sábado, 22 de julho de 2023
Tolerar os intolerantes?
Terminei a coluna anterior enaltecendo a tolerância, e alguns leitores me recriminaram por não ter levado em conta o paradoxo da tolerância. A referência aqui é ao filósofo Karl Popper, que escreveu: "Tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante contra a investida dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância junto com eles".
A passagem é muito citada, mas raramente em seu devido contexto. Uma boa providência é conferir a frase seguinte à supramencionada, que reza: "Com essa formulação, eu não insinuo, por exemplo, que devemos sempre suprimir o enunciado de filosofias intolerantes; contanto que possamos combatê-las por meio de argumentos racionais e mantê-las sob controle pela opinião pública, a supressão seria certamente insensata".
Mais importante, os dois trechos constam de uma nota de rodapé de "A Sociedade Aberta e Seus Inimigos", obra que pode ser descrita como um louvor à democracia liberal e, portanto, à tolerância e à liberdade de expressão.
No fundo, Popper diz o óbvio. Afirma que a democracia precisa defender-se, recorrendo até à força, se necessário, daqueles que tentam suprimi-la. A questão difícil, para a qual não há solução sem considerar a situação política do momento, é quando se torna necessário adotar a força ou a censura, que devem ser sempre a "ultima ratio", nunca a primeira opção.
A democracia brasileira esteve sob risco no governo anterior, o que, a meu ver, justificou decisões menos ortodoxas do STF. Mas o perigo é cadente. E não dá para viver uma exceção eterna. Numa daquelas reviravoltas bem ao gosto dos filósofos, acho que dá até para dizer que são os intolerantes que vencem se conseguem fazer com que a democracia abra mão da tolerância e das liberdades.
A passagem é muito citada, mas raramente em seu devido contexto. Uma boa providência é conferir a frase seguinte à supramencionada, que reza: "Com essa formulação, eu não insinuo, por exemplo, que devemos sempre suprimir o enunciado de filosofias intolerantes; contanto que possamos combatê-las por meio de argumentos racionais e mantê-las sob controle pela opinião pública, a supressão seria certamente insensata".
Mais importante, os dois trechos constam de uma nota de rodapé de "A Sociedade Aberta e Seus Inimigos", obra que pode ser descrita como um louvor à democracia liberal e, portanto, à tolerância e à liberdade de expressão.
No fundo, Popper diz o óbvio. Afirma que a democracia precisa defender-se, recorrendo até à força, se necessário, daqueles que tentam suprimi-la. A questão difícil, para a qual não há solução sem considerar a situação política do momento, é quando se torna necessário adotar a força ou a censura, que devem ser sempre a "ultima ratio", nunca a primeira opção.
A democracia brasileira esteve sob risco no governo anterior, o que, a meu ver, justificou decisões menos ortodoxas do STF. Mas o perigo é cadente. E não dá para viver uma exceção eterna. Numa daquelas reviravoltas bem ao gosto dos filósofos, acho que dá até para dizer que são os intolerantes que vencem se conseguem fazer com que a democracia abra mão da tolerância e das liberdades.
Como se perdem as causas
O pior que pode acontecer a uma causa justa é cair em mãos erradas. E, no entanto, nada mais comum do que raposas se voluntariarem, desinteressadamente, para tomar conta de galinheiros.
Não há bem maior para a sociedade do que o cidadão de bem. É aquela pessoa honesta, com princípios éticos, cumpridora dos seus deveres. Mas repare em quem levanta a bandeira da defesa dessa brava gente: há grandes chances de encontrar, como na nossa História recente, alguém ligado a esquemas de corrupção, apologia da violência, desdém pelo próximo.
O politicamente correto — questão de avanço civilizacional, de respeito às diferenças e à dignidade da pessoa humana — foi parar nas garras de canceladores, censores, intolerantes — que só não queimam livros porque pega mal. Mas interditam o debate, restringem a livre circulação de ideias, aniquilam reputações (vai uma Revolução Cultural chinesa aí?).
Autodeclarados antifascistas se valem de métodos clássicos do fascismo. Desumanizam os adversários, com o cuidado de mudar os verbos — trocam “eliminar” por “extirpar” — e quase ninguém nota (ou finge não notar).
Não raro a tutela dos valores cristãos está a cargo de pedófilos (ou dos que os acobertam) e aproveitadores (devotos do “templo é dinheiro”, do “vinde a mim os dízimos”). Com espantosa frequência, descobrem-se predadores e charlatães travestidos de líderes espirituais.
Fanáticos tomam para si a defesa dos direitos animais (e dane-se o bicho-homem), da pauta ambiental (e dá-lhe vandalizar obras de arte, pichar patrimônio público). Só o que conseguem é criar um clima ruim para os que efetivamente se importam com o planeta e seus habitantes — independentemente de reino, classe, família, gênero ou espécie.
Dois bons exemplos desse tipo de perversão foram notícia por estes dias.
O ex-deputado Jean Wyllys, inúmeras vezes vítima de homofobia, retornou ao Brasil, e uma das suas primeiras manifestações foi homofóbica. No que deveria ser uma crítica às escolas cívico-militares, dispensou os argumentos e partiu para a ofensa. Dezenove governadores decidiram manter esse tipo de instituição: o único atacado foi Eduardo Leite, por sua orientação sexual. A mensagem era clara: homossexuais seriam seres privados de discernimento e reféns de alguma parafilia. À exceção, claro, dos que partilhem da mesma ideologia do acusador.
Na seara racial, a treta coube a Itamar Vieira Junior, autor de “Torto arado” (mais de 400 mil exemplares vendidos).
Uma das premissas do movimento antirracista é estabelecer que não existe superioridade racial (o ideal seria provar que não existem raças, mas aí era querer demais). Há militantes, entretanto, que se empenham em caracterizar africanos e seus descendentes como pessoas diferenciadas, que não podem ser alvo de críticas senão por parte dos seus iguais (na cor). Sobrou para José Eduardo Agualusa, que alertou Itamar sobre essa armadilha, em delicado artigo publicado no GLOBO.
Reflexão virou whitesplaining; chegada de novas vozes ao debate, pacto de branquitude. Como se uma avaliação pudesse ser reduzida à cor da pele de quem a faz e de quem a recebe.
Millôr alertava sobre duvidar de todo idealista que lucra com o seu ideal. Deveríamos nos precaver é dos que deturpam o ideal alheio.
Não há bem maior para a sociedade do que o cidadão de bem. É aquela pessoa honesta, com princípios éticos, cumpridora dos seus deveres. Mas repare em quem levanta a bandeira da defesa dessa brava gente: há grandes chances de encontrar, como na nossa História recente, alguém ligado a esquemas de corrupção, apologia da violência, desdém pelo próximo.
O politicamente correto — questão de avanço civilizacional, de respeito às diferenças e à dignidade da pessoa humana — foi parar nas garras de canceladores, censores, intolerantes — que só não queimam livros porque pega mal. Mas interditam o debate, restringem a livre circulação de ideias, aniquilam reputações (vai uma Revolução Cultural chinesa aí?).
Autodeclarados antifascistas se valem de métodos clássicos do fascismo. Desumanizam os adversários, com o cuidado de mudar os verbos — trocam “eliminar” por “extirpar” — e quase ninguém nota (ou finge não notar).
Não raro a tutela dos valores cristãos está a cargo de pedófilos (ou dos que os acobertam) e aproveitadores (devotos do “templo é dinheiro”, do “vinde a mim os dízimos”). Com espantosa frequência, descobrem-se predadores e charlatães travestidos de líderes espirituais.
Fanáticos tomam para si a defesa dos direitos animais (e dane-se o bicho-homem), da pauta ambiental (e dá-lhe vandalizar obras de arte, pichar patrimônio público). Só o que conseguem é criar um clima ruim para os que efetivamente se importam com o planeta e seus habitantes — independentemente de reino, classe, família, gênero ou espécie.
Dois bons exemplos desse tipo de perversão foram notícia por estes dias.
O ex-deputado Jean Wyllys, inúmeras vezes vítima de homofobia, retornou ao Brasil, e uma das suas primeiras manifestações foi homofóbica. No que deveria ser uma crítica às escolas cívico-militares, dispensou os argumentos e partiu para a ofensa. Dezenove governadores decidiram manter esse tipo de instituição: o único atacado foi Eduardo Leite, por sua orientação sexual. A mensagem era clara: homossexuais seriam seres privados de discernimento e reféns de alguma parafilia. À exceção, claro, dos que partilhem da mesma ideologia do acusador.
Na seara racial, a treta coube a Itamar Vieira Junior, autor de “Torto arado” (mais de 400 mil exemplares vendidos).
Uma das premissas do movimento antirracista é estabelecer que não existe superioridade racial (o ideal seria provar que não existem raças, mas aí era querer demais). Há militantes, entretanto, que se empenham em caracterizar africanos e seus descendentes como pessoas diferenciadas, que não podem ser alvo de críticas senão por parte dos seus iguais (na cor). Sobrou para José Eduardo Agualusa, que alertou Itamar sobre essa armadilha, em delicado artigo publicado no GLOBO.
Reflexão virou whitesplaining; chegada de novas vozes ao debate, pacto de branquitude. Como se uma avaliação pudesse ser reduzida à cor da pele de quem a faz e de quem a recebe.
Millôr alertava sobre duvidar de todo idealista que lucra com o seu ideal. Deveríamos nos precaver é dos que deturpam o ideal alheio.
A democracia e seu equilíbrio
Não é difícil entender por que a democracia corre riscos. Nossa época é de transição. Estão a mudar o modo de produção, a organização do trabalho, os empregos, as formas de comunicação. Algumas mudanças já se sedimentaram, como no terreno da produção e circulação de informações, turbinadas pelas redes e pelas modalidades várias de autocomunicação de massas. A vida social sofre os espasmos dessas modificações: se desorganiza, se fragmenta, converte-se num território de indivíduos soltos que problematizam a participação política e despejam demandas no espaço público, exigindo sempre mais investimentos e direitos.
Como regime, a democracia está hoje submetida à desconfiança dos cidadãos, insatisfeitos com as respostas que obtêm dos governos. Está, também, sendo maltratada pelas correntes de extrema direita, que a violentam e a descaracterizam, e pelos populistas de variados tipos, que pouco se preocupam com fortalecê-la e protegê-la, ávidos que são pelos aplausos das multidões. Os grandes interesses econômicos, por sua vez, além de explorar a população, buscam manipular os institutos democráticos. Os personagens centrais da democracia representativa – os partidos, os parlamentares, os governantes – nem sempre vão além de proclamações em favor da democracia, deixando de adotar medidas que a blindem contra os ataques dos que a desprezam e a façam funcionar de maneira efetiva.
Apesar disso, a democracia continua respirando como valor. Vista como um sistema dedicado a viabilizar a participação política em condições de igualdade mínima – mediante o voto –, de liberdade, de direitos humanos e de vigência plena do Estado de Direito, a democracia permanece como horizonte ético e moral do mundo contemporâneo. Em nossas sociedades, a democracia é uma condição de possibilidade: sem ela, os cidadãos não são incentivados a defender sua privacidade em consonância com a pluralidade social. Deixam de interagir com os diversos pedaços da sociedade, que necessitam de procedimentos democráticos para se reaproximarem. A democratização do social vibra em todos os espaços organizados: nas escolas, nas famílias, nas empresas, nos esportes, na cultura, na política. Só freia sua marcha impetuosa diante das organizações fundamentalistas e de hierarquia rígida.
Há uma crise de autoridade por toda parte e a violência se esparrama, travando a recomposição social, que necessita de diálogo, temperança, paciência e serenidade argumentativa. É falsa a ideia de que autocratas obtêm submissão e obediência. Em sociedades complexas como as nossas, o máximo que conseguem é usar a intimidação e a ameaça para convencer parte da população a segui-los vida afora. Reprimem e estigmatizam os que a eles se opõem, num esforço para isolá-los do conjunto social. Autocracias populistas podem se reproduzir por longos períodos, caírem ao menor tropeço de seus líderes ou serem sugadas por crises não administradas. Em qualquer um dos casos, produzem estragos na política e no convívio social, deixando marcas que ferem a democracia e o Estado de Direito.
Nos regimes democráticos, combinam-se o conflito e o consenso, a liberdade e a ordem. A desobediência civil faz parte de suas regras, assim como o protesto e a luta social. O que conta são os procedimentos: pressionar, denunciar, reivindicar, mas não perder de vista o diálogo, a negociação e a civilidade.
O diálogo, afinal, é a trava de sustentação da democracia. É ele que garante a consideração das diversas opiniões e das demandas mais justas e emergenciais. Em vez da razão instrumental e da razão dos mais fortes, o diálogo instala a razão reflexiva, valorizadora do pensamento crítico, da ponderação e da análise dos argumentos. Com isso, desnuda as tentativas de fazer com que o poder possa tudo, como se estivesse à margem de considerações éticas ou morais. A razão reflexiva também facilita a navegação no mar de informações e desinformações com que temos de lidar, ajudando a que cada um consiga separar o lixo e neutralizar os ruídos tóxicos.
A democracia vigora sempre em equilíbrio dinâmico, que precisa ser continuamente alimentado. Está sempre em construção, não é um sistema perfeito. Quando o equilíbrio falta, o conflito se converte em guerra ou polarização paralisante, os interesses ficam exacerbados, como se não quisessem ou não soubessem se recompor. Crises se sucedem sem solução, criando condições para a emergência de lideranças autoritárias, salvadores da pátria, tida como ameaçada. É neste ponto que estacionamos hoje.
O equilíbrio requerido pela democracia não deriva somente de boas instituições e de governantes bem-intencionados. A prevalência do diálogo não é uma conquista de intelectuais ou de políticos falastrões: é algo que precisa se enraizar na vida social, modelar corações e mentes, infiltrar-se nas famílias, nas escolas, na cultura, na corrente sanguínea de cada cidadão. Ou seja, é algo que depende de educação, de práticas reflexivas e de empenho cívico.
Como regime, a democracia está hoje submetida à desconfiança dos cidadãos, insatisfeitos com as respostas que obtêm dos governos. Está, também, sendo maltratada pelas correntes de extrema direita, que a violentam e a descaracterizam, e pelos populistas de variados tipos, que pouco se preocupam com fortalecê-la e protegê-la, ávidos que são pelos aplausos das multidões. Os grandes interesses econômicos, por sua vez, além de explorar a população, buscam manipular os institutos democráticos. Os personagens centrais da democracia representativa – os partidos, os parlamentares, os governantes – nem sempre vão além de proclamações em favor da democracia, deixando de adotar medidas que a blindem contra os ataques dos que a desprezam e a façam funcionar de maneira efetiva.
Apesar disso, a democracia continua respirando como valor. Vista como um sistema dedicado a viabilizar a participação política em condições de igualdade mínima – mediante o voto –, de liberdade, de direitos humanos e de vigência plena do Estado de Direito, a democracia permanece como horizonte ético e moral do mundo contemporâneo. Em nossas sociedades, a democracia é uma condição de possibilidade: sem ela, os cidadãos não são incentivados a defender sua privacidade em consonância com a pluralidade social. Deixam de interagir com os diversos pedaços da sociedade, que necessitam de procedimentos democráticos para se reaproximarem. A democratização do social vibra em todos os espaços organizados: nas escolas, nas famílias, nas empresas, nos esportes, na cultura, na política. Só freia sua marcha impetuosa diante das organizações fundamentalistas e de hierarquia rígida.
Há uma crise de autoridade por toda parte e a violência se esparrama, travando a recomposição social, que necessita de diálogo, temperança, paciência e serenidade argumentativa. É falsa a ideia de que autocratas obtêm submissão e obediência. Em sociedades complexas como as nossas, o máximo que conseguem é usar a intimidação e a ameaça para convencer parte da população a segui-los vida afora. Reprimem e estigmatizam os que a eles se opõem, num esforço para isolá-los do conjunto social. Autocracias populistas podem se reproduzir por longos períodos, caírem ao menor tropeço de seus líderes ou serem sugadas por crises não administradas. Em qualquer um dos casos, produzem estragos na política e no convívio social, deixando marcas que ferem a democracia e o Estado de Direito.
Nos regimes democráticos, combinam-se o conflito e o consenso, a liberdade e a ordem. A desobediência civil faz parte de suas regras, assim como o protesto e a luta social. O que conta são os procedimentos: pressionar, denunciar, reivindicar, mas não perder de vista o diálogo, a negociação e a civilidade.
O diálogo, afinal, é a trava de sustentação da democracia. É ele que garante a consideração das diversas opiniões e das demandas mais justas e emergenciais. Em vez da razão instrumental e da razão dos mais fortes, o diálogo instala a razão reflexiva, valorizadora do pensamento crítico, da ponderação e da análise dos argumentos. Com isso, desnuda as tentativas de fazer com que o poder possa tudo, como se estivesse à margem de considerações éticas ou morais. A razão reflexiva também facilita a navegação no mar de informações e desinformações com que temos de lidar, ajudando a que cada um consiga separar o lixo e neutralizar os ruídos tóxicos.
A democracia vigora sempre em equilíbrio dinâmico, que precisa ser continuamente alimentado. Está sempre em construção, não é um sistema perfeito. Quando o equilíbrio falta, o conflito se converte em guerra ou polarização paralisante, os interesses ficam exacerbados, como se não quisessem ou não soubessem se recompor. Crises se sucedem sem solução, criando condições para a emergência de lideranças autoritárias, salvadores da pátria, tida como ameaçada. É neste ponto que estacionamos hoje.
O equilíbrio requerido pela democracia não deriva somente de boas instituições e de governantes bem-intencionados. A prevalência do diálogo não é uma conquista de intelectuais ou de políticos falastrões: é algo que precisa se enraizar na vida social, modelar corações e mentes, infiltrar-se nas famílias, nas escolas, na cultura, na corrente sanguínea de cada cidadão. Ou seja, é algo que depende de educação, de práticas reflexivas e de empenho cívico.
A ideologia do descaso
As escolas cívico-militares não surgiram apenas do desejo militarista de governo recente, elas respondem ao fracasso histórico da educação de base no Brasil. Apesar das deformações pedagógicas que carregam para a formação dos alunos, se apresentam como alternativa a um sistema escolar sem qualidade, ineficiente e injusto. Não seria uma proposta imaginada se o sistema tradicional oferecesse aulas no horário certo, sem paralisações, nem violências, com bom funcionamento, respeito e reconhecimento aos professores, manutenção eficiente, banheiros limpos, e os alunos sentindo aprender para o futuro. A militarização da gestão pode limitar o espírito crítico necessário em uma boa formação, mas o que se ouve de alguns dos pais é que nessas escolas “pelo menos nossos filhos têm aulas regularmente”.
A prática das últimas décadas — sem compromisso com a qualidade, às vezes irresponsável na adoção de metodologias da moda sem comprovação científica — quebrou princípios necessários à aprendizagem. Pontualidade e respeito não ensinam, mas sem eles não se aprende. A militarização da gestão é vista pela população como tentativa de corrigir o caos que impera no setor público. Foi adotada por desvio ideológico de governo militarista, mas surgiu porque as escolas brasileiras parecem caricatura de uma escolinha do professor Raimundo. Se as outras escolas estivessem funcionando bem, as chamadas cívico-militares não seriam aplaudidas.
O MEC deveria analisar onde erramos ao longo de décadas e por que perdemos a guerra da educação de base. Ignorar a falência é um desvio tão ideológico quanto achar que as escolas cívico-militares resolveriam o problema. São duas vertentes da permanente ideologia de descaso à educação de qualidade: uma com viés militarista, outra civilista, ambas se recusando à ambição de educação com qualidade para todos, independentemente da renda. Ideologia obscurantista que não acredita no potencial brasileiro para ter educação de base com a máxima qualidade e ideologia segregacionista de que no Brasil não seria possível assegurar, aos filhos dos mais pobres, escolas com a mesma qualidade assegurada aos filhos dos mais ricos. Ideologia que federaliza o ensino superior, mas deixa a educação pública de base entregue aos municípios pobres e desiguais, mantendo a educação privada financiada pelas famílias, com subsídios da União.
Acabar com a minúscula experiência federal cívico-militar pode barrar uma anomalia pedagógica, mas não vai melhorar a qualidade geral da caótica rede pública com mais de 150.000 escolas administradas por quase 6.000 municípios, nem reduzir a desigualdade conforme a renda do aluno. O MEC perdeu a oportunidade de analisar as razões do surgimento das escolas cívico-militares, de entender onde erraram quando estiveram antes no poder e deixou de apresentar sua proposta de reformas para o futuro: um novo e robusto sistema nacional de qualidade para todos. Pena que depois de quatro anos de ideologização do MEC, parece que esta é uma maldição que continua, substituindo a crença na disciplina militar pela tolerância com caos civil: o mesmo descaso com a falta de qualidade e com a aceitação da desigualdade.
A prática das últimas décadas — sem compromisso com a qualidade, às vezes irresponsável na adoção de metodologias da moda sem comprovação científica — quebrou princípios necessários à aprendizagem. Pontualidade e respeito não ensinam, mas sem eles não se aprende. A militarização da gestão é vista pela população como tentativa de corrigir o caos que impera no setor público. Foi adotada por desvio ideológico de governo militarista, mas surgiu porque as escolas brasileiras parecem caricatura de uma escolinha do professor Raimundo. Se as outras escolas estivessem funcionando bem, as chamadas cívico-militares não seriam aplaudidas.
O MEC deveria analisar onde erramos ao longo de décadas e por que perdemos a guerra da educação de base. Ignorar a falência é um desvio tão ideológico quanto achar que as escolas cívico-militares resolveriam o problema. São duas vertentes da permanente ideologia de descaso à educação de qualidade: uma com viés militarista, outra civilista, ambas se recusando à ambição de educação com qualidade para todos, independentemente da renda. Ideologia obscurantista que não acredita no potencial brasileiro para ter educação de base com a máxima qualidade e ideologia segregacionista de que no Brasil não seria possível assegurar, aos filhos dos mais pobres, escolas com a mesma qualidade assegurada aos filhos dos mais ricos. Ideologia que federaliza o ensino superior, mas deixa a educação pública de base entregue aos municípios pobres e desiguais, mantendo a educação privada financiada pelas famílias, com subsídios da União.
Acabar com a minúscula experiência federal cívico-militar pode barrar uma anomalia pedagógica, mas não vai melhorar a qualidade geral da caótica rede pública com mais de 150.000 escolas administradas por quase 6.000 municípios, nem reduzir a desigualdade conforme a renda do aluno. O MEC perdeu a oportunidade de analisar as razões do surgimento das escolas cívico-militares, de entender onde erraram quando estiveram antes no poder e deixou de apresentar sua proposta de reformas para o futuro: um novo e robusto sistema nacional de qualidade para todos. Pena que depois de quatro anos de ideologização do MEC, parece que esta é uma maldição que continua, substituindo a crença na disciplina militar pela tolerância com caos civil: o mesmo descaso com a falta de qualidade e com a aceitação da desigualdade.
quinta-feira, 20 de julho de 2023
Filantropia de canalhas
Não gosto de um mundo que depende de gente rica para dar do que as pessoas deviam ter por direito
Giulio Boccaletti, o autor de "Água: Uma Biografia" diz que o problema da falta de água, sobretudo nos países menos desenvolvidos, se deve a falhanços estruturais dos Estados – coisa que não se resolve com filantropia
Classe ou parentesco?
Um leitor interessado na questão há de perguntar: trata-se de uma reflexão ou de uma escolha? No que eu replico: as duas coisas! Porque estou focando um sistema cultural reacionário (contrarreformista, pós-aristocrata, escravista, elitista, mesquinho e autoritário) que, a partir das consequências engendradas pela Revolução Industrial e pelo ambíguo triunfo do liberalismo, funciona por meio de um sistema de classes contratualista, mas continua inevitavelmente enredado numa cadeia de relacionamentos imperativos, definidores irredutíveis de identidade e posicionamento social axiomático, como rezam as nossas sacralizadas certidões de nascimento. Esse “papel” que legalmente nos inaugura e atesta legalmente a nossa origem. Documento “mãe” que informa e legitima nossa entrada como atores neste palco que — como dizia Shakespeare — é a existência.
No caso das sociedades tidas como homogêneas (em termos de etnia ou aparência física — esses eufemismos para “raça”), havia o pressuposto segundo o qual a posição numa escala econômica de “dominação de classe” predominava, alienando o universo humano dos laços sociais. O inverso seria o caso dos sistemas subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como o brasileiro.
Num sistema moderno e plenamente capitalista, as normas impessoais do mundo público (economia + política + Estado + religião civil) teriam — na vida pública — predominância sobre os laços de família, compadrio e amizade. Vale dizer, conforme propôs Henry Sumner Maine no livro “Ancient Law”, em 1861 — e eu furtei em a “A casa & a rua” em 1985 —, que as relações consagradas no espaço social da família, com origem na morada, canibalizavam cargos e éticas, exigidas pelo aparato do “Estado” e da cidadania, o universo da rua.
O caso de Pedro Honorato é emblemático. Eleito prefeito de sua cidade, ele — um raro fiel da ética republicana feita de igualdade, impessoalidade e competência e alerta para o fato de que, como prefeito, administrava algo que era coletivo e não da sua casa ou partido — não nomeou nenhum parente ou amigo. Foi imediatamente posto de quarentena amorosa por sua esposa (dizem que ela queria nomear o irmão como secretário municipal) — e exprobrado como ingrato, indiferente e mal-agradecido. Para os membros de sua comunidade, o republicanismo de Pedro Honorato não era virtude, era insensibilidade, posto que traía os mandamentos não escritos que governavam o universo das “pessoas” dos que estavam mutuamente ligados por condescendência, sangue e empenho. O resultado, conforme definiu um dos seus ex-compadres, o Coronel Furtado, o levou a um isolamento moral (hoje chamado de “cancelamento”) e à expulsão muda da autocongratulatória consciência festiva das elites locais, porque Pedro Honorato tornou-se inclassificável. Não seguia o padrão de apadrinhar amigos em nome de um partido formalmente popular; mas também não seguia o padrão polarizador inconsciente do “agora somos nós”, dos “donos do poder” de nomear e enriquecer pela lógica do “toma lá dá cá” à custa do Estado. Individualizado, morreu sozinho na tal “rua da amargura” de que minha mãe tanto falava e que tantos bandidos disfarçados de políticos mereciam.
Chamei tais sistemas de “relacionais” porque neles a filiação, o parentesco e os laços modelados pela reciprocidade (o circuito do dar para receber) contrastavam com o conjunto de ideais impessoais que simultaneamente governam o mundo republicano e democrático, mas, é preciso lembrar, não têm o mesmo valor.
O dilema da competência que pode ser antipaticamente impessoal tem muitas variantes que a nossa sociologia dialética ignorou. Nessa questão, cabe explicitar novamente as premissas ou axiomas da nossa “ética relacional”, que é muito mais forte do que pensa a nossa otimista ideologia mudancista e polarizadora, pois ela dorme dentro de cada um de nós, ao passo que o nobre “comunismo”, cristão ou materialista, chega de fora para dentro e tem a leveza do livro do Milan Kundera repleto desses dilemas entre o formal da estrutura ideológica e a plasticidade das pessoalidades que estruturam esse “humano” sempre surpreendente.
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| Graciliano Ramos, em Palmeiras dos Índios (AL) |
No caso das sociedades tidas como homogêneas (em termos de etnia ou aparência física — esses eufemismos para “raça”), havia o pressuposto segundo o qual a posição numa escala econômica de “dominação de classe” predominava, alienando o universo humano dos laços sociais. O inverso seria o caso dos sistemas subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como o brasileiro.
Num sistema moderno e plenamente capitalista, as normas impessoais do mundo público (economia + política + Estado + religião civil) teriam — na vida pública — predominância sobre os laços de família, compadrio e amizade. Vale dizer, conforme propôs Henry Sumner Maine no livro “Ancient Law”, em 1861 — e eu furtei em a “A casa & a rua” em 1985 —, que as relações consagradas no espaço social da família, com origem na morada, canibalizavam cargos e éticas, exigidas pelo aparato do “Estado” e da cidadania, o universo da rua.
O caso de Pedro Honorato é emblemático. Eleito prefeito de sua cidade, ele — um raro fiel da ética republicana feita de igualdade, impessoalidade e competência e alerta para o fato de que, como prefeito, administrava algo que era coletivo e não da sua casa ou partido — não nomeou nenhum parente ou amigo. Foi imediatamente posto de quarentena amorosa por sua esposa (dizem que ela queria nomear o irmão como secretário municipal) — e exprobrado como ingrato, indiferente e mal-agradecido. Para os membros de sua comunidade, o republicanismo de Pedro Honorato não era virtude, era insensibilidade, posto que traía os mandamentos não escritos que governavam o universo das “pessoas” dos que estavam mutuamente ligados por condescendência, sangue e empenho. O resultado, conforme definiu um dos seus ex-compadres, o Coronel Furtado, o levou a um isolamento moral (hoje chamado de “cancelamento”) e à expulsão muda da autocongratulatória consciência festiva das elites locais, porque Pedro Honorato tornou-se inclassificável. Não seguia o padrão de apadrinhar amigos em nome de um partido formalmente popular; mas também não seguia o padrão polarizador inconsciente do “agora somos nós”, dos “donos do poder” de nomear e enriquecer pela lógica do “toma lá dá cá” à custa do Estado. Individualizado, morreu sozinho na tal “rua da amargura” de que minha mãe tanto falava e que tantos bandidos disfarçados de políticos mereciam.
Chamei tais sistemas de “relacionais” porque neles a filiação, o parentesco e os laços modelados pela reciprocidade (o circuito do dar para receber) contrastavam com o conjunto de ideais impessoais que simultaneamente governam o mundo republicano e democrático, mas, é preciso lembrar, não têm o mesmo valor.
O dilema da competência que pode ser antipaticamente impessoal tem muitas variantes que a nossa sociologia dialética ignorou. Nessa questão, cabe explicitar novamente as premissas ou axiomas da nossa “ética relacional”, que é muito mais forte do que pensa a nossa otimista ideologia mudancista e polarizadora, pois ela dorme dentro de cada um de nós, ao passo que o nobre “comunismo”, cristão ou materialista, chega de fora para dentro e tem a leveza do livro do Milan Kundera repleto desses dilemas entre o formal da estrutura ideológica e a plasticidade das pessoalidades que estruturam esse “humano” sempre surpreendente.
Como ser milionário
As pessoas, de uma maneira geral, ficam deslumbradas com os grandes milionários, com os “empresários de sucesso”, que têm muitos carros, muitas casas, fazem viagens submarinas e estratosféricas, que custam milhões, e gostam de aparecer nos locais onde se gosta de aparecer. Mesmo os políticos provincianos não escondem o seu deslumbramento e subserviência, perante o prestígio do dinheiro. Presume-se que, para se chegar ao topo dessa pirâmide, é preciso ter uma inteligência fenomenal e uma genial capacidade de empreendimento. Quando nos aproximamos, um bocadinho de mais perto, destas estátuas a haver, verificamos, com surpresa e quase desilusão, que não é desta massa que se fazem nem as grandes ideias nem as grandes descobertas. O principal ingrediente das grandes fortunas não é nem a inteligência nem uma intuição genial. Isso anda quotidianamente documentado, nas trafulhices destapadas pelo Ministério Público, fora as ainda não destapadas. Quem dispõe de bons advogados, de economistas espertos e de uma razoável falta de escrúpulos, faz bom caminho, mesmo com uma inteligência nada invulgar. Dizia o grande dramaturgo irlandês, George Bernard Shaw, que não há fortunas honestas. E, de certo modo, isto é verdade. O rigor da honestidade raramente convida ao enriquecimento milionário. E, quanto a deslumbramento perante a inteligência de alguém, nunca se há de ver um espertalhão rico a congeminar uma teoria da relatividade ou uma lei da gravitação universal. E, se o ricaço fácil e muito aquém da verdadeira inteligência e todas as “glórias do momento” vão ser esquecidos pelo fluir inexorável do tempo, será talvez “o parvo dum poeta” ou “um geómetra maduro”, com augurava Pessoa, quem vai deixar rasto mais duradouro.
Mas tenho más notícias para os grandes ricaços: nenhum deles passará pelo orifício de uma agulha, quanto mais entrar no reino dos céus. Disse-o o parvo de um profeta há mais de dois mil anos.
Eugénio Lisboa
Mas tenho más notícias para os grandes ricaços: nenhum deles passará pelo orifício de uma agulha, quanto mais entrar no reino dos céus. Disse-o o parvo de um profeta há mais de dois mil anos.
Eugénio Lisboa
Cadáveres indigestos
Há uma crise de abutres na Índia: dos 40 milhões de aves que existiam há 30 anos, restam pouco mais de 20 mil. Desde que os dinossauros foram extintos, nenhum outro animal correu o risco de sumir tão rapidamente da face da Terra, nem mesmo o dodo, que levou 64 anos entre ser descoberto pelos seres humanos e desaparecer por completo.
O declínio dos abutres indianos começou a ser notado em fins dos anos 1990. Até então, eles viviam como reis — imaginem um país predominantemente vegetariano, onde as vacas são sagradas e os porcos são tabu para as duas principais religiões.
Era banquete em cima de banquete.
Quando os abutres começaram a sumir, todo mundo pensou nos suspeitos de sempre, do uso de agrotóxicos a doenças infecciosas, passando pela urbanização desenfreada e pela destruição do meio ambiente; mas nada explicava uma queda de população tão catastrófica.
Foi difícil esclarecer o caso: a legislação indiana proíbe o abate dessas aves, ainda que por motivos científicos, e encontrar corpos mortos em condições próprias para pesquisa é quase impossível. Em 2003, finalmente, um time do The Peregrine Fund, ONG especializada em rapineiras, chegou ao culpado: o diclofenaco, anti-inflamatório bem tolerado pelo gado, mas letal para aves que eventualmente se alimentam dos restos de bois e vacas medicados.
Diclofenaco é o nome científico do nosso velho conhecido Voltaren.
O seu uso veterinário foi proibido na Índia em 2006, mas aí mais de 99% da população de abutres já havia sido dizimada. No momento, há oito centros de criação espalhados pelo país para tentar reverter a situação.
A falta dos abutres (não confundir com urubus) é um desastre ecológico. Na sua ausência, carcaças apodrecem em áreas públicas nas aldeias e contaminam o solo e a água, enquanto outros animais carniceiros, como ratos e cães vadios, proliferam. A questão é que não só eles não são faxineiros tão eficientes, como, ainda por cima, podem se contaminar com as carcaças em decomposição, tornando-se transmissores de doenças sérias.
Mas ninguém na Índia está sentindo tanto essa crise quanto os parsis, uma minoria étnico-religiosa que depende desses pássaros para dar fim aos seus mortos. Descendentes dos antigos persas zoroastrianos, eles acreditam que os cadáveres, impuros, não podem entrar em contato com a água, a terra ou o fogo, elementos sagrados.
Quando alguém morre, portanto, é logo levado para a Dakhma, ou Torre do Silêncio, onde os corpos nus são depositados ao relento, sobre placas de pedra — e rapidamente devorados pelas aves.
Antes do diclofenaco, os abutres resolviam a questão em menos de uma hora. Os ossos limpos eram curados pelo sol e pelo vento, e recolhidos num poço onde o tempo e a cal cuidavam deles. Um sistema prático e limpo, que evitava a decomposição, alimentava as aves e igualava ricos e pobres num mesmo ritual.
Sem os abutres, os corpos levam meses para se desintegrar.
Os parsis já tentaram instalar painéis solares nas torres para acelerar o processo, assim como criar essas aves em cativeiro na sua vizinhança, mas sem muito sucesso.
Assim como os abutres, os parsis são, eles também, uma espécie em extinção. A maioria vive em Mumbai e, mesmo lá, não chegam a 50 mil pessoas. Formam uma comunidade rica e influente que, ainda assim, está em declínio, às voltas com poucos nascimentos e com a imigração dos jovens.
O declínio dos abutres indianos começou a ser notado em fins dos anos 1990. Até então, eles viviam como reis — imaginem um país predominantemente vegetariano, onde as vacas são sagradas e os porcos são tabu para as duas principais religiões.
Era banquete em cima de banquete.
Quando os abutres começaram a sumir, todo mundo pensou nos suspeitos de sempre, do uso de agrotóxicos a doenças infecciosas, passando pela urbanização desenfreada e pela destruição do meio ambiente; mas nada explicava uma queda de população tão catastrófica.
Foi difícil esclarecer o caso: a legislação indiana proíbe o abate dessas aves, ainda que por motivos científicos, e encontrar corpos mortos em condições próprias para pesquisa é quase impossível. Em 2003, finalmente, um time do The Peregrine Fund, ONG especializada em rapineiras, chegou ao culpado: o diclofenaco, anti-inflamatório bem tolerado pelo gado, mas letal para aves que eventualmente se alimentam dos restos de bois e vacas medicados.
Diclofenaco é o nome científico do nosso velho conhecido Voltaren.
O seu uso veterinário foi proibido na Índia em 2006, mas aí mais de 99% da população de abutres já havia sido dizimada. No momento, há oito centros de criação espalhados pelo país para tentar reverter a situação.
A falta dos abutres (não confundir com urubus) é um desastre ecológico. Na sua ausência, carcaças apodrecem em áreas públicas nas aldeias e contaminam o solo e a água, enquanto outros animais carniceiros, como ratos e cães vadios, proliferam. A questão é que não só eles não são faxineiros tão eficientes, como, ainda por cima, podem se contaminar com as carcaças em decomposição, tornando-se transmissores de doenças sérias.
Mas ninguém na Índia está sentindo tanto essa crise quanto os parsis, uma minoria étnico-religiosa que depende desses pássaros para dar fim aos seus mortos. Descendentes dos antigos persas zoroastrianos, eles acreditam que os cadáveres, impuros, não podem entrar em contato com a água, a terra ou o fogo, elementos sagrados.
Quando alguém morre, portanto, é logo levado para a Dakhma, ou Torre do Silêncio, onde os corpos nus são depositados ao relento, sobre placas de pedra — e rapidamente devorados pelas aves.
Antes do diclofenaco, os abutres resolviam a questão em menos de uma hora. Os ossos limpos eram curados pelo sol e pelo vento, e recolhidos num poço onde o tempo e a cal cuidavam deles. Um sistema prático e limpo, que evitava a decomposição, alimentava as aves e igualava ricos e pobres num mesmo ritual.
Sem os abutres, os corpos levam meses para se desintegrar.
Os parsis já tentaram instalar painéis solares nas torres para acelerar o processo, assim como criar essas aves em cativeiro na sua vizinhança, mas sem muito sucesso.
Assim como os abutres, os parsis são, eles também, uma espécie em extinção. A maioria vive em Mumbai e, mesmo lá, não chegam a 50 mil pessoas. Formam uma comunidade rica e influente que, ainda assim, está em declínio, às voltas com poucos nascimentos e com a imigração dos jovens.
segunda-feira, 17 de julho de 2023
Erros alimentam o 'jurássico'
Inelegível, Bolsonaro caminha para o ocaso, mas aquilo que se chama de bolsonarismo, precisa dos erros de seus adversários para crescer. Ajudado, vai longe. Andando com as próprias pernas, briga com as vacinas durante uma pandemia, demora para reconhecer o resultado de uma eleição presidencial americana e arruma um chanceler que se orgulha de colocar o país na condição de pária
Elio Gaspari
Ou limitamos o espaço dos órfãos da ditadura ou eles voltarão um dia
É pequeno o percentual dos que, em resposta a enquetes deste blog, afirmam que o bolsonarismo é uma corrente de opinião democrática. O que eu gostaria de saber é se eles, de fato, pensam assim, e caso pensem, o que entendem por democracia, se ela e ditadura podem ser relativas ou disfarçadas.
Os acampados à porta de quartéis que pediam intervenção militar para impedir a posse de Lula eram todos bolsonaristas – alguma dúvida? Imagino que até os bolsonaristas concordem, embora se alegue que havia infiltrados de esquerda entre eles, e os culpem pela depredação do patrimônio público na Praça dos Três Poderes.
Ninguém de esquerda foi preso no ato golpista do 8 de Janeiro. Ou a Polícia Militar do Distrito Federal sabia distinguir quem era de esquerda e de direita, e preferiu prender apenas os de direita, ou não havia esquerdistas ali. Naquele dia, sequer havia policiais em número suficiente para conter a baderna, e parte deles se omitiu.
Que provas tinham os bolsonaristas para sustentar a suspeita de que a eleição fora roubada? Nem Bolsonaro apresentou provas depois de a perder. Antes, também não, embora tenha reunido dezenas de embaixadores estrangeiros no Palácio do Planalto para dizer que o processo eleitoral brasileiro era sujeito a fraudes.

Se tivesse sido reeleito, o que ele teria dito? Que venceu apesar das fraudes, como disse em 2019 no início do seu governo? Mudaria de assunto e tocaria em frente o projeto de revogar a democracia, instalando em seu lugar um regime autoritário ou assumidamente ditatorial? Ora, foi o que ele tentou fazer nos últimos quatro anos.
À falta de provas, seria proibido clamar pela anulação do resultado das eleições. Muito menos se poderia pedir a anulação somente do resultado da eleição presidencial, de vez que foram também eleitos governadores, senadores e deputados federais. Ou se anula a eleição de todos ou de nenhum; não faria sentido.
Um dos pilares da democracia é a alternância no poder. Com Fernando Collor de Mello, a direita ganhou em 1989 a primeira eleição presidencial pelo voto popular depois do fim da ditadura. Direita e centro esquerda ganharam as eleições seguintes com Fernando Henrique Cardoso, que governou de 1995 a 2002.
A esquerda ganhou com Lula duas vezes, e mais duas com Dilma. A direita voltou a ganhar em 2018 com Bolsonaro, e a perder para a esquerda com Lula no ano passado. Alternância no poder é isso. Os que não admitem perder, os que derrotados querem continuar no poder a qualquer custo, não são democratas, são outra coisa.
Podem até não saber o que são, mas são órfãos da ditadura militar de 64 e das que a antecederam. A democracia os tolera, do contrário não mereceria ser chamada de democracia. Mas os democratas sinceros devem combatê-los para que não realizem seus cruéis intentos. Eles estão armados e dispostos a tudo.
Os acampados à porta de quartéis que pediam intervenção militar para impedir a posse de Lula eram todos bolsonaristas – alguma dúvida? Imagino que até os bolsonaristas concordem, embora se alegue que havia infiltrados de esquerda entre eles, e os culpem pela depredação do patrimônio público na Praça dos Três Poderes.
Ninguém de esquerda foi preso no ato golpista do 8 de Janeiro. Ou a Polícia Militar do Distrito Federal sabia distinguir quem era de esquerda e de direita, e preferiu prender apenas os de direita, ou não havia esquerdistas ali. Naquele dia, sequer havia policiais em número suficiente para conter a baderna, e parte deles se omitiu.
Que provas tinham os bolsonaristas para sustentar a suspeita de que a eleição fora roubada? Nem Bolsonaro apresentou provas depois de a perder. Antes, também não, embora tenha reunido dezenas de embaixadores estrangeiros no Palácio do Planalto para dizer que o processo eleitoral brasileiro era sujeito a fraudes.
Se tivesse sido reeleito, o que ele teria dito? Que venceu apesar das fraudes, como disse em 2019 no início do seu governo? Mudaria de assunto e tocaria em frente o projeto de revogar a democracia, instalando em seu lugar um regime autoritário ou assumidamente ditatorial? Ora, foi o que ele tentou fazer nos últimos quatro anos.
À falta de provas, seria proibido clamar pela anulação do resultado das eleições. Muito menos se poderia pedir a anulação somente do resultado da eleição presidencial, de vez que foram também eleitos governadores, senadores e deputados federais. Ou se anula a eleição de todos ou de nenhum; não faria sentido.
Um dos pilares da democracia é a alternância no poder. Com Fernando Collor de Mello, a direita ganhou em 1989 a primeira eleição presidencial pelo voto popular depois do fim da ditadura. Direita e centro esquerda ganharam as eleições seguintes com Fernando Henrique Cardoso, que governou de 1995 a 2002.
A esquerda ganhou com Lula duas vezes, e mais duas com Dilma. A direita voltou a ganhar em 2018 com Bolsonaro, e a perder para a esquerda com Lula no ano passado. Alternância no poder é isso. Os que não admitem perder, os que derrotados querem continuar no poder a qualquer custo, não são democratas, são outra coisa.
Podem até não saber o que são, mas são órfãos da ditadura militar de 64 e das que a antecederam. A democracia os tolera, do contrário não mereceria ser chamada de democracia. Mas os democratas sinceros devem combatê-los para que não realizem seus cruéis intentos. Eles estão armados e dispostos a tudo.
O iliberalismo não morreu com a inelegibilidade de Bolsonaro
A agenda social-liberal está órfã no Brasil. Foi substituída por um projeto iliberal no mandato de Jair Bolsonaro e ainda não foi plenamente assumida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja política tem viés nacional-desenvolvimentista, evidente na política externa e na política industrial. Para neutralizar o iliberalismo, a gestão de Lula precisaria consolidar outro viés, a de um governo de ampla coalizão democrática, com uma política de integração competitiva à economia mundial e agenda social universalista, mas com foco nos mais pobres.
Uma terceira alternativa, com esse caráter social-liberal, não é possível na atual conjuntura, mesmo que alguns desejem, por falta lhe uma liderança de projeção nacional e base social articulada. Essa disputa está se dando dentro do governo Lula e não fora dele.
O que existe de alternativa de poder fora do governo são lideranças que surgiram na aba do chapéu do ex-presidente Jair Bolsonaro, principal representante do iliberalismo na política brasileira, porque sua base eleitoral continua influente, articulada e identificada com uma agenda autoritária. Com a inelegibilidade do ex-presidente da República, sentenciada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), muitos acreditam que a ameaça à democracia deixou de existir. É um equívoco.
No momento, a mais eloquente demonstração de que o projeto iliberal não está morto é a questão das escolas cívico-militares. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), liderou o movimento para manutenção das escolas, depois da manifestação do Ministério da Educação (MEC), pedagogicamente correta, de que esse modelo de escola é anacrônico e autoritário.
“Fui aluno de colégio militar e sei da importância de um ensino de qualidade e como é preciso que a escola transmita valores corretos para os nossos jovens”, disse o ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro. Hoje, há 13 unidades em São Paulo.
Outros doze estados decidiram manter o modelo, na maioria dos quais Bolsonaro venceu as eleições passadas. Há duas razões para isso, uma é o comprometimento ideológico com o projeto iliberal, como fica claro nas declarações do governador paulista; o outro, a pressão da base eleitoral do ex-chefe do Planalto.
Como na defesa da proibição do aborto, da posse de armas e da pena de morte, o senso comum leva muitas pessoas a acreditarem que a formação militar nas escolas com fins civis garantirá o futuro e a segurança de seus filhos. Quais são os “valores corretos”? Os professores de nossas escolas públicas não têm esses valores? É preciso a presença de ex-militares nas salas de aula para isso? O principal problema da qualidade das escolas públicas são a falta de recursos e a desvalorização dos professores, de abertura para novos conceitos pedagógicos.
O iliberalismo no Brasil não é um projeto político descolado da nossa realidade e do mundo. A revolução digital, a crise de representação dos partidos e as mudanças nos costumes, com o fim da antiga “sociedade industrial”, estruturada em classes sociais definidas, geram muita perplexidade e insegurança na sociedade. Na chamada “modernidade líquida”, conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, principal característica de nossa época, as relações sociais, econômicas e de produção são “frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos”.
O iliberalismo é uma das faces políticas dessa nova sociedade. Na “modernidade líquida”, o indivíduo molda a sociedade à sua personalidade, por seu estilo de vida, padrão de consumo e comportamento. A mobilidade geográfica é muito maior, as migrações ocorrem por necessidade ou oportunidade, a competição econômica aumenta, os salários diminuem, o emprego é inseguro, novas profissões surgem e muitas desaparecem. Uma pessoa ter o mesmo emprego por toda a vida é quase impossível, exceto para funcionários públicos de carreira. E aí que surge o reacionarismo, o desejo de voltar a um passado idealizado, imaginário, para ter mais segurança.
E o projeto iliberal? Esse conceito surgiu para caracterizar os movimentos e os partidos que combatem a democracia por dentro. Ganhou muita força no Ocidente durante o governo de Donald Trump, porque chegou ao poder nos Estados Unidos. O que separa a democracia liberal do iliberalismo é a falta de respeito pelas instituições independentes e pelos direitos individuais, principalmente.
No Brasil, o iliberalismo emergiu com a crise de nossa democracia representativa, cujo descolamento da sociedade ficou evidente nos protestos de 2013. Chegou ao poder no tsunami eleitoral de 2018. Em todo o mundo, lideranças iliberais combatem os valores democráticos, disputam o poder dentro das regras do jogo e, quando vitoriosos, atuam contra as instituições democráticas. É o que ocorre na Hungria, na Rússia e na Turquia; mais recentemente, na Itália e na Espanha. E foi o que assistimos nos quatro anos de governo Bolsonaro.
A expressão “democracia iliberal” (“illiberal democracy”, em inglês) apareceu pela primeira vez em 1997, em um ensaio publicado na revista “Foreign Affairs” pelo jornalista e cientista político americano Farred Zakaria, um crítico da cultura de cancelamento na esquerda.
No ensaio, Zakaria chamou de democracias iliberais os “regimes democraticamente eleitos e com frequência reeleitos ou mantidos no poder por meio de plebiscitos, que ignoram que seus poderes são limitados constitucionalmente e que destituem seus cidadãos de seus direitos e liberdades básicos”.
Uma terceira alternativa, com esse caráter social-liberal, não é possível na atual conjuntura, mesmo que alguns desejem, por falta lhe uma liderança de projeção nacional e base social articulada. Essa disputa está se dando dentro do governo Lula e não fora dele.
O que existe de alternativa de poder fora do governo são lideranças que surgiram na aba do chapéu do ex-presidente Jair Bolsonaro, principal representante do iliberalismo na política brasileira, porque sua base eleitoral continua influente, articulada e identificada com uma agenda autoritária. Com a inelegibilidade do ex-presidente da República, sentenciada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), muitos acreditam que a ameaça à democracia deixou de existir. É um equívoco.
No momento, a mais eloquente demonstração de que o projeto iliberal não está morto é a questão das escolas cívico-militares. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), liderou o movimento para manutenção das escolas, depois da manifestação do Ministério da Educação (MEC), pedagogicamente correta, de que esse modelo de escola é anacrônico e autoritário.
“Fui aluno de colégio militar e sei da importância de um ensino de qualidade e como é preciso que a escola transmita valores corretos para os nossos jovens”, disse o ex-ministro da Infraestrutura de Bolsonaro. Hoje, há 13 unidades em São Paulo.
Outros doze estados decidiram manter o modelo, na maioria dos quais Bolsonaro venceu as eleições passadas. Há duas razões para isso, uma é o comprometimento ideológico com o projeto iliberal, como fica claro nas declarações do governador paulista; o outro, a pressão da base eleitoral do ex-chefe do Planalto.
Como na defesa da proibição do aborto, da posse de armas e da pena de morte, o senso comum leva muitas pessoas a acreditarem que a formação militar nas escolas com fins civis garantirá o futuro e a segurança de seus filhos. Quais são os “valores corretos”? Os professores de nossas escolas públicas não têm esses valores? É preciso a presença de ex-militares nas salas de aula para isso? O principal problema da qualidade das escolas públicas são a falta de recursos e a desvalorização dos professores, de abertura para novos conceitos pedagógicos.
O iliberalismo no Brasil não é um projeto político descolado da nossa realidade e do mundo. A revolução digital, a crise de representação dos partidos e as mudanças nos costumes, com o fim da antiga “sociedade industrial”, estruturada em classes sociais definidas, geram muita perplexidade e insegurança na sociedade. Na chamada “modernidade líquida”, conceito do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, principal característica de nossa época, as relações sociais, econômicas e de produção são “frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos”.
O iliberalismo é uma das faces políticas dessa nova sociedade. Na “modernidade líquida”, o indivíduo molda a sociedade à sua personalidade, por seu estilo de vida, padrão de consumo e comportamento. A mobilidade geográfica é muito maior, as migrações ocorrem por necessidade ou oportunidade, a competição econômica aumenta, os salários diminuem, o emprego é inseguro, novas profissões surgem e muitas desaparecem. Uma pessoa ter o mesmo emprego por toda a vida é quase impossível, exceto para funcionários públicos de carreira. E aí que surge o reacionarismo, o desejo de voltar a um passado idealizado, imaginário, para ter mais segurança.
E o projeto iliberal? Esse conceito surgiu para caracterizar os movimentos e os partidos que combatem a democracia por dentro. Ganhou muita força no Ocidente durante o governo de Donald Trump, porque chegou ao poder nos Estados Unidos. O que separa a democracia liberal do iliberalismo é a falta de respeito pelas instituições independentes e pelos direitos individuais, principalmente.
No Brasil, o iliberalismo emergiu com a crise de nossa democracia representativa, cujo descolamento da sociedade ficou evidente nos protestos de 2013. Chegou ao poder no tsunami eleitoral de 2018. Em todo o mundo, lideranças iliberais combatem os valores democráticos, disputam o poder dentro das regras do jogo e, quando vitoriosos, atuam contra as instituições democráticas. É o que ocorre na Hungria, na Rússia e na Turquia; mais recentemente, na Itália e na Espanha. E foi o que assistimos nos quatro anos de governo Bolsonaro.
A expressão “democracia iliberal” (“illiberal democracy”, em inglês) apareceu pela primeira vez em 1997, em um ensaio publicado na revista “Foreign Affairs” pelo jornalista e cientista político americano Farred Zakaria, um crítico da cultura de cancelamento na esquerda.
No ensaio, Zakaria chamou de democracias iliberais os “regimes democraticamente eleitos e com frequência reeleitos ou mantidos no poder por meio de plebiscitos, que ignoram que seus poderes são limitados constitucionalmente e que destituem seus cidadãos de seus direitos e liberdades básicos”.
domingo, 16 de julho de 2023
Há montanhas de milho ao relento no interior do Brasil
As imagens feitas com um drone impressionam: uma montanha dourada se ergue ao lado de um conjunto de silos gigantescos para armazenagem de grãos.
Ao lado da pilha, um caminhão graneleiro parece um caminhãozinho de brinquedo e um homem de capacete torna-se um pontinho quase imperceptível.
A montanha de milho ao relento, registrada na Cooavil (Cooperativa Agropecuária Terra Viva) em Sorriso, no Mato Grosso, é uma de muitas que se acumulam pelo interior do Brasil, em meio à colheita da maior safra do grão da história do país.
Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), em dados divulgados na quinta-feira (13/7), o Brasil deve produzir 128 milhões de toneladas de milho, somando as três safras do ciclo 2022/2023 — num crescimento de 13% em relação ao ciclo anterior, que já havia sido recorde.
A safra gigante tem ajudado a reduzir a inflação no país ao baratear a ração animal e o custo de produção das carnes, que já acumulam queda de preços de quase 6% no ano, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A safra também tem contribuído para um PIB (Produto Interno Bruto) maior do que o esperado este ano e para superávits recordes na balança comercial brasileira, com o país a caminho de desbancar os Estados Unidos como maior exportador de milho do mundo.
Mas a safra recorde de milho, logo após uma safra também recorde de soja, além dos preços em baixa de ambos os grãos, resultaram em armazéns lotados e toneladas de milho armazenadas ao ar livre, expostas a temperaturas elevadas, à possibilidade de chuvas e a ataques de insetos e roedores.
O problema já aconteceu em anos anteriores, mas em 2023 está mais grave, de acordo com representantes do agronegócio ouvidos pela BBC News Brasil.
Segundo a Câmara Setorial de Armazenagem de Grãos da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (CSEAG-Abimaq), o déficit de armazenagem de grãos no Brasil cresceu de 83 milhões de toneladas em 2022 para 118 milhões de toneladas este ano — também um recorde.
A foto citada no início do texto foi cedida à BBC News Brasil pela própria Cooavil. A reportagem tentou ainda ouvir um porta-voz da cooperativa, mas não foi possível por questão de agenda.
Paulo Bertolini, diretor da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Miho), explica que o déficit de armazenagem é um problema crônico do agronegócio brasileiro, mas que vem piorando ano após ano.
Isso porque a produção de grãos brasileira tem crescido a uma média 9,4 milhões de toneladas por ano, enquanto a capacidade de armazenagem cresce praticamente a metade disso: a um ritmo de 4,8 milhões de toneladas por ano, segundo dados da Conab e da Abimaq.
Assim, com dois anos seguidos de safra recorde, a armazenagem de milho a céu aberto na segunda safra este ano acontece em volume sem precedentes.
"É bem mais do que em anos anteriores e o problema da falta de espaço para armazenagem aconteceu aqui no Paraná já na primeira safra, pela primeira vez na história", relata Bertolini.
A título de comparação, enquanto a primeira safra (colhida entre janeiro e fevereiro) somou 27 milhões de toneladas, a segunda safra (atualmente em fase de colheita) deve chegar a 98 milhões de toneladas, com um crescimento em volume de 14% em relação à segunda safra do ano passado, segundo a Conab.
Antes chamada de "safrinha", a segunda safra de milho brasileira supera a primeira desde o ciclo de 2011/2012, chegando ao dobro de volume no período 2017/2018 e a mais do que o triplo no ciclo 2022/2023.
"Agora está entrando a segunda safra, com volume bastante grande de produção, e ela encontrou os armazéns ainda repletos de soja. Então é um problema crônico, mas que esse ano se agravou substancialmente", diz o diretor da Abramilho.
"Quem mais sofre é o milho, porque ele tem um valor agregado menor do que a soja — uma saca de milho vale menos do que a metade que a de soja", acrescenta.
"E ele produz duas vezes e meia a mais por hectare, então ocupa duas vezes e meia mais espaço do que a soja ocuparia e gasta duas vezes mais tempo para secar. Então a situação do milho é mais grave, num cenário onde o Brasil não tem capacidade para processar sua produção inteira."
Além da safra recorde, a queda de preços dos grãos também explica o grande volume de milho armazenado a céu aberto este ano, diz Sadi Beledelli, presidente do Sindicato Rural de Sorriso (MT).
"Como não só o preço do milho caiu, mas o preço da soja caiu, muitos produtores não fizeram negociação de soja ainda, estão mantendo a soja armazenada [à espera de melhores preços]. Então ela está tirando o espaço que seria ocupado pelo milho nesse período", afirma.
"Nós não temos armazéns suficientes na região para armazenar as duas safras, então muitos armazéns estão colocando milho a céu aberto, do lado de fora."
Beledelli explica que isso é possível no Mato Grosso porque chuvas são raras na região nessa época do ano. Mas a partir de setembro, quando voltam as águas, será necessário colocar todo esse milho em algum lugar, diz ele.
João Pedro Lopes, analista de inteligência de mercado da StoneX, lembra que 2021 e 2022 foram anos de preços altos para os grãos.
Isso por conta de uma combinação de safras prejudicadas por questões climáticas no Brasil e no mundo; efeitos inflacionários da pandemia de covid-19; desvalorização cambial por aqui; e a guerra entre Rússia e Ucrânia, a partir de fevereiro de 2022, que afetou o embarque de grãos ucranianos e o preço de insumos agrícolas, como os fertilizantes.
Em 2023, no entanto, os preços apresentam tendência de queda acentuada, devido à expectativa de forte produção no Brasil, elevada oferta também nos Estados Unidos e, mais recentemente, pela valorização do real, que torna as exportações brasileiras menos atrativas.
Assim, a soja, que chegou a ser negociada no porto de Paranaguá (PR) acima de R$ 200 por saca de 60 kg em março de 2022, é cotada atualmente a R$ 145 – uma desvalorização de 30% em relação ao pico, segundo dados do Cepea/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Universidade de São Paulo).
Já o milho chegou a R$ 104 a saca de 60 kg em março do ano passado, sendo negociada atualmente a R$ 55, uma desvalorização de 47% em relação ao pico, conforme o índice Esalq/BM&FBovespa.
E a falta de espaço para armazenagem pressiona ainda mais os preços, diz Bertolini, da Abramilho.
"Quando as cooperativas ficam sem espaço para receber a produção dos seus cooperados, o agricultor que ainda não comercializou a produção que está prestes a colher força o mercado, porque precisa se ver livre da produção que ninguém quer receber, fazendo os preços desabarem", relata.
O prejuízo aos produtores devido à falta de estrutura para processamento e armazenagem dos grãos é estimado em R$ 30,5 bilhões na safra 2022/2023, segundo cálculo de Carlos Cogo, da consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio, citado pelo diretor da Abramilho.
"Na nossa região de Campos Gerais no Paraná, a safra passada do milho veio a R$ 100 a saca, hoje está em torno de R$ 40. Esse valor não remunera os custos de produção e a atividade passa a operar no vermelho", diz Bertolini.
"É um prejuízo ao agricultor e um desestímulo para a próxima safra, quando provavelmente haverá uma redução de área de plantio."
Segundo estimativa da Abimaq, seriam necessários R$ 15 bilhões em investimentos por ano para frear o aumento do déficit em armazenagem.
"O que falta ao Brasil é recurso para financiamento compatível com o tipo de investimento necessário", avalia Bertolini.
Ele defende a necessidade de mais verba para o PCA do BNDES (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e de que o financiamento para investimento em armazenagem chegue na ponta, aos agricultores.
Em 2022, apenas 15% da capacidade de armazenagem de grãos no Brasil estava nas fazendas, enquanto 85% estavam em áreas urbanas e industriais, administradas em sua maioria por cooperativas e traders (grandes empresas dedicadas à negociação global de commodities).
Nos EUA, em comparação, mais de 60% da capacidade de armazenagem está nas fazendas. O país tem capacidade de armazenar o equivalente a uma safra e meia, cita o diretor da Abramilho, com base nos dados da Abimaq.
Procurado, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que, para a safra 2023/2024, foram destinados R$ 6,65 bilhões ao PCA.
"São R$ 2,85 bilhões para financiar armazéns com capacidade de até 6 mil toneladas, o que corresponde a 80,9% a mais de recursos comparativamente à safra 2022/2023, e R$ 3,80 bilhões para financiar armazéns com capacidade acima de 6 mil toneladas, ou 60,8% acima do que foi programado na safra passada", informou a pasta.
"Além disso, existem outras medidas para ajudar o produtor a enfrentar a defasagem, como a linha dolarizada do BNDES que oferece recursos sem limite de volume e tamanho de armazenagem para que o produtor não tenha que vender uma safra a preços baixos para colocar outra no armazém."
Já o BNDES afirmou em nota que "atento ao comportamento da demanda e às necessidades do setor, mantém aberto permanentemente o produto BNDES Crédito Rural".
"Vale destacar também que para atender aos projetos de armazenagem do segmento, além dos recursos do PCA, o BNDES também realiza operações na modalidade direta, onde o banco assume o risco de crédito", disse o banco de fomento, citando as linhas BNDES Finem e Finame Direto.
Para Beledelli, do Sindicato Rural de Sorriso, apenas ampliar o volume de financiamento não basta.
"Uma política governamental a respeito de armazenagem tem que ser implantada de forma urgente no país", defende o ruralista.
Segundo o representante do setor, é preciso também uma política de Estado para a questão logística, com a melhora das condições de transporte, principalmente através de ferrovias, e o aumento da capacidade dos portos brasileiros.
Ele defende ainda a necessidade da desburocratização para que a iniciativa privada possa fazer isso acontecer.
Ao lado da pilha, um caminhão graneleiro parece um caminhãozinho de brinquedo e um homem de capacete torna-se um pontinho quase imperceptível.
A montanha de milho ao relento, registrada na Cooavil (Cooperativa Agropecuária Terra Viva) em Sorriso, no Mato Grosso, é uma de muitas que se acumulam pelo interior do Brasil, em meio à colheita da maior safra do grão da história do país.
Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), em dados divulgados na quinta-feira (13/7), o Brasil deve produzir 128 milhões de toneladas de milho, somando as três safras do ciclo 2022/2023 — num crescimento de 13% em relação ao ciclo anterior, que já havia sido recorde.
A safra gigante tem ajudado a reduzir a inflação no país ao baratear a ração animal e o custo de produção das carnes, que já acumulam queda de preços de quase 6% no ano, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A safra também tem contribuído para um PIB (Produto Interno Bruto) maior do que o esperado este ano e para superávits recordes na balança comercial brasileira, com o país a caminho de desbancar os Estados Unidos como maior exportador de milho do mundo.
Mas a safra recorde de milho, logo após uma safra também recorde de soja, além dos preços em baixa de ambos os grãos, resultaram em armazéns lotados e toneladas de milho armazenadas ao ar livre, expostas a temperaturas elevadas, à possibilidade de chuvas e a ataques de insetos e roedores.
O problema já aconteceu em anos anteriores, mas em 2023 está mais grave, de acordo com representantes do agronegócio ouvidos pela BBC News Brasil.
Segundo a Câmara Setorial de Armazenagem de Grãos da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (CSEAG-Abimaq), o déficit de armazenagem de grãos no Brasil cresceu de 83 milhões de toneladas em 2022 para 118 milhões de toneladas este ano — também um recorde.
A foto citada no início do texto foi cedida à BBC News Brasil pela própria Cooavil. A reportagem tentou ainda ouvir um porta-voz da cooperativa, mas não foi possível por questão de agenda.
Paulo Bertolini, diretor da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Miho), explica que o déficit de armazenagem é um problema crônico do agronegócio brasileiro, mas que vem piorando ano após ano.
Isso porque a produção de grãos brasileira tem crescido a uma média 9,4 milhões de toneladas por ano, enquanto a capacidade de armazenagem cresce praticamente a metade disso: a um ritmo de 4,8 milhões de toneladas por ano, segundo dados da Conab e da Abimaq.
Assim, com dois anos seguidos de safra recorde, a armazenagem de milho a céu aberto na segunda safra este ano acontece em volume sem precedentes.
"É bem mais do que em anos anteriores e o problema da falta de espaço para armazenagem aconteceu aqui no Paraná já na primeira safra, pela primeira vez na história", relata Bertolini.
A título de comparação, enquanto a primeira safra (colhida entre janeiro e fevereiro) somou 27 milhões de toneladas, a segunda safra (atualmente em fase de colheita) deve chegar a 98 milhões de toneladas, com um crescimento em volume de 14% em relação à segunda safra do ano passado, segundo a Conab.
Antes chamada de "safrinha", a segunda safra de milho brasileira supera a primeira desde o ciclo de 2011/2012, chegando ao dobro de volume no período 2017/2018 e a mais do que o triplo no ciclo 2022/2023.
"Agora está entrando a segunda safra, com volume bastante grande de produção, e ela encontrou os armazéns ainda repletos de soja. Então é um problema crônico, mas que esse ano se agravou substancialmente", diz o diretor da Abramilho.
"Quem mais sofre é o milho, porque ele tem um valor agregado menor do que a soja — uma saca de milho vale menos do que a metade que a de soja", acrescenta.
"E ele produz duas vezes e meia a mais por hectare, então ocupa duas vezes e meia mais espaço do que a soja ocuparia e gasta duas vezes mais tempo para secar. Então a situação do milho é mais grave, num cenário onde o Brasil não tem capacidade para processar sua produção inteira."
Além da safra recorde, a queda de preços dos grãos também explica o grande volume de milho armazenado a céu aberto este ano, diz Sadi Beledelli, presidente do Sindicato Rural de Sorriso (MT).
"Como não só o preço do milho caiu, mas o preço da soja caiu, muitos produtores não fizeram negociação de soja ainda, estão mantendo a soja armazenada [à espera de melhores preços]. Então ela está tirando o espaço que seria ocupado pelo milho nesse período", afirma.
"Nós não temos armazéns suficientes na região para armazenar as duas safras, então muitos armazéns estão colocando milho a céu aberto, do lado de fora."
Beledelli explica que isso é possível no Mato Grosso porque chuvas são raras na região nessa época do ano. Mas a partir de setembro, quando voltam as águas, será necessário colocar todo esse milho em algum lugar, diz ele.
João Pedro Lopes, analista de inteligência de mercado da StoneX, lembra que 2021 e 2022 foram anos de preços altos para os grãos.
Isso por conta de uma combinação de safras prejudicadas por questões climáticas no Brasil e no mundo; efeitos inflacionários da pandemia de covid-19; desvalorização cambial por aqui; e a guerra entre Rússia e Ucrânia, a partir de fevereiro de 2022, que afetou o embarque de grãos ucranianos e o preço de insumos agrícolas, como os fertilizantes.
Em 2023, no entanto, os preços apresentam tendência de queda acentuada, devido à expectativa de forte produção no Brasil, elevada oferta também nos Estados Unidos e, mais recentemente, pela valorização do real, que torna as exportações brasileiras menos atrativas.
Assim, a soja, que chegou a ser negociada no porto de Paranaguá (PR) acima de R$ 200 por saca de 60 kg em março de 2022, é cotada atualmente a R$ 145 – uma desvalorização de 30% em relação ao pico, segundo dados do Cepea/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Universidade de São Paulo).
Já o milho chegou a R$ 104 a saca de 60 kg em março do ano passado, sendo negociada atualmente a R$ 55, uma desvalorização de 47% em relação ao pico, conforme o índice Esalq/BM&FBovespa.
E a falta de espaço para armazenagem pressiona ainda mais os preços, diz Bertolini, da Abramilho.
"Quando as cooperativas ficam sem espaço para receber a produção dos seus cooperados, o agricultor que ainda não comercializou a produção que está prestes a colher força o mercado, porque precisa se ver livre da produção que ninguém quer receber, fazendo os preços desabarem", relata.
O prejuízo aos produtores devido à falta de estrutura para processamento e armazenagem dos grãos é estimado em R$ 30,5 bilhões na safra 2022/2023, segundo cálculo de Carlos Cogo, da consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio, citado pelo diretor da Abramilho.
"Na nossa região de Campos Gerais no Paraná, a safra passada do milho veio a R$ 100 a saca, hoje está em torno de R$ 40. Esse valor não remunera os custos de produção e a atividade passa a operar no vermelho", diz Bertolini.
"É um prejuízo ao agricultor e um desestímulo para a próxima safra, quando provavelmente haverá uma redução de área de plantio."
Segundo estimativa da Abimaq, seriam necessários R$ 15 bilhões em investimentos por ano para frear o aumento do déficit em armazenagem.
"O que falta ao Brasil é recurso para financiamento compatível com o tipo de investimento necessário", avalia Bertolini.
Ele defende a necessidade de mais verba para o PCA do BNDES (Programa para Construção e Ampliação de Armazéns do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e de que o financiamento para investimento em armazenagem chegue na ponta, aos agricultores.
Em 2022, apenas 15% da capacidade de armazenagem de grãos no Brasil estava nas fazendas, enquanto 85% estavam em áreas urbanas e industriais, administradas em sua maioria por cooperativas e traders (grandes empresas dedicadas à negociação global de commodities).
Nos EUA, em comparação, mais de 60% da capacidade de armazenagem está nas fazendas. O país tem capacidade de armazenar o equivalente a uma safra e meia, cita o diretor da Abramilho, com base nos dados da Abimaq.
Procurado, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que, para a safra 2023/2024, foram destinados R$ 6,65 bilhões ao PCA.
"São R$ 2,85 bilhões para financiar armazéns com capacidade de até 6 mil toneladas, o que corresponde a 80,9% a mais de recursos comparativamente à safra 2022/2023, e R$ 3,80 bilhões para financiar armazéns com capacidade acima de 6 mil toneladas, ou 60,8% acima do que foi programado na safra passada", informou a pasta.
"Além disso, existem outras medidas para ajudar o produtor a enfrentar a defasagem, como a linha dolarizada do BNDES que oferece recursos sem limite de volume e tamanho de armazenagem para que o produtor não tenha que vender uma safra a preços baixos para colocar outra no armazém."
Já o BNDES afirmou em nota que "atento ao comportamento da demanda e às necessidades do setor, mantém aberto permanentemente o produto BNDES Crédito Rural".
"Vale destacar também que para atender aos projetos de armazenagem do segmento, além dos recursos do PCA, o BNDES também realiza operações na modalidade direta, onde o banco assume o risco de crédito", disse o banco de fomento, citando as linhas BNDES Finem e Finame Direto.
Para Beledelli, do Sindicato Rural de Sorriso, apenas ampliar o volume de financiamento não basta.
"Uma política governamental a respeito de armazenagem tem que ser implantada de forma urgente no país", defende o ruralista.
Segundo o representante do setor, é preciso também uma política de Estado para a questão logística, com a melhora das condições de transporte, principalmente através de ferrovias, e o aumento da capacidade dos portos brasileiros.
Ele defende ainda a necessidade da desburocratização para que a iniciativa privada possa fazer isso acontecer.
O voo do verme
Aquilo que os analistas políticos têm chamado de "bolsonarismo" não é mero condensado de clichês da extrema direita, mas basicamente uma rede de sinergia onde corpos vulneráveis aglutinam-se por ressentimento, em busca de "outro lado" da política e do social. Na prática, uma coxia de desconchavos que podem variar da fantasia senil de uma senadora de transformar a Ilha de Marajó num principado até a comparação estapafúrdia de professores a traficantes feita por um deputado. Ao olhar sensível, um campo vibratório de fatos negativos.
De fato, o homem, além daquilo que pensa, é igualmente o que vibra. As manifestações ao mesmo tempo sentidas e efusivas no velório do teatrólogo José Celso ilustram claramente como, até mesmo na morte, uma existência plena de criatividade e amor de mundo pode vibrar como "celebração à vida".
Nessa época em que se esfumam as fronteiras corporais entre máquinas e homens, vale ponderar também sobre analogias possíveis entre o mundo animal, em suas diferentes escalas, e o humano. Cientistas japoneses descobriram agora como um verme de apenas um milímetro consegue lançar-se a grande distância: aproveita a eletricidade natural de determinados insetos voadores para projetar-se ao ar como um ínfimo drone. Em termos breves, trata-se da formação de um campo vibratório que inclui o pequeno invertebrado e seres de maiores dimensões.
O cânone do pensamento social centra-se basicamente nas relações codificadas entre o Estado e o "socius", abrindo algum espaço para a interioridade individual. Deixa de lado o plano pouco perceptível das microinterações, no fenômeno variado da atração social, onde se podem divisar, entretanto, mecanismos sensíveis com potência de contato intersubjetivo. O corpo humano é sempre uma encruzilhada de práticas de conexão e vibração.
Esse plano abre caminho, no entanto, à compreensão de como consciências imobilizadas em estereótipos identitários possam de repente alçar-se de seus papéis congelados e revestir-se de outra imaginação de corpo próprio. O fenômeno requer um campo identificado não pelo conteúdo racionalista de noções, mas pela pulsação de fantasias primitivas: uma mobilização corporal do imaginário.
Isso é vibração que, assim como no verme pesquisado, provém da eletricidade das redes sociais. Mas não só. O campo negativista do bolsonarismo sobrevive como uma comunidade "noturna", abrigada na obscuridade dos porões, internos e externos, onde não é preciso abrir os olhos nem a consciência. Basta deixar solto o psiquismo troncho à espera do impulso vibratório.
Isso não tem provavelmente nenhum futuro político, nem sequer na direita. Mas o voo do verme pode ser socialmente corrosivo, senão fator ambiental de doença psíquica para os concidadãos.
De fato, o homem, além daquilo que pensa, é igualmente o que vibra. As manifestações ao mesmo tempo sentidas e efusivas no velório do teatrólogo José Celso ilustram claramente como, até mesmo na morte, uma existência plena de criatividade e amor de mundo pode vibrar como "celebração à vida".
Nessa época em que se esfumam as fronteiras corporais entre máquinas e homens, vale ponderar também sobre analogias possíveis entre o mundo animal, em suas diferentes escalas, e o humano. Cientistas japoneses descobriram agora como um verme de apenas um milímetro consegue lançar-se a grande distância: aproveita a eletricidade natural de determinados insetos voadores para projetar-se ao ar como um ínfimo drone. Em termos breves, trata-se da formação de um campo vibratório que inclui o pequeno invertebrado e seres de maiores dimensões.
O cânone do pensamento social centra-se basicamente nas relações codificadas entre o Estado e o "socius", abrindo algum espaço para a interioridade individual. Deixa de lado o plano pouco perceptível das microinterações, no fenômeno variado da atração social, onde se podem divisar, entretanto, mecanismos sensíveis com potência de contato intersubjetivo. O corpo humano é sempre uma encruzilhada de práticas de conexão e vibração.
Esse plano abre caminho, no entanto, à compreensão de como consciências imobilizadas em estereótipos identitários possam de repente alçar-se de seus papéis congelados e revestir-se de outra imaginação de corpo próprio. O fenômeno requer um campo identificado não pelo conteúdo racionalista de noções, mas pela pulsação de fantasias primitivas: uma mobilização corporal do imaginário.
Isso é vibração que, assim como no verme pesquisado, provém da eletricidade das redes sociais. Mas não só. O campo negativista do bolsonarismo sobrevive como uma comunidade "noturna", abrigada na obscuridade dos porões, internos e externos, onde não é preciso abrir os olhos nem a consciência. Basta deixar solto o psiquismo troncho à espera do impulso vibratório.
Isso não tem provavelmente nenhum futuro político, nem sequer na direita. Mas o voo do verme pode ser socialmente corrosivo, senão fator ambiental de doença psíquica para os concidadãos.
Do planeta imaginário para a terra real
Existe uma noção crescentemente difundida de que o nosso planeta mudou muito desde a Revolução Industrial. Ao longo dos anos, nesta crónica do JL tenho procurado documentar profusamente aquilo que o historiador John McNeill (2000) designou como “A Grande Aceleração”: o crescimento exponencial do impacto humano sobre o complexo software planetário, aumentando a sua entropia e desequilibrando os seus frágeis equilíbrios, de que depende a biosfera, incluindo a sobrevivência da nossa espécie. Contudo, mesmo entre as camadas mais educadas da população, em virtude também da visão fragmentada do mundo que nos é oferecida pelas formações académicas hiperespecializadas (mesmo dentro das ciências naturais e quantitativas), a dimensão, profundidade e significado dessa mudança é bastante vaga e imprecisa.
As políticas públicas de ambiente e clima – incluindo as suas conexões com as políticas de economia, saúde ou defesa – têm-se caracterizado pelo pressuposto não interrogado de que a crise ambiental e climática constitui um epifenómeno indesejado de um processo globalmente positivo, que pode ser corrigido através de uma convicção, também ela não questionada, acerca da essência ilimitada do nosso engenho técnico, capaz de estar à altura de todo e qualquer desafio (Soromenho-Marques & Ribeiro, 2022). Por muito dolorosos que sejam os danos colaterais, para essa visão convencional não está em causa a bondade do processo civilizacional em curso, nem a possibilidade de resolver, ou, pelo menos, atenuar substantivamente, os danos colaterais infligidos pela ação antrópica sobre o ambiente.
Em busca de uma nova visão da Terra A história da ciência moderna manifesta sem ambiguidade a natureza coletiva e institucional da empresa científica. São precisos meios materiais e humanos, organizados numa perspetiva de longo prazo. A empresa científica tem de estar associada ao sistema educativo, suportada por políticas públicas, articulada com os atores de mercado, legitimada pelo apoio da opinião pública e das organizações da sociedade civil. O processo de transição de uma visão parcelar, disfuncional, das questões ambientais para uma visão holística, integrada, capaz de oferecer representações e modelos com uma sólida base quantitativa e uma rigorosa adesão à realidade concreta, foi bastante lento e penoso. Foi preciso aproximar disciplinas e, sobretudo, pessoas de culturas académicas diferenciadas. Foi indispensável reorganizar projetos científicos, incluindo difíceis estratégias interdisciplinares e complexos modelos de financiamento.
Esse caminho começou a ser percorrido, com deliberação e consciência, por parte dos seus intervenientes, cerca da década de 1980 (o fim da guerra fria libertou meios e vontades para essa expansão). O resultado é o que hoje se designa, muitas vezes sem noção da novidade do que está em causa, a “ciência do Sistema-Terra” (Earth System science). No seu processo de construção, têm-se congregado não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e humanas (Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J. et al, 2020).
O Sistema-Terra, ao ultrapassar uma visão especializada e fragmentar da “natureza” predominante durante séculos na cultura científica ocidental moderna, permite dar visibilidade a fenómenos e processos complexos “emergentes”, objetos que só se tornam visíveis a partir da combinação entre os domínios que, anteriormente eram encarados como áreas especializadas, tendencialmente autónomas, esse é o caso de um indicador fundamental para estudarmos as alterações climáticas, o da temperatura média global de superfície, como nos explica Will Steffen, um dos cientistas mais relevantes nas pesquisas sobre os nossos desafios existenciais:
“Basicamente, o ‘Sistema Terra’ refere-se aos processos físicos, químicos e biológicos que interagem entre si e ligam a atmosfera, a criosfera (gelo), a terra, o oceano e a litosfera. Estes processos criam ‘propriedades emergentes’ – ou seja, propriedades e características do Sistema Terra como um todo, que surgem da interação entre estas esferas. A temperatura média global de superfície é um bom exemplo – é uma propriedade do Sistema Terra como um todo.” (Steffen, W. & Morgan, J., 2021).
Uma janela para a realidade escondida Ao longo das últimas duas décadas, nomeadamente com a identificação do nosso presente como constituindo uma nova época da história geológica, isto é, do tempo longo planetário, o Antropoceno (Crutzen & 2000), essa ideia geral de um “Sistema-Terra” , de um planeta constituído não por blocos mecanicamente autónomos (como é representado na visão convencional), mas pela complexa interação e interdependência de processos, ciclos, e fluxos de matéria e energia, deu origem a um sofisticado modelo, e em permanente atualização. A Terra, modelada desse modo, compreende os seguintes campos e respetivos limites: 1) Alterações climáticas; 2) Taxa de perda de biodiversidade; 3) Ciclo do azoto/ciclo do fósforo – que compreende conjuntamente o limite do fluxo biogeoquímico; 4) Depleção do ozono estratosférico; 5) Acidificação oceânica; 6) Utilização global da água doce; 7) Alteração do uso do solo; 8) Carga atmosférica de aerossóis; 9) Poluição química (Rockström, J., Steffen, W., Noone, K. et al. 2009; Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J., et al., 2015).
Trata-se de um autêntico painel de controlo, identificando os “limites planetários” (planetary boundaries) que não devem ser ultrapassados numa gestão prudente da nossa habitação histórica neste planeta. Um instrumento precioso para a sobrevivência, tanto mais quando é factual que em seis desses nove campos a luz vermelha do perigo já se acendeu. Parece-me desprovido de ambiguidade o desafio que a ciência do Sistema-Terra lança à política, à economia, ao direito, às relações internacionais, à ética: só conseguiremos evitar um colapso da civilização – que erguemos na base de uma fictícia visão da Terra (que considerámos, e continuamos na prática a considerar, como uma estrutura solidamente permanente e à nossa disposição para necessidades e caprichos) – se trabalharmos em conjunto, numa cooperação compulsória, imposta pela brutal realidade da encruzilhada existencial em que nos encontramos.
Que em vez disso, sejam os demónios da guerra e da discórdia, a falar mais alto, diz-nos bem, da distância gigantesca entre aquilo que é e o que deveria ser.
As políticas públicas de ambiente e clima – incluindo as suas conexões com as políticas de economia, saúde ou defesa – têm-se caracterizado pelo pressuposto não interrogado de que a crise ambiental e climática constitui um epifenómeno indesejado de um processo globalmente positivo, que pode ser corrigido através de uma convicção, também ela não questionada, acerca da essência ilimitada do nosso engenho técnico, capaz de estar à altura de todo e qualquer desafio (Soromenho-Marques & Ribeiro, 2022). Por muito dolorosos que sejam os danos colaterais, para essa visão convencional não está em causa a bondade do processo civilizacional em curso, nem a possibilidade de resolver, ou, pelo menos, atenuar substantivamente, os danos colaterais infligidos pela ação antrópica sobre o ambiente.
Em busca de uma nova visão da Terra A história da ciência moderna manifesta sem ambiguidade a natureza coletiva e institucional da empresa científica. São precisos meios materiais e humanos, organizados numa perspetiva de longo prazo. A empresa científica tem de estar associada ao sistema educativo, suportada por políticas públicas, articulada com os atores de mercado, legitimada pelo apoio da opinião pública e das organizações da sociedade civil. O processo de transição de uma visão parcelar, disfuncional, das questões ambientais para uma visão holística, integrada, capaz de oferecer representações e modelos com uma sólida base quantitativa e uma rigorosa adesão à realidade concreta, foi bastante lento e penoso. Foi preciso aproximar disciplinas e, sobretudo, pessoas de culturas académicas diferenciadas. Foi indispensável reorganizar projetos científicos, incluindo difíceis estratégias interdisciplinares e complexos modelos de financiamento.
Esse caminho começou a ser percorrido, com deliberação e consciência, por parte dos seus intervenientes, cerca da década de 1980 (o fim da guerra fria libertou meios e vontades para essa expansão). O resultado é o que hoje se designa, muitas vezes sem noção da novidade do que está em causa, a “ciência do Sistema-Terra” (Earth System science). No seu processo de construção, têm-se congregado não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e humanas (Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J. et al, 2020).
O Sistema-Terra, ao ultrapassar uma visão especializada e fragmentar da “natureza” predominante durante séculos na cultura científica ocidental moderna, permite dar visibilidade a fenómenos e processos complexos “emergentes”, objetos que só se tornam visíveis a partir da combinação entre os domínios que, anteriormente eram encarados como áreas especializadas, tendencialmente autónomas, esse é o caso de um indicador fundamental para estudarmos as alterações climáticas, o da temperatura média global de superfície, como nos explica Will Steffen, um dos cientistas mais relevantes nas pesquisas sobre os nossos desafios existenciais:
“Basicamente, o ‘Sistema Terra’ refere-se aos processos físicos, químicos e biológicos que interagem entre si e ligam a atmosfera, a criosfera (gelo), a terra, o oceano e a litosfera. Estes processos criam ‘propriedades emergentes’ – ou seja, propriedades e características do Sistema Terra como um todo, que surgem da interação entre estas esferas. A temperatura média global de superfície é um bom exemplo – é uma propriedade do Sistema Terra como um todo.” (Steffen, W. & Morgan, J., 2021).
Uma janela para a realidade escondida Ao longo das últimas duas décadas, nomeadamente com a identificação do nosso presente como constituindo uma nova época da história geológica, isto é, do tempo longo planetário, o Antropoceno (Crutzen & 2000), essa ideia geral de um “Sistema-Terra” , de um planeta constituído não por blocos mecanicamente autónomos (como é representado na visão convencional), mas pela complexa interação e interdependência de processos, ciclos, e fluxos de matéria e energia, deu origem a um sofisticado modelo, e em permanente atualização. A Terra, modelada desse modo, compreende os seguintes campos e respetivos limites: 1) Alterações climáticas; 2) Taxa de perda de biodiversidade; 3) Ciclo do azoto/ciclo do fósforo – que compreende conjuntamente o limite do fluxo biogeoquímico; 4) Depleção do ozono estratosférico; 5) Acidificação oceânica; 6) Utilização global da água doce; 7) Alteração do uso do solo; 8) Carga atmosférica de aerossóis; 9) Poluição química (Rockström, J., Steffen, W., Noone, K. et al. 2009; Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J., et al., 2015).
Trata-se de um autêntico painel de controlo, identificando os “limites planetários” (planetary boundaries) que não devem ser ultrapassados numa gestão prudente da nossa habitação histórica neste planeta. Um instrumento precioso para a sobrevivência, tanto mais quando é factual que em seis desses nove campos a luz vermelha do perigo já se acendeu. Parece-me desprovido de ambiguidade o desafio que a ciência do Sistema-Terra lança à política, à economia, ao direito, às relações internacionais, à ética: só conseguiremos evitar um colapso da civilização – que erguemos na base de uma fictícia visão da Terra (que considerámos, e continuamos na prática a considerar, como uma estrutura solidamente permanente e à nossa disposição para necessidades e caprichos) – se trabalharmos em conjunto, numa cooperação compulsória, imposta pela brutal realidade da encruzilhada existencial em que nos encontramos.
Que em vez disso, sejam os demónios da guerra e da discórdia, a falar mais alto, diz-nos bem, da distância gigantesca entre aquilo que é e o que deveria ser.
sábado, 15 de julho de 2023
As soluções de alguns países para vencer a crise hídrica
Ingrid Coetzee lembra como foi viver a crise hídrica da Cidade do Cabo em 2018, quando as torneiras quase secaram e a metrópole sul-africana se tornou a primeira grande cidade do mundo a correr o risco de ficar sem água.
A certa altura, os residentes ficaram limitados a apenas 50 litros por dia. Para ter uma referência, uma lavagem de roupa pode usar até cerca de 70 litros, dependendo da máquina. "Lembro-me de como era difícil conviver com essas restrições severas, em termos de redução de nossos limites diários de água", disse à DW por telefone a especialista em biodiversidade, natureza e saúde da Cidade do Cabo.
No final, a Cidade do Cabo conseguiu evitar o "Dia Zero", introduzindo limites estritos de água para empresas e residentes, como lembra Coetzee. A cidade aumentou as tarifas de água e as multas por uso excessivo e trabalhou com o setor agrícola para reduzir o consumo de água e reter a umidade do solo.
Coetzee disse que uma extensa campanha de conscientização pública pediu às pessoas que reduzissem ou eliminassem atividades que consomem muita água, como lavar roupas ou carros, e as aconselhou a tomar banhos mais curtos – assim como a reutilizar a água do chuveiro para dar descarga no vaso sanitário.
"Muitos proprietários de casas, especialmente aqueles que podiam pagar, instalaram tanques de coleta de água da chuva, mas a realidade é que a maioria das pessoas não tinha esses luxos e realmente enfrentaram dificuldades", disse ela.
Desde a seca, Coetzee disse que a cidade também encontrou maneiras de aumentar o abastecimento de água trabalhando com órgãos públicos, empresas privadas e comunidades locais para restaurar as áreas de captação de águas superficiais e aquíferos.
"Uma solução baseada na natureza, na forma de remoção de vegetação exótica invasora nas áreas de captação da cidade e restauração dessas áreas, provou ser a medida mais econômica e eficiente com os melhores rendimentos", disse Coetzee, diretora da seção para a África da ONG Governos Locais para a Sustentabilidade (ICLEI ).
Espécies invasoras como pinheiros e eucaliptos absorvem muito mais água do que o arbusto nativo fynbos e restringem o abastecimento de água da cidade. "Os esforços até agora geraram 55 bilhões de litros de água adicionais a cada ano, a um décimo do custo da opção mais barata para esse nível de rendimento", disse Coetzee.
Essa solução, juntamente com o retorno das chuvas e as medidas de conservação aprendidas durante a crise de 2018, ajudaram a reabastecer as barragens da cidade e aliviar significativamente as preocupações com a água – pelo menos por enquanto.
Muitas outras cidades ao redor do mundo investiram em medidas de eficiência para ajudar a economizar água. Tóquio, por exemplo, atualizou sua infraestrutura e investiu em uma pronta detecção e reparo de vazamentos para reduzir o desperdício de água pela metade de 2002 a 2012, para apenas 3%.
Em lugares onde o abastecimento já está ameaçado devido às mudanças climáticas, tais esforços são ainda mais críticos. Como muitos californianos, 3,3 milhões de residentes no condado de San Diego, na fronteira sul dos EUA com o México, enfrentaram várias secas severas nos últimos 20 anos.
Mas, graças às restrições de água, educação pública e investimentos para aumentar a capacidade de reservatórios e reparos de canais para evitar infiltrações, o município reduziu o uso de água per capita em quase 50% nas últimas três décadas.
Juntamente com soluções tecnológicas como usinas de dessalinização, que removem o sal da água do oceano para torná-la potável, e planos futuros para purificar a água usada, o condado disse que será capaz de atender à demanda local até pelo menos 2045 – embora não sem um investimento financeiro significativo.
A região árida da Namíbia é uma veterana quando se trata de encontrar fontes alternativas de água. A capital, Windhoek, instalou a primeira usina de reciclagem de água do mundo em 1968, transformando esgoto em água potável em um processo de 10 etapas envolvendo desinfecção e várias camadas de filtragem. A Usina de Recuperação de Água de Goreangab foi modernizada em 2002 e continua a garantir um abastecimento de água confiável.
A reciclagem e a dessalinização da água já são comuns em climas secos como o Oriente Médio, o Mediterrâneo e o sul da Ásia. Mas não é assim no norte da Europa, onde os países não tiveram que se preocupar com o abastecimento de água até agora.
A Bélgica e a Holanda estão analisando projetos em Antuérpia e Haia que criariam água potável a partir de fontes não convencionais – pelo menos pelos padrões locais. Uma usina no porto de Antuérpia, com inauguração prevista para 2024, deve tratar água salgada e também águas residuais, para uso em áreas industriais próximas. Ao reduzir o uso de água potável no porto em cerca de 95%, espera-se aliviar a pressão sobre o abastecimento de água da região após anos de seca.
Em Haia, o fornecedor de água Dunea lançou um projeto piloto para tratar a água salobra bombeada de baixo das dunas costeiras. A osmose reversa, que usa alta pressão e membranas muito finas para filtrar o sal e outros minerais, pode ajudar a Dunea a produzir até 6 bilhões de litros de água potável todos os anos. Parece muito – mas em 2020, a Holanda consumiu cerca de 1,3 trilhão de litros.
"Nosso objetivo é aumentar o número de fontes de água, mas também limitar a demanda", disse o líder do projeto Dunea, Gertjan Zwolsman, no lançamento em fevereiro de 2022. "Por exemplo, apoiamos novos edifícios com eficiência hídrica e pedimos aos nossos clientes que usem água com responsabilidade. Mas essa abordagem leva tempo."
Às vezes, porém, a solução mais simples é a melhor. Em 2021, Istambul teve uma ideia da era de Bizâncio e do Império Otomano e tornou obrigatório que todos os novos edifícios em terrenos com mais de mil metros quadrados incluíssem cisternas subterrâneas para coletar e usar a água da chuva. O governo federal da Turquia determinou planos semelhantes para o resto do país.
Para combater a desertificação no Senegal, alguns agricultores estão plantando jardins circulares conhecidos como tolou keur, que mantêm plantas e árvores resistentes a climas quentes e secos. Os canteiros circulares – plantas medicinais no meio, seguidas por fileiras de vegetais e um anel externo de frutas, nozes e grandes baobás – permitem que as raízes cresçam para dentro, ajudando a reter as raras chuvas da região.
E em países como Chile e Marrocos, os habitantes locais há muito espalham redes para coletar água capturando a névoa. Usando tecnologia e materiais modernos para melhorar o design, os pesquisadores conseguiram coletar cinco vezes mais água.
A certa altura, os residentes ficaram limitados a apenas 50 litros por dia. Para ter uma referência, uma lavagem de roupa pode usar até cerca de 70 litros, dependendo da máquina. "Lembro-me de como era difícil conviver com essas restrições severas, em termos de redução de nossos limites diários de água", disse à DW por telefone a especialista em biodiversidade, natureza e saúde da Cidade do Cabo.
No final, a Cidade do Cabo conseguiu evitar o "Dia Zero", introduzindo limites estritos de água para empresas e residentes, como lembra Coetzee. A cidade aumentou as tarifas de água e as multas por uso excessivo e trabalhou com o setor agrícola para reduzir o consumo de água e reter a umidade do solo.
Coetzee disse que uma extensa campanha de conscientização pública pediu às pessoas que reduzissem ou eliminassem atividades que consomem muita água, como lavar roupas ou carros, e as aconselhou a tomar banhos mais curtos – assim como a reutilizar a água do chuveiro para dar descarga no vaso sanitário.
"Muitos proprietários de casas, especialmente aqueles que podiam pagar, instalaram tanques de coleta de água da chuva, mas a realidade é que a maioria das pessoas não tinha esses luxos e realmente enfrentaram dificuldades", disse ela.
Desde a seca, Coetzee disse que a cidade também encontrou maneiras de aumentar o abastecimento de água trabalhando com órgãos públicos, empresas privadas e comunidades locais para restaurar as áreas de captação de águas superficiais e aquíferos.
"Uma solução baseada na natureza, na forma de remoção de vegetação exótica invasora nas áreas de captação da cidade e restauração dessas áreas, provou ser a medida mais econômica e eficiente com os melhores rendimentos", disse Coetzee, diretora da seção para a África da ONG Governos Locais para a Sustentabilidade (ICLEI ).
Espécies invasoras como pinheiros e eucaliptos absorvem muito mais água do que o arbusto nativo fynbos e restringem o abastecimento de água da cidade. "Os esforços até agora geraram 55 bilhões de litros de água adicionais a cada ano, a um décimo do custo da opção mais barata para esse nível de rendimento", disse Coetzee.
Essa solução, juntamente com o retorno das chuvas e as medidas de conservação aprendidas durante a crise de 2018, ajudaram a reabastecer as barragens da cidade e aliviar significativamente as preocupações com a água – pelo menos por enquanto.
Muitas outras cidades ao redor do mundo investiram em medidas de eficiência para ajudar a economizar água. Tóquio, por exemplo, atualizou sua infraestrutura e investiu em uma pronta detecção e reparo de vazamentos para reduzir o desperdício de água pela metade de 2002 a 2012, para apenas 3%.
Em lugares onde o abastecimento já está ameaçado devido às mudanças climáticas, tais esforços são ainda mais críticos. Como muitos californianos, 3,3 milhões de residentes no condado de San Diego, na fronteira sul dos EUA com o México, enfrentaram várias secas severas nos últimos 20 anos.
Mas, graças às restrições de água, educação pública e investimentos para aumentar a capacidade de reservatórios e reparos de canais para evitar infiltrações, o município reduziu o uso de água per capita em quase 50% nas últimas três décadas.
Juntamente com soluções tecnológicas como usinas de dessalinização, que removem o sal da água do oceano para torná-la potável, e planos futuros para purificar a água usada, o condado disse que será capaz de atender à demanda local até pelo menos 2045 – embora não sem um investimento financeiro significativo.
A região árida da Namíbia é uma veterana quando se trata de encontrar fontes alternativas de água. A capital, Windhoek, instalou a primeira usina de reciclagem de água do mundo em 1968, transformando esgoto em água potável em um processo de 10 etapas envolvendo desinfecção e várias camadas de filtragem. A Usina de Recuperação de Água de Goreangab foi modernizada em 2002 e continua a garantir um abastecimento de água confiável.
A reciclagem e a dessalinização da água já são comuns em climas secos como o Oriente Médio, o Mediterrâneo e o sul da Ásia. Mas não é assim no norte da Europa, onde os países não tiveram que se preocupar com o abastecimento de água até agora.
A Bélgica e a Holanda estão analisando projetos em Antuérpia e Haia que criariam água potável a partir de fontes não convencionais – pelo menos pelos padrões locais. Uma usina no porto de Antuérpia, com inauguração prevista para 2024, deve tratar água salgada e também águas residuais, para uso em áreas industriais próximas. Ao reduzir o uso de água potável no porto em cerca de 95%, espera-se aliviar a pressão sobre o abastecimento de água da região após anos de seca.
Em Haia, o fornecedor de água Dunea lançou um projeto piloto para tratar a água salobra bombeada de baixo das dunas costeiras. A osmose reversa, que usa alta pressão e membranas muito finas para filtrar o sal e outros minerais, pode ajudar a Dunea a produzir até 6 bilhões de litros de água potável todos os anos. Parece muito – mas em 2020, a Holanda consumiu cerca de 1,3 trilhão de litros.
"Nosso objetivo é aumentar o número de fontes de água, mas também limitar a demanda", disse o líder do projeto Dunea, Gertjan Zwolsman, no lançamento em fevereiro de 2022. "Por exemplo, apoiamos novos edifícios com eficiência hídrica e pedimos aos nossos clientes que usem água com responsabilidade. Mas essa abordagem leva tempo."
Às vezes, porém, a solução mais simples é a melhor. Em 2021, Istambul teve uma ideia da era de Bizâncio e do Império Otomano e tornou obrigatório que todos os novos edifícios em terrenos com mais de mil metros quadrados incluíssem cisternas subterrâneas para coletar e usar a água da chuva. O governo federal da Turquia determinou planos semelhantes para o resto do país.
Para combater a desertificação no Senegal, alguns agricultores estão plantando jardins circulares conhecidos como tolou keur, que mantêm plantas e árvores resistentes a climas quentes e secos. Os canteiros circulares – plantas medicinais no meio, seguidas por fileiras de vegetais e um anel externo de frutas, nozes e grandes baobás – permitem que as raízes cresçam para dentro, ajudando a reter as raras chuvas da região.
E em países como Chile e Marrocos, os habitantes locais há muito espalham redes para coletar água capturando a névoa. Usando tecnologia e materiais modernos para melhorar o design, os pesquisadores conseguiram coletar cinco vezes mais água.
'A cortina que encobre as escolas cívico-militares'
Autor de A Insustentável Leveza do Ser, o escritor tcheco Milan Kundera, que morreu quarta-feira, em Paris, aos 94 anos, foi também um notável ensaísta, com três livros sobre literatura, um dos quais inspira esta coluna: A Cortina (Companhia das Letras), ensaio em sete partes. Kundera mostra as dificuldades de reconhecimento de um bom autor que escreve numa língua singular, como o tcheco. A Brincadeira, seu primeiro romance, que encantou o escritor francês Louis Aragon, foi publicado na antiga Tchecoslováquia, em 1967, durante a abertura ideológica que antecedeu a Primavera de Praga.
Duas vezes expulso do Partido Comunista, em 1950 e 1970, após exilar-se na França, Kundera decidiu escrever em francês. Não permitia, porém, que nenhuma outra pessoa traduzisse seus livros para o tcheco. Seu último romance, A Festa da Insignificância, que relata as peripécias de quatro amigos que vivem em Paris, foi lançado em 2014 e rompeu um silêncio de 14 anos. Nas três últimas décadas, recusou-se a dar entrevistas. Também proibiu que suas obras fossem adaptadas para o cinema, após o sucesso cinematográfico A Insustentável Leveza do Ser, sob a direção de Philip Kaufman, com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin no elenco.
A Insustentável Leveza do Ser é um clássico da literatura universal. Foi publicado em 1984, na França, tendo como personagens centrais um cirurgião e uma fotógrafa. Kundera era avesso à fama, embora circulasse por Paris como um “flanêur”, acompanhado de Vera, sua mulher. Naturalizado francês em 1981, perdeu a nacionalidade tcheca em 1978 e somente a recuperou em 2019. Dizia que “o romancista não precisa prestar contas a ninguém, exceto a Cervantes”.
No livro A Cortina, Kundera destaca a importância de Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote, obra prima do Renascimento, considerada a invenção do romance: “Uma cortina mágica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina. O mundo se abriu diante do cavaleiro errante em toda a nudez cômica de sua prosa”, explica. Segundo ele, “quando o mundo corre em nossa direção, no momento em que nascemos, já está maquiado, mascarado, pré-interpretado.”
Durante séculos, essa cortina encobriu o mundo real para reproduzir o status quo do feudalismo. Cervantes desnudou o atraso, a opressão e a exploração na Idade Média, através de uma picaresca história de amor, as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade, que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Com seu cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária, acompanhado de Sancho Pança, seu fiel escudeiro. Moinhos de vento e ovelhas se tornam gigantes e exércitos inimigos, fantasia e realidade se misturam.
Peço perdão a Kundera pela analogia com seu obituário, mas a criação de escolas militares com objetivos civis pelo ex-presidente Jair Bolsonaro não passa de uma tentativa de encobrir a realidade social de nossas crianças e adolescentes com um manto de ideias preconcebidas e conservadoras, como na Idade Média, para formação de uma mentalidade militarista e reacionária, em sintonia com seu projeto iliberal. Como modelo pedagógico, está fadada ao fracasso.
Uma coisa são os colégios militares das nossas Forças Armadas, cuja excelência está ligada à qualidade do ensino das matérias, mas são destinadas à formação e adestramento básico de futuros militares por vocação. Outra, é a doutrinação militarista pura e simples de futuros profissionais civis, com adoção de métodos pedagógicos ultrapassados. Nem o regime militar chegou tão longe, mesmo com as formaturas no hasteamento da bandeira e as aulas de “moral e cívica”.
Muitos pais acreditam que a escola cívico-militar de Bolsonaro resolverá o futuro de seus filhos, diante das deficiências do ensino público, com a substituição da boa educação familiar pela disciplina típica dos quarteis. Mas isso é um anacronismo. As escolas religiosas tradicionais, inclusive as destinadas à formação teológica e clerical, já abandonaram velhos ritos disciplinares e litúrgicos.
A revolução digital e a mudança dos costumes, que geram insegurança e instabilidade social, exigem outro tipo de formação, mais universal, flexível e culturalmente mais aberta. Esse é o grande debate da atualidade no ensino médio. O professor e romancista francês Daniel Pennac, por exemplo, não teria vez numa escola cívico-militar. Seu livro Diário de Escola (Rocco) conta a história de um aluno lerdo, atormentado pelas próprias limitações nas aulas de aritmética e gramática, e um tormento para a família, por causa da caderneta escolar. Até que um professor se aproxima, compreende suas limitações e lhe dá uma atenção especial. Sim, o aluno lerdo era Pennac, filho de general, autor de romances, literatura juvenil, contos para crianças, histórias em quadrinhos e roteiros para cinema e tevê.
Duas vezes expulso do Partido Comunista, em 1950 e 1970, após exilar-se na França, Kundera decidiu escrever em francês. Não permitia, porém, que nenhuma outra pessoa traduzisse seus livros para o tcheco. Seu último romance, A Festa da Insignificância, que relata as peripécias de quatro amigos que vivem em Paris, foi lançado em 2014 e rompeu um silêncio de 14 anos. Nas três últimas décadas, recusou-se a dar entrevistas. Também proibiu que suas obras fossem adaptadas para o cinema, após o sucesso cinematográfico A Insustentável Leveza do Ser, sob a direção de Philip Kaufman, com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche e Lena Olin no elenco.
A Insustentável Leveza do Ser é um clássico da literatura universal. Foi publicado em 1984, na França, tendo como personagens centrais um cirurgião e uma fotógrafa. Kundera era avesso à fama, embora circulasse por Paris como um “flanêur”, acompanhado de Vera, sua mulher. Naturalizado francês em 1981, perdeu a nacionalidade tcheca em 1978 e somente a recuperou em 2019. Dizia que “o romancista não precisa prestar contas a ninguém, exceto a Cervantes”.
No livro A Cortina, Kundera destaca a importância de Miguel de Cervantes, autor de Dom Quixote, obra prima do Renascimento, considerada a invenção do romance: “Uma cortina mágica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina. O mundo se abriu diante do cavaleiro errante em toda a nudez cômica de sua prosa”, explica. Segundo ele, “quando o mundo corre em nossa direção, no momento em que nascemos, já está maquiado, mascarado, pré-interpretado.”
Durante séculos, essa cortina encobriu o mundo real para reproduzir o status quo do feudalismo. Cervantes desnudou o atraso, a opressão e a exploração na Idade Média, através de uma picaresca história de amor, as aventuras e desventuras de Dom Quixote, um homem de meia idade, que resolveu se tornar cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Com seu cavalo e armadura, resolve lutar para provar seu amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária, acompanhado de Sancho Pança, seu fiel escudeiro. Moinhos de vento e ovelhas se tornam gigantes e exércitos inimigos, fantasia e realidade se misturam.
Peço perdão a Kundera pela analogia com seu obituário, mas a criação de escolas militares com objetivos civis pelo ex-presidente Jair Bolsonaro não passa de uma tentativa de encobrir a realidade social de nossas crianças e adolescentes com um manto de ideias preconcebidas e conservadoras, como na Idade Média, para formação de uma mentalidade militarista e reacionária, em sintonia com seu projeto iliberal. Como modelo pedagógico, está fadada ao fracasso.
Uma coisa são os colégios militares das nossas Forças Armadas, cuja excelência está ligada à qualidade do ensino das matérias, mas são destinadas à formação e adestramento básico de futuros militares por vocação. Outra, é a doutrinação militarista pura e simples de futuros profissionais civis, com adoção de métodos pedagógicos ultrapassados. Nem o regime militar chegou tão longe, mesmo com as formaturas no hasteamento da bandeira e as aulas de “moral e cívica”.
Muitos pais acreditam que a escola cívico-militar de Bolsonaro resolverá o futuro de seus filhos, diante das deficiências do ensino público, com a substituição da boa educação familiar pela disciplina típica dos quarteis. Mas isso é um anacronismo. As escolas religiosas tradicionais, inclusive as destinadas à formação teológica e clerical, já abandonaram velhos ritos disciplinares e litúrgicos.
A revolução digital e a mudança dos costumes, que geram insegurança e instabilidade social, exigem outro tipo de formação, mais universal, flexível e culturalmente mais aberta. Esse é o grande debate da atualidade no ensino médio. O professor e romancista francês Daniel Pennac, por exemplo, não teria vez numa escola cívico-militar. Seu livro Diário de Escola (Rocco) conta a história de um aluno lerdo, atormentado pelas próprias limitações nas aulas de aritmética e gramática, e um tormento para a família, por causa da caderneta escolar. Até que um professor se aproxima, compreende suas limitações e lhe dá uma atenção especial. Sim, o aluno lerdo era Pennac, filho de general, autor de romances, literatura juvenil, contos para crianças, histórias em quadrinhos e roteiros para cinema e tevê.
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