quarta-feira, 8 de janeiro de 2025
A memória e... o esquecimento
A perda de memória torna-nos imbecis. A imbecilidade contemporânea, isto é, própria deste tempo fixo no presente, que esquece o passado e receia o futuro é o nosso esquecimento do que caracterizou o último século.
Devemos lutar contra a desmemorização e contra a memória imobilizada. Devemos regenerar constantemente a memória . A regeneração da memória parte justamente das necessidades vivas do presente.
Edgar Morin, " As grandes questões do nosso Tempo"
Para Michael Walzer, liberal não define o que se é, mas como se é
Sorrio. Estou no lugar certo: foi aqui, na Escócia, em pleno século 18, que a palavra "liberal" surgiu pela primeira vez em inglês com conotação abertamente política.
Um pormenor, porém, merece ser realçado: "liberal" nasceu como adjetivo antes de se tornar substantivo. Como explica o economista Daniel Klein, que tem estudado essas arqueologias conceituais, foram iluministas escoceses, como Adam Smith, que definiram como liberal um sistema de governo que permite a cada um procurar os seus interesses e fins de vida, desde que respeitando a lei geral.
A palavra acabaria por evoluir até se cristalizar numa ideologia política —o liberalismo— e num substantivo —o liberal. E, como normalmente acontece com ideologias, surgiram escolas, subescolas, sub-subescolas, que se guerreiam e se excomungam.
Mas haverá alguma vantagem em retornar ao adjetivo? E, em caso afirmativo, será possível encontrar espíritos liberais nos lugares mais inusitados?
O filósofo Michael Walzer, em ensaio testamentário, se ocupa dessas questões todas citadas.
O título e o subtítulo resumem o espírito da sua obra: "The Struggle for a Decent Politics: On ‘Liberal’ as an Adjective" (ou em português, a luta por uma sociedade decente: sobre ‘liberal’ como adjetivo, Yale, 184 págs).
Eis a proposta de Walzer: hoje, a palavra liberal deveria ter uma dimensão essencialmente moral. Ser uma pessoa liberal significa, em traços gerais, ter uma mente aberta, ser generoso, ser capaz de aceitar a ambiguidade, condenar o fanatismo e não tolerar a crueldade.
Como escreve o filósofo, "liberal" não define o que se é, mas como se é. É uma forma de estar na vida, de agir em sociedade, de nos relacionarmos com os outros. Com liberalidade.
Isso significa que o número de liberais pode ser bem maior do que Deirdre McCloskey imagina. No seu artigo, McCloskey fala em progressistas, libertários —e liberais "suficientes", como ela.
Mas Walzer é mais generoso (mais liberal?) com a fauna humana. Conservadores liberais, nacionalistas liberais, democratas liberais, até socialistas liberais têm espaço nessa arca de Noé. "Liberal", quando aplicado a cada um desses nomes, é uma forma de evitar que as ideologias degenerem nas suas piores versões, mantendo ainda um respeito primordial pela liberdade e dignidade humanas.
Usando os exemplos de Walzer, um democrata liberal respeita a vontade da maioria. Mas também entende que as maiorias necessitam de limites constitucionais que muitas vezes frustram as pulsões da multidão.
Há quem discorde. Há quem prefira uma democracia "iliberal", como acontece na Hungria de Viktor Orbán. É um desejo arriscado: quando tudo depende da maioria, é melhor você ter a certeza de que nunca estará entre a minoria que participa.
E que dizer de socialistas liberais, esse supremo paradoxo?
Walzer não fala, obviamente, de ideologias totalitárias, como o comunismo. Fala da tradição social-democrata que aceita a "liberdade civil burguesa" como forma de atingir uma sociedade menos desigual.
Um socialista liberal não abandona o seu desejo de igualdade; mas entende que esse destino deve ser trilhado por via democrática, sem atropelo de direitos fundamentais e fazendo uma distinção entre desigualdades toleráveis e intoleráveis.
Ou, como escreve Walzer, é tudo uma questão de convertibilidade: há coisas que o dinheiro pode comprar e outras que não pode. É indiferente se os mais ricos compram artigos de luxo que estão inteiramente vedados à restante população.
Não é indiferente se apenas os mais ricos têm acesso a saúde, justiça ou influência política.
Por último, Walzer dedica algumas linhas aos "professores liberais", esse artigo cada vez mais raro nos departamentos de humanidades. Como reconhecer um?
Muito fácil: um professor liberal é aquele que, apesar das suas convicções mais firmes, não as impinge aos alunos como a última verdade revelada. Ou, então, é aquele que apresenta visões contrárias à dele com a honestidade intelectual possível.
Imagine um professor progressista que apresenta argumentos conservadores sem hostilidade ou caricatura. Ou vice-versa.
Eu não disse que este era um artigo para lá de raro?
Sim, os liberais podem ser divididos em vertentes clássicas, modernas, ordoliberais, libertárias, neoliberais, o diabo.
Mas a questão decisiva é saber primeiro se estamos na presença de liberais liberais.
O 51º estado!
A terceira afirmação do próximo presidente diz respeito à demissão do primeiro-ministro Justin Trudeau, após dez anos à frente do Governo em nome dos liberais, por perceber que irá perder as próximas eleições para os conservadores. Trudeau saiu porque o seu ciclo político estava esgotado, e nada disso tem a ver com a insistência do quase presidente.
A primeira grande indelicadeza de Trump foi atribuir o cargo de «Governador» ao primeiro-ministro, depois de se terem encontrado — e não foi apenas mais uma tolice para esquecer. Desde então, e à medida que o dia 20 se aproxima, o presidente eleito e confirmado não abandona a ideia de integrar o Canadá na União americana, sem esquecer a Gronelândia da Dinamarca, talvez o 52º estado.
É bizarro e infantil, mas os Estados Unidos construíram-se através de lutas contra os mexicanos para conquistar território — Texas, Colorado, Novo México e Califórnia — e com a compra do Alasca à Rússia. Trump quer alargar horizontes e, para isso, não hesita em usar as armas que tem: taxas fronteiriças e controlo de pessoas. Canadá, México e Dinamarca são alvos primários. Um dia destes reclama os Açores! Por razões de segurança nacional, como na Gronelândia.
Os sinais que chegam de Mar-a-Lago não são promissores. Corremos o risco de Trump estar pior do que já estava.
Falta o essencial
Miguel Torga, in " Diário XVI"
Nenhum cessar-fogo à vista: Gaza 'parece um inferno'
Nos últimos 14 meses, a família de Zahra mudou-se de um lugar para outro no norte da Faixa de Gaza em busca de maior segurança. Em dezembro, a família de sete pessoas chegou à Cidade de Gaza.
“A guerra tem sido difícil desde o primeiro dia, mas agora parece um inferno”, diz Zahra, que pediu que o seu nome completo não fosse revelado, da Cidade de Gaza. A sua família encontrou refúgio numa casa parcialmente bombardeada no campo de refugiados de Shati. “Não sabemos se sobreviveremos ou morreremos antes que isto acabe”, disse ele à DW por telefone.
Apesar das repetidas ordens das Forças de Defesa de Israel (IDF) para se dirigirem ao sul da Faixa de Gaza, a família de Zahra decidiu ficar no norte, em parte por medo de nunca mais poder regressar a casa.
“Não saímos do norte mais cedo porque sabíamos que estavam bombardeando por toda parte e esperávamos que a operação militar no norte terminasse logo. No entanto, tornou-se ainda mais insuportável”, explica Zahra. “A nossa casa no campo de Jabalia foi completamente destruída há meses e agora estamos num estado de constante deslocamento.”
Agências internacionais e governos estão a pressionar Israel e o Hamas para concordarem com um cessar-fogo que permita a libertação do resto dos reféns detidos em Gaza em troca do fim da guerra e de ajuda humanitária à população civil. No entanto, o conflito parece não ter fim.
No fim de semana passado, as Forças de Defesa de Israel declararam ter atingido mais de 100 alvos em toda a Faixa de Gaza depois que o Hamas disparou foguetes contra Israel.
Em todo o território, o frio e as chuvas de inverno inundam tendas e outras casas improvisadas. Nas últimas semanas, as organizações humanitárias alertaram repetidamente que não chega ajuda suficiente à população, tanto devido ao bloqueio israelita como aos saques .
No domingo passado, as forças de defesa civil de Gaza relataram que ataques israelitas mataram agentes de segurança que protegiam comboios de ajuda humanitária no sul. As autoridades também alegaram que os militares israelitas bombardeavam bairros e detonavam edifícios residenciais no norte de Gaza, deixando vários mortos e feridos. Mais de 45.800 palestinos foram mortos desde que Israel lançou a sua ofensiva militar após os ataques terroristas liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza.
Jabalia e a área ao norte da Cidade de Gaza são alvo de um novo ataque das FDI que começou em outubro. As Forças de Defesa de Israel dizem que o Hamas e outros grupos militantes estão a reagrupar-se na área e que as suas ordens para evacuar os civis tinham como objetivo mantê-los fora de perigo. Mas os palestinianos e as organizações humanitárias dizem que não há lugar seguro em Gaza e que o deslocamento constante está a agravar a situação.
Gentes é evacuado do campo de refugiados de Jabalia. Gente é evacuada do campo de refugiados de Jabalia.
No final de Dezembro, uma delegação da ONU obteve autorização para viajar ao norte da Faixa de Gaza. Jonathan Whittall, chefe interino do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários em Jerusalém Oriental, disse em um vídeo postado no X que “as pessoas aqui não têm comida, nem água, nem saneamento, nada. para fornecer o básico para a sobrevivência.
Whittall acrescentou que as Nações Unidas apresentaram 140 pedidos de coordenação às FDI para visitar a área nos últimos dois meses, mas todos foram negados.
O Coordenador de Atividades Governamentais nos Territórios, a administração civil-militar israelense responsável pelo acesso a Gaza e pela ajuda humanitária, respondeu em X que “alegações recentes sobre pedidos de coordenação humanitária negados são enganosas”.
As Nações Unidas estimam que entre 10.000 e 15.000 pessoas permaneçam no norte da Faixa de Gaza sitiada, que inclui Beit Lahia, Jabalia e Beit Hanun, mas o número exacto é desconhecido. Acredita-se que grande parte da área tenha sido evacuada e arrasada, alimentando especulações sobre a intenção de Israel de mantê-la como uma zona de segurança fechada quando a guerra terminar.
As Forças de Defesa de Israel negaram estar a implementar o chamado Plano do General, que apela à expulsão dos residentes do norte de Gaza, rotulando todos os civis restantes como alvos militares e bloqueando o fornecimento de alimentos e medicamentos.
Na semana passada, membros do Comité de Negócios Estrangeiros e Defesa do Knesset exigiram, numa carta, que o Ministro da Defesa, Israel Katz, ordenasse a destruição de todas as fontes de água, alimentos e energia na área, queixando-se de que as FDI ainda não derrotaram o Hamas.
Os moradores disseram que já havia uma escassez extrema de alimentos e água, enquanto os constantes bombardeios e tiros tornavam quase impossível qualquer movimento, inclusive chegar aos corredores humanitários em direção ao sul.
Zahra disse que a sua família conseguiu chegar ao campo de refugiados de Shati, a noroeste da cidade de Gaza. Ao longo do caminho, tiveram que passar por um posto de controle israelense. “Permitiram-me passar com as minhas três filhas, enquanto o meu marido e os meus dois filhos tiveram de esperar cinco horas antes de também poderem atravessar”, diz ela.
Matar Zomlot e a sua família permaneceram no campo de refugiados de Jabalia durante a guerra, mas acabaram por ser forçados a abandoná-lo.
“Havia bombardeios e explosões o tempo todo, e o medo era constante”, disse Zomlot à DW por telefone. A família sobreviveu procurando comida em casas abandonadas. me disseram que tinham deixado comida ou conservas".
Em Dezembro, a família conseguiu chegar à vizinha Cidade de Gaza, apesar dos intensos combates.
“Tínhamos medo de que eles atirassem em nós”, continua Zomlot. “No dia em que decidimos partir, saímos à tarde e caminhamos em direção à rua Salah al-Din. Havia um tanque e soldados que nos pararam. Depois de verificarem a nossa identificação, deixaram-nos passar”, acrescenta.
Ele agora mora na Cidade de Gaza com parentes.
Em vez de se mudar para o sul, a família preferiu ficar no norte da Faixa de Gaza. O território está agora dividido pelo corredor Netzarim, uma estrada com postos de controlo militares que vai de leste a oeste.
Uma vez que os palestinianos atravessem para o sul, não poderão regressar ao norte. Uma reportagem investigativa do jornal israelense Haaretz cita soldados na área dizendo que vários palestinos desarmados que se aproximaram da área para retornar ao norte foram mortos a tiros.
Segundo a ONU, cerca de 90 por cento dos 2,1 milhões de habitantes de Gaza foram deslocados, muitos deles várias vezes, e uma das muitas incertezas é se Israel lhes permitirá regressar às suas casas.
“Não sabemos o nosso destino”, diz Zahra, acrescentando: “Não sabemos o que nos espera. Mas rezamos a Deus para que esta guerra acabe logo e possamos regressar aos nossos bairros e às nossas casas, mesmo que tenham foram reduzidos a escombros."
A IA de 2025 não é como a do ano passado
Durante o período das festas de fim de ano, se tornaram populares nas redes os videozinhos com Lula e Bolsonaro sorridentes, se abraçando, suéteres natalinos e taças de espumante à mão. Foram várias versões no entorno do mesmo tema e não tiveram só eles como personagens. Elon Musk com Bill Gates, Donald Trump com Joe Biden, Zelensky e Putin — imagine um par improvável, e estavam lá. Essas imagens confessam, evidentemente, um desejo. Tem muita gente cansada da polarização na qual nos metemos. Mas, para além de retratar o Zeitgeist, é preciso haver uma explicação para vídeos assim surgirem às dezenas agora e não antes. A razão é uma só: o Grok.
Do ponto de vista da tecnologia, não há motivo para que Dall-E (OpenAI), Midjourney ou Gemini, as IAs mais populares para geração de imagens estáticas, não possam criar retratos de pessoas famosas nas situações mais mirabolantes. Não fazem isso porque há limites, filtros colocados pelas companhias para evitar deepfakes. As falsificações são tão realistas que podem se confundir com a realidade. O Grok não tem esses filtros por uma decisão do dono da xAI. Musk incorpora à defesa que faz da liberdade de expressão a ideia de que parodiar pessoas públicas é do jogo. O que Grok 2 não faz, ainda, são imagens ultrarrealistas. A promessa era que a versão 3 viria à tona ainda no ano passado. Não aconteceu.
O debate sobre se paródias com pessoas públicas fazem parte do exercício legítimo de expressão numa democracia é antigo. E, em boa parte das democracias, a ideia de que, sim, pode parodiar, está bem consolidada. Mesmo que a paródia seja bastante ofensiva, se os personagens são políticos ou gente muito relevante no debate público, é do jogo. Lula e Bolsonaro aos beijos pode soar de mau gosto para uns, mas é manifestação de um desejo ou de uma ideia. Não sendo ultrarrealista, e a cena sendo absurda o suficiente para que ninguém confunda com fatos, tudo certo. O problema se forma quando a linha é cruzada para além da paródia. Para construir uma imagem falsa, plausível, que sirva para falsificar a verdade. Confundir o debate público. No limite, por conta, fraudar uma eleição ao enganar eleitores em número suficiente.
Deepfakes ainda estavam bastante difíceis de produzir de forma realista. Em 2025, vai ficar mais fácil e periga se tornarem realistas o suficiente para enganar muita gente. Ainda não havíamos lidado com uma IA assim, agora acontecerá com mais frequência. E é aí que entra o dilema apresentado pela IA chinesa DeepSeek.
A empresa foi criada por Liang Wenfeng, um jovem cientista da computação chinês que fez uma grande fortuna ainda antes dos 30 desenvolvendo algoritmos para investir na Bolsa. Com sua fortuna, comprou dez mil microprocessadores para treinar IAs antes de os Estados Unidos criarem limites para exportação dessa tecnologia para a China. Os chineses podem importar os chips, mas não aqueles com a tecnologia necessária para treinar os algoritmos atuais. Ainda assim, a turma da DeepSeek comprou mais chips — mesmo que limitados. E treinou seu modelo de linguagem com menos dinheiro e menos tempo de processamento do que as rivais americanas. Fizeram o que ninguém havia feito antes.
Ciência e tecnologia sempre se moveram com mais originalidade perante a escassez de recursos. Se os testes iniciais se comprovarem, pelo menos uma empresa chinesa saltou os limites impostos pelos americanos e está com uma IA superior na praça. Com a diferença que ela é um modelo de código livre, outras empresas podem baixar e adaptar para usos diversos.
Modelos de IA com código livre podem ter seus filtros extirpados e produzirão tudo aquilo que a imaginação do usuário desejar. Sem limites para criação e com novos desafios para a sociedade. O ano promete.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2025
Genialidade brasileira
Olhem a mania nacional de classificar palavreado de literatura. Tem adjetivos sonoros? É literatura. Os períodos rolam bonito? Literatura. O final é pomposo? Literatura, nem se discute. Tem asneiras? Tem. Muitas? Santo Deus. Mas são grandiloquentes? Se são. Pois então é literatura e da melhor. Quer dizer alguma cousa? Nada. Rima, porém? Rima. Logo é literatura.
O Brasil é o único país de existência geograficamente provada em que não ser literato é inferioridade. Toda gente se sente no dever indeclinável de fazer literatura. Ao menos uma vez ao ano e para gasto doméstico. E toda a gente pensa que fazer literatura é falar ou escrever bonito. Bonito entre nós às vezes quer dizer difícil. Às vezes tolo. Quase sempre eloquente.
O cavalheiro que encerra a sua oração com um Na antiga Roma ou como disse Barroso Na célebre batalha é orador. Orador, só? Não. Orador de gênio. O cavalheiro que termina o seu soneto com um Ó sol! É raio! Ó luz! Ó nume! Ó astro! É poeta. Também genial. E assim por diante.
Só a gente se agarrando com Nossa Senhora da Aparecida. Essa falsa noção da genialidade brasileira é a mesma do Brasil, primeiro país no mundo. Não há cidadão perdido em São Luiz do Paraitinga ou São João do Rio do Peixe que não esteja convencido disso. E porque o Brasil é o campeão do universo e o brasileiro o batuta da terra, tudo quanto aqui nasce e existe há de ser forçosamente o que há de melhor neste mundo de Cristo e de nós também. Todos os adjetivos arrebatados e apoteóticos são poucos para tamanha grandeza e tamanha lindeza. Ninguém pode conosco. Nós somos os cueras mesmo.
Qualquer coisinha assume aos nossos olhos de mestiços tropicais proporções magnificentes, assustadoras, insuperáveis, nunca vistas. O Brasil é o mundo. O resto é bobagem. Castro Alves bate Victor Hugo na curva. O problema da circulação em São Paulo absorve todas as atenções estudiosas. Sem nós a Sociedade das Nações Unidas dá em droga. Vocês vão ver. Wagner é canja para Carlos Gomes. Em Berlim como em Sydney, em Leningrado como em Nagasaki só temos admiradores invejosos. O universo inteiro nos contempla. Êta nós!
É por isso que seria excelente de vez em quando uma cartinha como aquela de Remy de Gourmont a Figueiredo Pimentel. Um pouco de água gelada nesta fervura auriverde. Para que o trouxa brasileiro caia na realidade. E deixe-se dessa história de gênio, grandeza, importância e riquezas incomparáveis que é bobagem.
E não é verdade.
Alcântara Machado, "Antologia do humorismo e sátira"
Os sábios
Depois de a ouvirem com atenção, os sete sábios da cidade pediram uma hora para reflectir sobre as consequências da descoberta da galinha, enquanto esta esperava numa sala à parte, ansiosa por ouvir a opinião destes homens ilustres.
Na reunião, os sete sábios por unanimidade, e antes que fosse tarde demais, decidiram comer a galinha.
Gonçalo M. Tavares, "O senhor Brecht"
Com essa polícia, para que bandidos?
Aos seus jovens habitantes, sem escola, sem emprego e sem qualquer interesse, resta o manejo de armas, a venda de cocaína e o progresso na hierarquia do tráfico. Não leem nada. São individualistas, "empreendedores" e esforçados. Seu vínculo é com a facção a que pertencem, mas, como variação, sustentam-se como motoboys de restaurantes, choferes de mototáxi, segurança dos bacanas locais e, agora, operadores de apostas online. Tudo clandestino —nunca terão carteira assinada nem pagarão impostos. Por serem tidos como atraentes, promoverão uma ou outra prostituição na comunidade, usando as meninas que os admiram.
Se você pensou no Rio, onde essas zonas de conflito estão à mostra, acertou. Se pensou em São Paulo, onde elas não estão, acertou também. Mas os parágrafos acima são do repórter americano John Lee Anderson, num número recente da revista The New Yorker, sobre o presidente argentino Javier Milei. A cidade que ele descreve é Buenos Aires.
As nossas são parecidas, mas, por causa da polícia, talvez mais excitantes. Nelas, os tiras têm uma noção particular de suspeito —é todo aquele que se move na frente deles. Com tão vasto leque de opções, aspergem gás de pimenta em passantes, agridem senhoras de idade, matam pelas costas, jogam suspeitos da ponte ou fuzilam carros na presunção de que pais de família desarmados, jovens bonitas ou bebês a bordo são criminosos.
Com uma polícia dessas para que bandidos?
Ano vira, mas o país não muda
Comprei um aplicativo de gravação que registra a voz, estampa o texto e ainda dá um título. Uso para mandar alguns roteiros de estudo para minha filha, que viaja muito e gosta de estar em dia com alguns temas, como a crise do Oriente Médio, presente em muitas conversas.
O título de uma gravação despretensiosa diz muito para mim: “A arte de adiar a morte, as histórias de Sherazade”. Personagem fascinante das Mil e Uma Noites, ela usava sua habilidade de contar histórias como um artifício para adiar sua execução.
Cada noite, Sherazade começava uma nova narrativa envolvente, cheia de reviravoltas e personagens intrigantes que cativavam a atenção do rei. A estratégia a mantinha viva por mais um dia, mas transformava a proximidade da morte para explorar a condição humana. Contar histórias, conclui a anotação, é um ato de resistência e criatividade diante da morte certa.
Creio que Octavio Paz disse alguma coisa parecida: a poesia como triunfo sobre a morte.
Às vezes somos obrigados a contar a história real que se desdobra no cotidiano do país. Nem sempre temos estômago para vivê-la, e mesmo interpretá-la se transforma em algo indigesto.
O fim de ano foi marcado por uma crise de almanaque. Deputados querem dinheiro das emendas, mas fogem dos quesitos transparência e rastreabilidade. Isso é indispensável quando se usam recursos públicos. O Supremo tenta resistir desde o famoso orçamento secreto. E eles driblam o Supremo, às vezes com a cumplicidade do próprio governo, que não pode bater de frente com o Congresso.
O resultado dessa farsa prolongada é ver dinheiro literalmente jogado pela janela, aviões transportando fortunas em espécie, cidades onde todo mundo extrai o dente, como Pedreiras (MA): 14 dentes extraídos por habitante.
Tenho dificuldade em achar um horizonte. O recente projeto de reduzir custos do governo revelou como é difícil o gasto racional, como estamos longe de um nível necessário de austeridade. As cidades de Maranhão e Tocantins ligadas pela ponte que caiu gastaram R$ 36 milhões em shows, com suas emendas.
O Supremo não consegue deter a prática, porque ainda há certa indiferença social, e o Judiciário é parte do problema com seus supersalários. Uma desembargadora de Mato Grosso, que ganha R$ 130 mil mensais, deu um abono de R$ 10 mil aos funcionários do tribunal. Abono peru. O sacrifício sempre recai sobre os mais pobres. Supersalários e subsídios ficam para depois.
Todos os Poderes gastam muito. Opulência e ostentação são fatores culturais de peso. Talvez por isso Lutero tenha conduzido a cisão na Igreja Católica, que tinha prédios luxuosos, sacerdotes ricos e vendia indulgências, como se o perdão tivesse um preço.
Não importa tanto a raiz cultural, isso é injusto num país com tantas necessidades. Uma coisa é narrar e contar histórias para adiar a morte, algo inerente à condição humana. Outra é narrar para descrever as injustiças cotidianas, num país ainda tão desigual. Tudo é resistência, mas às vezes a repetição cansa.
Quem sabe os eleitores não percebam esse enredo e nos libertem para contarmos apenas as histórias essenciais?
domingo, 5 de janeiro de 2025
O tempo passa rápido
Às vezes, quando me encontro com velhos amigos, lembro-me da rapidez com que o tempo passa. E isso faz-me pensar se temos utilizado o nosso tempo de forma adequada ou não. A utilização adequada do tempo é tão importante. Enquanto tivermos este corpo e especialmente este cérebro humano incrível, eu acho que cada minuto é algo precioso. O nosso dia-a-dia é muito vivido à base de esperança, embora não exista a garantia do nosso futuro. Não há garantia de que amanhã a esta hora estejamos aqui. Mas estamos sempre na expectativa de que isso aconteça, puramente na base da esperança. Por isso, precisamos de fazer o melhor uso possível do nosso tempo. Acredito que a utilização adequada do tempo é a seguinte: se você puder, esteja disponível para as outras pessoas, ou para outros seres sensíveis. Se não, pelo menos, abster-se de os prejudicar. Eu acho que esta é toda a base da minha filosofia.
Concluindo, precisamos de refletir no que é realmente de valor na vida, o que dá sentido às nossas vidas, e definir as nossas prioridades com base nisso. O propósito da nossa vida precisa de ser positivo. Nós não nascemos com o propósito de causar problemas, prejudicando outros. Para que a nossa vida seja de valor, acho que devemos desenvolver boas qualidades humanas básicas – o calor, a bondade, a compaixão. Então, a nossa vida torna-se significativa e mais pacífica, mais feliz.
Dalai Lama, "A Arte da Felicidade"
Malditos sejam os pecadores
Dois milênios depois, os pobres do mundo sabem que a dívida é um pecado que não tem expiação. Quanto mais você paga, mais você deve; e no Inferno está a sua espera o castigo dos credores.
Eduardo Galeano, "Os filhos dos dias"
Para que serve o jornalismo?
Como não sabia fazer outra coisa, escrevia. Escrevi sempre as histórias, na esperança de que contá-las ajudasse alguma coisa. Sabia que quem me procurava esperava isso de mim. Vinham ter comigo quando tudo o resto tinha falhado. Os que se sentiam injustiçados, os que não tinham a quem recorrer, os que estavam indignados, os que queriam travar a corrupção. Todos, cada um à sua maneira, viam em mim uma parte da salvação.
Eu duvidava. Mas ouvia e escrevia. Ouvir é sempre a primeira coisa que se pode fazer por alguém que precisa de ajuda e já perdeu toda a esperança. Quando nos dispomos a ouvir quem está desesperado, começamos a ajudar. Porque lhes parece que já mais ninguém os ouve e que aquele problema sem solução começa a ser invisível para todos e, por isso, impossível de partilhar. À medida que tomava notas, ia sentido que uma parte daquele fardo se desfazia. Era como se começássemos a partilhar o peso.
Então, atirava-me ao computador e escrevia. Sentia-lhes a impaciência. “Quando é que sai? Quando vai ser publicado?” A dúvida sempre era uma distração para alguns, para outros mais uma ansiedade. “Nunca vai sair, pois não? Desistiu da história?”
E então, às vezes muito tempo de depois, lá aparecia em letra impressa sobre papel de jornal ou revista ou num ecrã, debaixo de um título sempre demasiado pequeno para conter todo o problema, o texto. Estava cá fora. E a ansiedade de quem me tinha passado a história estava agora em mim. Agora, era eu quem sustinha a respiração à espera das reações.
Às vezes, não acontecia nada. Outras vezes, alguma coisa se resolvia. Quase sempre me agradeciam. Mas também havia quem se esfumasse para sempre sem me chegar a dizer se o meu texto tinha servido para alguma coisa. Raramente, alguém se queixava. E eu ficava sempre na dúvida: teria mesmo feito a diferença?
Há muitas maneiras de fazer jornalismo. Mas esta é aquela que mais se parece com um serviço. E é uma que tende a ser esquecida. Poucas pessoas param para pensar na importância que pode ter contar a história de alguém.
Raramente, a história de alguém é só dessa pessoa. Na maior parte das vezes, o que fazemos é dar uma cara e um nome a um problema em que até aí ninguém reparou. É esse corpo que torna visível aquilo que tendíamos a ignorar coletivamente.
Foi quando escrevi pela primeira vez o nome de Odair Moniz que ele deixou de ser o “suspeito” anónimo que vinha descrito no auto policial. E foi quando lhe vimos a cara que nos interrogámos sobre como se pode acabar morto depois de ter desrespeitado uma ordem da polícia. Cada um pode ter tirado conclusões diferentes sobre essa interrogação, mas foi quando o jornalismo contou essa história que descobrimos a estatística segundo a qual uma pessoa negra tem 21 vezes mais probabilidades de ser morta pela polícia em Portugal do que uma pessoa branca.
Contar as histórias, procurar as causas, revelar os números, explicar os mecanismos, expor versões contraditórias, confrontar quem tem poder. É isso que faz o jornalismo. É isso que torna o jornalismo diferente de qualquer outra forma de comunicação.
Escrevo este texto em dias de grande perturbação para a redação da VISÃO. Vivemos numa enorme incerteza. E haverá quem culpe o mercado, quem nos diga que é o futuro inexorável que aí vem, com os seus algoritmos e inteligências artificiais, quem ache que não faremos falta e quem se regozije com a possibilidade de ver desaparecer quem interroga, quem incomoda, quem escrutina e expõe. A todos gostaria de pedir que parassem para pensar e imaginassem esse futuro sem jornalismo.
Não é um exercício difícil. É só voltar atrás. Ao passado em que as atrocidades se cometiam em silêncio, os povos eram comandados sem questionar, as verdades eram divinas e o poder uma coisa obscura.
Foram precisos séculos, revoluções e muitas lutas para fugir a essa escuridão. No que me toca, vou tentar não deixar que a luz se apague.
O inconfesso sonho teocrático da América
Não se trata, portanto, de mais uma bizarrice trumpista. A retrospecção parte do período em que despontou com força entre nacionalistas cristãos, bilionários e a John Birch Society, a ideia de um Estado teocrático. Isso foi corroborado nos anos 80 pelo presidente Reagan, que estimulou a politização dos grupos cristãos de extrema direita e a penetração extremista em alas republicanas. Depois, as presidências dos Bush, pai e filho, fizeram avançar esse movimento com a introdução de ensino religioso em escolas públicas (cerca de 30% da população é secular, não adere a nenhuma religião) e fundos públicos para escolas privadas cristãs.
As preocupações liberais com as inclinações teocráticas dessa tendência política estão bem delineadas no livro "Terror Sagrado", de Jim Siegelman e Flo Conway, aclamado nos anos 80, quando Reagan deu sinal verde para os batistas do Sul e os evangélicos de um modo geral. É o mesmo dado por Trump aos nacionalistas cristãos, os bilionários e o republicanos do Maga, empenhados numa "América novamente grande".
Entende-se assim por que gente como Elon Musk e figurões corporativos de menor porte pairam sobre o aparelho estatal trumpista. Uma teocracia tecnológica permitiria, acima dos entraves constitucionais, uma mega desregulamentação suscetível de manter os EUA como principal competidor no mercado mundial.
Esse pano de fundo é uma sombra ominosa que torna nada risíveis as conhecidas bizarrices de Trump. Não tem mesmo nenhum motivo para sorrir a classe trabalhadora que o apoiou na última eleição. O que Musk, os tecnocratas e agora Trump privilegiam são imigrantes altamente treinados para ingresso nas indústrias competitivas. Essa clivagem tem algum potencial para cindir a base republicana, mas sem relevância na ótica do Projeto 2025, lastreado por uma ideologia religiosa que nivela "god" a "gold".
Resta determinar a natureza dessa religião, em que cristianismo é só um "branding" de mercado. Nada a ver com espiritualidade, e sim com o fetiche de uma prosperidade ilusória, além de protocolos rasteiros de conduta. Em vez da negatividade implícita nos mandamentos cristãos (a dialética do "não"), o livre trânsito empreendedor.
Para tanto conflui uma mistura de coaching e autoajuda, que não ajuda ninguém, mas atenua a angústia com fragmentos verbosos de mitos consoladores. É espantoso o relato de um imigrante brasileiro marcado para a deportação, mas que ainda assim apoia Trump. Outra versão da síndrome do torturado que ama o torturador.
Tudo isso já reverbera entre nós há muito tempo. Não serve a grandes tecnocratas empreendedores, que aqui não existem. Mas agrada a um tipo novo de capitalismo, que não precisa se assustar com fantasmas do passado como a teologia da libertação. E é um maná pastoral para a extorsão predatória de manés.
Muniz Sodré
Genocídio em Gaza não merece celebrações
* Nos acampamentos lotados de Gaza, as mulheres lutam com uma vida sem privacidade;
* Ataque aéreo israelense atinge zona humanitária em Gaza;
* Ataques israelenses em Gaza matam pelo menos 50 pessoas, incluindo várias crianças;
* Nascidos no calor da guerra, mortos pelo frio: as crianças de Gaza estão morrendo de frio.
Portanto, não é surpresa que, em seu último apelo urgente, o chefe da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (UNRWA) tenha mais uma vez enfatizado a necessidade de um cessar-fogo.
O comissário-geral Philippe Lazzarini enfatizou que nenhum lugar e ninguém em Gaza está seguro desde o início da guerra em outubro de 2023.
“No início do ano, recebemos relatos de mais um ataque a Al Mawasi com dezenas de pessoas mortas e feridas”, disse ele, chamando isso de “outro lembrete de que não existe zona humanitária, muito menos uma 'zona segura'”.
Ele alertou que “cada dia sem cessar-fogo trará mais tragédia”.
Além disso, para destacar o destino desesperador da vulnerável população civil de Gaza, dois especialistas independentes nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU pediram o fim do "flagrante desrespeito ao direito à saúde em Gaza" após o ataque da semana passada ao Hospital Kamal Adwan, no norte, e a prisão e detenção arbitrárias de seu diretor.
O Dr. Tlaleng Mofokeng, Relator Especial sobre o direito à saúde física e mental, e Francesca Albanese, Relatora Especial sobre a situação dos direitos humanos no Território Palestino Ocupado, expressaram suas preocupações em uma declaração.
“Por mais de um ano de genocídio, o ataque flagrante de Israel ao direito à saúde em Gaza e no resto do território palestino ocupado está atingindo novos patamares de impunidade”, disseram eles.
A declaração acrescenta que eles ficaram “horrorizados e preocupados” com os relatos do Norte de Gaza, “especialmente o ataque aos profissionais de saúde, incluindo o último dos 22 hospitais agora destruídos: o Hospital Kamal Adwan”.
E ecoando a condenação de um número crescente de profissionais de saúde, Mofokeng e Albanese expressaram grande preocupação com o destino do diretor do Hospital Kamal Adwan, Dr. Hussam Abu Safiya, descrevendo-o como "mais um médico a ser assediado, sequestrado e arbitrariamente detido pelas forças de ocupação, em seu caso por desafiar ordens de evacuação para deixar seus pacientes e colegas para trás".
Eles disseram que tal ação “faz parte de um padrão de Israel para bombardear, destruir e aniquilar completamente a realização do direito à saúde em Gaza”.
Em contraste com o clima de celebração em muitas partes do mundo e, estranhamente, em países árabes como os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, a dura realidade é que os palestinos em Gaza estão tendo que enterrar bebês que morreram congelados.
Um fato que parece não incomodar a chamada “Comunidade Internacional”, que efetivamente é composta pelos EUA e pela OTAN, é que Israel, como potência ocupante, tem uma obrigação moral e legal, sob o Direito Internacional, de respeitar e proteger o direito à vida e à saúde em Gaza e no resto do Território Palestino Ocupado.
Entretanto, regimes desonestos liderados por criminosos de guerra que têm mandados de prisão emitidos pelo Tribunal Penal Internacional contra eles não dão atenção às convenções globais, como é evidente no genocídio em andamento em Gaza.
Mofokeng e Albanese nos lembram que mais de 1.057 profissionais de saúde e médicos palestinos foram mortos até agora e muitos foram presos arbitrariamente.
“As ações heroicas dos colegas médicos palestinos em Gaza nos ensinam o que significa ter feito o juramento médico. Elas também são um sinal claro de uma humanidade depravada que permitiu que um genocídio continuasse por bem mais de um ano”, disseram.
Salientando que o pessoal médico goza de proteções especiais sob o direito internacional humanitário, os especialistas em direitos humanos disseram que “eles não são alvos legítimos de ataque, nem podem ser legitimamente detidos por exercerem sua profissão”.
A anomalia é que, enquanto Netanyahu continua se gabando de ter derrotado o Hamas e alegremente afirmando que ele não é uma ameaça, seu exército assassino de bandidos continua sua matança sob suas ordens.
Prolongar o genocídio para proteger seu destino político egoísta é a avaliação feita por muitos analistas, incluindo especialistas israelenses.
Dan Perry está entre eles que alega que Netanyahu bloqueou qualquer esforço para pôr fim ao conflito em Gaza.
“Ele usa o fato – de que se Israel se retirasse hoje, o Hamas provavelmente ainda manteria o poder na faixa – como sua desculpa para prolongar a guerra.”
Perry ressalta que uma retirada completa de Israel em troca dos reféns — um acordo oferecido pelo Hamas e desejado por mais de 70% dos israelenses — é contestada pela extrema direita, o que ameaça derrubar o governo de Netanyahu.
Relacionado ao ritual diário e gratuito de matança de palestinos inocentes em Gaza e na Cisjordânia ocupada, está a supressão da liberdade de imprensa.
A proibição da mídia internacional de operar e noticiar dentro de Gaza pelo regime de Netanyahu foi e continua sendo uma grande violação dos direitos que os jornalistas possuem, consagrados em inúmeras convenções relacionadas à liberdade de imprensa.
O fato de tal acesso a jornalistas internacionais ser negado demonstra os esforços desesperados de Israel para manter o controle de uma narrativa que está de acordo com seus objetivos políticos e militares enganosos.
A Autoridade Palestina (AP) também não está excluída da censura por seguir servilmente os ditames de Israel, liberando suas forças de segurança para caçar qualquer forma de resistência contra a colônia ilegal de colonos, mas também para fechar a rede da Al Jazeera.
A linguagem usada pela AP para justificar suas ações contra a agência de mídia não é diferente da de Israel: transmitir “materiais incitantes” que “enganam e provocam conflitos”.
A supressão da liberdade de opinião e expressão, juntamente com a crueldade infligida aos palestinos por um regime auxiliado e apoiado pelos Estados Unidos, pela OTAN e por regimes clientes árabes, certamente não é digna de comemoração.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2025
A saga do Papai Noel de Brasília
Um pouco ofuscado pelas festas de fim de ano, Brasília viveu mais um drama em torno das emendas parlamentares. O ministro Flávio Dino bloqueou um lote de R$ 4,2 bilhões em emendas por não cumprirem os requisitos básicos de transparência e rastreabilidade. Para finalizar, Dino pediu à Polícia Federal (PF) que abrisse um inquérito sobre o tema. O maior suspeito é Arthur Lira, que articulou a aprovação das emendas e destinou grande parte do dinheiro para Alagoas.
O que se sucedeu foi um vaivém de notas e reuniões entre os Poderes, encerrando o ano com uma autêntica reprise do que vivemos ao longo desses últimos meses. O Parlamento se apossou de uma parte substancial do Orçamento e a utiliza de forma que nem as instituições nem a sociedade possa controlá-la.
Na verdade, os eleitores acompanham tudo isso por alguns pequenos escândalos na imprensa, mas parecem cansados e desiludidos a ponto de não mais reagirem. Avião cheio de dinheiro, notas de reais jogadas pela janela, cidades onde todo mundo fez radiografia da mão, enfim, uma série de irregularidades, algumas vezes descobertas pela PF. Mas apenas algumas vezes para nos dar a falsa impressão de que tudo está sob controle.
E não está. Desde o chamado orçamento secreto a roubalheira parece estar sendo combatida. Mas, desde aquela época, é visível como o triângulo Supremo Tribunal Federal (STF), governo e Parlamento se move de forma a nos dar a entender que afinal isto é um país sério e a Constituição será respeitada.
A ministra Rosa Weber proibiu o orçamento secreto. A tese essencial é a de que o dinheiro público tem de ser gasto com transparência. A proibição foi driblada de várias maneiras, inclusive com a criação de novas modalidades como as chamadas emendas Pix.
O próprio ministro Flávio Dino, quando retoma a tarefa de fazer cumprir o texto da lei, reconhece que existem inúmeras tentativas de driblar o STF.
Nessa história toda, a ponta do triângulo, o Executivo, tem uma posição ambígua. A ele interessa disciplinar as emendas porque sobra mais dinheiro para executar seus projetos, de certa forma, prometidos durante o período eleitoral.
No entanto, o governo não pode bater de frente com o Parlamento. Sua tática é de demonstrar interesse para que as emendas sejam pagas, ora questionando o STF ora encontrando um caminho para driblar a proibição.
Foi o que fez agora no apagar das luzes, tentando liberar, excepcionalmente, R$ 2,5 bilhões, movimento que acabou sendo vazado para a imprensa.
Minha hipótese é a de que o Supremo sozinho não consegue segurar essa onda. Por debaixo do pano, o governo tem de ceder para conseguir aprovar seus projetos no Parlamento. E a sociedade, que poderia dar o apoio a essa óbvia defesa da Constituição, parece viver um momento de cansaço, esses muitos momentos em que se diz: o Brasil é isto mesmo, não vale a pena protestar.
Na verdade, a Justiça também tem uma retaguarda vulnerável quando se trata de garantir o mínimo de austeridade. São muitos os supersalários nos seus quadros, além de pequenos escândalos do tipo que aconteceu no Mato Grosso, onde uma desembargadora que ganha R$ 130 mil mensais determinou uma ajuda natalina de R$ 10 mil para os funcionários do tribunal. Um auxílio-peru que poderia não ter tanta repercussão se fosse mesmo um caso isolado.
Mas a verdade é que todos os setores, governo, STF e Parlamento, têm dificuldades de cortar gastos e chegar a um nível de austeridade compatível com as necessidades do País.
É algo muito forte e talvez culturalmente enraizado. Pode ser que se explique por nossas origens católicas. A cisão que deu origem ao protestantismo criticava prédios suntuosos e a vida luxuosa de parte do clero. Combatia a venda de indulgências, pois o perdão não se compra. Martinho Lutero defendia uma vida religiosa mais próxima das pessoas, marcada pela simplicidade e foco nas escrituras.
É possível até tentar explicações histórico-culturais, mas isso não impede de julgar o que se passa nas esferas do poder: é injusto com um país tão necessitado gastar dinheiro sem controle e eficácia, como fazem com as emendas parlamentares, assim como é constrangedor ver a ostentação na alta burocracia estatal.
Ultimamente, o chamado mercado faz uma pressão por economia. Mas ele se interessa em preservar as aplicações financeiras que administra. Não tem critério de valor sobre os cortes, que acabam sendo eficazes apenas quando atingem os mais pobres. Temas como supersalários, subsídios – tudo isso fica para as calendas.
Na verdade, assistimos à farsa em que se repetem os gestos, a movimentos de correção que apenas ajustam a engrenagem que esmaga não só a esperança dos mais pobres, como também a aspiração de todos por um país mais solidário e justo.
É um enredo tão pouco inspirado e monótono que acabará sendo tocado por ventos de renovação. Os eleitores precisam se convencer de que é possível algo melhor e, o que é mais importante, precisam acertar quando acharem que estão escolhendo algo melhor. O caminho continua aberto para aventureiros.


















