sábado, 21 de novembro de 2020

Desprezo de Bolsonaro pelos diferentes e os sem poder foi um tiro pela culatra

Ninguém melhor que Bolsonaro, que adora fuzis e pistolas, para estar acompanhado da expressão “o tiro saiu pela culatra”. Chegou à Presidência com sua carga de desprezo e desinteresse pelos diferentes e sem poder, algo que sempre o tinha caracterizou, mas desta vez com a força e a liberdade conferidas por ser chefe de Estado.

Esse mundo que tanto o incomoda e que ele costuma mencionar sem nenhum sinal de empatia e com adjetivos humilhantes nunca chegou tão ativo e com tanta vontade de reivindicar seu poder como com Bolsonaro. Foi uma espécie de rebelião silenciosa que se concretizou nas vitórias colhidas nas últimas eleições, as primeiras que viram serem eleitas tantas mulheres, inclusive trans, tantos negros e indígenas, tantos diferentes, enquanto fracassaram seus candidatos “machos e fortes”.

Não é que o mundo dos diferentes e portanto dos excluídos do poder, que constituem a grande maioria neste país, não tenha sido sempre mantido à margem da sociedade, sem que pudesse participar do banquete que, graças a eles, os privilegiados podem desfrutar. Foram-no sempre na história do Brasil, apesar de constituir a maioria do país e a mão de obra dos que acumularam sempre 90% das riquezas.



Eu me refiro aos nativos conquistados pelos brancos europeus, os negros herdeiros da escravidão, as mulheres que arcaram toda a vida com os trabalhos mais duros e sempre sendo humilhadas. Muitas delas passaram a vida trabalhando dentro de uma família rica, sem que nem sequer uma vez fossem chamadas por seu nome. E sempre mais mal pagas que os homens.

Todos estes excluídos, todos os sexualmente diferentes vistos quase como uma raça inferior, e talvez com maior força neste país que sempre manifestou uma carga grande de racismo, puseram em marcha uma grande revolução em defesa dos seus direitos durante este governo machista e homofóbico.

O resgate dos diferentes, começando pelas mulheres, foi crescendo no mundo graças à cultura e às lutas já conhecidas a favor de sua emancipação. No Brasil, entretanto, o trabalho foi sempre mais lento pela carga de preconceitos que arrasta. Não faz muito tempo ainda que a mulher não tinha direito de votar e era vista como propriedade e objeto de seu marido.

Quando Bolsonaro chega ao poder com sua carga de desprezo pelas mulheres, os homossexuais, os negros e os indígenas, que segundo ele são um peso inútil no país, estes já eram considerados inferiores e relegados a papéis secundários.

Sempre o mundo dos mais pobres, privados de cultura e diferentes esteve à margem do poder. A diferença hoje é que esse mundo dos sempre excluídos nunca foi tão humilhado e desprezado publicamente como com este presidente, um capitão frustrado que chegou ao poder com sede de vingança.

É fácil imaginar a raiva e humilhação que Bolsonaro deve ter sentido nas eleições do domingo ao ver derrotados seus candidatos “machos” apoiados por ele, uma grande parte militares, enquanto que os que ele mais despreza não só foram escolhidos como também, como algumas mulheres e não poucos negros e indígenas, foram os mais votados.

Deve ter sido duro para Bolsonaro ver como mulheres e trans, ou lésbicas, até ontem olhadas com maus olhos, eram eleitas e ainda tinham mais votos que seus competidores masculinos e “normais”. Nem sequer sua ex-mulher foi eleita vereadora no Rio, que é seu reino da vida toda.

Deve ter sido tão forte sua humilhação que tentou envenenar as eleições sustentando suspeitas sobre a apuração dos votos. E quando no dia seguinte seus seguidores fiéis e fanáticos lhe perguntaram sobre o resultado das eleições, pela primeira vez lhes disse que não falaria, que não estava “se sentindo bem”. Mas sentir-se mal, logo ele, o atleta macho que não se dobrou à covid-19?

Não é isso sair o tiro pela culatra? E nada mais perigoso para um governante como Bolsonaro que ver os menosprezados ressuscitarem do inferno da exclusão. São essas pessoas, começando a reconquistar sua dignidade secularmente humilhada, que, num feliz paradoxo, poderiam se tornar o pior perigo que ameaça seu trono.

Não são poucos os analistas que consideram que o triunfo desses diferentes desprezados por Bolsonaro poderá acabar sendo mais perigoso para ele, pois estes chegam com a consciência desperta de estarem reconquistando sua dignidade humilhada.

E junto com o triunfo eleitoral dos até ontem desprezados, Bolsonaro, o obsessivo pelos comunistas e por tudo o que cheire a esquerda, como se se tratasse de gente saída do inferno, para quem seu melhor lugar seria o exílio, a prisão e a câmara de tortura, sentiu nestas eleições ressurgir uma nova esquerda. Uma esquerda menos aburguesada, que reivindica os direitos dos diferentes e excluídos, dos sem-teto, que ainda são milhões neste país e vivem mal no inferno das periferias das grandes urbes, e estão escorregando para a miséria e até a fome por falta de emprego e de oportunidades.

Se outrora as esquerdas clássicas, hoje muitas delas aburguesadas, se interessavam, graças aos grandes sindicatos, pelos trabalhadores fixos para melhorar suas condições de vida, hoje a nova esquerda que surgiu com força nestas eleições se interessa, pelo contrário, pelos sem-trabalho e pela defesa dos excluídos que são os novos proletários da sociedade. Todo esse mundo que Bolsonaro gostaria de ver ser arrastado pela pandemia como peças inúteis do seu poder autoritário e machista.

Desigualdade que espanca

Para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar para o Brasil, isso não existe aqui. Não tem racismo aqui. Digo porque eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Eu morei dois anos nos Estados Unidos e, na minha escola, o pessoal de cor andava separado, o que eu nunca tinha visto no Brasil.
Aqui o que você pode pegar e dizer é que existe desigualdade, fruto de uma série de problemas e grande parte das pessoas de nível mais pobre, que tem menos acesso a bens e necessidades da sociedade moderna
General vice Hamilton Mourão, de pijama e chinelas, incorporando o personagem Pantaleão

Um tiro pela culatra

Jair Bolsonaro não poderia ter oferecido um flanco de ataque melhor para seus críticos no Brasil e no exterior ao anunciar que divulgaria uma lista de todos os países que importam ilegalmente madeira brasileira. A ameaça foi feita nesta terça-feira, durante a cúpula virtual do Brics, ou seja, o encontro anual dos presidentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.


Os demais chefes de Estado devem ter se perguntado por que o brasileiro abordou esse tema. Ao que tudo indica, Bolsonaro pretendia assim expor a hipocrisia dos que, por um lado, atacam sua política para a Amazônia, ao mesmo tempo que compram madeira ilegal do país. Portanto, sobretudo seus críticos da União Europeia e Estados Unidos.

Nesse ínterim ele recuou e disse que vai divulgar só uma lista das empresas, e não dos países. Possivelmente o Itamaraty o advertiu sobre a crise de politica externa que ele desencadearia, caso cada país acusado ativasse seus diplomatas para responder às imputações.

É óbvio que desse modo Bolsonaro pretende agitar seu eleitorado. Mas o tiro vai sair pela culatra. Pois agora todos na Europa e EUA veem confirmado que o Brasil não está em condições de produzir e exportar de forma sustentável. Pois se não estão em ordem nem mesmo os documentos de exportação de suposta madeira tropical cultivada, então são justificadas as dúvidas quanto à carne bovina e de aves, soja, couro, cacau, látex... até suco de laranja, frutas tropicais, café, celulose, açúcar.

É longa a lista dos produtos agropecuários brasileiros sobre os quais os produtores devem se preparar, desde já, para ter que renegociar com seus compradores no Hemisfério Norte. Até o momento, os fazendeiros nacionais estão basicamente unidos no respaldo ao presidente. Mas o que vai acontecer se seus mercados e faturamentos despencarem?

O segundo ponto em que Bolsonaro se autoprejudica com suas bizarras ameaças é que, de um só golpe, expôs toda a cadeia ilegal da indústria madeireira que ele próprio favoreceu e incentivou.

Pois o que acontece não é as árvores da floresta tropical serem contrabandeadas em operações clandestinas, para serem descarregadas secretamente em Roterdã ou Los Angeles e transformadas em tábuas de assoalho: toda a madeira ilegal deixa o país com documentos falsificados, expedidos por funcionários corruptos.

Além disso, o governo federal chegou a decretar, por algum tempo, que até mesmo espécies de árvores ameaçadas de extinção poderiam ser exportadas sem necessidade de licença especial. Em 2019, o Ibama não impôs uma única multa por exportação ilegal.

Agora Bolsonaro admite publicamente que o Brasil não controla a extração e o comércio da madeira tropical, como acusavam há tempos as organizações ambientais. Em investigações minuciosas, elas provaram que o comércio de madeira ilegal é apoiado por conceituados financiadores, compradores e manufatores do Brasil e do Hemisfério Norte.

Porém agora é o próprio presidente a lançar luz sobre essas escusas relações de negócios – provavelmente para grande satisfação dos ambientalistas. Nenhum banco, cadeia de varejo ou fabricante de automóveis pode mais se permitir estar envolvido em algum ponto dessa cadeia de fornecimento.

Os primeiros a sentir os efeitos serão os adeptos de Bolsonaro – e os sentirão no bolso. Ou seja, os fazendeiros, madeireiros, proprietários de serras elétricas e funcionários cuja renda agora sofrerá um baque. Esse processo não se iniciará já, mas no médio prazo, sim.

Com o Natal às portas, o presidente do Brasil não poderia ter dado um presente de festas melhor do que esse a seus críticos.
Alexander Busch

Estudo da USP mostra que humoristas fortaleceram 'branqueamento' da sociedade brasileira com piadas racistas

Uma pesquisadora do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) identificou que o humor praticado pela elite intelectual no período pós-escravidão contribuiu fortemente para a manutenção do racismo e, até mesmo, para o “branqueamento” da sociedade brasileira.

No estudo “Quaquaraquaquá quem riu? Os negros que não foram...”, a professora Maria Margarete dos Santos Benedicto afirma que as primeiras décadas após a proclamação da República, em 1889, foram marcadas pela busca por uma identidade nacional, pela intensificação da atividade urbana e, sobretudo, pela instabilidade social, com a maior parte da população na pobreza e formada por escravos recém-libertos.

De acordo com Maria Margarete, àquela altura, a elite política e intelectual realmente se debruçava sobre o “problema negro”, e parte dela apostava efetivamente no "branqueamento" da sociedade por meio da miscigenação e de leis, que incentivavam a imigração de colonos europeus, de modo que “a ‘raça negra’ poderia ser reduzida em três gerações”. A professora lembra que o período foi descrito pelo estudioso Abdias do Nascimento como a "materialização do racismo institucional".



Por meio de uma ampla pesquisa e do acesso a documentos históricos raros, a professora identificou que as revistas da época, que apresentavam os primeiros textos e charges satíricas produzidas e destinadas à "classe letrada", fortaleciam essa ideologia no modo como os negros eram representados.

"O que aprendemos nos livros é uma história eurocêntrica, com questões políticas e sociais da Europa, de modo que eu podia apenas desconfiar que a elite intelectual daquela época era racista, o que ficou comprovado na quantidade de material que encontrei na minha pesquisa, em fontes dispersas. Nessa documentação ficou nítido o empenho pelo branqueamento da nação. Era o racismo ali, literalmente, o racismo", disse a professora ao G1.

"Há um verso do compositor Emicida que resume a minha tese e que diz: 'a dor dos judeus choca, a nossa vira piada'", continuou Maria Margarete dos Santos Benedicto.



A charge acima foi batizada "Hulha Nacional" porque hulha é um tipo de carvão e foi utilizado como referência à cor da pele da mulher negra. Na ilustração, embora elegantemente vestida, a mulher ainda pergunta, “É pá cozinhá?”, ao que o industrial branco lhe responde “é pra tudo, minha nega, pra tudo!”.

“Observemos que o trajar, as joias, a bolsa, o penteado do cabelo – que já não é crespo, mas cacheado devido ao processo de miscigenação – é a representação estética inspirada no modelo europeu, e também não deixa de ser uma representação do processo eugênico, de 'limpeza', pelo qual passou”, escreveu Maria Margarete no estudo.

As ilustrações constam na revista D. Quixote, de propriedade de Manoel Bastos Tigre, que também era diretor da publicação. Segundo a pesquisadora, a revista debochava da afetação típica do período chamado “Belle Époque”, ao mesmo tempo em que reforçava os estereótipos por meio de charges, frequentemente representando as pessoas negras de maneira submissa, ingênua e pouco instruídas, além de demarcar os lugares sociais que deveriam ser ocupados por elas.

Em “Salvo Seja”, abaixo, dois homens brancos dialogam: “Falsa magra? Errado. É uma falsa negra”, revelando um “bom funcionamento da política de branqueamento”, que culminaria na “mulata”.


As ilustrações publicadas mostravam ainda que os empregados negros "estariam se aproveitando de generosos empregadores, que lhes ofertavam confiança, enquanto reclamavam, eram pouco afeitos ao trabalho e fofoqueiros", sempre vestidos com aventais, até quando desempregados.

Embora muitos intelectuais do período tenham deixado esses rastros de racismo no humor, o estudo da professora Maria Margarete se concentra em três personagens conhecidos do período - além de Manoel Bastos Tigre, proprietário e diretor da revista D. Quixote, apresentada acima, ela também analisou os trabalhos de Antônio Torres e Emílio de Menezes, que escreviam textos satíricos publicados na mídia impressa.

Segundo a pesquisa, Antônio Torres se apresentava como mulato, mas revelava em seus textos que considerava civilizado o europeu. No texto satírico “A Vitória dos Mulatos”, publicado em 1917 na revista D. Quixote, ele “delata”, ironicamente, as “falhas” que seus contemporâneos estariam tentando ocultar.

“Na prefeitura temos o dr. Arnaldo Cavalcanti, honra da raça. No Senado, além do dr. Rivadavia Correia, que é mulato disfarçado, temos o jovem Eloy de Souza, que ainda há pouco declarou que não podia viver com menos de cem mil reis diários. Este é o tipo perfeito de mulato cheiroso (...)”, escreveu ele, que também chegou a descrever, João do Rio, integrante da Academia Brasileira de Letras, como alguém “que se diz fidalgo, apesar da beiçorra etiópica e de seu prognatismo camítico”, escreveu.

"A minha grande surpresa foi descobrir que Antônio Torres era negro, e perceber que ele é o símbolo do que o 'branqueamento' e a miscigenação fizeram com parte da população negra. A miscigenação, conforme indicou o cientista social Carlos Moore, ao contrário do que se pensava, não reduziu o racismo; na verdade, o potencializou. O mestiço, nesse contexto, acaba assimilando a cultura do branco dominador", disse a professora ao G1.

De modo semelhante, Emilio de Menezes, imortal da Academia Brasileira de Letras, escreveu em 1911, na revista A Imprensa, à respeito de um contemporâneo dele, médico e intelectual que fora a Londres para um congresso.

“Corre perigo a vida do Dr. João Batista de Lacerda, que escreveu que a grande maioria dos brasileiros é de mulatos. Uma tão grande calúnia não pode ficar impune. Quando ele chegar, os brancóides desta terra lincham-no e os netos dos negros comem-lhes os fígados. Provarão assim que são loiros e têm olhos azuis”, debochou.

Movida pela pergunta “O humor pode contribuir para a manutenção do racismo na sociedade?”, Maria Margarete conclui que sim, e que embora a abolição tenha libertado os escravos, "o defeito da cor persistia na nascida República, o status quo racial foi mantido, e passou a ser utilizado para garantir as diferenças sociais”, escreveu a pesquisadora.

"Minha tese não é uma censura ao humor: é uma análise do humor. Os humoristas têm direito de fazer humor, e a sociedade tem o direito de não rir e de criticá-lo às vezes. Aquele humor propagou e perpetuou o racismo, porque o riso, de fato, tem uma essência histórica, e uma ressonância na sociedade", disse a pesquisadora Maria Margarete à reportagem. "Sou filha caçula, e me lembro de quando minhas irmãs implicavam e me faziam chorar. Nesses casos, minha mãe dizia: ‘quando um só ri, não é brincadeira’", completou.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Brasil , agora, tá direito

 


A segunda onda da ignorância de rebanho

O mundo político emprega todas as suas energias na discussão sobre quem ganhou a eleição, se foi o centro ou a direita cheirosa, e o que eles e seus partidos podem fazer com isso para manter o poder de cada dia e chegar mais ou menos fortes a 2022. Uma canseira. Na vida real, a Covid-19, insidiosa, volta a lotar os hospitais. A média móvel de mortos aumentou 45% nos últimos 15 dias. Há tendência de alta em 14 estados, que registraram um crescimento de 71% no registro de casos.

Tecnicamente, talvez nem se possa chamar esse recrudescimento da pandemia de segunda onda, já que, aqui, a primeira nem acabou. Pouco importa a designação, porém, diante da perspectiva de repetição de uma tragédia. E da atitude do governo Bolsonaro diante da tragédia.

Há semanas o fantasma já vem rondando, com notícias de que o vírus voltara a atacar forte nos países europeus, o primeiro sinal do que poderá acontecer em breve no Brasil, como ocorreu na primeira onda. Por aqui, depois da retomada gradual das atividades nas escolas, na indústria e no comércio, o brasileiro, até com razão cansado, parece ter perdido de vez o controle. O que temos visto são aglomerações nas ruas, restaurantes cheios, praias lotadas, transporte público entupido e até festa nos vizinhos. Cada vez menos cuidado com máscaras, álcool, etc.


O que o governo faz diante disso? Nada, como pouco ou nada fez quando, no início do ano, já víamos a pandemia tomar conta da Europa, contaminando, matando, fechando tudo, bloqueando fronteiras e alguém aqui falava em “gripezinha”. Ela chegou e deu no que deu: mais de 5 milhões de casos, em situação de óbvia subnotificação, e quase 170 mil mortos. E é bom lembrar: naquela época, quem ocupava o Ministério da Saúde era Luiz Henrique Mandetta, e não Eduardo manda-quem-pode Pazuello.

É óbvio que o atual ministro não vai peitar o presidente da República para tomar providências com o objetivo de proteger a saúde da população – providências que, aliás, talvez ele nem saiba bem quais são. Tudo indica que a inépcia, o improviso e a irresponsabilidade com os quais Bolsonaro enfrentou a situação pela primeira vez vão se repetir. O presidente não se sensibilizou, não aprendeu nada, nem mudou para melhor – e temos tido provas diárias disso. Para Bolsonaro, a segunda onda é “conversinha”, do jeito que a primeira foi “gripezinha”.

Justiça seja feita ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que anunciou que haverá pagamento de auxílio emergencial em caso de segunda onda, ainda que, supõe-se, em valor menor. Mas integrantes de sua equipe, ansiosos pelo ajuste fiscal que se faz necessário, entraram na negação bolsonarista. Já decretaram que são “baixíssimas” as chances de um retorno da pandemia, alegando que a maioria das grandes cidades brasileiras teria alcançado a tal “imunidade de rebanho”.

Não é o que os médicos dizem, e só não vê quem não quer os seguidos alertas que vêm fazendo na mídia, pregando a retomada de medidas como o isolamento social e manifestando enorme preocupação com as festas de fim de ano. Não é também a opinião de economistas independentes, que começam a ver no horizonte sinais da nova catástrofe.

Todo mundo sabe que, de onde menos se espera, é que não sai nada mesmo – e aqui falamos do governo Bolsonaro e sua ignorância de rebanho. É urgente e imprescindível que as instituições do Legislativo e do Judiciário, incluindo políticos e candidatos neste segundo turno, comecem a olhar para o tsunami que se aproxima da praia. Só vota em 2022 quem ficar vivo.
Helena Chagas

Trilha de pó


O futuro é a única propriedade que os senhores concedem de boa vontade aos escravos
Albert Camus

Brasil perde 'uma reforma da Previdência' por ano em impostos não pagos por milionários e empresas

O Brasil deixa de arrecadar por ano em impostos não pagos por multinacionais e milionários o equivalente à economia média anual esperada pelo governo com a reforma da Previdência, aponta estudo inédito divulgado na quinta-feira (19/11) pela Rede de Justiça Fiscal (Tax Justice Network).

Segundo o levantamento, são US$ 14,9 bilhões (cerca de R$ 79 bilhões ao câmbio atual) em impostos que deixam de ser recolhidos pelo país por ano. A economia estimada pelo governo com a reforma da Previdência é de R$ 800,3 bilhões em uma década, o que resulta em uma média anual de R$ 80 bilhões.

Esse valor faz do Brasil o quinto país do mundo que mais perde impostos devido à elisão (uso de manobras lícitas para evitar o pagamento de taxas, impostos e outros tributos) e evasão fiscal por multinacionais e pessoas ricas, atrás apenas dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França, conforme o estudo.



Em todo o mundo, são US$ 427 bilhões (R$ 2,3 trilhões) em impostos perdidos, sendo US$ 245 bilhões devido à transferência legal ou ilegal de lucros de multinacionais para paraísos fiscais e US$ 182 bilhões não pagos por milionários que escondem ativos e rendimentos não declarados no exterior.

Os dados fazem parte da primeira edição do relatório "Estado Atual da Justiça Fiscal", que passará a ser divulgado anualmente.

O estudo foi possível pois, pela primeira vez, em julho deste ano, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) disponibilizou ao público os dados dos chamados relatórios país a país, colhidos pela entidade nos últimos cinco anos como parte da iniciativa Beps (Erosão da base tributária e transferência de lucros tributáveis, na sigla em inglês).

Nesses relatórios, todos as multinacionais com sedes em países da OCDE e lucro acima de 750 milhões de euros (R$ 4,7 bilhões) por ano são obrigadas a reportar seus registros financeiros, com dados para cada país em que a empresa atua.

"É evidente que existe um problema de desequilíbrio das contas públicas no Brasil e um ajuste fiscal precisa ser feito, mas as propostas sempre focam no lado do corte de despesas", afirma Gabriel Casnati, coordenador de projetos internacionais da ISP (Internacional de Serviços Públicos), entidade parceira da Rede de Justiça Fiscal na realização do estudo.

"O que os dados mostram é que há espaço para se pensar o ajuste através de melhorias na arrecadação", diz Casnati.

"Os dois eixos principais para isso são reformas tributárias progressivas a nível nacional — porque hoje, no Brasil, os mais pobres pagam mais impostos, e benefícios fiscais para grandes empresas poderiam ser revistos —, e o combate à evasão e elisão fiscal, que são problemas globais, cuja solução exige coordenação internacional."

Segundo o coordenador da ISP, o esforço de aumentar a arrecadação se torna ainda mais relevante no mundo pós-pandemia, onde os países enfrentam forte aumento de suas dívidas e déficits fiscais, devido às despesas em resposta ao coronavírus.

No Brasil, o Ministério da Economia estima que o déficit primário (diferença entre a arrecadação e os gastos do governo, sem contar despesas com juros da dívida pública) deve chegar a 12,7% do PIB (Produto Interno Bruto) ou R$ 905,4 bilhões em 2020. Já a dívida bruta deve ir a 96% do PIB este ano, superando os 100% do PIB até 2026.

"Diversos países da América Latina, e também o Brasil, já tinham um problema fiscal muito grave antes", diz Casnati. "A pandemia acelerou a crise, ao obrigar os Estados a gastarem mais. Governos de esquerda e direita tiveram que aumentar o gasto público emergencialmente, ao mesmo tempo em que a arrecadação caiu muito."

"O grande debate para todos os países nos próximos anos será como pagar essa conta", avalia.

"Nesse sentido, é fundamental colocar na agenda do dia que grandes corporações e os 0,1% mais ricos utilizam mecanismos legais e ilegais para transferir dinheiro para fora e isso drena recursos do país. Independentemente da ideologia, os políticos deveriam estar preocupados em resgatar esse dinheiro, como forma de que a população pague menos a conta da crise."

A título de comparação, o estudo estima que a perda de arrecadação do Brasil com impostos não pagos por multinacionais e milionários são equivalentes a 20% do orçamento do país destinado à saúde ou ao salário anual de mais de 2 milhões de enfermeiros.

Assim, a Rede de Justiça Fiscal e seus parceiros na elaboração do relatório fazem algumas recomendações para que esse quadro de perda de arrecadação possa ser mitigado.

A primeira delas é que seja introduzido pelos governos um imposto sobre multinacionais que estão obtendo ganhos considerados "excessivos" durante a pandemia, como as gigantes digitais globais.

Uma segunda recomendação é a introdução de um imposto sobre a riqueza para financiar o combate à covid-19 e tratar as desigualdades de longo prazo exacerbadas pela pandemia.

Por fim, as entidades defendem que a discussão sobre um padrão internacional para a tributação de empresas, além de medidas de cooperação e transparência fiscal, devem se dar no âmbito da ONU (Organização das Nações Unidas) e não da OCDE, já que esta entidade reúne apenas os países mais ricos.

Casnati defende ainda que o projeto Beps de combate à erosão da base tributária deveria ser ampliado, para que as multinacionais reportem seus dados fiscais não só para seus países-sede, mas também para os países onde suas filiais operam.

Para ele, a declaração de registros financeiros deveria incluir mais empresas, e não somente aquelas com lucros acima de 750 milhões de euros por ano. As multinacionais também deveriam, na sua opinião, ser tributadas como entidades únicas, posto que atualmente muitas têm suas operações internacionais consideradas como entes independentes.

E, por fim, para encerrar a guerra fiscal internacional, o analista avalia que seria desejável a criação de uma taxação mínima para empresas a nível global. "Isso impediria o que acontece hoje, um leilão ao contrário em que quem dá menos [exige menos impostos] ganha e todos os países perdem arrecadação", diz Casnati.

Em junho deste ano, o ICRICT (Comissão Independente para a Reforma da Taxação Internacional de Empresas, em tradução livre) — grupo formado por nomes de peso da economia como o americano Joseph Stiglitz, os franceses Thomas Piketty e Gabriel Zucman, a indiana Jayati Ghosh e o colombiano José Antonio Ocampo — lançou um documento propondo, entre outras medidas, uma taxação mínima global de 25% sobre as companhias para evitar que elas busquem países de menor tributação.

À época, a proposta teve sua viabilidade questionada por alguns especialistas em tributação, diante do pesado esforço multilateral que seria necessário para colocar uma medida do tipo em prática.

A desastrosa marcha à ré do combate à pobreza e à desigualdade

Nos últimos dez anos, perdemos a luta contra a pobreza e a desigualdade, objetivo incontornável de qualquer país que se quer decente. Essa é a conclusão do primoroso trabalho "Distribuição de renda nos anos 2010: uma década perdida para desigualdade e pobreza", escrito por três ases --os pesquisadores Rogério Barbosa, Pedro Ferreira de Souza e Sergei Soares-- e recém-publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do Ministério da Economia, na série Textos de Discussão.

Ali se lê que os ganhos conseguidos entre 2012 e 2014 --e que davam prosseguimento a uma longa trajetória virtuosa de redução do número de pobres e das disparidades de renda-- cessaram com a crise econômica de 2015-2016 e foram literalmente revertidos nos dois anos seguintes.

O desarranjo da economia não atingiu a todos da mesma forma nem ao mesmo tempo. A derrocada começou no governo Dilma, provocada por uma leitura míope dos obstáculos da hora, conduzindo a soluções ineficazes para superá-los.



Mas foi ao longo da difícil recuperação que teve início em 2017, já sob o comando da centro direita de Temer & Meirelles, que a sorte dos mais pobres foi selada. Segundo os estudiosos citados, os brasileiros mais ricos se apropriaram de cerca de 80% do crescimento da renda no período, enquanto os ingressos da metade mais pobre caíram 4%. Na mesma proporção cresceu a desigualdade. Sem sombra de dúvida, esse aumento foi o responsável pela ampliação da pobreza.

Os pesquisadores demonstram que o inchaço do desemprego e a queda dos salários foram os vilões da tragédia que desfez sonhos e esperanças de milhões de famílias e multiplicou o número dos sem-teto nas grandes cidades.

A Previdência Social também teve seu papel: os maiores benefícios destinaram-se aos grupos de melhor remuneração. Finalmente, o estudo revela terem sido quase nulos os efeitos compensatórios dos programas de proteção da renda, como o Benefício de Prestação Continuada, o Seguro Desemprego e o Bolsa Família, cujos recursos não acompanharam o aumento dos que a ele teriam direito.

Uma administração que produziu muito progresso, mas não as condições fiscais para sustentá-lo, seguida de outra que em dois anos promoveu impressionante retrocesso social são responsáveis pela marcha à ré do país e pela perda de uma década de mitigação das injustiças.

Não é provável que o quadro melhore neste governo: reduzir pobreza e desigualdade não faz parte de sua agenda retrógrada. Que, ao menos, os democratas com preocupações sociais aprendam com o estrago e se preparem para fazer melhor.

A nova onda

A pandemia da covid-19, no Brasil, virou um endemia e assim será, até que a população seja vacinada em massa. A segunda onda, que está sendo avassaladora nos Estados Unidos e na Europa, aqui está começando, sem que a primeira tenha ido embora, ou seja, se inicia de um patamar muito alto, como aconteceu nos EUA. O presidente Jair Bolsonaro continua com sua postura negacionista, a ponto de, ontem, mandar apagar mensagem do Ministério da Saúde recomendando isolamento social. Deveria prestar um pouco de atenção ao que acontece na Suécia, que tratou o novo coronavírus como uma gripezinha, mas, agora, mudou de paradigma e resolveu aceitar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

São Paulo, por ser o estado mais populoso e também o mais conectado com os demais e o exterior, registra um aumento de 18% no número de casos de internações nas redes hospitalares pública e privada neste mês. Como na primeira onda, as classes A e B estão sendo as mais afetadas; a explosão deve ocorrer quando chegar à população de mais baixa renda, com menos capacidade de se manter a salvo do contato com o vírus. O grande dilema é como lidar com as medidas de proteção individual e, ao mesmo tempo, evitar o colapso econômico e social.



Bolsonaro reage a isso como quem entra em pânico numa emergência, apesar da retórica de valentão. Insiste na tese de que o isolamento social é a causa da crise econômica, culpando governadores, prefeitos, o Supremo e os “maricas” que têm medo do vírus, ou seja, a maioria de nós. Não reconhece que, em todo mundo, a origem da crise econômica é a pandemia; e que a política de isolamento social é uma maneira de evitar desastre ainda maior.

Um breve comentário de um confeiteiro do Sudoeste, bairro do Plano Piloto, em Brasília, resume a questão. Ele observa o comportamento dos clientes e conclui: a maioria dos que tomam os devidos cuidados no balcão de seu pequeno comércio — máscara e higienização das mãos — não teve a doença. Os que chegavam com máscara no queixo e não utilizavam o álcool em gel, em sua maioria, com a evolução da pandemia, disseram-lhe que contraíram a doença. “Um deles me disse que 22 pessoas da sua família tiveram a covid-19.”

Este é o xis da questão: é impossível manter as atividades econômicas sem protocolos rígidos de procedimento nas empresas e um comportamento equivalente por parte dos consumidores. A maioria das pessoas não está contraindo o vírus nos locais de trabalho, que seguem regras rígidas de funcionamento, mas em razão de seu comportamento social. A generalização das aglomerações — e não apenas os bailes funks — e a campanha eleitoral, de certa forma, contribuíram para a segunda onda, mas é preciso verificar as características do vírus que está circulando, para saber seu grau de mutação genética. Mesmo quem já teve a doença, por essa razão, deve tomar cuidado.

O presidente continua negando a chegada da segunda onda, mais ou menos como fez na primeira. O problema é que não terá como negar seu impacto na economia, porque a situação do Tesouro é muito diferente. A dívida pública deve chegar a 100% do PIB no fim do ano. O governo não terá como prorrogar o auxílio emergencial por longo período, mesmo mantendo seu valor em R$ 300.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

'Hospício' Brasil

 


'Vamos ter fomes de proporções bíblicas em 2021'

“Fomos capazes de evitar (a fome) em 2020 porque os líderes mundiais responderam com dinheiro, pacotes de estímulo e diferimento de dívidas”, começa por explicar David Beasley, líder do Programa Alimentar Mundial (PAM) da ONU, em entrevista à agência Associated Press. Avisa, no entanto, que a missão de atenuar a fome e desnutrição em 2021 será muito mais difícil, já que a Covid-19 está a crescer e o impacto económico vai ser devastador.

Galardoado recentemente com o Nobel da Paz, Beasley tem utilizado o prémio atribuído ao PAM para ganhar mais peso nas conversações com líderes políticos e para enviar “uma mensagem ao mundo de que está a piorar lá fora”. Em abril, alertava o Conselho de Segurança da ONU de que a pandemia ia trazer consigo um efeito pior: “uma pandemia de fome” que iria conduzir o mundo para “múltiplas fomes de proporções bíblicas” em alguns meses.

Agora, com 2020 a chegar ao fim, o líder do PAM mantém a posição, mas com os olhos postos no próximo ano: “O nosso trabalho mais árduo ainda está por vir”. Garante que se tem encontrado com chefes de Estado virtual e presencialmente para reunir esforços, mas “o dinheiro que estava disponível em 2020 não estará disponível em 2021”, já que a economia está a cair em todos os países, incluindo nos mais ricos.

“Agora, precisamos de nos concentrar nos icebergs e os icebergs são a fome, a desestabilização e a migração”, diz. Segundo o Relatório Global de Crises Alimentares, assinado pelo PAM em 2019, os dez países com o maior número de pessoas a passar por uma crise alimentar são, por ordem crescente, Haiti, norte da Nigéria, Sudão, Síria, Sudão do Sul, Etiópia, Venezuela, Afeganistão, República Democrática do Congo e Iémen.

À mesma agência noticiosa, Beasley afirma que, em 2021, o Programa Alimentar Mundial necessita de cerca de 15 mil milhões de dólares, que se dividem em duas vertentes. Num primeiro momento, cinco mil milhões são canalizados “apenas para evitar a fome” e que os restantes dez mil milhões de dólares servem “para realizar os programas globais da agência”, incluindo iniciativas como o lanche escolar, “que muitas vezes são as únicas refeições que os jovens recebem”. “Se eu conseguisse isso com o nosso dinheiro normal, evitaríamos a fome em todo o mundo”, conclui.

A queda da economia fragilizou os governos e, por isso, Beasley tem uma “grande esperança” de que os bilionários que lucraram com a pandemia possam ajudar na luta contra a fome. Disse ainda que vai começar a divulgar a mensagem em dezembro ou janeiro.

A crise de Covid-19 veio agudizar os problemas de fome no mundo. Aos 135 milhões de vítimas deste flagelo, Beasley estima que a pandemia acrescente mais 130 milhões de pessoas. Segundo o líder do PAM, serão cerca de 20 os países que “provavelmente enfrentarão picos potenciais de insegurança alimentar aguda” nos próximos meses.

Iémen, Sudão do Sul e Burkina Faso estão na lista devido a conflitos armados, mas também Afeganistão, Camarões, República Centro-Africana, Congo, Etiópia, Haiti, Líbano, Mali, Moçambique, Níger, Serra Leoa, Somália, Sudão, Síria, Venezuela e Zimbábue requerem uma “atenção urgente”. Para isso, o relatório do Programa Alimentar Mundial chegou a enumerar alguns pontos para a prevenir um maior impacto socioeconómico da crise sanitária nestes e noutros países.

De acordo com o documento, é necessário “expandir sistemas de monitorização remoto de segurança alimentar quase em tempo real” de forma a partilhar informações sobre o impacto da doença “na segurança alimentar e meios de subsistência, saúde, acesso a serviços, mercados e cadeias de abastecimento, entre outros”. É preciso ainda “preservar alimentos humanitários essenciais, subsistência e assistência nutricional para grupos vulneráveis”. A juntar a isto, o programa propõe ainda aumentar o apoio ao “processamento de alimentos, transporte e mercados locais”, com o objetivo de haver sempre um funcionamento contínuo de abastecimento alimentar.

A fome e desnutrição afetam todos os continentes, com destaque para África. As pessoas no estado de Nova Iorque, nos EUA, pagam 0,6% do seu rendimento por um prato de comida. No caso do Sudão do Sul, por exemplo, um prato de comida custa, em média, 186.17% do rendimento. A comparação pode ser feita com outros países, aqui.

Estupidez brutal

Daqui dos EUA de onde escrevo, a bruma da estupidez, do negacionismo, da incompetência já começou a se dissipar. Sim, Trump ainda é presidente, mas ele e seus asseclas não dominam mais as páginas dos jornais. De um lado, isso acontece porque Trump, apesar de sua frívola judicialização eleitoral, já desistiu de presidir o país dois meses antes da posse de Joe Biden. De outro porque o presidente eleito tem ocupado os espaços com anúncios sobre quem vai compor o seu governo, quais serão as medidas prioritárias, o que fará para combater a terceira e a mais terrível onda da pandemia, e como pretende resguardar a economia. No Brasil, ao contrário do que ocorre ao Norte, a estupidez brutal corre sem rédeas.

Que a estupidez brutal impere não é uma surpresa. Ninguém espera que esse governo que está aí aprenda o que quer que seja, até porque sua incapacidade já se revelou tamanha que todas as máscaras caíram. As eleições municipais deram sinais – ainda tênues, é verdade – de que a população pode estar começando a se cansar das gritarias, dos absurdos, dos desditos.

As pessoas querem políticas públicas, clamam por uma agenda, uma estratégia, um plano, qualquer coisa, enfim, que permita um vislumbre dos rumos do País e da vida de cada um quando 2021 chegar. E 2021 é o ano em que o Brasil estará lidando com desafios simultâneos: o de uma campanha eleitoral precoce para 2022 e o de uma segunda onda da pandemia. A segunda onda da pandemia é tão certa quanto a existência do vírus que a provoca. Ela já está evidente em vários números: o de leitos ocupados nos hospitais, o de novos casos, o de óbitos. Mesmo assim, há quem a negue.



Claro que há quem a negue e é claro, também, que os negacionistas não poderiam estar em outro lugar senão dentro do Ministério da Economia. Há um quê de março no ar. Lembram-se de março? Mais especificamente, do dia 16 de março? Foi há oito meses. Nesse dia, quando a pandemia já estava presente no Brasil, o ministro da Economia veio a público dizer que a economia cresceria mais de 2,5% em 2020. Perto da mesma data, Paulo Guedes também disse que enxotaria o vírus do País jogando sobre o RNA encapsulado uns R$ 5 bilhões. Não se deu conta de que o RNA encapsulado não reage nem às notas, nem às palavras que profere. A única coisa da qual ele precisa é de uma célula hospedeira para parasitar, replicar e se proliferar. Dito e feito, a primeira onda estourou bem na cara do ministro. Com volúpia.

Passada essa experiência, era, se não razoável, justificado imaginar que o Ministério da Economia não iria deixar-se pegar novamente no contrapé, sobretudo porque o vírus nunca deixou o País. Mas as oportunidades de engolir as ondas sucessivas de um RNA encapsulado e obstinado não podem ser desperdiçadas.

Em pleno alvorecer da segunda onda, um dos secretários de Guedes veio a público dizer que não há onda alguma e que os Estados brasileiros estão muito bem, obrigado, porque muitos já obtiveram a imunidade de rebanho. Lembram-se dela? Lembram-se de como teve gente insistindo que era esse o caminho, o modelo da Suécia? “Deixem a infecção natural acontecer, que logo, logo estará todo mundo imune!”, bradou a estupidez brutal.

É curioso porque a Suécia acaba de abandonar o modelo sueco por causa da segunda onda e acaba de abandoná-lo devido à segunda onda porque já está comprovado, inclusive na Suécia, que imunidade de rebanho é conceito inaplicável a uma situação de infecção natural. Como já escrevi neste espaço, o termo usado por epidemiologistas se refere àquelas situações em que existe uma vacina para uma doença infecciosa com eficácia comprovada.

Por exemplo, se a eficácia das vacinas genéticas da Pfizer e da Moderna forem comprovadas, quando começarem a ser distribuídas e as campanhas de imunização estiverem em andamento, seremos capazes de dizer algo sobre imunidade de rebanho. Mas não agora. E certamente não será pelo secretário de Guedes, que já revelou não entender nem de pandemia, nem de economia. Trata-se do mesmo secretário que inventou conceitos inexistentes na disciplina, como PIB privado. Melhor nem perguntar o que é.

Portanto, a estupidez brutal. Brutal e renitente, como o RNA encapsulado. O melhor a fazer, por certo, é ignorá-la com a leveza do mais absoluto descaso.

O ataque dos maricas

O FBI, a CIA e outros órgãos da inteligência americana têm tido dificuldade em entender os relatórios que recebem dos seus agentes no Brasil. Discursos e manifestações do presidente brasileiro são monitorados regularmente, mas, de uns tempos para cá, isso tornou-se uma tarefa problemática. Para começar, ninguém parece saber quem realmente é o presidente do Brasil e faz as declarações que intrigam os agentes americanos. Há quem diga que o presidente é Hamilton Mourão, outros dizem que é Paulo Guedes, outros têm certeza de que é José Simão, e ainda outros sustentam (a opção menos provável) que é Jair Bolsonaro ou um dos seus filhos. O jeito é monitorar todos ao mesmo tempo. O objetivo é detectar e prevenir qualquer ameaça à segurança dos Estados Unidos.



Uma recente fala presidencial de improviso aumentou a confusão. Os termos do pronunciamento ainda estão sendo estudados. Eles podem indicar que o Brasil prepara-se para invadir os Estados Unidos e:

 a) manter o Trump no poder, cercando a Casa Branca e repelindo qualquer tentativa de retirá-lo de lá a cusparadas — o que explicaria a críptica referência à saliva transformando-se em pólvora, no discurso do presidente;

b) sequestrar o Biden, disfarçá-lo com uma peruca loira, soltá-lo no meio de uma manifestação contra o racismo e correr atrás dele gritando “É o Trump! Pega! Pega!”.

Os analistas americanos também tentam decifrar o sentido da palavra “maricas”. Não fica claro, no discurso, se “maricas” é apenas quem tem medo de morrer e, portanto, é um desprezível, ou se o presidente estava fazendo uma ameaça velada aos americanos, avisando que brasileiros maricas podem ter medo de morrer e horror a baratas, mas não os desafiem, eles podem ser ferozes. Os americanos decidem que um ataque dos maricas virá e preparam suas defesas. A segurança nas fronteiras é reforçada. Todos devem ficar atentos a grupos barulhentos que lotam os aeroportos . São os maricas que chegam. 
Luis Fernando Veríssimo

Como agem os inimigos da democracia

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, disse que “milícias digitais entraram em ação tentando desacreditar o sistema” de votação e apuração eleitoral, referindo-se aos ataques virtuais sofridos pela Justiça Eleitoral no primeiro turno das eleições municipais. E o ministro foi além: disse que “há suspeita de articulação de grupos extremistas que se empenham em desacreditar as instituições, clamam pela volta da ditadura e muitos deles são investigados pelo Supremo Tribunal Federal”.

Trata-se de grave revelação, que demanda investigação policial e punição exemplar dos envolvidos. A suspeita levantada pelo ministro Barroso mostra que estamos diante de um atrevido repto à democracia.

A estratégia desses criminosos é simples: semear a dúvida sobre as instituições democráticas para desmoralizá-las aos olhos dos cidadãos, fortalecendo o discurso autoritário dos que pretendem governar diretamente com o “povo”, sem a intermediação do establishment político-partidário.

A suspeita sobre a lisura do sistema de votação é central nessa estratégia. Os inimigos da democracia a levantam para questionar a legitimidade do resultado da eleição se este lhes for desfavorável. A rigor, segundo essa narrativa, nem haveria necessidade de eleição, pois o único resultado possível de qualquer consulta popular, desde que não haja “fraude”, é a vitória incontestável dos liberticidas.

Ou seja, se o vencedor da eleição não fizer parte dessa gangue será imediatamente desqualificado como representante do povo e será denunciado como preposto do “sistema”, supostamente desenhado para impedir, por meio de maquinações e conspirações, que a vontade popular seja realizada.


Esse embuste obviamente nada tem a ver com democracia. Oposição é fundamental num regime democrático, mas deixar de reconhecer a legitimidade da vitória eleitoral de um adversário é coisa bem diferente: significa negar a alternância do poder, sem a qual tiranos se perpetuam.

Parece sintomático, assim, que o presidente do TSE tenha mencionado que os suspeitos do ataque ao sistema da Justiça Eleitoral sejam extremistas que “clamam pela volta da ditadura”, pois esse parece ser o fulcro do plano original desses marginais que o bolsonarismo trouxe ao centro da política nacional.

Os inconformados com a redemocratização do Brasil não descansarão enquanto não realizarem sua obra deletéria. As manifestações contra o Supremo Tribunal Federal e contra o Congresso ao longo do governo de Jair Bolsonaro foram apenas um aperitivo do que essa gente é capaz. A criação de um clima de desconfiança generalizada, que esgarça laços de solidariedade e inviabiliza a democracia, é o passo seguinte.

Por isso, é reconfortante saber que a Justiça Eleitoral não somente manteve intacto o sistema de votação, reconhecidamente um dos mais seguros do mundo, como reagiu rapidamente ao ataque que sofreu e indicou de maneira clara que tipo de ideologia criminosa o motivou. Os brasileiros devem saber que suas eleições são limpas, de modo que não pairem dúvidas sobre a legitimidade dos eleitos.

Para que a democracia seja preservada, contudo, é preciso que Jair Bolsonaro, na condição de chefe de Estado, pare de questionar a confiabilidade das urnas eletrônicas, como fez seguidas vezes desde que chegou ao poder e tornou a fazer depois das eleições de domingo passado – como a justificar a acachapante derrota que sofreu.

A mudança de comportamento do presidente é especialmente necessária ante a suspeita de que houve, nas palavras do ministro Barroso, uma “orquestração” contra o sistema eleitoral e as instituições – ou seja, o ataque teria sido realizado apenas com o intuito de alimentar a narrativa segundo a qual o sistema não é confiável – e que essa “orquestração” teria como protagonistas conhecidos manipuladores das redes sociais. Cabe então a Bolsonaro desvincular-se dessa trama, expressando sua confiança no sistema; se não o fizer, estará se prestando ao vergonhoso papel de cúmplice da trama.

Pensamento do Dia

 


A esperança no combate ao ódio está nos livros

Estou lendo “O infinito num junco”, da escritora espanhola Irene Vallejo, uma história do livro e da leitura, já publicado em Portugal, mas, tanto quanto sei, ainda não disponível nas livrarias brasileiras. A páginas tantas, a propósito da insistente prática humana em queimar livros e bibliotecas — desde a destruição da Biblioteca de Alexandria até as fogueiras nazis —, Irene Vallejo cita uma frase do cartunista Andrés Rábago, El Roto: “As civilizações envelhecem, a barbárie renova-se.”

Concordo no que diz respeito às civilizações, mas não estou tão certo quanto à barbárie. A barbárie é sempre a mesma, move-se às cegas pelas ruas, gritando idênticas frases de ódio contra qualquer transformação. A estupidez não evolui. Transmite-se, como uma doença infame, ao longo dos séculos. Só as circunstâncias se renovam.


Uma das várias versões sobre a destruição da Biblioteca de Alexandria implica no crime o então governador provincial do Egito, Amer Ibn Alas. Quando lhe perguntaram o que fazer com tantos livros, Amer teria retorquido: “Se esses livros estiverem de acordo com o Corão, então são redundantes e, portanto, supérfluos. Se não estiverem, são heréticos.” Esta mesma versão assegura que os livros foram utilizados para aquecer os banhos públicos. Terão sido necessários seis meses para queimar todos os papiros.

Irene Vallejo mostra-nos que a história do livro é também uma história contra o livro — ou seja, contra o pensamento. Há as grandes fogueiras e há as pequenas fogueiras. Normalmente, as grandes começam por ser pequenas. Pensemos no Brasil: hoje, fundamentalistas cristãos queimam os livros de Paulo Coelho e de João Paulo Cuenca. Amanhã, estarão ateando fogo à Biblioteca Nacional. Depois de amanhã, se os deixarem, arrastarão até à fogueira os próprios escritores.

Na essência, não há diferença alguma entre a deformidade espiritual de um fundamentalista islâmico e de um fundamentalista cristão.

Uma única nuvem do tipo cumulus — aqueles flocos de algodão, bem definidos, que se destacam no azul do céu — pode pesar tanto quanto uma manada de elefantes. Obviamente, uma dessas nuvens é muito maior do que um elefante. Um cumulonimbus pode alcançar até 15 quilômetros de altura. Junta, a água esmaga. Dispersa, levita.

Acontece o mesmo com o ódio. Isolado, mal se dá por ele. O ódio isolado quase não tem peso. Um único homem tomado pelo ódio suscita mais facilmente troça do que terror. O problema é quando surgem homens que atuam como catalisadores de ódio. Estamos a ver isso acontecer neste preciso momento em países como Moçambique, onde, no último fim de semana, um grupo associado ao Estado Islâmico decapitou 50 camponeses.

Embora num contexto muito diferente, estamos a ver também isso suceder nos EUA, em torno do inacreditável delírio de Donald Trump, ocupado agora em criar uma laboriosa realidade paralela que lhe permita perpetuar-se no poder.

A única esperança no combate ao ódio e à loucura — como se conclui lendo “O infinito num junco” — está nos próprios livros. Como canta o português Manuel Freire, “não há machado que corte / a raiz ao pensamento. // Nada apaga a luz que vive / no amor, no pensamento.”

Já deixou...


O Brasil foi um líder no passado, seria uma pena se deixasse de ser

Barack Obama

A maré não está nada boa para Bolsonaro

Seria melhor mesmo se Bolsonaro tivesse ficado de fora das eleições municipais, como pretendia inicialmente. Mas a tentação de humilhar seu arqui-inimigo João Doria era, claramente, grande demais. Entretanto, a aposta de que Celso Russomanno poderia derrotar em São Paulo o PSDB do prefeito Bruno Covas e, logo, indiretamente, de João Doria, saiu pela culatra. Russomanno começou, mais uma vez, forte, e depois afundou mais fortemente ainda.

Também em outros lugares, os candidatos de Bolsonaro tiveram um desempenho ruim. É claro que eleições municipais não necessariamente indicam tendências no plano federal, pois muitas vezes tratam de problemáticas locais. Mas, quando o presidente entra na briga, não tem como não avaliar o resultado. Portanto, seria esse desempenho ruim de Bolsonaro apenas um ponto baixo temporário ou uma tendência que deve levá-lo a enfrentar um destino semelhante ao de seu modelo, Trump?

Sempre é difícil fazer comparações e paralelos entre Brasil e Estados Unidos. Mas já que Bolsonaro se apresenta como o "Trump tropical" e tenta copiar seu modelo político, não há como escapar de uma busca por semelhanças.

Os EUA têm um sistema bipartidário no qual os republicanos de Trump se transformaram em uma direita radical com características antidemocráticas. Embora esse campo tenha perdido, Trump ganhou, ao mesmo tempo, cerca de 8 milhões de votos a mais do que em 2016. Com isso, se posiciona para um possível retorno em 2024 – desde que consiga manter o controle sobre os republicanos.



Já Bolsonaro e a direita radical e antidemocrática no Brasil não têm uma base partidária tão sólida quanto Trump. O presidente brasileiro está até sem partido, porque não conseguiu criar sua Aliança pelo Brasil. O PSL, com o qual ganhou de forma fulminante em 2018, conseguiu ganhar cargos nas eleições municipais, mas apenas em cidades pequenas.

Bolsonaro é, portanto, o one man show da extrema direita, sem qualquer apoio partidário. E com adversários perigosos no campo da direita. Assim, a direita moderada do Democratas e do PSD pode festejar vitória nessas eleições.

Por outro lado, a esquerda brasileira se saiu mal, sobretudo o PT, mas também PSB e PDT. Somente o PSOL cresceu, se consolidando cada vez mais como uma liderança no campo de esquerda. Mas isso não será suficiente para ameaçar Bolsonaro na eleição presidencial de 2022. A empreitada requer uma ampla aliança de forças democráticas moderadas, tanto da esquerda, como do centro à direita moderada.

Essa aliança existe nos EUA, onde os democratas atualmente unem socialistas, social-democratas e a direita democrática moderada. Juntos, levaram às urnas cerca de 11 milhões de votos a mais do que Hillary Clinton recebeu em 2016 e foram capazes de derrotar Donald Trump.

Mas será que tal aliança seria concebível no Brasil para as eleições de 2022? E quem seria o Joe Biden brasileiro para criar uma aliança tão ampla?

Ainda há um longo caminho a percorrer até as eleições de 2022. Mas se existe uma tendência, é o enfraquecimento do poder dos extremos, tanto de esquerda quanto de direita, que ainda dominavam as eleições de 2018.

Em vez disso, os brasileiros parecem ansiar por uma política menos agitada. Por uma figura como o presidente do Congresso, Rodrigo Maia, por exemplo, que poderia construir uma frente ampla contra Bolsonaro com tons mais calmos. Esse pode ser o sinal de novembro de 2020, um mês ruim para Jair Messias Bolsonaro.
Thomas Milz

Uma campanha propositiva

A festa domingueira da democracia brasileira já merece ser saudada como um dos maiores eventos democráticos nos últimos anos em nosso país. Quantos desafios! E foram superados.

O Tribunal Superior Eleitoral, com condução firme e transparente, venceu todos os obstáculos e permitiu que cerca de cento e trinta milhões de brasileiros pudessem acorrer às urnas e legitimamente escolher os seus representantes municipais da próxima quadra.

Se pudéssemos eleger o vencedor dos vencedores, ele foi, sem sombra de qualquer dúvida: o POVO BRASILEIRO.


O povo que não se deixou abater pelo medo e enfrentou, com regras sociais adequadas, o alarmante surto de Coronavírus. E votou consciente.

O povo que demonstrou uma sutil tendência de fugir ao estereótipo maniqueísta vencedor do último pleito.

O arco ideológico encaminhou-se mais para o centro do ideário político. E indicou possíveis mudanças!

Alguns destemperados poderiam jocosamente “viralizar” mais uma piada de mau gosto: “são uns isentões”. Aliás, até pouco tempo, quase uma ofensa contra pessoas menos propensas ao confronto.

Mais de cinco mil municípios encerraram suas disputas e precisarão, os eleitos, se organizarem para transformar a vontade do povo expressa nos votos, em ações que dignifiquem ainda mais o processo democrático.

Entretanto, duelos importantes, sobretudo em colégios eleitorais de capitais, ainda se desenvolvem. O caldo resultante dessas disputas mais emblemáticas, por certo, influenciará nos próximos dois anos o ritmo, as alianças e os processos para a seleção aos postos de maior relevância nos legislativos e executivos em todo o país.

A frase mais ouvida nas muitas entrevistas concedidas a órgãos de imprensa pelos candidatos ainda em disputa foi: desejo uma campanha propositiva.

Surpreendeu-me o uso dessa expressão. Ora bolas!

Alguém busca convencer pessoas, em contenciosos eleitorais, que não seja propondo ideias a realizar?

Como sempre existe uma exceção. Até se pode tentar esse caminho pantanoso, sob determinadas circunstâncias e em curtos períodos de tempo.

É quando as ideias são transformadas em vagas de ódio para fortalecer a sanha de seguidores inescrupulosos; é quando o concorrente passa a ser um inimigo a ser eliminado; é quando o programa de governo a ser desenvolvido não passa de uma quimera, mas oferece pão e circo aos eleitores menos preparados para a escolha consciente. Aí não se apresentam propostas, apenas rancor, ódio e engodo.

É por isso mesmo eleitor, passada a adrenalina desse primeiro embate, que você deve refletir e se preparar para expurgar líderes que conduzem a sua trajetória política como se guiasse carros desgovernados.

A cada curva, um freio de supetão para mostrar quem manda. A cada chicana, uma mudança de postura, ansiando obter vantagens ao passar reto onde deveria reduzir a velocidade. A cada falta de combustível, uma parada para abastecer com apenas um galão que o leve até o próximo posto. A cada infração à regra, um pedido de reconsideração, mesmo sabendo que não lhe é merecido o perdão.

Melhor pressionar a tecla ENTER dos candidatos que se mostram aptos a conduzir “na ponta dos dedos” o seu destino, eleitor.

Candidatos que demonstrem conhecer verdadeiramente os problemas da sua urbe. Que utilizem planejamentos claramente factíveis e que, em consequência, tenham foco para chegar até a linha da vitória, conquistando para vocês o troféu mais importante: o da paz e o do bem-estar social.

Meia volta, volver

O resultado mais importante desta eleição municipal é que ela parece marcar o fim da polarização dos extremos políticos, caldo de cultura que levou Bolsonaro ao poder em 2018. A sensação é de que essa maneira de fazer política cansou os eleitores, que estão procurando coisas novas, não necessariamente do ponto de vista etário, mas diferente do cardápio que foi oferecido em 2018.

O fracasso do governo Bolsonaro, juntamente com a “nova política”anunciada na campanha presidencial e que acabou ancorada na velha política, mostra que o presidente fez bem ao escolher aliar-se ao Centrão para organizar sua base congressual, mas também que ele agora tem menos força na negociação com seus novos parceiros.

PP e PSD são as estrelas do Centrão, mas partidos que abandonaram o grupo para uma posição independente, como DEM e MDB, também se destacaram. O Centrão é tradicionalmente formado por partidos que se adaptam a qualquer governo, e essa maleabilidade também é uma ameaça à composição parlamentar de Bolsonaro, pois, para se posicionarem em outros caminhos, não custa. Até na esquerda os eleitores procuraram novas alternativas, a mais emblemática o PSOL, que não quer ser moderado, mas não está envolvido em corrupção, ao contrário, nasceu da revolta de alguns membros do PT com relação à corrupção, quando da confissão do marqueteiro Duda Mendonça, que admitiu ter recebido pagamento do PT em contas no exterior no mensalão.

O choro na ocasião de deputados petistas como Chico Alencar, que ontem teve uma grande votação no Rio como vereador pelo PSOL, ainda marca essa dissidência. Não é de estranhar que o PSOL continue aliado do PT, assim como o PSDB, nascido de uma dissidência dentro do MDB, ganhou vida própria, mas não impediu que os tucanos aderissem ao governo Michel Temer. Mas são bichos diferentes.




Está claro que as pessoas querem eficiência – para prefeito, essa exigência ainda é mais forte –, mas diante da tragédia que é o governo Bolsonaro, essa tendência vai contar mais na disputa presidencial em 2022 do que contou em 2018. A capacidade de gestão, o conhecimento, a experiência do candidato, passaram a contar para além da disputa ideológica.

Em São Paulo, o candidato do PSOL Guilherme Boulos, que teve uma votação importante, superando candidatos tradicionais como Marcio França ou Russomano e tornando-se o líder hegemônico da esquerda neste momento, vai procurar jogar o prefeito Bruno Covas para a direita, enquanto Covas já começou a colocá-lo como radical.

Ontem mesmo, depois do discurso de Covas na noite anterior dizendo que os paulistanos recusam o radicalismo, o governador tucano João Doria, candidato potencial do PSDB à presidência da República, disse uma frase que resume o que será a campanha nesse segundo turno: “Aqui, nós defendemos a propriedade privada, eles invadem”.

A pandemia foi fator preponderante nessa eleição. Ficou claro que governadores e prefeitos que tiveram atitudes firmes no combate ao coronavirus, à Covid -19, que adotaram desde o início o afastamento social e a obrigatoriedade de usar máscaras foram recompensados no final pela população, que entendeu que não era uma política contra, mas a favor dela.

É a antítese da pregação de Bolsonaro, que foi derrotado fortemente nessa eleição, não apenas pelos candidatos que apontou terem sido derrotados na ampla maioria dos casos, mas porque a visão dele da pandemia foi derrotada. Ele mesmo ficou irritado, recentemente comentou não entender como os políticos que fecharam tudo, quebraram a economia, estão sendo reeleitos.

Bolsonaro, num claro declínio, só recuperará sua popularidade se conseguir colocar o auxílio emergencial de novo na mão desses milhões de brasileiros que estão perdidos, sem emprego, sem perspectiva. Mas isso ele dificilmente vai conseguir, pois quebraria o país. A deputada mais votada no Brasil em 2018 foi Joyce Hasselman, que ontem foi das ultimas na eleição para a prefeitura de São Paulo. A deputada Carla Zambelli não conseguiu eleger o irmão, e apelou, insinuando fraude na eleição, seguindo os passos do próprio Bolsonaro, que ontem, aproveitando-se do problema técnico na apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), voltou a insistir na inconfiabilidade de nossa urna eletrônica. Michele Bolsonaro apoiou quatro candidatos a vereador, e nenhum se elegeu. A ex-mulher de Bolsonaro, mãe dos 01,02,03, não se elegeu. Carlos Bolsonaro teve menos votos do que em 2016.

Assim como 2016 deu sinais do que poderia acontecer em 2018, agora parece que o vento deu meu volta, no sentido da direita civilizada .

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Olhando para o umbigo do passado

Os conservadores olham para trás, por isto é importante conhecer os erros dos progressistas que devem acenar para a construção do futuro.

O primeiro erro é não perceberem que nos, tempos atuais, Confiança é um fator determinante para o avanço de qualquer economia. Ela não funciona satisfatoriamente sem estabilidade monetária, ética na política, instituições sólidas com regras permanentes, participação no mundo global, capacidade de poupança, distribuição de renda, paz nas ruas, todos os ingredientes para dar confiança ao mercado, consumidores e investidores.

O segundo erro foi não perceberem que no longo prazo o vetor do progresso está na educação de base com qualidade para todos, tanto para aumentar a produtividade, criar tecnologia e inovação, além de ser o caminho para distribuir renda.


Os progressistas, especialmente aqueles mais à esquerda, não perceberam que “estatal” não é sinônimo de “público”. Este foi o terceiro erro. Uma empresa pode ser do governo, seus trabalhadores empregados públicos, mas seu serviço não servir à população, pela má qualidade, pela ineficiência e custo elevado. Este erro levou-os a preferir apoiar as reivindicações dos sindicatos de servidores do Estado, do que atender às necessidades da população. No lugar de sociais, os progressistas ficaram corporativos.

A base destes erros é que os progressistas não perceberam que os esquemas do passado para explicar e orientar o processo político-social não se aplicam aos novos tempos da globalização, da inteligência artificial, da robotização, das comunicações de massa personalizadas e instantâneas. Por isto, os esquemas de organização partidária baseada na divisão binária, “a favor” ou “contra”, capital versus trabalho, estatal contra privado já não servem para orientar o progresso do país em busca de coesão social e rumo histórico. Isto já aconteceu no passado, quando muitos progressistas republicanos se opuseram à Abolição da Escravidão, porque ela chegava pelas mãos de governo conservador e pelas mãos do Imperador. Eles ficaram prisioneiros dos esquemas políticos tradicionais, monarquia versus república, sem entender que o progresso não estava no regime político, mas no trabalho livre e na abertura do país ao comércio internacional.

Os progressistas de hoje não respondem ao povo e para o futuro, mas aos eleitores do momento emperrando a marcha ao futuro. Não é por acaso que depois de 26 anos no poder, nós progressistas deixamos o quadro social trágico que as estatíscas divulgadas ontem mostram. Os progressistas também não se livraram da tradição sociológica de explicar pobreza como falta de renda e não como falta de acesso aos bens e serviços essenciais, nem todos comprados no mercado.

O maior erro é ficar preso às ideias do passado e ficarem tão reacionários quanto os conservadores. Estes olhando para o passado e nós, progressistas, presos ao presente, olhando para o umbigo.
Cristovam Buarque

Onda bolsonarista virou marolinha

A onda que varreu as urnas em 2018 virou marolinha nas eleições municipais. Há dois anos, Jair Bolsonaro impulsionou a vitória de azarões e aventureiros em todo o país. Agora colhe fiascos na maioria das disputas em que se meteu.

O presidente pediu votos em seis capitais. Em quatro delas, seus candidatos naufragaram ainda no primeiro turno. Em Manaus, Coronel Menezes amargou um quinto lugar. No Recife, Delegada Patrícia terminou em quarto. Em Belo Horizonte, Bruno Engler ficou em segundo, mas não conseguiu nem 10% dos votos válidos.

Em São Paulo, Bolsonaro teve uma tripla derrota. Seu aliado Celso Russomanno, que liderava as pesquisas, derreteu e acabou na quarta posição. Os dois finalistas não querem conversa com o capitão. Bruno Covas já dispensou qualquer hipótese de apoio, e Guilherme Boulos faz oposição radical ao Planalto.


Os candidatos bolsonaristas só passaram ao segundo turno no Rio e em Fortaleza. O prefeito Marcelo Crivella, com rejeição na casa dos 60%, dificilmente terá fôlego para virar a disputa com Eduardo Paes. Na capital cearense a disputa entre José Sarto e Capitão Wagner foi mais equilibrada. Mas os votos da terceira colocada, a petista Luizianne Lins, agora tendem a migrar para o pedetista.

O presidente teve mais um revés em seu berço político. Seu filho Carlos Bolsonaro perdeu o título de vereador mais votado do Rio. Foi ultrapassado por Tarcísio Motta, do PSOL. A outra representante do clã, Rogéria Bolsonaro, teve míseros dois mil votos.

A família ainda colheu uma derrota anedótica no estado. Apontada como assessora fantasma do capitão, Wal do Açaí tentou se eleger vereadora de Angra dos Reis com o nome de Wal Bolsonaro. Apesar do empenho e do sobrenome do patrão, só atraiu 266 eleitores.

Numa tentativa de encobrir o vexame, Bolsonaro apagou o post em que pedia votos para seus candidatos. Não adiantou. No fim da noite, sua tropa adotou outra tática diversionista. Passou a usar o atraso na divulgação de resultados para disseminar teorias conspiratórias sobre fraude nas urnas.