quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Mil faces de Lula

Acuado, ex-presidente se faz de vítima e joga em Dilma a pecha de 'desleal' O ex-presidente Luiz Inácio da Silva é um bom ator. Bem melhor que político, conforme demonstrado pelo erro de avaliação na escolha de Dilma Rousseff para o papel de criatura que seria capaz de suceder-lhe e garantir, mediante o espetáculo da competência, permanência longa para o PT no poder.


No ofício da atuação é um personagem de mil caras. Uma para cada ocasião. Pode ser o fortão que a todos enfrenta porque com ele ninguém pode, como pode ser o fraquinho a quem a elite tenta permanentemente derrubar por sua origem e identificação com os oprimidos.

Entre os papéis que costuma desempenhar, o preferido para os momentos de dificuldade é o de vítima. Não por acaso nem de modo surpreendente faz agora essa performance, nesta hora em que as circunstâncias nunca lhe foram tão desfavoráveis: alvo de investigação do Ministério Público por tráfico de influência, pai do dono de empresas revistadas pela Polícia Federal, amigo de um empresário apontado por um "delator premiado" como receptor de propina destinada a cobrir despesas de uma de suas quatro noras.

Afora isso, as más notícias alcançam também o patrimônio político eleitoral de Lula, até pouco tempo atrás sua principal e mais forte cidadela. A última pesquisa da Confederação Nacional de Transportes (CNT) aponta e atesta a decadência. Confirma números anteriores segundo os quais Lula já não é um ativo eleitoral.

Hoje, numa eleição, perderia de lavada para o tucano Aécio Neves (32% a 21%) e em eventual disputa de segundo turno seria derrotado também por Geraldo Alckmin e José Serra, políticos do PSDB que em outros tempos derrotou. Para quem já foi considerado pelo adversário (Serra) em plena campanha como uma pessoa "acima do bem e do mal" a situação é periclitante, convenhamos.

Lula não tem capital para si nem para emprestar ao PT ou à presidente Dilma Rousseff. Nesta condição quase que extrema (ou próxima disso), o ex-presidente faz o que sabe: tenta jogar a culpa no alheio. E a eleita, desta vez, é a presidente Dilma Rousseff em quem seu criador tenta imprimir a pecha de "desleal" ao deixar que prosperem versões de que atribui a ela a responsabilidade sobre o avanço das investigações em direção a ele, família e amigos.

Oficialmente o Instituto Lula desmente. Muito cômodo. Extraoficialmente todos os jornais publicam a conveniente versão disseminada por "amigos" e "interlocutores" de que o ex-presidente se sente "traído" pela sucessora que, segundo ele, não foi capaz de interromper investigações que o atingissem e à sua família.

Transferir a culpa para Dilma é uma tentativa. De difícil execução, dada a dificuldade de se obter resultado, diante da posição extremamente difícil em que se encontra a presidente. Mas o problema maior para Lula é a credibilidade. Ele já não tem aquela da qual desfrutou. E esta, no presente, não conseguiu conquistar quem no futuro poderia ter junto de si.

Em suma, Lula procura se desvincular de Dilma, acusando a presidente de ser desleal pelo fato de não atuar para impedir investigações. Isso quer dizer que, por experiência própria, ele considera não apenas possível como factível a indevida interferência nos processos legais.

Com isso, confirma que em seu governo interferiu indevidamente. E, por linhas tortas, confessa que prevaricou. Indignado está pelo fato de outrem não prevaricar em seu nome para salvá-lo de evidências que o aproximam do confronto com a verdade.

É bom lembrar


No Brasil, o Estado, concebido para perpetuar a injustiça, a ignorância, a impunidade, se encarrega de ele mesmo criar os monstros e alimentá-los.
(...) Cabe lembrar, por último, que todos os políticos – sejam vereadores, prefeitos, governadores, deputados estaduais ou federais, senadores ou presidentes da República – são eleitos com nosso voto e representam, aceitemos ou não, o caráter do brasileiro.
Luiz Ruffato, "Eduardo Cunha: o criador de monstros" 

O inferno astral de Lula

É, Lula não é mais o mesmo. O presidente que garanteava ter tirado milhões de pessoas da miséria, transformado o Brasil num país maravilhoso, em que a saúde pública é excelente (lembram-se disso?); que libertou o país das garras do FMI, que deu ao país a auto-suficiência em petróleo; que prometeu que o pré-sal faria a felicidade geral de todos os brasileiros…

O presidente que merecia o Nobel, a secretaria-geral da ONU – e por que não também o papado? Um lugar à direita de Deus Pai?

Pois é. Hoje é um homem sob seriíssimas suspeitas de enriquecimento ilícito, assim como dois de seus filhos. Até a nora é suspeita de ter levado uns milhõezinhos.

A Petrobrás definhou em 13 anos de governo petista, virou o epicentro do maior caso de corrupção da história do Brasil. Nisso, sim, ele estava certo quando perdigotava ad nauseam a expressão “nunca antes na história deste país”.

De fato: nunca antes na história deste país houve tanta corrupção, tanta ladroagem, tanta lassidão moral como nos governos dele e do poste que ele inventou.

O poste, este conseguiu a proeza de enfiar o país no buraco sem saída de uma recessão profunda, com dívida pública altíssima, inflação beirando os dois dígitos e desemprego crescente. Dias atrás chegou-se ao número absurdo de 1.240.000 de postos de empregos fechados no período de um ano. Um milhão e duzentos e quarenta mil empregos perdidos!

Na véspera de o ex-Deus de Garanhuns completar 70 anos, a Polícia Federal, em uma operação anticorrupção, fez buscas no escritório de um dos Lulinhas.

E, na mesma semana dos 70 anos do presidente mais importante que este país ou qualquer outro pais já teve, eram divulgadas pesquisas de opinião pública mostrando que 55% dos brasileiros ouvidos pelo Ibope dizem que não votariam de jeito nenhum em Lula para presidente da República; a rejeição a todos os políticos mais conhecidos nacionalmente é grande, mas a rejeição a Lula é a maior de todas; e Lula não ganharia a eleição para presidente da República hoje; segundo levantamento MDA/CNT, ele não fica na frente nem na intenção de voto espontânea, nem em qualquer um dos cenários na pesquisa estimulada.

Mas o pior de tudo – é o que eu fico imaginando aqui do meu cantinho –, o horrorosamente pior de tudo, na cabeça de Lula, é que esse inferno astral dele ocorre justamente num momento em que Fernando Henrique Cardoso brilha.

Lula já demonstrou centenas de vezes, talvez milhares, que tem um problema seriíssimo com FHC. É um antagonismo visceral, figadal, profundíssimo, doentio.

Tudo o que FHC faz, Lula faz questão de menosprezar, desdenhar, e garantir que ele faz muito melhor.

É de fato um ciúme descontrolado, uma inveja patológica, coisa para ser encarada em cinco sessões de análise por semana durante uns 15 anos seguidos.

É uma coisa tão gigantesca que passou, como se por osmose, para o lulo-petismo como um todo. O PT não consegue fazer absolutamente nada sem comparar o que foi feito com algo do PSDB.

E então os deuses – esses safados, Lula deve estar pensando – resolveram que, além do inferno astral todo, ainda por cima é preciso ver FHC dando entrevista nos principais jornais, sendo capa da Veja, matéria farta lá dentro – e ainda por cima bonitão, bem vestido, elegante, sorriso aberto na cara! -, e entrevista no Roda Viva, e dá-lhe repercute da entrevista no Roda Viva em tudo que é jornal.

Afe! Que horror, que horror, que horror. Valham ao Lula o Fidel, o Chávez, o Che, a companheirada toda!

E la nave vá

Tudo é motivo para passear quando se fala em PT.

Depois de Lula, o executivo com mais quilômetros de voo é o presidente do diretório fluminense, Washington Quaquá, que acumula também a prefeitura de Maricá. Sempre que pode ainda carrega algumas "malas" de contrabando, uma vez que sempre cabe mais um com a farra do dinheiro público. 

O mais novo passeio é com a mulher e deputada estadual, Zeidan, e uma comitiva que inclui o secretário adjunto (?) de Assistência Social e mulher.

Mais inacreditável é que o bonde maricaense foi a convite do arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, para participar do Sínodo sobre a Família 2015 em Roma.

Num Estado que se diz laico, repete-se o trio do Poder. Assim Igreja e PT tem tudo a ver.

'É sal, é sol, é sul' e outra notas

O mais importante líder sindical que o Brasil já teve chegou a presidente da República, elegeu a sucessora, virou personagem internacional, viajou o mundo inteiro. Mas, ao completar 70 anos, ontem, tudo o que não queria de presente era mais uma viagem. E há chances ─ não muitas, diga-se ─ de que seja a Curitiba.

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Data redonda e triste: até o frango com polenta marcado para seu restaurante preferido dos tempos antigos foi cancelado, diante dos problemas que o afligem. Só sobrou festa chique, com a presidente. A busca e apreensão nos escritórios do filho Luís Cláudio, na véspera do aniversário, foi um golpe tremendo. Amigos atingidos, tudo bem, deixa pra lá: Lula esqueceu companheiros próximos, a quem chamava de Guerreiros do Povo Brasileiro, e chegou a insinuar que o empresário José Carlos Bumlai, que tinha entrada livre no Palácio durante seu governo, não era tão amigo assim. Mas filho é filho ─ e é o segundo a virar alvo de suspeitas.

É duro sentir que, exceto os alucinados do lulismo a todo custo (e, muitas vezes, a que custo!), até parceiros antigos, dos tempos anteriores ao Romanée-Conti e aos jatos executivos, hesitam em jurar por ele.

O jornalista Ricardo Kotscho, lulista da velhíssima guarda, amigo fiel e excelente assessor de imprensa de seu governo, escreveu frases reveladoras (http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/): “Estou muito triste com tudo isso que está acontecendo, mas na vida a gente colhe o que plantou, de bom ou de ruim, de acordo com as escolhas que fazemos. De nada adianta colocar a culpa nos outros”.

Veja mais a coluna de Carlos Brickmann 


Pedaladas eleitoraios

Saí de casa no dia 10 de abril de 1984, ao lado daquela que seria a mãe do meu primeiro filho, com destino à Candelária. Um mar de gente ocupava as avenidas Presidente Vargas e Rio Branco. Éramos um milhão de pessoas em catarse cívica, participando do histórico comício das “Diretas Já!”. Naquela época, o campo das esquerdas era disputado entre petistas e brizolistas. Sim, havia uma diferenciação entre siglas e lideranças políticas. Embora o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva representasse a expressão máxima do Partido dos Trabalhadores, ainda assim a legenda era muito maior do que ele. O mesmo não acontecia com o PDT de Leonel Brizola.

Lembro-me muito bem da fisionomia de alguns militares, vestidos em trajes civis, infiltrados e dispostos a criar confusão. Mas a ordem do comando geral do movimento, para que não houvesse reação às provocações, foi cumprida à risca. E o que se viu foi um banho de cidadania e civismo. Oradores se revezando, lágrimas rolando, uma energia e vibração no ar de tamanha intensidade, que os generais não tinham mais como evitar a retomada do poder pelo povo e para o povo.
Sou tomado por essas lembranças para entender em que momento nós, o povo, perdemos o papel de protagonistas de nossa história. Lutamos tanto pela restauração da democracia, e tudo o que nos restou foi um cheque em branco, que a Justiça Eleitoral convencionou chamar de voto? Aí está a mãe de todas as distorções, que se sucederam, governo após governo, até culminar na desmoralização político-institucional que se vê hoje.

O voto, que deveria estar condicionado ao cumprimento dos compromissos assumidos em troca dessa “moeda”, virou cartão de crédito no bolso do eleito. É nesse ponto que a democracia perde o sentido de bem universal e se transforma em instrumento de poder nas mãos de grupos de assalto.

De Collor a Dilma, o eleitor votou naqueles que apresentaram (?) as melhores propostas. Então, está claro, a escolha foi pelo plano de governo que eles divulgaram em campanha. Por essa perspectiva — a correta, por sinal —, nem precisaria ser necessário flagrar governos chafurdando na lama para legitimar o impeachment. Se a presidente Dilma perder o mandato, que seja por suas pedaladas eleitorais. Do contrário, é trocar seis por meia dúzia.

A sociedade brasileira exige uma democracia de verdade, aquela que saiu do peito do jurista Sobral Pinto, no alto do palanque das Diretas Já: “Todo o poder emana do povo...”. Se governo ou oposição não entenderem esse sentimento, vão continuar brigando pelo poder, sem o respaldo das ruas.
Celso Raeder

Sindicatos se unem para reduzir comissionados

Diversas entidades de servidores públicos do Estado do Rio de Janeiro, estão iniciando uma campanha para a redução dos cargos em comissão, por onde entram janeleiros e apadrinhados, sem concurso, que consomem bilhões de reais do erário. Neste Dia do Servidor Público, as entidades coletarão assinaturas em alguns pontos da cidade do Rio de Janeiro. A partir da próxima semana, a campanha percorrerá todas as cidades. Sob o tema “Vamos economizar dinheiro público onde ele tem que ser economizado. Redução dos cargos em comissão – A sociedade exige! Assine! A sua assinatura pode virar lei!”.

Participarão desta campanha as seguintes entidades: Sind-Justiça – Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário, Assemperj – Associação dos Servidores do Ministério Público, Asproerj -Associação dos Servidores da Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro, Asdperj – Associação dos Servidores da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, Sindalerj – Sindicato dos Funcionários da Alerj, Fenasempe – Federação Nacional dos Servidores dos Ministérios Públicos Estaduais e Ascierj – Associação dos Servidores do Controle Interno do Estado do Rio de Janeiro.

Saiba que, os maiores vencimentos pagos no serviço público do Estado do Rio de Janeiro são destinados aos cargos em comissão, enquanto os servidores concursados como professores, policiais militares, profissionais da saúde, bombeiros, entre outros, sofrem com uma desvalorização profissional e financeira histórica.

Estes cargos comissionados são usados como objeto de troca de favores ou nepotismo cruzado, em que uma autoridade emprega o parente da outra, para driblar a Constituição Federal, que veda esta prática. Diante disso, as entidades de servidores mencionadas propõem um projeto de lei de iniciativa popular, com o objetivo de restringir e disciplinar o provimento de cargos comissionados no Estado. Para isso, segundo os representantes destas entidades, “ precisamos coletar o maior número de assinaturas e enviar este anteprojeto à Assembleia Legislativa para alterara a Constituição Estadual, visto que esta proposta atende aos princípios administrativos da legalidade, impessoalidade, moralidade e eficiência previstos no artigo 37, caput, da Constituição Federal”.

O teor do projeto de lei é o seguinte:
“II – A investidura em cargo ou emprego público da administração, direta, indireta ou fundacional depende de aprovação prévia em concurso de provas ou de provas e títulos, ressalvadas as nomeações, até o limite de 5% de cargos efetivos, para cargos em comissão declarados em lei de livre nomeação e exoneração, observando-se a reserva de 90% dos cargos em comissão para servidores concursados, sendo vedada a nomeação para cargo em comissão de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, de agente político ativo e inativo de qualquer dos poderes, bom como de servidor da mesma jurídica investido em cargo ou função de direção, chefia e assessoramento”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

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Nós todos somos culpados

Culpados? É... Todos nós somos culpados por essa porcaria de país que está o nosso, menos o PT, é claro. E por que não me mando daqui? Porque sou brasileiro, mineiro vaidoso, e mais ainda por causa da minha paixão pelo Vale do Jequitinhonha, onde estão minhas raízes. Tenho uma opção, que é mais do mesmo: o Vale do São Francisco, principalmente a cidade do mesmo nome, Pirapora, Buritizeiro, Ubaí e o resto das barrancas...


Minha revolta é ouvir de terroristas e outros da mesma laia, dilmas e luízes, que a situação está assim ou assado, que a vaca está no brejo e argumentos que tais, como se não fossem eles os culpados. Falam na maior cara de pau que a oposição, a direita, os ricos e até os bonitos é que são os culpados, quer dizer, falar não falam, insinuam, com cara de riso e de desdém para comover os “companheiros”.

Sei não, mas estamos caminhando rápido para a insolvência total. Insolvência de dinheiro, de dignidade e de tudo que é contrário aos bons costumes. Essa coisa que corroeu nossas entranhas, de nome Lava Jato, não terá fim. Todo dia aparecem mais dois ou três com contas na Suíça. Por que esse governo que está aí não entra em acordo com o governo suíço para nos enviar uma relação de todos os brasileiros que têm ou tiveram contas nos bancos suíços? Assim acabamos com essa curiosa novela que a cada dia oferece uma surpresa. De repente, Dona Dilma, com suas bestagens de caixa de “pândora” e visões de cachorros sempre que vê uma criança ou, ainda, com suas indagações para caixas de guardar vento, que seriam, pelo que pude imaginar, um grande intestino do mundo, se revelaria de vez a incompetente que é e assumiria que é pau-mandado de Lula e dessa esquerda maneta que tem em suas fileiras até comunistas disfarçados de padres, como fizeram os nazistas na Segunda Grande Guerra.

Paroquialmente, Dona Dilma deu o ar da sua graça e, no susto, entendendo o que estavam fazendo os travessos legisladores de oportunidades, vetou integralmente, com base no art. 61, § 1º, II, da Constituição, a lei que estendia a todos os servidores públicos a aposentadoria compulsória aos 75 anos. Aposentadoria compulsória aos 75 anos, só para a magistratura de segundo grau...

Acho que quem não vai gostar nada disso é o atual presidente do Tribunal de Contas mineiro, que contava com esse tempo para construir junto à sede do TC um tal Centro de Tecnologia ou coisa que o valha, para pesquisar provavelmente o sexo dos anjos. (Edital de concorrência publicado – custo inicial, para começar, só 14 milhõezinhos...) Isso quando não estivesse na Europa, continente que visita pelo menos uma ou duas vezes por mês. Voltarei ao assunto para mostrar o que anda acontecendo na Corte de Contas, principalmente o retrocesso que Sua Excelência pretende impor ao melhor quadro funcional do Estado, retirando conquistas dos servidores e estabelecendo um horário de trabalho maluco. Será que o secretário da Fazenda e o governador estão sabendo disso?

O mar não está para peixe


expressão do título, dita pelo senador José Serra, sintetiza com perfeição a ojeriza dos brasileiros em relação aos partidos e políticos tradicionais. Aquilo que deputados e senadores vêm constatando em seus contatos com suas bases foi confirmado pela pesquisa do Ibope, onde a rejeição às principais lideranças, a começar pelo ex-presidente Lula, mas não exclusivamente a ele, bateu na estratosfera.

Nessa terra arrasada, político algum escapa. Todos estão no limbo. Não se vê saída para hoje nem amanhã, quanto mais para 2018.

É como se o país tivesse um encontro marcado com um tsunami. Guardadas as devidas proporções, se arma um vendaval tal qual o que varreu recentemente a Grécia e a Espanha. Mas com uma diferença importantíssima: nesses dois países o repúdio à forma ossificada de se fazer política encontrou seu desaguadouro, o “Cyriza” grego e o “Podemos“ espanhol.

Já aqui o caos não tem cais. Tudo pode acontecer.

Pode surgir um novo salvador da pátria, numa repetição farsesca de outros episódios de nossa história, como a eleição de Fernando Collor.

No limite, esse salvacionismo pode assumir uma forma orgânica, um partido “novo”, formado à margem da institucionalidade que se proclame apolítico, com o objetivo de ser a expressão de segmentos despolitizados, de valores moralistas e antirrepublicanos.

A crise ética, política e econômica de hoje é terreno fértil para projetos dessa natureza. Podemos, sem nenhum trocadilho, ter em nosso país uma espécie de Cyriza de direita, algo impensável, até agora, por nossos acadêmicos e políticos.

Parodiando o senador Romero Jucá: o mundo formal da política está em um enorme Titanic que afunda cada vez mais, sem seus passageiros perceberem. A pesquisa Ibope é apenas mais uma evidência de um esgarçamento visível a olho nu.

Melhor, a ponta de um iceberg com o qual vai se chocar o grande transatlântico se os partidos tradicionais, governistas ou de oposição, continuarem de costas para os brasileiros, passando ao largo do cotidiano do nosso povo.

A crise de representação afeta a todos e vem de longe.

Tradicionalmente, os partidos no Brasil são pouco mais do que legendas eleitorais, muitas vezes submetidas a projetos pessoais ou caudilhescos. O PT anunciava-se diferente no seu nascedouro, na sua adolescência, mas se transmutou nisso que está aí desde sua chegada ao poder.

Exatamente por ter roubado os sonhos dos brasileiros, o Partido dos Trabalhadores é o mais hostilizado. É quem mais provoca repulsa por ser o símbolo de uma putrefação cujo odor exala do Palácio do Planalto, assim como do Congresso Nacional.

A oposição também é afetada. Não apenas pelo efeito da radiação. Na percepção da população todos os partidos e políticos são iguais, farinhas do mesmo saco, daí a desconfiança geral.

Mas os partidos oposicionistas findam por reforçar essa imagem, tanto por ter uma prática meramente parlamentar, como por estabelecer alianças que não se diferenciam do modus operandi governamental. Afinal, como justificar a relação incestuosa com Eduardo Cunha?

Nas jornadas de 2013 ficou evidenciado o quão profundo era o fosso entre o mundo formal da política e as aspirações dos brasileiros. A disputa presidencial foi uma oportunidade perdida para repactuar a relação entre a institucionalidade e os cidadãos. Neste um ano de crise, de descalabros na economia, de escândalos e escárnios patrocinados pelo lulopetismo, o fosso se alargou, virou um imenso oceano.

É nele que todos podem se afogar em 2018, se não entenderem o recado das diversas pesquisas de opinião. Há tempos elas informam que o mar não está para peixe.

O senhor do impeachment contra os marujos do mar de lama

Embora a palavra corrupção seja comumente empregada para designar ações ilícitas visando a ganhar dinheiro, estas não são as únicas condutas que se caracterizam como tais. Nem sempre os ganhos com a corrupção têm natureza monetária. Assim, por exemplo, é corrupção buscar benefício contra a verdade, ou seja, mentindo. É corrupção atribuir a outros as próprias culpas. O emprego de sofismas e falsidades para convencer sem ter razão preenche vasto catálogo de técnicas corruptas, concebidas para induzir ao erro e, disso, levar vantagem. Usar a estrutura do setor público gerando publicidade enganosa, enunciando meias verdades, negociando o inegociável, comprando apoios e produzindo desinformação também é corrupção.

Haverá quem, adivinhando onde quero chegar, interrogue: "Nesse caso, quem atira a primeira pedra?". É uma pergunta esperta. Ela pretende induzir a uma recíproca absolvição geral, tipo indulgência plenária, da qual todos se tornam credores visto que praticaram os mesmos males. Restaure-se, assim, pelos deméritos alheios, a saúde daquela outra velha senhora, a impunidade. Ora, o crédito à primeira pedra (simbolicamente falando) cabe às instituições da república e à imensa maioria do povo brasileiro. Este, de modo ordeiro e cívico, já vem clamando pelo impeachment em memoráveis manifestações, nas ruas do país. São cidadãos que não endossam acordos velhacos, inconfessáveis, e não aceitam a retórica enganosa, o raciocínio fraudulento, a publicidade mentirosa.


Pois é exatamente esse tipo de manobra que os governistas puseram em curso. Procuram confundir os atos de repúdio ao governo, expressos nos pedidos de impeachment exigidos nas ruas e formalizados por cidadãos de bem, com o que há de mais desqualificado na oposição parlamentar. Tentam fazer de Eduardo Cunha o símbolo maior dessa oposição, obscurecendo o fato de que os negócios do senhor Cunha aconteceram dentro dos mesmos esquemas investigados na Lava Jato, ao tempo em que ele pertencia à base do governo. Tentam transformar o impeachment em um negócio do Cunha e buscam fazer desse lamentável cavalheiro uma espécie de dono do impeachment. Ora, se já é pouco digno agir assim, em inescrupulosa defesa do indefensável, sendo governista, muito menos digno é reproduzir tal conduta na condição de formador da opinião pública, orientando-a mediante sofismas e artifícios retóricos. São marujos do mar de lama!

Não mudarão o curso da história com artes e manhas tão corrompidas quanto os corruptos que tentam proteger. Queiram ou não, sucessivas pesquisas mostram que o legítimo senhor do impeachment, a contragosto de quem ele jamais aconteceria, é o bom povo brasileiro. Se quiserem atacar o impeachment, ataquem o povo.

Percival Puggina

Uma elite medíocre

Um ano. Lembro-me como se fosse ontem. Dia 26 de outubro de 2014, um clima de esperança, a contagem dos votos avançada e muitos dando como certa a derrota de Dilma. Finalmente, o país acordava. Como foi possível manter uma gente tão populista, cínica, incompetente e corrupta no poder por tanto tempo? Mas isso agora chegaria ao fim, e uma nova fase de ajustes teria começo. A decepção foi diretamente proporcional à esperança.

O sentimento era de incredulidade: então a maioria dos eleitores quer mesmo mais dessa porcaria? Então o abuso da máquina estatal ficará impune? Então o maior estelionato eleitoral da história seria recompensado? Aquela campanha sórdida, baixa, a compra escancarada de votos, tudo isso seria tolerado por nossa democracia? Que país era aquele, que insistia num erro tão evidente?

Os esquerdistas celebraram: os "reacionários" tinham perdido para aqueles que se importam com os mais pobres. Como essa narrativa tão idiota podia brotar da boca de gente até com mestrado? Os professores, com broches do PT, tentavam fazer lavagem cerebral nas crianças com o mesmo discurso ridículo.

O PT tinha conseguido segregar o povo com base no "nós contra eles" com um monte de gente acreditando que eram almas sensíveis e preocupadas com os mais pobres só por terem digitado 13 nas urnas. O ambiente intelectual estava muito pobre. Tem jeito um país desses, com uma elite tão medíocre? A dúvida era grande, mas havia uma certeza: eu precisava sair para respirar melhor.

Ali mesmo, naquele fatídico 26 de outubro, a decisão foi tomada. Não só o Brasil vai mergulhar numa grave crise econômica, disse, como essa reeleição demonstra toda a podridão de nossos valores morais, de nossas instituições. Que povo é esse que caiu nessa ladainha toda, e que elite é essa que foi negligente, cúmplice? Preciso passar uma temporada com o Tio Sam, pensei.

A esquerda caviar "adora" o socialismo, mas do conforto do capitalismo. Nossos artistas engajados defendem o PT, a Venezuela e até a ditadura cubana, mas não saem do Leblon ou de Paris. Nós, os "coxinhas" também preferimos o capitalismo, mas não somos hipócritas. E quando é hora de "votar com os pés" isso fica claro. Você nunca verá um desses ricos artistas escolhendo viver em Cuba. Mas a direita é coerente com seu discurso, e prefere migrar para países mais capitalistas.

Neles, em vez de as crianças aprenderem sobre o "herói" Che Guevara, um porco assassino, estudam a vida de gente como Thomas Jefferson, um dos "pais fundadores" da nação mais livre e próspera que o mundo já teve. O direito básico de ir e vir não é uma enorme aventura arriscada como nas ruas do Rio, com assaltos constantes e marginais ousados tratados como "vítimas da sociedade" pela esquerda. Ruas limpas, leis que são respeitadas, praias sem arrastão: que "horror" esse malvado capitalismo!

"Pode ser bom para os ricos, mas quero ver como vivem os pobres" poderia dizer um típico petista. É mesmo? A faxineira nos Estados Unidos dirige um carro de luxo para padrões brasileiros. O jardineiro idem. E o lixeiro recolhe o lixo num caminhão com ar condicionado, sozinho, pois basta apertar um botão que a máquina faz o resto. O xerife não vive na favela, perto dos bandidos, mas é seu vizinho, em casas decentes.

O trabalhador humilde vive com dignidade,ao contrário do que acontece no Brasil, onde sofre por horas no transporte público caótico, morre nas filas dos hospitais públicos, é vítima de bandidos o tempo todo e precisa colocar seus filhos numa escola inspirada no comunista Paulo Freire, em que só tem doutrinação ideológica. Mas os "intelectuais" de esquerda enaltecem o socialismo, que só produziu miséria e escravidão no mundo todo!

O Brasil cansa. É muita ignorância, uma mentalidade totalmente distorcida, um ódio irracional ao capitalismo e uma idolatria absurda ao Estado. As pessoas parecem incapazes de aprender com a história. E não pense que falo do "povão"; a culpa principal é da elite mesmo, uma elite míope, oportunista e sem escrúpulos. Quem ajudou a colocar o PT no poder? A elite. Professores, funcionários públicos, "intelectuais" artistas, banqueiros! O Brasil tem salvação? Talvez. Mas só quando essa elite mudar.

Enquanto isso, a luta daqueles que desejam viver num país com mais liberdade e prosperidade será árdua. Eles não precisam enfrentar apenas a barreira da ignorância em geral; precisam romper os grilhões ideológicos, enraizados naqueles que são formadores de opinião. Ou melhor, deformadores de opinião. Haja esperança!

É preciso pensar e falar


Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal e a economia fosse um bazar. Ao avaliar um regime de governação precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as questões não provêm do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. Pode-se mudar o governo e tudo continuará igual se mantivermos intacto o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. Nós temos hoje gente com dinheiro. Isso em si mesmo não é mau. Mas esses endinheirados não são ricos. Ser rico é outra coisa. Ser rico é produzir emprego. Ser rico é produzir riqueza. Os nossos novos-ricos são quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais. 

Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar apenas por aí é fácil. Alguém dizia que "governar é tão fácil que todos o sabem fazer até ao dia em que são governo". A verdade é que muitos dos problemas que nós vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidadãos ativos. Resulta de apenas reagirmos no limite quando não há outra resposta senão a violência cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar. 
Mia Couto

DNA marginal


Eu vou juntar gente e vou botar vocês para correr daqui da frente do Congresso. Bando de vagabundos, vocês são vagabundos. Vamos para o pau com vocês agora
Sibá Machado, líder do PT na Câmara, ameaçando da tribuna manifestantes do movimento Brasil Livre

Feliz ano velho

Existem anos que demoram a acabar. Outros acabam ou começam cedo demais. 2015 é um ano que já acabou. Burocraticamente, os acontecimentos vão se suceder para que no dia 31 de dezembro se confirme o novo ano. Fora do calendário, 2016 já começou, impulsionado pelos temas e desdobramentos de 2014, pelas decisões e indecisões deste ano e pelo que ficará pendente.


Além de prematuro e longo, 2016 será um ano “millésime” da política, com uma grande safra de eventos. Tanto os que restam deste ano quanto os que serão incorporados nos meses subsequentes. Para o governo, fora a questão do impeachment, tudo o mais ficou para 2016.

No campo econômico, o governo jogou a toalha, com Orçamento deficitário e complacência para com o rebaixamento do rating do País. Transferiu para o ano que vem o ataque frontal ao déficit público e também as eventuais aprovações da CPMF e da Desvinculação de Receitas da União (DRU). Lutará, apenas, pelo Orçamento de 2016 e já se conformou com uma inflação acima da meta.

No campo político, gastou meses para corrigir as próprias trapalhadas. Reagiu sempre atrasado e de modo confuso diante do tamanho do problema, amplamente conhecido: a relação entre o Palácio e os aliados da base governista. Em 2015, na política, o governo foi o macaco na loja de louça e, de longe, o maior adversário de si próprio. Caçador de si mesmo. Jogando o tempo todo contra o seu patrimônio.

No campo administrativo, não “governou” em 2015. Mal comparando, parece o governo sírio, que está sitiado entre grupos que brigam com ele e entre si. É um governo em compasso de espera, focado na defesa do impeachment. Contando votos, enquanto quem, de fato, fica em compasso de espera é o País. Pouco faz e o que faz não é percebido. É o imobilismo em movimento. Um tronco velho ao sabor da correnteza. A chuva imóvel de Campos de Carvalho.

Por exemplo: soluções propostas para estabilizar a questão da Petrobrás e de seus fornecedores dormem nas gavetas do Planalto. A reformatação do Carf dormita no Planejamento, à espera de míseros R$ 800 mil para ser posta em prática. A repatriação de divisas, que estava bem encaminhada no Senado, pode ter ido para as calendas e, com isso, os recursos para financiar a transição para um novo modelo de ICMS.

O ano antecipado começa já, com um debate sobre impeachment que se vai acelerar gradativamente. E não deverá ser concluído este ano, salvo evento inesperado. A discussão em torno da DRU e da CPMF, que pode começar agora, não deve ser concluída. A atual configuração da base política não dá a mínima esperança de que as votações possam ocorrer rapidamente.

O afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), talvez possa ser concluído este ano. Mas a sua agonia já começou sem data certa para acabar. Considerando sua tenacidade, tudo pode ficar para 2016. Afinal, mesmo estando no corner, Cunha tem poder suficiente para se defender e ampliar o incêndio político.

O ambiente de incerteza política e de paralisia do governo atinge em cheio as expectativas econômicas. O desempenho trágico da economia também transferiu para 2016 as decisões empresariais e as boas expectativas para 2017. Teremos um Natal morno, com baixa venda de presentes. Tudo embalado pela expectativa de que o desemprego chegue a dois dígitos e “imploda” de vez a paciência dos brasileiros. A falta de dinheiro fará a diferença, assim como a incerteza de sua recuperação no ano que vem. Para o empresariado, 2015 acabou. Para o trabalhador, 2015 tem de acabar rápido na esperança de tempos melhores.

Além dos problemas remanescentes e inconclusos de 2015, 2016 traz a sua própria safra de novidades, entre as quais se destacam as eleições municipais e a Olimpíada. Ambos serão eventos importantes, mas com impactos diferentes do esperado. Num ambiente de recessão econômica, a Olimpíada pode ser mais pálida. Os Jogos estão impactados pelas confusões da Operação Lava Jato, já que as obras para as competições se relacionam com empresas envolvidas no escândalo de corrupção da Petrobrás.

Na esfera eleitoral, os efeitos das investigações e a proibição de doações empresariais terão consequências revolucionárias. Sem as verbas empresariais as eleições serão bem mais pobres, o que se por um lado é bom, para reduzir o abuso do poder econômico, por outro não é nada bom que a corrida eleitoral seja patrocinada só pelo Tesouro. Teme-se, ainda, que o caixa 2 assuma maior relevância no processo.

No campo jurídico, 2016 promete ser ainda mais animado que agora. Dezenas de processos sobre políticos começarão a ser analisados no STF. Muitos caciques serão emparedados. Conforme o governo for se enfraquecendo cada vez mais, o Supremo deverá agir, também cada vez mais, com maior autonomia e menos preocupação com os “padrinhos”. Será um “barata voa” de proporções épicas. Tudo alimentado pela notável incapacidade do governo de fazer uma boa leitura do ambiente político e por sua rapidez de jabuti para responder aos sucessivos desafios que se apresentam.

Claramente, o governo vive uma curiosa síndrome, que é a de criar problemas a cada novo problema que aparece. Não há uma intervenção apaziguadora. Quando esta não é conflituosa, é ineficaz. Tanto por sua extraordinária limitação quanto pelo aprisionamento de sua agenda em torno do impeachment, agenda que deveria estar focada no ajuste fiscal e na retomada.

Muitos se perguntam se o governo se pode salvar. Como Campos de Carvalho diz num de seus textos, tudo pode acontecer. Inclusive Astrogildo – ou será Ruy Barbo? – ir a Paris sem nunca ter ido, como na obra-prima A Lua Vem da Ásia. O realismo fantástico da literatura latino-americana está impregnado na política nacional. Demolindo os limites dos calendários. Encurtando ou alongando os anos. Com o governo matando seu próprio tempo e a oposição discutindo se vai à praia ou se sobe a serra.

O ocaso de um partido

Quem acompanhou a política das décadas de 1980 e 1990 e via no PT a esperança se sentia seduzido pelos intermináveis debates entre as correntes internas e pela pluralidade de opiniões de seus próceres — de trabalhadores engajados e empresários preocupados com o lado social até intelectuais e artistas — sabe que a estrela vermelha começou a se esfacelar muito antes da Lava-Jato e da crise política e econômica que corrói o governo Dilma.

O início da decadência coincidiu com a chegada ao poder, em 2003. Não há partido no mundo que mantenha a pureza, a transparência de ideias, a coerência sendo obrigado a negociar e a ceder. Mas no PT essa contradição sempre foi mais latente justamente pelos discursos arrogantes e denuncistas de seus líderes. Já no terceiro ano de mandato de Lula vinha à tona o escândalo do mensalão e, com ele, caía por terra a principal bandeira do partido: a ética.

Mas talvez o maior erro foi ter traçado um projeto de existência que passava pela perpetuação no poder. A continuidade é sempre perigosa e nociva, mesmo que venha com o respaldo do voto. O próprio PT viveu situação semelhante quando governou Porto Alegre por 16 anos. Quando Olívio Dutra se elegeu prefeito, em 1988, o PT tinha a ambição de governar a Capital por pelo menos duas décadas, plano expresso à época por vários de seus expoentes. Os três primeiros mandatos foram incontestáveis, o quarto não mais. Já se vão quase 11 anos desde que o partido deixou a prefeitura e, até hoje, enfrenta uma rejeição forte. Faltou visão de que um dia esse modelo se esgotaria e que seria necessário se reciclar para, quem sabe mais adiante, retornar.

Também faltou a Lula e ao PT a visão de que era hora de deixar o Palácio do Planalto. Não que o partido fosse abdicar da disputa eleitoral de 2014, mas a guerra suja, os gastos exorbitantes, as pedaladas feitas no orçamento federal e o baixo nível dos debates mostram que o PT não estava preparado para perder e entregar tudo ao inimigo.

O partido menosprezou a autonomia das instituições ao achar que poderia continuar governando com a mesma irresponsabilidade administrativa e com as mesmas estruturas corroídas pela corrupção sem que um dia isso viesse à tona.

Nivelados por baixo

Mais um ex-ministro do Lula implicado em tráfico de influência, Gilberto Carvalho acusado pela Polícia Federal de elo entre o palácio do Planalto e o esquema de corrupção que envolve filhos do ex-presidente, políticos e empresários. Até a criação de medidas provisórias para favorecer setores da economia vem sendo denunciada. Sem falar nas ligações do primeiro-companheiro com empreiteiras, às quais servia viajando às suas expensas para contatar governos africanos e sul-americanos, levando na bagagem o aval do BNDES para a concessão de empréstimos.


A cada dia surgem mais denúncias atingindo o Lula, altos integrantes de seus dois governos, parentes e amigos. Muitos já conhecidos, outros na cadeia, todos integrando amplo esquema de assalto aos cofres públicos. Não adianta atribuir o noticiário a uma campanha de ódio contra o PT e o ex-presidente. Pode até ser verdade, mas como negar os fatos acontecidos e agora apurados?

Desvendam-se os véus que envolviam o governo do ex-presidente, tornando inevitável que no mínimo ele venha ser chamado a esclarecer cada episódio. São questão de tempo seus depoimentos na Polícia Federal, no Ministério Público e no Judiciário. Objeto de delações premiadas e de comentários que fluem de asseclas temerosos de condenações, o grave é que sucedem-se provas materiais da participação do ex-torneiro-mecânico. O resultado está na queda de sua popularidade, atestada por pesquisas recentes.

Turbulência igual raras vezes se viu na trajetória do PT e do grupo há treze anos incrustado no poder. Surgem sempre novos personagens e seus malfeitos, daqueles que multiplicam a rejeição, tanto a culpados quanto a porventura inocentes participantes do movimento um dia tido como de regeneração nacional. O cidadão comum nivela por baixo os companheiros. Se nem o Lula escapa, a previsão é de fim de um ciclo.

A ser substituído por quem ou por quê? Haverá alternativas no meio político? Um partido imune à lambança cada dia mais exposta? Uma corporação formada à margem da realidade que nos assola? E com que propostas capazes de promover mudanças fundamentais, como se imaginou o papel do PT?

Quem quiser que aponte rápido, sem salvadores da pátria nem bandeiras truculentas, muito menos viagens ao passado. Caso se realizem, as eleições municipais do próximo ano funcionarão como ensaio geral de 2018, se chegarmos até lá. Mas desde quando se estabeleceu que eleições resolvem, sem estruturas renovadoras, com as mesmas forças de sempre?

Em suma, nada de novo apareceu até agora, saído dos escombros e dos porões onde se tenta sobreviver.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O que sobra e o que falta para o Brasil não afundar

O Brasil de hoje parece um túnel sem saída. Na política, na economia e na disputa acirrada no interior de uma sociedade que parece viver uma guerra civil dialética, dominada por uma palavra maldita:impeachment, que condiciona e paralisa tanto a vida do Governo quanto a da oposição.

Enquanto isso, o país perde prestígio no exterior e vê crescer a desilusão internamente. E o pior de tudo é que isso é algo velho, infrutífero, que impede o surgimento de alternativas capazes de recolher os escombros da guerra e oferecer algo novo capaz de convencer e até mesmo de criar novas ilusões na sociedade. Algo que todos aguardam, pois, caso contrário, o Brasil continuará a descer ladeira abaixo e quem mais sofrerá com isso serão os mais vulneráveis, os que menos responsabilidade têm pela criação da crise, que afeta a todos.


E o que falta é, justamente, encontrar uma saída para a crise que não seja um mero arranjo dentro do velho jogo político, com acordos de bastidores e personagem que não merecem nenhum respeito, mas cujo poder é temido por todos.O que há de sobra no Brasil, neste momento, é uma acumulação de intrigas políticas, jogos muitas vezes sujos e com interesses claros, traições ocultas ou abertas, que fazem com que os políticos (tanto do Congresso como do Governo) vivam mais para se defender da Justiça do que para buscar alguma alternativa confiável e generosa para o país.

Geralmente, em momentos de mudança, quando um tipo de política calcificada no poder deixa de convencer e de dar frutos, a função de apresentar uma alternativa confiável cabe à oposição. Ela é que precisa convencer a sociedade, que se encontra atrofiada após uma permanência tão prolongada do mesmo grupo no poder.

Onde está, porém, no Brasil, essa força de oposição capaz de convencer a sociedade e lhe devolver a esperança perdida?

Onde está esse programa alternativo ao grupo que está hoje no poder e que já demonstrou ter esgotado a sua credibilidade, que se mostra fragilizado pelos escândalos de corrupção e pelo descontrole das finanças públicas que ameaça aprofundar o empobrecimento do país?

Essa incapacidade do Governo e a paralisia da oposição é acompanhada internacionalmente com muita atenção e apreensão crescente. Porque o Brasil não é apenas mais uma peça no tabuleiro de xadrez internacional –ele acaba influenciando não só o continente latino-americano (do qual é o coração em termos econômicos), mas também o mundo, pois, hoje em dia, ou respiramos todos juntos, ou nos sufocamos juntos.

A oposição, em vez de cair, ela também, na tentação de pactuar até com o diabo para conseguir obter a saída de Dilma Rousseff, deveria se conscientizar do papel crucial que deve ser o seu neste momento por que passa o país.

Deveria apresentar propostas convincentes, impopulares ou não, concernentes ao coração das reformas que nunca foram feitas e das quais o Brasil precisa urgentemente, como a reforma política e do Estado, talvez com a proposta até mesmo de uma república parlamentarista, como nas democracias ocidentais mais avançadas; a reforma da Previdência Social, que nem Lula nem Dilma Rousseff conseguiram levar a cabo e que é uma questão de vida ou morte para o futuro da economia; a reforma da educação, sempre adiada e que é indissociável da ideia de se construir uma sociedade rica e moderna.Para isso, precisaria apresentar desde já à sociedade um programa político e econômico alternativo, que contenha mais do que palavras vazias. Um programa com propostas concretas, pontuais, com um cronograma para sua implementação, indicando até mesmo as pessoas que poderiam assumir o timão do navio para afastá-lo do risco de naufrágio em que ele se encontra agora.

As discussões atuais sobre os programas de apoio à moradia ou o Bolsa Família, por exemplo, soam como algo do passado. Assim como a apologia dos pobres, pois o que os brasileiros querem é que todos possam ser ricos. A tradicional resignação por parte daqueles que foram vítimas da escravidão está, felizmente, chegando ao fim.



Hoje, o avanço social se dá sob outras premissas, como a da possibilidade de capacitação científica e tecnológica. As esmolas devem ser deixadas apenas para os que passam fome, que são em número cada vez menor no Brasil. O que produz orgulho na pessoa e na sociedade é forjar o seu próprio futuro com o trabalho, sem esperar que tudo venha do Estado.

Uma sociedade com milhões de jovens que abandonam o estudo secundário por considerá-lo inútil ou que chegam à Universidade como analfabetos funcionais, ou, ainda, que não conseguem obter uma formação profissional que lhes permita escapar do círculo vicioso da perpetuação da pobreza e da ignorância de seus país, essa sociedade estará sempre exposta ao risco de ficar para trás em um mundo que se moderniza.

Onde estão no Brasil de hoje os líderes capazes de entender a necessidade de que proponham a uma sociedade cada vez mais exigente e desiludida uma alternativa que convença a todos, seja aos que são a favor, seja aos que são contra o impeachment (algo que também começar a ter cheiro da velha política)?

Acredito demais na força de uma sociedade como a brasileira para achar que não há alternativas capazes de entusiasmar as pessoas e de abrir caminhos novos rumo à prosperidade.Não sou daqueles que não veem outra saída para o Brasil que não seja a mesma política de sempre e apenas recauchutada, como se fosse o pneu rasgado de uma bicicleta.

Uma alternativa capaz de produzir uma coabitação social correspondente ao que este país sempre teve de melhor, que é a sua enorme capacidade de incorporação de culturas, crenças e ideias as mais diferentes.

A irritação que hoje toma conta do Brasil não faz parte da sua índole de uma sociedade otimista e inconformista. A raiva que se vê hoje, que chega até mesmo a dividir as pessoas dentro de uma mesma família, não é natural no Brasil. Foi criado por uma política que, em vez de reunir as diferenças, agudiza as divergências, joga lenha na fogueira do ódio e produz problemas artificiais.

O que os brasileiros com quem converso querem, hoje, é mais decência da parte de quem os governa, mais espaço para poder melhorar as suas vidas e reformas sérias que devolvam a um país rico a sua vitalidade econômica.

Querem líderes que caminhem ao seu lado, que se aproximem deles, não para comprar seus votos, mas para ouvi-los e para analisar conjuntamente uma crise de que o Brasil que trabalha e se esforça não merece padecer.

Juan Arias

O boi

Faltam-me palavras para dar conta do que está acontecendo no Brasil. Eu nunca vi o país assim. Já vi crises violentas como a morte de Getúlio ou o golpe militar, mas esta tem uma característica diferente; é pastosa, uma areia movediça que engole tudo.

O que é uma crise? Digamos que um projeto político ou empresarial quisesse chegar a determinado objetivo. Corria um risco. Se não desse certo, teríamos uma crise. Era a época dos riscos. Hoje, vivemos na incerteza, porque não sabemos como agir.

Hoje, a crise é sonâmbula – como chegar e aonde chegar? O grave é que esses impasses estão eliminando os instrumentos institucionais da democracia.

O Congresso brasileiro é chefiado por dois sujeitos investigados com provas e recibos por crimes na Lava Jato, e também o Renan quando fugiu para não ser cassado pela evidência de suas jogadas. E hoje preside o Senado. Conta isso para um alemão, um inglês, e eles não acreditarão.


O Brasil está se esvaindo em sangue por causa de um cabo de guerra entre Dilma e Cunha, em amor e ódio, em busca de proteção mútua: “Você me salva do impeachment, e eu tento evitar sua cassação”. O Brasil está paralisado porque Cunha está mandando no país, porque detém o poder de chantagear todo mundo, mesmo denunciado até pela Suíça (que chique!). Como pode o Legislativo estar nas mãos desses caras? Parece não haver um só lugar onde não haja roubo. Na saúde, na merenda escolar, na educação.

O Brasil está encurralado entre uma flébil tentativa de ajustar as contas públicas e o ajuste sendo usado como moeda de troca. O Congresso está bloqueando nossa recuperação. O Brasil está sendo chantageado. “Se o Brasil não me atender, eu destruo o Brasil”.
Antigamente, o segredo era a alma dos negócios espúrios. Hoje, os mais sujos interesses são expostos à luz fria de um bordel. Está tudo a nossa cara.

Sempre houve roubalheira, considerada apenas um “pecado”, e era uma roubalheira setorial, descentralizada, e não esta coisa sólida, extensa, onipresente. Tudo que já apareceu nessa extraordinária ressurreição do Judiciário, por conta dos competentes juízes e procuradores, será um troco, uma mixaria quando chegarem aos fundos de pensão, ao BNDES e a outras empresas públicas.

A política está impedindo a política. Mentem e negam o tempo todo e não desmoralizam a verdade apenas; estão desmoralizando a mentira. São patranhas tão explícitas, tão cínicas que desmoralizam a mentira. O óbvio está escondido debaixo da mesa. O óbvio está no escuro, o óbvio está na privada. Quanto à verdade, é fácil descobri-la: ela é o contrário, o avesso de tudo que políticos investigados negam.

Ninguém acredita mais no que o Lula fala (só pobres analfabetos e intelectuais imbecis), ninguém acredita mais no que a Dilma gagueja sob o som dos panelaços, nem no Renan, no Cunha, mas o show continua. Há um complô de enganação da sociedade. Por quê? Porque a sociedade para eles é um bando de idiotas que precisam ser tutelados pelo Estado de esquerda ou enrolados pelos oligarcas privados. Esse foi nosso pior destino: a união entre a chamada “esquerda” e a velha direita.

Dilma não sai nem morta, ela disse. Cunha não sai nem morto. E os dois em confronto encurralam o país numa briga de foice. São demitidos 3.000 por dia e o total geral de desempregados já está em 1,2 milhão de pobres vítimas desse prélio de arrogância e narcisismo. Teremos um déficit fiscal de R$ 70 bilhões. E tudo bem? No Congresso, ninguém liga. Dane-se o país, quero o meu...

Faltam-me palavras. Que nome dar, por exemplo, a esse melaço de gente que odeia reformas e o novo?

Que medula, que linfa ancestral os energiza, que visgo é esse que gruda em tudo? É uma pasta feita de egoísmo, preguiça, herança colonial, estupidez e voracidade pura. Que nome dar? A gosma do Mesmo?

O dicionário não basta para descrever uma figura como o Cunha, cuja aparência não engana. Ele é o que parece, nunca vi um desenho tão perfeito de uma personalidade. O povo vê horrorizado sua carantonha e seu bico voraz e percebe que está diante do mal. O povão não entende muito, mas tem sensibilidade. Cunha é a cara do pesadelo brasileiro. E tantos outros, escondidos por sorrisos, cabelinhos de acaju ou de asas da graúna.

Nós, jornalistas e comentaristas, tentamos ver algum ângulo novo na crise atual, mas já estamos nos repetindo, martelando o óbvio. Todos os artigos parecem um só. Eu busco novas ideias, novas ironias para esculachar essa vergonha, mas ela é maior que as palavras.

Falamos, falamos, e não descobrimos o essencial: como é que essa porra vai acabar?

O Brasil estava entrando no mundo contemporâneo com uma nova visão de economia e gestão, e vieram esses caras e comeram tudo, como as porcadas magras quando invadem o batatal.

Essa crise é terrível porque é uma caricatura. É crise do superficial, do inerte, da anestesia sem cirurgia. A crise é um pesadelo humorístico. A crise não merece respeito. Sei lá, a depressão de 1929 foi uma tragédia real. Esta nossa é uma anedota. Ela foi criada artificialmente por essa gentalha que tomou o poder e resolveu ser contra “tudo isso que está ai”. Quem estava aí era o Brasil. Eram as conquistas da democracia, essa palavra que eles usam com boquinha de nojo, apenas como pretexto, como estratégia para a tal “linha justa”. Como dizia o Bobbio: “O que mais une o fascismo e o comunismo é seu ódio à democracia”.

O que provocou tudo isso? Foi o populismo endêmico, o patrimonialismo secular, a ignorância histórica.

E esse sarapatel pariu um sujeito despreparado e deslumbrado consigo mesmo, cujo carisma de operário fascinou intelectuais babacas e comunas desempregados desde 1968, que resolveram fazer uma revolução endógena, um “gramscianismo” de galinheiro.

O PT está arrasando o país. Essa é a verdade. Temos que dar nome aos bois, ou melhor, ao boi. O causador disso tudo que nos acontece e que poderá durar muito tempo foi o Lula. Sim. Esse homem que nunca viu nada, que não sabia de nada é o grande culpado da transformação. Mas o MPF e a polícia estão chegando perto dele e de suas ocultações. Ele é o boi.

Tele-Lixo

Se a única coisa que oferecerem às pessoas for tele-lixo e omitirem que existem outras coisas, elas acreditarão que não existe mais nada para lá do lixo. Nestes momentos, a audiência é a rainha e por causa dela é lícito uma pessoa até matar a avó. Os meios de comunicação têm grande parte da responsabilidade nisto, embora seja necessário perguntar quem move os seus fios. Por detrás há sempre um banco ou um governo. Um jornal independente? Uma rádio livre? Uma televisão objetiva? Isso não existe. Essa mistura, o tele-lixo e os meios de comunicação dependentes, provoca que a sociedade esteja gravemente doente.
José Saramago

Dinheiro e porrada no mundo da lua, de olhos arregalados

Depois de sofrer “reprimendas” por dirigir taxis cidade afora, o prefeito do Rio de Janeiro, justificou: “Dirijo pouco, tenho motorista, é aquela fase burguesa de prefeito, que só anda de motorista.”

Ele e todas as excelências mundo afora desfrutam da fase burguesa a cada vaga conseguida nas urnas ou em cargos assumidos de primeiro, segundo e terceiros escalões.

É quando também se distanciam das ruas e suas cotidianas aflições, dificuldades e queixas. Passam a viver no mundo da lua, como disse um deputado sobre presidenta Dilma.

Ficassem mais próximos do povo e saberiam direito porque vêm tremulando bandeiras do “Vocês não me representam”.

Principalmente, saberiam de onde vem a rejeição e a perplexidade da população, alimentada diariamente, além das news do Lava Jato, por pérolas proferidas sem a menor cerimônia pela turminha em fase burguesa.

Ai vão algumas dos últimos dias:

— Ele acha que tudo é dinheiro e não entende que tem gente que está na política por poder ou por vaidade — disse um integrante do PMDB.

Estava no jornal, dita em off, avaliando o comportamento do presidente da Câmara, seu par de partido.

Perguntamos nós e nossa insignificância: quer dizer que vai-se para a vida pública, se não por dinheiro – esse grandão que rola nos subterrâneos -, apenas por “poder e vaidade”?

A coisa tá feia. Outras motivações de maior grandeza – espírito público, desejo se servir, atuar pela população, a favor do país, atuar em causas de seu segmento social – nem se cogita? Caíram completamente em desuso.

Segue o baile sem máscaras:

— Tem duas coisas que só não resolvem quando é pouco: dinheiro e porrada — disse, segundo o jornal, o excelência em questão “a mais de um interlocutor”.

A mesma matéria explica: “Além de sua visão de mundo, a frase mostra afinidade com o doleiro..., de quem é amigo.” E lá vem a frase similar do tal doleiro:

— Aprendi na vida que há dois jeitos de resolver um problema. Ou é com dinheiro ou é na porrada — disse (o doleiro), em entrevista publicada na edição de agosto da revista “Piauí”.

Precisa de explicação sociológica para as violências e os desrespeitos que comem soltos Brasil adentro?

Tem mais:

“Esse comportamento de dizer de olhos arregalados que não vai sair é típico do psicopata. O psicopata nunca cede, ele vai até o final com aquela versão e com as mesmas palavras. Isso vai cansar. Vamos ver se a Câmara vai ficar com o rabo entre as pernas, envergonhada por algo que está percorrendo o mundo inteiro, um presidente de uma instituição desse jeito.”

Essa delicadeza toda - do psicopata ao rabo entre as pernas - vem da fala de um colega de partido, eleitor do excelência presidente, e em referência ao dito cujo, que vive momento de “alvo a ser destruído”.

Guerra é guerra. Em praça pública como nunca antes na história desse país. E com a mesma metralhadora - e todas as letras - o velho parlamentar avalia: “A Câmara é uma tragédia. Eu nunca vi coisa tão ruim."

No mesmo dia, a manchete reforça: “1/3 do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados é alvo de inquéritos. Sete dos 21 membros do colegiado são alvo de ações no Supremo sob suspeita de crimes como lavagem de dinheiro.”

A Câmara foi o alvo desta semana porque a crise anda concentrada no condutor da Casa. Mas o furdunço alcança toda a classe dirigente e política do país, em liquidificador que põe bons e maus na mesma massa.

Aí o IBOPE registra e faz manchete:

A três anos das próximas eleições presidenciais... aponta um nível alto de rejeição entre os políticos mais cotados como possíveis candidatos em 2018.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece numericamente na frente, com 55% de rejeição (não votaria "de jeito nenhum") entre os prováveis candidatos ao Planalto. Estão empatados tecnicamente com ele -- a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais -- José Serra (PSDB), com 54%, Geraldo Alckmin (PSDB), com 52%, e Ciro Gomes (PDT), com 52%.

Além dos quatro, o Ibope mediu a rejeição a uma eventual candidatura de Aécio Neves (PSDB) e de Marina Silva (Rede). Marina é rejeitada por 50% dos entrevistados, e Aécio, por 47%.

Ou seja, no binóculo de hoje, para pelo menos a metade da população, ninguém dos politicões é confiável para assumir a vaga da tia Dilma. Surpresa?

Outras sondagens indicam que, enfastiada, a população quer reduzir tudo em relação ao cenário político - menor mandado, redução do número de parlamentares em todas as casas legislativas, menor tempo de propaganda eleitoral, horário reduzido dos “anúncios” na TV e no rádio. E mais, a perda de mandato para quem trocar de partido. Tolerância para essa troca só depois do mandato cumprido.

“A pesquisa mostra ainda um crescimento na rejeição de Lula, Aécio e Marina, nomes para os quais há dados comparativos de pesquisas feitas no ano passado. Em maio de 2014, apenas 33% não votariam em Lula "de jeito nenhum". Aécio era apontado com 37% de rejeição e Marina, com 36%, em pesquisa de abril.”.

Nada pessoal. Só um fastio com o modelo de política praticado desde muito, mas evidenciado nas mídias com pensamentos, palavras e obras nestes derradeiros anos.

O ex-presidente FHC, que lança livro de memórias dos seus dias do palácio fala de “chantagens do Congresso”, esquecendo – parece – que a coisa tem mão dupla, há chantagens também do Executivo. Caneta em punho, todos com a cabeça torta pelo longo uso de velho modus operandi.

Em entrevista, FHC também disse que hoje: "Não são os políticos que estão dando as cartas. Eles estão dançando a música dos outros".

Bom aguardar cenas dos próximos capítulos para descobrir que baile é esse e que maestro conduz a orquestra por hora desatinada e desafinada que só. Benza Deus.

Custo do social

Navegamos por mares nunca dantes navegáveis, numa mistura tragicômica de uma era desastrosa, e tudo se embasou nos problemas da inclusão social. Até aí nada de errado, mas quando o Estado se amesquinha, fica fragilizado e empobrecido, toda a população é refém dessa estrutura malévola.
O Estado é forte quando exerce o seu papel de distribuir a riqueza e não ao contrário de leiloar a miséria. Assim, as intervenções em diversos setores foram caóticas. Quem pegar uma conta de luz verá que, além do consumo medido, estará pagando a geração e transmissão e custos financeiros, um verdadeiro caos que retrata o estado de falência das empresas do setor elétrico, já que as matrizes alternativas não são suficientes para modular o sistema e agora com a paralisação de angra 3 o receio é que tenhamos mais apagões e aumentos no bolso do contribuinte.





Voltando ao tema de base, o governo errou de modo desavergonhado quando procurou aquinhoar cada individuo e não fortalecer todos. Se estivesse ocupado com o transporte que aliviasse a malha mediante mais metros, trens de superfície e rede de taxis compartilhados, ao invés de financiar carros e depois implantar radares por toda a cidade em busca da multa que enriquece o caixa e não tem vinculação com despesas, em tese, pois nada se comprova no retorno ao caótico transito.



Hoje, mais do que ontem, pagamos um custo extraordinário por causa de programas sociais insolventes, e o dinheiro publico derramado não voltará mais. Daí se procura aumentar impostos reinventar a CPMF e voltar o dinheiro internado no exterior, tudo a pretexto de que sairemos do caos em alguns anos, se formos otimistas.

O Estado quebrou literalmente pois foi demagogo e acima de tudo perdulário, e a famigerada reeleição é a maior imagem do retrocesso. Tudo se permite na sua perspectiva, desde que reeleito o candidato. Vivemos e convivemos em tempos difíceis e inábeis pelos nossos representantes do povo, que na realidade são achacadores e aproveitadores dos mandatos eletivos para negociatas e boas poupanças depositadas no exterior.

Enquanto isso a nossa destruição provocada pela corrupção somada à impunidade, num mergulho profundo as piores imagens do pré sal, destruída a maior estatal do País, que passa momentos dificultosos sem caixa, nenhum investimento e agora com a cara de pau querendo vender a distribuidora.

A fiscalização é a maior piada no Brasil. Esses órgãos reguladores são um retrato da ineficácia e total anomalia. Falta água no Estado de São Paulo, luz em regiões com apagões, linhas de transmissão não funcionam, sinal de celular sempre não há torre na proximidade, e assim caminha o País entre as chagas do desgoverno e a cruz da subserviência ao partido totalitário que encampa diretrizes retrogradas e se faz passar por bom moço.

Espertalhões, safados e maledicentes que ignoram a sociedade civil e aproveitam no momento da falta de oposição. E quase no final do ano, sem nada de concreto, mas sim inflação, recessão e perda de 120 mil postos de emprego ao mês, e dizem que foi uma marolinha.

Agora um povo que não se indigna, que não sai para brigar e reivindicar seus direitos e se contenta com migalhas, todos esses ingredientes nos colocam no subdesenvolvimento do final dos tempos.
Carlos Henrique Abrão

Saiba porque Lula deve se curvar à tocaia federal contra seu filho

Em 21 de maio passado, Fabio Porfirio Lobo prestou depoimento numa corte federal de Manhattan. A promotoria vindica que ele passe o resto da vida no xilindró, sob acusação de ter conspirado para se importar cocaína para os EUA. Seu pai não atacou o DEA, a agência anti-drogas dos EUA, ou o FBI. Apenas disse que ajudaria o filho a provar sua inocência (ele foi preso no Haiti). E que o filho, Fábio, “não é mais mais uma criança e sabe o que faz”.

Em 10 de março passado, também em Nova York, uma corte condenou Dino Bouterse a 16 anos de cadeia. Foi acusado de apoiar o Hezbollah, considerado, em território norte-americano, uma organização terrorista. Também havia sido condenado a conspirar para importar 5 quilos de cocaína do Suriname para os EUA. Seu pai se calou.

Em 15 de setembro passado Ebrahima Jawara foi preso na Gambia, acusado de crime econômico contra o estado. Seu pai lamentou o filho.

Em 12 de outubro de 2012 Maksim Bakiyev foi preso quando desembarcava em Londres, sob acusação de fraude fiscal contra seu país, o Quirguistão, país da Ásia Central e que era do guarda-chuva do URSS. Seu pai pediu apenas justiça.

Agora os detalhes que nivelam os destinos dessas 4 histórias:

Fabio Porfirio Lobo: seu pai é ninguém menos que Porfírio Lobo, presidente de Honduras de 2010 a 2014.

Dino Bouterse: seu pai é ninguém menos que Desi Bouterse, presidente que deu um golpe de estado no Suriname em 2010.

Ebrahima Jawara: é filho do ex-presidente da Gambia, Sir Dawda Jawara.

Maksim Bakiyev: filho do ex-presidente do Quirguistão, Kurmanbek Bakiyev.

Nenhum dos ex-presidentes dessas republiquetas reclamou das autoridades que atocaiaram os seus filhos…

Lemos agora na reportagem de Katia Seabra que o ex-presidente Lula passou a tarde dessa segunda-feira imprecando contra Dilma, contra seu ministro da Justiça e contra a PF: atribuindo a todos um “golpe”, pelo fato da PF ter entrado no escritório de seu filho Luis Claudio.

Até entendo que no lugar de Lula eu levaria um chazinho de maracutaia à família para acalmar os ânimos dessa segunda-feira gorda (o serviço secreto francês, chamado de DGSE, gosta também de operar às segundas-feiras gordas, a que chamam de “lundi-gras”)

Pois bem: agora ficou mais clara a bipolaridade de Lula: quem o critica é da “direita golpista” – e quem investiga o seu filho, no governo, quer destruir o seu legado genético.

Para o bom entendedor, meia palavra bos.

Lula e o imperativo de sobrevivência

Ao completar 70 anos, amanhã, pode o Lula considerar-se na plenitude de sua capacidade para realizar o Bem ou o Mal?

Como já se dedicou a ambos os objetivos, ora atendendo os pobres e os necessitados, ora privilegiando os ricos e os vigaristas, continua em aberto a possibilidade dele tentar voltar ao palácio do Planalto. Não se diz voltar ao poder porque deste jamais se afastou, tanto controlando o PT quanto interferindo no governo Dilma. Muita gente considera inviável o retorno do ex-presidente, dado o desgaste do partido dos companheiros e o fracasso hoje evidente da administração da sucessora. Madame deixou de ser a esperança de continuidade de um período ao menos em parte voltado para os menos favorecidos. Transformou-se em instrumento fisiológico de uma base parlamentar ávida de sinecuras e favores variados. Atende sugestões esparsas do antecessor mas permanece a maior parte do tempo lambuzando o país de incompetência.


Caso decida ou não possa evitar candidatar-se em 2018, o Lula carregará o fracasso da Dilma. Talvez o peso venha a ser demasiado para obter a vitória, como revelam as pesquisas atuais. Nessa hipótese, precisará encontrar quem o substitua como candidato, mas quem? Nos quadros do PT a safra revela-se decepcionante. Jacques Wagner, Aloísio Mercadante, Ricardo Berzoini? Não dá. Será, o ex-presidente, obrigado a aceitar o encargo, por falta de alternativas? Mas, se perder, não estará acionando a pá-de-cal na aventura um dia saudada como capaz de mudar o Brasil? Apoiar um candidato de origem diversa, tipo Ciro Gomes, será um risco, mas pior seria aceitar Michel Temer, do PMDB.

Nesse cipoal encontra-se o ex-torneiro-mecânico, ao completar 70 anos. Desejando ou não retornar, quando tiver 73, sua candidatura será um imperativo de sobrevivência, não apenas pessoal, mas do movimento que criou. Só que obstáculos levantam-se de todos os lados. As acusações de haver-se tornado milionário, envolvendo também sua família. Relações pouco claras com empreiteiros hoje morando na cadeia. O desgaste natural da idade. A falta de renovação no próprio partido. O distanciamento da classe operária, atualmente órfã de lideranças em condições de reivindicar melhores condições de vida e de trabalho. E mais o desemprego crescente, o aumento de impostos, taxas e tarifas, a redução de direitos sociais, a queda nos índices de crescimento econômico e a inflação.

O diabo é que, mesmo enfrentando tamanha carga negativa, o Lula poderá não encontrar argumentos para recusar a candidatura. Arriscado a enfrentar a derrota, não lhe será possível saltar de banda.

Sobre o medo, bruxas e cozinheiros

 

Seria bem bom se tivéssemos alguns poderes mágicos que nos dessem condição de mudar o mundo, ou ao menos controlar alguns de seus detalhes sórdidos. Crescemos sonhando com a magia, nas histórias que ouvimos, nos livros que lemos. Nas fábulas que acabamos depois vivendo de verdade quando adultos, lembrando daqueles bichos que falavam e que eram os seus personagens. Tudo feito, de um lado, para nos incutir o medo e o respeito ao limite; mas é esse medo que acaba nos tornando dependentes

Pode ser um esconderijo interessante para esses tempos difíceis. Rever alguns dos ensinamentos de nossos livros infantis, onde sempre existe alguma conclusão embutida, a tal moral da história – moral da história, vejam só. Quando um não quer, dois não brigam. Quando dois brigam, um terceiro tira proveito.

Sempre também nos contaram histórias aterrorizantes, embora muitas vezes sua carinha fosse doce e meiga, parecendo inofensivas. Não é cruel o diálogo da formiga e da cigarra? Não é triste imaginar a desilusão da tal menina do leite diante da jarra despedaçada?

Ah, não se lê mais fábulas para as crianças? Nem La Fontaine, Esopo? Elas agora vivem só de princesinhas patricinhas com seus enormes guarda-roupas e caixas de maquiagem? E os meninos? De heróis musculosos com roupas colantes ou seminus e viris? Ou aqueles de videogames que estão sempre desferindo golpes mortais e pulando obstáculos?

Como hoje se prepara uma pessoinha para a vida? Sem a sovinice do Tio Patinhas, sem a generosidade do Riquinho, o loiro garoto milionário meio socialista. Sem os trambiques da magra Maga Patalógica e da estrambelhada descabelada Madame Min, com suas sopas de asas de morcego, aranhas e pernas de sapos, que ambas mexiam e remexiam em seus caldeirões fumegantes.

Atualmente coelho não sai mais de cartola, nem pombo fica dando mole por aí. Podem virar iguarias cozidas em outras paradas. Pois sobre esses caldeirões tenho reparado muito nessa enxurrada de programas de culinária, por exemplo. Já me chamava a atenção o número de homens ligados em cozinha. Encontro e vejo muitos na feira mostrando suas habilidades para fazer compras, discutindo detalhes nas barracas com os comerciantes, coisa que não imaginava de forma alguma ver há alguns anos. Gastam muito, mais em suprimentos e em utensílios. Usam avental. Dali, emergem “panelinhas”- que falar em pratos pode ser desconsideração com os “chiquês” (chiliques também) deles.

Crianças se enfrentam em campeonatos, e os marmanjos em casa ficam postando suas piores fantasias. Na minha época não podia chegar nem perto do fogão, quanto mais poderia de um torneio sob mais pressão que a válvula da panela; era como se houvesse uma muralha que me mantivesse distante e a qualquer criança pelo menos a cinco metros dele. Minha mãe tinha um trauma: quando era pequena lá no interior de Minas teve uma amiga que virou uma chaleira de água fervente em cima de si própria; sobreviveu, mas pelo tanto que minha mãe sofria em lembrar creio que ficou realmente monstruosa.

Tudo isso para dizer que ando pensando se as pessoas não estão tanto nas cozinhas em busca de criar o elixir da vida, a poção da imortalidade, o néctar dos deuses, e extraem essa mágica nos pratos que fazem diante de plateias e torcidas. Vencendo limites.

Outros buscam nos esportes radicais o seu encontro particular com a morte. E há os que flertam com ela dia e noite em atitudes.

São as novas caras da morte. As das fantasias bonitas que vão aparecer nas inúmeras festas de Dia das Bruxas que também se comemora por aqui; são as cores vivas da festa mexicana que esse ano quase que um furacão com nome de mulher tornou ainda mais dramáticas.

É também esse bang-bang que enfrentamos nas grandes cidades, que nos fazem temer e tremer, nos afastando das ruas, assustados com qualquer estampido que pode selar nossas vidas.

SUS, subserviência ao mercado

A redução dos recursos públicos para a saúde contrasta com as tendências internacionais e terá impactos negativos. O pagamento de impostos condensa uma relação de reciprocidade, orçamentos públicos se destinam a pagar compromissos estabelecidos no passado e investimentos em projetos futuros.
A interrupção de cuidados à saúde e a destinação do fundo público para atender interesses privados imediatistas oneram injustamente os contribuintes, quebram o SUS, desvalorizam um empreendimento coletivo, remetem a saúde brasileira à insustentável e insegura condição de subalternidade aos mercados internacionais.
Ligia Bahia, "Atmosfera malsã" 

Estado esmaga sociedade, e não apenas pelo custo

O Brasil sempre aparece mal colocado em rankings que avaliam a capacidade de países abrigarem empresas, estimularem seu crescimento e o empreendedorismo em geral. No mais conhecido deles, o “Doing Business”, do Banco Mundial, o ambiente de negócios do país estava, na última versão do relatório, apenas em 120º lugar. Uma discrepância diante do tamanho da economia brasileira, uma das dez maiores do mundo. Esses levantamentos, feitos junto a empresários e executivos, avaliam diversos aspectos que afetam a vida das empresas e de suas populações, como carga tributária, qualidade das instituições etc. E um dos problemas que mais pesam negativamente para o Brasil é a espessa burocracia que inferniza a vida de pessoas físicas e jurídicas. No caso das empresas, ela aflige acionistas e administradores não apenas com o pagamento de inúmeros impostos, taxas e similares, mas com o enorme trabalho que é manejar guias de recolhimento, mantê-las em dia e devidamente arquivadas, até porque sempre o ônus da prova cabe ao contribuinte.



Um dado ilustrativo: segundo o “Doing Business”, empresas de São Paulo consomem, em média, 2.600 horas por ano para recolher impostos, contra apenas 365 horas na América Latina como um todo. Dados como este não surgem por acaso. Há por trás de cada via-crúcis burocrática um enorme aparato estatal, de tempos em tempos cevado com mais verbas bilionárias, mais cargos. E nisso os últimos 12 anos de hegemonia do PT em Brasília foram pródigos.

Basta consultar os gráficos nesta página para constatar-se o avanço do contingente de servidores no Executivo federal. Até 2013, eram 1.952 mil, ou 13,3% mais que os 1.722 mil servidores lotados na máquina do Executivo, em 2002, último ano de FH no Planalto, incluindo os aposentados.

Os sinais do inchaço da máquina com Lula e Dilma, a partir de 2003, são mais visíveis na distribuição de cargos ditos de confiança. Eles eram aproximadamente 66 mil em 2002 e chegaram a 100.313 em julho deste ano, um crescimento robusto de 52%.

Por trás dos números há o apadrinhamento político e ideológico. É um termômetro fiel do aparelhamento, mesmo com servidores concursados, pois não se pode achar que inexistam militantes petistas entre eles, e que estes não tenham prioridade no recebimento de “adicionais por cargo”.

Não falta espaço na máquina burocrática. Só esses cargos, designados por indecifráveis siglas, são 41. Entre eles, o mais ambicionado é o DAS (Direção e Assessoramento Superior), o destaque nesta sopa de letras. Mas também é possível, se bem apadrinhado, a pessoa acumular adicionais até chegar a, por exemplo, R$ 152.220,97, caso da remuneração total de um funcionário da estatal Eletronorte, mostrado em reportagem do GLOBO.

Os defensores do mastodôntico Estado brasileiro costumam argumentar que a folha dos servidores se mantém estável no nível de 4% do PIB. Mas a questão, aqui, é menos este número isolado e mais analisá-lo “por dentro”, saber se os servidores estão alocados da melhor forma para atender a população, se os salários pagos são compatíveis com a produtividade do funcionário. Ou se a máquina se move por si mesma, impulsionada pela lógica da burocracia, por seus interesses específicos e de aliados políticos de ocasião. Um milhão de funcionários ativos do Executivo receberão este ano mais de R$ 100 bilhões, ou três Bolsas Família, um aumento real (acima da inflação) superior a 55%, desde 2002. Além de tudo, este monstruoso aparato gera mais burocracia. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento, a máquina produz 520 novos regulamentos por dia.

E tudo somado, o Estado consome 40% do PIB, e ainda precisa pedir dinheiro emprestado. É muito, principalmente quando se avaliam estes índices e cifras por meio da qualidade dos serviços prestados à população. Uma exorbitância, também se analisarmos pela ótica de quem padece com a burocracia pública.

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