quinta-feira, 4 de janeiro de 2024
E se 2024 fosse o ano da esperança?
Se examinássemos as redes sociais globais de 2023 e as do início de 2024, veríamos que a palavra mais escrita e pronunciada foi a de esperança por um mundo melhor.
Desejamos isso um ao outro, em todas as línguas, de ponta a ponta do mapa. Dias atrás, porém, foram identificadas 522 mil menções de que o mundo iria acabar. É verdade que no fundo de cada um de nós a esperança ainda está viva?
O psicanalista brasileiro Christian Dunker afirmou que “há um clima de esperança no ar”. Será verdade? Com duas guerras em curso e ameaças de outras possíveis no ar? Com o medo da catástrofe climática? Com o ressurgimento de uma extrema direita niilista? Com o medo imposto pelas novas descobertas de máquinas inteligentes? Com a raiva quase universal que se respira de Leste a Oeste?
A verdade é que a esperança nunca foi uma flor fácil de crescer. O pessimismo acaba sendo muitas vezes mais resistente que a pura realidade. O medo dos antigos continua, às vezes adormecido e às vezes vivo, profundamente dentro de cada ser humano. E também esperança? Sim. E é por isso que o mundo ainda existe e é por isso que desejamos um ao outro esperança e felicidade nas últimas horas.
Tudo isto me fez recordar os anos de jovem estudante de teologia, na década de 1950, em Roma, onde tive a sorte de assistir a algumas aulas do então famoso dominicano Garrigou Lagrange, considerado um dos maiores teólogos de todos os tempos. Um de seus alunos foi, aliás, o Papa polonês João Paulo II quando estudou em Roma. Para aquele teólogo francês, foi criada uma nova disciplina até então desconhecida: a da teologia mística.
Numa conversa pessoal que tive com ele numa tarde de agosto quente em Roma, ele me confidenciou que das três virtudes cristãs da fé, da esperança e da caridade, para ele a mais difícil de todas na sua vida tinha sido a esperança. Ele não me disse por quê.
Depois de tantos anos, aquela palavra banal de esperança surge sempre das cinzas como uma fênix para nos lembrar que a vida é mais forte que a morte. Daí as profecias religiosas de que a vida não acaba, apenas transforma.
Para aqueles de nós que apostamos não no fim do mundo, mas num futuro melhor para nós e para aqueles que nos seguirão, este 2024 poderá também surpreender-nos com o ressurgimento de novos motivos de esperança. E se as duas guerras em curso que ameaçam a paz mundial terminassem? E se a enigmática inteligência artificial que ainda nos assusta finalmente nos desse novas possibilidades no campo da medicina para vivermos mais e melhor?
E se daquela direita extrema e sombria que parece querer nos sufocar, surgisse uma nova política como contrapeso vestida de uma nova democracia despojada da corrupção que hoje a domina? E se finalmente aqueles que governam os destinos do mundo tomassem consciência de que estamos realmente envenenando o planeta e se dedicassem a salvá-lo com o que atualmente gastam em armas e em vergonhosos interesses pessoais?
Esperança é uma palavra difícil de digerir, imersos como estamos em profecias de hecatombes pessoais e universais. E, no entanto, não há outro caminho ou melhor aspiração para quem vai pegar no nosso bastão do que aquela aposta difícil e teimosa, que nos lembra a já famosa frase do físico e matemático Galileu Galilei: “Eppur si muove” [Contudo, move-se], pronunciado no final do julgamento a que foi submetido em 1633 pelo Tribunal da Inquisição ao defender que a Terra se move em torno do Sol.
Nesta minha primeira coluna do novo ano quero apostar, como o rebelde matemático italiano há mais de quatro séculos, que apesar de todo o pessimismo que parece abraçar o mundo, a esperança estará no seguimento da palavra mágica e libertadora que deveria ser escrito na porta de cada casa e no coração de cada um de nós.
Desejamos isso um ao outro, em todas as línguas, de ponta a ponta do mapa. Dias atrás, porém, foram identificadas 522 mil menções de que o mundo iria acabar. É verdade que no fundo de cada um de nós a esperança ainda está viva?
O psicanalista brasileiro Christian Dunker afirmou que “há um clima de esperança no ar”. Será verdade? Com duas guerras em curso e ameaças de outras possíveis no ar? Com o medo da catástrofe climática? Com o ressurgimento de uma extrema direita niilista? Com o medo imposto pelas novas descobertas de máquinas inteligentes? Com a raiva quase universal que se respira de Leste a Oeste?
A verdade é que a esperança nunca foi uma flor fácil de crescer. O pessimismo acaba sendo muitas vezes mais resistente que a pura realidade. O medo dos antigos continua, às vezes adormecido e às vezes vivo, profundamente dentro de cada ser humano. E também esperança? Sim. E é por isso que o mundo ainda existe e é por isso que desejamos um ao outro esperança e felicidade nas últimas horas.
Tudo isto me fez recordar os anos de jovem estudante de teologia, na década de 1950, em Roma, onde tive a sorte de assistir a algumas aulas do então famoso dominicano Garrigou Lagrange, considerado um dos maiores teólogos de todos os tempos. Um de seus alunos foi, aliás, o Papa polonês João Paulo II quando estudou em Roma. Para aquele teólogo francês, foi criada uma nova disciplina até então desconhecida: a da teologia mística.
Numa conversa pessoal que tive com ele numa tarde de agosto quente em Roma, ele me confidenciou que das três virtudes cristãs da fé, da esperança e da caridade, para ele a mais difícil de todas na sua vida tinha sido a esperança. Ele não me disse por quê.
Depois de tantos anos, aquela palavra banal de esperança surge sempre das cinzas como uma fênix para nos lembrar que a vida é mais forte que a morte. Daí as profecias religiosas de que a vida não acaba, apenas transforma.
Para aqueles de nós que apostamos não no fim do mundo, mas num futuro melhor para nós e para aqueles que nos seguirão, este 2024 poderá também surpreender-nos com o ressurgimento de novos motivos de esperança. E se as duas guerras em curso que ameaçam a paz mundial terminassem? E se a enigmática inteligência artificial que ainda nos assusta finalmente nos desse novas possibilidades no campo da medicina para vivermos mais e melhor?
E se daquela direita extrema e sombria que parece querer nos sufocar, surgisse uma nova política como contrapeso vestida de uma nova democracia despojada da corrupção que hoje a domina? E se finalmente aqueles que governam os destinos do mundo tomassem consciência de que estamos realmente envenenando o planeta e se dedicassem a salvá-lo com o que atualmente gastam em armas e em vergonhosos interesses pessoais?
Esperança é uma palavra difícil de digerir, imersos como estamos em profecias de hecatombes pessoais e universais. E, no entanto, não há outro caminho ou melhor aspiração para quem vai pegar no nosso bastão do que aquela aposta difícil e teimosa, que nos lembra a já famosa frase do físico e matemático Galileu Galilei: “Eppur si muove” [Contudo, move-se], pronunciado no final do julgamento a que foi submetido em 1633 pelo Tribunal da Inquisição ao defender que a Terra se move em torno do Sol.
Nesta minha primeira coluna do novo ano quero apostar, como o rebelde matemático italiano há mais de quatro séculos, que apesar de todo o pessimismo que parece abraçar o mundo, a esperança estará no seguimento da palavra mágica e libertadora que deveria ser escrito na porta de cada casa e no coração de cada um de nós.
O fracasso do 8 de janeiro
Em seu mais recente livro, Como Salvar a Democracia (Cia das Letras), Steve Levitsky e Daniel Ziblatt fazem uma comparação entre a reação dos Estados Unidos à invasão trumpista do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, e a do Brasil em relação à intentona bolsonarista de 8 de janeiro de 2023. Sua conclusão é surpreendente: “O Brasil rechaçou a sua mais recente ameaça à democracia, ao contrário dos Estados Unidos”.
Os autores relembram que os republicanos nos Estados Unidos defenderam e protegeram Donald Trump e até hoje, na sua grande maioria, não reconhecem sua derrota eleitoral. Aqui no Brasil o desenrolar da história foi diferente. Na mesma noite em que a vitória de Lula foi anunciada, os principais aliados de Jair Bolsonaro reconheceram a derrota de forma pública e inequívoca e posteriormente jogaram a pá de cal. “A direita brasileira também condenou vigorosamente a insurreição de 8 de janeiro”, dizem.
Estes episódios ressaltam a diferença de postura dos partidos da direita tradicional do Brasil e dos Estados Unidos. Enquanto a maioria dos líderes republicanos se recusa até hoje a aceitar publicamente os resultados da eleição de 2020, no Brasil o resultado da eleição de 2022 é uma questão pacificada. Outra diferença fundamental: os republicanos se empenharam para frustrar esforços do Congresso para impugnar e condenar Trump. Já no Brasil, Bolsonaro foi condenado pela Justiça Eleitoral, sem maiores contestações.
Assim, por incrível que possa parecer, os partidos e as instituições brasileiras deram uma resposta mais satisfatória do que os americanos. Como dizem os autores de Como Salvar a Democracia: Bolsonaro não chegou mais longe “porque as elites políticas e militares deixaram claro que não o apoiariam”.
Certamente essa não foi a causa única para o fracasso da tentativa de golpe que fez do 8 de janeiro o Dia da Infâmia, para utilizar a expressão cunhada pela ex-ministra do STF, Rosa Weber. Mas a conclusão de Levitsky e Ziblatt guarda sintonia com as palavras de Lula, pronunciadas no sua mensagem de Natal: “felizmente a tentativa de golpe causou efeito contrário. Uniu todas as instituições, mobilizou partidos políticos acima de ideologias, provocou pronta reação da sociedade.”
Isso não aconteceu nos Estados Unidos. Sua polarização até hoje é bem mais intensa do que a brasileira e paira sobre a democracia americana a ameaça de retrocessos face a resiliência da candidatura Donald Trump em 2024.
Uma das grandes causas para a intentona ter flopado foi a falta de uma ampla base social para o golpe. Seus arquitetos confundiram a votação expressiva de Bolsonaro como aval para a ruptura democrática. A base de sustentação para um golpe estava reduzida ao núcleo duro e radical do bolsonarismo. Governadores como Tarcísio de Freitas (SP) e Romeu Zema (MG) fizeram questão de, rapidamente, condenar o assalto aos três poderes da República.
Para entender sua derrota convém traçar um paralelo entre o Brasil do 8 de janeiro de 2023 com o de 31 de março de 1964. Naquela época, o golpe foi vitorioso por contar com uma base social de massas, principalmente na classe média, e por ter apoio de parte expressiva do Congresso Nacional, do empresariado e das Forças Armadas, como instituição. Basta citar um fato histórico. O cargo de presidente da República foi declarado vago pelo presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, quando João Goulart ainda se encontrava no território nacional.
Também a conjuntura internacional favoreceu o golpe, com o mundo dividido em dois blocos ideológicos e em plena guerra-fria. O Brasil estava na área de influência dos Estados Unidos, assim como a América do Sul. Daí o apoio dos americanos aos golpes do Brasil, do Uruguai, do Chile e da Argentina.
Todas essas condições faltaram à conspiração mal-sucedida do 8 de janeiro. O Supremo Tribunal Federal foi fundamental na contenção de incursões golpistas e na defesa da legalidade, das eleições e da democracia. Do mesmo modo se posicionaram os presidentes das duas casas legislativas, o empresariado, a sociedade civil e as instituições da República.
Se em 1964 os Estados Unidos tiveram um papel importante para a vitória do golpe, a história foi outra em janeiro do ano passado. O mundo atual é bem diferente da época da guerra-fria. Sinal dos novos tempos: o governo americano e seu presidente Joe Biden pressionaram para que o pronunciamento das urnas fosse respeitado, alertando para possíveis retaliações em caso de uma ruptura democrática no Brasil.
Pode-se especular se a história teria outro desfecho caso Donald Trump tivesse derrotado Joe Biden. Desde a Segunda Guerra Mundial, a doutrina militar brasileira tem identificação com a dos Estados Unidos e é impensável a modernização de nossas Forças Armadas sem a aquisição de materiais bélicos americanos. Mas certamente a posição de Biden contribuiu para nossos militares não ingressarem em tresloucada aventura.
Foi determinante o caminho seguido pelos militares desde a redemocratização de 1985, assegurando o mais longo período de nossa história republicana sem intervenções ou quarteladas. Ao se dedicarem até 2018 exclusivamente às suas funções constitucionais, as Forças Armadas se transformaram em uma das instituições mais respeitadas pelos brasileiros.
A infiltração do bolsonarismo nas Forças Armadas revelou-se mais profunda do que se imaginava, mas, apesar disso, não se viu a instituição envolvida no Golpe. Não houve um só movimento de tropas, apesar de o país ter 680 estabelecimentos militares. Isso demonstra a importância de ter uma cadeia de comando com controle da tropa e do estamento militar estruturado na hierarquia e disciplina.
Talvez esteja aqui um grande acerto de Lula. Observou o critério da antiguidade na escolha dos comandantes militares e escolheu um ministro da Defesa de perfil conciliador. A estratégia revelou-se correta. Em sua nota de Natal à tropa, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, deixou claro que quer sua tropa focada “em coisa de soldado”, deixando a política de fora dos quarteis.
Voltando a Steve Levitsky e Daniel Ziblatt, talvez os autores de Como Salvar a Democracia tenham sido exageradamente otimistas na leitura de como superamos uma das mais graves ameaças à nossa democracia, desde o fim do regime ditatorial. Mas é alentador ler as palavras de um general entrevistado por Miriam Leitão: “Não pode haver essa percepção de que o Brasil pode ter um retrocesso que não cabe mais no século XXI. Os problemas da democracia se resolvem na democracia”.
Os autores relembram que os republicanos nos Estados Unidos defenderam e protegeram Donald Trump e até hoje, na sua grande maioria, não reconhecem sua derrota eleitoral. Aqui no Brasil o desenrolar da história foi diferente. Na mesma noite em que a vitória de Lula foi anunciada, os principais aliados de Jair Bolsonaro reconheceram a derrota de forma pública e inequívoca e posteriormente jogaram a pá de cal. “A direita brasileira também condenou vigorosamente a insurreição de 8 de janeiro”, dizem.
Estes episódios ressaltam a diferença de postura dos partidos da direita tradicional do Brasil e dos Estados Unidos. Enquanto a maioria dos líderes republicanos se recusa até hoje a aceitar publicamente os resultados da eleição de 2020, no Brasil o resultado da eleição de 2022 é uma questão pacificada. Outra diferença fundamental: os republicanos se empenharam para frustrar esforços do Congresso para impugnar e condenar Trump. Já no Brasil, Bolsonaro foi condenado pela Justiça Eleitoral, sem maiores contestações.
Assim, por incrível que possa parecer, os partidos e as instituições brasileiras deram uma resposta mais satisfatória do que os americanos. Como dizem os autores de Como Salvar a Democracia: Bolsonaro não chegou mais longe “porque as elites políticas e militares deixaram claro que não o apoiariam”.
Certamente essa não foi a causa única para o fracasso da tentativa de golpe que fez do 8 de janeiro o Dia da Infâmia, para utilizar a expressão cunhada pela ex-ministra do STF, Rosa Weber. Mas a conclusão de Levitsky e Ziblatt guarda sintonia com as palavras de Lula, pronunciadas no sua mensagem de Natal: “felizmente a tentativa de golpe causou efeito contrário. Uniu todas as instituições, mobilizou partidos políticos acima de ideologias, provocou pronta reação da sociedade.”
Isso não aconteceu nos Estados Unidos. Sua polarização até hoje é bem mais intensa do que a brasileira e paira sobre a democracia americana a ameaça de retrocessos face a resiliência da candidatura Donald Trump em 2024.
Uma das grandes causas para a intentona ter flopado foi a falta de uma ampla base social para o golpe. Seus arquitetos confundiram a votação expressiva de Bolsonaro como aval para a ruptura democrática. A base de sustentação para um golpe estava reduzida ao núcleo duro e radical do bolsonarismo. Governadores como Tarcísio de Freitas (SP) e Romeu Zema (MG) fizeram questão de, rapidamente, condenar o assalto aos três poderes da República.
Para entender sua derrota convém traçar um paralelo entre o Brasil do 8 de janeiro de 2023 com o de 31 de março de 1964. Naquela época, o golpe foi vitorioso por contar com uma base social de massas, principalmente na classe média, e por ter apoio de parte expressiva do Congresso Nacional, do empresariado e das Forças Armadas, como instituição. Basta citar um fato histórico. O cargo de presidente da República foi declarado vago pelo presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, quando João Goulart ainda se encontrava no território nacional.
Também a conjuntura internacional favoreceu o golpe, com o mundo dividido em dois blocos ideológicos e em plena guerra-fria. O Brasil estava na área de influência dos Estados Unidos, assim como a América do Sul. Daí o apoio dos americanos aos golpes do Brasil, do Uruguai, do Chile e da Argentina.
Todas essas condições faltaram à conspiração mal-sucedida do 8 de janeiro. O Supremo Tribunal Federal foi fundamental na contenção de incursões golpistas e na defesa da legalidade, das eleições e da democracia. Do mesmo modo se posicionaram os presidentes das duas casas legislativas, o empresariado, a sociedade civil e as instituições da República.
Se em 1964 os Estados Unidos tiveram um papel importante para a vitória do golpe, a história foi outra em janeiro do ano passado. O mundo atual é bem diferente da época da guerra-fria. Sinal dos novos tempos: o governo americano e seu presidente Joe Biden pressionaram para que o pronunciamento das urnas fosse respeitado, alertando para possíveis retaliações em caso de uma ruptura democrática no Brasil.
Pode-se especular se a história teria outro desfecho caso Donald Trump tivesse derrotado Joe Biden. Desde a Segunda Guerra Mundial, a doutrina militar brasileira tem identificação com a dos Estados Unidos e é impensável a modernização de nossas Forças Armadas sem a aquisição de materiais bélicos americanos. Mas certamente a posição de Biden contribuiu para nossos militares não ingressarem em tresloucada aventura.
Foi determinante o caminho seguido pelos militares desde a redemocratização de 1985, assegurando o mais longo período de nossa história republicana sem intervenções ou quarteladas. Ao se dedicarem até 2018 exclusivamente às suas funções constitucionais, as Forças Armadas se transformaram em uma das instituições mais respeitadas pelos brasileiros.
A infiltração do bolsonarismo nas Forças Armadas revelou-se mais profunda do que se imaginava, mas, apesar disso, não se viu a instituição envolvida no Golpe. Não houve um só movimento de tropas, apesar de o país ter 680 estabelecimentos militares. Isso demonstra a importância de ter uma cadeia de comando com controle da tropa e do estamento militar estruturado na hierarquia e disciplina.
Talvez esteja aqui um grande acerto de Lula. Observou o critério da antiguidade na escolha dos comandantes militares e escolheu um ministro da Defesa de perfil conciliador. A estratégia revelou-se correta. Em sua nota de Natal à tropa, o comandante do Exército, general Tomás Paiva, deixou claro que quer sua tropa focada “em coisa de soldado”, deixando a política de fora dos quarteis.
Voltando a Steve Levitsky e Daniel Ziblatt, talvez os autores de Como Salvar a Democracia tenham sido exageradamente otimistas na leitura de como superamos uma das mais graves ameaças à nossa democracia, desde o fim do regime ditatorial. Mas é alentador ler as palavras de um general entrevistado por Miriam Leitão: “Não pode haver essa percepção de que o Brasil pode ter um retrocesso que não cabe mais no século XXI. Os problemas da democracia se resolvem na democracia”.
Quando as comidas nos comem
Quando eu era jovem e metido a teórico da vida social, escrevi no livro “Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”, em 1979, que havia três modos de ritualizar. O primeiro, reforçando os elos sociais existentes; o segundo, neutralizando vínculos estabelecidos; e o terceiro — certamente o mais divertido e contraditório —, invertendo rotinas e fazendo tudo ao contrário. Cantar, em vez de discursar; desfilar dançando, em vez de trotar firme para o emprego; beber, pular e ficar “sem fazer nada”, em plena liberdade, em vez de trabalhar; e, por fim, mas não por último, instituindo o Rei Momo como desgovernante, esquecendo esses nossos administradores estadomaníacos, dedicados a desmanchar o feito e fazer desmanchando, com a conhecida ineficiência e o gozo dos privilégios de seus cargos.
No primeiro caso, vivemos solenidades; no segundo, lutos, despedidas e rejeições; no terceiro, revoluções e rebeliões que, no caso brasileiro, se concretizam em carnavais e nessa festa ou ritual de passagem do ano velho para o ano novo. Trânsito carnavalesco e musicado que acasala a fluidez do tempo que passa invisível e incessante com a música que, num sentido profundo, o imita, ajudando a esquecer frustrações.
Esse fazer pelo avesso — vestir uma fantasia, comer coletivamente uma mesma comida numa comunhão de corpos e almas — inventa esses tempos que acabamos de viver. Tempos especiais quando abandonamos o que fazemos rotineira e “naturalmente”, para oferecer presentes e comidas especialmente preparadas, que devem ser obrigatoriamente degustadas. Esses pratos especiais imperativos e irrecusáveis — tortas, assados, nozes, passas que viram “comidas” especiais — são comidas que nos comem!
Tal como o bolo de aniversário do Marquinho (que docemente representa sua pessoa) tem que ser comido e — claro está! — come e, dessa maneira, congrega seus convidados.
Essa abertura para o outro e o gentil canibalismo de ser comido pela comida que se come são centrais na ceia do Ano-Novo.
Ela é vital na reinvenção do tempo. No caso brasileiro, é evidente o papel da comida em encontros ritualizados em que a mesquinhez política e a sovinice do economizar cedem lugar ao “dar” presentes — “lembranças” e comidas ao lado do abrir a porta da casa, indo além dos parentes que comungam conosco sendo comidos — repito — pela mesma comida. A comensalidade vira pelo avesso diferenças, como já havia demonstrado William Robertson Smith em seu clássico estudo da comensalidade entre os semitas.
Tempos natalinos e carnavalescos são tempos, reitero, de gastar em vez de economizar e do desfilar exibicionista no lugar de trabalhar sem louvor e recompensa equitativa. Neles, o arroz com feijão comido em família de olho na dieta é cerimonialmente substituído por pratos afinados com o “tempo”.
A bacalhoada suculenta da Mara, o irresistível (e complicado) peru de Natal do Mário de Andrade, os pavês e rabanadas obrigatoriamente comidos pelos convidados que transformam a “mesa” da família numa espécie de “távola redonda” vestida com a melhor toalha, sobre a qual ficam expostos os “pratos” que nos canibalizam porque são obrigatoriamente comidos e, no calor da comensalidade, nos devoram. São eles que nos comem, fazendo com que o “comer pra viver” vire o pantagruélico “viver pra comer”.
A inversão legaliza passar do egoísmo ao altruísmo de uma “educada” hospitalidade e de tudo o mais que “devemos” aos convidados. Alguns deles, por sinal, nossos opositores no estúpido pantanal da “política”.
No ritualizar, o abandono das rotinas — daquilo que fazemos “sem pensar” ou “naturalmente” — é central. Por meio dessa inversão, reiteramos afeto e encapsulamos o tempo. Mudar rotinas, passando do trabalho à festa, ajuda a sentir o tempo que, como a água, não pode ser cortado. Mas pode ser, como acabamos de experimentar, aprisionado nos calendários.
Curioso, todavia, assinalar que capturamos o invisível tempo e passamos de um ano a outro, mas não conseguimos mudar o velho Brasil concreto e vexaminoso na sua estadopatia geradora da pobreza que sustenta o populismo e a corrupção.
No primeiro caso, vivemos solenidades; no segundo, lutos, despedidas e rejeições; no terceiro, revoluções e rebeliões que, no caso brasileiro, se concretizam em carnavais e nessa festa ou ritual de passagem do ano velho para o ano novo. Trânsito carnavalesco e musicado que acasala a fluidez do tempo que passa invisível e incessante com a música que, num sentido profundo, o imita, ajudando a esquecer frustrações.
Esse fazer pelo avesso — vestir uma fantasia, comer coletivamente uma mesma comida numa comunhão de corpos e almas — inventa esses tempos que acabamos de viver. Tempos especiais quando abandonamos o que fazemos rotineira e “naturalmente”, para oferecer presentes e comidas especialmente preparadas, que devem ser obrigatoriamente degustadas. Esses pratos especiais imperativos e irrecusáveis — tortas, assados, nozes, passas que viram “comidas” especiais — são comidas que nos comem!
Tal como o bolo de aniversário do Marquinho (que docemente representa sua pessoa) tem que ser comido e — claro está! — come e, dessa maneira, congrega seus convidados.
Essa abertura para o outro e o gentil canibalismo de ser comido pela comida que se come são centrais na ceia do Ano-Novo.
Ela é vital na reinvenção do tempo. No caso brasileiro, é evidente o papel da comida em encontros ritualizados em que a mesquinhez política e a sovinice do economizar cedem lugar ao “dar” presentes — “lembranças” e comidas ao lado do abrir a porta da casa, indo além dos parentes que comungam conosco sendo comidos — repito — pela mesma comida. A comensalidade vira pelo avesso diferenças, como já havia demonstrado William Robertson Smith em seu clássico estudo da comensalidade entre os semitas.
Tempos natalinos e carnavalescos são tempos, reitero, de gastar em vez de economizar e do desfilar exibicionista no lugar de trabalhar sem louvor e recompensa equitativa. Neles, o arroz com feijão comido em família de olho na dieta é cerimonialmente substituído por pratos afinados com o “tempo”.
A bacalhoada suculenta da Mara, o irresistível (e complicado) peru de Natal do Mário de Andrade, os pavês e rabanadas obrigatoriamente comidos pelos convidados que transformam a “mesa” da família numa espécie de “távola redonda” vestida com a melhor toalha, sobre a qual ficam expostos os “pratos” que nos canibalizam porque são obrigatoriamente comidos e, no calor da comensalidade, nos devoram. São eles que nos comem, fazendo com que o “comer pra viver” vire o pantagruélico “viver pra comer”.
A inversão legaliza passar do egoísmo ao altruísmo de uma “educada” hospitalidade e de tudo o mais que “devemos” aos convidados. Alguns deles, por sinal, nossos opositores no estúpido pantanal da “política”.
No ritualizar, o abandono das rotinas — daquilo que fazemos “sem pensar” ou “naturalmente” — é central. Por meio dessa inversão, reiteramos afeto e encapsulamos o tempo. Mudar rotinas, passando do trabalho à festa, ajuda a sentir o tempo que, como a água, não pode ser cortado. Mas pode ser, como acabamos de experimentar, aprisionado nos calendários.
Curioso, todavia, assinalar que capturamos o invisível tempo e passamos de um ano a outro, mas não conseguimos mudar o velho Brasil concreto e vexaminoso na sua estadopatia geradora da pobreza que sustenta o populismo e a corrupção.
terça-feira, 2 de janeiro de 2024
Só o seguro morre de velho
O ano acabou de começar e já é longa a lista de tarefas para governo, oposição, justiça e sociedade. Começando por nós, o público, cuja missão primordial será a de cobrar dos candidatos e de todos os envolvidos na eleição municipal, mais atenção à vida nas cidades e menos aposta na briga de torcidas políticas.
Há muito a cuidar e não só naquilo que diz respeito direto a prefeitos e vereadores, que são a base da escolha seguinte, em 2026, de governadores e presidente da República. Por ora, a economia vai razoavelmente bem administrada, mas a insegurança, a violência, a criminalidade estão descontroladas.
Embora seja essa uma das maiores preocupações apontadas pela população nas pesquisas, o poder central dedica a ela atenção pontual e paliativa. Não por acaso 50% dos consultados avaliam o primeiro ano de Lula 3 como ruim ou péssimo na área. Some-se o índice de 29% de avaliação regular e temos praticamente 80% das pessoas insatisfeitas.
A alegação formal para não levar o problema "para dentro do Planalto" é a responsabilidade constitucional dos estados. Sim, mas e o dever também constitucional do Estado de garantir o bem-estar e assegurar o direito de ir e vir?
Sem liderança, coordenação, recursos e empenho do governo federal o monstro da insegurança não vai parar de crescer como cresceram à vista de todos os territórios dominados pelo narcotráfico e pela milícia no Rio de Janeiro e as facções criminosas nos presídios do Brasil inteiro.
Ao contrário do que sugerem os "espertos" da política, conselheiros da distância prudente, é imprescindível que um presidente leve a questão da segurança pública para dentro do Palácio do Planalto.
Até agora nenhum deles o fez. O governante que se mostrar à altura desse urgente desafio prestará ao país serviço semelhante ao do combate à inflação nos anos 1990 e terá, em benefício da própria biografia, construído um bom legado.
Há muito a cuidar e não só naquilo que diz respeito direto a prefeitos e vereadores, que são a base da escolha seguinte, em 2026, de governadores e presidente da República. Por ora, a economia vai razoavelmente bem administrada, mas a insegurança, a violência, a criminalidade estão descontroladas.
Embora seja essa uma das maiores preocupações apontadas pela população nas pesquisas, o poder central dedica a ela atenção pontual e paliativa. Não por acaso 50% dos consultados avaliam o primeiro ano de Lula 3 como ruim ou péssimo na área. Some-se o índice de 29% de avaliação regular e temos praticamente 80% das pessoas insatisfeitas.
A alegação formal para não levar o problema "para dentro do Planalto" é a responsabilidade constitucional dos estados. Sim, mas e o dever também constitucional do Estado de garantir o bem-estar e assegurar o direito de ir e vir?
Sem liderança, coordenação, recursos e empenho do governo federal o monstro da insegurança não vai parar de crescer como cresceram à vista de todos os territórios dominados pelo narcotráfico e pela milícia no Rio de Janeiro e as facções criminosas nos presídios do Brasil inteiro.
Ao contrário do que sugerem os "espertos" da política, conselheiros da distância prudente, é imprescindível que um presidente leve a questão da segurança pública para dentro do Palácio do Planalto.
Até agora nenhum deles o fez. O governante que se mostrar à altura desse urgente desafio prestará ao país serviço semelhante ao do combate à inflação nos anos 1990 e terá, em benefício da própria biografia, construído um bom legado.
O país que esquece Bolsonaro, pouco a pouco
Há um ano, Luís Inácio Lula da Silva prometia “cuidar” das pessoas e “reconstruir o país” depois de “anos de devastação”. A esperança, para os que deixaram o Brasil durante a presidência de Jair Bolsonaro e para muitos que ficaram, foi imediata.
Ao fim dos primeiros dias, com a invasão da Praça dos Três Poderes, em Brasília, percebeu-se que o regresso não seria um passeio no parque. A fasquia estava alta para um Presidente que passou 580 dias na prisão, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e que indirectamente abrira espaço à ascensão de um político populista.
Mas Bolsonaro foi-se eclipsando à medida que os meses passaram, muito fustigado por processos e decisões judiciais que acabaram por colocá-lo num pousio forçado de oito anos, durante os quais estará impedido de concorrer ao Palácio do Planalto ou a outros cargos políticos. O que não se eclipsou foi o bolsonarismo, que continua vivo e tem ambições.
Isso significa que as divisões numa sociedade que estava excessivamente polarizada não foram ultrapassadas neste último ano, mas também não impediram o Governo de Lula de obter algumas vitórias políticas. A recente reforma tributária, o “arcabouço fiscal” e a consequente subida do rating da dívida brasileira foram boas notícias que o Presidente pode agradecer a Fernando Haddad, o seu ministro das Finanças.
As más (notícias), que também as houve, Lula pode agradecê-las a si próprio. As que tiveram maior repercussão recordam-se através de duas frases do próprio: 1) “Posso dizer que se eu for Presidente do Brasil e ele [Vladimir Putin] vier ao Brasil, não há nenhuma razão para ele ser preso” (proferida após a emissão de um mandado de captura internacional em nome de Putin) e 2) “É preciso que os Estados Unidos parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz” (dita no final de uma visita à China).
As posições sobre a Ucrânia, que Lula da Silva se esforçou por explicar e normalizar, tiveram efeitos até em Portugal, ofuscando as celebrações do 49.º aniversário do 25 de Abril, que coincidiram com a visita do chefe de Estado a Lisboa — quem não recorda o espectáculo dos deputados do Chega a interromperem o Presidente brasileiro a cada oportunidade?
Um ano depois do regresso de Lula, o mundo fará balanços e avaliações, lembrará as conquistas e as derrotas, as promessas cumpridas e as que ficaram no papel. E o Brasil, esse, será cada vez mais o país que esquece Bolsonaro, pouco a pouco
Ao fim dos primeiros dias, com a invasão da Praça dos Três Poderes, em Brasília, percebeu-se que o regresso não seria um passeio no parque. A fasquia estava alta para um Presidente que passou 580 dias na prisão, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e que indirectamente abrira espaço à ascensão de um político populista.
Mas Bolsonaro foi-se eclipsando à medida que os meses passaram, muito fustigado por processos e decisões judiciais que acabaram por colocá-lo num pousio forçado de oito anos, durante os quais estará impedido de concorrer ao Palácio do Planalto ou a outros cargos políticos. O que não se eclipsou foi o bolsonarismo, que continua vivo e tem ambições.
Isso significa que as divisões numa sociedade que estava excessivamente polarizada não foram ultrapassadas neste último ano, mas também não impediram o Governo de Lula de obter algumas vitórias políticas. A recente reforma tributária, o “arcabouço fiscal” e a consequente subida do rating da dívida brasileira foram boas notícias que o Presidente pode agradecer a Fernando Haddad, o seu ministro das Finanças.
As más (notícias), que também as houve, Lula pode agradecê-las a si próprio. As que tiveram maior repercussão recordam-se através de duas frases do próprio: 1) “Posso dizer que se eu for Presidente do Brasil e ele [Vladimir Putin] vier ao Brasil, não há nenhuma razão para ele ser preso” (proferida após a emissão de um mandado de captura internacional em nome de Putin) e 2) “É preciso que os Estados Unidos parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz” (dita no final de uma visita à China).
As posições sobre a Ucrânia, que Lula da Silva se esforçou por explicar e normalizar, tiveram efeitos até em Portugal, ofuscando as celebrações do 49.º aniversário do 25 de Abril, que coincidiram com a visita do chefe de Estado a Lisboa — quem não recorda o espectáculo dos deputados do Chega a interromperem o Presidente brasileiro a cada oportunidade?
Um ano depois do regresso de Lula, o mundo fará balanços e avaliações, lembrará as conquistas e as derrotas, as promessas cumpridas e as que ficaram no papel. E o Brasil, esse, será cada vez mais o país que esquece Bolsonaro, pouco a pouco
A profecia de Lima Barreto
"Os Bruzundangas" foi publicado há 101 anos. Nele Lima Barreto zombou das patologias políticas que afligiam o país. A crítica acerba é surpreendentemente atual. Basta ler o noticiário sobre os Três Poderes. O presidente, que em Bruzundanga se chamava Mandachuva, cooptava todos a sua volta. Não havia oposição.
Lima alertava: "Toda a vez que um artigo desta Constituição ferir os interesses de parentes de pessoas da 'situação' ou de membros dela fica subentendido que ele não tem aplicação no caso". "Na constituinte, todos esperavam ficar na ‘situação’, de modo que o artigo acima foi aprovado unanimemente." E acrescentava: "Se algum recalcitrante, à vista de qualquer violação da Constituição, apelava para a Justiça (que lá se chamava Chicana), logo a Corte Suprema indagava se feria interesses de parentes de pessoas da situação e decidia conforme o famoso artigo."
Mas havia um paradoxo aí. "Como todo o mundo não podia pertencer à ‘situação’, os que ficavam fora dela, vendo os seus direitos postergados, começavam a berrar, a pedir justiça... Se eram vitoriosos, formavam a sua ‘situação’" e começavam a fazer o mesmo que os outros. Havia apelo para a "’Chicana’, mas a Suprema Corte, considerando bem o tal artigo já citado, decidia de acordo com a 'situação’".
E, sim, havia os privilégios: "Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República".
E também isenções, tarifas e regras especiais: "Um certo governador, grande plantador de café, verificando a baixa de preço que o produto ia tendo, de modo a não lhe dar lucros fabulosos, proibiu o plantio de mais um pé que fosse da preciosa rubiácea. Houve então um cidadão que pediu habeas corpus para plantar café. A Suprema Corte, à vista do tal artigo citado, não o concedeu, visto ferir os interesses do presidente da província, que pertencia à ‘situação’".
O diálogo entre Mandachuva e o ministro do Tesouro, Doutor Karpatoso, mostra como se resolvia o déficit público:
Complacência do Judiciário, privilégios, isenções, déficits. E mais: banquetes, tertúlias e homenagens eram tão comuns que Bruzunganda criou sua própria Guarda do Entusiasmo, com dez mil homens, dedicada a festejar magistrados, políticos, personalidades!
Marcus André Melo
Lima alertava: "Toda a vez que um artigo desta Constituição ferir os interesses de parentes de pessoas da 'situação' ou de membros dela fica subentendido que ele não tem aplicação no caso". "Na constituinte, todos esperavam ficar na ‘situação’, de modo que o artigo acima foi aprovado unanimemente." E acrescentava: "Se algum recalcitrante, à vista de qualquer violação da Constituição, apelava para a Justiça (que lá se chamava Chicana), logo a Corte Suprema indagava se feria interesses de parentes de pessoas da situação e decidia conforme o famoso artigo."
Mas havia um paradoxo aí. "Como todo o mundo não podia pertencer à ‘situação’, os que ficavam fora dela, vendo os seus direitos postergados, começavam a berrar, a pedir justiça... Se eram vitoriosos, formavam a sua ‘situação’" e começavam a fazer o mesmo que os outros. Havia apelo para a "’Chicana’, mas a Suprema Corte, considerando bem o tal artigo já citado, decidia de acordo com a 'situação’".
E, sim, havia os privilégios: "Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República".
E também isenções, tarifas e regras especiais: "Um certo governador, grande plantador de café, verificando a baixa de preço que o produto ia tendo, de modo a não lhe dar lucros fabulosos, proibiu o plantio de mais um pé que fosse da preciosa rubiácea. Houve então um cidadão que pediu habeas corpus para plantar café. A Suprema Corte, à vista do tal artigo citado, não o concedeu, visto ferir os interesses do presidente da província, que pertencia à ‘situação’".
O diálogo entre Mandachuva e o ministro do Tesouro, Doutor Karpatoso, mostra como se resolvia o déficit público:
— O orçamento fecha-se sempre com déficit. Este cresce de ano para ano... Tenho que satisfazer compromissos no estrangeiro... Espero que você me arranje um jeito de aumentarmos a receita.
— Não há dúvidas! Vou arranjar a cousa!. E triplicou os impostos.
Complacência do Judiciário, privilégios, isenções, déficits. E mais: banquetes, tertúlias e homenagens eram tão comuns que Bruzunganda criou sua própria Guarda do Entusiasmo, com dez mil homens, dedicada a festejar magistrados, políticos, personalidades!
Marcus André Melo
Uma lista de desejos
Desde muito, a virada do ano é marcada por promessas de mudanças pessoais. Imagino como isso deve ter mudado em tempos de hoje.
Vivemos sob um bombardeio de conselhos. Já falei sobre um aspecto deles, uma espécie de terrorismo alimentar que combate tudo, desde açúcar e ultraprocessados até o leite, o pão, a lactose e o glúten. Esse bombardeio fez o pão nosso de cada dia virar o pão que o diabo amassou. Impressionante, a julgar pelas advertências, observar como a humanidade sobreviveu, sobretudo depois de Cristo ter multiplicado o pão.
Outro dia, um desses gurus alimentares confessava na rede que toma dez comprimidos de suplemento alimentar antes do café. Não fica claro para que café da manhã, depois de tanto comprimido. Os suplementos são a outra face do bombardeio: ômega 3, magnésio, cúrcuma, creatinina, vitaminas — é uma lista interminável.
Tenho visto também nas redes sociais o grande número de pessoas dizendo o que fazer para sermos felizes. Há algumas senhoras bem vestidas, gurus indianos com seus turbantes, todos garantindo que existem três, quatro ou às vezes até sete conselhos que mudarão nossa vida. Usando tática muito comum na internet, dizem que o último conselho é o mais surpreendente. Assim tentam reter nossa atenção até o fim.
Outro dia, vi uma senhora dizendo que um bom princípio era este: se não te disserem, não pergunte. Levado a sério, isso seria a ruína da profissão de jornalista.
Tenho um velho relógio, que costuma atrasar de três a cinco minutos. Quando sigo os conselhos do guru e vejo as horas, não sei se estou realmente vivo ou se morri há uns minutos atrás.
Todo esse novo batalhão de conselheiros não significa que as pessoas não tenham seus projetos íntimos e pessoais. É importante que os toquem para a frente, na ilusão de que a passagem de ano realmente seja um marco renovador. É algo que faz bem, desejar felicidades, organizar a vida para que ela venha. Estou de pleno acordo com o otimismo do Ano-Novo.
Devo cuidar também da minha lista. Acontece que já são um pouco mais de 80 viradas. A margem de manobra é mais estreita. Creio que, por uma questão de esperança, adotarei aquela velha tática dos antigos países comunistas e farei planos quinquenais. É um tempo razoável para esquecer os principais tópicos e, além de tudo, aqueles planos quinquenais nunca funcionaram mesmo.
Gostaria de não perder mais canetas. E de criar um sistema de inteligência sofisticado para evitar que elas se articulem com os óculos e as chaves e desapareçam ao mesmo tempo, numa ação coordenada destinada a me enlouquecer.
Gostaria também de seguir viajando, mas criar um avatar que me substitua nas longas esperas em aeroportos. Nada contra elas, mas cansam mais que o próprio voo. Poderia ser substituído por um coelho que hesitasse muitas vezes diante do portão, até que finalmente encontrasse o lugar certo. Quase nunca é o previsto.
Outro item importante na lista: se quero combater a polarização que divide o país, tenho de começar a combatê-la dentro de casa. Há duas gatas que não se entendem, às vezes se pegam ruidosamente na sala e deixam tufos de pelo no chão. Como convencê-las de que são da mesma espécie, há comida e carinho para todas?
Na verdade, meu plano quinquenal, ainda que com muitas derrotas e atropelos, será plenamente vitorioso se chegar ao fim. Num caminho tão longo, há muitas coisas repetidas, muito déjà-vu, e, quando me pedirem para comentá-las, usarei apenas um lado da lição de meu guru indiano:
— Desculpe, mas morri cinco minutos atrás.
Vivemos sob um bombardeio de conselhos. Já falei sobre um aspecto deles, uma espécie de terrorismo alimentar que combate tudo, desde açúcar e ultraprocessados até o leite, o pão, a lactose e o glúten. Esse bombardeio fez o pão nosso de cada dia virar o pão que o diabo amassou. Impressionante, a julgar pelas advertências, observar como a humanidade sobreviveu, sobretudo depois de Cristo ter multiplicado o pão.
Outro dia, um desses gurus alimentares confessava na rede que toma dez comprimidos de suplemento alimentar antes do café. Não fica claro para que café da manhã, depois de tanto comprimido. Os suplementos são a outra face do bombardeio: ômega 3, magnésio, cúrcuma, creatinina, vitaminas — é uma lista interminável.
Tenho visto também nas redes sociais o grande número de pessoas dizendo o que fazer para sermos felizes. Há algumas senhoras bem vestidas, gurus indianos com seus turbantes, todos garantindo que existem três, quatro ou às vezes até sete conselhos que mudarão nossa vida. Usando tática muito comum na internet, dizem que o último conselho é o mais surpreendente. Assim tentam reter nossa atenção até o fim.
Outro dia, vi uma senhora dizendo que um bom princípio era este: se não te disserem, não pergunte. Levado a sério, isso seria a ruína da profissão de jornalista.
Decidido a levantar nosso moral no Instagram e no TikTok, um guru indiano com turbante e longas barbas brancas diz que estarmos vivos é um milagre. Todos os dias morrem 250 mil pessoas no mundo. Quando olhar o relógio, não veja apenas as horas, mas celebre o fato de estar vivo.
Tenho um velho relógio, que costuma atrasar de três a cinco minutos. Quando sigo os conselhos do guru e vejo as horas, não sei se estou realmente vivo ou se morri há uns minutos atrás.
Todo esse novo batalhão de conselheiros não significa que as pessoas não tenham seus projetos íntimos e pessoais. É importante que os toquem para a frente, na ilusão de que a passagem de ano realmente seja um marco renovador. É algo que faz bem, desejar felicidades, organizar a vida para que ela venha. Estou de pleno acordo com o otimismo do Ano-Novo.
Devo cuidar também da minha lista. Acontece que já são um pouco mais de 80 viradas. A margem de manobra é mais estreita. Creio que, por uma questão de esperança, adotarei aquela velha tática dos antigos países comunistas e farei planos quinquenais. É um tempo razoável para esquecer os principais tópicos e, além de tudo, aqueles planos quinquenais nunca funcionaram mesmo.
Gostaria de não perder mais canetas. E de criar um sistema de inteligência sofisticado para evitar que elas se articulem com os óculos e as chaves e desapareçam ao mesmo tempo, numa ação coordenada destinada a me enlouquecer.
Gostaria também de seguir viajando, mas criar um avatar que me substitua nas longas esperas em aeroportos. Nada contra elas, mas cansam mais que o próprio voo. Poderia ser substituído por um coelho que hesitasse muitas vezes diante do portão, até que finalmente encontrasse o lugar certo. Quase nunca é o previsto.
Outro item importante na lista: se quero combater a polarização que divide o país, tenho de começar a combatê-la dentro de casa. Há duas gatas que não se entendem, às vezes se pegam ruidosamente na sala e deixam tufos de pelo no chão. Como convencê-las de que são da mesma espécie, há comida e carinho para todas?
Na verdade, meu plano quinquenal, ainda que com muitas derrotas e atropelos, será plenamente vitorioso se chegar ao fim. Num caminho tão longo, há muitas coisas repetidas, muito déjà-vu, e, quando me pedirem para comentá-las, usarei apenas um lado da lição de meu guru indiano:
— Desculpe, mas morri cinco minutos atrás.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2023
Morrendo pela boca
O fim de ano tem seus perigos particulares. Tudo parece meio elétrico. As pessoas ficam impacientes, querem chegar logo, andam e dirigem de qualquer jeito. Outro dia, aqui no Rio, vi um mensageiro carregando uma bandeja de rabanadas ser atropelado por uma motocicleta ao atravessar a rua no meio dos carros. Nada de muito grave, mas as rabanadas foram literalmente para o espaço. Essa sofreguidão vem de longe: foi num Natal que o famoso rei inglês João (1167-1216), contemporâneo de Robin Hood, morreu de indigestão de lampreias. Já o nosso Luiz Gonçalves dos Santos (1767-1844), importante historiador do Brasil Imperial, mais conhecido como padre Perereca, morreu de indigestão de carambola.
O problema, no fundo, está em tudo que entra pela boca em qualquer época do ano. Agátocles (361-289 a.C.), governante de Siracusa, morreu engasgado com um palito. E Cláudio, imperador de Roma (10 a.C.-54 d.C.), ao constatar que sua mulher estava lhe servindo cogumelos envenenados, desesperou-se e introduziu uma pena na garganta para induzir vômito. Morreu também engasgado com ela.
Veneno ---cicuta--- foi o que ingeriu o filósofo ateniense Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), preso por motivos políticos e condenado a "suicidar-se". Era tão amado pelos jovens que os juízes não ousaram executá-lo. Sócrates poderia ter fugido, mas preferiu cumprir a sentença por "respeito às leis de Atenas", e bebeu a cicuta de um gole. Foi. Já o romancista britânico Graham Greene (1904-91), católico cheio de culpa e angústias, tentou se matar bebendo colírio. Como fracassou, preferiu viver. Sorte nossa.
E, falando em final feliz, Chita (1930-91), o chimpanzé capturado em bebê na África e levado para Hollywood, já era louco por banana em seu habitat. Mas foi na MGM, vendo seu colega Johnny Weissmuller, o Tarzan, comendo uma, que descobriu que ela era ainda mais gostosa sem casca.
O problema, no fundo, está em tudo que entra pela boca em qualquer época do ano. Agátocles (361-289 a.C.), governante de Siracusa, morreu engasgado com um palito. E Cláudio, imperador de Roma (10 a.C.-54 d.C.), ao constatar que sua mulher estava lhe servindo cogumelos envenenados, desesperou-se e introduziu uma pena na garganta para induzir vômito. Morreu também engasgado com ela.
Veneno ---cicuta--- foi o que ingeriu o filósofo ateniense Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), preso por motivos políticos e condenado a "suicidar-se". Era tão amado pelos jovens que os juízes não ousaram executá-lo. Sócrates poderia ter fugido, mas preferiu cumprir a sentença por "respeito às leis de Atenas", e bebeu a cicuta de um gole. Foi. Já o romancista britânico Graham Greene (1904-91), católico cheio de culpa e angústias, tentou se matar bebendo colírio. Como fracassou, preferiu viver. Sorte nossa.
E, falando em final feliz, Chita (1930-91), o chimpanzé capturado em bebê na África e levado para Hollywood, já era louco por banana em seu habitat. Mas foi na MGM, vendo seu colega Johnny Weissmuller, o Tarzan, comendo uma, que descobriu que ela era ainda mais gostosa sem casca.
Um banco laranja
Quando era discreto o charme da burguesia, as casas bancárias eram discretas também. Seus donos se compraziam no anonimato. No máximo, permitiam que gravassem, em letras de bronze, pequenas, o nome do estabelecimento na fachada lateral do edifício, sem espalhafato. Bastava um sobrenome, um topônimo, nada mais. O comércio do dinheiro se fazia em silêncio. Banqueiros fugiam dos holofotes e dos logotipos vistosos. Não queriam nada com a fama. A fortuna os satisfazia.
Agora, a paisagem fiduciária mudou. Olhando para os comerciais de banqueiros na TV, a gente até se espanta. Há peças verdadeiramente espetaculares – espetacular, aqui, no sentido que o filósofo Guy Debord emprestou à palavra (emprestou sem juros): “O espetáculo é o capital em tamanho grau de acumulação que se torna imagem”. Os efeitos especiais de vídeo valem mais do que mil letras de câmbio. A pecúnia perdeu a inibição. O vil metal virou marca desejante, e o que ele deseja é você.
As empresas que mercadejam bufunfa ofertam paixão para saciar a demanda do cliente. Desejam emprestar sentido à subjetividade do freguês (neste caso, “emprestar” com juros). Pretendem carimbar um logotipo nos sonhos pessoais que você acalenta, nos seus projetos. Querem ser sócias das modestas cobiças dos milhões de seres que portam cartões de crédito no bolso ou no celular. Bancos, agora, têm sex appeal.
Nestes dias em que espoucam as fluorescências festivas de final de ano, uma dessas organizações privadas, com agências instaladas em cidades e cidadezinhas, vem divulgando filmes promocionais para nos dizer que seu coração é “feito de futuro”. A campanha é bem-feita. O slogan, realmente espetacular (com royalties imateriais para Guy Debord). Um achado publicitário, uma fórmula convidativa para celebrar o réveillon.
Todo mundo tem, bem lá no fundo da alma endividada, a aspiração de ter lugar no futuro. Todo mundo almeja habitar o futuro. E, apresentada dessa forma tentadora, a ideia de um banco “feito de futuro” vem investida de força mágica, anímica, principalmente quando nos faz crer que ser “feito de futuro” é uma ambição que não cobra de ninguém o preço de jogar fora o passado. Futuro e passado se dão as mãos e se fortalecem, segundo o mantra do comercial, que, com isso, consegue fisgar a imaginação de quem quer perder nem o passado, nem o futuro, nem o presente.
Para melhor propagar sua receita de fusão temporal, o anunciante financeiro contratou a atriz Fernanda Montenegro, cuja magnitude paira acima do tempo. Com uma história pessoal mais rica do que todo o capital financeiro de todo o século 20, acrescido aí o primeiro quinto do século 21, a grande dama das artes brasileiras declara que nasceu e renasceu muitas vezes, na pele das personagens que encarnou. Ela convence e arrebata. Como suas personagens fazem parte da memória afetiva de tanta gente, o espectador, sedento de esperança, ávido por uma fábula que dê conta de renovar suas energias depreciadas, aceita se emocionar.
O comercial foi gravado num teatro espaçoso e sóbrio. O lugar está vazio. Não está propriamente às escuras; muitos pontos de luz em tons quentes, pontilhando as frisas, criam um ambiente de aconchego. Na fala cadenciada, a biografia da atriz vai se entrelaçando com a história do banco que a contratou. Ela declama frases fortes: “Eu me transformei muitas vezes para ser eu mesma”. O duplo sentido logo se estabelece. Será que fala de si? Ou será que fala da banca?
“Me fiz pedra”, ela diz, mas logo trata de qualificar: “Em movimento”. A ênfase que ela aporta a este “em movimento” elucida tudo. Ela se refere a uma pedra que rola, que não se acomoda. O gesto das mãos, com os indicadores girando um em torno do outro, reforçam a mensagem já impregnada ao imaginário contemporâneo: rocha (rock) e mudança (and roll).
A partir daí, a ambiguidade dá lugar a propaganda desinibida. A rocha tem menos que ver com a grande dama do que com a avantajada empresa bancária. Itaú, como se sabe, significa “pedra preta” em tupi-guarani. E essa rocha pretende “atravessar o tempo” – mudando a cor. A pedra preta não quer mais ser preta. A pedra preta quer ser laranja.
A palavra “laranja”, porém, traz um constrangimento, por assim dizer, discreto. Quando associado a operações contábeis, o termo designa uma fraude: o “laranja” é alguém que empresta o nome (a troco de uma ninharia) para um negócio que beneficiará um espertalhão, cujo nome não vai aparecer. Se é assim, por que um banco faz tanta publicidade para ser visto como laranja? Muito simples: para ser dono de uma cor quente, positiva, e, com ela, simplificar sua comunicação. Você vai ver essa frequência cromática e vai pensar naquela agência bancária.
Laranja, por que não? Há cores piores. Há concorrentes que são vermelhos, e não há correntista que proteste quando deposita seus caraminguás no vermelho. Ninguém liga que a conta fique no vermelho. Então, viva o laranja. Se você fizer as contas, verá que vai sair barato.
Agora, a paisagem fiduciária mudou. Olhando para os comerciais de banqueiros na TV, a gente até se espanta. Há peças verdadeiramente espetaculares – espetacular, aqui, no sentido que o filósofo Guy Debord emprestou à palavra (emprestou sem juros): “O espetáculo é o capital em tamanho grau de acumulação que se torna imagem”. Os efeitos especiais de vídeo valem mais do que mil letras de câmbio. A pecúnia perdeu a inibição. O vil metal virou marca desejante, e o que ele deseja é você.
As empresas que mercadejam bufunfa ofertam paixão para saciar a demanda do cliente. Desejam emprestar sentido à subjetividade do freguês (neste caso, “emprestar” com juros). Pretendem carimbar um logotipo nos sonhos pessoais que você acalenta, nos seus projetos. Querem ser sócias das modestas cobiças dos milhões de seres que portam cartões de crédito no bolso ou no celular. Bancos, agora, têm sex appeal.
Nestes dias em que espoucam as fluorescências festivas de final de ano, uma dessas organizações privadas, com agências instaladas em cidades e cidadezinhas, vem divulgando filmes promocionais para nos dizer que seu coração é “feito de futuro”. A campanha é bem-feita. O slogan, realmente espetacular (com royalties imateriais para Guy Debord). Um achado publicitário, uma fórmula convidativa para celebrar o réveillon.
Todo mundo tem, bem lá no fundo da alma endividada, a aspiração de ter lugar no futuro. Todo mundo almeja habitar o futuro. E, apresentada dessa forma tentadora, a ideia de um banco “feito de futuro” vem investida de força mágica, anímica, principalmente quando nos faz crer que ser “feito de futuro” é uma ambição que não cobra de ninguém o preço de jogar fora o passado. Futuro e passado se dão as mãos e se fortalecem, segundo o mantra do comercial, que, com isso, consegue fisgar a imaginação de quem quer perder nem o passado, nem o futuro, nem o presente.
Para melhor propagar sua receita de fusão temporal, o anunciante financeiro contratou a atriz Fernanda Montenegro, cuja magnitude paira acima do tempo. Com uma história pessoal mais rica do que todo o capital financeiro de todo o século 20, acrescido aí o primeiro quinto do século 21, a grande dama das artes brasileiras declara que nasceu e renasceu muitas vezes, na pele das personagens que encarnou. Ela convence e arrebata. Como suas personagens fazem parte da memória afetiva de tanta gente, o espectador, sedento de esperança, ávido por uma fábula que dê conta de renovar suas energias depreciadas, aceita se emocionar.
O comercial foi gravado num teatro espaçoso e sóbrio. O lugar está vazio. Não está propriamente às escuras; muitos pontos de luz em tons quentes, pontilhando as frisas, criam um ambiente de aconchego. Na fala cadenciada, a biografia da atriz vai se entrelaçando com a história do banco que a contratou. Ela declama frases fortes: “Eu me transformei muitas vezes para ser eu mesma”. O duplo sentido logo se estabelece. Será que fala de si? Ou será que fala da banca?
“Me fiz pedra”, ela diz, mas logo trata de qualificar: “Em movimento”. A ênfase que ela aporta a este “em movimento” elucida tudo. Ela se refere a uma pedra que rola, que não se acomoda. O gesto das mãos, com os indicadores girando um em torno do outro, reforçam a mensagem já impregnada ao imaginário contemporâneo: rocha (rock) e mudança (and roll).
A partir daí, a ambiguidade dá lugar a propaganda desinibida. A rocha tem menos que ver com a grande dama do que com a avantajada empresa bancária. Itaú, como se sabe, significa “pedra preta” em tupi-guarani. E essa rocha pretende “atravessar o tempo” – mudando a cor. A pedra preta não quer mais ser preta. A pedra preta quer ser laranja.
A palavra “laranja”, porém, traz um constrangimento, por assim dizer, discreto. Quando associado a operações contábeis, o termo designa uma fraude: o “laranja” é alguém que empresta o nome (a troco de uma ninharia) para um negócio que beneficiará um espertalhão, cujo nome não vai aparecer. Se é assim, por que um banco faz tanta publicidade para ser visto como laranja? Muito simples: para ser dono de uma cor quente, positiva, e, com ela, simplificar sua comunicação. Você vai ver essa frequência cromática e vai pensar naquela agência bancária.
Laranja, por que não? Há cores piores. Há concorrentes que são vermelhos, e não há correntista que proteste quando deposita seus caraminguás no vermelho. Ninguém liga que a conta fique no vermelho. Então, viva o laranja. Se você fizer as contas, verá que vai sair barato.
O futuro
Certa feita, Astrud Gilberto, João Donato e eu vínhamos de um estúdio de gravação, em Nova Iorque, quando passando por uma rua vimos uma cigana num sobrado e resolvemos consultá-la. Donato foi o primeiro a sentar-se frente a ela que, tomando-lhe a mão, disse: "Vou ler o seu passado." E Donato, com aquele ar perdido e olhar esgazeado, retrucou: "Não, gipsy, o passado eu já conheço. Fale do futuro." Desconcertada, a cigana voltou-se para nós e confidenciou: "Ele é maluco..." Claro. Só a loucura poderia ser tão lúcida. De uma tacada, Donato descartara o passado. Quantos, para exorcizá-lo, necessitam recorrer à psicanálise ou mesmo às autobiografias...
Vinícius de Moraes, pouco tempo antes de morrer, estava num bar - o Barbas - sendo entrevistado por uma jovem e inconsequente jornalista que, enquanto "dava um tapa num baseado", perguntou-lhe: "Poeta, você está com medo da morte?" No que Vinícius, indiferente ao constrangimento geral que se fez à sua volta, respondeu, serenamente: "Não, filhinha, estou é com saudade da vida..."
Assim é que tenho saudades de Vinícius e da época áurea da Bossa Nova. Mas é a nostalgia que me bate quando lembro do Brasil nos anos 60, o que poderia ter sido e não foi. E afinal, por melhores recordações que tenha de minha adolescência e juventude, nunca aceitaria nenhum acordo que me fizesse voltar àquela época a não ser que pudesse carregar comigo todo o cabedal de experiência acumulado até hoje. Posso até sentir saudade do que já fui, mas não me arrependo de não ser mais.
É comum, nos colégios, que os professores solicitem pesquisas de seus alunos, o que leva a garotada a sair por aí, de gravador em punho, entrevistando, sobretudo, artistas e intelectuais, sobre os mais diversos assuntos. Recentemente, um desses grupos invadiu meu ateliê para pesquisar-me - como era de esperar - sobre Bossa Nova, Música Popular Brasileira e tal. Foi quando uma menina, de enormes olhos castanhos, quis saber: "Carlos, como era no teu tempo?" Apanhado assim de surpresa, na hora respondi qualquer coisa, como: "Antes, preciso saber o que é o meu tempo." Não adiantava nem querer bancar o moderninho, porque o máximo que iria conseguir daqueles garotos era que me vissem como um "coroa legal". Seja lá o que tenha eu declarado, não pude dar àqueles enormes olhos castanhos uma resposta que eu sequer tinha para mim mesmo. Para começar, não só o meu tempo como o próprio conceito de tempo em si também pede reflexão.
Mais tarde, meditando sobre o assunto, veio-me à cabeça o filósofo Henri Bergson que, além de ter afirmado que o tempo é relativo, achava também que tempo é duração. Lembrei-me ainda - e mais uma vez - do poeta Vinícius de Moraes que parece concordar com isso, quando preconiza que o amor "...não seja imortal, posto que é chama mas que seja infinito enquanto dure". Marcel Proust (que foi aluno de Bergson) achava que o futuro nada mais é do que o passado projetado para diante. Como devo, então, pensar ou calcular meu tempo? Como tempo mecânico, contável, em horas, minutos, segundos? Ou o tempo como ele é percebido pelos meus sentidos? Em tempo contável, meu passado contém uma mala cheia. Devo, por isso, pensar que o meu tempo é o passado? Não sei. Em termos mais dinâmicos, seria melhor que fosse o presente, com seu dia a dia renovador. Mas o presente dura pouco, é muito rápido, vertiginoso. Quando a gente olha, já é passado. E o passado já passou. O que resta, afinal? Como perspectiva, só mesmo o futuro.
Então é isso. Já tenho a resposta para quando reencontrar a menina dos olhos castanhos: meu tempo é o futuro. Até lá, pois.
Vinícius de Moraes, pouco tempo antes de morrer, estava num bar - o Barbas - sendo entrevistado por uma jovem e inconsequente jornalista que, enquanto "dava um tapa num baseado", perguntou-lhe: "Poeta, você está com medo da morte?" No que Vinícius, indiferente ao constrangimento geral que se fez à sua volta, respondeu, serenamente: "Não, filhinha, estou é com saudade da vida..."
Conceitos como passado, saudade, levam a intermináveis reflexões. Por exemplo, o que o poeta teria querido dizer com "saudade da vida"? Acredito que não se referisse a “toda a vida", mas sim à vida como um todo. Concordo que tudo que já aconteceu, na vida, serviu como aprendizado, acrescentou, valeu. Mas, nem sempre, tudo foi gratificante. Nesse caso, para mim, ter saudade de alguma coisa ou de alguém é, exatamente, de como essa coisa ou essa pessoa ficou na nossa memória. E, nesse sentido, mais uma vez, a palavra saudade representa uma contribuição enriquecedora de nosso idioma. Porque, no meu entender, saudade pode até ser triste, mas nunca melancólica como sua contrapartida internacional, a nostalgia. Esta, ainda que provoque emoções, sempre me deixa um gosto de algo incompleto, inacabado ou que não se encaixa, como já o fez em outros tempos. Feito aquelas músicas, filmes ou amores antigos que, por mais que os tenhamos apreciado, sempre se ressentem ante uma revisão.
Assim é que tenho saudades de Vinícius e da época áurea da Bossa Nova. Mas é a nostalgia que me bate quando lembro do Brasil nos anos 60, o que poderia ter sido e não foi. E afinal, por melhores recordações que tenha de minha adolescência e juventude, nunca aceitaria nenhum acordo que me fizesse voltar àquela época a não ser que pudesse carregar comigo todo o cabedal de experiência acumulado até hoje. Posso até sentir saudade do que já fui, mas não me arrependo de não ser mais.
É comum, nos colégios, que os professores solicitem pesquisas de seus alunos, o que leva a garotada a sair por aí, de gravador em punho, entrevistando, sobretudo, artistas e intelectuais, sobre os mais diversos assuntos. Recentemente, um desses grupos invadiu meu ateliê para pesquisar-me - como era de esperar - sobre Bossa Nova, Música Popular Brasileira e tal. Foi quando uma menina, de enormes olhos castanhos, quis saber: "Carlos, como era no teu tempo?" Apanhado assim de surpresa, na hora respondi qualquer coisa, como: "Antes, preciso saber o que é o meu tempo." Não adiantava nem querer bancar o moderninho, porque o máximo que iria conseguir daqueles garotos era que me vissem como um "coroa legal". Seja lá o que tenha eu declarado, não pude dar àqueles enormes olhos castanhos uma resposta que eu sequer tinha para mim mesmo. Para começar, não só o meu tempo como o próprio conceito de tempo em si também pede reflexão.
Mais tarde, meditando sobre o assunto, veio-me à cabeça o filósofo Henri Bergson que, além de ter afirmado que o tempo é relativo, achava também que tempo é duração. Lembrei-me ainda - e mais uma vez - do poeta Vinícius de Moraes que parece concordar com isso, quando preconiza que o amor "...não seja imortal, posto que é chama mas que seja infinito enquanto dure". Marcel Proust (que foi aluno de Bergson) achava que o futuro nada mais é do que o passado projetado para diante. Como devo, então, pensar ou calcular meu tempo? Como tempo mecânico, contável, em horas, minutos, segundos? Ou o tempo como ele é percebido pelos meus sentidos? Em tempo contável, meu passado contém uma mala cheia. Devo, por isso, pensar que o meu tempo é o passado? Não sei. Em termos mais dinâmicos, seria melhor que fosse o presente, com seu dia a dia renovador. Mas o presente dura pouco, é muito rápido, vertiginoso. Quando a gente olha, já é passado. E o passado já passou. O que resta, afinal? Como perspectiva, só mesmo o futuro.
Então é isso. Já tenho a resposta para quando reencontrar a menina dos olhos castanhos: meu tempo é o futuro. Até lá, pois.
Carlos Lyra
Humor macabro
A imobiliária israelense, que trabalha principalmente em projetos na Cisjordânia, causou uma tempestade internacional quando publicou um anúncio em suas páginas de mídia social dizendo que está "preparando as bases para um retorno a Gush Katifa".
Gaza-Belém-Jerusalém, dezembro
“Perdi a minha casa. A casa da minha família. A casa da minha irmã. A casa do meu irmão. Tudo aquilo a que chamo casa. Estamos num estado horrífico."
Na noite de Natal eu estava na Praça da Basílica da Natividade (Belém, Cisjordânia Ocupada) com o telefone na mão quando chegou um áudio do meu amigo de muitos anos em Gaza, a quem chamei W. na primeira crônica para o PÚBLICO depois de 7 de outubro.
Durante semanas, enquanto eu ainda estava em Portugal, partilhei nas redes sociais mensagens trocadas com W., para que as pessoas tivessem um acesso direto às palavras (e por vezes imagens) dele. W. não estudou jornalismo, vem das ciências, mas é um observador nato, cabeça e coração. Trabalhou comigo em Gaza como tradutor e guia para muitas reportagens neste jornal. Vi as três filhas dele crescer, passei a ficar com a família quando estava em Gaza.
As filhas (e a mãe delas) já moravam noutros países a 7 de Outubro. W. estava na sua casa da Cidade de Gaza, com as sequelas físicas de ter sido preso e torturado pelo Hamas, como contei nessa primeira crónica. Incluindo ter dificuldade para andar. Mas os bombardeios de Israel forçaram-no a deixar a sua casa e ir para sul, como mais de um milhão de pessoas. Passou muito tempo acampado no exterior de um hospital em Deir Al-Balah, a meio da Faixa, com a família da irmã, que ele foi ajudar a tirar dos escombros, depois de um bombardeio. Entre as imagens que me mandou, vi a irmã, tão parecida com ele, cheia de escoriações, e uma das netas dela, sobrinha-neta de W., uma menina linda em estado de choque, também com feridas na cara, e a mão ligada. Ela quase perdeu a mão. Foi operada naquelas condições terríveis, tiraram tecido de outra parte do corpo.adora esta sobrinha-neta e também me mandou alguns dos desenhos que ambos faziam, acampados ali, com tão pouca comida, água, higiene. E depois veio o frio, a chuva, tendas de plástico, sem roupa de Inverno. E mais fome, cada vez mais fome. Desidratação. Doenças. W. decidiu ir a outra zona, Nusseirat, tentar arranjar comida, mas com o avanço da invasão terrestre, além das bombas, não conseguiu voltar para junto da família.
Cheguei a Jerusalém Oriental na noite de 10 para 11 de dezembro e desde então não tive notícias de W. Tentou ligar uma vez, depois não respondeu, desencontramo-nos. Eu não sabia onde ele estava. Se estava.
Nas primeiras semanas da guerra, por vezes a primeira mensagem dele era: “Am still alive” (“Estou vivo”) Como também as mensagens de R., jornalista profissional com quem trabalhei em 2017, a última vez que fiz reportagem em Gaza. Quem siga os palestinos nas redes reconhecerá estas palavras. Os milhões de seguidores, por exemplo, de Bisan, 25 anos, habituaram-se a começar o dia assim. Ela, eles, todas estas pessoas que são a nossa linha de vida com Gaza.
Ou a nossa linha da vida, mesmo.
Então, ao fim de 15 dias sem saber nada de W., aquele áudio caiu ali na noite de Natal, exatamente às 20h03, e pela primeira vez desde 7 de outubro trocamos mensagens estando ambos na Palestina.
Vou transcrever aqui as palavras dele que foram aparecendo no ecrã, mensagem a mensagem:
“Ainda estou funcional. A guerra está no seu auge. Perdi a minha casa. A casa da minha família também. A casa da minha irmã. A casa do meu irmão. Tudo aquilo a que chamo casa. Perdi contacto com aquele meu irmão que não tinha qualquer possibilidade de deixar Gaza. O IDF [Forças de Israel] está deliberadamente a forçar dois milhões e meio à fome e à sede. Estamos num estado horrífico. Figuras como zombies. Ainda estou em Nusseirat. O IDF exigiu que partíssemos daqui, mas o deadline de 72 horas acabou esta noite. Não há transportes, querida amiga. Tentei tudo o que podia para partir ontem e hoje. Vamos ver o que acontece amanhã. Espero conseguir chegar a Deir Al Balah amanhã.”
Quando lhe digo que estou em Belém, e toda a Belém está com Gaza, sem celebrar o Natal, pela primeira vez na sua história, ele responde: “Take care, dear friend.” E promete não perder a esperança. “Never. Inshallah.”
Eram 21h30. Já eu estava junto da incubadora com um Jesus queimado pelas bombas em Gaza que uma artista palestiniana instalou diante da missa de Natal. Não tenho mais notícias de W. até ao momento em que escrevo esta crónica, já em Jerusalém Oriental (Palestina Ocupada), dos lugares mais belos e tristes do mundo. E antes de a terminar, como se adivinhasse, escreve-me R., o outro amigo de Gaza, que há muito não respondia.
Transcrevo as mensagens dele:
“Bombardeio em Maghazi [junto a Deir Al Balah], não muito longe de mim, decidi sair daqui, mas não acho um lugar onde ficarmos. Parece que eu e os meus filhos vamos dormir na rua, não há um lugar em Gaza. Muita gente começou a fugir, estou a tentar, mas não sei para onde ir.”
Quantas vezes já os palestinos disseram isto a alguém, ou teriam dito, se houvesse WhatsApp, a meio de mais um bombardeio, mais um deslocamento, mais um êxodo, desde muito antes de R., W. ou eu termos nascido. E todos já temos cabelos brancos.
A minha última resposta para cada um está só com um tracinho.
Na noite de Natal eu estava na Praça da Basílica da Natividade (Belém, Cisjordânia Ocupada) com o telefone na mão quando chegou um áudio do meu amigo de muitos anos em Gaza, a quem chamei W. na primeira crônica para o PÚBLICO depois de 7 de outubro.
Durante semanas, enquanto eu ainda estava em Portugal, partilhei nas redes sociais mensagens trocadas com W., para que as pessoas tivessem um acesso direto às palavras (e por vezes imagens) dele. W. não estudou jornalismo, vem das ciências, mas é um observador nato, cabeça e coração. Trabalhou comigo em Gaza como tradutor e guia para muitas reportagens neste jornal. Vi as três filhas dele crescer, passei a ficar com a família quando estava em Gaza.
As filhas (e a mãe delas) já moravam noutros países a 7 de Outubro. W. estava na sua casa da Cidade de Gaza, com as sequelas físicas de ter sido preso e torturado pelo Hamas, como contei nessa primeira crónica. Incluindo ter dificuldade para andar. Mas os bombardeios de Israel forçaram-no a deixar a sua casa e ir para sul, como mais de um milhão de pessoas. Passou muito tempo acampado no exterior de um hospital em Deir Al-Balah, a meio da Faixa, com a família da irmã, que ele foi ajudar a tirar dos escombros, depois de um bombardeio. Entre as imagens que me mandou, vi a irmã, tão parecida com ele, cheia de escoriações, e uma das netas dela, sobrinha-neta de W., uma menina linda em estado de choque, também com feridas na cara, e a mão ligada. Ela quase perdeu a mão. Foi operada naquelas condições terríveis, tiraram tecido de outra parte do corpo.adora esta sobrinha-neta e também me mandou alguns dos desenhos que ambos faziam, acampados ali, com tão pouca comida, água, higiene. E depois veio o frio, a chuva, tendas de plástico, sem roupa de Inverno. E mais fome, cada vez mais fome. Desidratação. Doenças. W. decidiu ir a outra zona, Nusseirat, tentar arranjar comida, mas com o avanço da invasão terrestre, além das bombas, não conseguiu voltar para junto da família.
Cheguei a Jerusalém Oriental na noite de 10 para 11 de dezembro e desde então não tive notícias de W. Tentou ligar uma vez, depois não respondeu, desencontramo-nos. Eu não sabia onde ele estava. Se estava.
Nas primeiras semanas da guerra, por vezes a primeira mensagem dele era: “Am still alive” (“Estou vivo”) Como também as mensagens de R., jornalista profissional com quem trabalhei em 2017, a última vez que fiz reportagem em Gaza. Quem siga os palestinos nas redes reconhecerá estas palavras. Os milhões de seguidores, por exemplo, de Bisan, 25 anos, habituaram-se a começar o dia assim. Ela, eles, todas estas pessoas que são a nossa linha de vida com Gaza.
Ou a nossa linha da vida, mesmo.
Então, ao fim de 15 dias sem saber nada de W., aquele áudio caiu ali na noite de Natal, exatamente às 20h03, e pela primeira vez desde 7 de outubro trocamos mensagens estando ambos na Palestina.
Vou transcrever aqui as palavras dele que foram aparecendo no ecrã, mensagem a mensagem:
“Ainda estou funcional. A guerra está no seu auge. Perdi a minha casa. A casa da minha família também. A casa da minha irmã. A casa do meu irmão. Tudo aquilo a que chamo casa. Perdi contacto com aquele meu irmão que não tinha qualquer possibilidade de deixar Gaza. O IDF [Forças de Israel] está deliberadamente a forçar dois milhões e meio à fome e à sede. Estamos num estado horrífico. Figuras como zombies. Ainda estou em Nusseirat. O IDF exigiu que partíssemos daqui, mas o deadline de 72 horas acabou esta noite. Não há transportes, querida amiga. Tentei tudo o que podia para partir ontem e hoje. Vamos ver o que acontece amanhã. Espero conseguir chegar a Deir Al Balah amanhã.”
Quando lhe digo que estou em Belém, e toda a Belém está com Gaza, sem celebrar o Natal, pela primeira vez na sua história, ele responde: “Take care, dear friend.” E promete não perder a esperança. “Never. Inshallah.”
Eram 21h30. Já eu estava junto da incubadora com um Jesus queimado pelas bombas em Gaza que uma artista palestiniana instalou diante da missa de Natal. Não tenho mais notícias de W. até ao momento em que escrevo esta crónica, já em Jerusalém Oriental (Palestina Ocupada), dos lugares mais belos e tristes do mundo. E antes de a terminar, como se adivinhasse, escreve-me R., o outro amigo de Gaza, que há muito não respondia.
Transcrevo as mensagens dele:
“Bombardeio em Maghazi [junto a Deir Al Balah], não muito longe de mim, decidi sair daqui, mas não acho um lugar onde ficarmos. Parece que eu e os meus filhos vamos dormir na rua, não há um lugar em Gaza. Muita gente começou a fugir, estou a tentar, mas não sei para onde ir.”
Quantas vezes já os palestinos disseram isto a alguém, ou teriam dito, se houvesse WhatsApp, a meio de mais um bombardeio, mais um deslocamento, mais um êxodo, desde muito antes de R., W. ou eu termos nascido. E todos já temos cabelos brancos.
A minha última resposta para cada um está só com um tracinho.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2023
Devaneios são permitidos
Não é que falte assunto de relevo neste final de ano — a Humanidade, mais uma vez, não caminhou rumo ao que dela era esperado. Ver a Terra como ela realmente é, um pálido e lindo ponto azul flutuando num eterno silêncio, deveria ter nos aproximado mais uns dos outros, estreitado nossa interdependência como passageiros de um mesmo mundo, confirmado a relação paradoxal entre distância espacial e proximidade emocional. Não foi bem isso que ocorreu em 2023. Mas é justamente em período de início de férias, com festejos a todo vapor e desatenção geral típica de véspera de Natal, que devaneios são permitidos — ótima oportunidade para poder divagar sobre algo impalpável, evanescente e atemporal, apenas bonito: a cor azul e nossos estados d’alma.
Wassily Kandinsky, William Gass (“On being blue”), Carl Sagan, Goethe, Maggie Nelson (“The colour blue as a lens on memory and loneliness...”), Maria Popova e Leonardo da Vinci são apenas alguns dos pintores e naturalistas, escritores, pensadores ou poetas que se debruçaram sobre essa que é chamada de “a cor da mente emprestada ao corpo, a cor da consciência quando a acariciamos”. Para a ensaísta americana Rebecca Solnit, autora de uma elegante reflexão sobre como encontrar a si mesmo no desconhecido (“Um guia para se perder”, Martins Fontes, 2022), a relação entre o azul, a melancolia e a solidão humanas está por toda parte onde há distância e desejo.
Percebido como azul nas suas bordas e profundezas quando observado no espaço sideral, nosso planetinha vai perdendo sua luz à medida que nos aproximamos dele. A cor dispersa-se entre as moléculas do ar, dispersa-se na água (incolor só quando rasa, azul quando o mar é profundo), dispersa-se no céu e na terra. “Há muitos anos que me emociono com o azul que está no limite do que se vê, aquela cor dos horizontes, das cadeias de montanhas remotas, de tudo o que está longe. A cor dessa distância é a cor de uma emoção, a cor da solidão e do desejo, a cor de lá visto daqui, a cor de onde você não está. É a cor de onde você nunca poderá ir. Pois o azul não está no lugar a quilômetros de distância no horizonte, mas na distância atmosférica entre você e as montanhas”, escreveu Solnit para relacionar desejo e distância. Tratamos o desejo como um problema a resolver, enquanto o que intriga a autora é algo distinto: e se, com um ligeiro ajuste de perspectiva, o desejo pudesse ser apreciado como uma sensação em seus próprios termos? Se conseguíssemos olhar para longe sem querer diminuir a distância, talvez pudéssemos dar conta de nossos desejos da mesma forma como amamos a beleza de um azul que nunca poderá ser alcançado. “Algo desse anseio será apenas realocado pela proximidade, jamais apaziguado, assim como as montanhas deixam de ser azuis quando chegamos perto delas. O azul tingirá algum outro além. E nisso reside o mistério de por que as tragédias são sempre mais belas que as comédias e de por que temos tanto prazer na tristeza de certas canções e histórias. Algo estará sempre fora do nosso alcance”, teoriza Solnit.
No mundo das espécies que vivem abaixo de nossa atmosfera avermelhada, o azul é raridade, assim como é inexistente um pigmento natural dessa cor. Como não se surpreender com a escassez de alimentos azuis produzidos pela terra, quando abundam os vermelhos, amarelos, marrons ou verdejantes? Poucas são, também, as plantas que florescem em azul. E os raros pássaros e borboletas dotados de plumagem azulada devem esse privilégio a uma singular refração da luz em suas penas, de forma a cancelar qualquer raio que não seja azul. Amamos contemplar o azul não porque ele vem até nós, mas porque ele nos leva longe, já observara Goethe em sua teoria de cor e emoção. Clarice Lispector concordaria. “O azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul”, escreveu ela.
Se somos tantos a amar o azul, vale tentar o inalcançável — 2024 vem a galope.
Wassily Kandinsky, William Gass (“On being blue”), Carl Sagan, Goethe, Maggie Nelson (“The colour blue as a lens on memory and loneliness...”), Maria Popova e Leonardo da Vinci são apenas alguns dos pintores e naturalistas, escritores, pensadores ou poetas que se debruçaram sobre essa que é chamada de “a cor da mente emprestada ao corpo, a cor da consciência quando a acariciamos”. Para a ensaísta americana Rebecca Solnit, autora de uma elegante reflexão sobre como encontrar a si mesmo no desconhecido (“Um guia para se perder”, Martins Fontes, 2022), a relação entre o azul, a melancolia e a solidão humanas está por toda parte onde há distância e desejo.
Percebido como azul nas suas bordas e profundezas quando observado no espaço sideral, nosso planetinha vai perdendo sua luz à medida que nos aproximamos dele. A cor dispersa-se entre as moléculas do ar, dispersa-se na água (incolor só quando rasa, azul quando o mar é profundo), dispersa-se no céu e na terra. “Há muitos anos que me emociono com o azul que está no limite do que se vê, aquela cor dos horizontes, das cadeias de montanhas remotas, de tudo o que está longe. A cor dessa distância é a cor de uma emoção, a cor da solidão e do desejo, a cor de lá visto daqui, a cor de onde você não está. É a cor de onde você nunca poderá ir. Pois o azul não está no lugar a quilômetros de distância no horizonte, mas na distância atmosférica entre você e as montanhas”, escreveu Solnit para relacionar desejo e distância. Tratamos o desejo como um problema a resolver, enquanto o que intriga a autora é algo distinto: e se, com um ligeiro ajuste de perspectiva, o desejo pudesse ser apreciado como uma sensação em seus próprios termos? Se conseguíssemos olhar para longe sem querer diminuir a distância, talvez pudéssemos dar conta de nossos desejos da mesma forma como amamos a beleza de um azul que nunca poderá ser alcançado. “Algo desse anseio será apenas realocado pela proximidade, jamais apaziguado, assim como as montanhas deixam de ser azuis quando chegamos perto delas. O azul tingirá algum outro além. E nisso reside o mistério de por que as tragédias são sempre mais belas que as comédias e de por que temos tanto prazer na tristeza de certas canções e histórias. Algo estará sempre fora do nosso alcance”, teoriza Solnit.
No mundo das espécies que vivem abaixo de nossa atmosfera avermelhada, o azul é raridade, assim como é inexistente um pigmento natural dessa cor. Como não se surpreender com a escassez de alimentos azuis produzidos pela terra, quando abundam os vermelhos, amarelos, marrons ou verdejantes? Poucas são, também, as plantas que florescem em azul. E os raros pássaros e borboletas dotados de plumagem azulada devem esse privilégio a uma singular refração da luz em suas penas, de forma a cancelar qualquer raio que não seja azul. Amamos contemplar o azul não porque ele vem até nós, mas porque ele nos leva longe, já observara Goethe em sua teoria de cor e emoção. Clarice Lispector concordaria. “O azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul”, escreveu ela.
Se somos tantos a amar o azul, vale tentar o inalcançável — 2024 vem a galope.
O tempo da solidariedade
O dito segundo o qual todas as épocas estão a igual distância de Deus muito provavelmente já não nos serve pelo menos desde que se abriu a era atômica. Em linguagem secular, a ser verdade o dito, os tempos valem uns pelos outros, os males são aproximadamente os mesmos, as atribulações humanas essencialmente não se alteram – e beiram o absurdo. A partir de Hiroshima e Nagasaki, no entanto, passamos a carregar um peso infinitamente maior derivado da possibilidade de autodestruição do planeta e da espécie. E, agora, a aceleração vertiginosa inerente à condição pós-moderna, ou hipermoderna, acena para o fato de que a cada dia nos tornamos ainda mais perigosos para nós mesmos. Estaremos, pois, a uma distância maior de Deus.
Este é o vasto contexto no qual as chamadas grandes narrativas entraram em crise irreversível. Não há mais a ilusão de um único pensamento totalizante capaz de apreender, ainda que tendencialmente, o conjunto das determinações da realidade. O marxismo – mesmo tendo sido uma dessas extraordinárias construções totais que buscaram seguir, como sombra incômoda, a mercantilização do mundo – não existe mais como a filosofia insuperável do nosso tempo, na famosa observação de Sartre. E, apesar de ter se afirmado como potente crítica da economia, desde o princípio terá tido a lacuna de uma incompreensão substantiva da política e do Estado. Uma lacuna cheia de consequências, como se sabe.
É que os operários industriais nunca foram a maioria da população, como em algum momento se esperava que fossem. O movimento socialista, no seu todo, revestiu o mundo do trabalho de uma inédita dignidade, mas os operários, como tais, mesmo civilizando com lutas e sacrifícios a sociedade do capital, não podiam ser uma classe dotada de universalidade. E por um motivo simples: classes e partidos são intrinsecamente realidades parciais e não portam em si a redenção humana.
Deixemos de lado o marxismo tornado ideologia de Estado nos países que, entre 1917 e 1989, constituíram o “socialismo real”. Seu valor teórico é irrelevante ou, para falar a verdade, inexistente. Descrevendo uma realidade peculiaríssima, em que católicos e socialistas (comunistas), religiosos e leigos se entenderam e desentenderam por décadas, o filósofo italiano Giuseppe Vacca tem apontado outro déficit da explicação marxista do mundo moderno. No segundo pós-guerra, só e unicamente na tradição da esquerda do seu país é que teria emergido a consciência embrionária, mas explosiva, da subestimação do fenômeno religioso. Esta consciência, presente destacadamente em Palmiro Togliatti, dirigente histórico do Partido Comunista Italiano e protagonista do “diálogo” estimulado pelo Concílio Vaticano 2.º, traria consigo a exigência de uma refundação radical do marxismo, até hoje por fazer.
Ao contrário do que supuseram os pais fundadores, nenhuma reconciliação harmoniosa dos homens, entre si e com a natureza, teria o condão de suprimir não só o comportamento religioso, como também, por óbvio, o limite da existência humana. Este limite, de resto, está na base de tal comportamento e, mais em geral, de toda inquietação humana, filosófica ou não. Em outras palavras, as religiões são uma constante antropológica, não uma forma transitória de alienação; uma objetivação essencial, não um acidente histórico circunscrito às sociedades de classe.
Para Togliatti, a cegueira do marxismo – da maior parte do imenso e contraditório corpus teórico que esta expressão recobre – decorre de uma assimilação apressada do iluminismo do século 18 e do materialismo do século 19, com suas respostas unívocas e, por isso, falsas para o problema do sentido, ou sentidos, da vida. Aqui, as respostas só podem ser múltiplas e diversificadas, desafiando-se naturalmente umas às outras. E a verdade está rigorosamente entre os homens – e com ninguém em particular, seja crente ou não.
Se isso for razoável, então o que há de socialismo no mundo – a social-democracia, o socialismo liberal, o trabalhismo, etc. –, para sair da atual posição defensiva, deve ir além da democracia política (que só os radicais chamam de “burguesa”). Trata-se também de evitar a armadilha estendida pelo “paradigma tecnocrático” – termo de uma recente exortação do papa Francisco para indicar uma democracia sem raízes entre os “de baixo” – e reelaborar, de modo laico, os valores da solidariedade próprios de todas as religiões. Valores cuja vitalidade se acentua ainda mais nesta época do ano, propícia à generosidade e à fraternidade.
Este é o vasto contexto no qual as chamadas grandes narrativas entraram em crise irreversível. Não há mais a ilusão de um único pensamento totalizante capaz de apreender, ainda que tendencialmente, o conjunto das determinações da realidade. O marxismo – mesmo tendo sido uma dessas extraordinárias construções totais que buscaram seguir, como sombra incômoda, a mercantilização do mundo – não existe mais como a filosofia insuperável do nosso tempo, na famosa observação de Sartre. E, apesar de ter se afirmado como potente crítica da economia, desde o princípio terá tido a lacuna de uma incompreensão substantiva da política e do Estado. Uma lacuna cheia de consequências, como se sabe.
Por certo, as sociais-democracias clássicas, ainda em vida dos pais fundadores – Karl Marx e Friedrich Engels –, contribuíram para tornar mais complexa a vida política das sociedades em que atuaram, mas àquelas forças de vanguarda faltou a plena consciência do que faziam. Trouxeram os subalternos para a esfera pública, ajudaram a configurar a nova subjetividade de massas e a integrá-la socialmente, mas, ao mesmo tempo, o mito persistente da revolução proletária fazia o papel de uma bola de chumbo atada aos pés.
É que os operários industriais nunca foram a maioria da população, como em algum momento se esperava que fossem. O movimento socialista, no seu todo, revestiu o mundo do trabalho de uma inédita dignidade, mas os operários, como tais, mesmo civilizando com lutas e sacrifícios a sociedade do capital, não podiam ser uma classe dotada de universalidade. E por um motivo simples: classes e partidos são intrinsecamente realidades parciais e não portam em si a redenção humana.
Deixemos de lado o marxismo tornado ideologia de Estado nos países que, entre 1917 e 1989, constituíram o “socialismo real”. Seu valor teórico é irrelevante ou, para falar a verdade, inexistente. Descrevendo uma realidade peculiaríssima, em que católicos e socialistas (comunistas), religiosos e leigos se entenderam e desentenderam por décadas, o filósofo italiano Giuseppe Vacca tem apontado outro déficit da explicação marxista do mundo moderno. No segundo pós-guerra, só e unicamente na tradição da esquerda do seu país é que teria emergido a consciência embrionária, mas explosiva, da subestimação do fenômeno religioso. Esta consciência, presente destacadamente em Palmiro Togliatti, dirigente histórico do Partido Comunista Italiano e protagonista do “diálogo” estimulado pelo Concílio Vaticano 2.º, traria consigo a exigência de uma refundação radical do marxismo, até hoje por fazer.
Ao contrário do que supuseram os pais fundadores, nenhuma reconciliação harmoniosa dos homens, entre si e com a natureza, teria o condão de suprimir não só o comportamento religioso, como também, por óbvio, o limite da existência humana. Este limite, de resto, está na base de tal comportamento e, mais em geral, de toda inquietação humana, filosófica ou não. Em outras palavras, as religiões são uma constante antropológica, não uma forma transitória de alienação; uma objetivação essencial, não um acidente histórico circunscrito às sociedades de classe.
Para Togliatti, a cegueira do marxismo – da maior parte do imenso e contraditório corpus teórico que esta expressão recobre – decorre de uma assimilação apressada do iluminismo do século 18 e do materialismo do século 19, com suas respostas unívocas e, por isso, falsas para o problema do sentido, ou sentidos, da vida. Aqui, as respostas só podem ser múltiplas e diversificadas, desafiando-se naturalmente umas às outras. E a verdade está rigorosamente entre os homens – e com ninguém em particular, seja crente ou não.
Se isso for razoável, então o que há de socialismo no mundo – a social-democracia, o socialismo liberal, o trabalhismo, etc. –, para sair da atual posição defensiva, deve ir além da democracia política (que só os radicais chamam de “burguesa”). Trata-se também de evitar a armadilha estendida pelo “paradigma tecnocrático” – termo de uma recente exortação do papa Francisco para indicar uma democracia sem raízes entre os “de baixo” – e reelaborar, de modo laico, os valores da solidariedade próprios de todas as religiões. Valores cuja vitalidade se acentua ainda mais nesta época do ano, propícia à generosidade e à fraternidade.
A força moral do perdão
Nossas famílias estão dilaceradas por disputas pessoais e divergências políticas. Que tal aproveitar o encontro de Natal e resgatar o espírito cristão?
Sempre me surpreendo como a mensagem cristã mais basilar, de amor ao próximo e perdão aos inimigos, pode ser soterrada e obliterada no discurso de alguns pregadores por cobranças prepotentes. O cristianismo do nosso dia a dia está muito mais preocupado em policiar e condenar condutas —sobretudo as sexuais —do que em compreender, amar e perdoar.
Isso, para mim, é o avesso da mensagem cristã. Tendemos a ser duros com quem nos ofende e complacentes com nossos erros. O amor aos inimigos e o perdão às ofensas exigem atuar em sentido contrário: evitar julgar o próximo e ser mais severo com nossos próprios equívocos.
Jesus não escondeu a essência de sua mensagem. Disse para perdoar não apenas sete vezes, como já não conseguia o impaciente Pedro, mas 70 vezes sete. Disse para fazermos o bem a quem nos odeia e que se alguém nos ferir a face ofereçamos a outra. Disse para não respondermos ao mal com o mal e nem a ofensa com ofensa. A mensagem dos evangelhos é muito clara: devemos perdoar, compreender e não responder o mal com o mal. É uma exigência moral elevada, difícil de sustentar, mas é um norte que deveríamos nos esforçar por perseguir.
O perdão é uma força moral pujante. Desorganiza e reorienta as relações viciadas. Muitas vezes estamos presos em ciclos de ódio em nossas relações pessoais —e na política também. Vivemos respondendo com cotoveladas às cotoveladas que recebemos, num ciclo longo de ofensa e resposta, cuja origem se perde no tempo. Cada lado acha que há uma ofensa primordial justificando as respostas, assim o ciclo se sustenta envolvendo os dois lados numa espiral crescente que faz mal a todos. Sempre que respondemos ao mal com o mal, aumentamos a quantidade de mal no mundo. O perdão interrompe unilateralmente esse ciclo. Não quer nada em troca, não pede reciprocidade, não exige reparação ou desculpas. É um ato de generosidade, uma grandeza d’alma que, pela força moral, desconcerta e reorganiza a relação entre as partes. O perdão cura. E o perdão transforma.
Quem já perdoou ou recebeu perdão, o perdão genuíno, sabe como ele desarranja, depois reorganiza, recupera. Quem conhece a história da independência da Índia ou do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos sabe como o princípio de não responder ao mal com o mal pode ser revolucionário —pode desfazer estruturas que toneladas de bombas seriam incapazes de demolir.
Quando era mais jovem, não conseguia compreender a mensagem cristã. Acreditava que o cristianismo celebrava a apatia e cultivava a submissão. Esses preceitos me pareciam simplesmente execráveis. Eu odiava aquela mensagem e não conseguia entender seu apelo.
Só muito tempo depois pude perceber que, onde achava que havia celebração da apatia, havia na verdade um compromisso moral inabalável, uma firmeza de caráter a toda prova. Onde enxergava submissão, opressão e humilhação vergonhosa, havia na verdade grandeza, generosidade e altivez. Às vezes a pressa da juventude nos faz surdos e só com a paciência do tempo aprendemos a escutar.
Sempre me surpreendo como a mensagem cristã mais basilar, de amor ao próximo e perdão aos inimigos, pode ser soterrada e obliterada no discurso de alguns pregadores por cobranças prepotentes. O cristianismo do nosso dia a dia está muito mais preocupado em policiar e condenar condutas —sobretudo as sexuais —do que em compreender, amar e perdoar.
Isso, para mim, é o avesso da mensagem cristã. Tendemos a ser duros com quem nos ofende e complacentes com nossos erros. O amor aos inimigos e o perdão às ofensas exigem atuar em sentido contrário: evitar julgar o próximo e ser mais severo com nossos próprios equívocos.
Jesus não escondeu a essência de sua mensagem. Disse para perdoar não apenas sete vezes, como já não conseguia o impaciente Pedro, mas 70 vezes sete. Disse para fazermos o bem a quem nos odeia e que se alguém nos ferir a face ofereçamos a outra. Disse para não respondermos ao mal com o mal e nem a ofensa com ofensa. A mensagem dos evangelhos é muito clara: devemos perdoar, compreender e não responder o mal com o mal. É uma exigência moral elevada, difícil de sustentar, mas é um norte que deveríamos nos esforçar por perseguir.
O perdão é uma força moral pujante. Desorganiza e reorienta as relações viciadas. Muitas vezes estamos presos em ciclos de ódio em nossas relações pessoais —e na política também. Vivemos respondendo com cotoveladas às cotoveladas que recebemos, num ciclo longo de ofensa e resposta, cuja origem se perde no tempo. Cada lado acha que há uma ofensa primordial justificando as respostas, assim o ciclo se sustenta envolvendo os dois lados numa espiral crescente que faz mal a todos. Sempre que respondemos ao mal com o mal, aumentamos a quantidade de mal no mundo. O perdão interrompe unilateralmente esse ciclo. Não quer nada em troca, não pede reciprocidade, não exige reparação ou desculpas. É um ato de generosidade, uma grandeza d’alma que, pela força moral, desconcerta e reorganiza a relação entre as partes. O perdão cura. E o perdão transforma.
Quem já perdoou ou recebeu perdão, o perdão genuíno, sabe como ele desarranja, depois reorganiza, recupera. Quem conhece a história da independência da Índia ou do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos sabe como o princípio de não responder ao mal com o mal pode ser revolucionário —pode desfazer estruturas que toneladas de bombas seriam incapazes de demolir.
Quando era mais jovem, não conseguia compreender a mensagem cristã. Acreditava que o cristianismo celebrava a apatia e cultivava a submissão. Esses preceitos me pareciam simplesmente execráveis. Eu odiava aquela mensagem e não conseguia entender seu apelo.
Só muito tempo depois pude perceber que, onde achava que havia celebração da apatia, havia na verdade um compromisso moral inabalável, uma firmeza de caráter a toda prova. Onde enxergava submissão, opressão e humilhação vergonhosa, havia na verdade grandeza, generosidade e altivez. Às vezes a pressa da juventude nos faz surdos e só com a paciência do tempo aprendemos a escutar.
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