domingo, 14 de maio de 2023

Brasil Pix

 


Política


É um bom jogo de xadrez em que tudo está nas mãos de muitos poucos homens - e o povo sacrificado
John Randolph Dos Passos

Os confirmadores

Atrás de mim na fila para o banco estava um senhor com um envelope com notas misteriosas. Para observá-lo, demorei-me ao balcão, fingindo ler um folheto.

As notas eram francos suíços e dólares de Singapura. Mas não vinha depositá-las. Vinha perguntar ao banco se ainda estavam em vigor.

Vendo que eu estava comovido, a imaginar colchões em águas-furtadas, a senhora da caixa interrompeu as minhas fantasias e disse que ele ia lá de seis em seis meses, sempre com as mesmas notas, sempre no mesmo envelope, sempre com a mesma pergunta.

Às vezes as metáforas apresentam-se já feitas e a única coisa a fazer é aproveitá-las. Não era este velhote das notas muito parecido com a grande maioria dos meus amigos?


São de esquerda e de direita, mas essa diferença é ilusória, porque aquilo que são, verdadeira e profundamente, são confirmadores.

Quando leem os jornais, tudo o que procuram para ler são confirmações do que pensam. Pode ser pela negativa: os que pensam o contrário demonstram que são adversários desprezíveis e, por conseguinte, confirmam que a única posição racional é a oposta, que obviamente coincide com a posição destes meus amigos.

Os confirmadores gastam o tempo que têm a confirmar que o tempo deles é bem gasto, porque reforça o que já sabem e o que já pensam. Adquirem mais trunfos para lutar contra os confirmadores adversários, que agem e pensam exatamente da mesma maneira, mas num sentido contrário.

É como os carros na Marginal: uns vão para Cascais e outros para Lisboa, mas andam todos de carro e andam todos na Marginal.

Os confirmadores preferem saber pouco, mas ter a certeza do que já sabem, do que saber muito, mas sem ter a certeza se vale alguma coisa o que sabem.

Todos os dias levam as crenças e opiniões ao banco para confirmar que ainda são aceites, partilhadas, legítimas, valiosas.

Tornam-se especialistas da cepa torta, imobilistas capazes das maiores acrobacias para não sair do mesmo sítio.

É quase admirável.

Um esquema de rachadinha para Michelle Bolsonaro chamar de seu

Diálogos exemplares travados pelo tenente coronel Mauro Cid, então ajudante de ordem de Bolsonaro, com Cintia Borba Nogueira e Giselle dos Santos Carneiro de Silva, assessoras de Michelle. Assunto: o pagamento de despesas da primeira-dama.

Michelle usava um cartão de crédito vinculado à conta de Rosimary Cardoso Cordeiro, funcionária do Senado e sua amiga. Cid pagava a fatura do cartão com dinheiro vivo em uma agência do Banco do Brasil dentro do Palácio do Planalto.

De Cintia para Giselle em 30/10/2020 – “Então hoje essa situação do cartão realmente é um pouco preocupante. O que eu sugiro para você. No momento que for despachar com ela, você pode falar com ela assim sutilmente, né? Mas eu acho que você poderia falar assim: dona Michelle, que é que a senhora acha de a gente fazer um cartão para a senhora? Um cartão independente da Caixa. Para evitar que a gente fique na dependência da Rosy. E aí a gente pode controlar melhor as contas. Pode alertá-la do seguinte: que isso pode dar problema futuramente, se algum dia, Deus o livre, a imprensa descobre que ela é dependente da Rose, pode gerar algum problema”.

Giselle informa a Mauro Cid que conversou com uma pessoa próxima a Michelle, de nome Adriana, e que a primeira-dama ficou “pensativa”, mas que continuaria a usar o cartão de Rosimary. Mauro Cid então responde:

“Giselle, mas ainda não é o ideal isso não, tá? (o uso do cartão de Rosimary). O Cordeiro conversou com ela (Michelle), tá, também. E ela ficou com a pulga atrás da orelha mesmo: tá, é? É. É a mesma coisa do Flávio [Bolsonaro, senador]. O problema não é quando! É como deputado, rachadinha, essas coisas”.

“Se ela perguntar para você ou falar alguma coisa ou comentar, é importante ressaltar com ela que é o comprovante que ela tem. É um comprovante de depósito, é comprovante de pagamento. Não é um comprovante dela pagando nem do presidente pagando. Entendeu? É um comprovante que alguém tá pagando. Tanto que a gente saca o dinheiro e dá pra ela pagar ou sei lá quem paga ali. Então não tem como comprovar que esse dinheiro efetivamente sai da conta do presidente.”

“O Ministério Público, quando pegar isso aí, vai fazer a mesma coisa que fez com o Flávio, vai dizer que tem uma assessora de um senador aliado do presidente que está dando rachadinha, tá dando a parte do dinheiro para Michelle”.



Em novo áudio para Giselle, em novembro do ano passado, Mauro Cid comenta ainda a propósito do cartão:

“E isso sem contar a imprensa que quando a imprensa caiu de pau em cima, vai vender essa narrativa. Pode ser que nunca aconteça? Pode. Mas pode ser que amanhã, um mês, um ano ou quando ele terminar o mandato dele, isso venha à tona”.

A troca de áudios indica que o esquema evitava transferências bancárias e fazia pagamentos sempre em dinheiro vivo. Em conversa de 8 de novembro de 2021 com Osmar Crivelatti, militar subordinado a Mauro Cid, Cíntia diz:

“E sobre as flores da Patrícia Abravanel [filha do apresentador de tv Silvio Santos], ela falou que é para o Cid fazer o pagamento. Mas ele tinha me falado na semana passada que quando for esses pagamentos de terceiros, é para a gente pegar o dinheiro com ele e fazer o pagamento por aqui, tá? Então eu vou pedir a ele para sacar esse dinheiro e peço ao Vanderlei para pegar lá para a gente fazer o… Vai ter que ser feito um depósito, né? No número daquela conta que você me passou, tá?”

De Giselle para uma pessoa identificada como Vanderlei – “Boa noite, Vand e Cintía. PD (Primeira-dama) falou, eu perguntei para ela se ela queria transferir Pix, né? Tanto para Bia. Daí, ela falou: não, vamos fazer agora tudo depósito, que, aí pede pro Vanderlei fazer o depósito, a gente consegue o dinheiro e faz o depósito. Só que ela não falou como conseguiu o dinheiro, se o dinheiro está com ela, se a gente pega na AJO. Não falou, tá? Ela falou que assim não fica registrado nada, vamos fazer depósito. Então a gente tem que começar a ter esse hábito do depósito”.

Mauro Cid foi preso no dia 3 de maio durante uma operação que investiga fraude em dados de vacinação contra a Covid-19. Na casa dele, dentro de um cofre, a Polícia Federal encontrou US$ 35 mil (equivalentes a R$ 175 mil) e R$ 16 mil em espécie. Quer mais?

Empresa contratada pela estatal Codevasf, a Cedro do Líbano Comércio de Madeiras e Materiais para Construção fez 12 depósitos na conta de um subordinado de Cid, o sargento Luis Marcos dos Reis. O sargento pagou despesas de Michelle.

Um modo canibal de ser

Em tempo de verdade líquida, até mesmo o falso é incerto.

Uma noveleta policial sem maior interesse literário, mas reveladora do imaginário criminoso, retrata um falsário tão obcecado pela perfeição que, com essa reputação, não quer seu nome associado a algo que pudesse ser denunciado como falso. Entenda-se: o transgressor busca a autenticidade, isto é, o ser-fundado-em-si-mesmo, que no limite seria um álibi, um "estar em outro lugar", não criminoso. Ou seja, uma mentira redimível, como uma joia sintética que passa por natural.

Isso vem a propósito da disseminação de falsidades entre nós, em tal grau de dano cognitivo e social que a ala menos mentirosa do Congresso parece convicta quanto a uma lei reguladora. Fake news, porém, é tão só uma fração do fenômeno. Essa expressão, aliás, já está algo envelhecida, considerando-se os desdobramentos e a sua irradiação no meio social.


De fato, não se trata mais apenas de notícias falsas, e sim do ápice da fusão dos modos tradicionais de representação com a realidade artificialmente instaurada pelas tecnologias digitais. Para as jovens gerações, nenhum domínio da vida social ou privada escapa à invasão das tecnologias, que se articulam nas relações sociais como forma de vida. Nada aí parece obstar o apagamento das ideias de limite ou de verdade, indispensáveis à formação da cidadania democrática.

O problema ultrapassa o contágio das fake news. Mentir é construir realidade falsa com saberes reais. Se tecnológica, a mentira é espiral que se autoalimenta e funciona como droga, álibi para se dizer o fazer qualquer coisa, sem marcação de limites. Esvai-se a voz do outro, a autoridade das fontes, com quem se aprende por confiança que dois e dois são quatro ou que se deve respeitar normas.

Nessa lógica do pior, a Terra pode continuar plana até que se leve anos para descobrir que é redonda. Um mistificador pode garantir lucros no mercado futuro do céu. Um genocida pode ter razão no argumento de que problemas sociais se resolveriam com o extermínio de alguns milhares de pessoas. A corrosão do pacto fiduciário subjacente à sociedade é o canibalismo da civilidade.

Conter as fake news impõe-se de imediato, como avanço civilizatório. Mas não é ainda a vacina para o vírus do falseamento, que já chegou ao meio vital de uma juventude despolitizada, autoenganada e imobilizada no consumo digital.

"Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira", cantava a Legião Urbana. A mentira ativista fundamenta-se não na hipótese de uma autenticidade abstrusa, como o falsário da novela, mas na ignorância viciante, em que não se precisa realmente saber do que se está falando ou fazendo. Basta o êxtase canibal do contato na rede.

sábado, 13 de maio de 2023

Brasil precisa formar seus jovens para as revoluções tecnológica e ambiental

“O futuro será verde e digital.” Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, resumiu numa frase uma das poucas certezas de nosso tempo. Não se sabe que mundo resultará da disputa por hegemonia entre Estados Unidos e China, ou da guerra entre Rússia e Ucrânia. Sabe-se apenas que a revolução tecnológica é incontornável – e que a sobrevivência da vida no planeta depende da transição para uma economia de baixo carbono.

De Collor a Temer, passando por governos tucanos e petistas, o País evoluiu de pária ambiental a interlocutor relevante nas discussões sobre o clima. Voltou a ser pária na era Bolsonaro, mas o Executivo e o Congresso que os brasileiros acabam de escolher começam, aos poucos, a recolocar o Brasil no principal debate do mundo atual.


Qual o papel da educação nesse cenário? “Uma transição ecológica inclusiva exige repensar o papel dos jovens e da tecnologia numa economia de baixo carbono”, diz Ricardo Henriques, diretor do Instituto Unibanco e um dos maiores especialistas brasileiros na área educacional. “O Brasil avançou muito da Constituinte para cá, mas avançou em velocidade ainda baixa. Precisamos de novos trilhos e de um trem de alta velocidade.” Henriques é o entrevistado no minipodcast da semana.

Quais seriam esses novos trilhos? “O letramento no nosso idioma, numa língua estrangeira e em matemática segue sendo fundamental para uma educação inclusiva”, diz Henriques. “Defendo, no entanto, que precisamos também de um letramento digital e um letramento ambiental climático. Esses cinco eixos devem perpassar o processo educacional, desde a primeira infância até a formação superior.”

Relatório do Banco Mundial mostrou que a Floresta Amazônica, em pé, vale R$ 1,5 trilhão por ano, como mostrou Beatriz Bulla em reportagem nesta semana no Estadão. Abrigar a maior parte da principal mata tropical do planeta abre ao Brasil a oportunidade de se tornar um protagonista na discussão ambiental. Recursos humanos serão fundamentais para que esta ambição se concretize.

A demanda por especialistas em ambiente e energias renováveis irá se multiplicar. A dúvida é se, num futuro próximo, estes postos serão ocupados por brasileiros ou se precisaremos importar mão de obra. Vários países atendem melhor do que nós às demandas contemporâneas na área da educação.

Se quiser ter um papel relevante no mundo, o Brasil precisa encarar, a sério, a necessidade de formar seus jovens para as revoluções tecnológica e ambiental. Os cinco eixos propostos por Henriques podem ser o ponto de partida neste debate tão importante.

Brasil sempre brasileiro

 


IAgora: inteligência artificial e alienação

O cérebro eletrônico comanda
Manda e desmanda
Ele é quem manda
Mas ele não anda”
Gilberto Gil (Cérebro eletrônico, 1969)


Em uma brilhante charge, que infelizmente não sei quem é o autor, vemos uma pessoa perguntado a outra se ela se preocupa com o avanço da inteligência artificial e o outro responde que não, que se preocupa mais com o retrocesso da inteligência natural.

Não foram poucas as reações diante de aplicativos que prometem textos sobre qualquer assunto, desenhos criativos, fotos forjadas, debates sobre o sentido da vida ou da filosofia ou da sociologia ou da arte culinária, poemas e letras de música, tudo isso diante de um mero comando e certos indicativos daquilo que se deseja. Expoentes das empresas lançaram uma carta manifesto contra os perigos da IA e pediram um tempo, não se sabe se para poder entrar na concorrência ou pensar nas dimensões supostamente éticas de tal desenvolvimento tecnológico.

Outros mais pragmáticos lançaram livros, como por exemplo um que apresenta um manual de como escrever romances de sucesso usando o famoso aplicativo, não sabemos se escrito por aquele que se denomina autor ou pelo aplicativo. De qualquer maneira, estranhamente apresentado na forma impressa, naquilo que os mais antigos chamariam de “livro”. Neste pequeno manual se afirma que o pretendente a autor deve oferecer ao aplicativo um tema, protagonistas e personagens, uma linha de desenvolvimento da trama e outras dicas para que a inteligência artificial escreva por ele o romance.

Duas coisas nos chamam a atenção de pronto. Em primeiro lugar, o fato de as buscas e pesquisas sobre inteligência artificial já terem uma história bastante antiga, provavelmente nos anos 1950, despertando eufóricas esperanças e dúvidas éticas desde sempre. Aristóteles, desde a longínqua Antiguidade, já ironizava que se os instrumentos pudessem se mover sozinhos não seriam necessários escravos, evidentemente para, diante do absurdo de tal premissa, justificar a escravidão como necessária e natural. Hannah Arendt, diante dos avanços tecnológicos presenciados nos anos 1950, atualiza a premissa de seu mestre, agora não como ironia, mas como base para a sombria previsão que em poucos anos as fábricas se esvaziariam e a condição humana se veria diante do dilema catastrófico de uma sociedade fundada no trabalho que elimina o emprego.

A segunda ordem de reflexão nos remete a um mito ainda mais antigo, que marca a sociedade moderna. Refiro-me aqui ao receio de que as obras humanas fujam ao controle e se voltem contra seus criadores. Este medo atávico se apresenta de forma recorrente, tal como se expressa no clássico Frankenstein: o Prometeu moderno (1818) de Mary Shelley, no também clássico desespero de Mickey Mouse tentando controlar vassouras que colocou em movimento para evitar seu trabalho no filme da Disney, Fantasia (1940), sem nos esquecermos da premissa fundamental da saga Matrix (1999, 2003 e 2021), em que as máquinas substituíram os seres humanos (Animatrix, 2003).

No caso de Mary Shelley, não por acaso filha da filósofa feminista Mary Wollstonecraft, quando de uma estadia chuvosa com seus amigos divertindo-se no Lago de Genebra, contando histórias de terror e discutindo os estudos de Eramus Darwin (cientista e poeta do século XVIII, avô de Charles Darwin), que afirmava ter movido matéria morta por meio da eletricidade, teve a ideia de um conto que acabou tornando-se o famoso romance sobre Frankenstein. Sobre a ideia, a autora afirmou um tempo depois que seria “terrível, extremamente assustador o efeito de qualquer esforço humano na simulação do estupendo mecanismo do Criador do mundo”.

No entanto, tudo que a humanidade tem feito até hoje no desenvolvimento da tecnologia pode ser descrito como a sina de Prometeu, o subtítulo da obra de Shelley. Ele, diz a lenda, ficou encarregado pelos deuses de criar o homem a partir do barro (no qual observamos que a terceirização e o plágio são coisas antigas), mas acabou roubando o fogo dos deuses para oferecer aos homens e por tal crime foi condenado a ficar preso em um rochedo tendo seu fígado devorado e recriado para ser devorado novamente por abutres.

O ser humano é um ser que faz instrumentos para complementar sua anatomia natural precária, compensando seus dentes retos, a falta de garras e força, com machados de pedra, flechas e lanças. Para tanto, lança mão de duas características naturais da espécie: os polegares opositores e um telencéfalo altamente desenvolvido. Com isso desenvolveu, como afirma Marx, uma atividade exclusiva do gênero humano: o trabalho. Para o pensador alemão, o trabalho exige a capacidade teleológica, isto é, a incrível capacidade de antever o resultado desejado em seu cérebro, interessantemente a raiz do nome Prometeu (aquele que vê antes).

O cérebro humano tem a capacidade armazenar informações e associá-las, quando necessário, por isso pode responder às necessidades usando sua experiência anterior e sua habilidade com as mãos criando instrumentos e técnicas diversas.

O que faz a chamada Inteligência Artificial? Em princípio, ela busca informações e as associa de acordo com a necessidade de responder a algo ou alguém. Este seria o aspecto da inteligência, o caráter artificial é que ela não busca isso usando um cérebro que armazena pessoalmente experiências, ela busca em um banco de dados previamente alimentado de informações por meio de circuitos e algoritmos.

O grande salto desta ferramenta, dizem os especialistas, é que em comparação com as formas computacionais anteriores, que também buscavam dados e os associavam para executar tarefas, elas podem (ou mais precisamente estão se desenvolvendo para tanto) aprender. Em outras palavras, acumular “experiências” que possam ser usadas em outras situações. A grande dificuldade neste campo, segundo ainda aqueles que entendem do assunto e que diferem de uma malta de palpitadores, é que os computadores não erram e o erro é um caminho importante da inteligência.

Existe uma sintonia muito fina na ação humana, que faz com que pela experiência a ação seja corrigida e assim aperfeiçoada, guardando-a na memória e aplicando quando exigida. Um cientista pesquisador da IA fez um teste interessante. Ele jogava uma bola para uma pessoa. Alterando aleatoriamente e com movimentos pequenos a trajetória da bola, a pessoa rapidamente conseguia pegá-la, corrigindo a posição das mãos e do seu corpo. Já para a máquina, isto implica em uma série de comandos pré-programados e a capacidade ver que a bola está vindo alguns milímetros para um lado ou outro, que não podem ser antecipados, isto é, a maquina tinha que aprender. Bom, é isso que o desenvolvimento da IA busca. Interessante notar que todo desenvolvimento da técnica foi para fazer o que nós como humanos não poderíamos fazer, mas agora seria para fazer aquilo que só nós como humanos fazemos. Estranho.

Mas, por que isto deveria nos assustar? Certamente existe uma série de funções muito úteis para este desenvolvimento tecnológico, desde controle de tráfego aéreo até pedir para a caixinha de som tocar sua música predileta.

Em sua bela cnação da década de 1960, Gilberto Gil procura destacar o que o distingue do cérebro eletrônico. Já no início da música, diz o querido Gil que o cérebro eletrônico “faz quase tudo, mas ele é mudo” e logo depois, em outra parte da letra, afirma que ele “comanda, manda e desmanda”, mas ele “ não anda”. Ora, hoje podemos dizer que a Alexa e alguns robôs estão aí para provar que falam e andam. Parece que alguns aplicativos podem estabelecer até uma interessante conversa sobre se deus existe ou juntar todas as informações disponíveis sobre o tema da morte e talvez oferecer reflexões pertinentes ou simulações de conforto espiritual para avançarmos em nosso caminho inevitável para a morte.

O receio atualizado, fiel à premissa de Arendt, é que tal capacidade venha a substituir os seres humanos. Já aparecem listas de profissões que estarão extintas com a generalização da IA, que incluem atendentes de telemarketing e de atendimento ao cliente, sociólogos, fotógrafos, jornalistas, tradutores, pesquisadores, analistas de dados, assistentes jurídicos, terapeutas e psicólogos, educadores físicos, nutricionistas, entre outras. A previsão, no caso de pesquisadores, é de um ano. Achei interessante que os filósofos não constam na lista, talvez por já serem considerados extintos.

Vamos com calma. Algumas chamadas profissões devem ser mesmo extintas, primeiro pelo fato de que não são profissões, como telemarketing ou serviços de atendimento ao cliente (previsão para desaparecerem de seis meses a um ano – acho muito), trabalhos extremamente precarizados que não oferecem nenhuma perspectiva profissional. Em segundo lugar, pelo fato de que algumas atividades são degradantes e emburrecedoras, por isso seria melhor que fossem relegadas a instrumentos ou algoritmos (que, diga-se logo, precisam melhorar muito – só quem sofreu com os autoatendimentos burros sabe do que se trata).

O que me chama a atenção é que o temor se fundamenta em uma total incompreensão do trabalho humano, reduzido a uma mera tarefa. Seria demais pedir que lessem Marx, mas já ajudaria ver a distinção realizada pela conservadora Hannah Arendt em seu livro sobre a condição humana entre labor e trabalho. O temor é uma expressão de nossos tempos de decadência, mas como tal é uma expressão fidedigna da materialidade miserável em que nos encontramos.

Se os instrumentos, além da mecanização de tarefas, desenvolverem a capacidade de guardar dados, relacioná-los para responder questões, aprenderem e serem capazes de simular experiência e memória, resta algo que parece ser desconsiderado: a intencionalidade. Em outras palavras o porquê de fazer tudo isso.

A resposta é que vivemos em tempos de subordinação real da vida e, portanto, do humano ao capital e ao processo de valorização do valor. Como tal, no auge da reificação na qual o humano se coisifica e as coisas se fetichizam. O lugar do ser humano na atividade do trabalho não se reduz a coisa na qual objetiva seu ser, nela está a intencionalidade e o fim último da coisa no consumo da substância última do ser objeto, que é a satisfação de uma necessidade do corpo ou do espírito.

Pensando na perspectiva humana, nós seriamos o início e o fim de tal processo, mas subsumidos ao domínio do capital e do valor, nos tornamos meios do processo de valorização no qual a intencionalidade e o fim último é o capital e seu movimento de valorização. O capital é o sujeito e nós os meios de sua realização.

Aquilo que a IA acessa em seu banco de dados não é a inteligência artificial, mas o conjunto de saberes e experiências humanas objetivadas, distanciadas de seus criadores e que voltam a ele como uma força hostil que os ameaça. Em outras palavras, aliena-se. Aquilo que acessa não é mais que um instrumento que foi feito por seres humanos que nele se objetivaram e igualmente se alienaram. Tanto o instrumento tecnológico como o conjunto de dados é produto da inteligência humana que fica escondida em seu produto estranhado. Por precisão terminológica, a sigla IA deveria significar Inteligência Alienada.

O cérebro eletrônico agora fala e anda, pode discutir se deus existe ou o sentido da morte, pode até sistematizar um texto coerente sobre a teoria social marxiana e a possibilidade de uma revolução social, pode até assumir o comando e nos considerar obsoletos, inúteis e nos destruir como em O Exterminador do Futuro (1984) ou em 2001: uma odisseia no espaço (1968), quem sabe. No entanto, o sujeito desta ameaça não é a tecnologia, mas uma classe que transformou os meios necessários à vida em mercadorias e estas em veículos de valor e mais valor. O capital é a força estranhada que pode decidir se vivemos ou morremos, se produziremos vida ou morte. Por trás do capital existe uma classe que tem por interesse manter o processo de acumulação: a grande burguesia monopolista.

Há, ainda, um último elemento neste processo de alienação, aquilo que Marx e depois Lukács chamaram de “decadência ideológica”. Se a tecnologia é uma objetivação da inteligência humana, foi também um meio de desenvolvê-la. Agora, sob o invólucro das relações que constituem a sociedade do capital no máximo de seu desenvolvimento, ela se transforma em seu contrário, passa a constituir uma barreira para o desenvolvimento do saber humano. A ingenuidade decadente imagina um conjunto de dados e um instrumentos de busca, ambos isentos de interesses e valores, mas o simples uso de uma ferramenta de busca demonstra a falácia de tal neutralidade objetiva.

Um aplicativo pode fazer um texto adequado sobre os fundamentos da sociologia e seus três autores fundantes – Marx, Durkheim e Weber –, mas o preguiçoso aluno apreenderá algo ao pedir que a máquina faça seu trabalho? Graças ao aplicativo, até um imbecil pode escrever um romance, mas continuará um imbecil. Há uma diferença entre associar palavras dispersas e dar a isto um formato de um texto ou uma imitação de produção intelectual, porque esta implica a intencionalidade e a subjetividade do autor que ao contribuir com o saber coletivo engrandece a si mesmo. Subsumido à ordem da mercadoria e do capital, como dizia Marx, quanto mais o trabalhador realiza a mercadoria, mais se desrrealiza.

No caso sobre o qual nos debruçamos, o preguiçoso e suposto autor que só pede que a máquina reúna os dados existentes e previamente armazenados, sem acrescentar nada nem ao conhecimento coletivo nem a ele próprio: um algoritmo pode escrever um texto, mas nunca escrevera O Capital, pode escrever um romance, mas nunca escreverá As vinhas da ira. Pode. Pode juntar palavras belas em uma métrica perfeita, mas nunca será Maiakóvski, pode fazer uma música mas nunca poderá ser Caetano Veloso. E se um dia, por uma hipótese absurda o fizer, será para que enquanto máquina possa ser aquilo que nós, enquanto humanos, abdicamos de ser.

Sabe Gil… permita-me mexer em seus versos:

Nosso caminho não precisa ser para a morte
Porque somos vivos
Somos muito vivos e sabemos
Que cérebro eletrônico nenhum nos dá socorro
Com seus botões de plástico e seus olhos de vidro

Os três erros de Bolsonaro

Bolsonaro cometeu três erros crassos em seu governo. Bolsonaro foi ineficiente na economia, desumano na Covid, e desordeiro na lei. Estes foram os três itens que selaram o seu destino.

Primeiro, Bolsonaro pegou o país com o PIB em US$ 1,9 trilhões, deixando o país com PIB de US$ 1,6 trilhões. A tentativa inicial de baixar os juros, chegando a 1,9% em 2020 na expectativa de que os atores econômicos iriam investir na economia, não funcionou, criando bolhas na área imobiliária e na bolsa de valores. Alguns benefícios foram feitos para setores empresariais específicos e grandes empresas, mas a coletividade não foi atendida. A população empobreceu com Bolsonaro.

Segundo, o ocorrido durante a pandemia do Covid no Brasil é inacreditável. Bolsonaro adotou o extremo do negacionismo científico, recomendando hidroxicloroquina como preventivo para o Covid, remédio para malária ineficaz para vírus, então motivo de galhofa no exterior. Suas falas chegaram à “gripezinha”, “chega de frescura e de mimimi, vão ficar chorando até quando?”, “país de maricas”, em sórdida e equivocada versão da Teoria da Evolução de Darwin, da “lei dos mais fortes”. O Brasil, com 2,7% da população do mundo e 1,7% do PIB, obteve o recorde de 10,5% dos óbitos mundiais, com mais de 700 mil mortes. Um escárnio.


Terceiro, Bolsonaro tentou o golpe e as eleições ao mesmo tempo, falhando em ambas. Bolsonaro atentou contra o Estado de Direito nas festas do 7 de Setembro de 2021 e 2022. “O meu Exército”, era a expressão ameaçadora e não fundamentada que ele a si se referia. A convocação dos Embaixadores em Brasília para denegrir o sistema eleitoral brasileiro foi o turning point de sua derrocada, com a unicidade da elite brasileira contra a sua sequência manifesta pela FIESP, FEBRABAN, e nos atos da Escola de Direito da USP. Foram ataques sucessivos e infrutíferos contra o STF e as instituições brasileiras. O Exército Brasileiro, em sua posição legalista, não endossou Bolsonaro.

Adicionalmente, a tentativa de apropriação indébita das joias da Arabia Saudita, e a noticiada falsificação de documentos oficiais em relação à Vacina para Covid, encerram um quadro tenebroso e de insucesso, fim de linha para um grupo nefasto. O escárnio do escárnio. O conservadorismo no Brasil continua, mas Bolsonaro não mais voltará, como viabilidade para a Presidência da República. Deste mal não mais padecemos.

Amar o humano, amar a Terra

Sem amor, nada de elo nem de aliança. Eis enfim as duas vezes duas leis.

Amai-vos uns aos outros, eis a nossa lei primeira. Nenhuma outra, há dois mil anos, soube ou conseguiu evitar para nós, a não ser por raros momentos, o inferno na Terra, Esta obrigação contratual se divide em uma lei local que nos pede para amar o próximo e uma lei global que exige que amemos a humanidade, pelo menos, se não acreditamos em Deus.

Impossível separar os dois preceitos, sob pena de ódio. Amar somente aos próximos ou semelhantes só leva à equipe, à seita, ao gangsterismo e ao racismo; amar os homens, explorando os próximos, é a hipocrisia frequente dos moralistas pregadores.

Esta primeira lei faz silêncio sobre as montanhas e os lagos, pois ela fala aos homens dos homens, como se não existisse o mundo.


A segunda lei nos pede para amar o mundo. Esta obrigação contratual se divide nessa velha lei local que nos prende ao solo onde repousam os nossos ancestrais e em uma nova lei global que nenhum legislador, que eu saiba, nunca escreveu, uma lei que exige de nós o amor universal pela Terra física.

Impossível separar os dois preceitos, sob pena de ódio. Amar a Terra inteira, saquendo a paisagem circundante é a hipocrisia frequente dos moralistas que restringem a lei aos homens e à linguagem da qual eles têm o uso e o domínio; amar apenas o seu solo provoca inexpiáveis guerras devidas às paixões da propriedade.

Sabíamos às vezes amar o próximo e, muitas vezes, o solo, aprendemos com dificuldade a amar a humanidade, outrora tão abstrata, mas que começamos a encontrar com maior frequência, e então devemos aprender e ensinar à nossa volta o amor pelo mundo ou pela nossa Terra, que agora podemos contemplar por inteiro.

Amar os nossos pais, natural e humano, o solo e o próximo, amar a humanidade, nossa mãe humana e nossa mãe natural, a Terra.

Impossível separar essas duas vezes duas leis, sob pena de ódio.

Para defender o solo, nós atacamos, odiamos e matamos tantos homens, que alguns dentre eles acreditaram que essas matanças puxavam a história. Inversamente, para defender ou atacar os outros homens, que nós saqueamos a paisagem e nos preparávamos para destruir toda a Terra. Logo, as duas obrigações contratuais, social e natural, têm entre si a mesma solidariedade daquela que liga os homens ao mundo e o mundo aos homens.

Essas duas leis são uma só, que se confunde com a justiça, natural e humana ao mesmo tempo, e que pedem juntas que cada um passe do local ao global, caminho difícil e mal traçado, mas que devemos abrir. Não se esqueça nunca de onde você parte, mas deixe esse lugar e junte-se ao mundo. Ame o elo que une sua terra e a Terra e que faz parecerem-se o próximo e o estranho.

Paz para os amigos das formas e para os filhos da Terra, para os que se prendem ao solo e para os que enunciam a lei, paz para os irmãos separados, para os idealistas da linguagem e os realistas das próprias coisas, e que eles se amem.

Não há nada de real senão o amor e lei senão a dele.
Michel Serres, "O Contrato Natural"

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Levar a sério a diversidade

Era um debate no colégio, no Canadá. O tema girava em torno de questões de gênero. A coisa foi bem até Josh Alexander dar sua opinião. “Na minha visão, há apenas dois gêneros, homens e mulheres”. Terminou preso. Primeiro foi obrigado a cancelar disciplinas, depois insistiu em assistir às aulas, e foi em cana. O caso ganhou alguma repercussão e Josh, um estudante conservador, teve seus momentos de celebridade.

Já participei de muitos debates em escolas. Em geral, a ideia é que seja um espaço de liberdade para cada um dizer o que pensa. Já presenciei broncas e discussões bastante duras. Mas um estudante sair preso confesso que nunca havia visto.

Na verdade, é um sintoma. Não é uma história sobre a “barbárie”, como li, mas sobre nossa civilização. O Canadá surge como um laboratório. Quem sabe a “primeira nação woke do mundo”, na definição de Eric Kaufmann. Não por acaso o Canadá, por muito tempo visto como o país da diversidade. É este o ponto: sobre como lidar com a diferença, sem destruir a própria diferença.

Não há uma resposta simples a essas coisas. Do outro lado do continente, na Flórida, o governador republicano Ron DeSantis faz o exato oposto. “É preciso combater o woke em nossas escolas, em nossos negócios. Não nos renderemos jamais à ideologia woke”, bradou ele, numa paródia churchilliana de gosto duvidoso.

Sua “Stop Woke Act” tenta disciplinar a pregação identitária nas escolas, e foi barrada pela Justiça a partir da ação de organizações como a FIRE, que defende a livre expressão. Mas a confusão está armada. Talvez este seja o principal sintoma do mal-estar contemporâneo.

DeSantis parece claramente equivocado, tentando resolver o problema via ação coercitiva do Estado, e mais ainda as autoridades canadenses, mandando prender um adolescente por dizer o que pensa, em um debate escolar.

A intuição que parece animar a cultura woke e certo ultraconservadorismo é antiga: a ideia de que nosso mundo está contaminado pelas ideias erradas. Pelo preconceito ou pela decadência moral, e que por isso precisa ser devidamente higienizado.

Leio que os livros de Agatha Christie estão sendo revisados, e expressões como “povo núbio” ou “populações nativas” são meticulosamente retiradas. Se virar moda, me diz uma professora, a cada geração teremos de reescrever a literatura universal, vivendo em um eterno presente estético. Além de uma birutice, será uma tremenda perda cultural, pois “deixaremos de observar como gerações passadas se expressavam”.

Leio agora que mesmo a icônica estátua de Adam Smith, no Royal Mile, em Edimburgo, anda ameaçada. Não basta que Adam Smith tenha sido um duríssimo crítico da escravidão. Um comitê criado pela cidade vasculhou sua obra até achar uma passagem “comprometedora”, e seria preciso limpar o centro de Edimburgo de sua ofensiva memória.

Há uma estranha semelhança entre a intolerância atual e o fanatismo da era das guerras de religião nos inícios da modernidade. O desgosto do jovem Lutero com a Roma pervertida, e a indignação da ativista, ainda agora, com os excessos de Jennifer Lopez e Shakira na “exposição do corpo feminino” em um show no Super Bowl.

Seria preciso limpar toda a sujeira espalhada nas redes, na linguagem, na cultura. No século XVI, a maneira de fazer isso era a disciplina religiosa. Na Genebra de Calvino, eram dois cultos diários, os banhos frios e a estrita vigilância sobre os costumes. Hoje somos mais civilizados. Criamos comitês, listamos palavras proibidas, cancelamos e derrubamos estátuas. Evoluímos, Steven Pinker tem razão.

Mas algumas coisas parecem se repetir. A primeira é a aversão à divergência. Dias atrás, todos assistimos a um grupo de estudantes de uma universidade paulista impedindo a realização de uma feira universitária israelense. Em Stanford, causou alguma indignação o banimento de Stuart Duncan, um juiz “conservador”, de uma palestra na universidade.

Há ainda a fixação nos detalhes. A ideia de que “tudo sempre é muito grave e ofensivo”, desde a interrupção de um apresentador em um programa até a piada em um programa humorístico. E daí a ideia de que cabe, sim, ao Estado meter a colher na conduta das pessoas, novamente aproximando o mundo conservador, da Flórida, ao universo woke, no Canadá.

Já algo nisso que vem da nova dinâmica da arena pública: dispondo de uma tribuna dada pela tecnologia, subitamente passamos a agir como pequenos políticos. A sinalizar a própria virtude, exercitar o bom-mocismo, onde se puder. Questão de cálculo. O ambiente digital é perigoso. O mais seguro é sempre dizer alguma coisa que não desagrade a nenhuma minoria barulhenta. Isso vale particularmente para as empresas, que não podem arriscar sua marca.

Além do bom-mocismo, há a retórica de combate. Pesquisa recente mostrou que uma postagem agressiva contra o “outro grupo” tem 67% mais chances de ser replicada nas redes. A linguagem reflexiva, atenta à complexidade das coisas, tem menos poder de engajamento.

O jogo incentiva a posição do “righ­teous”, de Jonathan Haidt. O moralista, o combatente das boas causas, o “não me venha com essa de entender as razões do outro ou deixar dizer o que quiser”, porque, como li em um grupo de Whats­App, no final “as vítimas somos nós”.

O desafio é separar o joio do trigo. A demanda por não discriminação e o desejo obsessivo de regular os outros. O direito de afirmar minha maneira de viver, mas não o de banir quem deseja viver de modo distinto.

Vai aí o traço curioso da cultura woke: como uma forma cultural cuja razão de ser, em algum momento, foi a aceitação da diferença, vai se convertendo em um tipo de monismo moral que gradativamente não aceita diferença nenhuma.

Se alguém quiser lidar com diversidade, vale, em primeiro lugar, levar a sério o próprio conceito. Critérios raciais e de gênero são cruciais, tanto quanto muitos outros traços constitutivos de nossas identidades. Pertencemos a gerações diferentes, há temas ligados ao etarismo, aos diferentes ângulos da neurodiversidade, mas o tema vai além.

Ele diz respeito a visões de mundo, crenças religiosas, origens regionais ou orientações políticas. Vai aí um segundo ponto: a preservação da liberdade de expressão, essencial para que o argumento da diversidade não seja capturado por essa ou aquela ideologia e se torne um exercício de padronização da cultura. Por fim, o foco em atitudes reais de inclusão.

Fazer retórica é fácil. Mais difícil é criar oportunidades de verdade, capacitar pessoas, apoiar sua autonomia com ações no mundo real, em vez de apostar na guerra permanente para suprimir palavras, banir livros e derrubar estátuas.

A diversidade é um traço definidor da modernidade. Quem leu os Ensaios de Montaigne deve se lembrar de seu memorável relato sobre os índios tupinambás, vindos do Brasil. Montaigne foi um liberal avant la lettre. Dizia que era preciso prestar atenção aos próprios pecados e que, em geral, “cada um chama de barbárie o que não é seu costume”.

Nestes tempos difíceis, talvez valesse a pena voltar a suas lições, que falam do melhor da modernidade: a curiosidade diante do mundo imenso e desconhecido, o apreço pela diferença e sua prima irmã, a tolerância. Valores dos quais não deveríamos descuidar, mas que parecemos ir deixando escapar por entre os dedos, lentamente.

Fernando Schüler 

Soneto zangado

Há muita gente que não tem um tecto.
Há muito mais gente que não tem pão.
Há quem sobreviva de modo infecto.
Mas há aqueles para quem um milhão

não passa de um troco desprezível.
O quase-tudo está nas mãos de poucos,
que ambicionam o inadmissível,
sem receio de parecerem loucos!

Há uns poucos que espezinham o resto,
o qual é, para eles, invisível.
Ao resto, resta-lhe fraco protesto,

mas só, até onde isso for possível:
a raiva que demais se estrangula
é dinamite que se acumula!

Eugénio Lisboa

Flórida veta dezenas de livros escolares e exige mudanças em temas sociais

A Flórida rejeitou dezenas de livros didáticos de estudos sociais e trabalhou com editoras para editar dezenas de outros, anunciou o departamento de educação do estado nesta terça-feira, no último esforço do governador Ron DeSantis para retiras dos materiais escolares tópicos contestados, especialmente em torno de questões contemporâneas de raça e justiça social.

Funcionários do estado originalmente rejeitaram 82 dos 101 livros enviados por causa do que consideraram “material impreciso, erros e outras informações que não estavam alinhadas com a lei da Flórida”, disse o Departamento de Educação em um comunicado à imprensa.

Mas, como parte de um amplo esforço para revisar os materiais, a Flórida trabalhou com os editores para fazer alterações, aprovando 66 dos 101 livros didáticos. Ainda assim, 35 foram rejeitados mesmo após esse processo.

DeSantis fez campanha contra o que descreveu como “doutrinação acordada” e uma agenda esquerdista na sala de aula. No ano passado, o estado rejeitou dezenas de livros didáticos de matemática, dizendo que os livros abordavam tópicos proibidos, incluindo a teoria racial crítica e o aprendizado socioemocional, que se tornaram alvos da direita.

Esperava-se que a revisão estadual dos livros didáticos de estudos sociais, que é realizada a cada poucos anos, levantasse objeções semelhantes.

O departamento de educação do estado divulgou um documento descrevendo várias revisões que, segundo ele, os editores fizeram a seu pedido. Mas o documento não listava os títulos ou editoras dos livros revisados, dificultando a verificação independente das alegações.

As revisões delineadas pelo estado incluíram:

*Um livro didático do ensino fundamental não inclui mais orientações de “apoio domiciliar” sobre como falar sobre o hino nacional, que incluía conselhos de que os pais poderiam “usar isso como uma oportunidade para falar sobre por que alguns cidadãos estão escolhendo 'se ajoelhar' para protestar contra a brutalidade policial e o racismo.'” Funcionários da Flórida disseram que o conteúdo não era apropriado para a idade.

*Um texto sobre diferentes tipos de economias foi editado para retirar uma descrição do socialismo como mantendo as coisas “boas e equilibradas” e potencialmente promovendo maior igualdade. A descrição foi sinalizada como imprecisa e a menção ao termo “socialismo” foi totalmente removida.

*Um livro didático do ensino médio não inclui mais uma passagem sobre o movimento Black Lives Matter, o assassinato de George Floyd e seu impacto na sociedade. A passagem removida descrevia os protestos, observando que “muitos americanos simpatizavam com o movimento Black Lives Matter”, enquanto outras pessoas criticavam saques e violência e viam o movimento como anti-polícia. O estado disse que a passagem continha “tópicos não solicitados”.
Manny Diaz, Jr., o comissário de educação da Flórida, disse em um comunicado que os livros didáticos devem “focar em fatos históricos” e ser “livres de imprecisões ou retórica ideológica”.

Ensinar sobre raça tornou-se um para-raios nacionalmente, mas especialmente na Flórida, onde DeSantis, que é amplamente esperado para anunciar uma candidatura presidencial em 2024, fez disso uma questão política própria.

No entanto, o tom do anúncio deste ano pelo estado foi suavizado, em comparação com o ano passado.

Quando o estado rejeitou os livros didáticos de matemática em 2022, o anúncio foi feito em um comunicado de imprensa chamativo enfatizando as rejeições: “Florida Rejects Publishers’ Attempts to Doutrinate Students” (Flórida rejeita tentativas das editoras de doutrinar estudantes).

Este ano, por outro lado, as autoridades estaduais enfatizaram a porcentagem de livros didáticos que foram aprovados e como o estado trabalhou com as editoras para aumentar o número de aprovações.

Em uma coletiva de imprensa em uma escola na manhã de terça-feira, DeSantis assinou um pacote de legislação educacional e enfatizou outros tópicos, incluindo US$ 1 bilhão em financiamento para aumentar os salários dos professores.

O governador colocou pouco foco nos livros didáticos de estudos sociais, embora a certa altura parecesse aludir a uma reportagem do The New York Times, que descobriu que uma editora, a Studies Weekly, havia retrocedido nas discussões sobre raça em suas apresentações na Flórida, incluindo na história de Rosa Parks.

— Se você está tentando criar narrativas de que algo como um livro de Rosa Parks não é permitido, isso é mentira — disse DeSantis na terça-feira.

A Studies Weekly disse que estava tentando “decifrar” como cumprir uma nova lei da Flórida, conhecida como Stop WOKE Act. Assinada por DeSantis no ano passado, a lei proíbe instrução que obrigue os alunos a sentir responsabilidade, culpa ou angústia pelo que outros membros de sua raça fizeram no passado. A lei às vezes criou confusão, e a Studies Weekly mais tarde se desculpou pelo que descreveu como uma reação exagerada de sua equipe de currículo — posteriormente o as obras submetidas não foram aprovadas para uso na Flórida.

A lista de livros didáticos de estudos sociais aprovada pelo estado terá um impacto significativo em como a história é ensinada a quase 3 milhões de alunos de escolas públicas da Flórida, em tópicos que vão desde a escravidão até o Holocausto.

As aprovações de livros didáticos da Flórida também podem influenciar o que os alunos aprendem em outros estados. Menos da metade dos estados aprova livros didáticos em todo o estado, mas os que o fazem incluem Flórida, Texas e Califórnia, os três maiores mercados. Os editores geralmente atendem a esses estados, usando-os como modelo para os materiais que oferecem em mercados menores.

A Flórida rejeitou alguns livros didáticos de grandes editoras nacionais, como McGraw Hill e Savvas Learning.

“Estamos revisando a situação”, disse McGraw Hill em um comunicado. “Neste ponto, não sabemos por que esses títulos não foram recomendados.” Savvas não respondeu aos pedidos de entrevista na terça-feira.

Outra grande editora, a Houghton Mifflin Harcourt, nem mesmo fez uma oferta no mercado de estudos sociais da Flórida este ano.

Sarah Mervosh / Dana Goldstein

Por que Alexandre de Moraes soltou Anderson Torres

Macaco velho não pula em galho seco. Sem currículo à altura do cargo, Anderson Torres, delegado de polícia, pulou ao aceitar ser ministro da Justiça de Bolsonaro, e caiu do galho tão rapidamente quanto o escalou. Aqui se faz, aqui se paga.

Se ontem, cento e poucos dias depois de preso por envolvimento nos atos golpistas de 8 de janeiro, foi solto e mandado para casa com a perna algemada a uma tornozeleira eletrônica, não quer dizer que o pior já passou para ele. O pior ainda está por vir.

O homem é senhor do que pensa, escravo do que diz. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, está forrado de provas e de evidências da culpa de Torres nos crimes que lhe atribuem. Por ora, não precisava mais mantê-lo preso.


Há conversas de Torres tramando contra o tribunal. (Pela boca morre o peixe.) Entre os assuntos tratados por ele está a prisão de um magistrado que deveria ser “deixado em local incerto e não sabido” após o golpe. O magistrado era o próprio Moraes.

Não se cutuca onça com vara curta, mas Torres estava tão certo de que Bolsonaro iria se reeleger com sua ajuda que cutucou Moraes. Vingança é um prato que se come frio, mas às vezes Moraes prefere comê-lo ainda quente ou morno.

Saciado, libertou Torres para que ele seja um dos primeiros a depor na CPI mista do golpe que poderá ser instalada na próxima semana. Os bolsonaristas estão profundamente arrependidos de tê-la bancado. Esqueceram que as consequências vêm depois.

A cobra vai fumar para Torres, o tenente-coronel Mauro Cid, o coronel Élcio Franco, o ex-major e golpista confesso Ailton Barros, “segundo irmão” de Bolsonaro, e ao fim e ao cabo para o ex-capitão que jura por todos os santos ser inocente.

Mentira tem perna curta, só mentirosos compulsivos não sabem disso, além dos que se acham inimputáveis. A tentativa fracassada e amadora de golpe a céu aberto, com data anunciada nas redes sociais, equivaleu a um suicídio coletivo.

De nada, agora, vale chorar sobre o leito derramado. O que não tem remédio, remediado está.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

País da farsa


Um perfeito canalha tem todas as provas de sua inocência
Millor Fernandes



Bolsonaro desaba entre os seus e revoluciona a política

O Brasil vive um momento crucial em sua política depois que o líder da extrema direita, Jair Bolsonaro , começou a se desfazer. O ex-presidente também é perseguido por 20 processos judiciais em andamento. O fato de a polícia ter entrado na sua casa e recolhido o seu celular, passaporte e armas, de ser investigado por alegada falsificação do certificado de vacina contra a Covid, de ser o mentor do golpe de Estado fracassado de 8 de janeiro, revolucionou toda a classe política.

Por exemplo, ficar sem passaporte para sair do Brasil já o impediu de viajar a Portugal para participar do encontro da extrema-direita europeia, que estava sendo organizado em Lisboa. Foi um duro golpe que o enfraqueceu mesmo diante de seus mais fervorosos partidários.

Isso está levando a classe política, tanto de direita não golpista quanto de centro, a buscar alternativas à liderança de Bolsonaro, que seria usado apenas como animador das próximas eleições municipais. E isso se ele antes não acabar na cadeia.


Bolsonaro vai continuar, mesmo preso, a manter seu núcleo duro de fiéis da direita fascista que não vai abandoná-lo e vai continuar fazendo barulho nas redes sociais. Mas sua liderança em escala nacional está esmaecendo e as forças políticas estão se reposicionando.

Essa situação também pode afetar o novo governo progressista neste momento, que continua tendo dificuldades para dominar o Congresso e aprovar suas propostas, pois continua sem maioria e com dificuldade até para aprovar a nova lei econômica.

O que começa a aparecer cada vez com mais clareza é que o terceiro mandato de Lula pode ser o último, não só da esquerda, mas também do Partido dos Trabalhadores, que continua ancorado em sua política de esquerda cada vez mais difícil de alcançar maioria no país.

Se Lula conseguiu voltar ao poder desta vez, foi justamente porque teve a intuição de criar um governo de centro, colhendo assim os votos de quem não queria a direita fascista de Bolsonaro ou a esquerda de seu antigo partido.

E é esse centro que parece começar a se consolidar cada vez com mais força e que começa a se vislumbrar até como um centro-direita que hoje já domina o Congresso.

Isso pode explicar por que estão tentando convencer Lula a falar menos da guerra na Ucrânia e a se preocupar com sua liderança mundial, que já tem, e a focar em governar internamente, lançando um governo com um leque de ministros preparados e com programas que, se aprovados no Congresso, significariam um salto qualitativo na política em geral. Essa política que foi envenenada durante os quatro anos do desastroso governo Bolsonaro.

O que fica cada vez mais claro é que o eleitorado brasileiro está cansado dos extremos e das disputas partidárias internas e quer ações concretas. Desde a queda da inflação que castiga tanto a classe média quanto os segmentos mais pobres, que são milhões, à possibilidade de encontrar trabalho para todos, principalmente para as novas gerações que são as mais sacrificadas e que podem acabar rejeitando a política como algo que não lhes pertence. Ou pior ainda, que acabam considerando a política e os valores democráticos como algo que não lhes diz respeito, pois não abre novos horizontes de esperança.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Privilégios à brasileira

Se você pensa que à brasileira só existem comidas — linguiça, churrasco, brigadeiro, filé à Oswaldo Aranha, peru —, a esta altura deve saber muito bem, sobretudo no clima de polarização rotineira, que existe mais ainda o privilégio à brasileira. Refiro-me à possibilidade de as leis serem apropriadas por determinados segmentos, estamentos, partidos, num sistema jurídico, e também por pessoas que se apropriam delas e as confundem com cargos especiais. O ideal democrático é que as leis sejam divorciadas de interesses pessoais ou particulares, sejam de indivíduos ou de instituições. No Brasil, porém, quem controla um determinado espaço no universo sociopolítico sabe imediatamente que também tem controle das regras que orientam e limitam o mesmo espaço. Mas — e esta é a banana do peru à brasileira — há também um axioma do princípio estrutural, permanente e perverso: o fato de a “autoridade” negar tudo para todos, menos para seus amigos. E me permita acrescentar esta frase — seguindo, aliás, Oliveira Vianna — que contém a evidência principal do privilégio no Brasil: aqui, a perspectiva personalista, familística, permite contrariar não só leis que controlam a corrupção, mas até mesmo as regras do bom senso. Por isso todas as leis contêm subleis ou leis adjacentes, adicionais, que podem ser manipuladas.


Quem tem o “poder” contraria até mesmo aquilo que não lhe traz vantagem alguma, como um certificado de vacina. Se existe uma peste, como no livro de Albert Camus, o presidente da nossa província, em vez de procurar uma vacina contra uma doença mortal, prefere se dar ao trabalho de falsificar e trocar favores, promessas e segredos com um pequeno grupo de pessoas. Com isso, ergue o edifício de contravenções e má-fé com aqueles que o ajudaram. É mais complicado e barroco do que ir a um posto de saúde e lá, em três minutos, vacinar-se e obter um trivial certificado.

É exatamente isso que está no noticiário jornalístico do nosso país, em virtude da personalidade do ex-presidente Bolsonaro, que, mais uma vez, demonstra preferir explodir, não seguir regra alguma, a obedecer ao sinal de não fumar num sanatório de doentes pulmonares graves. Do mesmo modo que, quem sabe, consultaria um médico e, em seguida, sabotaria o remédio e não seguiria a receita que lhe fosse recomendada.

É evidente que todos os brasileiros conhecem a relatividade das leis. Elas valem para o cidadão comum, que, curiosa e gloriosamente, elege ao patamar de comando de uma regra alguém que é o primeiro a não segui-la. Com isso, conseguimos fabricar uma antiaristocracia e, à brasileira, uma anti-República. O resultado histórico só pode ser a repetição dos mesmos erros.

Não é por acaso que não avançamos no sentido do bem comum, na direção do jogo político marcado por regras e ideais que todos aceitam, até mesmo o presidente e os juízes do Supremo. Se olharmos os sistemas de dominação históricos, veremos que as oligarquias e as tiranias eram governadas pelo poder pessoal dos oligarcas e dos tiranos.

Quando foram inventadas a aristocracia e o feudalismo, o governo dos nobres, relativizou-se a figura do monarca. Nas democracias, porém, o avanço foi ainda maior. Criou-se a partir da experiência americana um sistema triangular de poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário. Mais do que isso, uma consciência aguda e profunda de que os Três Poderes eram também governados por leis, que imitavam os velhos mandamentos escritos em pedras pela Divindade. A Constituição estaria acima de todos os Poderes e seria dirigida com pleno consentimento da nação. Neste regime democrático, jamais poderia existir a supremacia do filhotismo, do grupismo partidário, das ideologias utópicas e populistas e, sobretudo, o desejo de burlar a lei simplesmente pela vontade de burlá-la.

Para finalizar: o princípio fundamental da democracia é a constituição permanente de uma sociedade igualitária perante as leis, e não de uma sociedade que sucumbe à vontade fugidia e perversa daqueles que ocupam cargos fundamentais nos seus Poderes.

Evangelismo caboclo

 


I. A. também erra

Diria que o experimento de teletrabalho acabou e a tecnologia ainda não é boa o suficiente para que as pessoas possam ficar totalmente remotas para sempre, principalmente em startups.

Acho que definitivamente um dos maiores erros na indústria de tecnologia em muito tempo foi que todo mundo (pensava que) poderia ficar totalmente remoto para sempre

Sam Altman. CEO da OpenAI e criador do ChatGPT

Desigualdade que beira o ridículo

Uma das características mais cruéis de uma sociedade tão desigual como a brasileira é o menosprezo da elite —que usufrui de todos os direitos, além de muitos privilégios— em relação aos problemas cotidianos da massa de desvalidos que compõem o povo.

Não é de hoje que as classes C, D e E vêm se encalacrando para sobreviver. Diversas pesquisas apontam o endividamento crescente entre os mais pobres, que contraem dívidas até para comprar comida a crédito! Sem falar nos milhares que estão à margem, literalmente passando fome.


Com inflação e juros em alta, a "ralé" vive uma espécie de looping de carências que beira o ridículo de tão aviltante em comparação com a qualidade de vida dos mais ricos.

Hoje, em São Paulo, para comprar uma cesta básica são necessários R$ 794,68, segundo o Dieese. Isso é mais de 60% do valor do novo salário mínimo. Parece até piada, e de muito mau gosto, considerando que o mínimo deveria suprir todas as necessidades básicas de uma família. Mas é a realidade do pobre no Brasil, que inclui o drible das contas do mês. A saída óbvia é escolher o que deixar de pagar.

Na classe C, que representa o universo de brasileiros que recebem entre R$ 5,2 mil e R$ 13 mil mensais, 80% das pessoas estão endividadas! Não é preciso muito esforço para imaginar a situação das famílias das classes D e E, onde os rendimentos não ultrapassam os R$ 5,2 mil.

Também não é demais lembrar que a maioria desses cidadãos é negra, segundo pesquisa recente do Instituto Locomotiva. Por que será?

Nesse cenário bizarro, está cada vez mais difícil encontrar alguém que frequente o comércio e ainda não tenha sido abordado por um desamparado pedindo alguma coisa —não só na entrada, mas também no interior dos estabelecimentos.

Não sei o que é mais triste e constrangedor: a vulnerabilidade dos pedintes; a grosseria dos fiscais das lojas com quem está a esmolar; ou a indiferença dos que são incapazes de acolher um pedido genuíno.