Os candidatos tratam os eleitores brasileiros com a certeza de que eles gostam mesmo é de ser enganados. Tudo indica que é a pura verdade
sexta-feira, 19 de agosto de 2022
Promessas vazias e retrocesso
O major e o capitão
Morreu Sebastião Curió, um dos mais notórios carrascos da ditadura militar. Em 1973, ele foi destacado para reprimir a Guerrilha do Araguaia. Comandou o sequestro e o assassinato de dezenas de militantes na floresta.
A operação pode ser resumida como um massacre. A ordem do Exército era não fazer prisioneiros. Os guerrilheiros eram capturados, levados para centros de tortura e executados.
Documentos militares mostram que os superiores do major o elogiavam pela “coragem e arrojo” na “árdua tarefa de combate à subversão”. Sem a proteção da ditadura, Curió não se mostrou tão destemido assim. Convocado pela Comissão da Verdade, apresentou três atestados médicos para não depor. Também se esquivou de ser ouvido em casa ou num hospital.
A rigor, seu depoimento nem seria necessário. Em 2009, Curió confirmou ao jornal O Estado de S. Paulo a execução de 41 militantes presos e desarmados. Com frieza, comparou o extermínio à limpeza de uma lavoura. “Quando se capina, não se corta a erva daninha só pelo caule. É preciso arrancá-la pela raiz”, afirmou.
O Ministério Público Federal apresentou sete denúncias criminais contra Curió. Todas foram arquivadas sem julgamento. Se tivesse nascido na Argentina ou no Chile, o major teria terminado seus dias na cadeia. Como nasceu no Brasil, morreu impune, aos 87 anos. Foi beneficiado por uma interpretação controversa da Lei da Anistia, que blinda os militares que praticaram terrorismo de Estado.
Protegido da Justiça, Curió ainda se aventurou na política. Depois de chefiar o garimpo em Serra Pelada, elegeu-se deputado e prefeito. Em maio de 2020, foi recebido com honras por Jair Bolsonaro. Num ato de escárnio com as famílias dos desaparecidos, a Secretaria de Comunicação da Presidência o chamou de “herói do Brasil”.
A relação entre o major e o capitão vinha de longe. Em 1986, Curió enviou uma carta a Bolsonaro, que ainda sonhava disputar sua primeira eleição para vereador. Em papel timbrado da Câmara, manifestou o desejo de “passar o bastão” ao “jovem companheiro”.
O documento foi localizado no Arquivo Nacional pelo historiador Lucas Pedretti. No texto, Curió se revela um visionário: foi o primeiro a identificar Bolsonaro como o legítimo herdeiro dos porões.
A operação pode ser resumida como um massacre. A ordem do Exército era não fazer prisioneiros. Os guerrilheiros eram capturados, levados para centros de tortura e executados.
Documentos militares mostram que os superiores do major o elogiavam pela “coragem e arrojo” na “árdua tarefa de combate à subversão”. Sem a proteção da ditadura, Curió não se mostrou tão destemido assim. Convocado pela Comissão da Verdade, apresentou três atestados médicos para não depor. Também se esquivou de ser ouvido em casa ou num hospital.
A rigor, seu depoimento nem seria necessário. Em 2009, Curió confirmou ao jornal O Estado de S. Paulo a execução de 41 militantes presos e desarmados. Com frieza, comparou o extermínio à limpeza de uma lavoura. “Quando se capina, não se corta a erva daninha só pelo caule. É preciso arrancá-la pela raiz”, afirmou.
O Ministério Público Federal apresentou sete denúncias criminais contra Curió. Todas foram arquivadas sem julgamento. Se tivesse nascido na Argentina ou no Chile, o major teria terminado seus dias na cadeia. Como nasceu no Brasil, morreu impune, aos 87 anos. Foi beneficiado por uma interpretação controversa da Lei da Anistia, que blinda os militares que praticaram terrorismo de Estado.
Protegido da Justiça, Curió ainda se aventurou na política. Depois de chefiar o garimpo em Serra Pelada, elegeu-se deputado e prefeito. Em maio de 2020, foi recebido com honras por Jair Bolsonaro. Num ato de escárnio com as famílias dos desaparecidos, a Secretaria de Comunicação da Presidência o chamou de “herói do Brasil”.
A relação entre o major e o capitão vinha de longe. Em 1986, Curió enviou uma carta a Bolsonaro, que ainda sonhava disputar sua primeira eleição para vereador. Em papel timbrado da Câmara, manifestou o desejo de “passar o bastão” ao “jovem companheiro”.
O documento foi localizado no Arquivo Nacional pelo historiador Lucas Pedretti. No texto, Curió se revela um visionário: foi o primeiro a identificar Bolsonaro como o legítimo herdeiro dos porões.
Michelle Bolsonaro e a esposa de Assuero
A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta assinalou que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teria hoje 32% dos votos de evangélicos e 47% da preferência total. No caso do presidente Jair Bolsonaro, o apoio no meio evangélico sobe para 49% e entre o público em geral, 32%.
O resultado mostra que evangélicos e não evangélicos parecem viver em mundos diferentes, um é o avesso do outro. No mundo evangélico quem está às portas da vitória no primeiro turno é Bolsonaro. Não há sinal mais eloquente para se constatar que neste segmento específico da população a decisão de voto é tomada de forma muito diferente do que no do restante da população.
Os evangélicos a si mesmos se denominam de rebanho, e os pastores desse rebanho, muitas vezes, recomendam o voto em Bolsonaro. É tentadora a explicação de que a preferência por Bolsonaro se deve a alguma espécie de obediência cega dos fiéis a guias como Edir Macedo, Silas Malafaia, bispo Waldomiro, apóstolo Estevam, reverendo R. R Soares e outros. Tão tentador quanto enganoso.
Sociólogo e pastor da Primeira Igreja Presbiteriana Independente, uma confissão brasileira surgida de um cisma presbiteriano em 1903, Valdinei Ferreira, de São Paulo, afirma que vem de baixo, do chão dos templos e não dos púlpitos, uma posição política contra a esquerda e, por exclusão, a favor de Bolsonaro.
“Fala-se muito na adesão dos pentecostais a Bolsonaro, mas nos evangélicos das denominações históricas isso é ainda mais forte”, comenta.
Outra pesquisadora, a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, professora da UnB e pesquisadora do Cebrap, participou de pesquisas qualitativas com mulheres evangélicas em parceria com o Iser, do Rio de Janeiro, e atesta: as pessoas não decidem o voto em Bolsonaro apenas porque o líder de sua comunidade recomendou. Só o fazem quando recebem informações, falsas ou verdadeiras, que indicam que qualquer outra opção que não Bolsonaro podem colocar em xeque políticas que elas apoiam. É uma diferença sutil: não há o voto de curral, mas há o voto de um público sugestionável a mensagens que chegam no idioma que se entende na comunidade.
Bolsonaro fala a língua que é compreendida dentro de uma narrativa muito antiga. Se encaixa na tradição da luta do bem contra o mal, do conflito com o reino do materialismo, da promiscuidade, de Satanás. Um maniqueísmo onde, conforme observa o pastor Ferreira, se esquece de um preceito teológico, o de que o mal está dentro de cada um, e não exteriorizado em um outro.
Neste sentido, segundo Ferreira, é impossível entender a força de Bolsonaro entre os evangélicos sem lançar os olhos para a sua mulher, Michelle. Bolsonaro, frise-se, é um político católico, que até cerca de dez anos atrás nunca se notabilizou pela defesa das bandeiras tradicionais do conservadorismo religioso e nem demonstrava essa religiosidade em sua vida privada.
Michelle é uma evangélica raiz, como se diz atualmente. Neste sentido, ela é a representante do povo de Deus dentro do Palácio. Segundo o pastor, se assemelha no imaginário bíblico à figura de Ester, do Antigo Testamento.
Ester, judia, casou-se com Assuero, o rei dos medos e dos persas, um déspota afeito a alguns dos sete pecados. Tornou-se a rainha. A sua capacidade de persuasão levou Assuero a se tornar de perseguidor em protetor dos judeus, para desespero de seus adversários. Ester guiou a ação de Assuero, sem nunca substituí-lo.
“O evangélico tende a se imaginar dentro da Bíblia. Uma figura como Michelle é fundamental para garantir a aderência ao projeto bolsonarista. Ela é a evangélica. Ele não”, comenta o pastor Ferreira.
A associação entre Michelle e a rainha Ester também apareceu nos grupos de qualitativa com mulheres evangélicas, segundo Jaqueline Teixeira. “É a figura que representa o compromisso com valores maiores, já que o marido tem defeitos amplamente reconhecidos dentro da comunidade”, diz.
Há ainda uma questão de identificação. O antropólogo Juliano Spyer, pesquisador da UFRJ e criador do Observatório Evangélico, um portal de informações, lembra que a onda evangélica no Brasil é recente, tem suas raízes na migração do meio rural para as grandes cidades de uma massa com baixa instrução e valores conservadores que se chocou com a cultura das grandes cidades. Um aluvião humano que a Igreja Católica foi incapaz de acompanhar.
Neste universo a pessoa evangélica típica é mulher, não branca, distante das leituras. Reúne categorias do eleitorado muito propensas a votar em Lula. É um contingente ainda relativamente jovem, na faixa de 30 a 45 anos.
O peso do Nordeste é crescente. Não é possível vislumbrar hegemonia evangélica em nenhuma região do Brasil, mas especialistas apontam que é no Nordeste, um reduto lulista, que os evangélicos se expandem com maior velocidade. Se o petista conta com cerca de um terço das preferências no segmento evangélico, a razão principal aí está: nas mulheres, nordestinas, pretas e pardas, de baixa instrução e baixa renda, muitas vezes chefes da família e altamente sensíveis a políticas públicas na área social, como transferência de renda, educação e saúde.
A principal arma que Bolsonaro tem para sensibilizar um público com características tão próximas ao lulismo é a primeira-dama.
“Michelle se aproxima muito desse perfil. Ela não é alguém que aparece agora, desde o início do governo Bolsonaro tem visibilidade com causas como direitos a portadores de deficiência. Então seu surgimento na campanha não soa como estratégia eleitoreira”, diz Jaqueline.
A mulher evangélica, diz a pesquisadora, é permeável a um tipo de agenda que não é a vocalizada pelo presidente, mas pode ser representada pela sua cônjuge. É bom lembrar que Michelle, ao contrário do marido, se vacinou contra a covid-19 e, de acordo com o próprio Bolsonaro, tem aversão a armas.
O resultado mostra que evangélicos e não evangélicos parecem viver em mundos diferentes, um é o avesso do outro. No mundo evangélico quem está às portas da vitória no primeiro turno é Bolsonaro. Não há sinal mais eloquente para se constatar que neste segmento específico da população a decisão de voto é tomada de forma muito diferente do que no do restante da população.
Os evangélicos a si mesmos se denominam de rebanho, e os pastores desse rebanho, muitas vezes, recomendam o voto em Bolsonaro. É tentadora a explicação de que a preferência por Bolsonaro se deve a alguma espécie de obediência cega dos fiéis a guias como Edir Macedo, Silas Malafaia, bispo Waldomiro, apóstolo Estevam, reverendo R. R Soares e outros. Tão tentador quanto enganoso.
Sociólogo e pastor da Primeira Igreja Presbiteriana Independente, uma confissão brasileira surgida de um cisma presbiteriano em 1903, Valdinei Ferreira, de São Paulo, afirma que vem de baixo, do chão dos templos e não dos púlpitos, uma posição política contra a esquerda e, por exclusão, a favor de Bolsonaro.
“Fala-se muito na adesão dos pentecostais a Bolsonaro, mas nos evangélicos das denominações históricas isso é ainda mais forte”, comenta.
Outra pesquisadora, a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, professora da UnB e pesquisadora do Cebrap, participou de pesquisas qualitativas com mulheres evangélicas em parceria com o Iser, do Rio de Janeiro, e atesta: as pessoas não decidem o voto em Bolsonaro apenas porque o líder de sua comunidade recomendou. Só o fazem quando recebem informações, falsas ou verdadeiras, que indicam que qualquer outra opção que não Bolsonaro podem colocar em xeque políticas que elas apoiam. É uma diferença sutil: não há o voto de curral, mas há o voto de um público sugestionável a mensagens que chegam no idioma que se entende na comunidade.
Bolsonaro fala a língua que é compreendida dentro de uma narrativa muito antiga. Se encaixa na tradição da luta do bem contra o mal, do conflito com o reino do materialismo, da promiscuidade, de Satanás. Um maniqueísmo onde, conforme observa o pastor Ferreira, se esquece de um preceito teológico, o de que o mal está dentro de cada um, e não exteriorizado em um outro.
Neste sentido, segundo Ferreira, é impossível entender a força de Bolsonaro entre os evangélicos sem lançar os olhos para a sua mulher, Michelle. Bolsonaro, frise-se, é um político católico, que até cerca de dez anos atrás nunca se notabilizou pela defesa das bandeiras tradicionais do conservadorismo religioso e nem demonstrava essa religiosidade em sua vida privada.
Michelle é uma evangélica raiz, como se diz atualmente. Neste sentido, ela é a representante do povo de Deus dentro do Palácio. Segundo o pastor, se assemelha no imaginário bíblico à figura de Ester, do Antigo Testamento.
Ester, judia, casou-se com Assuero, o rei dos medos e dos persas, um déspota afeito a alguns dos sete pecados. Tornou-se a rainha. A sua capacidade de persuasão levou Assuero a se tornar de perseguidor em protetor dos judeus, para desespero de seus adversários. Ester guiou a ação de Assuero, sem nunca substituí-lo.
“O evangélico tende a se imaginar dentro da Bíblia. Uma figura como Michelle é fundamental para garantir a aderência ao projeto bolsonarista. Ela é a evangélica. Ele não”, comenta o pastor Ferreira.
A associação entre Michelle e a rainha Ester também apareceu nos grupos de qualitativa com mulheres evangélicas, segundo Jaqueline Teixeira. “É a figura que representa o compromisso com valores maiores, já que o marido tem defeitos amplamente reconhecidos dentro da comunidade”, diz.
Há ainda uma questão de identificação. O antropólogo Juliano Spyer, pesquisador da UFRJ e criador do Observatório Evangélico, um portal de informações, lembra que a onda evangélica no Brasil é recente, tem suas raízes na migração do meio rural para as grandes cidades de uma massa com baixa instrução e valores conservadores que se chocou com a cultura das grandes cidades. Um aluvião humano que a Igreja Católica foi incapaz de acompanhar.
Neste universo a pessoa evangélica típica é mulher, não branca, distante das leituras. Reúne categorias do eleitorado muito propensas a votar em Lula. É um contingente ainda relativamente jovem, na faixa de 30 a 45 anos.
O peso do Nordeste é crescente. Não é possível vislumbrar hegemonia evangélica em nenhuma região do Brasil, mas especialistas apontam que é no Nordeste, um reduto lulista, que os evangélicos se expandem com maior velocidade. Se o petista conta com cerca de um terço das preferências no segmento evangélico, a razão principal aí está: nas mulheres, nordestinas, pretas e pardas, de baixa instrução e baixa renda, muitas vezes chefes da família e altamente sensíveis a políticas públicas na área social, como transferência de renda, educação e saúde.
A principal arma que Bolsonaro tem para sensibilizar um público com características tão próximas ao lulismo é a primeira-dama.
“Michelle se aproxima muito desse perfil. Ela não é alguém que aparece agora, desde o início do governo Bolsonaro tem visibilidade com causas como direitos a portadores de deficiência. Então seu surgimento na campanha não soa como estratégia eleitoreira”, diz Jaqueline.
A mulher evangélica, diz a pesquisadora, é permeável a um tipo de agenda que não é a vocalizada pelo presidente, mas pode ser representada pela sua cônjuge. É bom lembrar que Michelle, ao contrário do marido, se vacinou contra a covid-19 e, de acordo com o próprio Bolsonaro, tem aversão a armas.
A ditadura moderna
A diferença [entre a ditadura convencional e a do capitalismo] é que não é a ditadura como nós conhecemos. É o que eu chamo de ‘capitalismo autoritário’. A ditadura tinha cara, e nós dizíamos é aquele, ou aqueles militares, o Hitler, o Franco, o Pinochet, mas agora não tem cara. E como não tem cara não sabemos contra quem lutar. Não há contra quem lutar. O mercado não tem cara, só tem nome. Está em toda parte e não podemos identificá-lo, dizer ‘eis tu’. Mesmo as pessoas que lutaram contra a ditadura, entrando na democracia acham que não têm mais que lutar. E os problemas estão todos aí. O mercado pode se tornar uma ditadura.
José Saramago, "As palavras de Saramago"
O Brasil, colônia de si mesmo
Ao completar 200 anos de idade, o Brasil ainda peleja no divã da história para se libertar de sua personalidade colonial. O volume 3 da trilogia Escravidão, transcreve trechos do abolicionista Joaquim Nabuco, que vestem perfeitamente no Brasil atual.
“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”.
O que Nabuco descreve acima se aplicaria ao modelo colonial europeu em geral, como fonte inesgotável de riquezas às custas do meio ambiente e da vida de povos originários e africanos.
Contudo, não custa refletir se o Brasil não seria um projeto inacabado de República, no qual interesses políticos e econômicos irresponsáveis aliam-se, vez por outra, aos costumes arcaicos da sociedade, como se ainda fossem mercadores, apenas de passagem pela colônia.
Nesse sentido, cabe lembrar que, em pleno século XIX, quando outras colônias e monarquias tradicionais já iam longe na instalação de suas instituições democráticas, o Brasil insistia no sentido oposto.
Os Estados Unidos já eram república, a Revolução Francesa dava frutos, o Haiti fervia liderado por negros, a revolução industrial transformava as sociedades, e a escravidão era abolida mundo afora.
Enquanto isso, em 1822, o Brasil torna-se, não uma república, mas, um império na América (cujo imperador ‘independente’ era o herdeiro do trono colonizador!).
Não foi à toa que, enquanto o mundo criava tecnologias como a máquina a vapor, o telefone, a eletricidade, vacinas, e diferentes formas de democracia, o Brasil seguiu convictamente agrário e escravista.
Por isso, não surpreende que, até hoje, em plena emergência climática, o País continue na contramão, sem um plano de desenvolvimento (ou sobrevivência) que corresponda à estatura e à gravidade do desafio global.
Quando finalmente a escravidão foi abolida no Brasil, quase no séc. XX, cerca de 5 milhões de africanos (e quantidade semelhante de indígenas) haviam sido sequestrados, escravizados ou mortos (número de fazer inveja a qualquer holocausto).
A República só chegaria um ano depois, por meio de um golpe de Estado patrocinado pelos escravocratas ressentidos, que remodelaram seus negócios e suas relações de poder.
Escravidão III destaca que o conceito de República utilizado no século XIX ainda era dissociado da definição de Democracia (até então, considerada uma ideia anárquica demais).
Quem sabe, essa visão de república autocrática e positivista não persista no DNA brasileiro.
E, quem sabe, justifique, ainda hoje, o abandono da população negra ao próprio azar, o extermínio de indígenas, a devastação ambiental, a violência e os vaivéns da democracia.
“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”.
(O Abolicionismo, 1883)
O que Nabuco descreve acima se aplicaria ao modelo colonial europeu em geral, como fonte inesgotável de riquezas às custas do meio ambiente e da vida de povos originários e africanos.
Contudo, não custa refletir se o Brasil não seria um projeto inacabado de República, no qual interesses políticos e econômicos irresponsáveis aliam-se, vez por outra, aos costumes arcaicos da sociedade, como se ainda fossem mercadores, apenas de passagem pela colônia.
Nesse sentido, cabe lembrar que, em pleno século XIX, quando outras colônias e monarquias tradicionais já iam longe na instalação de suas instituições democráticas, o Brasil insistia no sentido oposto.
Os Estados Unidos já eram república, a Revolução Francesa dava frutos, o Haiti fervia liderado por negros, a revolução industrial transformava as sociedades, e a escravidão era abolida mundo afora.
Enquanto isso, em 1822, o Brasil torna-se, não uma república, mas, um império na América (cujo imperador ‘independente’ era o herdeiro do trono colonizador!).
Não foi à toa que, enquanto o mundo criava tecnologias como a máquina a vapor, o telefone, a eletricidade, vacinas, e diferentes formas de democracia, o Brasil seguiu convictamente agrário e escravista.
Por isso, não surpreende que, até hoje, em plena emergência climática, o País continue na contramão, sem um plano de desenvolvimento (ou sobrevivência) que corresponda à estatura e à gravidade do desafio global.
Quando finalmente a escravidão foi abolida no Brasil, quase no séc. XX, cerca de 5 milhões de africanos (e quantidade semelhante de indígenas) haviam sido sequestrados, escravizados ou mortos (número de fazer inveja a qualquer holocausto).
A República só chegaria um ano depois, por meio de um golpe de Estado patrocinado pelos escravocratas ressentidos, que remodelaram seus negócios e suas relações de poder.
Escravidão III destaca que o conceito de República utilizado no século XIX ainda era dissociado da definição de Democracia (até então, considerada uma ideia anárquica demais).
Quem sabe, essa visão de república autocrática e positivista não persista no DNA brasileiro.
E, quem sabe, justifique, ainda hoje, o abandono da população negra ao próprio azar, o extermínio de indígenas, a devastação ambiental, a violência e os vaivéns da democracia.
Com empresários golpistas, Bolsonaro realiza o sonho da elite própria
Em menos de uma semana, Jair Bolsonaro conseguiu preencher uma cartela com o repúdio de quatro grupos influentes da vida nacional. Na quinta passada (11), um manifesto encabeçado por intelectuais e pela elite econômica denunciou as ameaças golpistas do presidente. Cinco dias depois, cardeais da política e dos tribunais se opuseram aos ataques do capitão e aplaudiram as urnas eletrônicas em cerimônia no TSE.
Bolsonaro disputou a última eleição com o figurino de um candidato que desafiava os interesses dos ricos e poderosos. O presidente tenta renovar a imagem sempre que se vê isolado por esses grupos: andou dizendo que os bancos só defendem a democracia porque perderam dinheiro com a criação do Pix e alega que o establishment trabalha contra ele porque seu governo não cedeu a velhos conchavos.
A ideia é a mesma desde a campanha passada: assumir o rótulo de um movimento antielitista e reivindicar uma suposta legitimidade popular a favor de seus interesses políticos. Essa linha vale tanto para o discurso eleitoral clássico como para suas incansáveis propostas de ruptura ("eu faço o que o povo quiser").
Apesar de aproveitar o personagem, Bolsonaro está muito bem servido por uma elite que parece disposta a ficar a seu lado para o que der e vier. Não são poucos os endinheirados que apostam numa vitória do capitão, enquanto outros querem que ele permaneça no poder mesmo que seja derrotado nas urnas.
Há meses, um grupo de empresários lidera uma torcida organizada do golpismo pelo WhatsApp. Segundo uma reportagem do site Metrópoles, estão lá o notório Luciano Hang e os donos das marcas Multiplan e Coco Bambu, entre outros. Um deles disse abertamente preferir um "golpe do que a volta do PT".
Com empresários amigos, políticos poderosos alimentados com verba pública e aliados em postos-chave, Bolsonaro realizou o sonho da elite própria. Resta saber se essa turma está disposta a pagar a conta dos delírios autoritários do capitão.
Bolsonaro disputou a última eleição com o figurino de um candidato que desafiava os interesses dos ricos e poderosos. O presidente tenta renovar a imagem sempre que se vê isolado por esses grupos: andou dizendo que os bancos só defendem a democracia porque perderam dinheiro com a criação do Pix e alega que o establishment trabalha contra ele porque seu governo não cedeu a velhos conchavos.
A ideia é a mesma desde a campanha passada: assumir o rótulo de um movimento antielitista e reivindicar uma suposta legitimidade popular a favor de seus interesses políticos. Essa linha vale tanto para o discurso eleitoral clássico como para suas incansáveis propostas de ruptura ("eu faço o que o povo quiser").
Apesar de aproveitar o personagem, Bolsonaro está muito bem servido por uma elite que parece disposta a ficar a seu lado para o que der e vier. Não são poucos os endinheirados que apostam numa vitória do capitão, enquanto outros querem que ele permaneça no poder mesmo que seja derrotado nas urnas.
Há meses, um grupo de empresários lidera uma torcida organizada do golpismo pelo WhatsApp. Segundo uma reportagem do site Metrópoles, estão lá o notório Luciano Hang e os donos das marcas Multiplan e Coco Bambu, entre outros. Um deles disse abertamente preferir um "golpe do que a volta do PT".
Com empresários amigos, políticos poderosos alimentados com verba pública e aliados em postos-chave, Bolsonaro realizou o sonho da elite própria. Resta saber se essa turma está disposta a pagar a conta dos delírios autoritários do capitão.
Bolsonaro embalsamado
Enquanto Bolsonaro tinha de engolir sem água o discurso de posse do ministro Alexandre de Moraes na presidência do TSE, sua tropa nas redes sociais disparava milhares de mensagens convocando para ataques ao mesmo TSE nas arruaças de 7 de Setembro. Esses disparos eram como o braço mecânico do "Dr. Fantástico", personagem de Peter Sellers no filme de Stanley Kubrick, automático, incontrolável, programado para fazer sem parar a saudação nazista, e seriam as senhas para um possível golpe contra as eleições. Mas, como Bolsonaro percebeu, a fala de Moraes foi um direto de muay thai contra seu projeto.
O significativo é que a mensagem do discurso —a garantia de que qualquer ameaça às instituições será rechaçada por elas— foi feita na presença dos representantes dessas instituições. Ali estavam os três Poderes da República, a sociedade civil e as missões estrangeiras, o que cobre praticamente o leque. Todos aplaudindo de pé, para constrangimento de Bolsonaro, rígido como uma múmia recém-embalsamada. E houve o que me calou mais fundo: Moraes e demais oradores fizeram uma incisiva pregação antigolpe sem usar a palavra golpe.
Não foi preciso. A ideia de golpe já está no ar há muito tempo, o que anula certas condições indispensáveis para torná-lo possível: a conspiração, o segredo, a surpresa. Todo mundo, inclusive lá fora, sabe hoje que Bolsonaro é golpista.
Quando falei em golpe pela primeira vez neste espaço, na coluna "Remédio para azia", de 13 de dezembro de 2019, leitores me acusaram de estar vendo fantasmas. Ainda se achava que Bolsonaro era só um destrambelhado. Mas ali já se via que, por trás do destrambelho, havia um projeto. Um projeto de golpe.
Desde então, perdi a conta de quantas vezes usei aqui essa palavra. Sempre achei que, quanto mais se falasse de golpe, mais difícil seria tentá-lo. E talvez ainda não se tenha falado o suficiente.
Não foi preciso. A ideia de golpe já está no ar há muito tempo, o que anula certas condições indispensáveis para torná-lo possível: a conspiração, o segredo, a surpresa. Todo mundo, inclusive lá fora, sabe hoje que Bolsonaro é golpista.
Quando falei em golpe pela primeira vez neste espaço, na coluna "Remédio para azia", de 13 de dezembro de 2019, leitores me acusaram de estar vendo fantasmas. Ainda se achava que Bolsonaro era só um destrambelhado. Mas ali já se via que, por trás do destrambelho, havia um projeto. Um projeto de golpe.
Desde então, perdi a conta de quantas vezes usei aqui essa palavra. Sempre achei que, quanto mais se falasse de golpe, mais difícil seria tentá-lo. E talvez ainda não se tenha falado o suficiente.
quinta-feira, 18 de agosto de 2022
Histórias viscerais
Aqueles que morriam em odor de santidade transferiam a fama de seus poderes milagrosos para suas vísceras, falanges, membros e outras partes de seu corpo, e por isso eram desmembrados e distribuídos em santuários e igrejas, um coração dentro de um peitoral de ouro bordado com pedras preciosas, um braço ou uma perna em armadura de prata, um dedo em um dedal de ourives. Aconteceu até com os mais humildes servos de Deus, como São João da Cruz, ou com os mais cultos, como Santa Teresa.
Mas também acontece com santos leigos embalsamados, como Eva Perón; ou com os presidentes todo-poderosos quando reivindicam a eternidade além de sua morte; ou com os imperadores, quando seus corpos, ou suas vísceras, são úteis, mesmo séculos depois, em termos eleitorais. Vamos por partes.
Na manhã de 6 de agosto de 1875, o presidente do Equador Gabriel García Moreno, do lado conservador, que logo iniciaria seu terceiro mandato, voltava a pé ao Palácio Nacional, depois de ter recebido a comunhão na igreja de Santo Domingo, quando foi baleado e morto com facões por um grupo de conspiradores do lado liberal.
No dia seguinte, o cadáver presidiu seu próprio funeral. Vestido com o uniforme de desfile do comandante supremo, o bicorne de penas na cabeça e a faixa no peito, ele apareceu sentado na cadeira presidencial no altar principal da catedral, enquanto os religiosos cantavam o ofício dos mortos e o protocolo foi seguido de funerais de estado ditados por ele mesmo.
Essa foto está lá fora, prova de que o romancista não está mentindo. Feito para esconder a palidez da morte, as sobrancelhas repintadas, os olhos semicerrados e a boca grotescamente aberta, atrás dele está um guarda dos granadeiros, com seus altos bonés de pele de urso, baionetas vazadas e estranhamente vestido com aventais forenses.
Houve tentativas frustradas de canonizar García Granados, um católico devoto. Enterrado na catedral de Quito, os altos e baixos da política levaram a temores de profanação, e o corpo foi movido secretamente de um esconderijo para outro, até terminar na igreja de Santa Catalina de Siena, onde foi descoberto cem anos depois de sua morte, em uma cripta do lado direito do altar-mor.
O coração, que havia sido removido para preservá-lo como relíquia, foi escondido separadamente em uma coluna no claustro do Bom Pastor, junto com a do Arcebispo de Quito, Monsenhor José Ignacio Checa y Barba, que morreu depois de beber o envenenado vinho do cálice no escritório da Sexta-feira Santa de 1877. Importa também o que a realidade dá ao romancista.
E aqui está a outra história. Na igreja da irmandade de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, está o coração de D. Pedro de Alcântara, Rei de Portugal e Imperador do Brasil após a proclamação em 1822 da independência desta imensa colônia americana que era por si só um continente, um caso único na história da América Latina de um monarca reverenciado como herói.
Dom Pedro, exilado do Brasil, morreu em 1834 no Paço Real de Queluz, em Portugal, consumido pela tuberculose. Mas antes disso, ditou sua famosa carta aberta aos brasileiros: “A escravidão é um mal, um atentado contra os direitos e a dignidade da espécie humana, mas suas consequências são menos danosas para quem sofre cativeiro do que para a Nação cujas leis eles permitem. É um câncer que corrói sua moralidade.”
E providenciou para que seu coração ficasse na igreja da Lapa, enquanto seu corpo foi sepultado no Panteão Real da dinastia Bragança, na igreja de São Vicente de Fora. Em 1972, quando se comemorava o 150º aniversário da independência do Brasil, a ditadura militar, evocando sua fama de “rei soldado” e não de inimigo da escravidão, conseguiu que os ossos do imperador fossem transferidos de Portugal, desfilando com grande pompa por todo o o país antes de ser enterrado no mausoléu imperial no Ipiranga, São Paulo, onde proclamou o Brasil livre do jugo de Portugal. Ele estava então travando uma campanha em que era forçado a descer do cavalo em cada etapa, sofrendo de diarréia.
Se a ditadura conseguiu apoderar-se dos ossos do “rei soldado”, agora o presidente Jair Bolsonaro, que não esconde em absoluto a saudade do regime militar, conseguiu que a Câmara Municipal do Porto lhe emprestasse o coração de Dom Pedro por ocasião das comemorações do segundo centenário da independência.
Bolsonaro, que busca a reeleição, proclama que se sente imortal, que só Deus o tira do poder e ameaça com golpe se perder. As eleições presidenciais, nas quais ele tem desvantagem nas pesquisas contra Lula da Silva, são em 2 de outubro, e a celebração da independência, em 7 de setembro.
O coração será transportado em avião da Força Aérea Brasileira, e certamente Bolsonaro o receberá no aeroporto para aproveitá-lo eleitoralmente, e exibir triunfantemente a urna em comícios.
Grande oportunidade para um homem tão visceral.
Mas também acontece com santos leigos embalsamados, como Eva Perón; ou com os presidentes todo-poderosos quando reivindicam a eternidade além de sua morte; ou com os imperadores, quando seus corpos, ou suas vísceras, são úteis, mesmo séculos depois, em termos eleitorais. Vamos por partes.
Na manhã de 6 de agosto de 1875, o presidente do Equador Gabriel García Moreno, do lado conservador, que logo iniciaria seu terceiro mandato, voltava a pé ao Palácio Nacional, depois de ter recebido a comunhão na igreja de Santo Domingo, quando foi baleado e morto com facões por um grupo de conspiradores do lado liberal.
No dia seguinte, o cadáver presidiu seu próprio funeral. Vestido com o uniforme de desfile do comandante supremo, o bicorne de penas na cabeça e a faixa no peito, ele apareceu sentado na cadeira presidencial no altar principal da catedral, enquanto os religiosos cantavam o ofício dos mortos e o protocolo foi seguido de funerais de estado ditados por ele mesmo.
Essa foto está lá fora, prova de que o romancista não está mentindo. Feito para esconder a palidez da morte, as sobrancelhas repintadas, os olhos semicerrados e a boca grotescamente aberta, atrás dele está um guarda dos granadeiros, com seus altos bonés de pele de urso, baionetas vazadas e estranhamente vestido com aventais forenses.
Houve tentativas frustradas de canonizar García Granados, um católico devoto. Enterrado na catedral de Quito, os altos e baixos da política levaram a temores de profanação, e o corpo foi movido secretamente de um esconderijo para outro, até terminar na igreja de Santa Catalina de Siena, onde foi descoberto cem anos depois de sua morte, em uma cripta do lado direito do altar-mor.
O coração, que havia sido removido para preservá-lo como relíquia, foi escondido separadamente em uma coluna no claustro do Bom Pastor, junto com a do Arcebispo de Quito, Monsenhor José Ignacio Checa y Barba, que morreu depois de beber o envenenado vinho do cálice no escritório da Sexta-feira Santa de 1877. Importa também o que a realidade dá ao romancista.
E aqui está a outra história. Na igreja da irmandade de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, está o coração de D. Pedro de Alcântara, Rei de Portugal e Imperador do Brasil após a proclamação em 1822 da independência desta imensa colônia americana que era por si só um continente, um caso único na história da América Latina de um monarca reverenciado como herói.
Dom Pedro, exilado do Brasil, morreu em 1834 no Paço Real de Queluz, em Portugal, consumido pela tuberculose. Mas antes disso, ditou sua famosa carta aberta aos brasileiros: “A escravidão é um mal, um atentado contra os direitos e a dignidade da espécie humana, mas suas consequências são menos danosas para quem sofre cativeiro do que para a Nação cujas leis eles permitem. É um câncer que corrói sua moralidade.”
E providenciou para que seu coração ficasse na igreja da Lapa, enquanto seu corpo foi sepultado no Panteão Real da dinastia Bragança, na igreja de São Vicente de Fora. Em 1972, quando se comemorava o 150º aniversário da independência do Brasil, a ditadura militar, evocando sua fama de “rei soldado” e não de inimigo da escravidão, conseguiu que os ossos do imperador fossem transferidos de Portugal, desfilando com grande pompa por todo o o país antes de ser enterrado no mausoléu imperial no Ipiranga, São Paulo, onde proclamou o Brasil livre do jugo de Portugal. Ele estava então travando uma campanha em que era forçado a descer do cavalo em cada etapa, sofrendo de diarréia.
Se a ditadura conseguiu apoderar-se dos ossos do “rei soldado”, agora o presidente Jair Bolsonaro, que não esconde em absoluto a saudade do regime militar, conseguiu que a Câmara Municipal do Porto lhe emprestasse o coração de Dom Pedro por ocasião das comemorações do segundo centenário da independência.
Bolsonaro, que busca a reeleição, proclama que se sente imortal, que só Deus o tira do poder e ameaça com golpe se perder. As eleições presidenciais, nas quais ele tem desvantagem nas pesquisas contra Lula da Silva, são em 2 de outubro, e a celebração da independência, em 7 de setembro.
O coração será transportado em avião da Força Aérea Brasileira, e certamente Bolsonaro o receberá no aeroporto para aproveitá-lo eleitoralmente, e exibir triunfantemente a urna em comícios.
Grande oportunidade para um homem tão visceral.
Miséria de campanha
[Este é um] País rico e próspero que precisa ser liberto para sair dessas amarras de mentira e de mendigagem. Nossa terra é uma terra próspera, produtiva, abençoada – e nós não aceitamos mais esse espírito de miséria no nosso BrasilMichele Bolsonaro
Berlusconi, Bolsonaro
O filósofo italiano Norberto Bobbio costumava dizer que a Itália é um laboratório político. Ele sabia o que estava dizendo. Nascido em 1909 e falecido em 2004, Bobbio viu e comentou os grandes acontecimentos do século 20, aí incluídos o regime fascista de Mussolini e os governos de Silvio Berlusconi na Itália.
Bobbio escreveu que o fascismo “morreu e não há celebração que possa fazê-lo reviver” (a “queda do fascismo”), mas o “laboratório político” italiano ainda lhe reservava surpresas. Em 1994, o megaempresário Silvio Berlusconi torna-se primeiro-ministro da Itália.
Em seus artigos na imprensa, Bobbio era um crítico contumaz do polêmico político. Ele deplorava o fato de que Berlusconi, proprietário de “três grandes máquinas de formação do consenso (emissoras de televisão) tivesse constituído um partido pessoal próprio” e, “com o apoio desse sustento incomum”, se tornado primeiro-ministro (Contra os novos despotismos: escritos sobre o berlusconismo).
Num artigo escrito durante a campanha que antecedeu as eleições de 1994, Bobbio já via em Berlusconi um “fenômeno sem precedentes” e se perguntava: “Já aconteceu algo parecido na Itália ou em qualquer outro país”? Bobbio insinua que não. Mas o “laboratório” italiano não traça fronteiras, e a análise de Bobbio sobre Berlusconi tem pontos que nos transportam, sem escalas, ao Brasil de hoje.
O filósofo italiano reprovava, por exemplo, as anacrônicas declarações de Berlusconi de que sua tarefa era “proteger os valores cristãos ameaçados pelos comunistas ateus”, ou que o principal objetivo de seu partido era não “deixar o país cair nas mãos dos comunistas”. Essa obsessão pelo finado comunismo lembra alguém?
Bobbio reprovava, também, o hábito do ex-primeiro-ministro de “se fazer de vítima de complôs, de conspirações, de traições, ingênuo alvo de inimigos malvados e de pérfidos aliados”. Além disso, “insulta os juízes e tenta deslegitimá-los de todos os modos”.
Bobbio criticava Berlusconi, ainda, pela forma como se dirigia à população. De um lado, já se autodenominou “ungido pelo Senhor”; de outro, ao ser cobrado pelo não cumprimento de suas promessas eleitorais, afirmava que “não o deixaram trabalhar”. Esse horror à responsabilidade lembra alguém?
E não é só Bobbio que, analisando Berlusconi, nos remete a Jair Bolsonaro. Seu compatriota Umberto Eco (1932-2016), num artigo de 2003 (ano em que Berlusconi também foi primeiro-ministro) destacava: “A figura de Berlusconi se presta à sátira, seus adversários às vezes se consolam pensando que ele passou das medidas, e têm certeza (...) que ele corre em direção à própria ruína”. Mas Eco acreditava que Berlusconi estava “colocando em ação, justamente com os gestos mais incompreensíveis, uma estratégia complexa, sagaz e sutil”.
Entre as técnicas de Berlusconi, Eco cita “promessas que, boas, ruins ou neutras, (...) se apresentem aos olhos dos críticos como uma provocação. E deve produzir uma provocação por dia, tanto melhor se inconcebível e inaceitável”. A provocação deve ser tal que “a oposição seja obrigada a aceitá-la e a reagir com energia”. Isso porque “conseguir produzir todos os dias uma reação indignada das oposições (...) permite a Berlusconi mostrar ao próprio eleitorado que ele é vítima de uma perseguição”.
Ainda sobre provocações, a estratégia de Berlusconi seria “lançar a provocação, desmenti-la no dia seguinte (...) e lançar imediatamente uma outra”. Haveria dois objetivos essenciais nessa estratégia, diz Eco. Primeiro, trata-se de um balão de ensaio que, se não suscitar reação enérgica da opinião pública, “significa que até mesmo o mais ultrajante dos caminhos poderia ser, com a devida calma, percorrido”.
O segundo objetivo é o que Eco chamava de efeito bomba. No exemplo dele, “se eu fosse um homem de poder enredado em muitos e obscuros negócios, e ficasse sabendo que dentro de dois dias estouraria nos jornais uma revelação que esclareceria meus malefícios (...), mandaria colocar uma bomba (...) numa praça na saída da missa”. Desse modo, “por pelo menos 15 dias as primeiras páginas dos jornais (...) só teriam espaço para o atentado”. Desviar o foco das atenções é, também, uma especialidade do nosso presidente.
Eco traz sugestões para contrapor-se a essa estratégia, mas elas não cabem neste espaço. Aqui, o objetivo é reportar semelhanças no comportamento dos dois políticos (geralmente identificados ao populismo) e notar que Berlusconi, depois de tantos anos, ainda exerce influência na política italiana.
É incerto se o mesmo ocorrerá com Bolsonaro. O que parece certo é que sua mentalidade seguirá presente na sociedade brasileira (basta notar quão frequentes se tornaram, de uns anos para cá, avaliações elogiosas da infame ditadura militar). Ou seja: se a Itália, como dizia Bobbio, é um laboratório político, o Brasil é o de Frankenstein.
Bobbio escreveu que o fascismo “morreu e não há celebração que possa fazê-lo reviver” (a “queda do fascismo”), mas o “laboratório político” italiano ainda lhe reservava surpresas. Em 1994, o megaempresário Silvio Berlusconi torna-se primeiro-ministro da Itália.
Em seus artigos na imprensa, Bobbio era um crítico contumaz do polêmico político. Ele deplorava o fato de que Berlusconi, proprietário de “três grandes máquinas de formação do consenso (emissoras de televisão) tivesse constituído um partido pessoal próprio” e, “com o apoio desse sustento incomum”, se tornado primeiro-ministro (Contra os novos despotismos: escritos sobre o berlusconismo).
Num artigo escrito durante a campanha que antecedeu as eleições de 1994, Bobbio já via em Berlusconi um “fenômeno sem precedentes” e se perguntava: “Já aconteceu algo parecido na Itália ou em qualquer outro país”? Bobbio insinua que não. Mas o “laboratório” italiano não traça fronteiras, e a análise de Bobbio sobre Berlusconi tem pontos que nos transportam, sem escalas, ao Brasil de hoje.
O filósofo italiano reprovava, por exemplo, as anacrônicas declarações de Berlusconi de que sua tarefa era “proteger os valores cristãos ameaçados pelos comunistas ateus”, ou que o principal objetivo de seu partido era não “deixar o país cair nas mãos dos comunistas”. Essa obsessão pelo finado comunismo lembra alguém?
Bobbio reprovava, também, o hábito do ex-primeiro-ministro de “se fazer de vítima de complôs, de conspirações, de traições, ingênuo alvo de inimigos malvados e de pérfidos aliados”. Além disso, “insulta os juízes e tenta deslegitimá-los de todos os modos”.
Bobbio criticava Berlusconi, ainda, pela forma como se dirigia à população. De um lado, já se autodenominou “ungido pelo Senhor”; de outro, ao ser cobrado pelo não cumprimento de suas promessas eleitorais, afirmava que “não o deixaram trabalhar”. Esse horror à responsabilidade lembra alguém?
E não é só Bobbio que, analisando Berlusconi, nos remete a Jair Bolsonaro. Seu compatriota Umberto Eco (1932-2016), num artigo de 2003 (ano em que Berlusconi também foi primeiro-ministro) destacava: “A figura de Berlusconi se presta à sátira, seus adversários às vezes se consolam pensando que ele passou das medidas, e têm certeza (...) que ele corre em direção à própria ruína”. Mas Eco acreditava que Berlusconi estava “colocando em ação, justamente com os gestos mais incompreensíveis, uma estratégia complexa, sagaz e sutil”.
Entre as técnicas de Berlusconi, Eco cita “promessas que, boas, ruins ou neutras, (...) se apresentem aos olhos dos críticos como uma provocação. E deve produzir uma provocação por dia, tanto melhor se inconcebível e inaceitável”. A provocação deve ser tal que “a oposição seja obrigada a aceitá-la e a reagir com energia”. Isso porque “conseguir produzir todos os dias uma reação indignada das oposições (...) permite a Berlusconi mostrar ao próprio eleitorado que ele é vítima de uma perseguição”.
Ainda sobre provocações, a estratégia de Berlusconi seria “lançar a provocação, desmenti-la no dia seguinte (...) e lançar imediatamente uma outra”. Haveria dois objetivos essenciais nessa estratégia, diz Eco. Primeiro, trata-se de um balão de ensaio que, se não suscitar reação enérgica da opinião pública, “significa que até mesmo o mais ultrajante dos caminhos poderia ser, com a devida calma, percorrido”.
O segundo objetivo é o que Eco chamava de efeito bomba. No exemplo dele, “se eu fosse um homem de poder enredado em muitos e obscuros negócios, e ficasse sabendo que dentro de dois dias estouraria nos jornais uma revelação que esclareceria meus malefícios (...), mandaria colocar uma bomba (...) numa praça na saída da missa”. Desse modo, “por pelo menos 15 dias as primeiras páginas dos jornais (...) só teriam espaço para o atentado”. Desviar o foco das atenções é, também, uma especialidade do nosso presidente.
Eco traz sugestões para contrapor-se a essa estratégia, mas elas não cabem neste espaço. Aqui, o objetivo é reportar semelhanças no comportamento dos dois políticos (geralmente identificados ao populismo) e notar que Berlusconi, depois de tantos anos, ainda exerce influência na política italiana.
É incerto se o mesmo ocorrerá com Bolsonaro. O que parece certo é que sua mentalidade seguirá presente na sociedade brasileira (basta notar quão frequentes se tornaram, de uns anos para cá, avaliações elogiosas da infame ditadura militar). Ou seja: se a Itália, como dizia Bobbio, é um laboratório político, o Brasil é o de Frankenstein.
Deserto de ideias
Ao escolher o “local exato” onde há quatro anos levou uma facada para dar início à sua campanha pela reeleição, o presidente Jair Bolsonaro mostrou que pretende fazer da emoção o ponto forte da campanha que começa nesta terça-feira.
Ele e seus mais fundamentalistas aliados pretendem recorrer a imagens como a travessia do deserto e a luta do bem contra o mal para comover corações desavisados. Um olhar mais atento, porém, indicará que o principal deserto dessa campanha eleitoral promete ser o deserto de ideias.
Até o momento, Bolsonaro e seus principais opositores – com a possível exceção de Ciro Gomes, que há um ano lançou um livro sobre seu plano nacional de desenvolvimento – esquivam-se de apresentar ideias claras sobre como pretendem conduzir um país duramente afetado pela pandemia e por graves dificuldades econômicas e sociais.
O governo tem agido sob a única orientação de sua bússola eleitoral. O Auxílio Brasil, que já nasceu com prazo de validade, soa como sofisticada reedição da antiga compra de votos. E, quando o país parou para ouvir o manifesto pela democracia na Faculdade de Direito de São Paulo, o presidente citou a redução do preço da gasolina como o principal fato do dia.
Por sua vez, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva pede aos agentes econômicos um voto de confiança que leve em conta o que fez em suas duas gestões. Não apresenta detalhes de suas propostas econômicas e indica apenas que pretende priorizar o combate à fome e ao desemprego.
A situação social, de fato, é tão grave que merece a mais alta prioridade. Além disso, as críticas feitas por Bolsonaro ao sistema eleitoral levantam dúvidas igualmente urgentes sobre a aceitação, pelo presidente, de resultados desfavoráveis nas urnas. Vivemos, portanto, sob duas urgências que drenam, até aqui, as atenções dos principais atores políticos.
Enquanto isso, porém, o mundo se move. Os riscos reais da mudança climática e os efeitos devastadores sobre a economia de eventos como a pandemia e a invasão da Ucrânia levaram diversos governos – principalmente na América do Norte e na Europa – a recalcular as suas rotas para os próximos anos.
As ameaças são palpáveis. A recessão e a inflação voltaram a ser ameaças em todo o mundo. A produção e a distribuição de alimentos têm sido afetadas por fatores como a falta de fertilizantes e o bloqueio à exportação de grãos produzidos pela Ucrânia. O verão inclemente no Hemisfério Norte acende alertas sobre os efeitos do aquecimento global.
Além disso, as manobras militares da China em resposta à visita a Taiwan da presidente da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, indicam o risco da dependência de quase todo o mundo do fornecimento de semicondutores produzidos na ilha que é chamada de “província rebelde” pelas autoridades de Pequim.
Algumas respostas a esses tantos desafios foram apresentadas nos últimos dias em Washington. O Congresso Nacional dos Estados Unidos aprovou dois projetos destinados a reduzir os danos provocados pela atual coleção de crises.
O primeiro deles traz de volta à realidade norte-americana uma política industrial. O presidente Joe Biden sancionou há uma semana o projeto de lei que garante subsídios de US$ 52 bilhões para a indústria de semicondutores, inaugurando o que o jornal Washington Post chamou de “um dos maiores programas de desenvolvimento” já adotados pelo governo americano.
A nova lei deverá permitir a construção de pelo menos seis fábricas de chips nos Estados Unidos, para garantir a oferta desses componentes tão importantes à indústria que passaram a ser vistos como essenciais à segurança nacional.
A mesma lei autoriza apoio federal calculado na casa de dezenas de bilhões de dólares à pesquisa e ao desenvolvimento de novas tecnologias, capazes – segundo a proposta do governo – de levar a grandes inovações em áreas como computação quântica e inteligência artificial.
O segundo projeto aprovado estimula a chamada transição energética, como forma de, ao mesmo tempo, reduzir os efeitos da mudança climática e gerar novos empregos. A “Lei de Redução da Inflação” vai permitir o maior investimento em ações climáticas da história dos Estados Unidos.
Serão US$ 370 bilhões ao longo da próxima década para estimular a produção de energias renováveis e reduzir as emissões de gases do efeito estufa. A nova lei permitirá redução em 40% das emissões desses gases até 2030, quando comparadas a 2005. Antes da lei a previsão era de redução de 30%.
Entre as medidas previstas está a abertura de um “banco verde”, com recursos de US$ 27 bilhões, para financiar a implantação de tecnologias limpas como painéis solares residenciais e novas fábricas de carros elétricos.
A nova lei ainda tornará mais competitiva a produção, nos Estados Unidos, de hidrogênio verde, um combustível produzido a partir de energias como a solar e a eólica, que poderá, no futuro, movimentar carros, aviões e indústrias. Ao estabelecer créditos tributários para a nova indústria, a medida permitirá ao país produzir o hidrogênio verde mais barato do mundo.
Após analisar esses números, caberia a pergunta: o que tudo isso tem a ver com a campanha eleitoral que começa nesta semana? A resposta está na falta de foco dos principais integrantes do meio político brasileiro. Uma falta de visão estratégica e de percepção das transformações que estão ocorrendo no mundo.
É verdade que as eleições de outubro ocorrerão em um ambiente quase distópico, no qual algumas das principais preocupações são a própria realização das eleições e o reconhecimento de seus resultados.
Também é verdade que o Brasil enfrenta uma duríssima crise econômica e social que exige respostas rápidas. E que o país está a anos luz das possibilidades orçamentárias dos Estados Unidos.
Estímulos de dezenas de bilhões de dólares a uma nova política industrial e a ações de redução da mudança climática estão, de fato, longe da realidade de um país que ainda convive com as pequenezas do orçamento secreto.
Nada disso impede, porém, que as novas lideranças brasileiras se dediquem à construção, dentro das possibilidades nacionais, de um novo modelo econômico, social e ambiental. Um novo tipo de desenvolvimento, mais próximo das necessidades deste início de século. Inspirado em ideias que irriguem o nosso atual deserto.
Ele e seus mais fundamentalistas aliados pretendem recorrer a imagens como a travessia do deserto e a luta do bem contra o mal para comover corações desavisados. Um olhar mais atento, porém, indicará que o principal deserto dessa campanha eleitoral promete ser o deserto de ideias.
Até o momento, Bolsonaro e seus principais opositores – com a possível exceção de Ciro Gomes, que há um ano lançou um livro sobre seu plano nacional de desenvolvimento – esquivam-se de apresentar ideias claras sobre como pretendem conduzir um país duramente afetado pela pandemia e por graves dificuldades econômicas e sociais.
O governo tem agido sob a única orientação de sua bússola eleitoral. O Auxílio Brasil, que já nasceu com prazo de validade, soa como sofisticada reedição da antiga compra de votos. E, quando o país parou para ouvir o manifesto pela democracia na Faculdade de Direito de São Paulo, o presidente citou a redução do preço da gasolina como o principal fato do dia.
Por sua vez, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva pede aos agentes econômicos um voto de confiança que leve em conta o que fez em suas duas gestões. Não apresenta detalhes de suas propostas econômicas e indica apenas que pretende priorizar o combate à fome e ao desemprego.
A situação social, de fato, é tão grave que merece a mais alta prioridade. Além disso, as críticas feitas por Bolsonaro ao sistema eleitoral levantam dúvidas igualmente urgentes sobre a aceitação, pelo presidente, de resultados desfavoráveis nas urnas. Vivemos, portanto, sob duas urgências que drenam, até aqui, as atenções dos principais atores políticos.
Enquanto isso, porém, o mundo se move. Os riscos reais da mudança climática e os efeitos devastadores sobre a economia de eventos como a pandemia e a invasão da Ucrânia levaram diversos governos – principalmente na América do Norte e na Europa – a recalcular as suas rotas para os próximos anos.
As ameaças são palpáveis. A recessão e a inflação voltaram a ser ameaças em todo o mundo. A produção e a distribuição de alimentos têm sido afetadas por fatores como a falta de fertilizantes e o bloqueio à exportação de grãos produzidos pela Ucrânia. O verão inclemente no Hemisfério Norte acende alertas sobre os efeitos do aquecimento global.
Além disso, as manobras militares da China em resposta à visita a Taiwan da presidente da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, indicam o risco da dependência de quase todo o mundo do fornecimento de semicondutores produzidos na ilha que é chamada de “província rebelde” pelas autoridades de Pequim.
Algumas respostas a esses tantos desafios foram apresentadas nos últimos dias em Washington. O Congresso Nacional dos Estados Unidos aprovou dois projetos destinados a reduzir os danos provocados pela atual coleção de crises.
O primeiro deles traz de volta à realidade norte-americana uma política industrial. O presidente Joe Biden sancionou há uma semana o projeto de lei que garante subsídios de US$ 52 bilhões para a indústria de semicondutores, inaugurando o que o jornal Washington Post chamou de “um dos maiores programas de desenvolvimento” já adotados pelo governo americano.
A nova lei deverá permitir a construção de pelo menos seis fábricas de chips nos Estados Unidos, para garantir a oferta desses componentes tão importantes à indústria que passaram a ser vistos como essenciais à segurança nacional.
A mesma lei autoriza apoio federal calculado na casa de dezenas de bilhões de dólares à pesquisa e ao desenvolvimento de novas tecnologias, capazes – segundo a proposta do governo – de levar a grandes inovações em áreas como computação quântica e inteligência artificial.
O segundo projeto aprovado estimula a chamada transição energética, como forma de, ao mesmo tempo, reduzir os efeitos da mudança climática e gerar novos empregos. A “Lei de Redução da Inflação” vai permitir o maior investimento em ações climáticas da história dos Estados Unidos.
Serão US$ 370 bilhões ao longo da próxima década para estimular a produção de energias renováveis e reduzir as emissões de gases do efeito estufa. A nova lei permitirá redução em 40% das emissões desses gases até 2030, quando comparadas a 2005. Antes da lei a previsão era de redução de 30%.
Entre as medidas previstas está a abertura de um “banco verde”, com recursos de US$ 27 bilhões, para financiar a implantação de tecnologias limpas como painéis solares residenciais e novas fábricas de carros elétricos.
A nova lei ainda tornará mais competitiva a produção, nos Estados Unidos, de hidrogênio verde, um combustível produzido a partir de energias como a solar e a eólica, que poderá, no futuro, movimentar carros, aviões e indústrias. Ao estabelecer créditos tributários para a nova indústria, a medida permitirá ao país produzir o hidrogênio verde mais barato do mundo.
Após analisar esses números, caberia a pergunta: o que tudo isso tem a ver com a campanha eleitoral que começa nesta semana? A resposta está na falta de foco dos principais integrantes do meio político brasileiro. Uma falta de visão estratégica e de percepção das transformações que estão ocorrendo no mundo.
É verdade que as eleições de outubro ocorrerão em um ambiente quase distópico, no qual algumas das principais preocupações são a própria realização das eleições e o reconhecimento de seus resultados.
Também é verdade que o Brasil enfrenta uma duríssima crise econômica e social que exige respostas rápidas. E que o país está a anos luz das possibilidades orçamentárias dos Estados Unidos.
Estímulos de dezenas de bilhões de dólares a uma nova política industrial e a ações de redução da mudança climática estão, de fato, longe da realidade de um país que ainda convive com as pequenezas do orçamento secreto.
Nada disso impede, porém, que as novas lideranças brasileiras se dediquem à construção, dentro das possibilidades nacionais, de um novo modelo econômico, social e ambiental. Um novo tipo de desenvolvimento, mais próximo das necessidades deste início de século. Inspirado em ideias que irriguem o nosso atual deserto.
Recomeça a campanha de 2018, segundo tempo
Começou! Foi oficialmente dada a largada para a corrida presidencial nesta terça-feira. Dizem que se trata da eleição mais importante desde a redemocratização. Minha única certeza é a de que estamos vendo o segundo tempo da campanha de 2018, daquela tão estranha e confusa disputa pelo Planalto que resultou na vitória de Jair Messias Bolsonaro. Havia um candidato preso, outro esfaqueado e um terceiro que todos chamaram de "poste".
Lembro-me daquele dia 15 de agosto de 2018, quando milhares de pessoas acompanharam o registro oficial da candidatura de Lula. O petista liderava as pesquisas com cerca de 40% das intenções de voto. Mas estava preso em Curitiba. Lembro-me de Fernando Haddad, o vice, passando pela multidão e entrando pelo portão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília. Todo mundo dizia que Haddad assumiria a chapa se o TSE rejeitasse a candidatura de Lula. E realmente, Haddad acabou assumindo "no lugar de Lula". Mas era tarde demais para superar Bolsonaro. Considero um erro histórico o PT não ter lançado Haddad à Presidência mais cedo.
Hoje, quatro anos depois, Lula lidera as pesquisas outra vez. Para o petista, seria um sucesso enorme vencer nas urnas. E o Brasil veria algo inédito nas últimas décadas: depois de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff se reelegerem, Bolsonaro seria o primeiro presidente depois da redemocratização incapaz de aproveitar a caneta presidencial para garantir um segundo mandato.
Acontece que, como o governo Bolsonaro acaba de começar a pagar novos benefícios sociais – que incluem o Auxilio Brasil no valor de R$ 600, vale-gás e ajuda financeira para caminhoneiros e taxistas –, ainda é cedo para ver os efeitos disso. Mas me parece óbvio que a grande vantagem de Lula, de entre 12 e 20 pontos percentuais, dependendo da pesquisa, deve cair nas próximas semanas devido aos pagamentos feitos a milhões de famílias de baixa renda. Também deve beneficiar Bolsonaro a melhora de indicadores econômicos como prévia do PIB e desemprego, em meio a uma redução da inflação e – muito importante – do preço da gasolina.
Nesta terça, Bolsonaro lançará sua campanha oficial à reeleição (a não oficial já está em curso desde que ele assumiu a Presidência, em janeiro de 2019) em Juiz de Fora, no mesmo local onde foi esfaqueado em setembro de 2018. Faz parte da aposta "mística" do mito: no local onde Deus o salvou da morte, se dará inicio ao segundo milagre: o de vencer Lula. É o começo da tal "guerra do bem contra o mal" anunciada pelo presidente.
As bases para essa encenação já foram estabelecidas com os discursos religiosos da primeira-dama Michelle Bolsonaro nas últimas semanas. Ela ressuscitou uma antiga fala de Bolsonaro: ele não seria o mais capacitado para ser presidente, mas Deus capacita os escolhidos. Quer dizer, Jair Messias foi a escolha de Deus para liderar a nação brasileira, mesmo não sendo a melhor opção para tal tarefa.
As falas fraquinhas do presidente contrastam com os discursos poderosos de sua esposa. Por que Deus não escolheu logo de cara Michelle como presidente, só Ele deve saber.
Lembro-me daquele dia 15 de agosto de 2018, quando milhares de pessoas acompanharam o registro oficial da candidatura de Lula. O petista liderava as pesquisas com cerca de 40% das intenções de voto. Mas estava preso em Curitiba. Lembro-me de Fernando Haddad, o vice, passando pela multidão e entrando pelo portão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília. Todo mundo dizia que Haddad assumiria a chapa se o TSE rejeitasse a candidatura de Lula. E realmente, Haddad acabou assumindo "no lugar de Lula". Mas era tarde demais para superar Bolsonaro. Considero um erro histórico o PT não ter lançado Haddad à Presidência mais cedo.
Hoje, quatro anos depois, Lula lidera as pesquisas outra vez. Para o petista, seria um sucesso enorme vencer nas urnas. E o Brasil veria algo inédito nas últimas décadas: depois de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff se reelegerem, Bolsonaro seria o primeiro presidente depois da redemocratização incapaz de aproveitar a caneta presidencial para garantir um segundo mandato.
Acontece que, como o governo Bolsonaro acaba de começar a pagar novos benefícios sociais – que incluem o Auxilio Brasil no valor de R$ 600, vale-gás e ajuda financeira para caminhoneiros e taxistas –, ainda é cedo para ver os efeitos disso. Mas me parece óbvio que a grande vantagem de Lula, de entre 12 e 20 pontos percentuais, dependendo da pesquisa, deve cair nas próximas semanas devido aos pagamentos feitos a milhões de famílias de baixa renda. Também deve beneficiar Bolsonaro a melhora de indicadores econômicos como prévia do PIB e desemprego, em meio a uma redução da inflação e – muito importante – do preço da gasolina.
Nesta terça, Bolsonaro lançará sua campanha oficial à reeleição (a não oficial já está em curso desde que ele assumiu a Presidência, em janeiro de 2019) em Juiz de Fora, no mesmo local onde foi esfaqueado em setembro de 2018. Faz parte da aposta "mística" do mito: no local onde Deus o salvou da morte, se dará inicio ao segundo milagre: o de vencer Lula. É o começo da tal "guerra do bem contra o mal" anunciada pelo presidente.
As bases para essa encenação já foram estabelecidas com os discursos religiosos da primeira-dama Michelle Bolsonaro nas últimas semanas. Ela ressuscitou uma antiga fala de Bolsonaro: ele não seria o mais capacitado para ser presidente, mas Deus capacita os escolhidos. Quer dizer, Jair Messias foi a escolha de Deus para liderar a nação brasileira, mesmo não sendo a melhor opção para tal tarefa.
As falas fraquinhas do presidente contrastam com os discursos poderosos de sua esposa. Por que Deus não escolheu logo de cara Michelle como presidente, só Ele deve saber.
quarta-feira, 17 de agosto de 2022
Bolsonaro reescreve a história da ditadura
Cascudo é uma pancada dada na cabeça com os nós dos dedos. Quando menino, levei alguns aplicados pela tia Iracema, que se socorria deles para pôr um pouco de ordem entre seus 13 filhos.
Em entrevista ao canal do Youtube Cara a Tapa, Bolsonaro citou “cascudo, tapa ou afogamento” como “coisas erradas” que aconteceram durante os 21 anos da ditadura militar de 64.
Ignorou torturas, mortes e desaparecimentos. Verdade que o afogamento era uma técnica de tortura que consistia em mergulhar um preso num tonel de água até que ele se dispusesse a falar.
Mas não a qualificou de tortura, nem mesmo uma tortura branda. Não era branda. Era violenta como qualquer outro tipo de tortura. Como introduzir um rato vivo na vagina de uma presa. Aconteceu.
Os militares usaram o inexistente “perigo do comunismo” para suprimir a democracia. E da tortura para defender a democracia que simplesmente deixou de existir por um ato de força deles.
A Justiça Militar recebebeu 6.016 denúncias de tortura. Estimativas feitas depois apontam para 20 mil casos. Presos foram espancados, estrangulados e submetidos a choques elétricos.
O relatório final da Comissão Nacional da Verdade, cujos trabalhos foram concluídos em 2014, identificou 434 mortes e desaparecimentos de vítimas do regime militar.
Testemunha do acidente da princesa Diana expõe só agora o que viu naquela noite
Bolsonaro já disse que o número de mortes deveria ter sido muito maior. A seu gosto, pelo menos umas 30 mil. E que seu ídolo foi o coronel Brilhante Ulstra, o único torturador condenado.
Na entrevista, contou que chegou à Câmara dos Deputados em 1991 e que havia por lá “um montão” de beneficiados pela lei da anistia. Descreveu-os assim para negar as torturas da ditadura:
“Apareceram os torturados com a pele mais lisa que a branca de neve. Uns diziam: ‘Ah, me quebraram os ossos todos’. Tira Raio-X do cara e vê se tem algum calo ósseo.”
A ex-presidente Dilma Rousseff foi presa pela ditadura. Ao dar seu voto no processo de impeachment para cassá-la, Bolsonaro exaltou Brilhante Ulstra que havia mandado torturá-la.
É esse sujeito que se diz cristão? Que foi se batizar nas águas do rio Jordão, em Israel, por um pastor evangélico que depois seria preso por corrupção? Que à caça de votos vai a passeatas por Jesus?
Diante da enxurrada de manifestos em defesa da democracia, ele negou que esteja se movimentando para dar um golpe:
“Alguém já viu eu me movimentando com generais por aí, conspirando?”
Evidente que sim. No momento, ele e seus generais tentam desacreditar as urnas eletrônicas e o sistema de apuração de votos para não reconhecer uma eventual derrota em outubro.
Ele ainda convocou o público a ir para o ato de 7 de setembro, mais um ensaio para o golpe:
“Vamos todos, no dia 7 de setembro, estar presentes em Copacabana, onde vamos dar um grito muito forte dizendo a quem pertence a nossa nação e o que nós queremos”.
A nação pertence a todos os brasileiros. Ao jurar a Constituição em sua cerimônia de posse, Bolsonaro afirmou que governaria para todos os brasileiros, não só para os que o elegeram.
Em entrevista ao canal do Youtube Cara a Tapa, Bolsonaro citou “cascudo, tapa ou afogamento” como “coisas erradas” que aconteceram durante os 21 anos da ditadura militar de 64.
Ignorou torturas, mortes e desaparecimentos. Verdade que o afogamento era uma técnica de tortura que consistia em mergulhar um preso num tonel de água até que ele se dispusesse a falar.
Mas não a qualificou de tortura, nem mesmo uma tortura branda. Não era branda. Era violenta como qualquer outro tipo de tortura. Como introduzir um rato vivo na vagina de uma presa. Aconteceu.
Os militares usaram o inexistente “perigo do comunismo” para suprimir a democracia. E da tortura para defender a democracia que simplesmente deixou de existir por um ato de força deles.
A Justiça Militar recebebeu 6.016 denúncias de tortura. Estimativas feitas depois apontam para 20 mil casos. Presos foram espancados, estrangulados e submetidos a choques elétricos.
O relatório final da Comissão Nacional da Verdade, cujos trabalhos foram concluídos em 2014, identificou 434 mortes e desaparecimentos de vítimas do regime militar.
Testemunha do acidente da princesa Diana expõe só agora o que viu naquela noite
Bolsonaro já disse que o número de mortes deveria ter sido muito maior. A seu gosto, pelo menos umas 30 mil. E que seu ídolo foi o coronel Brilhante Ulstra, o único torturador condenado.
Na entrevista, contou que chegou à Câmara dos Deputados em 1991 e que havia por lá “um montão” de beneficiados pela lei da anistia. Descreveu-os assim para negar as torturas da ditadura:
“Apareceram os torturados com a pele mais lisa que a branca de neve. Uns diziam: ‘Ah, me quebraram os ossos todos’. Tira Raio-X do cara e vê se tem algum calo ósseo.”
A ex-presidente Dilma Rousseff foi presa pela ditadura. Ao dar seu voto no processo de impeachment para cassá-la, Bolsonaro exaltou Brilhante Ulstra que havia mandado torturá-la.
É esse sujeito que se diz cristão? Que foi se batizar nas águas do rio Jordão, em Israel, por um pastor evangélico que depois seria preso por corrupção? Que à caça de votos vai a passeatas por Jesus?
Diante da enxurrada de manifestos em defesa da democracia, ele negou que esteja se movimentando para dar um golpe:
“Alguém já viu eu me movimentando com generais por aí, conspirando?”
Evidente que sim. No momento, ele e seus generais tentam desacreditar as urnas eletrônicas e o sistema de apuração de votos para não reconhecer uma eventual derrota em outubro.
Ele ainda convocou o público a ir para o ato de 7 de setembro, mais um ensaio para o golpe:
“Vamos todos, no dia 7 de setembro, estar presentes em Copacabana, onde vamos dar um grito muito forte dizendo a quem pertence a nossa nação e o que nós queremos”.
A nação pertence a todos os brasileiros. Ao jurar a Constituição em sua cerimônia de posse, Bolsonaro afirmou que governaria para todos os brasileiros, não só para os que o elegeram.
O caráter à flor da pele
Mais em opiniões populares do que em textos, há algum consenso quanto à correspondência entre traços faciais de figuras do poder e caráter aberto ao desvario e à corrupção. Diz-se que as inclinações morais lhes transparecem nos rostos, ou, numa expressão corriqueira, que "estão na cara". Mas já houve para isso uma designação culta: fisiognomonia.
Trata-se nada mais nada menos de "leitura facial", ou seja, a hipótese, aceita no passado por muita gente sisuda, de que na estrutura corporal do indivíduo haveria legíveis marcas psicológicas e morais. Imperadores de antigas dinastias chinesas levavam tão a sério a leitura desses sinais que por eles escolhiam seus ministros.
O fenômeno chegou à modernidade. Shakespeare faz Lady MacBeth dizer ao marido: "Teu rosto, meu nobre, é um livro em que os homens podem ler coisas". O que se lia? "Falso, sangrento, enganador, luxurioso." A literatura romanesca é pródiga nas descrições em que as distintas partes corporais revelam características de comportamento, e não apenas visuais, mas táteis: até o medo exalaria um odor específico.
Em outros tempos de estudos jurídicos, ainda circulavam as ideias oitocentistas de Cesare Lombroso, para quem zigomas acentuados, bossas cranianas e maxilares protuberantes indicavam tendências criminosas.
A fisiognomonia sempre foi a ciência prática de caricaturistas. Agora ela tem chance de uma insólita reentrada na cena pública brasileira, em meio à crise ético-política que turva a legitimidade do poder.
Sumindo a credibilidade dos aparatos de Estado, vazam fisicamente os traços de caráter dos dirigentes.
A afecção visual pode ser tão concreta quanto a mental. Um traidor e golpista, agente das sombras, é figurado como vampiro, algo a se temer. Um delirante predador parlamentar, como ratazana voraz. Quando se põe lenha na fogueira do autocratismo, a contrapartida da imaginação coletiva é a representação por arquétipos críticos da encarnação do poder.
Livre para interpretar, o povo "lê", sentindo. Foi assim que um John Kennedy jovial, queimado de sol e maquiado venceu no famoso debate televisivo um Richard Nixon suado e sombrio (26/6/1960). Houve quem achasse melhor a fala de Nixon, mas a cara de Kennedy, imbatível, deu início à era da telegenia.
Entre nós, é hoje notável a força negativa do flagrante defeito: no dirigente que mente contra todas as evidências, o arquétipo da cara de pau despudorada traduz a falha moral. A troca da palavra pelo palavrão, do sorriso pelo deboche, se distorce à flor da pele como, no mamulengo nordestino, os nervos do mau-caráter se mostram à flor do pano. Isso marca ponto no placar de jogo do povo, no qual a fisiognomonia também chuta em gol.
Mentiu porque não o fez. Mente de novo porque não o fará se reeleito.
terça-feira, 16 de agosto de 2022
Dois caminhos errados
As eleições que se aproximam estão sendo movidas quase que exclusivamente pelas paixões políticas, não deixando lugar sequer para um mínimo de competição entre ideias ou projetos. Estes parecem não fazer falta para animar as campanhas ou convencer os eleitores. É o verde contra o vermelho e não é preciso mais nada. As pessoas se reúnem em torno destes símbolos, sem se perguntar muito o seu alcance e o seu significado. Há quem diga, e não sem razão, que muitas vezes ser verde é mais odiar o vermelho do que amar o próprio verde. E vice-versa. No final será uma eleição , como disse alguém, em que a maioria vai votar contra e só uma minoria vai votar a favor.
Uma nação não se sustenta com esses sentimentos puramente negativos. Se continuar assim o país estará se encaminhando para uma encruzilhada existencial. Há dias David Brooks, um excelente colunista do New York Times, discorrendo sobre a complexidade do mundo contemporâneo, concluiu que o principal problema de qualquer sociedade é a ordem : a ordem moral, a legal e a social. Quando falta ordem as sociedades não tem como evoluir, e na verdade retrocedem. Eu acrescento que a ordem que faz evoluir uma sociedade é a ordem cuja fonte é o consentimento coletivo e não a que é imposta verticalmente por meio da autoridade e da força. O Brasil corre hoje o risco de tornar-se um conjunto social incapaz de produzir consensos por meio do compromisso político, uma vasta arena em que reinará apenas a obsessão de vencer, de destruir e de eliminar.
Se é verdade que este clima de paixão e de antagonismo reflete uma realidade mais profunda, que está encarnada no tecido social, os dois candidatos que disputam de fato a eleição, porque concentram a maioria do apoio popular, não tem feito nada para amenizar os conflitos e prometer algum tipo de pacificação no futuro.
A campanha do Presidente Bolsonaro optou por ocupar a agenda política com temas da religião, da moral e da cultura, questões que não se prestam à soluções próprias da política, constituidas pela negociação e pelo compromisso, em que cada lado cede uma parte para se chegar a um denominador comum. Estas questões são de caráter absoluto, dividem as pessoas de modo duradouro e não tem solução por meio da razão. Divisões religiosas e culturais tem sido a maldição de alguns povos, separando irmãos e até derramando sangue inocente. A história nos livrou por séculos desta maldição e cabe agora a nós impedir que ela venha se instalar entre nós.
Do outro lado do campo político, a candidatura do ex-presidente Lula tem como meta principal reconstituir o passado, prometendo voltar aos tempos idílicos dos governos do PT, revogando as mudanças legais implantadas após a interrupção do governo Dilma. A interpretação dos fatos sociais e econômicos está sempre exposta à controvérsias, mas é impossível negar que de 2014 a 2016 o Brasil viveu um verdadeiro desastre, com a maior recessão acumulada de nossa história, com o descontrole da inflação e um grave desarranjo fiscal, tudo isto claramente provocado por erros do governo. O governo Temer foi um periodo de reconstrução do Estado e das empresas públicas e de reformas importantes, cujos efeitos são inequívocamente positivos. Revogar o que foi feito não é um programa para o futuro, mas um movimento francamente reacionário.
De um lado e de outro da luta política não se nota qualquer preocupação com as duas questões essenciais : como voltar a crescer a economia à taxas suficientes para diminuir a pobreza e melhorar o padrão de vida da maioria dos brasileiros e como preparar o país para aproveitar as novas mudanças geopolíticas que estão em marcha e que abrem inesperadamente oportunidades para a reindustrialização do Brasil e sua inserção mais profunda na economia do Ocidente.
Enquanto as oportunidades passam, o debate político pobre e míope impede nosso país de aproveitá-las. Isto nos lembra com tristeza o vaticínio do velho Roberto Campos: o Brasil não perde a oportunidade de perder uma oportunidade.
Uma nação não se sustenta com esses sentimentos puramente negativos. Se continuar assim o país estará se encaminhando para uma encruzilhada existencial. Há dias David Brooks, um excelente colunista do New York Times, discorrendo sobre a complexidade do mundo contemporâneo, concluiu que o principal problema de qualquer sociedade é a ordem : a ordem moral, a legal e a social. Quando falta ordem as sociedades não tem como evoluir, e na verdade retrocedem. Eu acrescento que a ordem que faz evoluir uma sociedade é a ordem cuja fonte é o consentimento coletivo e não a que é imposta verticalmente por meio da autoridade e da força. O Brasil corre hoje o risco de tornar-se um conjunto social incapaz de produzir consensos por meio do compromisso político, uma vasta arena em que reinará apenas a obsessão de vencer, de destruir e de eliminar.
Se é verdade que este clima de paixão e de antagonismo reflete uma realidade mais profunda, que está encarnada no tecido social, os dois candidatos que disputam de fato a eleição, porque concentram a maioria do apoio popular, não tem feito nada para amenizar os conflitos e prometer algum tipo de pacificação no futuro.
A campanha do Presidente Bolsonaro optou por ocupar a agenda política com temas da religião, da moral e da cultura, questões que não se prestam à soluções próprias da política, constituidas pela negociação e pelo compromisso, em que cada lado cede uma parte para se chegar a um denominador comum. Estas questões são de caráter absoluto, dividem as pessoas de modo duradouro e não tem solução por meio da razão. Divisões religiosas e culturais tem sido a maldição de alguns povos, separando irmãos e até derramando sangue inocente. A história nos livrou por séculos desta maldição e cabe agora a nós impedir que ela venha se instalar entre nós.
Do outro lado do campo político, a candidatura do ex-presidente Lula tem como meta principal reconstituir o passado, prometendo voltar aos tempos idílicos dos governos do PT, revogando as mudanças legais implantadas após a interrupção do governo Dilma. A interpretação dos fatos sociais e econômicos está sempre exposta à controvérsias, mas é impossível negar que de 2014 a 2016 o Brasil viveu um verdadeiro desastre, com a maior recessão acumulada de nossa história, com o descontrole da inflação e um grave desarranjo fiscal, tudo isto claramente provocado por erros do governo. O governo Temer foi um periodo de reconstrução do Estado e das empresas públicas e de reformas importantes, cujos efeitos são inequívocamente positivos. Revogar o que foi feito não é um programa para o futuro, mas um movimento francamente reacionário.
De um lado e de outro da luta política não se nota qualquer preocupação com as duas questões essenciais : como voltar a crescer a economia à taxas suficientes para diminuir a pobreza e melhorar o padrão de vida da maioria dos brasileiros e como preparar o país para aproveitar as novas mudanças geopolíticas que estão em marcha e que abrem inesperadamente oportunidades para a reindustrialização do Brasil e sua inserção mais profunda na economia do Ocidente.
Enquanto as oportunidades passam, o debate político pobre e míope impede nosso país de aproveitá-las. Isto nos lembra com tristeza o vaticínio do velho Roberto Campos: o Brasil não perde a oportunidade de perder uma oportunidade.
O demônio da fé dos outros
Como Jair Bolsonaro deve estar informado, sua mulher é ainda mais sem noção do que ele. Com poucas palavras, ela desmontou a fantasia de que o Brasil seja um país tolerante com a diversidade religiosa. “Isso pode, né? Falar de Deus, não”, comentou Michelle no post de uma vereadora dizendo que Lula “entregou a alma para vencer a eleição” e mostrando um vídeo dele na cerimônia de purificação da Irmandade da Boa Morte e Glória, em Cachoeira, na Bahia. O ataque não é contra Lula, o anátema de seu bendito consorte. Lula é um detalhe, porque o sujeito oculto é a religião afro.
Antes perseguida pelas autoridades da Colônia e do Império, pela polícia da República Velha, também pelas forças repressoras de Getúlio, as religiões afro só encontraram compreensão (eufemismo, é claro) em meados do século passado. Se deixaram de ser violentadas pela polícia, ao menos na aparência legal, tornaram-se alvo preferencial desde a ascensão de algumas correntes evangélicas. Mais do que religioso, é ideológico. A cerimônia da Irmandade baiana ocorre há 200 anos.
Como Michelle sabe, num único exemplo, o lendário terreiro Casa Branca, da nação nagô, é reconhecido como patrimônio cultural brasileiro desde 1984. O templo de Guilherme de Pádua, frequentado por ela, não recebeu tamanha honraria.
Michelle, porém, está incorporada a um quadro maior. Melhor: em que momento nasce a crença e se inicia a busca pelo voto?
Vale a pena buscar indícios.
Se Bolsonaro se configurar apenas como um pesadelo de inverno, ao olharmos para este período, certos fatos não deverão ser negados em seu crédito, qual seja, desmentir alguns mitos: 1) o Brasil ser uma terra cordata; 2) racialmente democrática; 3) fraternal com todos os credos; e 4) não existir racismo.
Desde sempre — só alguns empresários não sabiam —, Bolsonaro tratou de escandir seus preconceitos contra os gays, as mulheres e a vida alheia. Se defendeu o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, a guerra civil como método político de extermínio dos adversários e a sanguinária ditadura militar brasileira, mesmo sendo “liberdade de expressão”, perpetrou na prática a liberação geral das armas.
— Quero todo mundo armado — já esperneou sua principal política pública.
Como se por acaso o Brasil já não trouxesse a manchete anual sobre homicídios por armas de fogo, cujos principais alvos são os jovens negros. Eis uma política pública. Em pouco mais de três anos, Bolsonaro distribuiu sua parlapatia léxica num exercício diário de deseducação de civilidade. Foi útil. Ajudou o Brasil a deixar de ignorar que, atrás de sua retórica, escondem-se milhões de cidadãos prontos a tuitar preconceitos medievais como se fossem ventríloquos. Até que sua política pública passou a mostrar resultados práticos, com assassinatos a sangue-frio até na plateia de espetáculos musicais.
A linguagem, como Bolsonaro cansou de estudar em vários livros, é uma arma branca capaz de induzir ao amor — ou ao ódio. Não tenho visto muito amor vindo dele ou de seus ventríloquos, como as incendiárias Damares Alves, Carla Zambelli — e agora, Michelle Bolsonaro. A questão: será que atrás de um grande homem sem noção existe uma grande mulher ainda mais sem noção?
Ao mirar o candomblé, Michelle explicitou a perseguição empreendida por certos cultos evangélicos contra as religiões de matriz afro no Brasil. Realçou a intolerância de sua representação diante da diversidade religiosa. Basta uma busca casual pela internet e surgirão centenas de casos de ataques a terreiros e a seus praticantes.
O preconceito da primeira-dama só estimula maior violência contra religiões afro, como o candomblé. Damares e Michelle — são tão parecidas, meu Deus — falam em inferno (não é o preço do tomate) e em luta contra contra o mal (não é a gestão de Pazuello), mas atiçam o povo armado contra seus desafetos religiosos.
É ideológico. E nem é original em seu preconceito. Para fugir dos maus-tratos, os negros escravizados se aproximaram das igrejas e criaram várias irmandades. Como proteção, também, para não ser surrados por chicotadas, aceitavam ser batizados. Para o sincretismo, apenas um passo. Foi um artifício de sobrevivência física e cultural.
Na década de 1940, a antropóloga Ruth Landes — judia, branca e de olhos claros — escreveu o belíssimo e revelador “Cidade das mulheres”. Ciceroneada por Edison Carneiro, percorreu os terreiros de Salvador para construir uma obra precursora que identificava o predomínio das mulheres como mães de santo, quase um matriarcado, a inexistência na religião de preconceito de gênero e nenhum problema com a prática sexual.
Não à toa, Michelles e Damares daquele tempo (sou capaz de imaginar a razão) também espalhavam mentiras diversas, incomodadas com tanta liberdade, ausência de culpa e o dionisíaco sabor pela vida frugal, dedicada de fato ao outro, sem pedir dízimo em troca.
Para combater um tipo de religião tão livre e alegre — seria inveja? —, buscam até hoje, agora com ajuda do aparato presidencial, colocar os seus demônios na fé dos outros.
Antes perseguida pelas autoridades da Colônia e do Império, pela polícia da República Velha, também pelas forças repressoras de Getúlio, as religiões afro só encontraram compreensão (eufemismo, é claro) em meados do século passado. Se deixaram de ser violentadas pela polícia, ao menos na aparência legal, tornaram-se alvo preferencial desde a ascensão de algumas correntes evangélicas. Mais do que religioso, é ideológico. A cerimônia da Irmandade baiana ocorre há 200 anos.
Como Michelle sabe, num único exemplo, o lendário terreiro Casa Branca, da nação nagô, é reconhecido como patrimônio cultural brasileiro desde 1984. O templo de Guilherme de Pádua, frequentado por ela, não recebeu tamanha honraria.
Michelle, porém, está incorporada a um quadro maior. Melhor: em que momento nasce a crença e se inicia a busca pelo voto?
Vale a pena buscar indícios.
Se Bolsonaro se configurar apenas como um pesadelo de inverno, ao olharmos para este período, certos fatos não deverão ser negados em seu crédito, qual seja, desmentir alguns mitos: 1) o Brasil ser uma terra cordata; 2) racialmente democrática; 3) fraternal com todos os credos; e 4) não existir racismo.
Desde sempre — só alguns empresários não sabiam —, Bolsonaro tratou de escandir seus preconceitos contra os gays, as mulheres e a vida alheia. Se defendeu o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, a guerra civil como método político de extermínio dos adversários e a sanguinária ditadura militar brasileira, mesmo sendo “liberdade de expressão”, perpetrou na prática a liberação geral das armas.
— Quero todo mundo armado — já esperneou sua principal política pública.
Como se por acaso o Brasil já não trouxesse a manchete anual sobre homicídios por armas de fogo, cujos principais alvos são os jovens negros. Eis uma política pública. Em pouco mais de três anos, Bolsonaro distribuiu sua parlapatia léxica num exercício diário de deseducação de civilidade. Foi útil. Ajudou o Brasil a deixar de ignorar que, atrás de sua retórica, escondem-se milhões de cidadãos prontos a tuitar preconceitos medievais como se fossem ventríloquos. Até que sua política pública passou a mostrar resultados práticos, com assassinatos a sangue-frio até na plateia de espetáculos musicais.
A linguagem, como Bolsonaro cansou de estudar em vários livros, é uma arma branca capaz de induzir ao amor — ou ao ódio. Não tenho visto muito amor vindo dele ou de seus ventríloquos, como as incendiárias Damares Alves, Carla Zambelli — e agora, Michelle Bolsonaro. A questão: será que atrás de um grande homem sem noção existe uma grande mulher ainda mais sem noção?
Ao mirar o candomblé, Michelle explicitou a perseguição empreendida por certos cultos evangélicos contra as religiões de matriz afro no Brasil. Realçou a intolerância de sua representação diante da diversidade religiosa. Basta uma busca casual pela internet e surgirão centenas de casos de ataques a terreiros e a seus praticantes.
O preconceito da primeira-dama só estimula maior violência contra religiões afro, como o candomblé. Damares e Michelle — são tão parecidas, meu Deus — falam em inferno (não é o preço do tomate) e em luta contra contra o mal (não é a gestão de Pazuello), mas atiçam o povo armado contra seus desafetos religiosos.
É ideológico. E nem é original em seu preconceito. Para fugir dos maus-tratos, os negros escravizados se aproximaram das igrejas e criaram várias irmandades. Como proteção, também, para não ser surrados por chicotadas, aceitavam ser batizados. Para o sincretismo, apenas um passo. Foi um artifício de sobrevivência física e cultural.
Na década de 1940, a antropóloga Ruth Landes — judia, branca e de olhos claros — escreveu o belíssimo e revelador “Cidade das mulheres”. Ciceroneada por Edison Carneiro, percorreu os terreiros de Salvador para construir uma obra precursora que identificava o predomínio das mulheres como mães de santo, quase um matriarcado, a inexistência na religião de preconceito de gênero e nenhum problema com a prática sexual.
Não à toa, Michelles e Damares daquele tempo (sou capaz de imaginar a razão) também espalhavam mentiras diversas, incomodadas com tanta liberdade, ausência de culpa e o dionisíaco sabor pela vida frugal, dedicada de fato ao outro, sem pedir dízimo em troca.
Para combater um tipo de religião tão livre e alegre — seria inveja? —, buscam até hoje, agora com ajuda do aparato presidencial, colocar os seus demônios na fé dos outros.
O Brasil voltará a ser o país do futuro?
No final de 2012 cheguei ao Brasil como correspondente. Queria escrever sobre a nação que então era considerada a mais empolgante do mundo. O Brasil era o "país do futuro", que finalmente florescia para se tornar uma potência política e econômica.
Um país que mostraria ao mundo como pessoas de cores e origens culturais diferentes podem conviver de forma criativa e produtiva. Um país que finalmente aproveitaria seu gigante potencial para gerar prosperidade para todos.
Eu estava enganado. Os últimos dez anos foram anos perdidos. O Brasil tem o estranho hábito de andar em círculos e sempre voltar para o começo. Neste país, as questões mais fundamentais sempre têm que ser negociadas novamente.
Para mim pessoalmente não foram anos perdidos. Pode soar cínico, mas jornalistas vivem de notícias ruins, violência, catástrofes, injustiças e desenvolvimentos negativos. E o Brasil teve mais do que o suficiente disso para oferecer.
Começou em 2013, quando um incêndio na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, matou 242 pessoas e feriu outras 636. A tragédia foi a segunda maior do Brasil em número de vítimas em um incêndio. Foi um alerta para o que estava por vir nos anos seguintes.
Depois de uma década de crescimento econômico, o Brasil começou a mergulhar numa crise. Em meados de 2013, milhões saíram às ruas, a maioria jovens. Eles exigiam um Brasil diferente, mas democrático e mais justo: com melhor educação, serviços de saúde, segurança e transporte público e sem corrupção. Mas os protestos foram criminalizados, a Polícia Militar reagiu com violência, e a mídia transmitiu a falsa impressão de que o radical Black Bloc deu o tom para as manifestações.
Naquele momento havia uma chance de mudanças, de um diálogo social. Ela foi desperdiçada.
Daí veio a Copa do Mundo, com suas muitas promessas quebradas e obras de estádios superfaturadas. Para o Brasil, a Copa acabou com o 7 a 1 contra a Alemanha, que pareceu simbolizar o estado da nação.
No mesmo ano, Dilma Rousseff foi reeleita por margem estreita. A profunda divisão da sociedade brasileira ficava evidente. A direita começou uma campanha contra Dilma e o PT, e, como resultado, milhões voltaram às ruas – desta vez não para protestar por um país mais justo, mas pelo impeachment da presidente democraticamente eleita. O que começou como algo progressista em 2013 acabou se transformando em algo reacionário em 2015.
As investigações da Lava Jato começaram no início de 2014 e trouxeram à tona um dos maiores escândalos de corrupção da América Latina. Uma grande parte da classe política e da elite econômica do país estava envolvida, e semana após semana novas revelações chocavam o país. Junto com a crise política e econômica, o sentimento de uma crise moral profunda se espalhava.
Em novembro de 2015, uma barragem de rejeitos de mineração se rompeu em Mariana, Minas Gerais. O desastre matou 18 pessoas e contaminou o rio Doce. E muitos se perguntaram se outras barragens da indústria mineradora brasileira eram seguras.
O ano de 2016 foi marcado pelo processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Como nenhum envolvimento da presidente no escândalo da Lava Jato pôde ser comprovado, foram construídas acusações que em circunstâncias normais não teriam levado à destituição.
Nos bastidores, também se tratava de parar as investigações da Lava Jato, que Dilma tinha deixado correr livremente. Os investigadores chegaram perto de figuras poderosas do Centrão – formado por partidos do suposto centro político, mas que na verdade existe para garantir a certos clãs o acesso ao poder e a verbas estatais. "Estancar a sangria" foi a expressão que o senador do então PMDB Romero Jucá usou no contexto do impeachment de Dilma. Após a destituição da presidente, Michel Temer, desse PMDB, assumiu o poder e nomeou um gabinete formado exclusivamente por homens brancos.
O Centrão e a Globo, que havia feito alarde pelo impeachment, calculavam que nas eleições presidenciais seguintes um candidato adepto do liberalismo econômico sairia vencedor. Raramente uma estratégia deu tão errado.
Bolsonaro e a política da desconstrução
Em 2017, a política de pacificação das favelas cariocas fracassou de vez. E ficou a fatal impressão de que ela só foi desenhada para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, ou seja, de que foi "para inglês ver".
Em setembro de 2018, o Museu Nacional no Rio de Janeiro foi palco de um incêndio. O fogo foi provocado por um velho ar-condicionado, não havia proteção contra incêndio no edifício e os hidrantes ao redor não tinham água. O Brasil viu a própria história queimar. O incêndio foi como um símbolo da eleição do outsider e extremista de direita Jair Bolsonaro para a Presidência no mês seguinte. Pouco depois de tomar posse, Bolsonaro disse, durante uma visita a Washington, que o sentido de seu governo não era construir coisas, mas desconstruir.
Bolsonaro cortou verbas para a educação, a saúde e a preservação ambiental. Um resultado: a Amazônia queimou em proporções devastadoras em 2019. A catástrofe chamou a atenção mundo afora quando uma nuvem de cinzas escureceu o céu sobre São Paulo. Desde então, a cada ano mais floresta é desmatada para dar lugar a pastagens de gado de plantações de soja, e os rios da Amazônia são contaminados com mais mercúrio do garimpo ilegal. E o governo Bolsonaro estende sua mão protetora sobre os que se beneficiam da destruição.
Em janeiro de 2019, quase quatro anos depois do desastre de Mariana, se rompeu uma barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho, Minas Gerias. No total, 270 pessoas foram soterradas, entre elas duas grávidas. A mina em questão pertencia à Vale, gigante do setor. Os responsáveis sabiam dos riscos, mas não agiram para economizar custos.
No início de 2020, a pandemia de covid-19 chegou ao Brasil. Quase 700 mil pessoas morreram da doença desde então. Poderiam ter sido muito menos, se o governo Bolsonaro não tivesse sabotado os esforços de autoridades locais para conter a pandemia. O governo federal demorou, por exemplo, a comprar vacinas. Durante a pandemia, a pobreza voltou a aumentar drasticamente, e milhões de brasileiros só conseguiram sobreviver graças a doações de cestas básicas. Ficou claro mais uma vez quão precária é a situação de grande parte da população do Brasil, um país que na verdade é tão rico.
A seca persistente desde 2018 no Pantanal, um dos cinco grandes ecossistemas do Brasil e internacionalmente famoso por sua diversidade de espécies, levou a incêndios devastadores em 2020. Quase 17 milhões de animais vertebrados morreram. Até hoje chove pouco na região alagada, uma consequência da mudança climática e do desmatamento na Bacia Amazônica.
Em 2021, a favela do Jacarezinho foi palco da ação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. Vinte e oito pessoas foram mortas a tiros, algumas executadas. O massacre foi tematizado brevemente na mídia, para logo cair novamente no esquecimento. Desde que vivo no Brasil, chacinas assim se repetem. Mas nada muda.
Em 2022, a fome voltou com tudo no Brasil, segundo as Nações Unidas. São 61 milhões de brasileiros que enfrentam dificuldades para se alimentar; 15 milhões deles passam fome.
A poucas semanas das eleições, Bolsonaro, que está atrás nas pesquisas, voltou a afirmar que as urnas eletrônicas não são seguras, sem apresentar provas. Bolsonaro quer dizer que, se ele não ganhar, os militares terão que intervir. Pela primeira vez desde a redemocratização, há novamente o medo de um golpe.
O Brasil ficou extremamente polarizado nos últimos anos, uma fenda se abriu. Hoje são dizíveis coisas que antes não eram. Mentiras e xingamentos se tornaram algo normal. E muitas vezes acabam em violência. Também a fenda entre ricos e pobres voltou a se aprofundar. A destruição do meio ambiente aumentou, e, graças a Bolsonaro, a máfia ambiental está mais forte do que nunca. Milhões de brasileiros se armaram. As igrejas evangélicas são mais influentes do que nunca e propagam suas superstições junto com suas visões políticas ultraconservadoras.
Nas eleições de outubro também está em jogo se, após dez anos de crise que deixaram claros os déficits do país, o Brasil tem força para novamente se erguer. O país quer continuar caminhando para trás ou ousar dar um passo rumo ao futuro?
Um país que mostraria ao mundo como pessoas de cores e origens culturais diferentes podem conviver de forma criativa e produtiva. Um país que finalmente aproveitaria seu gigante potencial para gerar prosperidade para todos.
Eu estava enganado. Os últimos dez anos foram anos perdidos. O Brasil tem o estranho hábito de andar em círculos e sempre voltar para o começo. Neste país, as questões mais fundamentais sempre têm que ser negociadas novamente.
Para mim pessoalmente não foram anos perdidos. Pode soar cínico, mas jornalistas vivem de notícias ruins, violência, catástrofes, injustiças e desenvolvimentos negativos. E o Brasil teve mais do que o suficiente disso para oferecer.
Começou em 2013, quando um incêndio na boate Kiss, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, matou 242 pessoas e feriu outras 636. A tragédia foi a segunda maior do Brasil em número de vítimas em um incêndio. Foi um alerta para o que estava por vir nos anos seguintes.
Depois de uma década de crescimento econômico, o Brasil começou a mergulhar numa crise. Em meados de 2013, milhões saíram às ruas, a maioria jovens. Eles exigiam um Brasil diferente, mas democrático e mais justo: com melhor educação, serviços de saúde, segurança e transporte público e sem corrupção. Mas os protestos foram criminalizados, a Polícia Militar reagiu com violência, e a mídia transmitiu a falsa impressão de que o radical Black Bloc deu o tom para as manifestações.
Naquele momento havia uma chance de mudanças, de um diálogo social. Ela foi desperdiçada.
Daí veio a Copa do Mundo, com suas muitas promessas quebradas e obras de estádios superfaturadas. Para o Brasil, a Copa acabou com o 7 a 1 contra a Alemanha, que pareceu simbolizar o estado da nação.
No mesmo ano, Dilma Rousseff foi reeleita por margem estreita. A profunda divisão da sociedade brasileira ficava evidente. A direita começou uma campanha contra Dilma e o PT, e, como resultado, milhões voltaram às ruas – desta vez não para protestar por um país mais justo, mas pelo impeachment da presidente democraticamente eleita. O que começou como algo progressista em 2013 acabou se transformando em algo reacionário em 2015.
As investigações da Lava Jato começaram no início de 2014 e trouxeram à tona um dos maiores escândalos de corrupção da América Latina. Uma grande parte da classe política e da elite econômica do país estava envolvida, e semana após semana novas revelações chocavam o país. Junto com a crise política e econômica, o sentimento de uma crise moral profunda se espalhava.
Em novembro de 2015, uma barragem de rejeitos de mineração se rompeu em Mariana, Minas Gerais. O desastre matou 18 pessoas e contaminou o rio Doce. E muitos se perguntaram se outras barragens da indústria mineradora brasileira eram seguras.
O ano de 2016 foi marcado pelo processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Como nenhum envolvimento da presidente no escândalo da Lava Jato pôde ser comprovado, foram construídas acusações que em circunstâncias normais não teriam levado à destituição.
Nos bastidores, também se tratava de parar as investigações da Lava Jato, que Dilma tinha deixado correr livremente. Os investigadores chegaram perto de figuras poderosas do Centrão – formado por partidos do suposto centro político, mas que na verdade existe para garantir a certos clãs o acesso ao poder e a verbas estatais. "Estancar a sangria" foi a expressão que o senador do então PMDB Romero Jucá usou no contexto do impeachment de Dilma. Após a destituição da presidente, Michel Temer, desse PMDB, assumiu o poder e nomeou um gabinete formado exclusivamente por homens brancos.
O Centrão e a Globo, que havia feito alarde pelo impeachment, calculavam que nas eleições presidenciais seguintes um candidato adepto do liberalismo econômico sairia vencedor. Raramente uma estratégia deu tão errado.
Bolsonaro e a política da desconstrução
Em 2017, a política de pacificação das favelas cariocas fracassou de vez. E ficou a fatal impressão de que ela só foi desenhada para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, ou seja, de que foi "para inglês ver".
Em setembro de 2018, o Museu Nacional no Rio de Janeiro foi palco de um incêndio. O fogo foi provocado por um velho ar-condicionado, não havia proteção contra incêndio no edifício e os hidrantes ao redor não tinham água. O Brasil viu a própria história queimar. O incêndio foi como um símbolo da eleição do outsider e extremista de direita Jair Bolsonaro para a Presidência no mês seguinte. Pouco depois de tomar posse, Bolsonaro disse, durante uma visita a Washington, que o sentido de seu governo não era construir coisas, mas desconstruir.
Bolsonaro cortou verbas para a educação, a saúde e a preservação ambiental. Um resultado: a Amazônia queimou em proporções devastadoras em 2019. A catástrofe chamou a atenção mundo afora quando uma nuvem de cinzas escureceu o céu sobre São Paulo. Desde então, a cada ano mais floresta é desmatada para dar lugar a pastagens de gado de plantações de soja, e os rios da Amazônia são contaminados com mais mercúrio do garimpo ilegal. E o governo Bolsonaro estende sua mão protetora sobre os que se beneficiam da destruição.
Em janeiro de 2019, quase quatro anos depois do desastre de Mariana, se rompeu uma barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho, Minas Gerias. No total, 270 pessoas foram soterradas, entre elas duas grávidas. A mina em questão pertencia à Vale, gigante do setor. Os responsáveis sabiam dos riscos, mas não agiram para economizar custos.
No início de 2020, a pandemia de covid-19 chegou ao Brasil. Quase 700 mil pessoas morreram da doença desde então. Poderiam ter sido muito menos, se o governo Bolsonaro não tivesse sabotado os esforços de autoridades locais para conter a pandemia. O governo federal demorou, por exemplo, a comprar vacinas. Durante a pandemia, a pobreza voltou a aumentar drasticamente, e milhões de brasileiros só conseguiram sobreviver graças a doações de cestas básicas. Ficou claro mais uma vez quão precária é a situação de grande parte da população do Brasil, um país que na verdade é tão rico.
A seca persistente desde 2018 no Pantanal, um dos cinco grandes ecossistemas do Brasil e internacionalmente famoso por sua diversidade de espécies, levou a incêndios devastadores em 2020. Quase 17 milhões de animais vertebrados morreram. Até hoje chove pouco na região alagada, uma consequência da mudança climática e do desmatamento na Bacia Amazônica.
Em 2021, a favela do Jacarezinho foi palco da ação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. Vinte e oito pessoas foram mortas a tiros, algumas executadas. O massacre foi tematizado brevemente na mídia, para logo cair novamente no esquecimento. Desde que vivo no Brasil, chacinas assim se repetem. Mas nada muda.
Em 2022, a fome voltou com tudo no Brasil, segundo as Nações Unidas. São 61 milhões de brasileiros que enfrentam dificuldades para se alimentar; 15 milhões deles passam fome.
A poucas semanas das eleições, Bolsonaro, que está atrás nas pesquisas, voltou a afirmar que as urnas eletrônicas não são seguras, sem apresentar provas. Bolsonaro quer dizer que, se ele não ganhar, os militares terão que intervir. Pela primeira vez desde a redemocratização, há novamente o medo de um golpe.
O Brasil ficou extremamente polarizado nos últimos anos, uma fenda se abriu. Hoje são dizíveis coisas que antes não eram. Mentiras e xingamentos se tornaram algo normal. E muitas vezes acabam em violência. Também a fenda entre ricos e pobres voltou a se aprofundar. A destruição do meio ambiente aumentou, e, graças a Bolsonaro, a máfia ambiental está mais forte do que nunca. Milhões de brasileiros se armaram. As igrejas evangélicas são mais influentes do que nunca e propagam suas superstições junto com suas visões políticas ultraconservadoras.
Nas eleições de outubro também está em jogo se, após dez anos de crise que deixaram claros os déficits do país, o Brasil tem força para novamente se erguer. O país quer continuar caminhando para trás ou ousar dar um passo rumo ao futuro?
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