quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Um sonho para o Brasil de 2020

Quis, para esse final de ano e a chegada de 2020, lembrar alguma história de meu passado que, em um dia como esse, tivesse o sabor da esperança, após o ano vivido de tormento político e social, de sombras e temores e, o mais grave, de brigas entre amigos e até familiares, envenenados por ideologias sem sentido no mundo da comunicação universal, em que nunca estivemos todos tão próximos.

Encontrei a lembrança no arquivo de minha memória. Foi durante minha estadia na Itália. Em um final de ano como o que viverei novamente agora no Brasil, uma amiga me perguntou se queria acompanhá-la para visitar, em um hospital para pobres, uma jovem africana que vivia, já sem esperança de cura, com um pulmão artificial e que era um exemplo de esperança aos outros doentes.

Era em Gênova. A jovem que havia fugido da África para trabalhar na Itália tinha um sonho naquele final de ano. Um sonho pequeno, mas que a ajudava a continuar viva: que a manhã chegasse para que o sol que entrava pela janela pudesse acariciar seu corpo jovem e ferido, preso naquele pulmão de aço. Eu perguntei por que para ela era tão importante aquele raio de sol em sua pele. Me disse: “Sou africana e para nós o sol é Deus. Ele nos dá a vida e a conserva. Eu me sinto completa e viva quando o sol me abraça”.

Vou comemorar pela vigésima vez meu final de ano neste Brasil que me adotou.

E gostaria que 2020 trouxesse a todos os brasileiros, principalmente aos que mais sofrem a pobreza e a injustiça, um sonho de esperança. Aquele que permitia à jovem africana continuar viva. Não posso esquecer que pelas veias de milhões de brasileiros corre sangue africano e com ele a herança de uma cultura milenar rica em experiências de vida. O Brasil é também um país de sol, que é feliz quando deixam que viva a vida em liberdade sem impor mordaças que humilham sua história.

Tudo o que significa, como começa a acontecer no mundo, retroceder aos tempos do obscurantismo e das frustrações de esperanças e de liberdades já adquiridas é querer roubar o deus do sol ao Brasil, algo que espero ser impossível

E essa herança africana com tudo o que isso traz de luz e sombras, de elos de escravidão e de riqueza humana e espiritual, criou esse país, um dos mais multifacetados em suas crenças e mais próximo ao sol das antigas mitologias com seu simbolismo de vida e de felicidade.

Tudo o que significa, como começa a acontecer no mundo, retroceder aos tempos do obscurantismo e das frustrações de esperanças e de liberdades já adquiridas, com o perigo de recuperar os instintos mais primitivos de violência e de vingança de uns contra outros, dos horrores das guerras reais e verbais, é querer roubar o deus do sol ao Brasil, algo que espero ser impossível.

Vamos nos alegrar que no Ano Novo comecem a aparecer os primeiros sintomas de recuperação econômica dos anos difíceis de desemprego e da queda de milhões de pobres à miséria. Mas que essas melhoras da economia global cheguem também às mesas dos que mais sofreram o açoite da pobreza e não fiquem somente nas dos que menos precisam, porque eles nunca são afetados pelas crises e até as usam para crescer ainda mais.

Para que 2020 possa ser um ano diferente, em que comecem a abrir as portas da esperança de uma melhora para todos, junto com o sol desse sonho que nunca deve se perder de poder viver melhor, é preciso, com a dose de esperança, o alerta da resistência contra os bárbaros que tentam desestruturar esse país assim como contra os que, enquanto dormimos em nossa falta de reação à barbárie, constroem muros de novas escravidões sem que percebamos até nos encontrarmos presos e impotentes.

São dois alertas que vi refletidos em dois magníficos poemas de um dos maiores poetas do século XX, o grego Konstantínos Kaváfis. São os poemas Muros e Esperando os Bárbaros. O dos muros que nos levantam no silêncio da noite e o pecado de nossa falta de vigilância diante da chegada dos bárbaros que “tentam impor suas leis”. Uma boa leitura de alerta para o ano que se inicia.

No poema Muros, escreve o poeta:

Sem consideração,
sem piedade, sem
vergonha
construíram grandes e altos
muros ao meu redor…
E por que não os vi quando erguiam os muros?

E conclui:

Imperceptivelmente me trancaram fora do mundo.
No outro poema Esperando os Bárbaros, escreve:
Quando os bárbaros chegarem
eles farão as leis


E narra como no fundo as pessoas haviam se acostumado tanto a que os bárbaros decidissem sua vida, que, quando uma noite não haviam chegado porque, das fronteiras, diziam que “já não existiam bárbaros”, se sentiram perdidas. E o final do poema é uma pergunta e um alerta que balança todos nós hoje:

E o que será de
nós agora sem bárbaros?
Essas pessoas eram uma espécie de solução
Terrível nostalgia dos tempos da tirania.


A melhor resistência, efetivamente, à chegada dos bárbaros e ao perigo de acordarmos um dia encurralados sem saída é que o Brasil, como a jovem africana do pulmão de aço, não renuncie ao melhor de sua identidade e história que é o amor por esse raio de sol, símbolo da liberdade e da felicidade, aproveitada juntos, em harmonia, sem que o país possa continuar dividido. Das culturas mais antigas à cristã, a figura de Satanás sempre foi a que tenta dividir e separar os homens, de semear cizânia e impedir-lhes de viver como eles desejam e não como gostariam os bárbaros como símbolo de intolerância e divisão.

Feliz 2020, portanto, aos meus leitores. A todos. Aos que às vezes gostariam que eu partisse deste país e aos muitos mais que me acolheram e me acolhem com esse calor humano e essa capacidade de contagiar a alegria de viver, que aqui senti sobre minha pele como em nenhum outro país. A todos eles “sonhos dourados” de felicidade, como dizem os italianos. Aquele sonho que alongava a vida e fazia sorrir a jovem africana, crucificada em seu pulmão de aço.
Juan Arias

Cai apoio à democracia no Brasil

O apoio à democracia como melhor forma de governo caiu sete pontos percentuais durante o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, revelou uma pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira.

Entre os entrevistados, 62% consideram a democracia a melhor forma de governo. Na pesquisa anterior, realizada na semana do primeiro turno das eleições em outubro de 2018, o apoio a esse sistema político era maior, com 69%.

Houve, no entanto, um aumento de nove pontos percentuais em relação ao grupo para quem tanto faz se o governo é democrático ou ditatorial, passado dos 13%, em 2018, para 22%. Já o percentual dos que preferem uma ditatura permaneceu estável em 12%.

A pesquisa também revelou que houve um aumento na parcela da população que avalia que não há nenhuma chance de ocorrer uma nova ditadura, passando de 42% para 49%. Outros 46% disseram que acreditam que pode ocorrer uma ruptura democrática, o que representa uma queda de quatro pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.

O Datafolha também questionou a avaliação do legado da ditadura militar (1964-1985). A pesquisa mostrou um aumento de oito pontos percentuais no grupo que considera que o regime deixou mais realizações negativas do que positivas, passando dos 51%, registrados em 2018, para 59% neste ano. Já 30% dos entrevistados consideram o legado positivo, outros 12% não souberam responder.

A pesquisa revelou ainda que a maioria dos brasileiros desconhece o Ato Institucional nº 5 (AI-5), –medida considerada o maior símbolo da repressão política durante a ditadura militar no Brasil. Editado em 13 de dezembro de 1968 pelo então presidente Artur da Costa e Silva, um dos cinco generais que governaram o país durante o regime militar, o decreto resultou no fechamento do Congresso Nacional e na suspensão de direitos políticos.

Durante o primeiro ano do governo de Bolsonaro, o AI-5 foi invocado em três ocasiões por pessoas do círculo do presidente. Além do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do general Augusto Heleno, que chefia o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), o filho de Bolsonaro, o deputado federal Eduardo, defendeu a aplicação da medida para eventualmente silenciar a oposição.

Entre os entrevistados pelo Datafolha, 65% disseram que desconhece o AI-5 e apenas 35% afirmaram ter ouvido falar do ato.

A pesquisa sobre a democracia ouviu 2.948 pessoas nos dias 5 e 6 de dezembro em 176 municípios de todas as regiões do Brasil. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Maneira de viver carece de sentido

A tecnologia nos dá a falsa impressão de que podemos controlar o mundo físico e ditar os termos de nossa própria vida. Tudo, inclusive a imortalidade, parece estar a nosso alcance, mas é falso. A realidade é que em vez de aplacar nossos desejos e temores, a tecnologia os exacerba 
Richard Powers, Prêmio Pulitzer

Os cúmplices

Nenhum autoritarismo se instala ou se mantém sem a cumplicidade da maioria. É o que a história nos ensina. Não haveria nazismo sem a conivência da maioria dos alemães, os ditos “cidadãos comuns”, nem a ditadura militar no Brasil teria durado tanto sem a conivência da maioria dos brasileiros, os ditos “cidadãos de bem”. O mesmo vale para cada grande tragédia em diferentes realidades. Os déspotas não são alimentados apenas pelo silêncio estrondoso de muitos, mas também pela pequena colaboração dos tantos que encontram maneiras de tirar vantagem da situação. Em tempos de autoritarismo, nenhum silêncio é inocente —e toda omissão é ação. Esta é a escolha posta para os brasileiros em 2020. Diante do avanço autoritário liderado pelo antidemocrata de ultradireita Jair Bolsonaro, que está corroendo a justiça, destruindo a Amazônia, estimulando o assassinato de ativistas e roubando o futuro das novas gerações, cada um terá que se haver consigo mesmo e escolher seu caminho. 2020 é o ano em que saberemos quem somos —e quem é cada um.

Há várias ações em curso. E várias mistificações. Quem viveu a ditadura militar (1964-1985) conhece bem, guardadas as diferenças, como o roteiro vai se desenhando. No final de 2019, parte da imprensa, da academia e do que se chama de mercado começou a exaltar os sinais de “melhora econômica”. A alta da bolsa, a “queda gradual” do desemprego, a indicação de aumento do PIB em 2020 são elencados entre os sinais. Ainda que se esperasse mais, afirmam, “os inegáveis avanços do ponto de vista econômico”, entre eles a reforma da Previdência, “a inflação comportada” e os juros fechando 2019 “em patamar inimaginável” permitem —e aí vem uma das expressões favoritas deste seleto grupo de players— um “otimismo moderado”. Até a pesquisa de uma associação de lojistas divulgou uma incrível alta de 9,5% nas vendas de Natal, imediatamente contestada por outra associação de lojistas. É como se a “economia” fosse uma entidade separada da carne do país, é como se houvesse uma parte que pudesse ser isolada e sobre a qual se pudesse discorrer usando palavras enfiadas em luvas de cirurgião. É como se bastasse enluvar jargões técnicos para salvar os donos das mãos de todo o sangue.


Enquanto esse diálogo empolado e bem-educado do pessoal da sala de jantar, dos que sempre estão na sala de jantar, independentemente do governo, é estabelecido, bombas explodiram no prédio da produtora do programa de humor Porta dos Fundos, policiais matam como nunca nas periferias de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, ampliando o genocídio da juventude negra, o antipresidente legaliza o roubo de terras públicas na Amazônia, ambientalistas são acusados de crimes que não cometeram, ONGs são invadidas sem nenhuma justificativa remotamente legítima, adolescentes pobres morrem pisoteados porque decidiram se divertir num baile funk numa noite de sábado, indígenas guardiões da floresta e agricultores familiares são executados, as polícias vão se convertendo em milícias como se isso fosse parte da normalidade, e são também os policiais e “agentes de segurança” condenados por crimes os únicos que são libertados no indulto de Natal. Os sinais estão por toda parte, mas membros respeitados de instituições da República que deveriam ser os primeiros a percebê-los —e combatê-los— seguem inflando a boca para assegurar que “a democracia no Brasil não está ameaçada”.

A qual Brasil se referem estes senhores bem-educados? De qual país estes luminares do presente falam? Certamente não do meu nem do de muitos, não o das favelas onde as pessoas se trancam sabendo que não há porta capaz de barrar a violência da polícia, não este em que os policiais já exterminam os pretos sem responderem por isso há muito, mas esperam mais já que o extermínio vai sendo legalizado pelas beiradas. Não este em que os templos de religiões afro-brasileiras são invadidos e destruídos apesar de o Estado ser formalmente laico. Não este em que as lideranças da floresta enxergam o Natal e o Ano-Novo como os piores momentos do ano porque é o tempo de deixar a família e fugir, pelo menos até que as capengas instituições voltem do recesso.

Neste país, pessoas da sala de jantar, há muita gente escondida neste exato momento para poder virar o ano vivo. Não esperam brindar, desejam apenas não ter o corpo atravessado por uma bala —ou por quatro na cabeça, como ocorreu com Marielle Franco, num crime não decifrado quase dois anos depois. Democracia onde? Os escondidos, os ameaçados, os parentes dos mortos querem saber. Todos nós queremos muito viver neste país em que vocês enxergaram “inegáveis avanços na economia em 2019” e “instituições que funcionam”. Não fiquem com o endereço só para vocês.

As pessoas da sala de jantar, porém, só podem seguir na sala de jantar ditando o que é a realidade porque a maioria assim permite, omitindo-se ou aproveitando-se das sobras. São as pessoas, no dizer da historiadora franco-alemã Géraldine Schwarz, “que seguem a corrente”. A questão é se você, que lê este texto, vai engrossar o rebanho dos que seguem a corrente.

Não o rebanho de ovelhas. Esta imagem evoca passividade, engano, uma obediência absolvida pela inocência. Não. Este rebanho, o dos que agem se omitindo, ou o dos que agem tirando pequenos proveitos, “porque afinal é assim mesmo e quem sou eu para mudar a realidade”, é um rebanho de lobos. Porque o ativismo de sua omissão é cúmplice do sangue das vítimas, estas que tombam, estas que vivem uma vida de terror. É cúmplice também das ruínas de um país. No caso da Amazônia, é cúmplice das ruínas da vida da nossa e de muitas espécies no único planeta disponível.

Géraldine Schwarz escreveu um premiado livro chamado Os amnésicos (Flammarion), infelizmente sem tradução no Brasil. A historiadora, cuja família foi uma dessas que obteve vantagens no nazismo, mas se considerava inocente do Holocausto, deu uma excelente entrevista ao jornalista Fernando Eichenberg, em O Globo. Ela aponta como a adesão aos déspotas do século 21 mantém a estrutura da adesão aos totalitarismos do século 20:

“No imaginário coletivo, temos tendência a dividir a sociedade em três categorias históricas no século 20: heróis, vítimas e carrascos. Na verdade, a maioria da população não se reconhece em nenhuma delas. É a via mais fácil não se incluir em nenhuma das três categorias, mas apenas seguir a corrente. Há o magnífico filme baseado no romance de Alberto Moravia [O conformista, de Bernardo Bertolucci], que mostra muito bem como o conformista acaba aceitando o que antes era inaceitável. No ensino da história, muitas vezes por meio da ficção ou de comemorações, temos uma visão um pouco distorcida do passado. Se tem a impressão de que a população não teve nenhum papel nessa história. E teve, muitas vezes, um papel de pilar e consolidador de ditaduras. É nisso que a democracia tem um papel importante, pois o povo tem os meios de impedir um golpe e a instalação de um regime criminoso. Eleger Bolsonaro, por exemplo, para mim, é brincar com o fogo, pois parece alguém capaz de tudo.”

A historiadora defende a memória como um dos principais instrumentos de defesa da democracia. “O importante é tomar consciência de nossa falibilidade e reconhecer que podemos nos transformar também em um bárbaro”, afirma. "A história não se repete, mas os métodos de manipulação, sim, porque a psicologia humana não muda. Em um contexto de crise, em meio a um grupo, o homem terá reações similares. Um dos métodos é difundir o medo, muitas vezes exagerado em relação à realidade. [...] Trata-se de confundir a fronteira entre o verdadeiro e o falso, desorientando totalmente as pessoas. Perde-se as referências, não se sabe mais no que acreditar. E, como dizia [a filósofa alemã] Hannah Arendt, quem não acredita em mais nada é manipulável à vontade. Ao ponto de inverter seus valores: o que era bom ontem já não o é mais hoje. É o que se observa em várias sociedades do mundo. As pessoas que, hoje, apoiam Jair Bolsonaro, há dez anos provavelmente defendiam os direitos humanos. Por isso que o ensino do Terceiro Reich é capital. Na história há muito poucos exemplos de uma sociedade tão civilizada, moderna, intelectual, que derivou rapidamente para a barbárie. É um ensinamento universal, que serve de alarme a todo mundo.”

O problema é que países como o Brasil não produziram a memória da ditadura justamente para absolver os assassinos, sequestradores e torturadores de Estado. A condição da retomada da democracia foi o perdão ao imperdoável. Essa política de amnésia resultou, em 2018, na eleição de um presidente que tem como herói um torturador e assassino de civis. Diante de uma população desmemoriada, ao final do primeiro ano do governo do déspota eleito vimos um roteiro semelhante se repetir, com as necessárias adaptações a uma época impactada pela Internet. Ainda que a memória no Brasil seja frágil, porém, ela existe. Não há desculpa para omissão. Nem há qualquer inocência no suposto conformismo.

O problema, no Brasil e em outros países que vivem processos políticos semelhantes, é também de memória recente. Esta que está sendo construída agora, não só nas mentiras disseminadas nas redes sociais por Bolsonaro e sua familícia, mas também nas narrativas que isolam a economia da carne que sangra. Como se a evocação do AI-5 por Paulo Guedes não tivesse nada a ver com suas escolhas econômicas, como se o Posto Ipiranga fosse radicalmente diferente do dono do posto. Está em produção uma memória falsa, o que é pior do que desmemória. Pior do que não lembrar é lembrar de um acontecido que nunca aconteceu.

Entre as tantas perversões da ditadura, uma se mostrava particularmente enlouquecedora para aqueles que escolheram lutar contra o regime de opressão. Enquanto homens e mulheres eram vigiados e perseguidos dia e noite, afastados de seus postos, demitidos de seus empregos, transformados em párias e criminalizados, enquanto livros, jornais, filmes e peças de teatro eram censurados, enquanto brasileiros precisavam deixar o país para salvar a vida ameaçada pelo Estado, enquanto os que ficavam eram sequestrados, torturados e mortos por agentes do Estado, uma maioria fingia que nada estava acontecendo. Fingia tanto que acabava acreditando que não eram gritos de dor e de terror o que ouvia. Era o cidadão de bem que apenas seguia a corrente, protegendo os próprios interesses e avaliando o que poderia ganhar com o estado das coisas.

Começamos a testemunhar hoje o mesmo mecanismo perverso. Com todas as desculpas possíveis, auxiliadas pela polarização que desloca o perigo para uma falsa oposição. Com todos os erros e os crimes do PT no poder, o antipetismo não é justificativa aceitável para alguém seguir a corrente. Não tem mais clima para se fingir de iludido. Basta ter vergonha na cara para perceber que não se trata mais do PT. Se trata da corrosão do que ainda resta de democracia no Brasil. Se trata da autorização para roubar enormes pedaços de floresta, desmatá-los e botá-los no nome dos autores do crime. Se trata da conversão das forças de segurança em milícias com autorização para matar. Se trata da criminalização de quem defende os mais frágeis, usando para isso o aparato do Estado. Se trata de genocídio de negros —e também de indígenas.

Há muita gente se fingindo de ovelha para lavar as mãos diante do que vive o Brasil. Mas há também gente angustiada perguntando o que fazer diante do que já não consegue deixar de ver. A estes, respondo que ninguém vai dar a resposta. Esta resposta terá que ser criada, coletivamente, por iniciativa dos que fazem a pergunta. Em cada profissão há o que fazer. Este é um momento em que precisamos fazer melhor o que sabemos fazer, mas também precisamos fazer bem o que não sabemos. Apenas o que sabemos já não é suficiente. O que somos já não é suficiente. Temos que ser melhores do que somos para enfrentar este tempo em que já não há tempo. E temos que ser juntos, fazendo laços e tecendo redes entre nós.

Este é o desafio de 2020. O ano novo não está dado. 2020 só será novo se nossa resistência resgatar o presente das mãos dos déspotas. Esta é a única resolução possível diante do que vivemos e do que testemunhamos. Cada um de nós precisa se responsabilizar pelo horror do nosso tempo.
Eliane Brum

Crônica de Natal

Em memória de Alba Zaluar

Vários amigos do coração me perguntaram como seria esta escrita de Natal. Um dia no qual no nosso mundo nominalmente cristão deveríamos —honrando a invenção dos Reis Magos — nos presentear mutuamente porque o “dar com o receber” — o reciprocar — é o berço do amor e a manjedoura da paz solidária que tanto procuramos.

É trégua, porque a vontade — com seus desejos, projetos, fantasias, calúnias, traições, doenças e sonhos — está em febril movimento e sempre nos traz de volta a frustração da nossa humanidade.

O acontecimento mais marcante do ano tem sido a continuidade do desmascaramento em todos os níveis, incluindo a presidência desempenhada por um péssimo ator. Mas há um claro desmonte do poder à brasileira. Um modo de dominação pessoal que hoje enfrenta uma implacável crítica aberta e, principalmente, a lei impessoal inerte para com os poderosos, mas que passou a ser tenazmente implementada, desmascarando partidos populares e aristocráticos, gente grande e comum, bem como magos, atletas, ateus e escovados malandraços.


O que tem ocorrido no Brasil — e, também nos países que os subsociólogos julgavam resolvidos ou “adiantados” — é o insólito presente do desmascaramento. Realmente, num planeta globalizado, movido a Facebooks e fake news —bem como true news! —, repleto de câmaras com onipotência divina, criou-se a contragosto e a despeito da malandragem como um valor uma inexorável demanda coletiva de transparência e honestidade. Um desejo coletivo de desmascarar e desmistificar tanto de um lado quanto do outro, tanto de cima quanto de baixo.

Antigamente, as aristocráticas “boas maneiras”determinavam jamais discordar, mas negacear, dissimular ou, em caso extremo, falar uma mentirinha, sacanear, intrigar ou enganar com razoável sutileza. Em face de casos flagrantemente negativos — sempre ligados ao poder e às famílias no poder! —, partia-se para o uso da lei que, com suas brechas desenhadas a confirmar a superioridade por meio de um bom advogado e dos inesgotáveis recursos, anulavam o ideal da justiça como um valor imprescindível numa democracia.Nesse soterrar do conflito e da discordância, jaz a raiz da “malandragem”, cujo símbolo vivo é Pedro Malasartes. Em suma: a norma social era jamais “bater de frente”, porque o bate-boca, além de ser feio e público, tem um motivo profundo. Ele mistura e igualda, ofuscando ou pondo em risco a hierarquia. Os inferiores não devem reclamar; e os superiores não podem descer ao nível dos subordinados, permitindo — exceto no futebol — trocas emocionadas de pontos de vista que sinalizam uma patente igualdade.

Seguindo o ideal de imobilidade dos regimes aristocráticos — o qual, no Brasil, foi duplamente repleto de alteridade porque os escravos eram africanos e tão estrangeiros quanto a realeza igualmente vinda de fora —, um inferior não ousava desafiar e enfrentar um superior. Como um negro rebateria um branco, um moço um velho, um aluno um professor, uma mulher um homem, um leigo um clérigo, um cidadão comum um baronete? Virava-se o rosto, ficava-se com os rituais da casa e do compadrio e da toga. Hoje, tenta-se cobrar os fatos com todas as letras.

Estamos separando os fatos de suas versões. Começamos a enxergar a nossa alergia — como disse em vários livros — à igualdade e ao respeito pelos desconhecidos.

Um olhar natalino e fraterno diria que neste ano de 2019 tornamos reais nossas duas mãos, embora esteja viva em nós a matriz do superior e do inferior (cabeça e pé), mais do que a simetria do lado esquerdo e direito.

Há quem suspeite de que toda a polaridade escamoteia uma hierarquia. Uma hegemonia da esquerda opera em alguns lugares; em outros, ocorre o oposto. Não há um centro, a não ser no bom senso de concordar em discordar, essa arte de articular simetrias racionais; e envergonha-se com a miséria e a incúria malandra. Não há como dispensar a simetria, exceto suprimindo um dos lados, como acontece quando a alternância é reprimida e ocorre a mutilação do nazi-fascismo, que não hesita em cortar cabeças e braços.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Boas festas

O ano se vai, chegam as festas. Uma para celebrar a Humanidade; outra para festejar a Esperança. Assim seria...
À espera que aconteça como reza a civilidade, daremos um descanso em boas companhias. É um tempo curtinho. Voltamos em 2020

Desequilibrado!?

O Jair está nitidamente desequilibrado. Precisa urgentemente de tratamento psiquiátrico. Estou também preocupado, uma vez que o país está sob seu comando. Isso tudo é muito triste. Não era para ser assim
Gustavo Bebianno, ex-ministro de Bolsonaro

Bolsonaro, ascensão e queda

O presidente Jair Bolsonaro desmaiou e por isso caiu e bateu com a cabeça no chão do banheiro da área residencial do Palácio da Alvorada? Ou apenas caiu por que escorregou ou tropeçou em alguma coisa? Essa era a pergunta que muitos se faziam, ontem à noite, em Brasília, e que estava sem resposta até esta madrugada.

Se ele caiu por ter desmaiado, o caso pode inspirar maiores cuidados. Levado às pressas para o Hospital das Forças Armadas, uma tomografia computadorizada não detectou alterações no seu crânio, segundo nota oficial do governo. Ficaria em observação por 6 ou 12 horas, devendo ser liberado logo em seguida.

Com 64 anos de idade, Bolsonaro sempre gozou de boa saúde. Quando serviu ao Exército ganhou o apelido de “cavalão”, tal era sua disposição física que lhe rendeu boas notas em competições esportivas. Foi elogiado muitas vezes por seu desempenho. Arriscou a vida para salvar um colega paraquedista que se afogava.

Não tivesse levado a facada que quase o matou em Juiz de Fora, estaria em forma. A facada pode tê-lo ajudado a se eleger presidente, mas fragilizou seu corpo e principalmente sua mente. Foi operado mais de uma vez em menos de um ano. Usa uma tela para proteger seu abdómen. Sente dores com frequência.


Ter visto a morte de perto mexeu muito com sua cabeça. Vive assombrado. Receia ser alvo de um novo atentado. Enxerga perigo por toda parte. Presidente algum desde a redemocratização do país escolheu ser refém de um aparato de segurança tão gigantesco como o que o protege. Apesar disso, ele cobra sempre mais.

Quando Bolsonaro fala que só será candidato à reeleição se sua saúde permitir, não está blefando. Muito menos se vitima para atrair mais votos. De fato, ele não parece nem um pouco disposto a pôr sua vida novamente em risco para exercer por mais quatro anos uma tarefa que tanto o desagrada.

Sua intenção inicial ao lançar-se candidato a presidente era ajudar os filhos em suas carreiras políticas. Não imaginava que venceria. Na hora que sua vitória foi anunciada, teve uma crise de choro. Mais tarde, confessou que se sentia esmagado pelo que acabara de acontecer. Sabia que carecia de preparo para o novo ofício.

Os filhos Flávio e Eduardo tiveram votações expressivas nos rastros do pai. Mas um ano depois, Flávio está cada vez mais enroscado com a Justiça, e Eduardo frustrado por não ser embaixador do Brasil em Washington. A família jamais se sentiu tão acuada. Natural que o patriarca sofra com tudo isso.

Bolsonaro dá presente de Natal a criminosos de farda

A um mês da posse, Jair Bolsonaro fez um anúncio solene aos brasileiros. “Garanto a vocês, se houver indulto para criminosos neste ano, certamente será o último”, assegurou. O Supremo Tribunal Federal julgava a validade do perdão concedido por Michel Temer. Pelo Twitter, o presidente eleito avisou que a Corte não precisaria mais se preocupar com o assunto. A partir de 2019, o tradicional indulto natalino viraria coisa do passado.


“Qualquer criminoso tem que cumprir sua pena de maneira integral. Essa é a nossa política”, reforçou, no dia seguinte. Após uma formatura militar, Bolsonaro repetiu que não assinaria novos atos de perdão. “Minha caneta continuará com a mesma quantidade de tinta até o final do mandato em 2022. Sem indulto”, sentenciou.

Se a vida no Brasil vale pouco, a palavra do presidente vale menos ainda. Bolsonaro não esperou nem um ano para descumprir o que prometeu. Ontem ele editou o indulto mais generoso dos últimos tempos. Anistiou policiais condenados por homicídio culposo, que agiram fora das hipóteses de legítima defesa.

O decreto beneficia até os agentes de segurança que mataram em dias de folga. É um presente de Natal para milícias e esquadrões da morte, que sempre contaram com a simpatia do clã presidencial.

A família Bolsonaro costuma reservar um lugar na ceia para criminosos de farda. O ex-sargento Fabrício Queiroz, que assinava cheques para a primeira-dama, era campeão de “autos de resistência” na Cidade de Deus. O ex-capitão Adriano da Nóbrega, condecorado na cadeia pelo primeiro-filho, é apontado como chefe de um grupo de extermínio.

O indulto será concedido ao fim de um ano em que a polícia bateu recordes de letalidade. Só no Estado do Rio, foram registradas 1.546 mortes de janeiro a outubro. É o maior número desde o início da série histórica, em 1998. Agora a matança tende a aumentar com incentivo presidencial.

Antes de autografar o decreto, Bolsonaro ameaçou anistiar PMs envolvidos em massacres de repercussão internacional, como o do Carandiru. Pelo texto divulgado ontem, os casos ficarão de fora. É um truque conhecido. O homem começa anunciando o intolerável, para provocar protesto e indignação. Depois ensaia um pequeno recuo, para que o absurdo pareça não ser tão grave assim.

Pensamento do Dia


No show de ‘seu Jair’, o grande fecho de um ano

Família Bolsonaro é o grande assunto deste fim de ano. É muito mais importante que os novos empregos formais, a briga pelo fundo eleitoral, o magro reajuste do salário mínimo, os sinais de reanimação econômica, a bolsa batendo recordes, a ameaça de recriação da CPMF, as projeções otimistas para 2020 e os desafios do comércio internacional. Nem os dados positivos de 2019, como a aprovação da reforma da Previdência, valem a mesma atenção. Muito mais importantes, neste momento, são a nova fase da investigação sobre Flávio Bolsonaro, suspeito de rachadinha e lavagem de dinheiro, e seus efeitos sobre o chefe do clã, o presidente Jair Bolsonaro.


“Não tenho nada a ver com isso”, disse o presidente na quinta-feira de manhã, ao ser questionado sobre a investigação conduzida no Rio de Janeiro pelo Ministério Público Estadual. Se de fato acreditava nisso, mudou de ideia rapidamente. Na manhã seguinte, ao sair do Palácio da Alvorada, enfrentou a imprensa com muito mais disposição, defendendo seu filho, distribuindo grosserias e criticando o juiz Flávio Itabaiana, do Tribunal de Justiça do Rio, por causa das operações de busca e apreensão realizadas na quarta-feira e da quebra de sigilo de pessoas e empresas investigadas no caso. As grosserias foram dentro do padrão bolsonariano. Interessante, mesmo, foi a inexplicada referência à filha do juiz.

Funcionária do governo fluminense, essa jovem, “pelo que parece”, é fantasma, disse o presidente aos jornalistas. O governo do Estado do Rio logo rebateu, informando a função e as qualificações da moça, uma advogada, e a data de sua nomeação, feita 15 dias antes da distribuição eletrônica do processo de Flávio Bolsonaro ao Juízo de Direito da 27.ª Vara Criminal. Mas como e por que o presidente Bolsonaro sabia da existência dessa moça e de seu emprego? Alguém lhe contou? Alguém havia investigado a família do juiz, por decisão própria ou por ordem de autoridade federal?

Tão interessante quanto essas perguntas é o estilo presidencial. Guardião juramentado da Constituição, o chefe do Poder Executivo reagiu à investigação sobre seu filho atacando o juiz, pondo em dúvida sua seriedade e lançando suspeita sobre a condição profissional de sua filha como servidora pública. Detalhe: ao mencionar a suspeita, usou a expressão “pelo que parece”, numa clara exibição de irresponsabilidade.

Enfim, o ataque ao juiz e à filha em nada se assemelhou à reação própria de um homem público ou mesmo de qualquer cidadão razoável e equilibrado. Pareceria mais normal se partisse de um miliciano ou, de modo geral, de alguém pouco afeito a agir segundo a lei e segundo padrões civilizados.

É difícil dizer, no entanto, se esses padrões são importantes para quem se acostumou a posar para fotos fazendo gesto de quem maneja uma arma – ou duas, em muitos casos. Seus filhos e muitos apoiadores do presidente Bolsonaro têm o mesmo hábito, como se houvesse algum mérito na encenação do uso de armas numa sociedade do século 21.

Mas isso terá pouca importância, dirão os muito otimistas, se a política econômica avançar na direção correta e os negócios prosperarem. Comentários desse tipo têm sido frequentes, mesmo entre pessoas bem alfabetizadas e até com diplomas de boas universidades. Segundo dizem, há no Brasil dois governos. Um se dedica a assuntos como a posse e o porte de armas, a moralização da arte, o combate ao comunismo, mesmo imaginário, e a cristianização das funções de um Estado leigo. Outro se empenha na implantação de uma economia liberal, na diminuição do Estado e na criação de condições para a firme expansão dos negócios.

Mas haverá mesmo dois governos? Haverá um contraste efetivo entre a crueza do bolsonarismo mais simples e a sofisticação de uma política econômica redentora? É preciso ter muita fé, ou valorizar acima de tudo qualquer chance de lucro, para levar a sério esse contraste. Talvez algumas perguntas possam enriquecer o debate, se houver de fato debate.

Por que o ministro da Economia endossou – corrigindo-se, depois do escândalo – a ideia de um novo AI-5 no caso de grandes manifestações contra o governo? Será ele, de fato, tão liberal quanto se proclama? Ou estará, afinal, muito próximo das preferências políticas de seu chefe e de seus filhos?

Em segundo lugar, haverá alguma diferença entre seu suposto liberalismo econômico e um efetivo darwinismo social? Se o rótulo de liberal for de fato aplicável à política econômica brasileira, como classificar as ideias de economistas como Richard Musgrave, por muito tempo uma referência em finanças públicas, e de Amartya Sen, premiado com o Nobel de Economia? Milton Friedman, defensor de um imposto de renda negativo para os mais pobres, terá sido um comunistão enrustido?

Por que o ministro vincula tanto a reforma tributária à eliminação de encargos trabalhistas e jamais discute, por exemplo, os defeitos do ICMS, um dos maiores entraves à competitividade? Por que batalhou pela extensão da reforma previdenciária aos Estados, mas nunca abriu um debate sério sobre o imposto estadual? Por que insiste em recriar a CPMF, um tributo aberrante, cumulativo e claramente regressivo?

Privatizar por ideologia será mais inteligente que estatizar por ideologia? Há bons argumentos a favor da privatização de muitas empresas federais, mas o governo raramente os menciona. Promete privatizar, simplesmente, às vezes citando a receita esperada, mas nunca, ou quase nunca, apresentando razões estratégicas. Trata do assunto como se fosse cumprir uma lei divina. Para parte do público isso deve bastar. Mas bastará também para quem leu mais de um livro?

Como falar, enfim, de dois governos, sendo um de Bolsonaro e o outro de um técnico disposto a taxar o seguro-desemprego e a defender, como em entrevista recente, a política ambiental em vigor no País?

Construindo uma grande nação

Três historinhas para ilustrar nossa última reflexão do ano, a primeira muito conhecida.

– Condenado à morte por corromper a juventude, o filósofo Sócrates recusou a oferta para fugir de Atenas, pois seu compromisso com a polis não lhe permitia transgredir as regras. Os gregos cultivavam o respeito à lei.

– Lúcio Júnio Bruto, fundador da República Romana, libertou seu povo da tirania de Tarquínio, derrubando a monarquia. Depois executou os próprios filhos por conspirarem contra o regime. Pregava o poeta Horácio: “Doce e digno é morrer pela Pátria”.

– Outro romano, rico e matreiro, conta Maquiavel no Livro III sobre Tito Lívio, deu comida aos pobres em uma epidemia de fome e por isso foi executado. O argumento: pretendia tornar-se um tirano. Os romanos prezavam mais a liberdade do que o bem-estar social.

Emerge a pergunta: qual personagem se sairia melhor no cenário contemporâneo? O terceiro, com uma diferença: o matreiro político não seria executado por ali­mentar a plebe, mas glorificado, mesmo escondendo, por trás da distribuição de alimentos, seu projeto de poder. Hipótese mais provável em nossa tradição patrimonialista.

Uma leitura de dois mundos. O primeiro regrado por princípios e valores, com­promisso com o bem comum, obediência às leis, defesa da moral e da ética. Combina com a utopia da ilha de Thomas Morus: “uma terra de paz e tranquilidade onde os habitantes não têm propriedade individual e absoluta”.
Esse Estado perfeito contrapõe a cidade divina e a terrestre, esta afinada ao universo de Maquiavel: “os fins justificam os meios”. Para o florentino, o povo é dotado de razão e capaz de decidir o seu des­tino. Sonha com a liberdade e, para conquistá-la, usa quaisquer meios necessários. Sua lógica: ideologias e valores morais cedem lugar aos instru­mentos em nome da hegemonia. Aqui a ética da ação prevalece sobre a ética da consciência.

O desenho ajuda a entender nosso tempo. Protagonistas políticos e até juízes lutam para impor suas demandas, multiplicando mazelas e velhos padrões da política.

Afinal, de que o Brasil necessita para fortalecer seu conceito de Nação em 2020? Primeiro: democratizar sua democracia, expandir a participação do povo, com inclu­são social, boas condições do trabalho, proteção ao meio ambiente, direitos humanos, qualificando serviços públicos como educação, saúde e segurança.

Impõe-se convocar a sociedade para um projeto nacional, sem conveniências eleitorei­ras. O Brasil clama por planos essenciais nas áreas social, cultural, geográfica e econômica. Paredes inteiriças em vez de tijolos. E uma relação harmônica entre os Poderes, dentro da norma constitucional.

Deve-se valorizar a meritocracia e atenuar as indicações partidárias, selecionando perfis adequados para a administração. Aristóteles dá uma pista: “Quando diversos tocadores de flauta possuem mérito igual, não é aos mais nobres que as melhores flautas devem ser dadas, pois eles não as farão soar melhor; ao mais hábil é que deve ser dado o melhor instru­mento”. Isso é mérito.

Convém lembrar: uma grande democracia repousa sobre uma base de direitos e deveres, de ordem e harmonia, de ética e moral.

Frutos podres

Cristo falava por parábolas. Bolsonaro fala por slogans. Uma parábola é um relato alegórico, destinado a fazer pensar e extrair de sua narrativa uma moral. É um instrumento que se dirige, ao mesmo tempo, à fé e à razão. Já um slogan é uma afirmação categórica, acachapante, disparada para ser aceita pelo receptor sem passar necessariamente por seu cérebro. É uma arma dos publicitários, dos políticos e dos autoritários.

Uma das grandes parábolas de Cristo está em Mateus 7:15-20: "Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestes de ovelha, mas que por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se porventura uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos, mas a árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore má pode dar bons frutos. Toda árvore que não dá bons frutos deve ser cortada e queimada".

Por falar em frutos, digo, bolsonaros, digo, slogans, o slogan favorito de Bolsonaro é o martelado "Brasil acima de tudo e Deus acima de todos". O "Brasil acima de tudo" cheira ao slogan nazista "Deutschland über alles" —"A Alemanha acima de tudo"—, mas isso não lhe provoca desconforto. Com slogans não se discute.

O Brasil de que fala Bolsonaro deve ser o nosso, que ele reduziu a seu condomínio. Mas a que Deus Bolsonaro se refere? Ao Deus dos católicos, o velhinho bonachão, de barbas e camisolão, síndico do Céu? Ou ao Deus protestante, incorpóreo, rigoroso, fiscal de nossos malfeitos aqui na Terra? A pergunta procede, porque Bolsonaro se diz católico, embora nunca seja visto com padres ou em seus rituais. Ao contrário, seu território são os templos evangélicos e seus aliados, os "bispos" de televisão. Bolsonaro servirá a dois senhores?

Pelos frutos que estão começando a despencar da árvore, Deus e o Brasil não demoram a pedir dispensa do tal slogan.
Ruy Castro

Bombons de Bolsonaro

As revelações espantosas do Ministério Público do Rio de Janeiro explicitam todos os vícios da carreira de Jair Bolsonaro, apontados pela imprensa desde a campanha, mas ignorados pelo eleitorado, e também os de seu primeiro ano de mandato, igualmente assinalados pelo jornalismo profissional, já aceitos por uma parcela do mesmo eleitorado, mas ignorados (até aqui) pelo núcleo duro da militância bolsonarista e por setores da elite liberal. Vamos a eles, em pequenos bombons:

1. Bolsonaro nunca foi baluarte anticorrupção.

Trata-se de uma construção recente essa do Bolsonaro lavajatista. Em sua carreira, o deputado do baixo clero sempre esteve mais voltado às pautas corporativas, a fazer da política um negócio em família e a chocar com opiniões ofensivas que em combater a corrupção. Nunca integrou nenhuma CPI. Nunca foi do Conselho de Ética. Sempre criticou o Ministério Público. E, agora se sabe, praticou aquilo que sempre condenou na “velha política”.

2. Misturar política e família não tem nada de nova política.

Os Bolsonaro se instalaram no poder sem nenhuma cerimônia. Na campanha, os filhos deram as cartas. Na posse, Carluxo se aboletou de carona no Rolls-Royce, numa das cenas mais emblemáticas desta era. Bolsonaro disse que daria o “filé” aos filhos, que um podia ser ministro e outro, embaixador em Washington. Juntos, os quatro amealharam patrimônio milionário tendo sido só políticos na vida. E, agora se apura, muito desse patrimônio pode ter vindo da prática de “rachadinha” e da existência de funcionários fantasmas. A imprensa mostrou na campanha. O eleitor fechou os olhos deliberadamente.


3. Decoro e liturgia do cargo importam.

O presidente, com o filho pilhado num escândalo que mistura laranja com chocolate, se descontrolou na frente do Alvorada. Em sua tradicional “paradinha”, em que fala de improviso a jornalistas com a claque de apoiadores, ofendeu repórteres e passou um recibo ao vivo, pelas redes sociais, de que o caso assombra o clã. Ao presidente da República cabe prestar contas, e não dar piti. Comunicação improvisada dá nisso, como sempre alertaram aqueles que têm bom senso. Apelar à comunicação direta como forma de populismo pode parecer boa ideia aos filhos idólatras e aos puxa-sacos aboletados em cargos públicos, mas expõe o governante. Bolsonaro sem filtro é isso aí.

4. Paranoia e mania de perseguição são passaporte para o autoritarismo.

Um presidente que não se vexa em acusar um ex-ministro, sem nenhuma evidência possível, de integrar um complô para matá-lo, não tem mais nenhum compromisso com os fatos e com as obrigações que o cargo lhe impõe. Está, portanto, a um passo de se mostrar disposto a tudo no combate a inimigos imaginários cada vez mais abundantes e espalhados. Cabe às instituições, como venho repetindo aqui e não me cansarei de lembrar quantas vezes precisar, dar um freio aos ímpetos persecutórios e claramente autoritários do presidente.

5. Relação com milícias coloca em xeque o discurso liberal de que a economia justifica tudo.

Na quarta-feira escrevi que, a despeito de ser um recordista de impopularidade, Bolsonaro seria favorito em 2022 se a economia seguisse crescendo, ainda que devagar. Eduardo, o 03, tirou onda, querendo desviar o foco do irmão chocolatier. Pois a impopularidade está confirmada, mas o favoritismo será fortemente abalado se o mito de pés de barro ficar nu, como já está ficando. Além de laranjal e rachadinha, o caso Flávio & Queiroz tem tudo para deixar ainda mais patente uma explosiva relação do clã com as milícias do Rio. Algo que será difícil até para a elite liberal, disposta a fechar os olhos para tudo em nome da agenda econômica, engolir.

Coral Brasil


Envergonhismo

Se já é difícil escolher um, apenas um, assunto entre os de maior relevância ou preferência pessoal em 2019, imagine ampliar o período até o início da década, a segunda do novo século, a segunda do milênio. Decênio que, aliás, não teve início em 2010, mas dois anos antes.

Se o século passado não começou, concretamente, em 1900 ou em 1901 e sim em 1914, a década que ora finda começou com a crise financeira de 2008 e seu séquito de catástrofes econômicas, sociais e políticas. A desmistificação do capitalismo predatório, dominado pelas finanças, foi, sem dúvida, um dos destaques dos Anos 10, assim como o recrudescimento do fascismo, do fundamentalismo religioso (com Maomé e Jesus), do populismo nacionalista e pestilências correlatas ou decorrentes, como as eleições de Trump e Bolsonaro e a malaise global (de Hong Kong a Santiago do Chile).


A questão ambiental fechou a década como a mais urgente e candente de quantas, a seu modo, contribuíram para desmistificar a crença de que fomos criados à imagem e semelhança de Deus todo poderoso, criador – não destruidor – do Céu e da Terra. Não há teodiceia que me explique e justifique a devastação da Amazônia, a lenta destruição do planeta, nem a escolha de Ricardo Salles para ministro do Meio Ambiente.

É muito infortúnio acumulado para nos punir até de pecados de que me sinto totalmente isento, assim como os leitores que não votaram no dendrófobo Bolsonaro nem facilitaram sua eleição.

Claro que, como sempre, inclusive em 1350, tido como o ano mais terrível de todos os tempos, coisas legais aconteceram. A expansão da Netflix, das lutas igualitárias e das mídias sociais, por exemplo. Mas antes que vocês tenham de recorrer ao Google para saber o que de tão terrível ocorreu em 1350, informo: naquele ano a peste negra fez suas primeiras vítimas na Europa.

Por falar em internet, quatro anos atrás, numa palestra em Turim, Umberto Eco (uma das perdas intelectuais mais sentidas do decênio) pôs em xeque a euforia em torno das mídias sociais. Ainda não se falava muito em fake news e outras pragas disseminadas pela internet quando ele soltou esta joia de sabedoria crítica: “As redes sociais deram o direito à palavra a uma legião de imbecis, que antes apenas falavam num bar, sem causar dano à coletividade”. Se obrigado a escolher a frase da década, talvez me inclinasse por essa aí.

Alçado pela TV a um patamar em que já se sentia superior, o imbecil analógico (originalmente conhecido como o idiota da aldeia) foi promovido a “portador da verdade”, a demiurgo digital de baboseiras, patranhas e absurdos que só costumam germinar em cérebros de configuração quase protozoária – mas com Jesus, constrangidíssimo, em seu coração.

Os imbecis multiplicam-se como ratos e ervas daninhas, e não há porque subestimar sua insopitável capacidade destrutiva. Formam a base irredutível e incondicional, o núcleo duro do trumpismo e do bolsonarismo – e é quase exclusivamente para eles e seus preconceitos fundamentalistas que Trump e Bolsonaro governam, forjando factoides e disparando asneiras e agressões gratuitas no Twitter, para desviar a atenção de fatos e suspeitas comprometedores.

Eles representam a barbárie, a ignorância satisfeita, a estupidez rancorosa, o ressentimento perverso, que, no caso brasileiro, atingiram seu mais alto grau de contaminação nos ministros que se ocupam de estrangular a educação e a cultura, degradar o meio ambiente e avacalhar a diplomacia, para realçar apenas os mais em evidência na mídia.

Lunáticos anti-iluministas e grotescos evangelistas do terraplanismo, investem como cruzados contra a ciência e o racionalismo. A cada bizarrice que cometem ou extravasam, se, por escrito, com solecismos e patéticos erros de ortografia, baixa em mim e em muita gente um sentimento de profundo desânimo, de descrença no País. Mais do que isso: de vergonha de ser brasileiro.

Em trevas passadas, Otto Lara Resende, deprimido e impotente diante das coisas que aqui aconteciam, ameaçou “trancar sua matrícula de brasileiro”. Sorte dele não poder estar aqui agora, a testemunhar e padecer os efeitos dos piores anos de nossa República.

Otto só faltou amaldiçoar o Conde Afonso Celso, jornalista e acadêmico afamado por um livro de exacerbado e ingênuo patriotismo, escrito em 1900, cujo título – Por que me Ufano do Meu País – sintetizava o fervor com que acreditava na superioridade do Brasil e no seu “deslumbrante porvir”. Exagerou as dádivas que a natureza nos deu e as potencialidades de seu povo, assegurando, nas hipérboles finais, que Deus jamais nos abandonaria. “Se aquinhoou o Brasil de modo especialmente magnânimo, é porque lhe reservava alevantados destinos”, concluiu.

Na mesma época, o poeta Olavo Bilac perpetrou A Pátria, papinha lírica para criança, que nos obrigavam a decorar e declamar, para que não esquecêssemos de amar com fé e orgulho a terra em que nascemos, pois não veríamos nenhum país (“que céu! que mar! que florestas!”) como este. Ou melhor, como aquele.

Do livrinho de Afonso Celso nasceu a palavra ufanismo, há muito pejorativa e hoje, particularmente, descabida. Não conheço um brasileiro em pleno gozo de suas faculdades mentais que se ufane, no momento, da terra em que nasceu.

Está mais do que na hora de alguém escrever algo como “Por que me Envergonho do Meu País”. E enriquecer nosso vocabulário com a palavra “envergonhismo”.

Falta noção de decoro

Se dependesse dos discursos de campanha, a política do Brasil seria um oásis da ética. O que transforma a vida pública brasileira num deserto da virtude é a insistência com que a realidade estraga as boas intenções. Da boca pra fora, o candidato Bolsonaro era bela viola. Fazia pose de político antissistema. Do governo pra dentro, o presidente Bolsonaro é pão bolorento. Personifica a perversão sistemática
Josias de Souza 

Laço com miliciano reflete grupo que chegou ao poder com Bolsonaro

Flávio Bolsonaro fez sua primeira homenagem a Adriano da Nóbrega em 2003. Dois anos depois, mandou entregar uma medalha ao policial, que estava preso por assassinato. Na mesma época, Jair fez um discurso na Câmara em sua defesa.


As conexões entre o clã e o PM, hoje acusado de chefiar uma milícia, são conhecidas há mais de uma década. A mulher de Adriano foi contratada para trabalhar no gabinete de Flávio em 2007. Anos mais tarde, a mãe também conseguiu uma vaga.

Se alguém ainda conseguia acreditar que era tudo coincidência, as informações levantadas pelo Ministério Público estão aí para mostrar que esses vínculos fazem parte da operação política da família. Quando Bolsonaro se elegeu presidente, foi esse o grupo que chegou ao poder.

O suspeito de comandar uma milícia sanguinária no Rio era praticamente um dos sócios da rachadinha que funcionava no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa. Os promotores descobriram que uma parte do dinheiro devolvido ao assessor Fabrício Queiroz, operador do esquema, passou por uma conta bancária controlada por Adriano.

A mulher do ex-policial reconheceu a amigas que era funcionária fantasma e repassou parte do salário a Queiroz. Numa troca de mensagens, Adriano também indicou que recebia parte desse dinheiro público.

Danielle da Nóbrega ficou no gabinete de Flávio por 11 anos. O clã não pode dizer que não sabia quem era o casal. Quando Bolsonaro preparava sua última campanha, Queiroz procurou a mulher para dizer que ela poderia perder o cargo. Contou que a família não queria correr riscos, dada sua relação com o ex-policial.

O verniz anticorrupção de Sergio Moro ou o encanto liberal de Paulo Guedes não ocultam esses laços. Outrora implacável, o ministro da Justiça permanece apático, enquanto os fãs da equipe econômica preferem fingir que só os números importam.

Mas é impossível fechar os olhos para o pacote completo. Só há um governo. Nele, existem Jair, Flávio, Moro, Guedes, Queiroz, Adriano...

sábado, 21 de dezembro de 2019

Future-se...

O Brasil só terá a possibilidade de um futuro com desenvolvimento econômico sustentável, socialmente justo e com domínio soberano de tecnologias estratégicas se basear toda a formulação de políticas públicas estratégicas no avanço científico e tecnológico
Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), eleito pela revista Nature o maior destaque mundial na ciência em 2019

Presente de Natal

Vem chegando o Natal, e já se aprontam os presentes, e já as lojas se enchem de fios de prata e algodão fingindo neve nas vitrinas, camuflando a mercadoria cara. Já se fazem as contas e se suspira contra o dinheiro sem valor. 

Enquanto isso, no morro e no subúrbio pobre, o Natal não traz quase novidade. Quem não tem cobertor na cama nem panela com castanha no fogo – quem às vezes não tem cama nem fogo, como acontece a muita gente, não encontra no Natal diferença por maior. Talvez só a Missa do Galo, que é de graça – e nem isso, pois dá vexame ir à missa de vestido velho e pé no tamanco. Tempo de Carnaval sempre é mais fácil, basta enfiar um calção ou uma saia de velha, passa tisna no rosto, pega uma lata e um pauzinho, vai brincar do mesmo jeito. Mas em tempo do Nascimento, bloco de sujo é pecado. Não vê que a limpeza Deus amou?

Por isso minha amiga Béatrix Reynal largou de mão a poesia por um pouco e anda tomando providências. Juntando fazenda para roupinhas novas das crianças ao Natal, fazendo questão de que todo o mundo vá de vestido novo à Missa da Meia-Noite, para o galo não beliscar.

Sou mulher de natureza encolhida e tímida e deixo de fazer alguma coisa pelos outros, como seria de meu gosto, menos por secura de coração do que por falta de coragem para agir. Por isso mesmo admiro os que o fazem, os que não temem de bater à porta alheia quando é para o bem de quem precisa. Béatrix, por exemplo: começa arranjando um livro em branco para escrever o nome dos doadores. Fosse eu, logo ficaria indecisa e pessimista, acreditava lá que houvesse doadores em número suficiente para encher aquele livro. Ela porém tem fé na natureza humana, é uma maravilha; logicamente tem fé no livro. E da posse do livro para a descoberta dos doadores, parece que medeia apenas um passe de mágica. E é mágica, é. Telefonar, pedir, rogar, andar a pé, de bonde e de automóvel, até de barca. Saber descobrir quem tem coração mole, que ainda acredita e cumpre o preceito de vestir os nus, quem já não é freguês de outras caridades. Descobrir outras senhoras que se associem à empresa – senhoras que não gostam de cartaz, que trabalham em verdade por amor dos humildes e não para aparecerem nos jornais cinematográficos entregando um saquinho de não se sabe o que, de um em um, bem caprichado e em <em>close-up</em>, à fila infinita de mulheres e crianças que esperaram ao sol e à chuva, o dia inteiro.

Que a minha amiga Béatrix Reynal faz as suas caridades de modo diferente. Para ela o importante é o socorro em si, não é o gesto. Na hora de pedir a fazenda, de arranjar as colaborações, de sair de porta em porta, de se matar de trabalho, medindo, cortando pano, arrumando, embrulhando, empacotando, ela é a primeira. Só na hora de entregar é que ela não aparece. O pano já está aí, os pobres já estão aí, não é mesmo?

Sei que não é com a caridade individual que se alivia a pobreza do mundo. Sei que não é com esmolas que se cura a miséria. Mas que a caridade ajuda, ajuda. Desculpem-me os senhores teóricos, posso estar errada, podem ficar danados comigo. Eu morro, mas digo: ajuda, sim. Vamos calcular que Béatrix Reynal com essa sua campanha do vestido de Natal consiga dar roupa a dez mil crianças. Sei que com isso não as redime da miséria; não as livra do barracão sórdido, não lhes dá escola, nem higiene, nem médico, nem lhes aumenta a ração. Mas enquanto o vestidinho durar, o corpo delas não estará nu. Não sentirão frio, poderão sair sem vexame, terão na sua vida de crianças e pobres aquela preciosa alegria do vestido novo. Façamos as nossas revoluções, decretemos leis, cheguemos ao socialismo, remediemos a desigualdade, como é o nosso sonho e a nossa obrigação.

Mas enquanto isso não chega, pelo menos viva o vestido novo. Mais tarde os meninos que a poetisa vestiu agora não terão nada ou terão tudo, serão vítimas da fome ou senhores do mundo, conforme for o que está para vir. Mas com futuro ou sem futuro, a alegria do vestido novo, isso pelo menos eles armazenaram, isso ninguém lhes tira mais.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Democracia sob tensão

A democracia está em baixa. Aqui e lá fora. Pesquisa realizada em 42 países com 36 mil entrevistas e coordenada pelo pesquisador francês Dominique Reyniê revela que podemos estar no limiar de uma nova era do autoritarismo, a exemplo do que aconteceu na década de 1930, quando países de ordenamento democrático entraram em crise, enquanto a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stalin deram grande salto econômico.

Segundo o estudo “Democracia sob tensão”, apresentado no Brasil na semana passada, as pessoas preferem mais ordem mesmo que com menos liberdade e estão preocupadas com problemas para os quais a democracia não vem respondendo satisfatoriamente: desemprego, segurança, desigualdade, perda do poder aquisitivo.

Esse quadro se agravou a partir da crise mundial de 2008 e como consequência de uma globalização excludente. Enquanto os países de democracia liberal mal se recuperaram da crise e enfrentam insatisfações decorrentes da ampliação da desigualdade, a China e a Índia – países de regimes autoritários – experimentaram forte crescimento econômico e incorporaram imensos contingentes ao mercado.

Esse é o pano de fundo para a eleição de Donald Trump nos EUA e Jair Bolsonaro no Brasil, o triunfo do Brexit reafirmado de forma esmagadora na recente vitória de Boris Johnson na Inglaterra, e para governos como o de Viktor Orbán, na Hungria, Erdogan na Turquia.


No caso brasileiro, a disfuncionalidade da democracia assume proporções catastróficas. Em seu artigo “Desafios da economia brasileira”, o economista Marcos Lisboa mostra que no período de 1981 a 2018 o PIB per capita cresceu apenas 38%. Compará-lo com a China de crescimento de 860% ou da Coreia do Sul, de 526%, seria covardia. O tamanho do nosso desempenho pífio salta aos olhos quando cotejado com o Chile, cuja expansão foi de 173,%, no mesmo período. A Colômbia que viveu uma guerra civil teve um crescimento e 103%.

As raízes da semi-estagnação brasileira estão no esgotamento do modelo de substituição de importações, no final dos anos 70. Segundo Armínio Fraga, nesse modelo o Estado teve grande peso numa economia fechada e de pouca ênfase na produtividade, educação e igualdade. O governo Geisel foi o último suspiro de um modelo que, paradoxalmente, unia na sua defesa a esquerda nacionalista e os militares. Ao final, gerou a hiperinflação e a explosão da dívida externa.

A Constituinte de 1988 e governos sucessivos alargaram a inclusão social, particularmente com a queda da inflação, a universalização do ensino fundamental, o Sistema Único de Saúde e o Bolsa Família. Como se deu em um quadro de baixo crescimento, de um Estado campeão em transferência de renda para os mais ricos e lanterninha na transferência para os mais pobres, o resultado previsível foi a deterioração dos serviços públicos.

O desastre da nova matriz econômica do segundo mandato de Lula e do governo Dilma agravaram a crise fiscal do Estado e a ineficiência da economia; por meio de subsídios, da política de “campeões nacionais” e de investimentos calamitosos como Abreu e Lima, Comperj, Pasadena, Sete Brasil. Também levou à explosão dos gastos públicos.

O Estado brasileiro não investe, gasta. E muito mal, sempre acima do que arrecada. Não serve aos brasileiros, serve às corporações que o capturaram. Segundo Armínio Fraga, esse Estado se apropria de 35% do Produto Interno Bruto, enquanto que só a União consume 28% do PIB para pagar o funcionalismo e aposentadorias. Não, há, portanto, retorno para a sociedade sob a forma de serviços públicos de qualidade. Isto explica por que na pesquisa “Democracia sob Tensão” apenas 23% dos brasileiros avaliaram que a democracia funciona bem.

Distensionar a democracia implica em promover o crescimento sustentado com inclusão social, levando adiante o programa de reformas. Não se trata, como se pregou na década de 70, de primeiro fazer o bolo crescer para depois dividir. Crescimento e inclusão devem andar juntos, sob pena do descrédito da democracia levar água para demagógicos e populistas que não nos conduzirão a lugar nenhum.

Veja os magos

Natal é ver os magos, não reis, que trazem a cultura, a sabedoria, a fascinação do oriente geográfico e do oriente interno de cada um; é ver a riqueza e variedade da terra, a multiplicação compulsória dos pães e dos peixes, a re-unificação da família humana numa assembleia universal, o prazer das futuras viagens, o cérebro eletrônico, a subida aos espaços interestelares; é ver a invisibilidade de Deus, que escapa à televisão
 Murilo Mendes, "Transístor"

'Cadáver ignorado' revela sociedade paralela de milhares de invisíveis na Amazônia

Sob as copas das árvores amazônicas, alvo de debates e preocupação mundial nos últimos meses, uma multidão de brasileiros invisíveis vive à margem da sociedade e tem todos esses direitos negados sem sinais de comoção ou indignação nacional.

Os membros desta sociedade paralela — quase 3 milhões, ou equivalente à população inteira de países como Armênia, Jamaica ou Albânia — são invisíveis ao Estado e não aparecem em qualquer estatística oficial porque lhes falta o básico: uma certidão de nascimento.

Tomar vacinas. Matricular-se em uma escola pública ou privada. Usar o SUS. Ir a um hospital particular. Votar. Ter um emprego. Casar. Alugar uma casa. Registrar filhos. Divorciar-se. Fazer exames clínicos. Viajar de ônibus ou avião. Ganhar Bolsa Família. Receber pensão. Ter conta no banco. Dirigir. Parcelar compras no shopping. Ter cartão de crédito ou débito. Registrar um celular. Receber seguro-desemprego. Fazer concurso público. Ter um advogado. Hospedar-se em um hotel. Financiar um imóvel. Pagar impostos. Aposentar-se. Ver um filme adulto no cinema. Pegar um livro em uma biblioteca. Ir ao exterior. Ganhar um diploma. Ter um enterro digno.
Ter um nome.
A região Norte, onde ficam os principais Estados amazônicos, tem a maior concentração do país de pessoas sem documentos, segundo o IBGE. Lá, 9 de cada 100 pessoas não têm documentos e não são consideradas cidadãs. Apesar de os números absolutos serem maiores pela maior concentração de pessoas, o percentual de brasileiros não identificados no sudeste é muito menor — ou 1 a cada 100 pessoas.

Não à toa, também estão no Norte do país os mais baixos índices de desenvolvimento humano do Brasil. "O que temos aqui no Norte é a correlação umbilical entre pobreza e subregistro", diz à BBC News Brasil a Defensora Pública Geral do Pará, Jeniffer de Barros Rodrigues.

"Quase 6 milhões de pessoas ganham até 3 salários mínimos no Pará. E mais da metade delas está abaixo da linha da pobreza", diz ela.A trajetória de privações e derrotas de Adriano Lima Ferreira, um rapaz alto e forte, de cabelo escuro e traços que misturam características indígenas e afro-brasileiras, ilustra o desafio encarado pelos brasileiros invisíveis na Amazônia.

O primeiro documento de Adriano foi sua certidão de óbito.

Já a primeira menção oficial à sua existência aconteceu enquanto ele ocupava uma câmara gelada do Instituto Médico Legal de Belém. Para o Estado brasileiro, naquele momento, o nome de Adriano, nascido no interior do Pará e morto aos 26 anos na periferia da capital, era "Cadáver Ignorado Protocolo 2019.01.050549".

Nascido em uma enfermaria de Abaetetuba, onde 65% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, segundo o Ministério Público, Adriano não foi registrado pelos pais, que se separaram na época de seu nascimento.

Ele escapou da alta taxa de mortalidade infantil na região — 20 a cada 1.000 nascidos, ou o dobro do aceitável segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) — e chegou à idade escolar.

Foi quando ganhou um apelido bastante comum nas cidades ribeirinhas da Amazônia, e absolutamente desconhecido entre a classe média do Sudeste do país: Adriano, então um garoto magro e agitado, passou a ser conhecido como "encostado".

Ele não era o único. "Encostado aqui é como chamamos o aluno que não está regularmente matriculado na escola. Para ser regularmente matriculada, a pessoa precisa ter certidão de nascimento, se não a escola não admite", conta a advogada Beatriz dos Reis, uma defensora pública que atua em algumas das regiões mais remotas do país.

"Por uma questão de empatia, solidariedade, ou de missão mesmo, os diretores de escola aceitam que essas crianças frequentem a escola, para não ficarem soltas na rua e para terem lanche. Isso é muito, muito comum", diz.

"Ele estudou encostado e depois só conseguia bicos. Foi para Belém e perdemos o contato. Um dia, no jornal da Record, falaram de um casal que tinha sido assassinado. Falaram que era um jovem de aproximadamente 20 a 25 anos. Mostraram o corpo cheio de sangue e apareceu a tatuagem que ele tinha no braço. E também o pé dele, que era 'muito dele', diferente de qualquer pé. A gente falava sempre do pé dele. Não tinha como não reconhecer."

Segundo um site local, "um casal, ainda não identificado, foi assassinado na madrugada desta sexta-feira (12/07/2019) (....) em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. Segundo informações da Polícia Militar, populares relataram que o casal estaria tentando roubar fiação telefônica da rua, quando foi surpreendido por um homem desconhecido, que chegou no local atirando. As vítimas ainda tentaram correr, mas foram alcançadas pelo assassino. Os peritos do Insituto Médico Legal (IML) foram acionados, e idenficaram que o homem e a mulher foram executados com uma arma de grosso calibre."

A descoberta do assassinato do irmão pela televisão foi só o início da peregrinação da família em busca de um enterro digno para Adriano.

O dado que mais se aproxima da quantidade real de brasileiros vivendo na situação de Adriano é o levantamento de sub-registros de nascidos vivos do IBGE, que mostra quantas crianças não são registradas pelos pais no primeiro ano e meio de vida.

Segundo o órgão — e estimativas citadas pela Câmara dos Deputados e pela Associação Nacional de Defensores Públicos — 2,94 milhões de brasileiros não têm registro de nascimento e são, portanto, invisíveis.

"Falei da reportagem para a minha mãe, mas ela não acreditou de cara. Fomos até o IML e ela estava calma, nem parecia que tinha perdido um filho. A gente não pode abrir o caixão, porque Adriano já estava se decompondo. O corpo dele estava bem seco. Foi aí que bateu o desespero na minha mãe. Ela gritava que não acreditava, não acreditava. Dizia que estava mentindo. Aí deixaram abrir o caixão e mostraram só o pé. Ela acreditou e começou a passar mal."

A família informou que o Cadáver Ignorado Protocolo 2019.01.050549 era Adriano. Um exame com amostras de DNA do cadáver, da mãe e da irmã foi colhido. Depois de 9 dias de espera, o lando comprovaria o parentesco: "A probabilidade encontrada para esse vínculo genético é de 99,9989007449928%", dizia o documento.

No entanto, a família - pessoas pobres, sem estudos, que viajaram de carona até a capital na tentativa de enterrar o parente assassinado - não conseguiu retirá-lo do IML - o primeiro ambiente com referências hospitalares em que Adriano esteve desde o dia em que nasceu. Pessoas sem documentos, como ele, não podem usar o SUS ou mesmo participar de campanhas de vacinação, tornando-se potenciais vetores de doenças para as suas comunidades.

Segundo as normas dos Centros de Perícias Científicas, para onde são levados os corpos de vítimas de mortes violentas, "é impossível liberar um cadáver sem documentação, pois sem identificação civil não há como emitir um atestado de óbito".

Assim, mesmo com o exame de DNA em mãos, enquanto a família não conseguisse uma certidão de nascimento que pemitisse a emissão de seu atestado de óbito, o "cadáver Ignorado Protocolo 2019.01.050549" continuaria na geladeira.

Isso até que o prazo se esgotasse.

Moro e Bolsonaro diante do abismo

As notícias dadas por todos os meios de comunicação com ênfase nas denúncias de suposta corrupção da família do presidente Jair Bolsonaro o colocam, assim como a seu ministro da Justiça, Sergio Moro, diante de um abismo. Principalmente porque foi o próprio Bolsonaro quem alertou que podem ressuscitar novas notícias sobre o nunca resolvido “caso Marielle”, esse fantasma que se recusa a morrer e que, segundo ele, seus inimigos políticos tentam ressuscitar.

A presença de Moro no Governo Bolsonaro nestes momentos críticos se torna duplamente importante, enigmática e até perigosa. Há apenas alguns dias confessou que o presidente Bolsonaro é uma pessoa “muito digna” com quem tem uma boa relação de trabalho. A impressão que se tinha é de que Moro, que já não excluía que poderia se candidatar a vice-presidente nas próximas eleições, seguindo suas ambições políticas cada vez menos negadas, aparecia cada dia mais próximo do bolsonarismo mais duro. E agora? É verdade que pode dizer que não é mais o temido juiz da Lava Jato e apenas ministro da Justiça. Isso em teoria. Na prática, sua figura e sua imagem de intransigência contra a corrupção o colocam agora em uma situação que poderia significar seu teste definitivo. Terá de escolher. Continuará apostando em Bolsonaro e sua família diante dos novos acontecimentos? Continuará brincando de avestruz como se isso já não lhe dissesse respeito?

Outra pergunta que se impõe é até que ponto agora Bolsonaro continuará confiando em seu superministro ou temerá que possa ser traído, apoiado no consenso popular que apresenta, maior que o do presidente. Talvez tenha sido uma simples casualidade, mas, justamente neste momento surgiu a notícia de que o presidente está pensando em desdobrar o Ministério da Justiça para criar o Ministério da Segurança Pública, cuja missão é um dos êxitos de Moro no Governo, com a diminuição da criminalidade — embora os especialistas digam que não há elementos confiáveis para atribuir a queda de mortes violentas às políticas implementadas neste ano. Será que Bolsonaro está começando a duvidar da lealdade de seu ministro que também lhe servia de escudo e teme uma dessas traições das facas longas? Estaria considerando sangrar os poderes de seu ministro que de escudo pode se tornar seu inferno?



Se é difícil decifrar o que a esfinge Moro pensa hoje sobre as nuvens cinzentas que pairam sobre a família do presidente Bolsonaro, da qual está sendo rasgada uma das bandeiras fortes de seu programa, como era a luta contra a corrupção a qualquer preço, não é menos enigmático o que Bolsonaro começa a pensar sobre ele e seus escândalos que já parecem ter rompido suas margens. O presidente poderá temer uma traição de Moro, com sua fama internacional de juiz duro, que não tremeu a mão ao colocar na cadeia o mítico ex-presidente Lula e que sabe ter muitos anos pela frente em sua ainda indecifrável vocação de poder?

O mais seguro é que as próximas semanas e meses, ou talvez apenas dias, sejam definitivos nessa relação de amor e ódio que hoje une os dois personagens com maior poder no país e que, ao mesmo tempo, são seguidos perigosamente em seus passos pelo governador do Rio, o ex-juiz Wilson Witzel, não menos duro e ambicioso do que os dois, que não têm escrúpulos em anunciar desde já que poderá enfrentar Bolsonaro nas urnas.

Só Bolsonaro? E se o acaso fizesse que seu oponente na disputa pela presidência fosse Moro? Ambos foram juízes. Ambos ainda são jovens e têm fome de política. Dois duros que anunciaram ser a favor de mão forte contra o crime, o que lhes rende o aplauso das hostes bolsonaristas.

Talvez seja necessário, para tentar analisar o complexo panorama político aberto pelas investigações cada vez mais importantes e sombrias sobre a família do presidente, desenterrar o mito da esfinge grega, que era um demônio destrutivo com asas manchadas de sangue e que Sófocles chamava de “cruel cantora”. Esfinge e enigma, filha do rei Laio, cujo enigma, conhecido apenas pelos monarcas de Tebas, fora desvendado.

Para uma política correta e não destrutiva, mais do que enigmas e segredos, seriam necessários, como se dizia no jornalismo clássico, “luz e taquígrafos”, transparência e respeito pela verdade. Bolsonaro usa as palavras da Bíblia em seu lema de governo: “a verdade os libertará”. Essa verdade que desintoxica a política é o que o Brasil está precisamente necessitando nestas horas em que parece estar vivendo os fantasmas das pitonisas antigas.