto com a expressão miliciana “CPF cancelado”, o presidente da República também desdenhou e classificou a pergunta de “idiota”. Mais do que perguntas de “freelancer”, perguntas idiotas são fundamentais para explicar o Brasil 2021.

Tem ainda a pergunta que não quer calar, a pergunta de um milhão de dólares, a pergunta de algibeira. Na rotina cotidiana de não sair de casa sem elas, o cartão de crédito que a sociedade lhe deu, o jornalista parte de um dos princípios basilares desse Dia Mundial da Liberdade de Imprensa – a certeza de que perguntas não ofendem. Já uma resposta ofensiva vai para a conta do entrevistado, e pode ser o lead da matéria. 

Uma vez fui entrevistar um coronel da PM, atrás de informações para compor o perfil de um general que assumiria o Ministério do Exército. Eu precisava de detalhes da personalidade, o lado humano do novo ministro. O que ele gosta fora da caserna?, perguntei. “Escreve aí”, mandou o militar, com a autoridade característica. “O general não gosta de homem com cabelo comprido feito o seu”. Era 1974. Ditadura. Sorri verde e amarelo.

É uma profissão de risco, mesmo para quem se especializou nas amenidades do fait-divers das coisas culturais. Um dia, depois de ler uma crítica adversa, o cantor Fagner mandou me avisar que ao primeiro encontro não faria perguntas e me encheria de porrada. Como se sabe, é um homem nordestino, aquele que antes de tudo é um forte, e graças ao Padim Ciço nunca mais eu e Fagner nos vimos.

O repórter Gabriel García Márquez dizia que, acompanhado de ética como o zumbido acompanha o besouro, ao jornalismo tudo é permitido. Eu estava ungido pelo mais ético desses zumbidos quando perguntei ao John Travolta, ainda não catapultado de volta ao sucesso por Tarantino, como ele definia o fracasso. Travolta magoou. Levantou-se, cumprimentou-me respeitosamente e bateu em retirada. Sua não-resposta salvou a entrevista.

A liberdade de imprensa começa pelo direito a perguntas e é bom que seja celebrada na semana em que a CPI da Covid fará um monte delas para investigar quem matou 400 mil pessoas. Um dia, no tempo da delicadeza, telefonei para Carlos Drummond de Andrade: “O que o senhor acha do biquíni asa delta?”. “Ah, meu caro, quem me dera sabê-lo”, respondeu, sem entrar no mérito se a pergunta era freelancer, idiota ou os dois tipos juntos. Poetas e repórteres sabem – perguntar é preciso, viver também.

Apagão de emprego e capital

O pastor anglicano Thomas Malthus era um pessimista, em meio ao otimismo iluminista do final do século 18. Atribuía aos impulsos sexuais o crescimento da população e, em decorrência, o aumento da pobreza. Era um darwinista social, como o ministro da Economia, Paulo Guedes, que acha absurdo as pessoas quererem viver até os 100 anos e os filhos de porteiros sonharem com aquele canudo de papel do samba O pequeno burguês, grande sucesso de Martinho da Vila.

Somente Thomas Malthus explica a naturalidade com que o presidente Jair Bolsonaro e Guedes estão lidando com a crise sanitária e os 400 mil mortos pela covid-19 já contabilizados no Brasil. A teoria econômica malthusiana sustentava-se na tese de que a produção de alimentos não acompanharia o crescimento da população; porém, com a má alimentação e as doenças, haveria um reequilíbrio, com a redução da expectativa de vida e da taxa de natalidade. Mais semelhança com pensamento dominante no Palácio do Planalto e no Ministério da Fazenda, impossível.


Entretanto, àquela época, a teoria malthusiana já havia sido ultrapassada pelo desenvolvimento do capitalismo, cujas inovações permitiram a maior produção de alimentos, de bens e de serviços. Hoje, a população inglesa é três vezes maior e 10 vezes mais rica do que há 200 anos. Mesmo na China, que até recentemente proibia os casais de terem mais de um filho, em decorrência do fracasso do “Grande salto para a frente” de Mao Zedong (45 milhões de chineses morreram de fome), o problema alimentar foi resolvido. Em grande parte, graças ao Brasil, que se tornou seu maior fornecedor de grãos e proteínas.

Com a pandemia, no entanto, milhões de brasileiros estão mergulhados na miséria absoluta, sem ter nem o que comer em casa por falta de renda. São números acachapantes: 14,4% de desempregados e redução da massa salarial da ordem de 7,4%,uma perda de R$16,8 bilhões, entre o trimestre encerrado em fevereiro de 2021 e o mesmo período do ano passado, segundo o Instituto Brasi- leiro de Geografia e Estatística (IBGE). A menor queda foi na agrope- cuária (-0,8%). A administração pública, porém, teve aumento surreal nos rendimentos, de 5,3%. Tem algo errado aí.

As atividades de alojamento e alimentação perderam 1,5 milhão de empregos, maior queda percentual (-27,4%). A indústria fechou cerca de 1,3 milhão de postos (-10,8%), mesmo número dos serviços domésticos (-20,6%). O comércio perdeu 1,98 milhão de vagas (-11%). Somente a agropecuária (226mil) e o setor público (374 mil) elevaram o número de vagas. Durante a pandemia, houve um aumento de 2 milhões de desempregados; ou seja, a situação já era muito grave no mercado formal antes disso, com 12,4 milhões de desempregados. Um dado chama muita atenção: a perda de rendimento de empregadores (-5,4%) e dos trabalhadores domésticos (-3,6%).

O agravante é que nada será como antes, porque a covid-19 acelerou transformações no mundo do trabalho que vieram para ficar, com a substituição de mão de obra por mais tecnologia e a adoção do trabalho avulso e remoto. Além disso, 10,5 milhões de pessoas deixaram de procurar emprego, dos quais 1,2 milhão passaram a compor o grupo de desalentados, que chegou ao patamar recorde de quase 6 milhões, um aumento de 27% em um ano.

Empresas com mais capacidade de investimentos aproveitam a oportunidade para avançar sobre os concorrentes e obter ganhos de produtividade. Entretanto, tão grave quanto o desemprego é o apagão de capital de micro, pequenos e médios empreendedores, que encerraram suas atividades e queimaram suas economias para sobrevivência das suas famílias. Guedes, entretanto, vê na pandemia uma oportunidade de ouro para descontruir políticas públicas, sem pôr nada no lugar, porque suas teorias ultraliberais estão tão ultrapassadas quanto as teses malthusianas.

O general pulou a cerca

Tive um avô que comia doce escondido, fugindo das prescrições médicas. Lembrei-me dele quando o general Luiz Eduardo Ramos confessou que tomou vacina escondido, para respeitar a medicina e a ciência:

— Tomei e vou ser sincero. Como qualquer ser humano, quero viver, pô.

As coisas mudaram no Brasil de hoje. Um general do Exército toma vacina escondido porque sabe que, para o governo a que está ligado, isso é uma heresia.

O que o general esconde é para ele o impulso de qualquer ser humano. Se for um pouco mais longe, perceberá que está presente em todos os seres vivos.


O belo documentário sobre os ensinamentos de um polvo mostra suas estratégias de sobrevivência, ora caçando um camarão, ora escapando de um tubarão, ou mesmo colocando seus ovos em lugar seguro. Além de sobreviver, os seres vivos tendem a perpetuar sua espécie, general.

Na mesma gravação em que confessa sua escapada para a vida, o general Luiz Eduardo Ramos afirma que está na luta para convencer Bolsonaro a se vacinar também:

— Não podemos perder o presidente para um vírus desses.

Mas, de certa forma, o general e alguns eleitores de Bolsonaro já o perderam para o vírus desde o momento em que o presidente decidiu negá-lo. Bolsonaro não poderia combater o que não existe, o que não é mais do que uma gripezinha.

Um general sensato deveria parar para pensar um pouco na história. Num passado recente, os adversários eram postos na clandestinidade. Mas hoje é o próprio impulso vital que se torna clandestino no interior do governo.

Indo um pouco para trás, encontraremos presidente que se suicidou no auge de uma crise, mas nunca houve presidente que escolhesse o suicídio como um estilo de vida.

Depois de comandar o Ministério da Saúde, o general Pazuello, investigado por negligência nas mortes de Manaus, foi a um shopping center sem máscara.

Ele manteve um nível de obediência total a Bolsonaro, mostrando-se o aliado fiel, aquele que marcha com seu líder ainda que seja para a sepultura.

A travessura do general Ramos é apenas uma das pequenas brechas em que a vida consegue penetrar o fúnebre edifício do governo Bolsonaro. Mas sua própria confissão indica como está enterrado nesse pântano cadavérico.

Ele não tem vergonha de querer viver como os outros seres humanos. Mas também não se orgulha disso nem celebra o ato vital de se vacinar. É apenas uma contingência, pô.

Aliás a expressão “pô” é uma forma simplificada porque achamos na imprensa que, depois de tudo por que passaram os brasileiros, ainda não podem ler certas palavras cruas.

De modo geral, não me interessam generais que se enterram ou mesmo os que põem rapidamente a cabeça de fora.

Eles são apenas a guarnição militar de um projeto de morte que, desvelado para a maioria do país, certamente não sobrevive depois de 22.

O problema é que esse projeto domina hoje o país onde vivo e se espalha além dos mais de 400 mil túmulos que cavou com a pandemia. Ele nos retira o Censo para que não saibamos exatamente quantos somos e que problemas concretos temos de enfrentar. Ele nos impõe e aprova um Orçamento com verdadeiros cheques em branco para políticos.

Enfim, não basta conduzir um projeto de morte, mas é necessário também romper com os elementos de orientação e planejamento coletivos.

É como se tivéssemos que marchar de olhos fechados para o nosso próprio cadafalso. É um plano meticuloso que se estende à escuridão, ao imposto sobre os livros, para que se feche também essa janela para o mundo.

Houve um pastor que levou seus fiéis ao abismo nas Guianas. Chamava-se Jim Jones. Mesmo para alguém como eu, que não acredita em reencarnação, as coincidências são assustadoras.

Durante muito tempo se pensou em suicídio coletivo, mas o que prevaleceu foi a tese do assassinato em massa.

Pensamento do Dia

 

Seyran Caferli (Azerbaijão)

Quem a Covid mais assassina

A vacinação contra a Covid nos dividiu em grupos, usando critérios de riscos a partir de nossa condição física e nossa condição profissional. A escassez de vacina, fruto em nosso país de uma política patrocinada pelo Presidente da República e seus arautos, criou um novo tipo de embate social. Uma pequena legião vacinada contra uma população desprotegida. Se mostrar-se vacinado é uma afirmação da ciência, é uma campanha de conscientização, cumprindo assim um papel de divulgação da necessidade de imunização, o ato de postar imagens de pessoas vacinadas também gera uma frustração na maioria dos brasileiros que não teve acesso a ela. E isto aumenta a tensão social, agravada pela fome, que se espalhou junto com o vírus.

Escolher quem vacinar primeiro é uma tarefa difícil. É como escolher entre quem vai ser atendido em hospitais com UTIs lotadas e quem vai morrer sem atendimento. Ninguém devia ser obrigado a fazer esta escolha. Todos devem ser vacinados.



A falta de vacina no Brasil é, portanto, uma roleta russa. Em qualquer dos grupos sociais, é um crime uma morte por Covid, cometido por falta de ações no tempo certo (início da pandemia) do governo federal. Há grupos que podem se proteger totalmente da doença enquanto não chega a sua vez na longa fila da vacinação. Há outros, que podem se proteger parcialmente. Mas um contingente imenso está completamente vulnerável. É neste grupo que os assassinatos promovidos pela falta de vacina estão sendo mais recorrentes.

No seu livro já clássico, Trabalhar Cansa, o escritor italiano Cesare Pavese narra, em um dos poemas, “Fumantes baratos”, a trajetória de um interiorano que vai a Turim em busca de melhoria de vida. Turim, sede de grandes indústrias, representava para este cidadão uma possibilidade de mudança de vida ao se integrar a um centro produtor de riqueza. Mas acaba sendo apenas o sofrimento imposto pela pobreza. “Aceitava o trabalho / como um duro destino dos homens”. Esta crença de que o trabalho criaria justiça é rompida no final, quando ele grita que não havia um destino condenando homens e mulheres, e sim uma exploração.

Com uma linguagem densa, sem ceder ao primarismo das palavras de ordem, Pavese constrói um poema sobre a conscientização deste trabalhador consumido por condições sociais limitantes. A definição desta população como “fumantes baratos”, ou seja, seres que recebem o mínimo de tempo de lazer e de oportunidade de usufruir do que a civilização industrial produziu, já revela o tom humanizador do texto.

A pandemia fez com que as casas das famílias mais pobres ficassem menores. Familiares desempregados, crianças sem creche e escolas, tudo isso agravado pela falta de alimentos e pelas incertezas. Estas aglomerações em lugares apertados, em regiões com alta densidade, se intensificam entre aqueles trabalhadores que ainda conseguem, cada vez mais de maneira informal, manter-se no mercado. Os transportes coletivos superlotados acabam não apenas levando as pessoas para o seu local de atuação, mas para o contágio e para a morte, pois mesmo com todos os protocolos de segurança, o transporte público, da maneira que é ofertado em muitas cidades, com redução de ônibus e vagões, é o principal ponto disseminador da Covid.

Neste dia Primeiro de Maio, é preciso dizer que a falta de vacina, de insumos hospitalares, de leitos e de UTIs no Brasil mata principalmente os nossos trabalhadores, condenados ao duro destino de não ter opção.
Miguel Sanches Neto

Piora nos índices sociais vai se acelerar em número e desumanidade

Jair Bolsonaro quer mais cortes em gastos sociais previstos no Orçamento para este ano. As mutilações já feitas foram brutais, mas Bolsonaro quer mais alguns bilhões para o que se mostra no governo como o segundo gasto na ordem de nobreza: a compra de parlamentares com a liberação de bilhões para suas propostas de obras, que são catapultas eleitorais. O único gasto mais nobre no Planalto é o dos militares, cujo montante inicial perdeu apenas 3%.

As reduções são o oposto do requerido pelo forte agravamento das condições de sobrevida da maioria dos brasileiros. A retenção por mais de três meses do também mutilado auxílio emergencial anulou o alívio trazido pelas parcelas do ano passado, concedidas pelo Congresso.

A fome aumenta, e se espraia mais. Qualquer oferta de alimento atrai filas enormes, e as coletas de doações recebem ainda quantidade ínfima para a necessidade crescente. A maioria não tem disponibilidades para ser solidária.

Aos que a têm, o que falta, historicamente, é o próprio sentido de solidariedade, até de humanidade mesmo. Fosse diferente, já veríamos, há tempos, forte movimento de socorro aos que têm fome.


Na chegada de Bolsonaro ao poder, considerava-se, com provável otimismo, haver em torno de 24 milhões de brasileiros vivendo com menos de R$ 246 por mês: R$ 8 por dia. Passados dois anos, a FGV e dados do IBGE indicam o aumento desse contingente para 35 milhões de pessoas.

Não só os já habitantes da pobreza descem à miséria mais miserável. O título de reportagem de Fernando Canzian para a Folha sintetiza o que se passa nos intermediários: “Fenômeno dos anos Lula, classe C afunda e cai na miséria”. Eloquência justificada por mais de 30 milhões que “estão despencando diretamente da classe C para a miséria”.

A pandemia não é causa única da derrocada social. Desde seu primeiro momento, o governo investiu contra os programas sociais, sem exceção, e os manteve na precariedade quando o vírus se anunciou, se propagou e se impôs.

Nem a mínima atenção foi dada à necessidade de se buscarem modos de atenuar os efeitos socioeconômicos da pandemia. E, em paralelo, fosse preparada a defesa da população com a compra de vacinas, campanhas instrutivas, orientação para as alternativas empresariais e gerais.

Nada disso, era só uma “gripezinha”, a cloroquina a eliminaria. A vaguidão de Paulo Guedes, com os pés no ministério e a cabeça na Bolsa, e o desvario de Bolsonaro associaram-se ao vírus.

Passamos de 400 mil mortes. Esse morticínio atordoa, as crianças e famílias que caem no desamparo, se desorganizam, também perdem a vida por outra que começa e só podem temer.

O vírus não é o causador único dessa imensa desgraça coletiva. Tanto que maio e junho são esperados por cientistas como ainda mais calamitosos no Brasil. E explicam: por decorrência da baixa vacinação até aqui, da falta de vacinas porque o governo chegou tarde, desacreditado e arrogantemente suspeito ao balcão mundial dos imunizantes.

Logo, os passos degradantes na escala socioeconômica, mais do que continuar, vão se acelerar em número e em desumanidade. Nenhuma resposta lúcida pode ser esperada do governo que pretende até cortar mais gastos sociais.

Se a sociedade, por sua vez, é inerte por preguiça moral maciça ou indolência cultural incapacitante, a alienação é a mesma e mesma a consequência. Então, lamento, o que há a dizer é isto: a perspectiva de futuro próximo é péssima —talvez seja o que nossa paralisia mereça.

'CPI é tribunal de guerra durante a guerra', declara ministro Paulo Guedes

O ministro Paulo Guedes (Economia) considera inoportuna a CPI da Covid. "Estamos em meio à pandemia. Isso é equivalente a fazer um tribunal de guerra durante a guerra contra o vírus", disse ele, em entrevista ao jornal O Globo.

Para Guedes, os responsáveis pela CPI sofrerão desgaste político. "Você acha que a classe política vai sair bem disso? Foi o que eu sempre falei: subir em cadáveres para fazer política numa hora dessas... Acho que a população brasileira não vai apreciar isso. Ela quer resolver o problema. Ela quer a preservação da vida e dos empregos."

Perguntou-se ao ministro se a investigação legislativa não pode levar à correção de rumos na gestão da pandemia. E ele: "Eu acho que levantar o tema, de que nós vamos fazer uma CPI, já estimularia a correção de rumos. Temos um desafio difícil pela frente: evitar que a politização da crise piore a gestão da crise.".

Guedes manifestou o receio de que a CPI paralise as reformas econômicas que tramitam no Congresso. "Vacinação em massa e reformas é o ganha-ganha. Acho que precisa desse equilíbrio: de um lado, vamos fazer a CPI que eles acharem que é oportuno fazer, mas, por outro, não paralisem as reformas."

Ironicamente, a análise das reformas já estava paralisada no Congresso antes da pandemia e da CPI. Durante a entrevista, o ministro reconheceu que o próprio Bolsonaro não apoia 100% a agenda de reformas liberais prometida em 2018. "O presidente mesmo brinca que já foi 99% (o apoio às reformas). Agora é 97%, ele fala. Aí eu brinco: 'Não, presidente, o senhor está em 65%'."

O que Guedes não disse é que o suposto interesse pelas reformas ressurge justamente como reação à CPI. O governo tenta evitar que a investigação legislativa monopolize o noticiário. Faz isso com a ajuda do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), adversário político do relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL).

Guedes fala sobre as reformas como se uma mágica fosse fazê-las decolar. "Temos nos próximos 90 dias as reformas administrativa e tributária e os marcos regulatórios para destravar os investimentos.".

Do modo como se expressa, o ministro parece preparar o discurso que fará num futuro próximo, para culpar alguém pelo fiasco do seu plano reformista. "Quer fazer a agenda de CPI, pense que estamos no meio de uma pandemia. Faça, mas com alguma moderação pra não desorganizar tudo. Tanto as medalhas quanto as avaliações nos tribunais de guerra são feitas logo após a guerra."

Crivado de críticas, assediado por pressões do centrão para desmembrar o seu mega-ministério e às voltas com baixas frequentes em sua equipe, Paulo Guedes não cogita deixar o governo. O ministro considera a si mesmo como um personagem indispensável ao governo Bolsonaro e ao país.

"Sem falsa modéstia, eu sei que fui crucial em momentos decisivos. Eu tenho um senso de responsabilidade muito grande. Não só com a pessoa que confiou em mim, que foi o presidente. Mas principalmente com quem ele representa, que são 200 milhões de brasileiros."

Guedes prosseguiu: "O senso de responsabilidade e compromisso com os brasileiros que estão lá fora são muito maiores que a preocupação de ficar bem na fotografia. É muito fácil falar: 'Não privatizaram duas ou três empresas, vou sair porque não estão me atendendo.' Como é que vai sair no meio de uma pandemia, com pessoas morrendo?".

Resta saber até quando Bolsonaro considerará o trabalho do ex-superministro da Economia essencial. A pergunta de Paulo Guedes —"Como sair com pessoas morrendo?"— não impediu o capitão de instalar no estratégico Ministério da Saúde uma porta giratória pela qual já passaram o ortopedista Henrique Mandetta, o oncologista Nelson Teich e o general Eduardo Pazuello. O cardiologista Marcelo Queiroga é o quarto ministro da Saúde. E não há segurança de que seja o último.

'Políticos favorecem ciência que se alinha com suas próprias preferências'

"Estamos seguindo o que diz a ciência".

Desde o início da pandemia, governos e autoridades têm usado essa frase para explicar as ações que tomam para impedir a disseminação do coronavírus.

Alguns especialistas, entretanto, acreditam que uma frase que soa tão sensata pode ter implicações mais profundas.

"A forma como a ciência se transforma em política pública depende de cálculos políticos e econômicos, bem como dos compromissos morais e ideológicos de políticos, partidos e assessores", escreveu a socióloga Jana Bacevic em uma coluna do Guardian, em abril de 2020.

"Raramente, ou nunca, é apenas sobre 'ciência'.


Bacevic é pesquisadora na Universidade de Durham, no Reino Unido, com especialização em políticas públicas e filosofia da ciência.

Durante a pandemia, Bacevic estudou como líderes políticos usaram os conselhos científicos que receberam.

"Os políticos tendem a favorecer o tipo de ciência que se alinha com as preferências que eles já têm", escreveu Bacevic.

Para a especialista, "focar a atenção apenas na ciência evita deliberadamente questões sobre responsabilidade política".

Durante a pandemia, muitos líderes políticos repetiram a frase "estamos seguindo a ciência", para explicar as medidas que tomaram para combater a transmissão do vírus. Esse parece o caminho certo a seguir, mas, do ponto de vista dela, o assunto é mais complexo…


Sim, uma das coisas que eu disse, desde o início da pandemia, é que a maneira como os políticos usam a ciência é uma justificativa para tomarem diretrizes políticas específicas ou ações que eles decidiram tomar.

Nesse sentido, é incorreto dizer que estão seguindo a ciência, porque isso significaria que a ciência lidera, quando, na realidade, são os políticos que lideram.

Eles decidem seguir alguns tipos de evidências científicas. Decidem aceitar ou ouvir certos tipos de conselhos científicos.

E, obviamente, excluem outros conselhos científicos, muitas vezes desses mesmos cientistas ou conselheiros. Então, na verdade, são os políticos que estão no comando.

Uma das razões pelas quais me pareceu importante chamar a atenção para isso é justamente porque senti, especialmente no início da pandemia, que, embora tenha mudado de alguma forma, alguns políticos estavam usando a ciência quase como uma desculpa para ignorar, ou pelo menos minimizar, a responsabilidade deles por certas ações, ou, mais frequentemente, por não tomar certas ações.

Quais seriam alguns exemplos de políticos usando a ciência em favor de suas decisões ou preferências?

Um exemplo claro no início da pandemia foi o que ficou conhecido como "giro em U", no Reino Unido, em relação às restrições de circulação.

No início da pandemia, o governo do Reino Unido manteve a decisão de não levar em conta as sugestões de seus próprios consultores científicos, e sabíamos disso porque esses conselhos estão disponíveis ao público, então sabemos o que eles diziam.

Então, quando o governo decidiu implementar o confinamento em uma base limitada, eles citaram novas evidências, disseram que estavam seguindo um novo modelo do Imperial College London.

O que minha pesquisa e a imprensa mostraram é que esse modelo foi apresentado ao governo do Reino Unido meses antes, em janeiro, e não em meados de março, quando começou a ser levado em consideração.

Portanto, não era realmente um modelo novo. Era um modelo que lhes dizia algo que eles já sabiam, só que agora eles falam com um nível mais alto de certeza.

Nesse sentido, a ciência era a mesma, nada havia mudado em relação à ciência daquele modelo.

É possível que algo tenha mudado na forma como a ciência era comunicada, mas isso não muda o fato de o governo ter relutado em intervir ou em tomar medidas que poderiam ser vistas como radicais.

Então, esse foi um exemplo claro em que uma suposta mudança no parecer científico foi feita. Não direi como uma "desculpa" porque isso beiraria o difamatório, mas foi claramente usado como uma justificativa para mudar o curso de ação, mas a ciência em si não mudou em nada.

Outro exemplo pode ser visto em diferentes governos, sobre como eles abriram e fecharam partes da sociedade, por exemplo, escolas.

Nesse sentido, a ciência tem sido mais ou menos firme em dizer que não há razão para supor que as escolas ficarão isentas da transmissão do vírus.

Em alguns casos, os governos decidiram abrir escolas, sem exigir o uso de máscaras e sem uma justificativa relacionada às taxas de transmissão.

Basicamente, eles optaram por aceitar que a taxa de contágio aumentaria.

Outra frase muito comum dos governantes é que eles tomam suas decisões com base "na melhor ciência disponível", uma frase sobre a qual você também tem suas ressalvas…

O problema disso, especialmente no início da pandemia, quando não se sabia muito sobre as rotas de transmissão ou taxas de mortalidade, é que em muitos aspectos não existia "a melhor ciência disponível".

Para ser mais preciso, o que era considerado a melhor ciência disponível era aquela que os políticos consideravam a melhor, embora nem sempre por razões científicas.

Os cientistas muitas vezes discordam entre si em muitas questões, mas, o que é mais importante é que os cientistas raramente têm um conceito político ou ideologia para orientar o que sugerem.

Nesse sentido, os políticos estavam sendo guiados pelos sinais que chegavam para eles na época, mas estavam escolhendo o tipo de evidência que levavam mais a sério.

Em vez de dizer que estão seguindo a melhor ciência disponível, qual seria a forma mais transparente de dizer isso?

Não acho que podemos esperar que os políticos digam isso de uma forma mais transparente. Mas se pudéssemos escolher de que forma eles poderiam dizer isso, acho que uma forma razoável seria dizer que eles estão sendo guiados pela ciência que lhes parecem úteis para os fins políticos que desejam alcançar.

Você diz que os conselhos científicos estão limitados ao que os governantes perguntam, mas também pelo que eles não perguntam. A que você se refere?

É muito importante entender isso em termos de como funciona o assessoramento dos cientistas aos políticos.

No início da pandemia, quando se falava de painéis de assessoria científica, as pessoas imaginavam salas de controle com várias telas, como uma mistura de Star Wars e Minority Report.

Na verdade, geralmente é mais uma sala de reuniões. Os encontros entre políticos e consultores científicos geralmente têm um tempo e alcance muito limitados.

Os políticos geralmente chegam a essas reuniões dizendo "ok, assuntos x e y estão fora de discussão. Com base na pequena margem de manobra que temos, o que precisamos saber?"

Nessas reuniões eles não perguntam "nós realmente queremos proteger a população, o que devemos fazer?"

Basicamente, o tipo de pergunta que eles fazem é: "Suponha que não disséssemos às pessoas para trabalhar em casa. O que aconteceria nesse caso?"

Então, eles realmente não pedem conselhos científicos. O que eles fazem às vezes é pedir conselhos políticos ou que sugiram um sentido de ações de políticas públicas, o que é diferente.

Quando falam com consultores científicos, eles perguntam apenas o mínimo que lhes permita entender quais serão as consequências de suas ações em assuntos que eles não conseguem entender. Por exemplo, transmissão ou taxas de mortalidade.

Em casos como o de Donald Trump nos Estados Unidos ou Jair Bolsonaro no Brasil, parece que foi mais fácil chamar a atenção sobre sua forma de agir, porque negam abertamente a ciência. Mas e os líderes que dizem que estão seguindo o que a ciência diz?

Acho que essa é uma das razões pelas quais, de certa forma, tem sido mais fácil fazer oposição em lugares como os Estados Unidos.

Presumo que foi isso que vimos na eleição de 2020, uma oposição à negação explícita da ciência feita por Trump, que em alguns casos chegou a quase apoiar a pseudociência.

Mas sim, é verdade que é mais difícil com políticos e líderes que afirmam estar seguindo a ciência.

Nesse caso, acho que há duas coisas a serem observadas.

A primeira é se eles estão realmente seguindo os pareceres científicos. Porque os painéis de assessoria científica, em alguns casos, publicaram seus posicionamentos e recomendações.

No Reino Unido, o painel de assessoria científica publicou suas recomendações e os modelos preditivos que fizeram desde o início da pandemia.

Esses documentos são de acesso público.

Os que não o são, em alguns casos, podem ser obtidos com pedidos de acesso à informação, embora alguns desses pedidos tenham sido repetidamente negados.

Por outro lado, os conselhos consultivos científicos muitas vezes vazam informações para a imprensa, por isso é possível acompanhar o desacordo entre a opinião de especialistas e políticos.

Alguns desses casos têm sido óbvios, por isso os políticos costumam dizer: "ok, essa é a recomendação científica, mas é esse o caminho que decidimos seguir".

Acho que isso nos diz que os políticos não temem mais ser vistos como alguém que decide interpretar a ciência à sua maneira, sem contradizê-la explicitamente.

O outro ponto, que o Reino Unido pode ser usado como bom exemplo, é que existem painéis de assessoria científica independentes.

Existe o Grupo de Assessoramento Científico para Emergências (Sage, por sua sigla em inglês), que não tem qualquer vínculo com o governo, mas emite pareceres de especialistas que, em alguns casos, se desviam do curso de ação que o governo decidiu tomar.

Agora, também é importante dizer que há muitos cientistas que seguiram teorias controversas ou menos confiáveis, e isso é algo com o qual devemos ser particularmente cuidadosos.

Dizer que eles estão seguindo a ciência tira um fardo dos governantes?

Para ser honesta, os políticos assumem uma responsabilidade em virtude de seus cargos.

Acho importante observar que quando a pandemia começou, apesar de haver medidas de biossegurança e modelos de cenários preparando os políticos e o aparelho de governo de qualquer país para um evento como este, muitos políticos foram pegos de surpresa.

O problema com as pandemias é que elas dão apenas algumas oportunidades para o heroísmo e ainda menos oportunidades para o nacionalismo.

Isso ocorre em parte porque o vírus atravessa fronteiras e em parte porque não há muitos eventos heróicos que possam ser feitos por políticos.

Os verdadeiros heróis da pandemia, por definição, são a equipe médica e os trabalhadores de emergência.

Essas pessoas não são exatamente as que tendem a estar no centro das atenções, especialmente em países onde tem havido um subinvestimento consistente ou privatização do sistema de saúde.

Nesse sentido, acho que seria justo dizer que muitos políticos foram pegos de surpresa e não conseguiram ver como essa crise poderia se transformar em uma oportunidade política.

Isso os coloca em uma situação difícil, especialmente os políticos populistas.

Acho importante observar que muitos políticos populistas estão observando de perto o que aconteceu nas eleições nos Estados Unidos.

Nesse sentido, acredito que eles estão cada vez mais preocupados em justificar suas próprias decisões, ou tentando dar a impressão de que estão fazendo o seu melhor, para que mais tarde não sejam responsabilizados ou culpados por altas taxas de mortalidade ou outros impactos da pandemia.

A ciência é política?

Ciência é política. Sempre disse isso abertamente. Para mim, política é a arte ou o processo de convivência e, como a ciência faz parte da sociedade, está sempre envolvida nas questões políticas. As decisões científicas têm consequências políticas.

E também as decisões científicas, incluindo pesquisas científicas, têm pré-requisitos políticos, incluindo financiamento.

A ciência é uma coisa boa, mas se não há financiamento, não há ciência. E isso é importante em relação a que tipo de ciência recebe financiamento e qual não.

Tem havido apelos, não apenas no caso da pandemia, mas em outras questões como a mudança climática, para que os cientistas sejam mais abertamente políticos.

Por exemplo, para os especialistas em clima dizerem abertamente não apenas que o aquecimento global é uma realidade gerada pelo homem, mas que isso significa que os políticos deveriam fazer isso ou aquilo.

Mas acho que isso é perturbador, no sentido de que os cientistas não têm tempo, nem autoridade, nem poder para tomar decisões políticas.

Embora possam ter suas opiniões ou ter clareza sobre as consequências de não agir de acordo com seus conselhos, na política são os governantes que devem ser responsabilizados.

Você acha que essa pandemia pode mudar de alguma forma a maneira como a ciência é usada para tomar decisões políticas?

Diria que o assessoramento científico e o processo de fornecimento de assessoria científica devem ser mais abertos e transparentes para o público, porque penso que isso permitiria ao público exigir dos políticos.

O que costumamos fazer hoje é presumir que o conselho dos cientistas é muito complexo ou muito técnico para o público entender.

Obviamente, em muitos casos isso é verdade, mas não precisa ser assim.

Por alguma razão, não há uma expectativa de que as pessoas comuns entendam questões básicas de economia ou a transmissão de um vírus.

Acho que devemos nos perguntar como podemos capacitar as pessoas para entender o que está acontecendo de uma forma que lhes permita responsabilizar os políticos.

É isso, em vez de nos perguntarmos como poderíamos consertar a relação entre consultores científicos e tomadores de decisão, porque isso deixa o público na incerteza.

Precisamos de uma prestação de contas mais democrática, e isso deve envolver o público, não apenas políticos e cientistas.