domingo, 3 de setembro de 2023
O Brasil e a porcelana de bidê
O Brasil só me interessa profissionalmente. Fora do expediente, desligo do país, na medida do possível. Numa cidade como São Paulo, fica mais fácil, a depender do bairro; em Brasília, capital federal, suponho que seja mais mais difícil, não importa o setor, assim como na ex-capital federal Rio de Janeiro, em qualquer zona. As paisagens arquitetônico-tropicais são demasiadamente arquetípicas.
Como sou obrigado a me interessar profissionalmente pelo Brasil, tenho de assistir à transmissão de sessões e audiências, de julgamentos e de cerimônias. É difícil ir ao conteúdo, porque a forma prepondera, com o português levando surras que eu diria homéricas como os porres — e eu procurando salvar, ao menos mentalmente, concordâncias e regências. Acho até que concordância e regência corretas já nos garantiriam alguma governabilidade.
O português já foi melhor, os ternos nem tanto, e a ironia e o sarcasmo também tiveram dias mais radiosos. Exagero. Dias menos nublados.
O lulismo e o bolsonarismo, com a obtusidade, a vulgaridade e a corrupção da linguagem que lhes são peculiares, apagaram as poucas boutades inteligentes, respostas espirituosas e farpas sutis com as quais a política brasileira e também a imprensa política costumavam ser parcialmente iluminadas.
Ficou ainda mais aborrecido, portanto, interessar-se profissionalmente pelo Brasil. Resta-nos procurar espirituosidade em outras latitudes.
Sobre os personagens nacionais que povoam o meu cotidiano de trabalho, importo da França o que uma ex-conselheira do presidente Jacques Chirac disse a respeito dele: “Eu achava que ele era feito do mármore das estátuas. Na realidade, ele é da louça da qual são feitos os bidês”.
Como sou obrigado a me interessar profissionalmente pelo Brasil, tenho de assistir à transmissão de sessões e audiências, de julgamentos e de cerimônias. É difícil ir ao conteúdo, porque a forma prepondera, com o português levando surras que eu diria homéricas como os porres — e eu procurando salvar, ao menos mentalmente, concordâncias e regências. Acho até que concordância e regência corretas já nos garantiriam alguma governabilidade.
O português já foi melhor, os ternos nem tanto, e a ironia e o sarcasmo também tiveram dias mais radiosos. Exagero. Dias menos nublados.
O lulismo e o bolsonarismo, com a obtusidade, a vulgaridade e a corrupção da linguagem que lhes são peculiares, apagaram as poucas boutades inteligentes, respostas espirituosas e farpas sutis com as quais a política brasileira e também a imprensa política costumavam ser parcialmente iluminadas.
Ficou ainda mais aborrecido, portanto, interessar-se profissionalmente pelo Brasil. Resta-nos procurar espirituosidade em outras latitudes.
Sobre os personagens nacionais que povoam o meu cotidiano de trabalho, importo da França o que uma ex-conselheira do presidente Jacques Chirac disse a respeito dele: “Eu achava que ele era feito do mármore das estátuas. Na realidade, ele é da louça da qual são feitos os bidês”.
Se a lei é igual para todos, Bolsonaro não pode ficar a salvo dela
Como tenta fazer com Lula, o Centrão arrombou a porta do governo Bolsonaro e tomou-lhe cargos e o controle do Orçamento da União. Foi o preço que Bolsonaro pagou, e Lula não quer pagar, para não ser atropelado por um processo de impeachment.
Para Bolsonaro, não faria, como não fez, diferença. Bolsonaro só desejava uma coisa: torpedear a democracia para pôr no seu lugar um regime autoritário à moda antiga com o apoio dos militares. Se tivesse sido reeleito, era o que faria com chances de êxito.
Como estaria o Brasil se Bolsonaro tivesse vencido? Com mais um ministro do Supremo Tribunal Federal nomeado por ele, e outro às vésperas de ser indicado; quatro ministros de um total de 11. No Congresso, a extrema-direita estaria nadando de braçada.
Por desnecessário, não teria havido a tentativa de golpe abortada em dezembro, nem acampamentos à porta de quarteis, nem o golpe fracassado do 8 de janeiro. O golpe contra a democracia fora consumado em 30 de outubro, e pela via do voto.
O roubo das joias seguiria encoberto, mas caso revelado, não teria importância. Dar-se-ia um jeito de rebaixá-lo. Quem se disporia a enfrentar um governante no auge de sua força? Vida longa ao Rei, clamariam os súditos, e os derrotados que se calassem.
O Papa é argentino, mas, por sorte, Deus ainda parece ter alguma queda pelo Brasil. O tiro saiu pela culatra e Bolsonaro, agora, roga aos céus para não ser preso pelo que fez e pelo que deixou de fazer. Foi por pouco, mas ele perdeu. Inelegível já está por oito anos.
Se a lei é de fato para todos, como se diz e os juízes apregoam, não faz o menor sentido prosperar o que se cochicha insistentemente em Brasília, e que é o mesmo que o ex-presidente Michel Temer defendeu em entrevista à revista VEJA:
“Ao prender um ex-presidente, em vez de produzir efeitos negativos, você o vitimiza. Não é útil para o país. Temos no Brasil uma radicalização de ambos os lados. São palavras, gestos, momentos que levam a nação a uma intranquilidade”.
Temer foi preso pela Polícia Federal em 2019 por ordem do juiz federal Marcelo Bretas, que apurava crimes de cartel, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e fraudes na licitação da construção da usina nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro.
Temer foi solto cinco dias depois. É uma marca que carrega e que o faz se queixar sempre que pode:
“Não fui preso, mas sequestrado. Não havia indiciamento, denúncia, nem representação. E o juiz fez o que fez. Se viesse a mim para que eu comparecesse, é claro que iria. Eles me esperaram sair de casa, me pegaram na rua, com fuzil, para sequestrar.”
Daí a sugerir que se crie uma lei poupando ex-presidentes da prisão é dar um salto na direção da impunidade para contemplar um número reduzido de pessoas. Temer fala em “tratamento adequado à figura do ex-presidente”. É a mesma coisa.
Lula foi condenado e ficou preso 580 dias. Ninguém falou que ele não deveria ter sido preso dada à sua condição de ex-presidente. Foi solto por decisão do Supremo Tribunal Federal que anulou a condenação por julgá-la tecnicamente errada e mal conduzida.
À Justiça não basta que seja justa, ela tem que parecer que é. Só existe justiça se ela valer igualmente para todos.
Para Bolsonaro, não faria, como não fez, diferença. Bolsonaro só desejava uma coisa: torpedear a democracia para pôr no seu lugar um regime autoritário à moda antiga com o apoio dos militares. Se tivesse sido reeleito, era o que faria com chances de êxito.
Como estaria o Brasil se Bolsonaro tivesse vencido? Com mais um ministro do Supremo Tribunal Federal nomeado por ele, e outro às vésperas de ser indicado; quatro ministros de um total de 11. No Congresso, a extrema-direita estaria nadando de braçada.
Por desnecessário, não teria havido a tentativa de golpe abortada em dezembro, nem acampamentos à porta de quarteis, nem o golpe fracassado do 8 de janeiro. O golpe contra a democracia fora consumado em 30 de outubro, e pela via do voto.
O roubo das joias seguiria encoberto, mas caso revelado, não teria importância. Dar-se-ia um jeito de rebaixá-lo. Quem se disporia a enfrentar um governante no auge de sua força? Vida longa ao Rei, clamariam os súditos, e os derrotados que se calassem.
O Papa é argentino, mas, por sorte, Deus ainda parece ter alguma queda pelo Brasil. O tiro saiu pela culatra e Bolsonaro, agora, roga aos céus para não ser preso pelo que fez e pelo que deixou de fazer. Foi por pouco, mas ele perdeu. Inelegível já está por oito anos.
Se a lei é de fato para todos, como se diz e os juízes apregoam, não faz o menor sentido prosperar o que se cochicha insistentemente em Brasília, e que é o mesmo que o ex-presidente Michel Temer defendeu em entrevista à revista VEJA:
“Ao prender um ex-presidente, em vez de produzir efeitos negativos, você o vitimiza. Não é útil para o país. Temos no Brasil uma radicalização de ambos os lados. São palavras, gestos, momentos que levam a nação a uma intranquilidade”.
Temer foi preso pela Polícia Federal em 2019 por ordem do juiz federal Marcelo Bretas, que apurava crimes de cartel, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e fraudes na licitação da construção da usina nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro.
Temer foi solto cinco dias depois. É uma marca que carrega e que o faz se queixar sempre que pode:
“Não fui preso, mas sequestrado. Não havia indiciamento, denúncia, nem representação. E o juiz fez o que fez. Se viesse a mim para que eu comparecesse, é claro que iria. Eles me esperaram sair de casa, me pegaram na rua, com fuzil, para sequestrar.”
Daí a sugerir que se crie uma lei poupando ex-presidentes da prisão é dar um salto na direção da impunidade para contemplar um número reduzido de pessoas. Temer fala em “tratamento adequado à figura do ex-presidente”. É a mesma coisa.
Lula foi condenado e ficou preso 580 dias. Ninguém falou que ele não deveria ter sido preso dada à sua condição de ex-presidente. Foi solto por decisão do Supremo Tribunal Federal que anulou a condenação por julgá-la tecnicamente errada e mal conduzida.
À Justiça não basta que seja justa, ela tem que parecer que é. Só existe justiça se ela valer igualmente para todos.
Pedágio amargo
O título deste artigo lembra o pedágio cobrado aos usuários em rodovias, e raros lembrariam do pedágio pago para ir do presente ao futuro usando a escola. As classes médias e altas aceitam pagar o alto pedágio das mensalidades, e a nação aceita o custo ainda mais alto da omissão, do descuido do país com a educação de base. Dos atuais 50 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar, estima-se que, graças ao gasto financeiro de até 150 bilhões de reais de mães e pais, 10 milhões deles terminarão o ensino médio minimamente alfabetizados para os desafios da contemporaneidade. No mesmo período, o Brasil pagará o amargo pedágio de desperdiçar ao redor de 40 milhões de cérebros que não terão o preparo necessário para facilitar a busca de felicidade pessoal e participar da construção de um país melhor e mais belo.
A parcela que paga não reclama do pedágio chamado mensalidade porque vê educação como benefício familiar, não como atalho para o futuro do Brasil; aqueles que têm os filhos em cursos públicos sem qualidade não reclamam porque veem a escola como favor do Estado, sobretudo pela merenda e a guarda da criança por algumas horas em cada dia, não um investimento para o futuro de cada brasileiro e da nação. Não imaginamos a escola como estrada para o futuro do país.
Nos acostumamos com a ideia de que o Estado deve construir e manter estradas geográficas para todos, independente de quem as utiliza — mas a educação das crianças deve ser paga por seus pais ou mantida pelos pobres municípios sem condições de assegurar a qualidade necessária. Desejamos todas as estradas boas e públicas, mas aceitamos que a educação seja privada e sem qualidade igual para todos. O Brasil já despertou até mesmo contra o amargo pedágio da queima de florestas, mas ainda não para a constante queima de cérebros em escolas sem qualidade. Não temos a percepção da educação como alavanca do progresso, daí não sentirmos amargura no pedágio que alguns desembolsam para a educação privada de seus filhos, nem no imenso custo da omissão ao nos contentarmos com poucas crianças concluindo o ensino médio com qualidade: alfabetizadas para o mundo moderno.
A escola não é vista com a nobreza de uma estrada, uma ponte, aeroporto ou hidrelétrica. Além disso, cada criança é vista isoladamente, não como parte do conjunto da inteligência que o país precisa para construir seu futuro. Em consequência, o pedágio não parece amargo, uma vez que os ricos se beneficiam privadamente, e a sociedade não considera o desperdício de talento intelectual, por omissão com a educação de base.
Exige-se que as estradas para deslocamento entre cidades devam ser públicas, mas tolera-se a privatização das escolas, estradas para o futuro sem necessidade de qualidade para todos. A sociedade brasileira aceita o pedágio para o futuro, por mensalidade privada ou por omissão pública, sem a amargura sentida ao pagar pedágio em rodovias entre cidades.
Se houvesse consciência da importância da educação como o vetor do progresso, para a vida do aluno e o desenvolvimento do país, o Brasil não aceitaria uma única escola sem qualidade: nem pedágio por mensalidade para os filhos dos ricos, nem a perda do talento de cada criança.
A parcela que paga não reclama do pedágio chamado mensalidade porque vê educação como benefício familiar, não como atalho para o futuro do Brasil; aqueles que têm os filhos em cursos públicos sem qualidade não reclamam porque veem a escola como favor do Estado, sobretudo pela merenda e a guarda da criança por algumas horas em cada dia, não um investimento para o futuro de cada brasileiro e da nação. Não imaginamos a escola como estrada para o futuro do país.
Nos acostumamos com a ideia de que o Estado deve construir e manter estradas geográficas para todos, independente de quem as utiliza — mas a educação das crianças deve ser paga por seus pais ou mantida pelos pobres municípios sem condições de assegurar a qualidade necessária. Desejamos todas as estradas boas e públicas, mas aceitamos que a educação seja privada e sem qualidade igual para todos. O Brasil já despertou até mesmo contra o amargo pedágio da queima de florestas, mas ainda não para a constante queima de cérebros em escolas sem qualidade. Não temos a percepção da educação como alavanca do progresso, daí não sentirmos amargura no pedágio que alguns desembolsam para a educação privada de seus filhos, nem no imenso custo da omissão ao nos contentarmos com poucas crianças concluindo o ensino médio com qualidade: alfabetizadas para o mundo moderno.
A escola não é vista com a nobreza de uma estrada, uma ponte, aeroporto ou hidrelétrica. Além disso, cada criança é vista isoladamente, não como parte do conjunto da inteligência que o país precisa para construir seu futuro. Em consequência, o pedágio não parece amargo, uma vez que os ricos se beneficiam privadamente, e a sociedade não considera o desperdício de talento intelectual, por omissão com a educação de base.
Exige-se que as estradas para deslocamento entre cidades devam ser públicas, mas tolera-se a privatização das escolas, estradas para o futuro sem necessidade de qualidade para todos. A sociedade brasileira aceita o pedágio para o futuro, por mensalidade privada ou por omissão pública, sem a amargura sentida ao pagar pedágio em rodovias entre cidades.
Se houvesse consciência da importância da educação como o vetor do progresso, para a vida do aluno e o desenvolvimento do país, o Brasil não aceitaria uma única escola sem qualidade: nem pedágio por mensalidade para os filhos dos ricos, nem a perda do talento de cada criança.
O genocídio nosso, de todo dia
Não aguentamos mais.
Era assim que eu queria começar a escrever essa coluna, para falar da mortandade da gente preta neste mês de agosto de 2023. Crianças foram mortas pelo braço armado do Estado, lideranças negras e quilombolas foram assassinadas, chacinas em periferias seguem sendo feitas como se o que estivesse em jogo não fossem a vida de seres humanos. Há uma cumplicidade histórica do Estado brasileiro (sobretudo na sua esfera estadual) em parte dessas ações. Isso, quando o próprio Estado não é o responsável direto pelas ações que geram uma letalidade absurda da população negra.
Mas será mesmo que não aguentamos mais?
Ficamos tristes, enraivecidos, desamparados... Conversamos sobre o assunto, fazemos posts indignados, e a vida segue, até que outro menino de pele marrom seja morto por ser um menino de pele marrom. E aí, começamos o ciclo novamente.
O horror é tamanho que não há descanso. E aqui, é preciso fazer uma retrospectiva deste agosto e lembrar de quem teve sua vida violentamente ceifada.
Mal havíamos nos recuperado da chacina que aconteceu no litoral sul de São Paulo e, dia 7 de agosto, Thiago Menezes Flausino, 13 anos, foi executado na Cidade de Deus, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ficamos chocados, fotos de crianças chorando de desespero no velório de seu colega foram amplamente veiculadas nas redes sociais. Parecia que não aguentaríamos mais uma criança morta em decorrência de ações policiais. O presidente da República se solidarizou com o horror da morte de Thiago e cobrou responsabilidade do governo do estado (se implicando também na busca de soluções para esse problema)
Nem cinco dias se passaram e, na mesma "cidade maravilhosa", outra criança negra foi morta. Eloáh Passos, de 5 anos, morreu dentro de casa durante uma ação policial no morro do Dendê. Não preciso dizer que o estardalhaço seria outro caso essa morte tivesse acontecido em Ipanema, Leblon ou Laranjeiras.
Na verdade, preciso sim.
Isso porque é uma grande mentira dizer que "não aguentamos mais ver a morte de pessoas negras". No Brasil, nós aguentamos sim. E, às vezes, me parece que tem gente que ainda quer mais...
Não é de hoje que vivemos um genocídio negro no Brasil. Em 1978, Abdias do Nascimento publicou uma importante obra chamada Genocídio do Negro brasileiro, na qual demonstrava que a morte desenfreada na população negra não é obra do acaso, ou resultado de uma série de infelizes incidentes. Há intenção e intencionalidade nessas mortes. Há um plano, um projeto muito bem executado, que mantém a população negra sempre no limiar da vida e da morte. Um limiar que é atravessado pela classe social na qual os sujeitos negros se inserem, mas que está sempre ali, numa espécie de sombra constante que nos lembra todos os dias que nós, negros, somos facilmente matáveis.
As mortes de crianças negras obviamente nos chocam mais, mas elas também entram nas estatísticas brasileiras que foram recentemente publicadas pela rede de Observatórios de Segurança que apurou o número da letalidade negra nas ações policiais em seis estados do Brasil. Os números são alarmantes e parecem corroborar a existência de um padrão que, infelizmente, segue ordenando as ações vinculadas à segurança pública do país.
Mas o genocídio negro parece não ter limites. Nesse mesmo agosto de 2023, Mãe Bernardette Pacífico (isso mesmo, uma mãe de santo que carregava a paz no seu sobrenome) foi assassinada a tiros dentro de seu terreiro em Salvador. E essa foi uma daquelas crônicas de uma morte anunciada: não bastasse ter vivido a execução de seu filho (que como ela lutava pela comunidade quilombola que fazia parte), Dona Bernadete (uma importante mãe de Santo liderança quilombola) havia recentemente denunciado que estava sofrendo ameaças de morte. Uma denúncia que foi publicizada, mas que não foi capaz de mudar essa lei soberana que ainda ordena a vida negra brasileira: seguimos sendo matáveis.
O balanço do mês de agosto é que o genocídio negro brasileiro segue seu curso, se entranhando no nosso cotidiano, naquilo que consideramos "normal" ou "natural" numa sociedade que se diz democrática. Porque, por aqui, na nossa democracia, negro continua sendo alvo.
Até quando?
Era assim que eu queria começar a escrever essa coluna, para falar da mortandade da gente preta neste mês de agosto de 2023. Crianças foram mortas pelo braço armado do Estado, lideranças negras e quilombolas foram assassinadas, chacinas em periferias seguem sendo feitas como se o que estivesse em jogo não fossem a vida de seres humanos. Há uma cumplicidade histórica do Estado brasileiro (sobretudo na sua esfera estadual) em parte dessas ações. Isso, quando o próprio Estado não é o responsável direto pelas ações que geram uma letalidade absurda da população negra.
Mas será mesmo que não aguentamos mais?
Ficamos tristes, enraivecidos, desamparados... Conversamos sobre o assunto, fazemos posts indignados, e a vida segue, até que outro menino de pele marrom seja morto por ser um menino de pele marrom. E aí, começamos o ciclo novamente.
O horror é tamanho que não há descanso. E aqui, é preciso fazer uma retrospectiva deste agosto e lembrar de quem teve sua vida violentamente ceifada.
Mal havíamos nos recuperado da chacina que aconteceu no litoral sul de São Paulo e, dia 7 de agosto, Thiago Menezes Flausino, 13 anos, foi executado na Cidade de Deus, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ficamos chocados, fotos de crianças chorando de desespero no velório de seu colega foram amplamente veiculadas nas redes sociais. Parecia que não aguentaríamos mais uma criança morta em decorrência de ações policiais. O presidente da República se solidarizou com o horror da morte de Thiago e cobrou responsabilidade do governo do estado (se implicando também na busca de soluções para esse problema)
Nem cinco dias se passaram e, na mesma "cidade maravilhosa", outra criança negra foi morta. Eloáh Passos, de 5 anos, morreu dentro de casa durante uma ação policial no morro do Dendê. Não preciso dizer que o estardalhaço seria outro caso essa morte tivesse acontecido em Ipanema, Leblon ou Laranjeiras.
Na verdade, preciso sim.
Isso porque é uma grande mentira dizer que "não aguentamos mais ver a morte de pessoas negras". No Brasil, nós aguentamos sim. E, às vezes, me parece que tem gente que ainda quer mais...
Não é de hoje que vivemos um genocídio negro no Brasil. Em 1978, Abdias do Nascimento publicou uma importante obra chamada Genocídio do Negro brasileiro, na qual demonstrava que a morte desenfreada na população negra não é obra do acaso, ou resultado de uma série de infelizes incidentes. Há intenção e intencionalidade nessas mortes. Há um plano, um projeto muito bem executado, que mantém a população negra sempre no limiar da vida e da morte. Um limiar que é atravessado pela classe social na qual os sujeitos negros se inserem, mas que está sempre ali, numa espécie de sombra constante que nos lembra todos os dias que nós, negros, somos facilmente matáveis.
As mortes de crianças negras obviamente nos chocam mais, mas elas também entram nas estatísticas brasileiras que foram recentemente publicadas pela rede de Observatórios de Segurança que apurou o número da letalidade negra nas ações policiais em seis estados do Brasil. Os números são alarmantes e parecem corroborar a existência de um padrão que, infelizmente, segue ordenando as ações vinculadas à segurança pública do país.
Mas o genocídio negro parece não ter limites. Nesse mesmo agosto de 2023, Mãe Bernardette Pacífico (isso mesmo, uma mãe de santo que carregava a paz no seu sobrenome) foi assassinada a tiros dentro de seu terreiro em Salvador. E essa foi uma daquelas crônicas de uma morte anunciada: não bastasse ter vivido a execução de seu filho (que como ela lutava pela comunidade quilombola que fazia parte), Dona Bernadete (uma importante mãe de Santo liderança quilombola) havia recentemente denunciado que estava sofrendo ameaças de morte. Uma denúncia que foi publicizada, mas que não foi capaz de mudar essa lei soberana que ainda ordena a vida negra brasileira: seguimos sendo matáveis.
O balanço do mês de agosto é que o genocídio negro brasileiro segue seu curso, se entranhando no nosso cotidiano, naquilo que consideramos "normal" ou "natural" numa sociedade que se diz democrática. Porque, por aqui, na nossa democracia, negro continua sendo alvo.
Até quando?
quinta-feira, 31 de agosto de 2023
A super-quinta-feira da delação, uma promoção da Polícia Federal
Bons ou maus tempos aqueles em que nos postávamos à frente de um aparelho de televisão a comer pipocas e a beber qualquer coisa, e assistíamos com toda atenção a interrogatórios intermináveis, e a revelações de arrepiar os pelos.
Os mais vidrados no que se passava na telinha, com o celular ao alcance das mãos, trocavam ligações com os amigos e, naturalmente, tiravam conclusões apressadas. Só consultavam os que pensavam como eles, deixando de fora os que discordavam.
Cada um na sua bolha. Quando o PT governava o país não éramos nós contra eles? Quando o PT começou a cair, e também nos últimos quatro anos, eram eles contra nós, e vida que segue. Seguiu e deu no que vimos com a derrota de Bolsonaro e do golpe.
Nesta quinta-feira, a Polícia Federal ouvirá o depoimento simultâneo de oito supostos meliantes; supostos porque poderá haver algum inocente entre eles. Todos juram que são. Na Penitenciária da Papuda e em Bangú 8 só há inocentes. Os oito:
* Jair Messias Bolsonaro, ex-presidente da República;
* Michelle Bolsonaro, a encantadora ex-primeira-dama;
* Mauro Cid, tenente-coronel e ex-ajudante-de-ordem de Bolsonaro;
* Mauro Cesar Lourena Cid, general, pai de Mauro Cid;
* Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro;
* Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro;
* Marcelo Câmara, coronel e ex-assessor de Bolsonaro; e
* Osmar Crivelatti, segundo tenente e ex-assessor de Bolsonaro.
Os depoimentos serão simultâneos para evitar que eles respondam às perguntas de maneira combinada. Nada impede que tenham combinado antes. Ao que tudo indica, Mauro Cid ficará de fora de qualquer tipo de combinação.
Desde a semana passada, Mauro Cid passou a colaborar com a investigação sobre o roubo das joias milionárias oferecidas ao Estado brasileiro e surrupiadas por Bolsonaro e sua gangue, e sobre a trama que resultou no golpe fracassado de 8/1.
Na sexta-feira (25) e na segunda-feira (28), ele depôs durante 16 horas. Foi convencido de que só lhe resta falar para diminuir o tamanho de sua pena, se condenado. Com dó do pai, metido por ele na encrenca, e sob pressão da mulher, começou a cantar.
Wassef não tem outra saída que não seja cantar, cantar. Foi ele, em missão dada ainda não se sabe por quem, que voou aos Estados Unidos para recomprar o Rolex vendido por Mauro Cid. Foi ele que devolveu o relógio a Mauro Cid. Está tudo documentado.
Senhor do destino dos depoentes, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, proibiu a Polícia Federal de vazar, sem querer ou querendo, o que ouvirá hoje dessa gente, o que já ouviu e o que venha a ouvir. Segredo de Justiça. Uma pena.
Mas se for pelo bem de todos, felicidade geral da Nação e condenação futura dos culpados, que assim seja, amém. Mais cedo ou mais tarde saberemos.
Os mais vidrados no que se passava na telinha, com o celular ao alcance das mãos, trocavam ligações com os amigos e, naturalmente, tiravam conclusões apressadas. Só consultavam os que pensavam como eles, deixando de fora os que discordavam.
Cada um na sua bolha. Quando o PT governava o país não éramos nós contra eles? Quando o PT começou a cair, e também nos últimos quatro anos, eram eles contra nós, e vida que segue. Seguiu e deu no que vimos com a derrota de Bolsonaro e do golpe.
Nesta quinta-feira, a Polícia Federal ouvirá o depoimento simultâneo de oito supostos meliantes; supostos porque poderá haver algum inocente entre eles. Todos juram que são. Na Penitenciária da Papuda e em Bangú 8 só há inocentes. Os oito:
* Jair Messias Bolsonaro, ex-presidente da República;
* Michelle Bolsonaro, a encantadora ex-primeira-dama;
* Mauro Cid, tenente-coronel e ex-ajudante-de-ordem de Bolsonaro;
* Mauro Cesar Lourena Cid, general, pai de Mauro Cid;
* Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro;
* Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro;
* Marcelo Câmara, coronel e ex-assessor de Bolsonaro; e
* Osmar Crivelatti, segundo tenente e ex-assessor de Bolsonaro.
Os depoimentos serão simultâneos para evitar que eles respondam às perguntas de maneira combinada. Nada impede que tenham combinado antes. Ao que tudo indica, Mauro Cid ficará de fora de qualquer tipo de combinação.
Desde a semana passada, Mauro Cid passou a colaborar com a investigação sobre o roubo das joias milionárias oferecidas ao Estado brasileiro e surrupiadas por Bolsonaro e sua gangue, e sobre a trama que resultou no golpe fracassado de 8/1.
Na sexta-feira (25) e na segunda-feira (28), ele depôs durante 16 horas. Foi convencido de que só lhe resta falar para diminuir o tamanho de sua pena, se condenado. Com dó do pai, metido por ele na encrenca, e sob pressão da mulher, começou a cantar.
Wassef não tem outra saída que não seja cantar, cantar. Foi ele, em missão dada ainda não se sabe por quem, que voou aos Estados Unidos para recomprar o Rolex vendido por Mauro Cid. Foi ele que devolveu o relógio a Mauro Cid. Está tudo documentado.
Senhor do destino dos depoentes, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, proibiu a Polícia Federal de vazar, sem querer ou querendo, o que ouvirá hoje dessa gente, o que já ouviu e o que venha a ouvir. Segredo de Justiça. Uma pena.
Mas se for pelo bem de todos, felicidade geral da Nação e condenação futura dos culpados, que assim seja, amém. Mais cedo ou mais tarde saberemos.
quarta-feira, 30 de agosto de 2023
De costas para a realidade
Um dos poetas mais celebrados do século XX, T. S. Eliot, disse num verso que “o gênero humano não suporta tanta realidade”. Ele escreveu isto em 1943, numa Europa que estava sendo devastada pela guerra, ainda sem a esperança de vencer. Suas palavras descrevem perfeitamente as disposições do homem de hoje, especialmente na chamada cultura ocidental, a nossa cultura, queiramos ou não.
Eu relembro esses versos para melhor entender um aspecto para mim intrigante do debate político que se observa neste momento no Brasil, tal como mediado pelos meios de comunicação, em especial a televisão. Nesses tempos de vida menos presencial, quem se sente menos à vontade com as esquisitices das redes sociais acaba recorrendo com mais frequência aos canais informativos de televisão, para tomar conhecimento da vida pública e dos movimentos da política. Infelizmente, por mais tempo que dedicamos a este mister menos conhecemos do Brasil real e mais somos apresentados a um país de fantasia. Na televisão a política é cada vez mais uma das muitas formas de entretenimento.
Por mais otimistas que sejamos é impossível não reconhecer que o Brasil é um lugar muito problemático. Há mais de 40 anos somos um país de crescimento baixo e muito irregular. Além disto, somos um dos países mais desiguais de todo o mundo e esta desigualdade não tem se atenuado com o passar do tempo. As políticas públicas compensatórias têm evitado catástrofes humanitárias, mas ter 140 milhões de brasileiros, numa população pouco acima de 200 milhões, sobrevivendo exclusivamente de transferências de renda do Governo, é um sinal contundente que somos uma sociedade que fracassou.
Todo este tempo sem crescer trouxe grandes sequelas. Nossa infraestrutura está sendo consumida pelo tempo e pelo uso e não há investimentos para refazê-la ou restaurá-la. A nossa indústria está encolhendo. Os sistemas de saúde e educação estão sempre subfinanciados e quase toda a população depende deles. O transporte público nas grandes cidades não é ruim, é uma maldade. As favelas estão engolindo as cidades e faltam habitação decente e saneamento. Quem vê o noticiário político, no entanto, não toma conhecimento de nada disto, o que nos faz lembrar de outros versos, agora de um poeta nosso, o Chico Buarque: “a dor da gente não sai no jornal”.
Nas televisões, uma parte do tempo se gasta em frívolos debates sobre mudanças ministeriais, num governo que mal começou, pois apenas na semana passada foi aprovado o chamado arcabouço fiscal, sem o qual o governo apenas funciona, mas não governa de fato. Num conjunto de 37 ministérios especula-se sobre a criação de mais alguns. Há novos ministros escolhidos, de cujos currículos pouco se sabe. Seus ministérios serão escolhidos depois. Certamente são homens polivalentes. Em outra boa parte do tempo as televisões cuidam das agruras do ex-Presidente e seu entorno, por causa de joias, presentes e outras travessuras. É preciso manter acesos os antagonismos, pois é só disto que é feita a política. Os problemas reais do país podem ser deixados para depois, sempre haverá tempo para isto.
Enquanto isto, o Presidente, enfadado desses problemas, ocupa o resto do tempo dos noticiários com suas aventuras internacionais, preocupado que está em jogar o peso geopolítico do Brasil na criação de uma nova ordem internacional policêntrica, ao lado da China, da Rússia, e agora também do Irã e da Arábia Saudita, em contraposição ao poder colonialista dos países ocidentais. Quer tentar também a criação de uma nova moeda de reserva internacional, para libertar o mundo da dominação do dólar. O mundo vive a feliz convergência de um líder sem problemas para resolver em seu país e um mundo carente de soluções redentoras. Tudo isto oferece às televisões um bom estoque de coisas prazerosas
Enquanto os brasileiros estiverem distraídos com esses enredos ficcionais vamos viver em paz, embora sufocados sob o peso cada vez maior dos problemas que escolhemos ignorar. A grande dúvida é saber se na vida real, como nas ficções de baixa qualidade, o final será também feliz.
Eu relembro esses versos para melhor entender um aspecto para mim intrigante do debate político que se observa neste momento no Brasil, tal como mediado pelos meios de comunicação, em especial a televisão. Nesses tempos de vida menos presencial, quem se sente menos à vontade com as esquisitices das redes sociais acaba recorrendo com mais frequência aos canais informativos de televisão, para tomar conhecimento da vida pública e dos movimentos da política. Infelizmente, por mais tempo que dedicamos a este mister menos conhecemos do Brasil real e mais somos apresentados a um país de fantasia. Na televisão a política é cada vez mais uma das muitas formas de entretenimento.
Por mais otimistas que sejamos é impossível não reconhecer que o Brasil é um lugar muito problemático. Há mais de 40 anos somos um país de crescimento baixo e muito irregular. Além disto, somos um dos países mais desiguais de todo o mundo e esta desigualdade não tem se atenuado com o passar do tempo. As políticas públicas compensatórias têm evitado catástrofes humanitárias, mas ter 140 milhões de brasileiros, numa população pouco acima de 200 milhões, sobrevivendo exclusivamente de transferências de renda do Governo, é um sinal contundente que somos uma sociedade que fracassou.
Todo este tempo sem crescer trouxe grandes sequelas. Nossa infraestrutura está sendo consumida pelo tempo e pelo uso e não há investimentos para refazê-la ou restaurá-la. A nossa indústria está encolhendo. Os sistemas de saúde e educação estão sempre subfinanciados e quase toda a população depende deles. O transporte público nas grandes cidades não é ruim, é uma maldade. As favelas estão engolindo as cidades e faltam habitação decente e saneamento. Quem vê o noticiário político, no entanto, não toma conhecimento de nada disto, o que nos faz lembrar de outros versos, agora de um poeta nosso, o Chico Buarque: “a dor da gente não sai no jornal”.
Nas televisões, uma parte do tempo se gasta em frívolos debates sobre mudanças ministeriais, num governo que mal começou, pois apenas na semana passada foi aprovado o chamado arcabouço fiscal, sem o qual o governo apenas funciona, mas não governa de fato. Num conjunto de 37 ministérios especula-se sobre a criação de mais alguns. Há novos ministros escolhidos, de cujos currículos pouco se sabe. Seus ministérios serão escolhidos depois. Certamente são homens polivalentes. Em outra boa parte do tempo as televisões cuidam das agruras do ex-Presidente e seu entorno, por causa de joias, presentes e outras travessuras. É preciso manter acesos os antagonismos, pois é só disto que é feita a política. Os problemas reais do país podem ser deixados para depois, sempre haverá tempo para isto.
Enquanto isto, o Presidente, enfadado desses problemas, ocupa o resto do tempo dos noticiários com suas aventuras internacionais, preocupado que está em jogar o peso geopolítico do Brasil na criação de uma nova ordem internacional policêntrica, ao lado da China, da Rússia, e agora também do Irã e da Arábia Saudita, em contraposição ao poder colonialista dos países ocidentais. Quer tentar também a criação de uma nova moeda de reserva internacional, para libertar o mundo da dominação do dólar. O mundo vive a feliz convergência de um líder sem problemas para resolver em seu país e um mundo carente de soluções redentoras. Tudo isto oferece às televisões um bom estoque de coisas prazerosas
Enquanto os brasileiros estiverem distraídos com esses enredos ficcionais vamos viver em paz, embora sufocados sob o peso cada vez maior dos problemas que escolhemos ignorar. A grande dúvida é saber se na vida real, como nas ficções de baixa qualidade, o final será também feliz.
segunda-feira, 28 de agosto de 2023
Esse Brasil lindo e trigueiro
Oitenta e cinco anos atrás, em sua Aquarela do Brasil, Ary Barroso descreveu o Brasil como “lindo e trigueiro”. E acrescentou que não há maior felicidade neste mundo que cochilar numa rede amarrada a dois coqueiros.
De fato, coqueirais o Brasil tem a perder de vista. Se cocos fossem uma commodity, como a soja ou o minério de ferro, os chineses com certeza sairiam daqui com navios cheios do valioso produto. E nos pagariam com pandeiros made in China para o carnaval do Rio, sombrinhas para o frevo do Recife e, naturalmente, redes de amarrar em coqueiros.
Além de lindo, o grande Ary acrescentou que o Brasil era um país trigueiro, ou seja, pardo, mulato, moreno. Em 1938, a miscigenação racial era uma ínfima parcela do que é hoje, mas ele nem precisou de óculos para notar que, àquela época, já éramos um país amplamente miscigenado. E, juntando os dois adjetivos, lindo e trigueiro, deixou claro que só um rematado idiota vê a miscigenação como um mal. Um país trigueiro reduz ao mínimo possível a infinidade de conflitos que acontecem em países não miscigenados.
Longe de mim desconhecer que nossas desigualdades raciais não estão resolvidas. Os não-brancos ainda aparecem em desvantagem em todos os indicadores coletados pelo IBGE. São discriminados com mais frequência, são menos escolarizados, auferem remuneração inferior (sobretudo as mulheres) por trabalho igual e têm maior chance de ser encarcerados ou assassinados. Somos menos racistas que, por exemplo, os Estados Unidos, mas o racismo existe, aninhado na mesma molécula que abriga a pobreza. O que acima vai dito é de uma meridiana clareza. Nunca me passou pela cabeça que um dia alguém viesse a pôr em dúvida os benefícios da miscigenação.
Mas, pasmem, esse alguém apareceu. São os chamados “identitários”. Segundo essa escola de pensamento (há quem a chame de seita), cada grupo tem de assumir sua identidade. Cada um no seu quadrado. Claro, a ideia de identidade comporta inúmeras variações. No limite, cada indivíduo tem a sua. Mas os “identitários” referem-se principalmente às etnias, abominando toda miscigenação entre elas. A política de cotas raciais reforça em alguma medida esse entendimento. Existem relatos de indivíduos morenos ou quase brancos que se declaram negros para se qualificar ao benefício da cota. Grave, porém, é o problema de fundo. “Cada um no seu quadrado” significa conferir menos valor ao que nos une do que ao que nos separa. Significa rejeitar a identidade nacional, ou seja, a identidade de todo o País, que a duras penas conseguimos construir, não obstante a pobreza, as desigualdades sociais e regionais e por aí afora. Dispenso-me de comentar aqui o show de identitarismo que Lula encenou em sua cerimônia de posse; esperto, ele sabia que tal sandice seria eterna enquanto durasse, e ela durou pouco, uma vez que o apoio do Centrão lhe seria mais rentável.
Um leitor excêntrico poderá objetar que, sem essa esdrúxula bandeira, os identitaristas nada teriam a fazer. Não questiono a força desse argumento, mas peço vênia para sugerir-lhes algumas alternativas. Por que não se dedicam a uma avaliação séria de nossa organização educacional? Por que não buscam uma justificativa (mesmo sabendo que não a irão encontrar) para a gratuidade do ensino superior nas universidades públicas para os filhos de famílias abastadas, aquelas que não dispensam uma casa na praia ou uma viagem anual à Europa? Quanto eu saiba, o primeiro a questionar isso foi Karl Marx, no documento intitulado Crítica ao Programa de Gotha, de 1875. Numa curta passagem, ele se referiu ao Estado norte-americano de Wisconsin, indagando por que o erário arcava com a formação superior dos filhos da burguesia. Apressome a acrescentar que tal situação piorou muito. Hoje, nos Estados Unidos, algumas universidades públicas cobram anuidades mais altas que as universidades aristocráticas do Leste (Princeton, Yale e Harvard), a chamada Ivy League. Sendo ou não um intento deliberado, o resultado, obviamente, é a exclusão de muitos candidatos aptos, entre os quais, não preciso dizer, avultam os negros. No Brasil, a gratuidade poderia ser mantida para os estudantes comprovadamente desprovidos de meios, exigindo-se, porém, dos abastados o pagamento de anuidade ou a dedicação de uma parte de seu tempo a contribuir para o aprimoramento dos docentes de primeiro grau em sua microrregião.
A educação é apenas um exemplo, quiçá o mais óbvio. Mas todos nós – dos brancos de olhos azuis aos pretos retintos – pagamos impostos. Concebendo projetos que em muitos casos nem mereceriam comentário, o governo nos impõe (imposto não é voluntário, é algo que nos é imposto) o respectivo financiamento. O leitor por acaso se lembra da pletora de estádios de futebol construída com recursos públicos? Certos clubes despendem somas astronômicas para contratar atletas e técnicos, mas mandam a fatura para o governo, ou seja, para todos nós. Sim, somos lindos e trigueiros, mas cumpre reconhecer que somos também uma carneirada.
De fato, coqueirais o Brasil tem a perder de vista. Se cocos fossem uma commodity, como a soja ou o minério de ferro, os chineses com certeza sairiam daqui com navios cheios do valioso produto. E nos pagariam com pandeiros made in China para o carnaval do Rio, sombrinhas para o frevo do Recife e, naturalmente, redes de amarrar em coqueiros.
Além de lindo, o grande Ary acrescentou que o Brasil era um país trigueiro, ou seja, pardo, mulato, moreno. Em 1938, a miscigenação racial era uma ínfima parcela do que é hoje, mas ele nem precisou de óculos para notar que, àquela época, já éramos um país amplamente miscigenado. E, juntando os dois adjetivos, lindo e trigueiro, deixou claro que só um rematado idiota vê a miscigenação como um mal. Um país trigueiro reduz ao mínimo possível a infinidade de conflitos que acontecem em países não miscigenados.
Longe de mim desconhecer que nossas desigualdades raciais não estão resolvidas. Os não-brancos ainda aparecem em desvantagem em todos os indicadores coletados pelo IBGE. São discriminados com mais frequência, são menos escolarizados, auferem remuneração inferior (sobretudo as mulheres) por trabalho igual e têm maior chance de ser encarcerados ou assassinados. Somos menos racistas que, por exemplo, os Estados Unidos, mas o racismo existe, aninhado na mesma molécula que abriga a pobreza. O que acima vai dito é de uma meridiana clareza. Nunca me passou pela cabeça que um dia alguém viesse a pôr em dúvida os benefícios da miscigenação.
Mas, pasmem, esse alguém apareceu. São os chamados “identitários”. Segundo essa escola de pensamento (há quem a chame de seita), cada grupo tem de assumir sua identidade. Cada um no seu quadrado. Claro, a ideia de identidade comporta inúmeras variações. No limite, cada indivíduo tem a sua. Mas os “identitários” referem-se principalmente às etnias, abominando toda miscigenação entre elas. A política de cotas raciais reforça em alguma medida esse entendimento. Existem relatos de indivíduos morenos ou quase brancos que se declaram negros para se qualificar ao benefício da cota. Grave, porém, é o problema de fundo. “Cada um no seu quadrado” significa conferir menos valor ao que nos une do que ao que nos separa. Significa rejeitar a identidade nacional, ou seja, a identidade de todo o País, que a duras penas conseguimos construir, não obstante a pobreza, as desigualdades sociais e regionais e por aí afora. Dispenso-me de comentar aqui o show de identitarismo que Lula encenou em sua cerimônia de posse; esperto, ele sabia que tal sandice seria eterna enquanto durasse, e ela durou pouco, uma vez que o apoio do Centrão lhe seria mais rentável.
Um leitor excêntrico poderá objetar que, sem essa esdrúxula bandeira, os identitaristas nada teriam a fazer. Não questiono a força desse argumento, mas peço vênia para sugerir-lhes algumas alternativas. Por que não se dedicam a uma avaliação séria de nossa organização educacional? Por que não buscam uma justificativa (mesmo sabendo que não a irão encontrar) para a gratuidade do ensino superior nas universidades públicas para os filhos de famílias abastadas, aquelas que não dispensam uma casa na praia ou uma viagem anual à Europa? Quanto eu saiba, o primeiro a questionar isso foi Karl Marx, no documento intitulado Crítica ao Programa de Gotha, de 1875. Numa curta passagem, ele se referiu ao Estado norte-americano de Wisconsin, indagando por que o erário arcava com a formação superior dos filhos da burguesia. Apressome a acrescentar que tal situação piorou muito. Hoje, nos Estados Unidos, algumas universidades públicas cobram anuidades mais altas que as universidades aristocráticas do Leste (Princeton, Yale e Harvard), a chamada Ivy League. Sendo ou não um intento deliberado, o resultado, obviamente, é a exclusão de muitos candidatos aptos, entre os quais, não preciso dizer, avultam os negros. No Brasil, a gratuidade poderia ser mantida para os estudantes comprovadamente desprovidos de meios, exigindo-se, porém, dos abastados o pagamento de anuidade ou a dedicação de uma parte de seu tempo a contribuir para o aprimoramento dos docentes de primeiro grau em sua microrregião.
A educação é apenas um exemplo, quiçá o mais óbvio. Mas todos nós – dos brancos de olhos azuis aos pretos retintos – pagamos impostos. Concebendo projetos que em muitos casos nem mereceriam comentário, o governo nos impõe (imposto não é voluntário, é algo que nos é imposto) o respectivo financiamento. O leitor por acaso se lembra da pletora de estádios de futebol construída com recursos públicos? Certos clubes despendem somas astronômicas para contratar atletas e técnicos, mas mandam a fatura para o governo, ou seja, para todos nós. Sim, somos lindos e trigueiros, mas cumpre reconhecer que somos também uma carneirada.
Educar a elite
Com a ilusão de que “em se plantando tudo na sua terra dá” sem necessidade de escola, e com a certeza de que para trabalhar dispunha de mão de obra escrava, a elite brasileira relegou, por séculos, a educação de seus filhos. Os ricos não precisavam e os pobres não deviam estudar. Por isso, grande parte de nossa população permaneceu analfabeta, poucos concluíam a educação de base e raríssimos seguiam cursos de ensino superior. Só a partir dos anos 1960, a parte rica universalizou o ensino médio para seus filhos e buscou ensino superior para muitos deles. Foi preciso esperar até o século XXI para surgirem leis que asseguram matrícula a todos os brasileiros na educação de base, em um sistema dividido em “escolas senzala” e “escolas casa-grande”, com qualidade muito desigual conforme a renda. Garantiu-se matrícula, mas não a frequência em cada dia, nem assistência durante o dia, tampouco permanência ao longo do ano e até o final do ensino fundamental, apenas metade dos alunos conclui o ensino médio, e poucos aprendem o necessário aos desafios da contemporaneidade.
A elite descobriu a importância de educar seus próprios filhos, mas ainda não percebeu a necessidade de educar toda a população. Não sabe que a qualidade dos médicos fica comprometida se seus auxiliares não conhecem a importância da falta de higiene para evitar transmissão de doenças; nem percebe que, por falta de conhecer idiomas estrangeiros, ao ler a bula do remédio ou o manual de equipamento, enfermeiros cometem erros. Os ricos não sabem que sofreriam menos violência e precisariam gastar menos em segurança de seus condomínios se todo brasileiro conseguisse emprego e renda, graças à educação que ofereça um ofício e habilidade das modernas ferramentas digitais; não sabem que a democracia é prejudicada pela falta de educação de base.
Nossos economistas não perceberam ainda que a educação de base para todos é um fator de produção tão necessário quanto capital, mão de obra, recursos naturais; não levam em conta que a educação de todos é necessária para dinamizar o turismo graças a taxistas, vendedores e pessoas que falem idiomas estrangeiros em ruas pacíficas. Os engenheiros não consideram o aumento na eficiência, se os pedreiros conhecessem as bases da geometria e os operários tivessem noções de física.
A elite não percebe que a mente de cada pessoa se alimenta também do conhecimento dos seus compatriotas, porque a educação não é plena, se disponível apenas para poucos. Em uma ilha deserta, o doutor também está analfabeto enquanto não ensinar o outro sobrevivente a ler. Cada pessoa que aprende um idioma beneficia todas as que já o falavam. Nossos ricos não sabem que ao limitar o ensino a poucos estão afogando seus filhos na deseducação social, ou induzindo-os à emigração em busca de paz nas ruas, civilidade, serviços que funcionem, conquistados no exterior graças ao fato de outros países terem entendido que a educação deve ser democrática.
Nosso desafio maior e mais imediato é educar as elites para entenderem a importância de educação para todos. Sem isso, será difícil dar o salto para a civilização que o Brasil merece.
“A mente de cada pessoa se alimenta também do conhecimento de seus compatriotas”
A elite descobriu a importância de educar seus próprios filhos, mas ainda não percebeu a necessidade de educar toda a população. Não sabe que a qualidade dos médicos fica comprometida se seus auxiliares não conhecem a importância da falta de higiene para evitar transmissão de doenças; nem percebe que, por falta de conhecer idiomas estrangeiros, ao ler a bula do remédio ou o manual de equipamento, enfermeiros cometem erros. Os ricos não sabem que sofreriam menos violência e precisariam gastar menos em segurança de seus condomínios se todo brasileiro conseguisse emprego e renda, graças à educação que ofereça um ofício e habilidade das modernas ferramentas digitais; não sabem que a democracia é prejudicada pela falta de educação de base.
Nossos economistas não perceberam ainda que a educação de base para todos é um fator de produção tão necessário quanto capital, mão de obra, recursos naturais; não levam em conta que a educação de todos é necessária para dinamizar o turismo graças a taxistas, vendedores e pessoas que falem idiomas estrangeiros em ruas pacíficas. Os engenheiros não consideram o aumento na eficiência, se os pedreiros conhecessem as bases da geometria e os operários tivessem noções de física.
A elite não percebe que a mente de cada pessoa se alimenta também do conhecimento dos seus compatriotas, porque a educação não é plena, se disponível apenas para poucos. Em uma ilha deserta, o doutor também está analfabeto enquanto não ensinar o outro sobrevivente a ler. Cada pessoa que aprende um idioma beneficia todas as que já o falavam. Nossos ricos não sabem que ao limitar o ensino a poucos estão afogando seus filhos na deseducação social, ou induzindo-os à emigração em busca de paz nas ruas, civilidade, serviços que funcionem, conquistados no exterior graças ao fato de outros países terem entendido que a educação deve ser democrática.
Nosso desafio maior e mais imediato é educar as elites para entenderem a importância de educação para todos. Sem isso, será difícil dar o salto para a civilização que o Brasil merece.
O Brasil bandido
Antes de o leitor terminar de ler este parágrafo, dois cidadãos estarão tombando ou sendo assaltados, vítimas da bandidagem no país. De 5 doentes que baixam nos hospitais brasileiros, pelo menos um é vítima de uma “guerra civil” que mata por ano quase 50 mil cidadãos, número equivalente ao dos EUA e mais gente que os mortos em conflitos como este entre Rússia e Ucrânia. P.S. Com 10% das armas dos EUA, Brasil tem taxa de homicídios com armas de fogo 5 vezes maior. No Brasil, a taxa é de 23,5 assassinatos por 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos, a proporção é de 5,6, mesmo com os casos de mortandade em escolas.
A trilha sangrenta da violência no Brasil é longa. Até 1830, o país não tinha um código penal, submetendo-se como colônia portuguesa às Ordenações Filipinas, que abrigavam os crimes e penas a serem aplicadas, como morte, confisco de bens, multas e humilhação pública do réu. A reforma do sistema punitivo veio com a Constituição de 1824, extinguindo-se o açoite, a tortura, o ferro quente e outras penalidades.
O déficit de vagas nas prisões é histórico. Em 2019, segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen) havia cerca de 460 mil vagas para abrigar 800 mil detentos. Leve-se em consideração nessa estatística o elevado número de prisões provisórias, muitas desproporcionais ou descabidas.
Outro ângulo da violência é o do empobrecimento do país. O rombo da Previdência tem a colaboração do cano assassino que aleija multidões, alarga fila de hospitais, multiplica pensões de viúvas e devasta o PIB. Pesquisa do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que a violência impacta o PIB em 6%, algo em torno de R$ 400 bilhões em valores de hoje, soma equivalente ao gasto com educação. Dinheiro que poderia ser investido em hospitais, escolas, habitação, transportes, agricultura.
O quadro é aterrador: bandidos assaltando, sequestrando, matando pessoas; chacinas explodindo nos finais de semana; policiais matando bandidos; bandidos matando policiais; policiais matando policiais; bandidos roubando o dinheiro de companheiros presos; balas perdidas matando crianças; cárceres apinhados; estupros e mortes violentas cometidas pela mais fria estupidez.
Convivemos só em São Paulo com cerca de 100 mil bandidos soltos nas ruas. As cadeias públicas estão superlotadas. E, para fechar o circuito de violência, há sinais de que os negócios do PCC avançam no tráfico de drogas e na área dos crimes ambientais na Amazônia, com patrocínio de desmatamento, grilagem, garimpo em terras indígenas e extração ilegal de madeira. (A propósito, há cerca de 50 entidades que assumem o poder da violência no Estado brasileiro).
O clima em todo o país é de insegurança e medo. As polícias não conseguem desbaratar quadrilhas mancomunadas com os comerciantes de drogas, conter o ímpeto de galeras enfurecidas, aprisionar ladrões, estupradores e a corja de malandros que instalaram no Brasil um dos maiores Estados da violência permanente do mundo. Em muitos cantos, a sensação é a de que um barril de pólvora está prestes a explodir.
O império da maldade acossa a população. A brutalidade jorra em proporção geométrica e as paliativas soluções governamentais – melhoria e ampliação do sistema penitenciário, reforço e reaparelhamento das polícias ou policiais portando câmeras estão longe de dar conta do crescimento da violência.
O que se pode fazer de imediato? O beabá para combater a violência começa com o desfazimento da cosmética de miséria que se instalou no país, sob o olhar complacente dos governantes e suas promessas. O combate à violência está na pauta prioritária dos gestores públicos.
O Brasil, é triste, está se tornando um dos países com os maiores índices de criminalidade do planeta. Pior: a violência entorpece o ânimo social. O descalabro, fruto da banalização da violência e da morte, é a anestesia social. Um fenômeno que prenuncia o porvir de uma sociedade de zumbis. De tanto ver e sentir a morte, pertinho de si, as pessoas já não se abalam como antigamente. Entram em estupor, em estado de catatonia, presas, cegas, surdas e mudas, dentro de seu próprio medo. Essa catástrofe está gerando filhos duros, frios, insensíveis, danosos, que não têm sentido de lugar, de humanidade, de país, de Pátria. E nem de família.
Sem esperança, com emoções envenenadas pelo vírus das pandemias e por angústia, os cidadãos entram no limbo catatônico, assemelhando-se a dândis em passeio macabro e estonteante por um jardim de horrores.
A violência suga a vitamina da vida, a alegria de viver. O que fazer? Lutar com a arma da mobilização. Denunciar, pressionar, acusar, assinalar, abrir a palavra nas redes sociais. O momento exige participação social, oxigênio cívico, única força capaz de ressuscitar o animus animandi da sociedade.
A trilha sangrenta da violência no Brasil é longa. Até 1830, o país não tinha um código penal, submetendo-se como colônia portuguesa às Ordenações Filipinas, que abrigavam os crimes e penas a serem aplicadas, como morte, confisco de bens, multas e humilhação pública do réu. A reforma do sistema punitivo veio com a Constituição de 1824, extinguindo-se o açoite, a tortura, o ferro quente e outras penalidades.
O déficit de vagas nas prisões é histórico. Em 2019, segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen) havia cerca de 460 mil vagas para abrigar 800 mil detentos. Leve-se em consideração nessa estatística o elevado número de prisões provisórias, muitas desproporcionais ou descabidas.
Outro ângulo da violência é o do empobrecimento do país. O rombo da Previdência tem a colaboração do cano assassino que aleija multidões, alarga fila de hospitais, multiplica pensões de viúvas e devasta o PIB. Pesquisa do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que a violência impacta o PIB em 6%, algo em torno de R$ 400 bilhões em valores de hoje, soma equivalente ao gasto com educação. Dinheiro que poderia ser investido em hospitais, escolas, habitação, transportes, agricultura.
O quadro é aterrador: bandidos assaltando, sequestrando, matando pessoas; chacinas explodindo nos finais de semana; policiais matando bandidos; bandidos matando policiais; policiais matando policiais; bandidos roubando o dinheiro de companheiros presos; balas perdidas matando crianças; cárceres apinhados; estupros e mortes violentas cometidas pela mais fria estupidez.
Convivemos só em São Paulo com cerca de 100 mil bandidos soltos nas ruas. As cadeias públicas estão superlotadas. E, para fechar o circuito de violência, há sinais de que os negócios do PCC avançam no tráfico de drogas e na área dos crimes ambientais na Amazônia, com patrocínio de desmatamento, grilagem, garimpo em terras indígenas e extração ilegal de madeira. (A propósito, há cerca de 50 entidades que assumem o poder da violência no Estado brasileiro).
O clima em todo o país é de insegurança e medo. As polícias não conseguem desbaratar quadrilhas mancomunadas com os comerciantes de drogas, conter o ímpeto de galeras enfurecidas, aprisionar ladrões, estupradores e a corja de malandros que instalaram no Brasil um dos maiores Estados da violência permanente do mundo. Em muitos cantos, a sensação é a de que um barril de pólvora está prestes a explodir.
O império da maldade acossa a população. A brutalidade jorra em proporção geométrica e as paliativas soluções governamentais – melhoria e ampliação do sistema penitenciário, reforço e reaparelhamento das polícias ou policiais portando câmeras estão longe de dar conta do crescimento da violência.
O que se pode fazer de imediato? O beabá para combater a violência começa com o desfazimento da cosmética de miséria que se instalou no país, sob o olhar complacente dos governantes e suas promessas. O combate à violência está na pauta prioritária dos gestores públicos.
O Brasil, é triste, está se tornando um dos países com os maiores índices de criminalidade do planeta. Pior: a violência entorpece o ânimo social. O descalabro, fruto da banalização da violência e da morte, é a anestesia social. Um fenômeno que prenuncia o porvir de uma sociedade de zumbis. De tanto ver e sentir a morte, pertinho de si, as pessoas já não se abalam como antigamente. Entram em estupor, em estado de catatonia, presas, cegas, surdas e mudas, dentro de seu próprio medo. Essa catástrofe está gerando filhos duros, frios, insensíveis, danosos, que não têm sentido de lugar, de humanidade, de país, de Pátria. E nem de família.
Sem esperança, com emoções envenenadas pelo vírus das pandemias e por angústia, os cidadãos entram no limbo catatônico, assemelhando-se a dândis em passeio macabro e estonteante por um jardim de horrores.
A violência suga a vitamina da vida, a alegria de viver. O que fazer? Lutar com a arma da mobilização. Denunciar, pressionar, acusar, assinalar, abrir a palavra nas redes sociais. O momento exige participação social, oxigênio cívico, única força capaz de ressuscitar o animus animandi da sociedade.
domingo, 27 de agosto de 2023
Os ‘vulneráveis’ do andar de cima
O regime jurídico da Previdência brasileira tem uma singularidade. Quando ele avança num direito do andar de baixo, sempre em nome da modernidade, ele vira fumaça. Quando a moralidade pega o andar de cima, aos poucos a prebenda é restabelecida.
Até 2020, sete ex-governadores do Paraná recebiam pensões vitalícias de R$ 30 mil mensais. Em agosto, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) considerou inconstitucional a concessão do benefício. Em novembro, os ex-governadores recorreram, mas em fevereiro de 2021, a ministra Cármen Lúcia, relatando o recurso na Segunda Turma do STF, negou-lhes provimento. Seu colega Gilmar Mendes pediu vista. Em abril passado Gilmar votou, divergindo:
“Não há cruzada moral que justifique, à luz das garantias constitucionais, a abrupta supressão dos benefícios recebidos de boa-fé durante décadas por pessoas idosas, sem condições de reinserção no mercado de trabalho.”
Foi acompanhado pelos ministros Ricardo Lewandowski e Kassio Nunes Marques. Bingo, a pensão renasceu.
Três ex-governadores da Paraíba e quatro viúvas também querem as pensões de volta. (Uma delas, desembargadora, com vencimentos superiores a R$ 50 mil, veio a desistir.)
Um levantamento de 2014 mostrou que, à época, 157 ex-governadores ou suas viúvas recebiam pensões de até R$ 26,5 mil. Sabe-se lá quantos seriam hoje.
O precedente do Paraná levou o ex-governador Roberto Requião a pedir o restabelecimento de sua pensão de R$ 43 mil mensais. Ele governou o Paraná por 13 anos e, em março, comemorou seu 82º aniversário. No mesmo barco, como mostrou Murilo Rodrigues Alves, entrou o ex-governador João Elísio Ferraz de Campos, que governou o estado por dez meses.
Assim é a vida. O Supremo Tribunal Federal decide que as pensões vitalícias de ex-governadores são inconstitucionais e o mesmo tribunal decide que são constitucionais. Com sua decisão, o STF fez um milagre para litigantes do andar de cima.
Em junho de 1958, caiu nas cercanias do aeroporto de Curitiba o avião em que viajavam o ex-presidente Nereu Ramos, o então governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda, e um deputado. Todos catarinenses, emocionaram o estado, e a Assembleia Legislativa votou uma pensão vitalícia para as três viúvas. Como se fosse um gás, ela se expandiu.
Em 1991, a situação era a seguinte, nas palavras do então governador Vilson Kleinubing (1944-1998):
“A pensão passou a cobrir todas as viúvas de todos os deputados, mesmo aqueles que tivessem exercido o mandato apenas por um dia, de todos os desembargadores e juízes, inclusive os substitutos, todos os procuradores e conselheiros de Tribunal de Contas.
A pensão tornou-se também cumulativa. Assim, se um cidadão foi funcionário público, elegeu-se deputado estadual, depois federal e terminou a carreira no Tribunal de Contas, a viúva recebia as quatro pensões. Se a viúva morresse deixando filhos homens menores e filhas solteiras, a pensão sobrevivia até a maioridade ou o casamento. Assim, deram-se inúmeros casos de senhoras que jamais casaram no civil.
Em 1991, o valor destas pensões era quase equivalente ao orçamento da universidade do estado.”
O andar de cima cuida de si há séculos. Torturando os fatos, chega-se a dizer que José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu (1756-1835), foi o Adam Smith brasileiro, num sacrilégio contra a memória do economista inglês. Smith lecionava na Universidade de Glasgow e, ao trocar de emprego, devolveu aos alunos o que eles haviam pagado pelo curso que não daria.
O Smith brasileiro era um defensor da liberdade de comércio, mas estudou em Coimbra com dinheiro da Viúva. De volta ao Brasil, arrumou um emprego público e aposentou-se aos 50 anos. Arrumou outro emprego público, manteve a aposentadoria e tornou-se o primeiro professor de “Ciência Econômica”. Preservou a aposentadoria, mais os vencimentos do outro emprego e nunca deu uma aula.
Virou senador e visconde, publicou seu livro “Observações sobre o Commercio Franco no Brazil” pela Imprensa Régia e trabalhou como censor. Ele ainda estava vivo quando suas filhas pediram à Coroa pensões vitalícias (não se sabe se foram concedidas).
Cairu amarrava sua mula na sombra, mas, em 1823, defendia a concessão da cidadania para os negros libertos e condenava a proteção aos contrabandistas de escravizados. Perdeu.
Até 2020, sete ex-governadores do Paraná recebiam pensões vitalícias de R$ 30 mil mensais. Em agosto, o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) considerou inconstitucional a concessão do benefício. Em novembro, os ex-governadores recorreram, mas em fevereiro de 2021, a ministra Cármen Lúcia, relatando o recurso na Segunda Turma do STF, negou-lhes provimento. Seu colega Gilmar Mendes pediu vista. Em abril passado Gilmar votou, divergindo:
“Não há cruzada moral que justifique, à luz das garantias constitucionais, a abrupta supressão dos benefícios recebidos de boa-fé durante décadas por pessoas idosas, sem condições de reinserção no mercado de trabalho.”
Foi acompanhado pelos ministros Ricardo Lewandowski e Kassio Nunes Marques. Bingo, a pensão renasceu.
Três ex-governadores da Paraíba e quatro viúvas também querem as pensões de volta. (Uma delas, desembargadora, com vencimentos superiores a R$ 50 mil, veio a desistir.)
Um levantamento de 2014 mostrou que, à época, 157 ex-governadores ou suas viúvas recebiam pensões de até R$ 26,5 mil. Sabe-se lá quantos seriam hoje.
O precedente do Paraná levou o ex-governador Roberto Requião a pedir o restabelecimento de sua pensão de R$ 43 mil mensais. Ele governou o Paraná por 13 anos e, em março, comemorou seu 82º aniversário. No mesmo barco, como mostrou Murilo Rodrigues Alves, entrou o ex-governador João Elísio Ferraz de Campos, que governou o estado por dez meses.
Assim é a vida. O Supremo Tribunal Federal decide que as pensões vitalícias de ex-governadores são inconstitucionais e o mesmo tribunal decide que são constitucionais. Com sua decisão, o STF fez um milagre para litigantes do andar de cima.
Em junho de 1958, caiu nas cercanias do aeroporto de Curitiba o avião em que viajavam o ex-presidente Nereu Ramos, o então governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda, e um deputado. Todos catarinenses, emocionaram o estado, e a Assembleia Legislativa votou uma pensão vitalícia para as três viúvas. Como se fosse um gás, ela se expandiu.
Em 1991, a situação era a seguinte, nas palavras do então governador Vilson Kleinubing (1944-1998):
“A pensão passou a cobrir todas as viúvas de todos os deputados, mesmo aqueles que tivessem exercido o mandato apenas por um dia, de todos os desembargadores e juízes, inclusive os substitutos, todos os procuradores e conselheiros de Tribunal de Contas.
A pensão tornou-se também cumulativa. Assim, se um cidadão foi funcionário público, elegeu-se deputado estadual, depois federal e terminou a carreira no Tribunal de Contas, a viúva recebia as quatro pensões. Se a viúva morresse deixando filhos homens menores e filhas solteiras, a pensão sobrevivia até a maioridade ou o casamento. Assim, deram-se inúmeros casos de senhoras que jamais casaram no civil.
Em 1991, o valor destas pensões era quase equivalente ao orçamento da universidade do estado.”
O andar de cima cuida de si há séculos. Torturando os fatos, chega-se a dizer que José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu (1756-1835), foi o Adam Smith brasileiro, num sacrilégio contra a memória do economista inglês. Smith lecionava na Universidade de Glasgow e, ao trocar de emprego, devolveu aos alunos o que eles haviam pagado pelo curso que não daria.
O Smith brasileiro era um defensor da liberdade de comércio, mas estudou em Coimbra com dinheiro da Viúva. De volta ao Brasil, arrumou um emprego público e aposentou-se aos 50 anos. Arrumou outro emprego público, manteve a aposentadoria e tornou-se o primeiro professor de “Ciência Econômica”. Preservou a aposentadoria, mais os vencimentos do outro emprego e nunca deu uma aula.
Virou senador e visconde, publicou seu livro “Observações sobre o Commercio Franco no Brazil” pela Imprensa Régia e trabalhou como censor. Ele ainda estava vivo quando suas filhas pediram à Coroa pensões vitalícias (não se sabe se foram concedidas).
Cairu amarrava sua mula na sombra, mas, em 1823, defendia a concessão da cidadania para os negros libertos e condenava a proteção aos contrabandistas de escravizados. Perdeu.
A questão militar
A relação dos militares com o poder civil no Brasil é tumultuada desde a Proclamação da República. Os dois primeiros presidentes foram marechais, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. A queda da monarquia foi um golpe de estado gerado nas escolas militares que haviam descoberto as ideias de Augusto Comte, defensor de um regime forte chamado por ele de ditadura republicana. Além disso, o Imperador, D. Pedro II tinha uma ideia de Exército baseado na experiência dos países europeus. A força terrestre deveria ser organizada para a necessidade de fazer a guerra. Depois dela, a instituição seria extinta.
No dia 5 julho de 1922 houve o episódio dos 18 do forte. Foram os revoltosos reunidos no Forte de Copacabana que desafiaram o governo Epitácio Pessoa e o vencedor da eleição presidencial, Artur Bernardes. Vários deles saíram a pé para enfrentar as tropas do governo na altura da rua do Matoso, hoje Siqueira Campos. Dos revoltosos, 16 morreram, inclusive o civil Otávio Correia. Eduardo Gomes e Siqueira Campos foram gravemente feridos, mas sobreviveram. Dois anos depois os tenentes fizeram outro 5 de julho, desta vez em São Paulo.
Chegaram a dominar a cidade, mas decidiram recuar até Foz do Iguaçu. Chamada de coluna Miguel Costa ou coluna Prestes, esse movimento militar, com apoio de civis, percorreu cerca de 25 mil quilômetros no sentido diagonal no território brasileiro desde as barrancas do rio Paraná até Natal no Rio Grande do Norte. Andaram pelas grandes capitais nordeste. Conheceram a realidade do Brasil. Mas foram duramente reprimidos. Tiveram que fugir. Parte pediu asilo no Paraguai, outros seguiram para Bolívia. O movimento cessou em 1927.
Em 1930, Getúlio Vargas assumiu o poder, depois de derrubar o presidente Júlio Prestes, amparado pelos mesmos tenentes que fizeram a coluna. Eles, afinal, chegaram ao poder. E ficaram ao longo de todo o período da ditadura de Vargas, inclusive quando ele além de reprimir as liberdades individuais, criou o departamento de censura. E ficaram com ele na dúvida entre optar pelos fascistas que nos anos quarenta estavam ganhando a guerra e os comunistas que enalteciam um regime ditatorial em nome de promover a igualdade entre seus cidadãos.
Getúlio balançou entre um lado e outro, mas optou por um terceiro depois que Força Expedicionária Brasileira, a FEB, lutou na Itália contra os fascistas ao lado das forças do Exército norte-americano. Esse grupo, com suas ramificações no país, faria o golpe de 1964. O presidente brasileiro se reuniu com Franklin Roosevelt em Natal e permitiu que os norte-americanos construíssem em 1942 a base aérea em Parnamirim. Foi a maior base militar dos Estados Unidos fora do país antes da invasão da Europa.
Está claro, para todos os analistas e observadores da política nacional, que o ex-presidente Bolsonaro tentou realizar um golpe por intermédio dos militares. Ele é um inconsequente, não é um político. Nada garante que ele seria guindado ao poder se o golpe tivesse sido vitorioso. A disputa entre os generais é feroz. Em 64 quem assumiu o poder, não foi aquele que colocou as tropas na rua. O duelo entre os liberais e a linha dura dentro da instituição não economiza adjetivos, nem poupa reputações. É luta pesada.
Diante de tudo o que aconteceu na política brasileira com relação a atuação dos militares este é o momento ideal de rever tudo isso. Na Espanha, depois da democratização, os governos civis trataram de modificar o currículo das escolas do meio militar. Acabou o conceito de inimigo interno, uma vez que as forças armadas visam defender o país de eventual ameaça externa. Suas capacidades não devem ser utilizadas como poder de polícia. Jamais seus chefes devem se envolver em assuntos políticos. No caso brasileiro, é importante modificar a redação do famoso artigo 142 da Constituição Federal. E reformular tanto o Exército, quanto a Marinha e a Aeronáutica. São forças que têm grandes gastos com pessoal e possuem reduzida mobilidade.
Este é um aspecto muito pouco discutido no Brasil. Não há plano nacional de defesa. A Marinha de Guerra atende o Rio de Janeiro. Há muitos anos se especula sobre a criação da Segunda Armada, cuja sede ficaria em Belém ou em São Luís do Maranhão. A costa norte do país é completamente desprotegida, paraíso de piratas e contrabandistas de vários matizes. A Aeronáutica está em todo território nacional. Mas só agora descobriu o poder de ação de drones na guerra moderna. E o Exército precisou de um hacker para tentar descobrir segredos da Justiça Eleitoral. Mostrou não ter competência para executar o serviço, nem respeitar a as leis do Brasil.
No dia 5 julho de 1922 houve o episódio dos 18 do forte. Foram os revoltosos reunidos no Forte de Copacabana que desafiaram o governo Epitácio Pessoa e o vencedor da eleição presidencial, Artur Bernardes. Vários deles saíram a pé para enfrentar as tropas do governo na altura da rua do Matoso, hoje Siqueira Campos. Dos revoltosos, 16 morreram, inclusive o civil Otávio Correia. Eduardo Gomes e Siqueira Campos foram gravemente feridos, mas sobreviveram. Dois anos depois os tenentes fizeram outro 5 de julho, desta vez em São Paulo.
Chegaram a dominar a cidade, mas decidiram recuar até Foz do Iguaçu. Chamada de coluna Miguel Costa ou coluna Prestes, esse movimento militar, com apoio de civis, percorreu cerca de 25 mil quilômetros no sentido diagonal no território brasileiro desde as barrancas do rio Paraná até Natal no Rio Grande do Norte. Andaram pelas grandes capitais nordeste. Conheceram a realidade do Brasil. Mas foram duramente reprimidos. Tiveram que fugir. Parte pediu asilo no Paraguai, outros seguiram para Bolívia. O movimento cessou em 1927.
Em 1930, Getúlio Vargas assumiu o poder, depois de derrubar o presidente Júlio Prestes, amparado pelos mesmos tenentes que fizeram a coluna. Eles, afinal, chegaram ao poder. E ficaram ao longo de todo o período da ditadura de Vargas, inclusive quando ele além de reprimir as liberdades individuais, criou o departamento de censura. E ficaram com ele na dúvida entre optar pelos fascistas que nos anos quarenta estavam ganhando a guerra e os comunistas que enalteciam um regime ditatorial em nome de promover a igualdade entre seus cidadãos.
Getúlio balançou entre um lado e outro, mas optou por um terceiro depois que Força Expedicionária Brasileira, a FEB, lutou na Itália contra os fascistas ao lado das forças do Exército norte-americano. Esse grupo, com suas ramificações no país, faria o golpe de 1964. O presidente brasileiro se reuniu com Franklin Roosevelt em Natal e permitiu que os norte-americanos construíssem em 1942 a base aérea em Parnamirim. Foi a maior base militar dos Estados Unidos fora do país antes da invasão da Europa.
Está claro, para todos os analistas e observadores da política nacional, que o ex-presidente Bolsonaro tentou realizar um golpe por intermédio dos militares. Ele é um inconsequente, não é um político. Nada garante que ele seria guindado ao poder se o golpe tivesse sido vitorioso. A disputa entre os generais é feroz. Em 64 quem assumiu o poder, não foi aquele que colocou as tropas na rua. O duelo entre os liberais e a linha dura dentro da instituição não economiza adjetivos, nem poupa reputações. É luta pesada.
Diante de tudo o que aconteceu na política brasileira com relação a atuação dos militares este é o momento ideal de rever tudo isso. Na Espanha, depois da democratização, os governos civis trataram de modificar o currículo das escolas do meio militar. Acabou o conceito de inimigo interno, uma vez que as forças armadas visam defender o país de eventual ameaça externa. Suas capacidades não devem ser utilizadas como poder de polícia. Jamais seus chefes devem se envolver em assuntos políticos. No caso brasileiro, é importante modificar a redação do famoso artigo 142 da Constituição Federal. E reformular tanto o Exército, quanto a Marinha e a Aeronáutica. São forças que têm grandes gastos com pessoal e possuem reduzida mobilidade.
Este é um aspecto muito pouco discutido no Brasil. Não há plano nacional de defesa. A Marinha de Guerra atende o Rio de Janeiro. Há muitos anos se especula sobre a criação da Segunda Armada, cuja sede ficaria em Belém ou em São Luís do Maranhão. A costa norte do país é completamente desprotegida, paraíso de piratas e contrabandistas de vários matizes. A Aeronáutica está em todo território nacional. Mas só agora descobriu o poder de ação de drones na guerra moderna. E o Exército precisou de um hacker para tentar descobrir segredos da Justiça Eleitoral. Mostrou não ter competência para executar o serviço, nem respeitar a as leis do Brasil.
Tempo de mortos-vivos
O tema dos zumbis tem sido recorrente no imaginário atual. Nada da qualidade de um clássico do horror como "A Noite dos Mortos Vivos" (1968), de Georges Romero, nem da comédia "Os Mortos não Morrem" (2019), de Jim Jarmusch, mas de uma profusão de livros, filmes e séries que deixa entrever uma estranheza de época: além do espetáculo, esse enredo espaventoso ajuda a correr voz entre atores da vida pública.
No âmbito partidário, pergunta-se qual o potencial de uma militância semimorta, porém, com suposto amplo capital político. É bem o caso do ex-mandatário: uma interdição a prazo fixo, cujos efeitos ultrapassam o formalismo jurídico do ato, considerando-se o uso da expressão "bolsonarismo" (golpismo, milicianismo) como presença moribunda de algo politicamente significativo.
Vale, assim, retomar a conhecida referência de Gramsci ao interregno social, em que "o velho morre e o novo não pode nascer" ("Cadernos do Cárcere"). O pensador italiano considera "morbosa" essa circunstância, exemplificada na separação entre massas e partidos tradicionais. Entre nós, vem ocorrendo desde o fim da ditadura civil-militar.
Fica implícita uma advertência contra a possibilidade de fenômenos monstruosos. É que o sofrimento material e psíquico dos pobres pode encontrar alguma saída expressiva nos discursos bárbaros da ultradireita. Explica-se: o pensamento progressista oriundo do racionalismo letrado não consegue comunicar-se com as formas moleculares da pobreza. Chovem no molhado os intelectuais eurocentrados que Gramsci denominou de "moscas varejeiras", por apenas sobrevoarem as aspirações das massas.
O interregno é feito de indeterminação entre vida e morte. Isso caracteriza mutações em tecnologia e em condições de existência no novo desenho social. Daí a temática obsessiva dos zumbis no imaginário, intensificada pela percepção coletiva de uma ameaça latente de vírus, fungos e microrganismos à espécie humana. Semimorto, determinado patógeno (Covid-19) é mais letal do que plenamente vivo. Igualmente, no plano político, dá-se o retorno do que se supunha morto em termos civilizatórios, exumado dos túmulos da sociedade civil pelo neobarbarismo ascendente.
Por isso, a "deszumbificação" da sociedade não é figura de linguagem, mas estratégia cultural de uma contraofensiva política.
O inelegível garante que "não está morto politicamente". Tem meia razão, pois, semimorto, logo finalmente mito, zanza como zumbi à cata de ex-votos dos romeiros de expectativas frustradas: na prática, o fluxo exorbitante de Pix dos beatos, sangue de patriotários. Mas, oficialmente, é alimentado por vampiros de fundos públicos, na falta de coisa viva por inteiro, algo penoso de se encontrar fora da febre morbosa do interregno.
No âmbito partidário, pergunta-se qual o potencial de uma militância semimorta, porém, com suposto amplo capital político. É bem o caso do ex-mandatário: uma interdição a prazo fixo, cujos efeitos ultrapassam o formalismo jurídico do ato, considerando-se o uso da expressão "bolsonarismo" (golpismo, milicianismo) como presença moribunda de algo politicamente significativo.
Vale, assim, retomar a conhecida referência de Gramsci ao interregno social, em que "o velho morre e o novo não pode nascer" ("Cadernos do Cárcere"). O pensador italiano considera "morbosa" essa circunstância, exemplificada na separação entre massas e partidos tradicionais. Entre nós, vem ocorrendo desde o fim da ditadura civil-militar.
Fica implícita uma advertência contra a possibilidade de fenômenos monstruosos. É que o sofrimento material e psíquico dos pobres pode encontrar alguma saída expressiva nos discursos bárbaros da ultradireita. Explica-se: o pensamento progressista oriundo do racionalismo letrado não consegue comunicar-se com as formas moleculares da pobreza. Chovem no molhado os intelectuais eurocentrados que Gramsci denominou de "moscas varejeiras", por apenas sobrevoarem as aspirações das massas.
O interregno é feito de indeterminação entre vida e morte. Isso caracteriza mutações em tecnologia e em condições de existência no novo desenho social. Daí a temática obsessiva dos zumbis no imaginário, intensificada pela percepção coletiva de uma ameaça latente de vírus, fungos e microrganismos à espécie humana. Semimorto, determinado patógeno (Covid-19) é mais letal do que plenamente vivo. Igualmente, no plano político, dá-se o retorno do que se supunha morto em termos civilizatórios, exumado dos túmulos da sociedade civil pelo neobarbarismo ascendente.
Por isso, a "deszumbificação" da sociedade não é figura de linguagem, mas estratégia cultural de uma contraofensiva política.
O inelegível garante que "não está morto politicamente". Tem meia razão, pois, semimorto, logo finalmente mito, zanza como zumbi à cata de ex-votos dos romeiros de expectativas frustradas: na prática, o fluxo exorbitante de Pix dos beatos, sangue de patriotários. Mas, oficialmente, é alimentado por vampiros de fundos públicos, na falta de coisa viva por inteiro, algo penoso de se encontrar fora da febre morbosa do interregno.
Começou a campanha para que Bolsonaro não seja preso
De fato, nem todo mundo em Brasília vê a prisão de Bolsonaro com bons olhos. Fora de Brasília, nem todo mundo vê. E fora do Brasil, também não. Em Orlando, onde Bolsonaro se refugiou antes da tentativa de golpe do 8 de janeiro, quase todos os seus vizinhos não veriam com bons olhos uma eventual prisão dele.
A unanimidade é burra. Pode-se dizer que todos ou praticamente todos os devotos de Bolsonaro são contra sua prisão. Não importa o crime que lhe imputem. Roubo de joias presenteadas ao Estado brasileiro por governos amigos? Ora, não foram presenteadas ao Estado, mas a Bolsonaro e à sua encantadora mulher.
Golpe? Que golpe? O que aconteceu em 8 de janeiro foi o livre exercício do direito a se expressar. Sim, baderneiros infiltrados em meio aos manifestantes aproveitaram a ocasião para atacar prédios públicos. Devem ser punidos. Mas deve ser investigada a possível participação de elementos de esquerda a serviço do governo.
Michelle, por sinal, parece ser mais inteligente do que o marido. Ou então é mais bem assessorada. Enquanto Bolsonaro tenta explicar por que surrupiou as joias, ela brinca com o surrupio das joias. Em mais um evento do PL, o partido que paga as contas do ex-primeiro casal, Michelle disse, ontem, no Recife:
“Tem um povo tão atrapalhado, que fica assim: ‘cadê as joias, você não vai entregar?’. Querida, a joia está na Caixa Econômica Federal. Mas vocês pediram tanto, falaram tanto de joias que em breve teremos um lançamento: ‘Mijoias pra vocês’.
Michelle não é uma graça? Costumo ser condescendente com as primeiras-damas. O papel delas é ingrato. Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique, não gostava de Brasília e nem de ser tratada como dama de companhia. Socióloga respeitada, tocou a vida como levava antes, dando aulas e escrevendo.
Ruth evitava se meter com política. Michelle está metida até o talo, e aparentemente contra a vontade do marido. Tem falado mais do que ele. Se Bolsonaro permitir, poderá candidatar-se a senadora por Brasília ou outro Estado. Para ela, a investigação sobre o desvio das joias é uma tentativa de tirar o foco da CPI do Golpe.
É vasto seu estoque de frases feitas por marqueteiros:
“Eu vou fazer uma limonada docinha desse limão. E eu vou falar para vocês que quem me colocou aqui e vai me fortalecer é Deus.”
Bolsonaro e Michelle irão depor à Polícia Federal sobre o esquema de venda ilegal das joias. O celular do tenente-coronel Mauro Cid já fala, e o que ele tem contado deverá tirar Michelle de sua zona de conforto. Numa troca de mensagens, Mauro Cid diz que um conjunto de joias “já sumiu com a dona Michelle”. Será?
É cedo para saber se Cristiano Zanin, a sensação do Supremo Tribunal Federal, é um dos ministros da mais alta Corte que é contra a prisão de Bolsonaro. Há outros ali que são contra. Alegam que a prisão poderá fazer de Bolsonaro “um mártir”, e dividir ainda mais o país. Não será surpresa se Zanin pensar assim.
Adiante-se, porém, que mesmo dentro do PT tem gente contrária à prisão, e pelos mesmos motivos. Da Justiça, diz-se que ela é cega, ou que deveria ser, aplicando a lei sem fazer distinção. Mas com frequência, a Justiça levanta a venda, olha ao redor, e distingue. Bolsonaro poderá ser absolvido por excesso de provas contra ele.
No caso, a absolvição se daria com a transferência para a primeira instância da Justiça dos processos a que ele responde. Se isso acontecer, anote: ao invés de condenado ele poderá ser condecorado. Alguma dúvida? Não duvide. Nunca duvide.
A unanimidade é burra. Pode-se dizer que todos ou praticamente todos os devotos de Bolsonaro são contra sua prisão. Não importa o crime que lhe imputem. Roubo de joias presenteadas ao Estado brasileiro por governos amigos? Ora, não foram presenteadas ao Estado, mas a Bolsonaro e à sua encantadora mulher.
Golpe? Que golpe? O que aconteceu em 8 de janeiro foi o livre exercício do direito a se expressar. Sim, baderneiros infiltrados em meio aos manifestantes aproveitaram a ocasião para atacar prédios públicos. Devem ser punidos. Mas deve ser investigada a possível participação de elementos de esquerda a serviço do governo.
Michelle, por sinal, parece ser mais inteligente do que o marido. Ou então é mais bem assessorada. Enquanto Bolsonaro tenta explicar por que surrupiou as joias, ela brinca com o surrupio das joias. Em mais um evento do PL, o partido que paga as contas do ex-primeiro casal, Michelle disse, ontem, no Recife:
“Tem um povo tão atrapalhado, que fica assim: ‘cadê as joias, você não vai entregar?’. Querida, a joia está na Caixa Econômica Federal. Mas vocês pediram tanto, falaram tanto de joias que em breve teremos um lançamento: ‘Mijoias pra vocês’.
Michelle não é uma graça? Costumo ser condescendente com as primeiras-damas. O papel delas é ingrato. Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique, não gostava de Brasília e nem de ser tratada como dama de companhia. Socióloga respeitada, tocou a vida como levava antes, dando aulas e escrevendo.
Ruth evitava se meter com política. Michelle está metida até o talo, e aparentemente contra a vontade do marido. Tem falado mais do que ele. Se Bolsonaro permitir, poderá candidatar-se a senadora por Brasília ou outro Estado. Para ela, a investigação sobre o desvio das joias é uma tentativa de tirar o foco da CPI do Golpe.
É vasto seu estoque de frases feitas por marqueteiros:
“Eu vou fazer uma limonada docinha desse limão. E eu vou falar para vocês que quem me colocou aqui e vai me fortalecer é Deus.”
Bolsonaro e Michelle irão depor à Polícia Federal sobre o esquema de venda ilegal das joias. O celular do tenente-coronel Mauro Cid já fala, e o que ele tem contado deverá tirar Michelle de sua zona de conforto. Numa troca de mensagens, Mauro Cid diz que um conjunto de joias “já sumiu com a dona Michelle”. Será?
É cedo para saber se Cristiano Zanin, a sensação do Supremo Tribunal Federal, é um dos ministros da mais alta Corte que é contra a prisão de Bolsonaro. Há outros ali que são contra. Alegam que a prisão poderá fazer de Bolsonaro “um mártir”, e dividir ainda mais o país. Não será surpresa se Zanin pensar assim.
Adiante-se, porém, que mesmo dentro do PT tem gente contrária à prisão, e pelos mesmos motivos. Da Justiça, diz-se que ela é cega, ou que deveria ser, aplicando a lei sem fazer distinção. Mas com frequência, a Justiça levanta a venda, olha ao redor, e distingue. Bolsonaro poderá ser absolvido por excesso de provas contra ele.
No caso, a absolvição se daria com a transferência para a primeira instância da Justiça dos processos a que ele responde. Se isso acontecer, anote: ao invés de condenado ele poderá ser condecorado. Alguma dúvida? Não duvide. Nunca duvide.
sexta-feira, 25 de agosto de 2023
Do que se livrou o Brasil
O País seria jogado num abismo ainda mais profundo. Sem volta num futuro próximo.
Não houve na política brasileira, nas últimas quatro décadas, um sujeito tão mau, quanto despreparado, como Bolsonaro. Chegou a hora de pagar a conta. Testemunhas de castas diversas trouxeram na semana passada fatos inquestionáveis que o comprometem judicialmente, e podem culminar em sua prisão. Dias contados para hospedar-se na Papuda. A internet, aliás, recomenda fortemente: recolham o passaporte do meliante.
Bolsonaro pode não ser burro, mas é péssimo em prognósticos. Desastroso em estratégia. Ele nunca achou que perderia a reeleição. Perdeu. Ele achou que conseguiria impedir a vitória de Lula nas urnas. Esforçou-se na ilegalidade, e não conseguiu. Ele apostou – em parte das Forças Armadas e nos seus apoiadores alucinados – que Lula, eleito, não tomaria posse. Covarde, armou a cena do golpe, e fugiu do Brasil.
Enrolado até o pescoço em várias frentes de investigação pela PF: de corrupção a golpe de estado, está por um fio. Melhor prevenir. Recolham seu passaporte, insisto.
O ex-Presidente será humilhado por denúncias de seus pares. Entre o disse-me-disse – ora, o coronel Cid vai confessar e dedurar o ex-chefe,, ora não sabe se o fará – a Policia Federal já puxou a ponta do nó. Essa semana promete novas revelações – de Frederico Wassef, escarafuncha quatro celulares. Estão apreendidos celulares de Cid e do seu pai (general da reserva), há as contas bancárias de Michele e Jair, cujo sigilo foi quebrados. E tem a investigação (avançada) sobre as joias surrupiadas pela família.
Na última sexta, na tentativa de driblar a imagem de ladrão de joias, Bolsonaro tomou uma média com pão, no boteco da esquina, comeu com a boca aberta e trouxe de volta seu cinismo doentio. O mesmo que o levou a imitar doentes com falta de ar, na pandemia, ou o que dizia “e dai? não sou coveiro”, sobre milhares de mortos em decorrência do seu negacionismo.
Bolsonaro está moribundo. Por um tempo, continuará a dar seu nome a extremistas, fascistas, negacionistas – bolsonaristas. Um engodo para quem precisa de um “mito” para venerar. Fora isso, é nada. Sobreviveu a uma facada suspeita, não sobreviverá ao golpe de sua prisão. Como a ignorância cola, já tem herdeiros a sua altura. Não vamos nos livrar desses arrivistas, atrasados, broncos. Um atende por Zema, não sabe quem foi Adélia Prado e acha que 513 dividido por 2 resulta em 613. O outro, Tarcísio, já tem uma chacina no currículo, e condena livros escolares.
No sábado, o negacionista foi às lágrimas em Goiânia, ao encontrar apoiadores. Motivos de sobra. Homem pode chorar. Não é seu caso. Vamos la, macho. Chega de mimimi. Engole esse choro.
Não houve na política brasileira, nas últimas quatro décadas, um sujeito tão mau, quanto despreparado, como Bolsonaro. Chegou a hora de pagar a conta. Testemunhas de castas diversas trouxeram na semana passada fatos inquestionáveis que o comprometem judicialmente, e podem culminar em sua prisão. Dias contados para hospedar-se na Papuda. A internet, aliás, recomenda fortemente: recolham o passaporte do meliante.
Bolsonaro pode não ser burro, mas é péssimo em prognósticos. Desastroso em estratégia. Ele nunca achou que perderia a reeleição. Perdeu. Ele achou que conseguiria impedir a vitória de Lula nas urnas. Esforçou-se na ilegalidade, e não conseguiu. Ele apostou – em parte das Forças Armadas e nos seus apoiadores alucinados – que Lula, eleito, não tomaria posse. Covarde, armou a cena do golpe, e fugiu do Brasil.
Enrolado até o pescoço em várias frentes de investigação pela PF: de corrupção a golpe de estado, está por um fio. Melhor prevenir. Recolham seu passaporte, insisto.
O ex-Presidente será humilhado por denúncias de seus pares. Entre o disse-me-disse – ora, o coronel Cid vai confessar e dedurar o ex-chefe,, ora não sabe se o fará – a Policia Federal já puxou a ponta do nó. Essa semana promete novas revelações – de Frederico Wassef, escarafuncha quatro celulares. Estão apreendidos celulares de Cid e do seu pai (general da reserva), há as contas bancárias de Michele e Jair, cujo sigilo foi quebrados. E tem a investigação (avançada) sobre as joias surrupiadas pela família.
Na última sexta, na tentativa de driblar a imagem de ladrão de joias, Bolsonaro tomou uma média com pão, no boteco da esquina, comeu com a boca aberta e trouxe de volta seu cinismo doentio. O mesmo que o levou a imitar doentes com falta de ar, na pandemia, ou o que dizia “e dai? não sou coveiro”, sobre milhares de mortos em decorrência do seu negacionismo.
Bolsonaro está moribundo. Por um tempo, continuará a dar seu nome a extremistas, fascistas, negacionistas – bolsonaristas. Um engodo para quem precisa de um “mito” para venerar. Fora isso, é nada. Sobreviveu a uma facada suspeita, não sobreviverá ao golpe de sua prisão. Como a ignorância cola, já tem herdeiros a sua altura. Não vamos nos livrar desses arrivistas, atrasados, broncos. Um atende por Zema, não sabe quem foi Adélia Prado e acha que 513 dividido por 2 resulta em 613. O outro, Tarcísio, já tem uma chacina no currículo, e condena livros escolares.
No sábado, o negacionista foi às lágrimas em Goiânia, ao encontrar apoiadores. Motivos de sobra. Homem pode chorar. Não é seu caso. Vamos la, macho. Chega de mimimi. Engole esse choro.
O grande corruptor
Hoje, com a Polícia Federal e os órgãos de fiscalização lhe mordendo as canelas, Bolsonaro já pode ser tranquilamente chamado de ladrão. Os escândalos de seu governo urram exigindo processos e punições. Alguns deles: o cheque de Michelle, o esquema dos tratores, a farra dos caminhões de lixo, o contrabando de madeira, os R$ 15 milhões em leite condensado, os R$ 21 milhões no cartão corporativo, os R$ 26 milhões em kits de informática para escolas sem água, o MEC dos pastores-lobistas pagos em barras de ouro, a compra de vacinas 1.000% mais caras do que cobrado pelo fabricante, os bilhões do orçamento secreto. Além da apropriação das joias sauditas e a passagem delas nos cobres como se fossem dele. Nunca um ladrãozinho tão barato custou tanto ao país.
Não era assim no começo do mandato. Suspeitas abundavam, mas, mesmo com as rachadinhas, dele e dos filhos, e o gigantesco patrimônio imobiliário com salários de deputado, era difícil enquadrar Bolsonaro como corrupto. As provas fugiam pelo ralo. O que desde o primeiro dia me pareceu óbvio foi o seu papel como corruptor —e esta coluna foi das primeiras a chamá-lo assim.
Bolsonaro conseguiu supercorromper os já nada virginais Executivo, Legislativo e Judiciário. Corrompeu também os serviços de inteligência, investigação e segurança, como a Abin, a PF, a PRF, as PMs, e de controle financeiro, como o Coaf. E a PGR, cujo titular, Augusto Aras, o elegeu como "o maior símbolo de combate à corrupção em 520 anos de Brasil". Mas Aras disse isso em 2020 —hoje, sob nova administração, deve ter mudado de ideia.
Nada é mais grave, no entanto, do que a corrupção por Bolsonaro das Forças Armadas, com 2.500 empregos, cargos, sinecuras, uísque, picanha, Viagra, próteses penianas.
Pior: ao corromper militares para suas ideias, Bolsonaro fez das Forças Armadas uma tropa de pazuellos —como nunca em 523 anos de Brasil.
Não era assim no começo do mandato. Suspeitas abundavam, mas, mesmo com as rachadinhas, dele e dos filhos, e o gigantesco patrimônio imobiliário com salários de deputado, era difícil enquadrar Bolsonaro como corrupto. As provas fugiam pelo ralo. O que desde o primeiro dia me pareceu óbvio foi o seu papel como corruptor —e esta coluna foi das primeiras a chamá-lo assim.
Bolsonaro conseguiu supercorromper os já nada virginais Executivo, Legislativo e Judiciário. Corrompeu também os serviços de inteligência, investigação e segurança, como a Abin, a PF, a PRF, as PMs, e de controle financeiro, como o Coaf. E a PGR, cujo titular, Augusto Aras, o elegeu como "o maior símbolo de combate à corrupção em 520 anos de Brasil". Mas Aras disse isso em 2020 —hoje, sob nova administração, deve ter mudado de ideia.
Nada é mais grave, no entanto, do que a corrupção por Bolsonaro das Forças Armadas, com 2.500 empregos, cargos, sinecuras, uísque, picanha, Viagra, próteses penianas.
Pior: ao corromper militares para suas ideias, Bolsonaro fez das Forças Armadas uma tropa de pazuellos —como nunca em 523 anos de Brasil.
Assinar:
Postagens (Atom)














