segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Vergonha amazônica

Defender-se acusando os críticos por danos idênticos ou piores dos que os seus é arma costumeira de quem não tem explicação para erros deliberados e escandalosos. Na política, o “todo mundo faz” é usual para amenizar delitos como caixa 2 ou a tal da “rachadinha”, apelido que ameniza a apropriação indébita de dinheiro público. Age-se como se o passado abonasse o crime presente e futuro.

Coube ao ministro Paulo Guedes internacionalizar esse perverso conceito. Na tentativa de se livrar das cobranças sobre a desastrosa política ambiental do governo Jair Bolsonaro no fórum promovido pelo Aspen Institute, disse entender a preocupação dos norte-americanos porque “eles desmataram suas florestas” e “mataram seus índios”. E implorou: “sejam mais amáveis como somos amáveis”.

Entre irritação e cinismo, Guedes expôs a desfaçatez do governo que integra. Pela sua perversa teoria, o mundo desenvolvido que cobra do Brasil a preservação da Amazônia e atenção aos povos indígenas não poderia fazê-lo porque, no passado, teria aniquilado florestas e nativos. Uma lógica que impediria, por exemplo, que o Brasil e outros países condenassem a escravidão por ter usado e abusado dela.

O que se quer com esse discurso? Licença para desmatar? Para dizimar índios?


No ano passado, Bolsonaro já havia desafiado europeus, com direito à gafe de trocar a Noruega pela Dinamarca ao divulgar nas suas redes sociais foto de caça de baleias. Tentativa vergonhosa de associar práticas ilegais ao país nórdico que, em retaliação ao desgoverno ambiental brasileiro, anunciara o corte do auxílio milionário ao Fundo Amazônico. Quanto ao desmate, a Europa é hoje o continente com os melhores índices de recuperação de suas matas, com 42% de cobertura florestal, boa parte resultado de mais de 50 anos de recomposição contínua.

Ao expor o país a mais um vexame internacional, Guedes o fez com requintes de crueldade para a já combalida imagem do Brasil lá fora. Um misto de reinvenção da história e mentira deslavada.

Os Estados Unidos desmataram florestas e mataram seus índios. Tentam replantar matas – hoje já refizeram cerca de 30% delas. Mas nunca conseguirão apagar da sua história o extermínio de 18 milhões de nativos.

A conta no Brasil é numericamente muito inferior, mas não menos grave: mais de 2,5 milhões de índios escravizados e mortos nos primeiros 100 anos após o desembarque de dos portugueses e outros quase 1 milhão entre 1900 e 1950. Como o Brasil prefere esconder essa catástrofe, Guedes se sentiu protegido para omiti-la.

Dados do IBGE apontam que a população indígena brasileira hoje gira em torno de 800 mil, quase metade deles aculturados. Com baixa imunidade, mais de 12 mil foram infectados e outros 240 morreram na pandemia.


Nem a tragédia da mortandade de índios nem a do desmatamento acelerado encontrarão guarita na história de governos anteriores e, muito menos, de outros países. Ou seja, além de absurdo, imoral e irresponsável, o discurso do ministro é inócuo, vazio. Só serve para aprofundar a vergonha nacional.

Não há qualquer hipótese de o governo Bolsonaro se safar da responsabilidade pelo desmatamento recorde, pela grilagem amazônica, pelas invasões de terras e apoio descarado e escancarado ao garimpo ilícito.

É patética a tentativa de defender o garimpo em terras demarcadas como direito e até reivindicação dos índios. A lavra a céu aberto, com maquinário pesado, poluindo rios e devastando a floresta, é proibida. Simples assim.

O governo quer mudar esses parâmetros. Como dificilmente conseguirá aprovar uma lei autorizando mineração em terras indígenas, estimula o liberou geral. Não à toa, os alertas de desmate amazônico atingiram números de calamidade, crescendo 34,5% nos últimos 12 meses. O resultado é Bolsonaro na veia – uma droga que faz o país retroceder décadas.

Diferentemente das canalhices políticas, como os vícios do “todo mundo faz” que acabam protegendo safadezas, a regressão na política ambiental pode não ter conserto.

Se confirmada, a rachadinha em favor do então deputado estadual e hoje senador Flávio, filho do presidente, pode ser punida, com ressarcimento aos cofres públicos e pena para os infratores. A floresta nativa abatida e incendiada para dar lugar a pasto e os veios de água poluídos pelos dejetos da mineração exigiriam esforços gigantescos para ser recompostos. Não raro, dão lugar a terrenos desérticos, imprestáveis. Mais: assim como os Estados Unidos não conseguirão jamais se purgar dos mortos do genocídio cometido contra os nativos, o Brasil não ressuscitará seus índios.

O STF parou parcialmente a política anti-indigenista de Bolsonaro. A pressão dos investidores internos e externos também tem funcionado. Mas é preciso marcação cerrada. Do contrário, não haverá desculpa capaz de impedir que os gravíssimos danos de hoje detonem o futuro.

Mary Zaidan

Militares, mensalão, Michelle e milícias

Um agregado das milícias, se não ele mesmo miliciano, pagava contas dos Bolsonaros e punha ainda mais dinheiro na conta de Michelle Bolsonaro, como mostrou a revista Crusoé nesta sexta-feira.

O senador Flávio, o filho 01, enrola-se a cada vez que fala do seu caso com Fabrício Queiroz, motorista, segurança e contato da família com pistoleiros e milicianos, elogiados em público e condecorados pelos Bolsonaros.

Parece tudo tão velho e sabido desde pelo menos 2018. Portanto, é cada vez mais impressionante que o país se acomode a uma família presidencial relacionada com o crime organizado e acusada de fazer seu pé de meia com o furto de dinheiro público à boca pequena, pois sempre foi marginal na política, sem acesso à roubança em grande escala.

Acomodar-se é a palavra a que se deve prestar atenção.

A ameaça hoje mais direta à sobrevivência política de Jair Bolsonaro vem do Supremo Tribunal Federal. Mas no conjunto do Judiciário há um jogo de morde e assopra, de sufoco e alívio. Manipula-se um cabresto para manter o presidente na raia que fica entre o golpe e o impeachment.

 


Os generais, por sua vez, não têm pudor algum de apoiar uma família presidencial associada a agregados da milícia, no mínimo, além de se juntarem às ameaças golpistas do presidente e lançarem manifestos subversivos oficiais.

Negociam eles mesmos o arreglo de Bolsonaro pai com presidiários do centrão, de que faziam troça ainda na campanha de 2018.

Agora mais abertamente do que qualquer casta da alta burocracia, buscam salários maiores, prebendas, aposentadorias gordas, boquinhas para amigos e parentes ou verbas para suas armas. Buscam também reconhecimento, iniciativa que morre mesmo antes mesmo de sair da lama das trincheiras, dados o desastre administrativo, vide o caso do almoxarifado da Saúde, e a apologia de ignorância ou de barbaridades como a tortura.

Parece agora claro que não se pode ter ilusão alguma a respeito do governo militar, do sentido do que fazem os generais do Exército e seus comandados.

Seja pela popularidade restante de Bolsonaro, seja pela possibilidade de cavar rendas, verbas e cargos, “business as usual”, o Congresso acomoda-se ao governo. A cabeça dos lava-jatistas é servida como acompanhamento desse acordão.

Causa cada vez menos escândalo a intervenção de Bolsonaro nos órgãos de controle, que começou no falecido Coaf, passou pela Polícia Federal, estabeleceu-se na Procuradoria-Geral da República e agora pode ser minada de dentro, com a renovação dos órgãos de espionagem.

Rasgou-se a fantasia grotesca de moralidade. Fizeram picadinho do lacerdismo tardio da Lava Jato, o morismo. Tão ao gosto dos Bolsonaros e Queiroz, agora faz-se um rolo a fim de dar um jeito no teto de gastos, teto que era a justificativa limpinha restante daquelas que o establishment e tantos de seus economistas deram para se associar a Bolsonaro.

O presidente precisa de um Bolsa Família para chamar de seu; parte de seus ministros e do centrão quer dinheiro para investimento em obras. Nada disso é possível sem que ao menos se abra um buraco no teto de gastos ou, muitíssimo improvável, se dê um talho imenso no salário dos servidores (“não passará!”).

É a isso que as elites brasileiras se prendem? Uma promessa fiscal precária vale uma sociedade com golpistas, milícia, rachadonas, razia no ambiente e na educação, inércia criminosa na saúde, disseminação da ignorância, de ódio, mentiras sórdidas e vexame diplomático?

Uma palavra agradecida ao governo Bolsonaro

Só quem parece satisfeita com mais de cem mil mortos, a corrupção viva por todos os cantos, é a palavra “descalabro”. Ninguém mais a amava, ninguém mais a escrevia. Ela estava entregue à sanha das traças dos dicionários, abandonada à própria infelicidade por sua decadência e som de bolero. “Descalabro” voltou.

A palavra foi reincorporada aos jornais, na tentativa de exprimir com ênfase polissílaba o estupor nacional. “Vergonha”, “pouca vergonha”, “bando de sem vergonha”, todas essas veemências da língua fracassaram. 


A pobre coitada estava no limbo vernacular, amaldiçoada pelo excesso cafona de seu alvoroço denunciatório. Pior. Carregava a necessidade constrangedora de se fazer acompanhar a cada citação por um outro escorraçado da boa escrita moderna - o infeliz do ponto de exclamação.

Breguerérrima, a dupla “descalabro!” era uma espécie de porta bandeira e mestre sala das escolas de texto ruins. Zero, nota zero. Mas, com a floresta amazônica em chamas e os terraplanistas no poder, ficou claro que para nomear o horror não havia no mercado uma palavra razoável – “negacionistas”, “milicianos” e “assassinos” soavam fracas. “Descalabro” agradeceu a lembrança. Pôs-se às ordens.

Ela parecia para sempre excomungada, junto com o ioiô da Coca-Cola e as perucas Lady, nos almanaques da nostalgia furreca. Está vivinha da silva. Humilde, diz entrar em campo para somar. Ao lado de “não é possível”, “onde vamos parar”, “genocídio” e outras expressões cúmplices do mesmo assombro, quer contar a verdadeira história do país em 2020.

A palavra era a queridinha dos editoriais udenistas da Tribuna da Imprensa (brandida num esquema saia-e-blusa, “descalabro moral”). Nunca desapareceu das páginas. De vez em quando, à sorrelfa, burlava o esquema de segurança do copydesk e dava os ares de sua antiguidade. Surgia em alguma carta de leitor que denunciava o prefeito da cidade e precedia o fecho invariável de “até quando?!”.

“Descalabro” – com o “a” tônico parecendo gritar “pega ladrão” - embute o som de safadeza larga a ser investigada. É a língua afetiva que falava vovó. Ilustra também a crença nacional de que quanto mais sílaba tiver uma palavra, melhor e inconstitucionalissimamente mais culta ela soará. O deputado barroco baiano não saía de casa sem a sua.

Pois aqui, diante dos gastos com quatro milhões de comprimidos de cloroquina, está a “descalabro” de novo. Sempre despenteada, ela põe a cabeça para fora da janela, nem aí para o que vão dizer de sua histeria. Faz a doida, na esperança de que alguém ouça a gritaria que vem do editorial e chame a autoridade competente.

Ao lado de “crime contra a humanidade”, “ignorância” e “quadrilha organizada”, ela reage como pode quando os fatos já não bastam, os cheques na conta da Michele não são suficientes, e é preciso aos observadores do país se boquiabrir com um espanto tão tradicional.

Pode ser muita semântica numa hora dessas, mas “descalabro” tem sido termômetro seguro para medir crises. Quando os mais finos redatores se lembram dela é sinal que a coisa está quedando peluda e urge deixar de lado o bom gosto exigido pelo manual de redação. Sempre foi um “J’accuse” do português ruim, uma pedrada nos vitrais do palácio. Por enquanto, infelizmente, tem a mesma eficácia curativa da cloroquina, esse imenso descalabro.

domingo, 9 de agosto de 2020

Brasil visto pelo mundo

 

O poder da cidadania

A cidadania é o princípio e o fim da democracia. A palavra vem do civis latino, equivalente do grego polites, o membro da polis, de onde deriva nossa “política”. De um modo geral, a cidadania é o conjunto de prerrogativas e responsabilidades dos membros de uma comunidade política.

O cidadão grego era alternadamente um soldado, servidor, legislador, juiz e administrador, dedicado em tempo integral ao interesse público. Mas a cidadania era o privilégio de uma minoria definida por gênero, raça e classe. Roma, em seus inícios, era similar, mas à medida que a cidade se alargava em um império, a cidadania foi gradualmente estendida. Indivíduos de diferentes etnias, culturas e religiões podiam se dedicar aos seus interesses privados em igualdade de condições sob leis comuns, mas em contrapartida eram alheios à deliberação e execução destas leis. Construída sobre estes protótipos, a cidadania nos Estados nacionais modernos herdou deles esta tensão entre proteção legal e participação política – entre o cidadão como recipiente passivo de garantias individuais e como membro ativo da gestão pública.




No pós-guerra, consolidou-se a concepção da cidadania composta por três categorias de direitos sucessivamente acumulados nos últimos três séculos: direitos civis (como propriedade ou liberdade de expressão), direitos políticos (de eleger e ser eleito) e direitos sociais (como educação, saúde ou previdência).

Os críticos deste modelo apontam sua excessiva ênfase nos direitos e a necessidade de suplementá-los com o exercício das responsabilidades e virtudes cívicas. Por outro lado, há os que acusam a insuficiência do mero reconhecimento formal da igualdade entre todos os cidadãos e demandam medidas especiais para incluir grupos vulneráveis. Correntes feministas, por exemplo, criticam estruturas de perpetuação da subordinação das mulheres e os multiculturalistas pedem mecanismos de legitimação das identidades culturais, religiosas ou étnicas minoritárias. Na era da globalização, há ainda quem demande uma cidadania “cosmopolita” que transcenda as fronteiras nacionais.

No século 21, enquanto crescem as apreensões dos ambientalistas em relação a um modelo econômico baseado na expansão contínua da produção e do consumo, o colapso das suas bases financeiras, em 2008, assim como o impacto das novas tecnologias sobre a cadeia de trabalho, engrossaram o coro dos descontentes com este sistema e com os mecanismos de representação política, desencadeando soluções populistas e autoritárias.

O choque da pandemia expôs e agravou as disfunções da democracia contemporânea, e, passado o pânico inicial, vai inflamar estes debates. Com os negócios parcial ou totalmente paralisados e as pessoas confinadas em suas casas aterrorizadas por um inimigo comum invisível, seria cínico duvidar da sinceridade de expressões generalizadas como “estamos todos juntos”. Mas o fato é que as disparidades no interior dos países e entre eles aumentarão, intensificando os conflitos políticos e sociais.

A antiga tensão no seio da cidadania parece mais retesada do que nunca. Para a tradição liberal individualista, a cidadania é primariamente um status legal de garantias das liberdades individuais que permitem aos indivíduos empreenderem e se associarem em busca de sua prosperidade privada. Por sua vez, a concepção cívica republicana vê a cidadania como um processo ativo de participação na esfera pública.

A pedra angular para a reconstrução do contrato social em nosso tempo é o reconhecimento de que estas duas concepções não são antagônicas, mas dialeticamente complementares. As liberdades passivas são a base da democracia, mas a participação ativa é a sua perfeição – se as primeiras estão na raiz da árvore da democracia, é a segunda que gera os seus frutos. Dito de outro modo: o modelo liberal é a saúde da democracia, mas o modelo republicano é a sua virtude. Uma nova concepção de cidadania que sirva de coração a uma democracia a um tempo sadia e virtuosa, próspera e justa é o maior desafio da política no pós-pandemia.

Ainda há esperança?

Espero que a gente tenha conseguido mostrar nesta pandemia que a ciência é necessária e que as pessoas levem isso em conta na hora de elegerem seus representantes
Ester Sabino,. professora da Faculdade de Medicina da USP

 

Amazônia em transe

Dirigentes de três dos maiores bancos brasileiros apresentaram, ao vice-presidente da República, um plano para a Amazônia. Mas um plano que está muito longe de reconhecer e enfrentar os aspectos mais graves da problemática realidade econômica e social da região, de seus habitantes e do país, no que a Amazônia nele é ou pode ser.

Convém lembrar que, na perspectiva do que já foi chamada de Amazônia Legal, aquela região constitui bem mais da metade do território brasileiro. As personagens e os destinatários da proposta, no entanto, nela correspondem a muito menos do que é a população da Amazônia problemática e em crise.


 


Nada diz de significativo aos nossos compatriotas indígenas e aos desvalidos da economia tradicional e camponesa, cuja situação de risco e abandono é o que tem motivado as restrições econômicas ao que da Amazônia devastada e excludente buscam os mercados dos países ricos. Das pranchetas do economismo ideológico nunca saiu nada socialmente inteligente, embora lucrativo para poucos a curto prazo e destrutivo para a nação a prazo longo.

Num país como este, suas peculiares características sociais e humanas são muito diferentes do que se pode ver, compreender e interpretar desde as estreitezas neoliberais e monetaristas de Chicago. A boa vontade dos bancos ganharia sentido se temperasse o poder dos economistas dessa corrente com o bom senso investigativo e interpretativo dos cientistas sociais, que há mais de meio século têm estudado sistematicamente a Amazônia e os problemas sociais dos amazônidas.

São esses cientistas que podem apontar na realidade social e econômica o que de fato é problema para o país. Além do que, sem ouvir e compreender as vítimas, dificilmente se chegará a uma proposta que convença os inquietos e desconfiados lá fora e aqui dentro. O Brasil está sendo colocado diante do falso dilema de civilização ou lucro.

Os que dizem agora que querem salvar a Amazônia, com as ciências sociais enxergariam uma Amazônia também indígena, cuja cultura é estigmatizada pelos leigos e improvisadores que menosprezam os seres humanos e suas alternativas para as estreitezas mentais do primado do lucro e da lucratividade. Os que menosprezam porque pensam o mundo e a vida na perspectiva estéril da mentalidade das classes ociosas, como as definiu Thorstein Veblen (1857-1929).

A proposta apresentada é para acalmar os que, nos países desenvolvidos, inquietam-se com os desdobramentos políticos na opinião pública interna de restrições significativas, de natureza social e moral, à importação de produtos originários de uma economia suspeita porque delinquente e socialmente incorreta.

Faltou na proposta o remédio para as ilegalidades na realidade amazônica, da grilagem ao trabalho análogo ao do escravo. Os poderes das economias dominantes têm medo das consequências políticas da consciência social crítica comprometida com a primazia da condição humana.

O que os proponentes, aparentemente, não perceberam é que as objeções e restrições aos produtos da Amazônia não têm a ver somente com queimadas e com o modo de produzir de uma economia retrógrada, ainda que aparentemente moderna.

Fala-se na necessidade de uma boa propaganda que diga ao mundo que o Brasil cuida do ambiente e cuida dos indígenas. A fumaça da floresta queimada e o grito dos que padecem os efeitos da predação e da iniquidade lucrativas dizem que não. O interesse pela Amazônia tem sido, historicamente, limitado aos imediatismos do capitalismo rentista. Não se trata de usar a terra e a natureza, mas de consumi-las, o que é a negação do próprio capitalismo.

O problema da Amazônia já havia chegado à consciência das pessoas esclarecidas de diferentes países há meio século. A questão indígena, a da violência fundiária e a ambiental brasileiras já estavam em debate na Europa e mesmo nos anos 1970, quando a voracidade da economia neoliberal tentou impor-se com base na falsa premissa de que a Amazônia estava disponível para ser ocupada predatoriamente.

Há décadas, indígenas brasileiros têm comparecido a debates, conferências e manifestações na Europa para expor a situação em que se encontram. O eminente e lúcido cacique Raoni Metuktire, do grupo linguístico kaiapó, tem sido ali recebido como herói da humanidade, com seu imponente e belo diadema plumário e seu solene batoque labial e ritual, impondo respeito e acatamento. Coisa que o governo atual não consegue.

Raoni é um dos melhores diplomatas populares brasileiros, porque entre os que têm poder tem o que falar e sabe falar a quem sabe ouvir O interlocutor do verdadeiro Brasil. Significativamente, foi depreciado pelo presidente brasileiro na assembleia-geral da ONU em 2019.

O maior inimigo do Líbano é seu governo

O Líbano já passou por muita coisa: guerra, crises, catástrofes. Mas o que aconteceu na terça-feira no porto de Beirute supera tudo o que os libaneses poderiam imaginar. A explosão deixou boa parte da cidade em ruínas, desalojou 300 mil pessoas e tirou delas a esperança de um país melhor. Uma esperança que era compartilhada sobretudo pelos jovens.

Apesar de tudo o que país já vivera até então, ninguém podia imaginar até que ponto a incompetência do governo libanês pode ser fatal e até onde vai o fracasso do Estado.

Mahmoud Rifai (Jordânia)


Desde então prosseguem as buscas por desaparecidos, muitas pessoas reviram elas mesmas os escombros nas suas ruas – tudo na ausência de um Estado que não merece esse nome. Nenhum pedido de desculpas por parte da elite política corrupta, ninguém renunciou até agora. Em vez disso, eles elogiam a resistência dos libaneses.

Pelo jeito ninguém se sente responsável pelo armazenamento, durante seis anos, do altamente explosivo nitrato de amônio no porto de Beirute, e isso em galpões deteriorados, próximos da população, no meio da cidade. Em vez disso, prenderam alguns funcionários do porto.

Como é comum nessa cidade do Mar Mediterrâneo, quando alguma coisa dá errado, ninguém é culpado.

Mas, por mais voltas que se dê, o fato é que essa explosão violenta é resultado da corrupção mesquinha de sucessivos governos libaneses. Ao longo de anos, políticos de todas as bancadas saquearam o país e o levaram à ruína.

Mesmo políticos adversários apoiaram uns aos outros nesse sistema corrupto com o propósito de enriquecer. Quando se tratava do próprio bem-estar, eles sempre estavam de acordo.

Essa catástrofe é o exemplo mais recente e mais terrível de que um governo depois do outro simplesmente ignorou sua tarefa mais básica de cuidar das necessidades e do bem-estar da população.

Há anos que falta luz por horas todos os dias – por quê? Porque a assim chamada máfia dos geradores – empresários ricos que ou estão eles mesmos na política ou têm ligações próximas com políticos – lucram quando a população repentinamente precisa comprar mais energia elétrica.

Ou as montanhas de lixo: há anos que se acumulam enormes lixões nas proximidades do aeroporto, nas praias há plástico por todos os lados, resíduos químicos não são corretamente tratados e oferecem riscos para a população. A isso soma-se o comércio, já há décadas, com lixo importado ilegalmente e que não é corretamente eliminado.

Quando, em outubro de 2019, os piores incêndios florestais em décadas se alastraram, o governo não tinha nenhum avião disponível para apagar as chamas: esqueceram de fazer a manutenção e de reabastecê-los. Dizer o que disso?

A crise econômica, a depreciação da moeda? Todos esses problemas foram criados domesticamente. Pois, no fim das contas, a elite governante nunca esteve interessada no país, mas apenas no próprio lucro às custas da população. E nunca um único deles teve que temer consequências.

Além de uma guerra civil, muitos libaneses tiveram que vivenciar, por anos, uma ocupação síria, duas guerras com Israel, várias crises econômicas, um enorme desemprego e atentados políticos. Desde outubro que manifestantes exigem a renúncia da classe política corrupta. "Todos, mas realmente todos" devem renunciar, exigem.

Em várias regiões do país, quem continua no poder são os mesmos senhores da guerra que conduziram a guerra civil, ao final selaram a paz, desde então enriquecem e insuflam os conflitos entre as confissões religiosas.

O trauma dos libaneses é profundo. "Se não são os nossos corpos que morreram, então são os nossos corações", escrevem muitos deles nas redes sociais. Quantas vezes um povo pode reconstruir seu país?

Enquanto o problema não for atacado na raiz, enquanto os mesmo senhores da guerra continuarem nos cargos, o risco de que o Líbano venha a passar de novo por uma situação tão ruim vai continuar.

Com certeza ainda não se sabe tudo sobre a catástrofe de terça-feira passada. Mas uma coisa deveria estar clara: aqueles que permitiram que uma quantidade enorme de material altamente explosivo ficasse durante anos armazenada no porto não podem agora ser os que vão esclarecer como isso se deu.

Isso deve ser o trabalho de uma investigação internacional, que deve expor toda a cadeia de responsabilidades. Este é o momento em que a impunidade deve finalmente acabar no Líbano. Este é o momento da justiça.

Brasil adoece enquanto Bolsonaro releva a pandemia e se mantém em eterno palanque eleitoral

O presidente Jair Bolsonaro não faltou ao seu estilo seco para falar da iminência das 100.000 vidas perdidas para a pandemia do coronavírus. Em live, já na quinta-feira, mencionou o número assombroso já se descolando dele. “A gente lamenta todas as mortes. Já está chegando ao número de 100.000, talvez hoje (em referência à quinta, quando somavam oficialmente 98.493 vidas perdidas). Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar deste problema”, disse ele, ao lado do general Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde. Ao invés de usar a pandemia de covid-19 para mostrar alguma capacidade de liderar e unificar um país Bolsonaro (sem partido), continua a se expressar com palavras duras, como “se safar”.

Depois de um ano e sete meses de Governo, o presidente só faz manter-se fiel ao seu personagem em eterno ritmo de campanha eleitoral, rebatendo qualquer possibilidade de crítica. Desde que o primeiro caso foi registrado no Brasil, em fevereiro, o mandatário oscilou discursos autoritários e negacionistas com raríssimos momentos de serenidade. Seu principal objetivo tem sido o de retirar de si sua responsabilidade na crise, transferi-la para governadores, prefeitos e para outras instituições, como o Supremo Tribunal Federal. Além disso, faz um movimento de tensionamento constante com os poderes, promove medicamento sem eficácia comprovada no combate à doença – a cloroquina –, debocha do distanciamento social e surfar na onda de aprovação entre os mais pobres trazida pelo auxílio emergencial de 600 reais.


Enquanto os números de infectados no Brasil dispararam — mais de 2,9 milhões de pessoas têm ou já tiveram a doença, segundo dados oficiais – o presidente testemunhou seu entorno adoecer. O Palácio do Planalto passou a ser chamado de “covidário”. Dos 3.400 servidores que frequentam a sede presidencial, 178 tiveram covid-19 até 31 de julho passado. Dos 23 ministros de Bolsonaro, 8 anunciaram terem sido infectados. Os mais recentes foram Jorge Oliveira (Secretaria-Geral) e Walter Braga Netto (Casa Civil). Ambos têm gabinete no Planalto. Todos na sequência de Bolsonaro, que confirmou ter contraído o vírus no dia 7 de julho. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, também teve a doença.

Se fosse um país, o Planalto teria a taxa de 5.235 contaminados para cada 100.000 habitantes. A taxa do Brasil é de 1.374. “Durante esse processo, o presidente não teve o interesse ou a capacidade de assumir que errou nesse negacionismo constante e teve de construir uma narrativa política de que foi impedido de atuar pelas instituições”, diz o cientista político e advogado Valdir Pucci, diretor da Faculdade Republicana. Contra Bolsonaro, há acusações no Tribunal Penal Internacional de Haia, queixas no STF e ao menos 40 pedidos de impeachment na Câmara dos Deputados por causa de sua postura omissa na pandemia de covid-19.

Nem mesmo ter sido infectado pelo novo coronavírus fez com que o presidente arrefecesse a temperatura de seus discursos radicais. Em apenas uma ocasião desde que anunciou ter se curado da doença, em 25 de julho, Bolsonaro disse a apoiadores no Palácio da Alvorada que deveria manter distância deles e seguir usando máscara facial. Dias depois, entretanto, viajou para o Nordeste e para o Sul do país para inaugurar obras e promover aglomerações. Na ida a Bagé (RS), disparou mais uma de suas frases cortantes. Perguntado se havia negligenciado a doença, afirmou: “Eu nunca negligenciei. Eu sabia que um dia ia pegar. Infelizmente, acho que quase todos vocês vão pegar um dia. Tem medo do quê? Enfrenta”. Suas frases de efeito para minimizar a doença ganharam as manchetes no mundo. “Não sou coveiro”, em abril quando o país ia em mais de 2.000 mil mortes. “E daí?”, quando o país superou 5.000 mortos no final daquele mesmo mês, e o famoso “é só uma gripezinha”, um mês antes.

Bolsonaro ficou preso à narrativa do enfrentamento e assim deve ficar até o fim de sua gestão, não apenas por causa da pandemia. “A estratégia política do Bolsonaro comporta a ideia de ter uma campanha eleitoral permanente. É parte do DNA do bolsonarismo. Principalmente para ter seus apoiadores fervorosos cada vez mais próximos”, diz o cientista político Leandro Consentino, professor do Insper.

Não só o presidente, mas sua rede de apoio, e até uma fração da classe médica se lançaram a questionar a ciência, confundindo o Brasil num momento de fragilidade diante da doença, com a economia parada, e um futuro incerto. “Bolsonaro testa os limites das instituições e da sociedade civil”, diz o historiador Odilon Caldeira, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e membro do Observatório da Extrema Direita. “Quando ele passa a radicalizar, ele tenta buscar um processo de naturalização de seu discurso”, completa.

Nessa cruzada, instalou interinamente o general Eduardo Pazuello no cargo de ministro da Saúde, depois da queda de braço com dois ministros médicos, que deixaram o posto por discordar dos protocolos de recomendação para o uso da hidroxicloroquina, como queria Bolsonaro, para o tratamento de pacientes com covid-19. O mandato de Pazuello, que deveria ser tampão, já chega aos três meses. Tempo suficiente para acomodar as demandas do presidente, como o próprio endosso à cloroquina, mesmo sem comprovação científica. Em suas aparições públicas, Bolsonaro não perde a chance de erguer uma caixinha do remédio para seus seguidores e até para as emas que vivem no Palácio da Alvorada. Incensa também o uso do vermífugo Ivermectina, outro medicamento sem comprovação de eficácia para os efeitos da covid-19.




Enquanto investe no marketing do confronto a quem o questiona, Bolsonaro abaixou a guarda em um campo sensível para os bolsonaristas radicais. Em sua relação com o Congresso Nacional durante a pandemia, o presidente fez acenos ao Centrão, um grupo fisiológico de partidos de centro direita. Começou a povoar os segundo e terceiro escalões do Governo com indicados por esse grupo de olho em dois movimentos. O primeiro é de impedir que prospere um dos mais de 40 pedidos de impeachment contra ele que tramitam na Câmara. O segundo, tentar preparar o terreno para a eleição da Mesa Diretora da Casa que definirá como será a segunda metade do mandato de Bolsonaro.

Apesar de estar distribuindo cargos, Bolsonaro não tem se deparado com dias fáceis no Legislativo. A sua base de apoio ainda não está organizada. Uma prova disso é que estão em tramitação no Legislativo, 43 vetos presidenciais, sendo que 19 deles se referem a leis ou trechos de leis voltadas para ajudar no combate da crise sanitária provocada pela covid-19. Entre esses vetos, que é quando um governante não concorda com o que foi aprovado pelos congressistas, estão um que trata da concessão de auxílio emergencial em dobro para mães que criam sozinhas seus filhos e outro que impede novas inscrições nos cadastros de empresas de análises de crédito enquanto a calamidade pública estiver vigente.

Entre quem acompanha o dia a dia do Congresso Nacional, a sensação é que o presidente está mais preocupado em garantir caixa para alçar sua popularidade acima dos 30% e reforçar seu discurso para a longínqua campanha eleitoral de 2022 do que em amenizar os efeitos humanos da pandemia. Uma das estratégias seria estourar os gastos públicos, confrontando o seu ministro da Economia, Paulo Guedes, para garantir o programa que sucederá o Bolsa Família, o Renda Brasil.

Após pagar o auxílio emergencial aprovado pelo Congresso de 600 reais até setembro, o presidente pretende estendê-lo a dezembro, ainda que em um valor inferior – de 200 reais. Uma alternativa para garantir mais recursos é aprovar a reforma tributária que enviou no fim de julho, e que sugere a recriação de um novo imposto. “A reforma tributária do Governo é uma simplificação malfeita com a volta da CPMF. A justificativa é a de irrigar os cofres para garantir o Renda Brasil e anabolizar a sua reeleição”, diz o professor Consentino, do Insper.

sábado, 8 de agosto de 2020

É proibido não buscar a felicidade

100 mil mortos

No limiar dos 100 mil óbitos da covid-19 e dos 3 milhões de casos da pandemia, que deve ser transposto no sábado, o Brasil vive a sua pior guerra, no sentido literal ou figurado, desde sua independência. A hecatombe atual guarda semelhança com episódios já muito distantes no tempo, como a gripe espanhola e a onda de fome que assolou o Nordeste na seca de 1877.

Um observatório para se contemplar a desgraça é o portal da transparência do registro civil, uma iniciativa dos cartórios. Segundo o portal, houve em 2020, no período entre 16 de março e 6 de agosto, um total de 507.097 óbitos por causas naturais. No mesmo período, em 2019, foram 474.287.

A razão evidente é a covid-19 e a Síndrome Respiratória Aguda Grave, responsáveis por uma em cada cinco mortes registradas no período - cerca de 90% da soma de 98.985 casos correspondem à doença provocada pelo coronavírus (88.298).

Ainda que quase a metade desta cifra seja compensada pela queda do número de anotações de causas mortis que podem ser atribuídas ao vírus, como septicemia e pneumonia - elas somaram 165 mil no período em 2019 e agora somam 119 mil- há alguma defasagem nos dados, o que sugere que a situação presente é algo mais grave do que aparece. Pela lei, o falecimento de uma pessoa precisa ser comunicado às autoridades em 24 horas e a lavratura do atestado de óbito deve ser feita em cinco dias. O envio do dado para a central nacional deve ser feito em mais oito dias. Com a pandemia, alguns Estados dilataram este prazo em até dois meses. Ou seja, esta fotografia é piso, e não teto. É incontroverso que está morrendo mais gente este ano do que em 2019.


A catástrofe no Brasil, à qual o mundo se curva em números absolutos, não é a pior do continente em termos proporcionais. É uma observação que pode refletir alguma condição excepcional do brasileiro ou apenas a debilidade dos nossos registros estatísticos, uma vez que é impossível atribuir o fenômeno à gerência governamental que está sendo feita em relação à crise. De acordo com o jornal chileno “La Tercera”, entre 1º de maio e 29 de julho uma em cada três mortes no Chile estava relacionada à covid-19, sendo que na região metropolitana de Santiago esta cifra subia à metade. Em magnitude de mortes, no entanto, os dois países se equivalem. A população chilena é dez vezes menor que a brasileira. Multiplicado por este fator, o número de óbitos lá é semelhante ao daqui.

Desde o início da crise, do ponto de vista político, o presidente Bolsonaro abdicou do papel de liderança no enfrentamento do vírus e busca transferir a fatura. A crise caiu no colo dos governadores a quem se cobra a responsabilidade pelas consequências econômicas das quarentenas e a quem se transforma as políticas emergenciais de compras para a saúde em casos de polícia, de maneira justificada ou não. O caso do secretário de Doria é mais um, é banal. Nesse contexto, Bolsonaro é apenas uma pessoa que sai atrás de uma ema com uma caixinha de cloroquina.

A pandemia deixará cicatrizes no Brasil, mas está sendo driblada pelo bolsonarismo. O presidente não está em situação absolutamente segura, pode perder a reeleição de 2022, pode até se inviabilizar no Congresso, mas nada disso deverá ter relação com a macabra contabilidade cotidiana da peste que assola o mundo.

“Com a pandemia, o futuro saiu do circuito. Ninguém está olhando para frente”, observou em conversa com esta coluna o ex-deputado federal Saulo Queiroz, fundador do PSDB e do PSD, antigo hierarca do DEM, o que se convencionava chamar antigamente de uma velha raposa felpuda.

Queiroz refere-se a um problema para o qual o mundo partidário deve acordar no próximo ano. As coligações proporcionais estarão proibidas em 2022. O universo político está polarizada. É um erro tomar pelo valor presente o estrondoso fracasso dos organizadores do Aliança Pelo Brasil em coletar assinaturas para a criação da nova sigla. A hora decisiva será em 2021, em que os acólitos do presidente serão impulsionados pelo projeto de poder claro que significa a continuidade bolsonarista.

Do outro lado, o PT tem uma longa história de sobrevivência no isolamento, ganhando ou perdendo eleições. No meio do caminho estarão siglas como DEM, PSDB, Cidadania, PDT, PSB que, ou se aglutinam em torno de candidaturas viáveis, ou perecerão. Na janela partidária do começo de 2022, deputados de partido sem projeto de poder irão medir quem passa na peneira do voto sem coligação. Quantos deputados poderá eleger o DEM, concorrendo sem parceria? E o PCdoB? O furacão que passará pela janela partidária não será trivial.

No meio do vendaval o futuro presidente da Câmara, a ser eleito em fevereiro, será um ativo estratégico. O biênio final de uma legislatura costuma ser mais tenso que o inicial por se misturar com a sucessão no Palácio do Planalto.

Não é por acaso que a sucessão de Rodrigo Maia está em muito antecipada ao normal. “Já é o assunto do dia nos corredores”, diz um dos pretendentes ao cargo, o deputado Marcelo Ramos (PL-AM), para quem há o risco importante da disputa travar a agenda da Casa.

“A Câmara hoje está dividida em três terços: Bolsonaro, Rodrigo Maia e oposição. Impeachment está fora de cogitação e quem se une a um bloco derrota o outro”, diz Ramos. Como somente Maia pode se combinar tanto a um bloco como a outro, ele tende naturalmente a fazer seu sucessor.

Ramos não crê que um tema polêmico como a reforma tributária seja concluido na Câmara ainda antes da eleição de novembro, sobretudo se estiver vinculado com a nova proposta do governo de renda básica. Ainda assim, não subestima a capacidade de Maia de ditar o processo.

Sem candidato natural à presidência, os partidos de centro poderão ter no comando da Câmara dos Deputados uma reserva de poder, que poderá ser muito útil, inclusive, para mudar as regras da eleição de 2022. Há quem pense que a formação de uma nova sigla poderia aprumar o caminho. Queiroz tem pronta a minuta de uma consulta ao Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade da norma que impediu que um novo partido possa receber uma fatia do fundo partidário equivalente ao total de deputados que ele consiga atrair.

A construção de uma tragédia

Há cerca de um mês e meio, este jornal lamentava nesta página o fato de o País ter atingido a marca de 50 mil mortes por covid-19 (ver editorial Lições de uma tragédia, publicado em 21/6/2020). Pior do que a dor causada por tantas perdas de vidas, histórias e possibilidades, um prejuízo incalculável para o Brasil, era a constatação, já àquela altura, de que um novo marco lúgubre era questão de tempo, só não se sabia quanto. Pois agora passamos das 100 mil mortes ocasionadas pelo novo coronavírus e, mais uma vez, nada assegura que outras 50 mil vidas, ou mais, não serão perdidas em um futuro próximo.

Não se trata de um exercício de futurologia macabra, mas sim da constatação de um fato: os graves desdobramentos da pandemia no Brasil são frutos de uma metódica construção por ações e omissões. Não há como imaginar que melhores resultados hão de vir à frente quando comportamentos que os ensejariam não se mostram presentes, tanto no governo como na sociedade.

Construiu-se essa tragédia porque desde a eclosão da pandemia no País o presidente Jair Bolsonaro adotou um comportamento aviltante diante da maior dor sofrida pelos brasileiros em mais de um século. Por tudo o que se viu e ouviu, infortúnio maior não houve para a Nação do que ter na Presidência um líder tão incapaz e indiferente em momento tão grave da história nacional. Não se sabe se Jair Bolsonaro um dia sofrerá sanções políticas ou jurídicas por seu descaso. Mas ele deveria temer pelo que pode vir a sofrer se acaso experimentar um despertar de consciência adiante.

Construiu-se essa tragédia porque a todo tempo Bolsonaro se mostrou preocupado exclusivamente com seus interesses particulares, em especial seu inoportuno projeto de reeleição, pondo-se a afrontar as orientações das autoridades sanitárias por temer que reveses econômicos ocasionados por medidas protetivas, como o isolamento social, pudessem afetar a sua popularidade. Ao presidente da República cabia coordenar os esforços nacionais para o enfrentamento da crise.

Construiu-se essa tragédia porque o governo não soube aproveitar a janela de cerca de um mês para aprender com a experiência de outros países que já enfrentavam a covid-19 e, assim, preparar o Brasil para o que estava por vir. O Brasil é referência em planejamento e ação diante de emergências epidemiológicas, como H1N1, dengue e zica vírus, mas não se coordenou de pronto todo esse cabedal de conhecimento para preparar o SUS para lidar com a nova emergência.

Construiu-se essa tragédia porque, pelo mau exemplo dado pelo chefe do Executivo, milhões de brasileiros se sentiram seguros para furar a quarentena e provocar aglomerações porque, acreditando nele, não acreditaram na gravidade da doença ou confiaram no curandeirismo presidencial. O que dizer de um presidente que demitiu dois ministros da Saúde em meio à pandemia apenas porque ambos tiveram a ousadia de contrariar suas perigosas posições por prescrições com argumentos baseados na melhor ciência? O que dizer de um presidente que anda com uma caixa de cloroquina a tiracolo – medicamento ineficaz contra a covid-19 – ofertando-a até para uma ema como a panaceia de todos os males? Jair Bolsonaro pôde contar com o apoio do STF e do Congresso Nacional para adotar as melhores medidas de combate à pandemia, mas não o fez por cálculo político, frieza ou birra. Ou tudo isso junto.

Construiu-se essa tragédia porque muitos governadores e prefeitos sucumbiram às pressões de toda sorte para reabrir o comércio e espaços públicos antes que houvesse segurança para isso. Uns por negarem a gravidade da pandemia, como o presidente. Outros pelo receio das implicações eleitorais da manutenção das restrições.

Por fim, construiu-se essa tragédia porque falta a muitos cidadãos um espírito de coletividade, o reconhecimento do passado formador comum e a comunhão de aspirações ao futuro. Com tristeza, viu-se que não raras vezes a fruição imediata de alguns se sobrepôs ao recolhimento exigido para o bem de todos. Aí está o resultado.

A marcha dos mortos

Queria começar dizendo do meu horror por estar escrevendo esse texto sobre os 100.000 mortos enquanto algumas centenas deles estão vivos e lutando pela vida. Todos nós já sabemos que chegaremos aos 100.000 mortos. E este é o horror. E ultrapassaremos os 100.000 mortos, e este é o horror. E não sabemos em quantos milhares de mortos chegaremos, porque não há nenhum controle no Brasil sobre a disseminação da covid-19. Eu ainda sentiria horror se estivesse lidando apenas com a fatalidade de um vírus. Mas tenho convicção de que não é disso que se trata.

 Uma convicção baseada em fatos, como deve ter uma jornalista que emite sua opinião. Uma convicção fundada em acompanhamento do Diário Oficial da União e da comunicação do Governo. Meu horror é infinitamente maior justamente porque testemunhamos um genocídio praticado por Jair Bolsonaro e todos os funcionários ― fardados ou não, peito estrelado ou não ― que têm poder de decisão. 

Meu horror é por escrever sabendo que chegaremos aos 100.000 mortos e perceber que não encontramos força para barrar o genocídio e ainda não encontramos gente suficiente ― no Brasil e no mundo ― para se somar à luta para barrar um crime contra a humanidade. Eu peço perdão aos mortos por nossa fraqueza como povo. Eu peço perdão em nome dos juristas e dos intelectuais que preferem não, porque, afinal, Bolsonaro seria só incompetente ― e não um matador deliberado e sistemático. 

Quase 100.000 vítimas do Governo Bolsonaro e somos covardes ao ponto de normalizar um crime contra a humanidade que é feito em nosso nome

Alguns ainda fazem bochecho com a palavra “banalização”, denunciando que se estaria vulgarizando o termo, sem perceber que são eles que banalizam mais de 1.000 mortes por dia. Eu peço perdão em nome da parcela dos jornalistas que prefere ser “imparcial” diante de um massacre, como se a suposta imparcialidade fosse justificativa para sua omissão como ser humano. Eu peço perdão em nome daqueles que aprovam Bolsonaro porque recebem 600 reais por mês do Governo, porque conheço muitas pessoas em situação de pobreza que exigem seus direitos de serem assistidas pelo Estado numa situação de emergência, mas não compactuam com a morte do outro. Eu peço perdão em nome daqueles que acreditam ser suficiente colocar seu nome em abaixo-assinado enquanto os mortos se enfileiram. Eu peço perdão por essa porção das elites intelectuais voluntariamente pueril em política e destituída de coragem pessoal para assumir seu papel histórico de barrar o extermínio. Eu peço perdão por por essa parcela pusilânime da população que, com as mais variadas desculpas, delega ao outro a tarefa de enfrentar o mais difícil. Eu peço perdão em meu próprio nome por não ser capaz de fazer o mínimo suficiente. 

Todos os dias eu acordo e durmo pensando qual é o papel de uma jornalista, de uma cidadã, de uma pessoa humana quando testemunha um genocídio e me horrorizo porque já não sei o que fazer, porque há pelo menos quatro petições no Tribunal Penal Internacional mas, diante da magnitude da destruição, ainda é pequeno o movimento de mobilização em torno das denúncias. Ainda são muito poucos usando seu espaço para dar nome ao horror. E então, mais uma vez, eu peço perdão para o que não tem perdão. 



Eu peço perdão a você, grande Aritana, cacique do Xingu, por sua voz de tantas línguas ter sido silenciada porque Bolsonaro deixou a floresta aberta aos agentes do vírus, muitos deles atendendo pelo nome de grileiros e garimpeiros ― e fez isso com o apoio dos generais de sua corte, herdeiros de uma ditadura que matou mais de 8 mil indígenas ― impunemente. Eu peço perdão porque tantos brancos acham que negar medidas emergenciais e até mesmo água potável aos indígenas na pandemia, como o Governo fez, é “incompetência” ou “fracasso da política de enfrentamento à covid-19”. 

Eu peço perdão a você, seu Bié, Manoel da Cruz Coelho da Silva, quilombola de Frechal, no Maranhão, porque gente demais acha que morrer mais pretos que brancos é “normal”. Eu peço perdão a você, Tia Uia, Clarivaldina Oliveira da Costa, quilombola da Rasa, no Rio de Janeiro, porque depois de tantos séculos de luta para existir num país fundado sobre os corpos dos escravos, você morreu por racismo. Eu peço perdão a você, Carlilo Floriano Rodrigues, que criou sete filhos com tanto carinho, e caminhou com coragem mesmo sem uma perna. Eu peço perdão a você, Alayde Antônia Rossignolli Abate, que não se desgrudava de seu cachorro de nome Paçoca. Eu peço perdão a você, Roosevelt Guimarães Soares, que enquanto viveu acordava as três horas da madrugada para vender melancia na feira. Eu peço perdão a você, Delcides Maria Oliveira, que na infância enganou a fome com colheradas de café mas não conseguiu vencer a indiferença do Governo diante dos mortos pela covid-19. Eu peço perdão a você, adolescente Yanomami morto aos 15 anos e enterrado em terra estranha como se coisa fosse. 

Eu peço perdão a todos os 100.000, cada um com seu nome, sua história, seus desejos, suas fraquezas, seus sonhos e seus amores. Seus gestos que o crime imobilizou. Peço perdão aos Inumeráveis que foram convertidos em estatística e aos Vagalumes que tiveram sua luz apagada pela indiferença de Bolsonaro diante de suas vidas. “E daí?”, disse o genocida, quando eram 5 mil mortos pela “gripezinha”. Eu peço perdão pela vida interrompida pela fome de morte daquele que disse, na última quinta-feira, diante da proximidade dos 100.000 brasileiros mortos: “Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”. 

Eu peço perdão porque Bolsonaro só pode ser presidente porque há milhões iguais a ele, com a mesma indiferença pela vida do outro, andando sem máscara para que você morra sem ar. Eu peço perdão por aqueles que foram enterrados em covas sem nome. Eu peço perdão por aqueles que foram enterrados em caixas de papel porque faltou caixão. Eu peço perdão por aqueles que sofreram a indignidade de começarem a se decompor em casa porque não havia serviço público para buscar seus corpos, submetendo suas pessoas queridas à tortura de sentir aversão pelo cheiro de quem amavam. Eu peço perdão a você, bebê Yanomami, que foi sepultado longe da sua terra e do seu mundo, sem o lamento de seus pais, sem as homenagens de seu povo, e portanto, não terá paz nem deixará os vivos em paz. 

Eu peço perdão a todos aqueles que não foram chorados na sepultura, aos enterrados por um coveiro que os desconhecia, submetendo seus vivos ao flagelo de não se despedir e portanto não fazer luto. Eu peço perdão aos coveiros submetidos à brutalidade do Estado. Eu peço perdão aos profissionais da saúde que arriscam sua vida dia após dia e são agredidos nas ruas por incitação do presidente da República. Eu peço perdão ao bebê Xavante que, ao morrer, contaminou parte do seu povo que não recebeu nenhuma orientação para se proteger de mais um vírus. Eu peço perdão aos indígenas que, por viverem na cidade, tiveram suas identidades arrancadas pelo mesmo Estado que os expulsou de suas terras. Como suas mortes não são computadas como aquilo que são ― indígenas ― são mortos uma segunda vez. Eu peço perdão por permitirmos que gente seja tratada como coisa e por nos coisificar ao normalizar o extermínio. Eu peço perdão não porque tenho “culpa cristã”, como já fui “acusada” em outros momentos. 

Eu peço perdão porque tenho “responsabilidade coletiva”, porque sou responsável pelo que fizeram e pelo que fazem no meu e no seu nome. Bolsonaro está perpetrando um genocídio em nosso nome quando substitui profissionais da saúde experientes em epidemias por militares inexperientes em saúde, está perpetrando um genocídio em nosso nome quando distribui cloroquina e hidroxicloroquina até mesmo para povos indígenas, medicamentos cuja ineficácia para combater a covid-19 já foi cientificamente comprovada, assim como seus riscos. Está perpetrando um genocídio em nosso nome quando retém os recursos destinados ao enfrentamento da pandemia enquanto faltam até mesmo sedativos nos hospitais para aplacar a dor das vítimas. Está perpetrando um genocídio em nosso nome quando veta medidas de segurança e estimula que as pessoas vão às ruas sem máscaras.

É possível seguir empilhando atos de Bolsonaro que comprovam sua intenção de matar. E também de deixar morrer, o que é uma outra forma de matar, já que um governante tem a responsabilidade constitucional de proteger a população do país que governa. Eu peço perdão. E digo também que, ainda que sejamos poucos, resistiremos. 

Os povos que estão sendo massacrados, como os indígenas, estão produzindo suas próprias estatísticas e seus memoriais. É a maneira de reconhecer a vida dos que morreram e lhes dar a dignidade da verdade na morte. Diante de crimes contra a humanidade, os obituários ganharam o significado da resistência. Contar a história e as histórias tornou-se insurgência – para que os mortos possam viver como memória e seus assassinos não escapem da justiça. Resistimos contando os mortos em mais de um sentido ― como estatística confiável, como identidade reconhecida, como história contada. Nos insurgimos fazendo viviários dos que foram mortos, porque diante das ações e das omissões de Bolsonaro e de seu Governo, morrer de covid-19 não é morte morrida, é morte matada. 

Nós, os que Bolsonaro e seu Governo ainda não conseguiram matar, lembraremos e faremos lembrar. E, quando morrermos, nossos filhos lembrarão. E quando nossos filhos morrerem, nossos netos lembrarão. Caro Jair Bolsonaro, caros generais, caros civis envolvidos nos crimes contra a humanidade relacionados à covid-19: eu espero que vocês sejam assombrados pelos 100.000 mortos. Eu espero que um dia alguém faça um filme da marcha dos mortos à Brasília, marcando a volta do realismo fantástico em nosso continente, já que a realidade que vocês impuseram nos roubou até mesmo a possibilidade da fantasia. Então, liderados pelo grande Aritana, que carregará em seus braços os corpos mortos dos bebês Yanomami insepultos, 100.000 dedos apontarão para seus rostos. Vocês poderão, talvez, escapar dos tribunais. Não escaparão da memória. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Os caminhos do tecnopopulismo

De modo geral já se conhece como triunfam os populistas. Interpretam as frustrações populares em tempos de crise econômica. Criticam o distanciamento das elites e tendem a valorizar a democracia direta: acham que, uma vez submetidos a escrutínio popular, toda a sua agenda é majoritária. 

Ainda estamos por construir uma teoria sobre o declínio do populismo porque, em termos históricos, ele acabou de se instalar em bases novas, num contexto transformado pela revolução digital. A pandemia deu-nos uma pista.

Populistas como Trump e Bolsonaro tendem a afirmar que os problemas têm soluções simples. Diante da complexidade do novo coronavírus, não conseguiram reagir, exceto pela negação.

O fato de ambos se terem apegado à cloroquina como uma saída mágica é, de certa forma, compreensível. A existência de um remédio eficaz colocaria um ponto final em todo o drama.

Mas, como se diz no Brasil, o buraco era mais embaixo. A complexidade da pandemia exigia respostas nacionalmente integradas, aliança com a ciência médica, uma visão mais flexível de gastos na emergência, solidariedade pelo sofrimento das pessoas.

Tanto Trump como Bolsonaro foram incapazes de cumprir esse roteiro. A insensibilidade talvez seja o fator mais impactante no seu fracasso.


No entanto, a pandemia foi o elemento inesperado que precipitou a demonstração da falsidade da tese de que os problemas dos países são muito fáceis de resolver desde que se eleja o homem certo para o papel. Trump já sentiu os efeitos e corre o risco de ser derrotado nas eleições. Bolsonaro, também assustado, saiu em campanha eleitoral, apesar da distância no tempo.

Nem sempre há pandemias. Porém a rapidez com que os acontecimentos se desenrolam é um fator que sempre ajudará a demonstrar que as soluções não são simples e isso encurtará a vida política dos populistas.

No caso brasileiro, existe um fator tradicional. Quase todos os eleitos prometem combater a corrupção. Alguns, no curso de seu governo, como foi o caso de Collor e mesmo de Lula, acabam sendo envolvidos em denúncias.

Bolsonaro trazia um potencial explosivo na sua prática anterior à chegada ao poder. É o método que utilizou para contratar funcionários em seu gabinete e nos de seus filhos.

As investigações prosseguem no seu mandato. Não têm o poder de derrubá-lo. Mas o obrigam a negociações, a buscar apoio em juízes que certamente pedirão algo em troca por seus favores. O resultado disso é que, por necessidade, Bolsonaro tem de se conciliar com as forças que, na campanha eleitoral, ele insinuou que combateria.

De modo geral, o populismo se escora na democracia direta e afirma que para realizá-la é preciso remover os obstáculos institucionais. Bolsonaro não conseguiu demolir o STF e o Congresso. A prisão de Fabrício Queiroz foi um marco que o fez compreender que precisaria de ambos. Daí partiu para um acordo com o Centrão no Congresso e a distribuição de cargos, como sempre se fez no Brasil.

A bandeira anticorrupção foi para o espaço. Só restava agora empunhá-la contra seus adversários, governadores que também são potenciais candidatos à Presidência.

Ao compreender que o movimento não passaria numa área do eleitorado, Bolsonaro precipitou o mergulho no passado. Não mais combateria a corrupção, exceto na retórica, mas iria apoiar-se nos setores mais fisiológicos do Congresso e concluiria sua transição buscando novos eleitores, escorado no clientelismo, e não mais em demandas de coerência. Sua viagem ao Nordeste, montado a cavalo e usando um chapéu fake de vaqueiro, é a expressão visual de sua metamorfose.

Outro fator que tem peso é a relação dos tecnopopulistas com a imprensa profissional. Eles a incluem no sistema decadente que pretendem destruir. Consideram-na um lixo desprezível e articulam sua comunicação por meio das redes sociais e pequenos veículos que possam comprar com sua verba publicitária. A tática é insultá-la sempre que possível, produzir fatos e oportunidades negativas que possam despertar sua indignação, imperando em suas páginas e telas pela crítica que provocam.

Há duas brechas nessa tática. A primeira delas é que a complexidade da pandemia revitalizou a importância de uma imprensa profissional, associada à ciência, produzindo informações confiáveis para atenuar o desastre sanitário. A segunda brecha é também vital. Apostar apenas nas redes sociais como um espaço em que vale tudo.

Não é mais tão fácil como no passado. Grandes empresas ameaçam retirar sua publicidade se não houver controle do discurso do ódio. E agências especializadas vasculham os perfis inautênticos. O Facebook já derrubou muitos ligados à defesa de Bolsonaro e ataques aos seus adversários.

Ainda faltam elementos essenciais nessa análise. Um deles é a própria economia. O populismo floresceu porque há muito não se sentia um crescimento real do padrão de vida. Enquanto a vida melhorava, era tolerável a relativa distância das elites em relação ao povo. Sem a cloroquina econômica, com o País mais pobre, Bolsonaro cavalgará para onde?

Pensamento do Dia

Marco De Angelis (Itália)

 

O céu cairá sobre nós

O céu cairá sobre nós
e ainda assim estarei por cá
para vos amedrontar.
As nossas barbas
deixarão de ser grisalhas
e os nossos ossos
regressarão à terra que
os viu nascer.
Mas ainda assim cá
estarei para
vos atrapalhar.

Há muito que este solo
sagrado deixou de ser
fértil
e as nossas mulheres são feias;
Por que quereis então
este território?
Canto afegão, tradução de Manuel João Magalhães

Bolsonaro diz que fez o possível e o impossível para salvar vidas

Com a delicadeza que marca seus gestos e palavras, e a capacidade lendária de pôr-se no lugar dos outros, o presidente Jair Bolsonaro, na véspera de o Brasil ultrapassar a marca de 100 mil vítimas fatais do Covid-19, abriu sua live semanal no Facebook falando a respeito do 75º aniversário da explosão da bomba atômica que matou mais de 90 mil japoneses em Hiroshima.


Em seguida, perguntou ao ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, que estava ao seu lado, o que um país que deseje a paz deveria fazer. Pazuello, especialista em logística, que outro dia escolheu uma amiga que não entende de gestão pública nem de saúde para representar o ministério em Pernambuco, respondeu como se tivesse ensaiado a cena: “Prepare-se para a guerra”.

Desta vez até Bolsonaro pareceu surpreso com o que ouviu, mas não passou recibo. Voltou mais adiante ao assunto com uma caixa de cloroquina na mesa à sua frente, e declarou sem disfarçar o esforço de mostrar-se compungido: “Lamento a todas as mortes, já tá chegando nos 100.000, talvez hoje. Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”.

Ao que Pazuello observou com naturalidade que o Covid-19 deve ser comparado com o HIV, e que é preciso adaptar-se a ele. “O HIV continua existindo, e a maioria se trata”, resumiu. “É vida que segue”. Horas antes, no Palácio do Planalto, Bolsonaro havia garantido: “Junto com os meios que temos, temos como realmente dizer que fizemos o possível e o impossível para salvar vidas”.

E assim transcorreu mais um dia em Brasília, aonde a paz da República não chegou a ser abalada nem mesmo pela notícia de que 8,9 milhões de brasileiros perderam o trabalho nos primeiros três meses de pandemia. A taxa de desemprego chegou a 13,3%. E os pessimistas de plantão, que sempre torcem pelo pior, calculam que poderá bater a casa dos 20% no fim do ano. Toc, toc, troc!

Se isso acontecer, Bolsonaro tirará de letra. Desde o início da pandemia, quando ainda apostava que o número de mortos não passaria de mil, ele repete que se alguém for culpado pelo recuo da economia serão os prefeitos e governadores que obrigaram as pessoas a ficarem em casa. Ele é inocente desse crime. Foi contra o isolamento e o uso de máscaras. Sua consciência está tranquila.

Brasil, um ano no foco da crítica ambiental mundial

Foi uma catástrofe anunciada, após a qual o Brasil voltaria a ser um pária ambiental, como décadas antes. Em junho de 2019, as primeiras análises de dados de satélite mostraram que a Floresta Amazônica estava queimando mais rápido do que se temia. O presidente Jair Bolsonaro insultou os críticos e, em agosto, demitiu o diretor do conceituado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que comprovara as taxas de desmatamento.

Nos seis meses anteriores de seu mandato, Bolsonaro sistematicamente debilitara, dissolvera ou destruíra muitos dos mecanismos institucionais ou legais de controle e proteção da mata tropical.

O presidente começou sua guerra contra os críticos estrangeiros da política brasileira para a Amazônia após a assinatura do acordo de livre-comércio Mercosul-União Europeia, na cúpula do G20 em Osaka, no final de junho de 2019. Com muito esforço, ele acabou engolindo as críticas de Emmanuel Macron e Angela Merkel à falta de engajamento ambiental do país.

De volta a Brasília, contudo, ele "mandou ver", do modo habitual, alegando que as potências estrangeiras queriam se apoderar da Amazônia; que interesses obscuros estavam por trás da política ambiental dos europeus e suas ONGs.

Em agosto, quando a Alemanha suspendeu verbas para a Amazônia no âmbito da iniciativa de proteção climática, Bolsonaro recomendou à "senhora Merkel" utilizar o dinheiro para o reflorestamento da Alemanha. Dias depois, foi a vez da Noruega cortar seu crédito para o Fundo Amazônia, que já havia canalizado, juntamente com a Alemanha, mais de 3 bilhões de reais para a proteção da floresta e dos indígenas. Bolsonaro zombou, comentando que a Noruega mata baleias - e publicando um vídeo enganoso que mostrava um cetáceo sendo morto por habitantes de outro país.

A opinião pública mundial reagiu com atraso aos crescentes pedidos de socorro dos ambientalistas da América do Sul. Pois o Brasil, que ainda em 2004 incinerara quase 28 mil quilômetros quadrados de mata, tornara-se uma nação que, no início da década de 2010, só desmatava de 6 mil a 7 mil quilômetros quadrados por ano.

A cifra é surpreendentemente modesta, diante das dimensões do país, suas instituições fracas e a pobreza da população na região da mata amazônica. Assim, o Brasil se transformou num protagonista importante no acordo do clima, capaz de se comprometer convincentemente a proteger suas florestas e reter o dióxido de carbono na Amazônia.

A ilusão se desfez definitivamente com os xingamentos gritados de Bolsonaro e o rápido alastramento dos incêndios. As reações vieram sobretudo dos políticos da Europa: na cúpula do G7 em Biarritz, em agosto de 2019, a floresta em chamas ofereceu um flanco aberto para o presidente Macron.

Assim ele pôde fortalecer seu papel de autonomeado guardião do Acordo do Clima de Paris e absorver a pressão dos agricultores franceses contra o livre-comércio UE-Mercosul. No fim do ano, o balanço amazônico era catastrófico para o Brasil, com cerca de 10 mil quilômetros quadrados aniquilados. Bolsonaro reagiu com novos insultos. Aproveitou até mesmo para endossar ataques contra a aparência da primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

Desde então, pouco mudou: apesar de o governo Bolsonaro ter mandado as Forças Armadas para a Amazônia e fundado um Conselho Amazônico, os incêndios deverão crescer 28% no ano corrente, preveem funcionários do Ministério do Meio Ambiente.

Mas no prazo de poucas semanas o clima vem mudando. Agora, poderosos investidores e fundos estrangeiros exigem uma redução sensível dos incêndios, senão retirarão seu capital. Aí, 60 firmas domésticas e estrangeiras em território brasileiro seguiram-lhes o exemplo: seus diretores-executivos reforçam as exigências, temendo que seus acionistas ou clientes as abandonem.

O governo continua contando que poderá acalmar os críticos com meros anúncios ou minimizações, e pretende iniciar uma campanha de imagem no exterior. Mas ela pouco adiantará: Bolsonaro já enganou demais em questões de meio ambiente.

Os investidores e empresas agora querem fatos, dizendo: "Os incêndios têm que parar, senão retiramos nosso capital." Isso já está acontecendo; em julho, investidores estrangeiros se distanciaram em massa da bolsa de valores e reduziram seus investimentos em empresas isoladas, como a de carne ou de mineração.

Cabe esperar se a pressão econômica bastará para Brasília começar a proteger seriamente a Amazônia. Pois, assim como para Bolsonaro, para muitos brasileiros a mata tropical pouco importa. Mas, exatamente como seu presidente, eles reagem alergicamente a lições de moral do exterior.

Liberdade para odiar

Minha geração lutou muito pela liberdade para amar. Amar pessoas do mesmo sexo ou de cor de pele diferente. Mulheres lutaram para fazer amor antes do casamento. E para amar vários outros sem correr o risco de ser mortas. Simone de Beauvoir, em “O segundo sexo”, dizia que a questão da mulher não era a felicidade, mas a liberdade. Precisávamos da lei ao nosso lado para exercer o livre-amar e o livre-pensar.

O sentimento na berlinda hoje no Brasil é o oposto. O ódio. Temos o gabinete do ódio ligado ao presidente Bolsonaro. Temos redes de ódio com milhões de seguidores, que destroem reputações, promovem linchamentos virtuais e chegam a levar adolescentes ao suicídio. Odiamos ideias e pessoas com a mesma paixão com que amamos. A Justiça pode coibir ou inibir uma manifestação de ódio? O que o Estado pode fazer para regular o livre-odiar sem que isso se transforme em censura? 

Conversei sobre os limites da liberdade com o constitucionalista Gustavo Binenbojm. Ex-aluno do ministro Barroso, do STF, Binenbojm foi advogado, no Supremo, de uma ação vitoriosa contra a proibição de biografias independentes e pela livre expressão. O voto mais expressivo foi o da ministra Cármen Lúcia: “Cala a boca já morreu!”. Agora, Binenbojm publica, pela Intrínseca, inaugurando o selo de não-ficção História Real, do editor Roberto Feith, o livro "Liberdade igual". 

O livro parte de um aparente paradoxo nesse Brasil tão polarizado: “Somos igualmente livres para sermos diferentes”. Isso significa que preciso aturar os sites bolsonaristas e aquele repugnante assessor do B., Tércio Arnaud Tomaz, o “rapaz das redes” do presidente, banido do Facebook e no Instagram por seu conteúdo tóxico? Afinal, querer ser livre é também querer livres os outros.

Sentimentos de aversão e de ódio são humanos, e não podem ser inibidos pelo Estado. Mas, externar isso de forma discriminatória ou violenta afeta a liberdade de terceiros. É aí que o Estado entra para regular. “A analogia que costumo fazer”, diz Binenbojm, “é com a liberdade de ir e vir. Todo mundo tem liberdade de locomoção, de ir, vir e permanecer, mas ninguém é livre para avançar um sinal vermelho e sair por aí a 160 km por hora, embriagado, arriscando a vida de outras pessoas. Isso também se reflete na liberdade de expressão”.

O que fazer com as fake news, que envenenam as democracias? O projeto começou muito ruim no Senado. Como uma espécie de censura digital, de controle do debate público. Mas o texto encaminhado à Câmara é bem mais amadurecido. Tenta evitar, com meios tecnológicos, campanhas de desinformação e linchamentos em massa. Restringe contas inautênticas, robôs, perfis falsos, que visam a ganhar dinheiro, manipular a opinião pública e até vencer eleições. “A internet não pode ser um território de ninguém, uma selva hobbesiana de luta de todos contra todos. (O filósofo Thomas) Hobbes dizia que, quando o estado de natureza impera, a vida passa a ser uma experiência brutal e breve”. 

Faroeste. Esse é o adjetivo que o autor de "Liberdade Igual" usa para se referir às redes. E o faroeste chega a nossa esquina. No gatilho, o dossiê para identificar servidores antifascistas. “Investigar ideias de cidadãos criando dossiês é uma prática de estados totalitários para discriminar, prejudicar ou perseguir servidores públicos com ideias diferentes do governo. Vindo do Estado, isso torna o Brasil um Estado policial totalitário”.

Vale para fascistas e comunistas? Nosso genial Millôr Fernandes dizia assim, cita Binenbojm: “Democracia é aquele regime em que eu mando em você. Ditadura é aquele regime em que você manda em mim”. 

“Defendo totalmente o Aroeira por sua charge satírica, copiando o símbolo nazista para criticar o comportamento de Bolsonaro diante da pandemia. Um exercício de crítica política. Mas também acho legítimo que o governo critique a esquerda por posturas autoritárias ou totalitárias de governos comunistas. Isso é um dos princípios cardeais de meu livro”. Discuta, ame, odeie, mas lembre sempre que os limites do bom senso e da lei garantem nossa democracia e um convívio civilizado, racional e inteligente. 

Num livre debate, deveria ser possível defender ideias da extrema direita à extrema esquerda, mesmo que pareçam abjetas, ignóbeis, lamentáveis. Mas há limites, como os conteúdos proscritos pela Constituição, não cobertos pela liberdade de expressão. Racismo, homofobia, nazismo, discriminação a qualquer religião, uso de pornografia não autorizada, apologia à pedofilia e ao terrorismo são alguns desses crimes. 

Deveria também ser crime um presidente elogiar torturadores e incitar o povo a se armar e investir contra as instituições democráticas. Ou incitar o povo a contrair coronavírus, aglomerando sem proteção e sem o uso de máscaras. Ou incitar doentes a tomar remédios como a cloroquina, não recomendada pela OMS, nem pela Fiocruz, nem pelos dois ex-ministros da Saúde. Você não acha?