segunda-feira, 25 de julho de 2022
E aquela do Millôr?
Se o Brasil de hoje é isso que estamos vendo, não foi por falta de aviso. Millôr Fernandes (1923-2012) levou grande parte do século 20 nos avisando. Exemplos?
"Deus projetou o Brasil como uma sala de estar. Mas os proprietários preferiram usá-lo como depósito de lixo." "Deus é brasileiro. Mas, para defender o Brasil de tanta corrupção, só escalando Deus no gol." "A voz do povo é a voz de Deus. Mas Deus, sempre que fala, manda o povo calar a boca." "O Brasil é uma empresa unifamiliar." "Brasil, país do faturo." "Brasília é a prova de que os países também se suicidam."
"O cavalo foi um elefante projetado pelo Planalto. Na hora do acabamento, sumiram vinte por cento." "O dinheiro da corrupção compra até caráter sem jaça." "Nossos corruptos são tão incompetentes que só conseguem roubar do governo. Se fossem ladrões na iniciativa privada, morreriam de fome."
"Afinal, o que mais falta nesse Congresso? Quorum ou dequorum?" "No Congresso Nacional, uma mão suja a outra."
"Não há bem que sempre dure. Nem mar que nunca se acabe." "Bons tempos em que o faroeste era nos Estados Unidos!" "Racista é um cara que nunca mandou examinar sua árvore genealógica." "Conciliação vem de ‘cílios’. Conciliador é o cara que fecha os olhos. Não vê. Porque não quer ver." "Quem confunde liberdade de pensamento com liberdade é porque nunca pensou em nada."
"Só haverá democracia no dia em que tivermos voto a favor, voto contra e voto retroativo." "Aliás, por que não só o voto contra? O menos votado seria eleito." "O Brasil engoliu o gorila, mas deixou o rabo de fora." "Quando é que os milicos vão se convencer de que ‘civilização’ vem de civil?" "No Brasil, só há duas escolhas: desobediência civil ou obediência militar." "Uma maneira de acabar com as pretensões da caserna é pegar todos esses milicos metidos em política e convocá-los pro serviço militar obrigatório."
"Deus projetou o Brasil como uma sala de estar. Mas os proprietários preferiram usá-lo como depósito de lixo." "Deus é brasileiro. Mas, para defender o Brasil de tanta corrupção, só escalando Deus no gol." "A voz do povo é a voz de Deus. Mas Deus, sempre que fala, manda o povo calar a boca." "O Brasil é uma empresa unifamiliar." "Brasil, país do faturo." "Brasília é a prova de que os países também se suicidam."
"O cavalo foi um elefante projetado pelo Planalto. Na hora do acabamento, sumiram vinte por cento." "O dinheiro da corrupção compra até caráter sem jaça." "Nossos corruptos são tão incompetentes que só conseguem roubar do governo. Se fossem ladrões na iniciativa privada, morreriam de fome."
"Afinal, o que mais falta nesse Congresso? Quorum ou dequorum?" "No Congresso Nacional, uma mão suja a outra."
"Não há bem que sempre dure. Nem mar que nunca se acabe." "Bons tempos em que o faroeste era nos Estados Unidos!" "Racista é um cara que nunca mandou examinar sua árvore genealógica." "Conciliação vem de ‘cílios’. Conciliador é o cara que fecha os olhos. Não vê. Porque não quer ver." "Quem confunde liberdade de pensamento com liberdade é porque nunca pensou em nada."
"Só haverá democracia no dia em que tivermos voto a favor, voto contra e voto retroativo." "Aliás, por que não só o voto contra? O menos votado seria eleito." "O Brasil engoliu o gorila, mas deixou o rabo de fora." "Quando é que os milicos vão se convencer de que ‘civilização’ vem de civil?" "No Brasil, só há duas escolhas: desobediência civil ou obediência militar." "Uma maneira de acabar com as pretensões da caserna é pegar todos esses milicos metidos em política e convocá-los pro serviço militar obrigatório."
O saturado e o podre
Em entrevista bem ponderada, um pastor evangélico fez raro diagnóstico de "apodrecimento da política e da religião". Há, de fato, um momento em que toda forma de poder, benigna ou maligna, começa a definhar. Para o primeiro tipo, o sociólogo russo Pitirim Sorokin, fundador do departamento de sociologia de Harvard, concebeu a hipótese da "saturação", ou seja, de esgotamento das possibilidades históricas de uma forma social. O segundo diz respeito às formas autocráticas, que atropelam a normalidade das instituições sociais.
É possível, assim, falar de saturação das formas canônicas da democracia representativa ou, noutro plano, de uma fórmula anteriormente consagrada da indústria cultural. A televisão e as revistas semanais coloridas fornecem um bom exemplo. Nas décadas de 1960 e 1970, as revistas prosperaram em termos de audiência e publicidade até a inevitável saturação frente aos atrativos da televisão que, por sua vez, também tenta hoje contornar com "remakes" de sucesso o enfartamento das telenovelas. Esse é um fenômeno razoavelmente normal, dentro do escopo teórico de Sorokin.
Agora, fala-se publicamente de algo além do mero saturado, que é o podre. A fala do pastor foi explícita, mas referências e adjetivos de formadores de opinião revelam ampla percepção do apodrecimento cognitivo nos comportamentos públicos, de que acaba de dar mostra à diplomacia estrangeira o presidente da República. Além disso, porém, é o próprio tecido coesivo de instituições, no âmbito da religião e da política. Basta ver a sanha autodestrutiva da elite política, que oscila entre o espúrio e o escatológico. Ou então, as "igrejas" que se multiplicam como vírus ou filiais de comércio umas das outras, amealhando o máximo da renda mínima de legiões de incautos. É como se houvesse septicemia da dignidade pessoal e coletiva.
Numa perspectiva global, isso tudo é efeito da exaustão de instituições democráticas, em meio ao turbilhão mundial de mudanças. São diversos, porém, os níveis regionais do fenômeno. O que dá margem à "teoria da flor frágil", a ideia do sociólogo Anthony Giddens de que a democracia não pode crescer em terreno superficial, pois suas raízes dependem de solo profundo e de acumulação de cultura cívica. Seria o tipo de crescimento que Gramsci identificou como "ocidentalização" da sociedade civil, do qual se viram entre nós alguns sinais com o fim da ditadura militar.
Só que a política já saturada foi incapaz de perceber outro tipo de sedimentação, a do Mal, solo da atual variante "transgênica" entre o perverso e o asqueroso. Assim chegamos ao auge: não só as coisas, mas também um certo substrato humano está indo pelo ralo, além da saturação e apodrecendo a inferno aberto, como esgoto não tratado.
É possível, assim, falar de saturação das formas canônicas da democracia representativa ou, noutro plano, de uma fórmula anteriormente consagrada da indústria cultural. A televisão e as revistas semanais coloridas fornecem um bom exemplo. Nas décadas de 1960 e 1970, as revistas prosperaram em termos de audiência e publicidade até a inevitável saturação frente aos atrativos da televisão que, por sua vez, também tenta hoje contornar com "remakes" de sucesso o enfartamento das telenovelas. Esse é um fenômeno razoavelmente normal, dentro do escopo teórico de Sorokin.
Agora, fala-se publicamente de algo além do mero saturado, que é o podre. A fala do pastor foi explícita, mas referências e adjetivos de formadores de opinião revelam ampla percepção do apodrecimento cognitivo nos comportamentos públicos, de que acaba de dar mostra à diplomacia estrangeira o presidente da República. Além disso, porém, é o próprio tecido coesivo de instituições, no âmbito da religião e da política. Basta ver a sanha autodestrutiva da elite política, que oscila entre o espúrio e o escatológico. Ou então, as "igrejas" que se multiplicam como vírus ou filiais de comércio umas das outras, amealhando o máximo da renda mínima de legiões de incautos. É como se houvesse septicemia da dignidade pessoal e coletiva.
Numa perspectiva global, isso tudo é efeito da exaustão de instituições democráticas, em meio ao turbilhão mundial de mudanças. São diversos, porém, os níveis regionais do fenômeno. O que dá margem à "teoria da flor frágil", a ideia do sociólogo Anthony Giddens de que a democracia não pode crescer em terreno superficial, pois suas raízes dependem de solo profundo e de acumulação de cultura cívica. Seria o tipo de crescimento que Gramsci identificou como "ocidentalização" da sociedade civil, do qual se viram entre nós alguns sinais com o fim da ditadura militar.
Só que a política já saturada foi incapaz de perceber outro tipo de sedimentação, a do Mal, solo da atual variante "transgênica" entre o perverso e o asqueroso. Assim chegamos ao auge: não só as coisas, mas também um certo substrato humano está indo pelo ralo, além da saturação e apodrecendo a inferno aberto, como esgoto não tratado.
Bolsonaro atende às demandas do crime organizado
O século XXI é um século de prestação de contas com a natureza. A humanidade sofre cada vez mais as consequências do aquecimento global causado pelos efeitos acumulados da atividade econômica que, há quase dois séculos, libera gases do efeito estufa à atmosfera.
No século XXI, toda política pública deve levar em conta o dilema climático. Esse problema exige uma nova consciência e uma nova postura dos seres humanos em relação à realidade e à natureza, desvinculada da lógica deletéria que nos trouxe até aqui. Mas uma nova consciência não parece emergir. Pelo contrário, num dos estágios mais críticos da humanidade, os políticos mais desqualificados ganham destaque e ascendem ao controle da máquina pública.Em um mundo minimamente decente e razoável, todo chefe de Estado deveria elaborar políticas ambientais que levem em conta o enfrentamento à emergência climática que assola a humanidade. Mas no capitalismo as coisas não funcionam assim. Ao invés da máquina pública ser administrada visando o bem coletivo, ela acaba sendo ocupada por interesses privados. A elite possui cabedal e fortuna o suficiente para utilizar seu dinheiro e poder econômico para se infiltrar na política em nome de seus interesses particulares.
Sabemos que, em nome das grandes propriedades de terras, a fronteira agrícola consome a vegetação nativa e instaura o pastoreio e a monocultura de soja. A exploração da Floresta Amazônica também conta com inúmeras mineradoras estrangeiras. Porém, no governo Bolsonaro a escala da destruição foi além. Os setores clandestinos da economia, como garimpeiros, grileiros e madeireiros, se sentiram empoderados e ganharam espaço com a conveniência do Estado que os livrou dos empecilhos causados pela fiscalização. Os incêndios aumentaram, o desmatamento acelerou e a violência se intensificou.
Bolsonaro opera na política sob uma visão de mundo em que o espaço físico e os recursos naturais devem ser explorados pelo agronegócio, pelas mineradoras e pelos setores clandestinos da economia. Ele contribui para a batalha deliberada contra o meio ambiente e o bem-estar coletivo, em nome da livre atividade do crime organizado.
A Floresta Amazônia, por exemplo, deve ser vista como fonte de muitas riquezas. Além de abrigar uma riqueza imaterial imensa, correspondente a uma variedade de espécies de plantas e animais – além de povos e comunidades tradicionais, sua transpiração e regime de chuvas irrigam a América Latina e impactam positivamente o clima em escala global. A vida que ali se ergue é um patrimônio imensurável, que pela própria grandeza tem o direito de permanecer onde está. Contudo, num país inserido de forma subalterna no mundo globalizado, cujo sistema econômico se configura para atender às demandas do mercado externo, toda riqueza natural é avaliada como um recurso a ser explorado para fazer dinheiro.
O assassinato de indígenas e outros defensores do meio ambiente ocorrem nesse contexto em que tudo é permitido em nome da exploração econômica da Floresta. O assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips é resultado de um projeto de governo, de uma situação elaborada pelo desmonte de políticas ambientais encabeçado pelo governo Bolsonaro. O próprio Bruno foi exonerado na Funai por Sergio Moro, depois de operações eficientes contra o garimpo.
Um governo que mina a eficiência do combate ao crime organizado é um governo que denuncia sua própria conveniência com ele. A impunidade e a falta de fiscalização decretada pelo governo empoderou os criminosos. O desmonte das políticas ambientais é a própria forma do governo declarar a permissividade às atividades clandestinas.
Não temos um Estado que se omite em relação à violência, ao crime organizado, à destruição da natureza, como muitos dizem. Na verdade, temos um Estado conveniente e apoiador desse tipo de crime, cujo próprio projeto de governo é facilitar a realização dessas atividades. A crise ambiental e humanitária enfrentada pelo Brasil conta com a colaboração ativa do governo.
A trajetória de uma geração : do golpe a um putsch de cervejaria
Violações das leis e crimes contra a ordem constitucional são cometidos às claras, diante de uma sociedade apática e desmobilizada. Seu objetivo é manter o poder presidencial a qualquer custo. Embora possa fracassar em seu intento terrorista, para ser barrado o bolsonarismo precisa ser confrontado por ações democráticas de mobilizações de massa
Os últimos lances da temerária e imprevisível derrocada do governo bolsonarista indicam que estamos mais próximos de presenciar imagens grotescas e chocantes de um fracassado putsch de cervejaria, à la Hitler, do que de um golpe militar tradicional, com tanques nas ruas e aviões despejando bombas em alvos estratégicos. A convocação de embaixadores para uma degradante encenação golpista dentro do Planalto, o atentado político de Foz do Iguaçu e descobertas de novas redes de corrupção já constituem crimes para o afastamento de Bolsonaro. Faltam convocar o povo para as ruas e uma reação soberana dos tribunais superiores, cujos juízes estão sendo emparedados.
Faço parte de uma geração que chegando aos 20 anos, ao entrar numa faculdade, teve seus caminhos barrados por uma ditadura intransponível. Enredados num ciclo de perseguição e violência, os jovens reagiram como puderam, até de armas na mão. Caçados e assassinados nas ruas, muitos foram presos, torturados, mortos ou exilados, tragados por uma sangrenta repressão interna. Em processos abertos pela Justiça militar, foram acusados de subversivos e comunistas, assaltantes de banco, inimigos das famílias e da ordem ditatorial estabelecida.
Para os crentes que marcham com Deus pela liberdade e ainda não sabem, num regime totalitário a barbárie corre solta, não há leis nem esperança. Conhecedora deste submundo, uma amiga me ligou no sábado de manhã, apreensiva, perguntando se eu estava preparado para voltar às trincheiras. Estão planejando uma nova matança, disse ela, incapaz de dissimular o medo. Não sei se procuro uma embaixada ou se caio na clandestinidade novamente, mas acho que estou velhinha demais para isso. Sei que não aguento duas ditaduras.
Usando seu senso de humor, Márcia lamentou que de uma hora para outra possa ser impedida de sair de manhã para dar uma volta de bicicleta no calçadão da praia. Ou simplesmente caminhar pela areia, fazer alguns exercícios e respirar ao ar livre, sem se sentir aprisionada entre quatro paredes, dentro de um quartel, com uma janela gradeada à sua frente e toque de alvorada às 5 horas. Isso jamais, enfatizou minha amiga.
O que os brasileiros estão presenciando a cada momento é um processo de destruição paulatina das instituições democráticas, substituídas por e atos e medidas de um governo autocrático e populista, que se movimenta com a cobertura de seus aliados do Centrão, no Parlamento, e de militares da ativa, encobertos. O incentivo à ação direta e violenta de civis contra os inimigos é algo que vem sendo feito desde o início do governo. Agora, com a proximidade e a provável derrota na eleição, ele apressou o passo e tirou o revólver da cintura.
Violações das leis e crimes contra a ordem constitucional são cometidos às claras, diante de uma sociedade apática e desmobilizada. Seu objetivo é manter o poder presidencial a qualquer custo. Embora possa fracassar em seu intento terrorista, para ser barrado o bolsonarismo precisa ser confrontado por ações democráticas de mobilizações de massa. Sem a intervenção popular nas ruas, as instituições não serão capazes de conter as ameaças golpistas contra o sistema eleitoral.
O futurou tornou-se tenebroso, diz minha amiga, que não vê margens para grandes manifestações de rua. Não vejo condições de repetir passeatas, como a dos 100 mil. O povo sofre, passa fome, mas não identifica os responsáveis. A inércia trazida pela pandemia é predominante, desejos e necessidades são de outra natureza. Márcia estudou História na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, onde fiz jornalismo.
No início dos anos 60, num clima de liberdade e de grande agitação política e cultural, a Fenefi desempenhou papel importante na formação de uma geração de esquerda que estava entrando na vida social e econômica. Pelo intercâmbio interdisciplinar de seus cursos, era considerada uma pequena universidade, de elevado potencial subversivo.
A agitação estudantil da década foi prenúncio de uma decantada e frustrada guerrilha urbana. As escaramuças entre estudantes e policiais militares eram diárias, com as ruas bloqueadas por barricadas e cavaletes. Transeuntes fugiam em debandada, enquanto os PMs montados em seus cavalos saíam em disparada atrás dos estudantes.
Com o golpe de 1964, um contingente desses jovens engajados dispersou-se pelas diversas organizações revolucionárias que estavam em gestação. Depois da diáspora, no final da década, os sobreviventes foram se reencontrar nas Estações Doicodi da ditadura, ou no exílio. Muitos ficaram pelo caminho. Seus nomes figuram nas listas de mortos e desaparecidos. Alguns deles nomeiam praças, ruas e até escolas nos subúrbios.
Um vasto e inapreensível sentimento do mundo varreu a década, que o acúmulo de leituras, filmes e vivências pessoais transformou em descobertas múltiplas. Utopia foi um de seus nomes. Vários foram os caminhos e a revolução social um deles, tudo impregnado de uma magia transcendente, que pairava acima da realidade.
Estávamos às vésperas do apocalipse, como estamos de novo agora, Em 64, veio o golpe militar que implantou uma longa ditadura. Em agosto ou setembro de 2022 o que vem por aí pode ser a tentativa de um putsch sangrento, no modelo Adolf Hitler. O da cervejaria de Munique, em 1923, fracassou.
Os últimos lances da temerária e imprevisível derrocada do governo bolsonarista indicam que estamos mais próximos de presenciar imagens grotescas e chocantes de um fracassado putsch de cervejaria, à la Hitler, do que de um golpe militar tradicional, com tanques nas ruas e aviões despejando bombas em alvos estratégicos. A convocação de embaixadores para uma degradante encenação golpista dentro do Planalto, o atentado político de Foz do Iguaçu e descobertas de novas redes de corrupção já constituem crimes para o afastamento de Bolsonaro. Faltam convocar o povo para as ruas e uma reação soberana dos tribunais superiores, cujos juízes estão sendo emparedados.
Faço parte de uma geração que chegando aos 20 anos, ao entrar numa faculdade, teve seus caminhos barrados por uma ditadura intransponível. Enredados num ciclo de perseguição e violência, os jovens reagiram como puderam, até de armas na mão. Caçados e assassinados nas ruas, muitos foram presos, torturados, mortos ou exilados, tragados por uma sangrenta repressão interna. Em processos abertos pela Justiça militar, foram acusados de subversivos e comunistas, assaltantes de banco, inimigos das famílias e da ordem ditatorial estabelecida.
Para os crentes que marcham com Deus pela liberdade e ainda não sabem, num regime totalitário a barbárie corre solta, não há leis nem esperança. Conhecedora deste submundo, uma amiga me ligou no sábado de manhã, apreensiva, perguntando se eu estava preparado para voltar às trincheiras. Estão planejando uma nova matança, disse ela, incapaz de dissimular o medo. Não sei se procuro uma embaixada ou se caio na clandestinidade novamente, mas acho que estou velhinha demais para isso. Sei que não aguento duas ditaduras.
Usando seu senso de humor, Márcia lamentou que de uma hora para outra possa ser impedida de sair de manhã para dar uma volta de bicicleta no calçadão da praia. Ou simplesmente caminhar pela areia, fazer alguns exercícios e respirar ao ar livre, sem se sentir aprisionada entre quatro paredes, dentro de um quartel, com uma janela gradeada à sua frente e toque de alvorada às 5 horas. Isso jamais, enfatizou minha amiga.
O que os brasileiros estão presenciando a cada momento é um processo de destruição paulatina das instituições democráticas, substituídas por e atos e medidas de um governo autocrático e populista, que se movimenta com a cobertura de seus aliados do Centrão, no Parlamento, e de militares da ativa, encobertos. O incentivo à ação direta e violenta de civis contra os inimigos é algo que vem sendo feito desde o início do governo. Agora, com a proximidade e a provável derrota na eleição, ele apressou o passo e tirou o revólver da cintura.
Violações das leis e crimes contra a ordem constitucional são cometidos às claras, diante de uma sociedade apática e desmobilizada. Seu objetivo é manter o poder presidencial a qualquer custo. Embora possa fracassar em seu intento terrorista, para ser barrado o bolsonarismo precisa ser confrontado por ações democráticas de mobilizações de massa. Sem a intervenção popular nas ruas, as instituições não serão capazes de conter as ameaças golpistas contra o sistema eleitoral.
O futurou tornou-se tenebroso, diz minha amiga, que não vê margens para grandes manifestações de rua. Não vejo condições de repetir passeatas, como a dos 100 mil. O povo sofre, passa fome, mas não identifica os responsáveis. A inércia trazida pela pandemia é predominante, desejos e necessidades são de outra natureza. Márcia estudou História na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, onde fiz jornalismo.
No início dos anos 60, num clima de liberdade e de grande agitação política e cultural, a Fenefi desempenhou papel importante na formação de uma geração de esquerda que estava entrando na vida social e econômica. Pelo intercâmbio interdisciplinar de seus cursos, era considerada uma pequena universidade, de elevado potencial subversivo.
A agitação estudantil da década foi prenúncio de uma decantada e frustrada guerrilha urbana. As escaramuças entre estudantes e policiais militares eram diárias, com as ruas bloqueadas por barricadas e cavaletes. Transeuntes fugiam em debandada, enquanto os PMs montados em seus cavalos saíam em disparada atrás dos estudantes.
Com o golpe de 1964, um contingente desses jovens engajados dispersou-se pelas diversas organizações revolucionárias que estavam em gestação. Depois da diáspora, no final da década, os sobreviventes foram se reencontrar nas Estações Doicodi da ditadura, ou no exílio. Muitos ficaram pelo caminho. Seus nomes figuram nas listas de mortos e desaparecidos. Alguns deles nomeiam praças, ruas e até escolas nos subúrbios.
Um vasto e inapreensível sentimento do mundo varreu a década, que o acúmulo de leituras, filmes e vivências pessoais transformou em descobertas múltiplas. Utopia foi um de seus nomes. Vários foram os caminhos e a revolução social um deles, tudo impregnado de uma magia transcendente, que pairava acima da realidade.
Estávamos às vésperas do apocalipse, como estamos de novo agora, Em 64, veio o golpe militar que implantou uma longa ditadura. Em agosto ou setembro de 2022 o que vem por aí pode ser a tentativa de um putsch sangrento, no modelo Adolf Hitler. O da cervejaria de Munique, em 1923, fracassou.
domingo, 24 de julho de 2022
É a vergonha, gente!
Quando se discutia qual tema justificaria o voto no candidato Bill Clinton, seu assessor e estrategista da campanha, James Carville ficou famoso por responder: “É a economia, idiota!”. Ele tinha razão. Este era o tema do momento para atrair os eleitores. Na nossa eleição, em 2022, há diversas razões para não se votar pela reeleição de Bolsonaro.
“A economia é uma delas, gente!”. Com uma inflação acima da meta, o o crescimento patinando, o desemprego elevado, não se vê perspectiva de um novo momento econômico para o país nos próximos anos, com a continuação do atual governo.
Pode ser também “a democracia, gente!”. O presidente jamais escondeu sua aversão ao regime democrático, seu respeito por ditadores e torturadores. Há meses vem anunciando que não reconhece as instituições e só acredita nas urnas se o resultado for a seu favor. A defesa da democracia é uma forte razão para não votar em Bolsonaro.
Ainda pode ser “a tragédia social, gente!”. Com 33 milhões de pessoas passando fome e quase 100 milhões com deficiência nutricional, a tragédia da educação se agravando, a pobreza se ampliando, seria um suicídio moral manter um presidente sem a menor empatia pelos pobres.
Também pode ser “o desencanto, gente!”, com um presidente sem liderança, nem competência para mobilizar a população. Podem ser também as “grosserias do presidente” contra mulheres, gays, índios, doentes. “A depredação da Amazônia, gente!” “É o genocídio, gente!” Seu negacionismo ao chamar a epidemia de “gripezinha”, desaconselhando a vacinação e tentando impedir seu uso, inclusive para crianças.
“São as armas, gente!” O crime antipatriótico de armar os brasileiros para que se assassinem, criando um clima de instabilidade que levaremos décadas para superar se ele não for reeleito. “É a corrupção, gente!”, no MEC, no MS, na Codevasf, nas compras no Exército. “É a blasfêmia, gente!” de se dizer cristão, como se Jesus fosse armamentista e de corromper pastores evangélicos com ouro.
Ou “É o futuro, gente!”, condenado pelo desprezo à ciência, tecnologia, meio ambiente.
São muitas razões para não votar neste presidente. Mas, de todas, a razão que parece fundamental “é a vergonha, gente!”. A vergonha que ele nos faz ao agredir pessoas, inclusive chefes de estado estrangeiros, grupos sociais, inclusive doentes com falta de ar por causa do covid, ao falar para embaixadores dizendo que nosso Brasil é uma republiqueta de banana. Vergonha dele ser a cara e o nome que representam o Brasil no mundo.
É possível que Bolsonaro fique na história como o pior presidente do Brasil, mas é certo que nenhum até hoje nos fez passar tanta vergonha no cenário mundial. Esta é a razão maior, no meio de tantas outras. “É a vergonha, gente!” Não dá para aguentar mais quatro anos com esta cara e este nome nos representando e falando por nós, no mundo.
“A economia é uma delas, gente!”. Com uma inflação acima da meta, o o crescimento patinando, o desemprego elevado, não se vê perspectiva de um novo momento econômico para o país nos próximos anos, com a continuação do atual governo.
Pode ser também “a democracia, gente!”. O presidente jamais escondeu sua aversão ao regime democrático, seu respeito por ditadores e torturadores. Há meses vem anunciando que não reconhece as instituições e só acredita nas urnas se o resultado for a seu favor. A defesa da democracia é uma forte razão para não votar em Bolsonaro.
Ainda pode ser “a tragédia social, gente!”. Com 33 milhões de pessoas passando fome e quase 100 milhões com deficiência nutricional, a tragédia da educação se agravando, a pobreza se ampliando, seria um suicídio moral manter um presidente sem a menor empatia pelos pobres.
Também pode ser “o desencanto, gente!”, com um presidente sem liderança, nem competência para mobilizar a população. Podem ser também as “grosserias do presidente” contra mulheres, gays, índios, doentes. “A depredação da Amazônia, gente!” “É o genocídio, gente!” Seu negacionismo ao chamar a epidemia de “gripezinha”, desaconselhando a vacinação e tentando impedir seu uso, inclusive para crianças.
“São as armas, gente!” O crime antipatriótico de armar os brasileiros para que se assassinem, criando um clima de instabilidade que levaremos décadas para superar se ele não for reeleito. “É a corrupção, gente!”, no MEC, no MS, na Codevasf, nas compras no Exército. “É a blasfêmia, gente!” de se dizer cristão, como se Jesus fosse armamentista e de corromper pastores evangélicos com ouro.
Ou “É o futuro, gente!”, condenado pelo desprezo à ciência, tecnologia, meio ambiente.
São muitas razões para não votar neste presidente. Mas, de todas, a razão que parece fundamental “é a vergonha, gente!”. A vergonha que ele nos faz ao agredir pessoas, inclusive chefes de estado estrangeiros, grupos sociais, inclusive doentes com falta de ar por causa do covid, ao falar para embaixadores dizendo que nosso Brasil é uma republiqueta de banana. Vergonha dele ser a cara e o nome que representam o Brasil no mundo.
É possível que Bolsonaro fique na história como o pior presidente do Brasil, mas é certo que nenhum até hoje nos fez passar tanta vergonha no cenário mundial. Esta é a razão maior, no meio de tantas outras. “É a vergonha, gente!” Não dá para aguentar mais quatro anos com esta cara e este nome nos representando e falando por nós, no mundo.
Dificuldade de governar
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
Bertolt Brecht
O Brasil voltou no tempo
Em 2015, o francês Michel Houellebecq escreveu um livro de ficção em que mostra como seria a França num futuro não muito distante em que a maioria dos eleitores fosse de origem muçulmana e elegesse um líder do seu grupo com muitas das crenças fundamentalistas de seus ancestrais do Oriente Médio. Seria um desastre, claro. O país descrito pelo escritor regrediu no tempo, sobretudo nas áreas de costumes e cultura em razão da nova ordem instalada. “Submissão”, considerado na França como o livro mais polêmico daquele ano, foi coincidentemente lançado em Paris no mesmo dia do atentado à sede do jornal satírico Charlie Hebdo, que resultou em 12 mortes.
Mas o islamismo francês proposto por Houellebecq não se parece em nada com o dos radicais do Estado Islâmico. A transformação da França se dá por dentro, aos poucos, até se consumar. Claro, como toda ficção, o livro não tenta descrever uma nova realidade, mas uma realidade possível, embora improvável. Ainda assim, não se pode negar que há uma lógica no romance. Segundo projeções oficiais, até 2040 a maioria dos eleitores da Bélgica será de origem muçulmana. Muito provavelmente, as cabeças dos jovens muçulmanos belgas de hoje que forem eleitores daqui a 18 anos serão mais arejadas e modernas do que as de seus pais e avós imigrantes, mas ainda assim estarão assentadas na tradição islâmica.
No Brasil de Bolsonaro não foram necessários imigrantes muçulmanos para fazer deste um país mais conservador do que era há quatro anos, do ponto de vista moral, cultural e político. O componente religioso sempre importa numa transformação dessa ordem, e não foi diferente aqui. A comunidade evangélica ajudou a consolidar este quadro de retrocesso no Brasil, mas não é a única responsável. Se fosse um romance, a História do Brasil desde a eleição de 2018 seria mais improvável do que aquela contada em “Submissão”. Mas, por aqui já se pode visualizar as mudanças comportamentais provocadas pelo bolsonarismo.
Para onde quer que se olhe é possível ver os sinais do retrocesso. De tal forma materializado, o recuo na educação e na cultura é quase palpável. Na educação, o Brasil deu um passo gigantesco para trás, não apenas no seu financiamento, mas também no seu método. A cultura no país sobrevive graças à sua pujança, mas a ausência da indução do Estado inviabiliza criações e inibe o surgimento de novos talentos nas favelas, nas periferias, no interior, além de solapar iniciativas que não tenham o selo do bolsonarismo. Os seguidos ataques e deboches perpetrados ao politicamente correto criaram uma casca em torno do tecido social que embrutece o brasileiro. Não é por outra razão que crescem no país os crimes de homofobia, misoginia e racismo.
Ainda mais grave é o consumo desenfreado de armas produzido por leis, portarias e decretos aprovados nos últimos três anos e meio. Estamos virando um novo EUA, não em razão da nossa potência, econômica, cultural, tecnológica e militar, obviamente não, que não a temos. Mas pelo uso indiscriminado de armas, pela facilidade na sua compra, pelo acesso praticamente ilimitado à munição. Pela proliferação de clubes de tiros, de falsos colecionadores e caçadores espalhados pelo país. A violência provocada pela intolerância política, que tem índices elevados no Brasil, tende a explodir na campanha deste ano diante do número de pessoas armadas do lado bolsonarista. Um assassinato já foi produzido em Foz do Iguaçu.
Em todos os aspectos, somos hoje um país muito mais atrasado do que éramos em 2018. Todo o declínio que vivemos nesses anos foi causado pelo homem instalado no Palácio do Planalto e sua política de confronto permanente com as instituições, o estado democrático de direito, os opositores políticos e o bem-estar comum. Mesmo diante desse quadro, que parece um retrato desfocado do livro de Michel Houellebecq, Bolsonaro tem ainda cerca de 30% dos votos, segundo as pesquisas eleitorais. Com mais quatro anos, o Brasil pode se tornar igual ao país imaginado pelo autor francês. Só que pior.
Mas o islamismo francês proposto por Houellebecq não se parece em nada com o dos radicais do Estado Islâmico. A transformação da França se dá por dentro, aos poucos, até se consumar. Claro, como toda ficção, o livro não tenta descrever uma nova realidade, mas uma realidade possível, embora improvável. Ainda assim, não se pode negar que há uma lógica no romance. Segundo projeções oficiais, até 2040 a maioria dos eleitores da Bélgica será de origem muçulmana. Muito provavelmente, as cabeças dos jovens muçulmanos belgas de hoje que forem eleitores daqui a 18 anos serão mais arejadas e modernas do que as de seus pais e avós imigrantes, mas ainda assim estarão assentadas na tradição islâmica.
No Brasil de Bolsonaro não foram necessários imigrantes muçulmanos para fazer deste um país mais conservador do que era há quatro anos, do ponto de vista moral, cultural e político. O componente religioso sempre importa numa transformação dessa ordem, e não foi diferente aqui. A comunidade evangélica ajudou a consolidar este quadro de retrocesso no Brasil, mas não é a única responsável. Se fosse um romance, a História do Brasil desde a eleição de 2018 seria mais improvável do que aquela contada em “Submissão”. Mas, por aqui já se pode visualizar as mudanças comportamentais provocadas pelo bolsonarismo.
Para onde quer que se olhe é possível ver os sinais do retrocesso. De tal forma materializado, o recuo na educação e na cultura é quase palpável. Na educação, o Brasil deu um passo gigantesco para trás, não apenas no seu financiamento, mas também no seu método. A cultura no país sobrevive graças à sua pujança, mas a ausência da indução do Estado inviabiliza criações e inibe o surgimento de novos talentos nas favelas, nas periferias, no interior, além de solapar iniciativas que não tenham o selo do bolsonarismo. Os seguidos ataques e deboches perpetrados ao politicamente correto criaram uma casca em torno do tecido social que embrutece o brasileiro. Não é por outra razão que crescem no país os crimes de homofobia, misoginia e racismo.
Ainda mais grave é o consumo desenfreado de armas produzido por leis, portarias e decretos aprovados nos últimos três anos e meio. Estamos virando um novo EUA, não em razão da nossa potência, econômica, cultural, tecnológica e militar, obviamente não, que não a temos. Mas pelo uso indiscriminado de armas, pela facilidade na sua compra, pelo acesso praticamente ilimitado à munição. Pela proliferação de clubes de tiros, de falsos colecionadores e caçadores espalhados pelo país. A violência provocada pela intolerância política, que tem índices elevados no Brasil, tende a explodir na campanha deste ano diante do número de pessoas armadas do lado bolsonarista. Um assassinato já foi produzido em Foz do Iguaçu.
Em todos os aspectos, somos hoje um país muito mais atrasado do que éramos em 2018. Todo o declínio que vivemos nesses anos foi causado pelo homem instalado no Palácio do Planalto e sua política de confronto permanente com as instituições, o estado democrático de direito, os opositores políticos e o bem-estar comum. Mesmo diante desse quadro, que parece um retrato desfocado do livro de Michel Houellebecq, Bolsonaro tem ainda cerca de 30% dos votos, segundo as pesquisas eleitorais. Com mais quatro anos, o Brasil pode se tornar igual ao país imaginado pelo autor francês. Só que pior.
Se derrotado, o destino de Bolsonaro é ficar falando sozinho
Foi para o lixo uma das recomendações feitas por assessores de Bolsonaro às vésperas do lançamento de sua candidatura à reeleição: nada de atacar as urnas eletrônicas no discurso a ser ouvido por um Maracanãzinho lotado; e nada de criticar ministros do Supremo Tribunal Federal ou do Tribunal Superior Eleitoral.
Mal desembarcou, ontem, no Rio, depois de mais uma Marcha com Jesus, desta vez em Vitória, no Espírito Santo, Bolsonaro não se conteve e foi logo dizendo o que deverá repetir hoje:
“Ninguém consegue entender o senhor Fachin não aceitar as sugestões das Forças Armadas, que foram convidadas a integrar uma comissão de transparência eleitoral. As Forças Armadas, que é minha, que é do povo brasileiro, não servirão de moldura para uma fotografia do TSE”.
Fachin é o ministro Edson, que em breve passará o cargo de presidente do Tribunal Superior Eleitoral ao colega Alexandre de Moraes. Os dois são os sacos de pancada preferidos de Bolsonaro, que já chamou Alexandre de “canalha”, e Fachin de comunista e advogado do Movimento dos Sem Terra, coisa que ele nunca foi.
“Eu estou pronto para conversar com ele, sem problema nenhum. Eles convidaram as Forças Armadas”, prosseguiu Bolsonaro. “É impressionante que a grande mídia não tenha mais a curiosidade investigativa. Tem um inquérito da PF desde 2018 com informações prestadas pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral”.
O tal inquérito é sobre a invasão por um hacker do sistema de computadores do tribunal. Isso em nada afetou os resultados das eleições daquele ano, uma vez que as urnas eletrônicas não são acessíveis pela internet. Bolsonaro sabe disso, mas não resiste a espalhar notícia falsa. Aposta na ignorância dos seus devotos.
“A eleição não é do TSE, não é do Supremo, não é do Executivo, nem do Legislativo, as eleições são do povo. E o povo quer ter certeza em quem ele votou”, completou. Mais de 70% dos eleitores dizem confiar nas urnas eletrônicas. Parte dos que não confiam dão ouvidos a Bolsonaro – entre eles, militares que o cercam.
Bolsonaro apela para a desordem no caso de não se reeleger. À falta de imaginação, copia o que fez Donald Trump ao ser derrotado por Joe Biden. O Centrão, que há quatro anos ele dizia abominar, hoje o apoia, e ele ao Centrão, mas não para melar as eleições. O Centrão não rasga dinheiro nem mandato.
Que políticos eleitos irão concordar com Bolsonaro se ele disser que perdeu por que as eleições foram fraudadas? Os votos para presidente, governador, senador, deputado são dados nas mesmas urnas e apurados da mesma maneira. Ou se anula a eleição para todos os cargos ou não se anula para nenhum.
Os políticos, depois de 2 de outubro, data do primeiro turno, deixarão Bolsonaro falando sozinho.
Mal desembarcou, ontem, no Rio, depois de mais uma Marcha com Jesus, desta vez em Vitória, no Espírito Santo, Bolsonaro não se conteve e foi logo dizendo o que deverá repetir hoje:
“Ninguém consegue entender o senhor Fachin não aceitar as sugestões das Forças Armadas, que foram convidadas a integrar uma comissão de transparência eleitoral. As Forças Armadas, que é minha, que é do povo brasileiro, não servirão de moldura para uma fotografia do TSE”.
Fachin é o ministro Edson, que em breve passará o cargo de presidente do Tribunal Superior Eleitoral ao colega Alexandre de Moraes. Os dois são os sacos de pancada preferidos de Bolsonaro, que já chamou Alexandre de “canalha”, e Fachin de comunista e advogado do Movimento dos Sem Terra, coisa que ele nunca foi.
“Eu estou pronto para conversar com ele, sem problema nenhum. Eles convidaram as Forças Armadas”, prosseguiu Bolsonaro. “É impressionante que a grande mídia não tenha mais a curiosidade investigativa. Tem um inquérito da PF desde 2018 com informações prestadas pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral”.
O tal inquérito é sobre a invasão por um hacker do sistema de computadores do tribunal. Isso em nada afetou os resultados das eleições daquele ano, uma vez que as urnas eletrônicas não são acessíveis pela internet. Bolsonaro sabe disso, mas não resiste a espalhar notícia falsa. Aposta na ignorância dos seus devotos.
“A eleição não é do TSE, não é do Supremo, não é do Executivo, nem do Legislativo, as eleições são do povo. E o povo quer ter certeza em quem ele votou”, completou. Mais de 70% dos eleitores dizem confiar nas urnas eletrônicas. Parte dos que não confiam dão ouvidos a Bolsonaro – entre eles, militares que o cercam.
Bolsonaro apela para a desordem no caso de não se reeleger. À falta de imaginação, copia o que fez Donald Trump ao ser derrotado por Joe Biden. O Centrão, que há quatro anos ele dizia abominar, hoje o apoia, e ele ao Centrão, mas não para melar as eleições. O Centrão não rasga dinheiro nem mandato.
Que políticos eleitos irão concordar com Bolsonaro se ele disser que perdeu por que as eleições foram fraudadas? Os votos para presidente, governador, senador, deputado são dados nas mesmas urnas e apurados da mesma maneira. Ou se anula a eleição para todos os cargos ou não se anula para nenhum.
Os políticos, depois de 2 de outubro, data do primeiro turno, deixarão Bolsonaro falando sozinho.
Como onda de saques por fome deu origem à milícia em município do RJ
Há 200 anos, o Brasil se tornava independente. Há 100, assistia à Semana de Arte Moderna. Mas um outro acontecimento histórico, menos conhecido, completa 60 anos em 2022.
Trata-se da maior onda de saques da história do país, que teve início em Duque de Caxias e se espalhou por toda a Baixada Fluminense.
Em meio à inflação, à fome e a uma greve geral, o quebra-quebra aos gritos de "Queremos comer" e "Saque" deixou ao menos 42 mortos, 700 feridos e mais de 2 mil estabelecimentos atingidos, muitos dos quais nunca se recuperaram.
'
"A respeito dos distúrbios, o então prefeito Adolfo David declararia ao Jornal do Brasil que tinha assistido a uma verdadeira batalha, onde mulheres, homens e crianças gritavam que preferiam morrer lutando, a morrer de fome", relatam Rogério Torres e Newton Menezes, no livro Sonegação, Fome, Saque (1987), que relata os acontecimentos de 5 de julho de 1962.
Em resposta ao episódio, comerciantes da Baixada Fluminense passaram a patrocinar grupos armados para proteger suas lojas. Segundo pesquisadores, os grupos conhecidos como Brigada de Defesa da Família Caxiense e Turma do Esculacho marcam a origem das milícias na região.
Em 2019, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro estimava que as milícias atuavam em 14 cidades do Estado do Rio e em 26 bairros da capital, com mais de 2 milhões de pessoas vivendo sob o jugo de paramilitares.
Em agosto de 1961, com apenas sete meses de mandato, Jânio Quadros renunciou à presidência da República em meio a uma crise política, numa tentativa de voltar nos braços do povo, com mais poderes. O tiro saiu pela culatra, e a renúncia foi prontamente aceita pelo Congresso.
O vice-presidente João Goulart estava na China, numa missão oficial armada por Jânio, e militares tentaram impedir a posse dele como presidente. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, liderou o movimento pela legalidade, conseguindo impedir o golpe.
Mas o Congresso apenas permitiu a posse de Jango, em setembro daquele ano, sob um regime parlamentarista, tendo Tancredo Neves como primeiro-ministro. Foi uma forma de limitar os poderes do político percebido pelos militares e setores da sociedade civil como "subversivo" e "comunista".
"João Goulart assume, mas a estrutura social, econômica e política do país estava numa crise profunda. O próprio Jango expressava todo um movimento crítico a essa realidade. Ele pregava grandes mudanças, com uma base política vinda do trabalhismo e com apoio de movimentos sociais e sindicais, que cresciam muito nessa época", lembra José Cláudio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ) e autor do livro Dos barões ao extermínio: Uma história de violência na Baixada Fluminense (2020), em entrevista à BBC News Brasil.
Naquele início dos anos 1960, uma série de fatores contribuíam para uma crise econômica profunda. Entre eles: um endividamento externo crescente, herdado das políticas desenvolvimentistas do governo Juscelino Kubitschek (1956-61); elevados déficits comerciais e redução da capacidade de importação do país; e um aumento da inflação que se agravava desde o final dos anos 1950.
Em 1960, a inflação acumulada foi de 25,4%; no ano seguinte, de 34,7%. Em 1962, o ano do grande saque, a alta de preços chegaria a 50,1% e a 78,4% em 1963.
"Há uma inflação galopante, um aumento acelerado de preços das mercadorias da cesta básica", afirma Marlúcia Santos de Souza, coordenadora geral no Centro de Referência Patrimonial e Histórico de Duque de Caxias (CRPH/DC).
"Começa então uma pressão dos movimentos feministas no Brasil inteiro, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro. Os movimentos de mulheres 'Panela Vazia', contra o custo de vida, contra a carestia vão pressionar o governo no sentido de controlar os preços dos alimentos."
Com preços tabelados pela Cofap (Comissão Federal de Abastecimento e Preços), comerciantes retiravam mercadoria das prateleiras, para vendê-las a preços mais altos no mercado paralelo.
"Faltava arroz, pão, feijão, enfim, raro foi o dia em que um ou mais produtos não entraram no 'index' dos sonegadores. Parecia que o país vivia em clima de racionamento de guerra. Como sempre, mais uma vez o governo Jango era responsabilizado pela carestia e pela falta de gêneros", escrevem Torres e Menezes.
Em meio à pressão crescente da sociedade civil, o primeiro-ministro Tancredo Neves renuncia e João Goulart indica San Tiago Dantas para substituí-lo. Dantas tinha o apoio da esquerda do Congresso e do movimento sindical, mas sua indicação foi vetada pelos setores conservadores.
Em resposta ao veto e à indicação para o cargo do conservador Auro de Moura Andrade, o movimento sindical convocou uma greve geral para o dia 5 de julho.
"Frente à fome e à crise econômica que se abatia sobre a Baixada e temerosos de perderem seus empregos, os trabalhadores saíam de madrugada dos bairros mais distantes de Duque de Caxias e se aglomeravam próximos à Praça do Pacificador, no centro do município", escreve José Cláudio Souza Alves, em seu livro, baseado em tese de doutorado defendida no Departamento de Sociologia da USP (Universidade de São Paulo).
Frustradas pela impossibilidade de chegar ao trabalho, cerca de 20 mil pessoas se concentravam nos arredores da praça por volta das 4h30 da manhã.
Foi quando correu a notícia de que, em uma casa comercial próxima, havia feijão, produto que naquele momento tinha praticamente sumido da mesa das famílias.
"Imediatamente após o saque da Casa da Banha, localizada na antiga estrada Rio-Petrópolis, quase ao lado da Galeria Baltazar, foi a vez dos demais estabelecimentos que estavam próximos: Armazém Dragão, Supermercado São Vicente, Mercadinho Nacional", relatam Torres e Menezes.
"A população carregava tudo que encontrava e, dos armazéns, passou aos açougues e padarias. Pelas ruas, homens, mulheres, crianças e velhos transportavam da maneira que podiam os mais diversos artigos: latas de biscoitos, sacos de arroz, feijão, mantas de carne-seca e até mesmo peças inteiras de carne", completam os autores.
Do centro de Caxias, a revolta se espalha por outros municípios da Baixada, como São João do Meriti e Nova Iguaçu. Ao meio-dia, praticamente todo o comércio de alimentos já havia sido saqueado, sendo poupados apenas estabelecimentos que estenderam na fachada a bandeira do Brasil, com faixas de apoio "à legalidade democrática".
Numa padaria na Av. Presidente Vargas, dezenas de pessoas que saíam com produtos saqueados foram atacadas por outras que esperavam do lado de fora.
O dono de uma loja de materiais de construção que, armado, tentou defender uma padaria vizinha, foi morto com um paralelepípedo. Um comerciante português atingiu um menor de idade ao atirar contra a multidão, sendo posteriormente linchado.
Após um jovem de 14 anos ser ferido durante tiroteio, o dono de uma boate foi atacado a pedradas e todos os móveis do estabelecimento empilhados na rua e incendiados.
"Nós ouvimos a quantidade de pessoas que vinham na frente, gritando 'Quebra! Quebra!', e os outros que vinham atrás já saqueando tudo, quebrando todas as portas", recordou a aposentada Maria Concebida, em entrevista sobre suas memórias daquele 5 de julho, ao documentário 1962: O Ano do Saque (2014), de Rodrigo Dutra e Victor Ferreira.
"Onde tivesse uma porta fechada que fosse de comércio, quebrava. E carregava de tudo. Então meu marido [falou]: 'Eu vou entrar, porque nós vamos passar fome'", contou Concebida.
"Nós levamos arroz, feijão e farinha. Era a única coisa mais fácil para carregar. Não roubava as coisas de dentro das casas, não. Era só alimento. No fim, os bebuns começaram a carregar as outras coisas: cachaça, bebida, tudo."
A greve geral e a onda de saques sem precedentes estamparam as capas e páginas internas de todos os jornais na sexta-feira, 6 de julho de 1962.
Sob a manchete "Explosão popular no Estado do Rio: 700 vítimas e dano de 1 bilhão", o Jornal do Brasil reportava: "O Palácio do Ingá [então sede do Governo Fluminense] informou ontem à noite que 42 pessoas morreram, e 700 foram feridas em quatro Municípios do Estado do Rio, onde a população se revoltou e, ganhando as ruas, invadiu um a um todos os armazéns, empórios e mercadinhos, num saque sistemático que causou prejuízos de Cr$ 1 bilhão [1 bilhão de cruzeiros]. (...) A manifestação foi a maior dessa espécie já verificada no País."
José Cláudio, da UFFRJ, conta que muitos estabelecimentos comerciais da Baixada nunca se recuperaram desse episódio.
Num relatório interno, a Associação Comercial e Industrial de Duque de Caxias concluiu que 30% dos comerciantes saqueados não se restabeleceram, 50% voltaram em condições precárias e apenas 20% retornaram em condições normais, cita o professor, em seu livro.
"Os processos de indenização eram complexos, pois eram necessárias regularizações e documentações para acessar. Então os comerciantes mais dinâmicos, mais organizados, mais poderosos conseguiram obter recursos volumosos e reestruturam seus mercados. É quando surgem supermercados como Sendas e Casa da Banha", diz Marlúcia, do CRPH/DC, sobre o processo de concentração do varejo em grandes redes, após a onda de depredação.
Outra consequência do levante popular de 5 de julho foi um reforço na segurança por parte dos comerciantes através de grupos armados.
"O delegado convocou voluntários para o policiamento da cidade. Estes, em grupo de 12, formariam a Brigada de Defesa da Família Caxiense. Surgia assim uma força paramilitar da qual faziam parte muitos jovens que pertenciam a famílias abastadas da cidade", escreve José Cláudio.
Eronides Batista, presidente da Associação Comercial, assim justificou a criação da milícia, em reportagem da revista Fatos & Fotos, de 21 de julho de 1962:
"Milícia é forma de expressão. Não há comando militar. Eles apenas procuram evitar novos saques e perturbações; e até hoje não houve incidentes entre eles e o povo. Nós não somos favoráveis, é evidente, à fome. Mas não somos responsáveis por ela", defendeu Batista.
O professor da UFFRJ avalia que essa milícia nascente é diferente por exemplo, do grupo de Tenório Cavalcanti, político de Caxias conhecido como o "Homem da Capa Preta", vestimenta que usava para esconder a submetralhadora que sempre carregava, chamada Lurdinha.
"Cavalcanti tinha um grupo de capangas, mas de âmbito privado, pessoal. O que acontece em 1962, que é a indicação de algo diferenciado, é a formação de grupos de vigilantes, homens que vão pegar em armas para proteger o comércio, muitos deles ligados à classe média, como a Turma do Esculacho", cita José Cláudio.
Ele destaca que muitos desses "playboys armados" se projetam politicamente a partir de sua ação nas milícias, caso, por exemplo de Hydekel de Freitas, genro de Tenório Cavalcanti, que depois se tornaria prefeito de Duque de Caxias e deputado federal.
"Surge daí a ideia da formação de uma estrutura de segurança contra uma ameaça que são os próprios populares da cidade, ao passarem necessidade e fome. É o embrião de uma estrutura apoiada pelo Estado, financiada pelos comerciantes e tendo por trás um apoio político que a mantém", diz o pesquisador, sobre os paralelos com a milícia atual.
Mas os resultados da greve geral não foram apenas negativos. Foi dessa mobilização da classe trabalhadora que nasceram conquistas como o 13º salário.
Para José Claudio, passados 60 anos, as desigualdades sociais do país se intensificaram, com um fator inédito: a pandemia, que penalizou mais as camadas vulneráveis. Ele cita ainda a volta da inflação e da fome, como elementos que permitem um paralelo entre agora e então.
"Mas, naquela época, havia um movimento popular e grupos sindicais muito fortes, que queriam modificações na sociedade. Esses grupos estavam se organizando e se movimentando. Hoje, não há um movimento forte por parte das camadas populares para sanar as desigualdades sociais e uma organização política desses grupos dentro do campo da esquerda", avalia o sociólogo.
"Ao contrário, há um crescimento de grupos de extrema direita. Movimentos que querem manter essa população controlada a partir de discursos conservadores, moralistas e que apoiam o extermínio, como 'bandido bom é bandido morto'."
Para José Cláudio Souza Alves, da UFFRJ, inflação e fome são pontos comuns entre 1962 e 2022, mas contexto político é bastante diferente
O pesquisador observa que as milícias e os grupos de extermínio se mantiveram ao longo da ditadura militar, aprofundando suas relações políticas, econômicas e territoriais.
"Eles começam a se eleger nos anos 1990, como vereadores, prefeitos e deputados estaduais nessa região da Baixada. Até que, a partir de meados dos anos 1990, as milícias vão se configurar como são hoje, uma estrutura mais ampla, com vários mercados de bens e serviços que eles vão monopolizar nas áreas que controlam", diz o professor.
"O poder desses grupos hoje é muito mais expressivo do que aquele grupo da Turma do Esculacho, que pegava em armas. Hoje já superamos isso em muito: são mais de 2 milhões de habitantes atingidos pela milícia somente no Rio de Janeiro, 14 municípios com presença maciça de milicianos, um território de 348 km quadrados onde eles estão atuando e, na cidade do Rio, 57% do território ocupado por grupos criminais está na mão de milícias. Então isso mudou muito e, a meu ver, piorou muito, daquele momento para o atual."
Trata-se da maior onda de saques da história do país, que teve início em Duque de Caxias e se espalhou por toda a Baixada Fluminense.
Em meio à inflação, à fome e a uma greve geral, o quebra-quebra aos gritos de "Queremos comer" e "Saque" deixou ao menos 42 mortos, 700 feridos e mais de 2 mil estabelecimentos atingidos, muitos dos quais nunca se recuperaram.
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"A respeito dos distúrbios, o então prefeito Adolfo David declararia ao Jornal do Brasil que tinha assistido a uma verdadeira batalha, onde mulheres, homens e crianças gritavam que preferiam morrer lutando, a morrer de fome", relatam Rogério Torres e Newton Menezes, no livro Sonegação, Fome, Saque (1987), que relata os acontecimentos de 5 de julho de 1962.
Em resposta ao episódio, comerciantes da Baixada Fluminense passaram a patrocinar grupos armados para proteger suas lojas. Segundo pesquisadores, os grupos conhecidos como Brigada de Defesa da Família Caxiense e Turma do Esculacho marcam a origem das milícias na região.
Em 2019, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro estimava que as milícias atuavam em 14 cidades do Estado do Rio e em 26 bairros da capital, com mais de 2 milhões de pessoas vivendo sob o jugo de paramilitares.
Em agosto de 1961, com apenas sete meses de mandato, Jânio Quadros renunciou à presidência da República em meio a uma crise política, numa tentativa de voltar nos braços do povo, com mais poderes. O tiro saiu pela culatra, e a renúncia foi prontamente aceita pelo Congresso.
O vice-presidente João Goulart estava na China, numa missão oficial armada por Jânio, e militares tentaram impedir a posse dele como presidente. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, liderou o movimento pela legalidade, conseguindo impedir o golpe.
Mas o Congresso apenas permitiu a posse de Jango, em setembro daquele ano, sob um regime parlamentarista, tendo Tancredo Neves como primeiro-ministro. Foi uma forma de limitar os poderes do político percebido pelos militares e setores da sociedade civil como "subversivo" e "comunista".
"João Goulart assume, mas a estrutura social, econômica e política do país estava numa crise profunda. O próprio Jango expressava todo um movimento crítico a essa realidade. Ele pregava grandes mudanças, com uma base política vinda do trabalhismo e com apoio de movimentos sociais e sindicais, que cresciam muito nessa época", lembra José Cláudio Souza Alves, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ) e autor do livro Dos barões ao extermínio: Uma história de violência na Baixada Fluminense (2020), em entrevista à BBC News Brasil.
Naquele início dos anos 1960, uma série de fatores contribuíam para uma crise econômica profunda. Entre eles: um endividamento externo crescente, herdado das políticas desenvolvimentistas do governo Juscelino Kubitschek (1956-61); elevados déficits comerciais e redução da capacidade de importação do país; e um aumento da inflação que se agravava desde o final dos anos 1950.
Em 1960, a inflação acumulada foi de 25,4%; no ano seguinte, de 34,7%. Em 1962, o ano do grande saque, a alta de preços chegaria a 50,1% e a 78,4% em 1963.
"Há uma inflação galopante, um aumento acelerado de preços das mercadorias da cesta básica", afirma Marlúcia Santos de Souza, coordenadora geral no Centro de Referência Patrimonial e Histórico de Duque de Caxias (CRPH/DC).
"Começa então uma pressão dos movimentos feministas no Brasil inteiro, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro. Os movimentos de mulheres 'Panela Vazia', contra o custo de vida, contra a carestia vão pressionar o governo no sentido de controlar os preços dos alimentos."
Com preços tabelados pela Cofap (Comissão Federal de Abastecimento e Preços), comerciantes retiravam mercadoria das prateleiras, para vendê-las a preços mais altos no mercado paralelo.
"Faltava arroz, pão, feijão, enfim, raro foi o dia em que um ou mais produtos não entraram no 'index' dos sonegadores. Parecia que o país vivia em clima de racionamento de guerra. Como sempre, mais uma vez o governo Jango era responsabilizado pela carestia e pela falta de gêneros", escrevem Torres e Menezes.
Em meio à pressão crescente da sociedade civil, o primeiro-ministro Tancredo Neves renuncia e João Goulart indica San Tiago Dantas para substituí-lo. Dantas tinha o apoio da esquerda do Congresso e do movimento sindical, mas sua indicação foi vetada pelos setores conservadores.
Em resposta ao veto e à indicação para o cargo do conservador Auro de Moura Andrade, o movimento sindical convocou uma greve geral para o dia 5 de julho.
"Frente à fome e à crise econômica que se abatia sobre a Baixada e temerosos de perderem seus empregos, os trabalhadores saíam de madrugada dos bairros mais distantes de Duque de Caxias e se aglomeravam próximos à Praça do Pacificador, no centro do município", escreve José Cláudio Souza Alves, em seu livro, baseado em tese de doutorado defendida no Departamento de Sociologia da USP (Universidade de São Paulo).
Frustradas pela impossibilidade de chegar ao trabalho, cerca de 20 mil pessoas se concentravam nos arredores da praça por volta das 4h30 da manhã.
Foi quando correu a notícia de que, em uma casa comercial próxima, havia feijão, produto que naquele momento tinha praticamente sumido da mesa das famílias.
"Imediatamente após o saque da Casa da Banha, localizada na antiga estrada Rio-Petrópolis, quase ao lado da Galeria Baltazar, foi a vez dos demais estabelecimentos que estavam próximos: Armazém Dragão, Supermercado São Vicente, Mercadinho Nacional", relatam Torres e Menezes.
"A população carregava tudo que encontrava e, dos armazéns, passou aos açougues e padarias. Pelas ruas, homens, mulheres, crianças e velhos transportavam da maneira que podiam os mais diversos artigos: latas de biscoitos, sacos de arroz, feijão, mantas de carne-seca e até mesmo peças inteiras de carne", completam os autores.
Do centro de Caxias, a revolta se espalha por outros municípios da Baixada, como São João do Meriti e Nova Iguaçu. Ao meio-dia, praticamente todo o comércio de alimentos já havia sido saqueado, sendo poupados apenas estabelecimentos que estenderam na fachada a bandeira do Brasil, com faixas de apoio "à legalidade democrática".
Numa padaria na Av. Presidente Vargas, dezenas de pessoas que saíam com produtos saqueados foram atacadas por outras que esperavam do lado de fora.
O dono de uma loja de materiais de construção que, armado, tentou defender uma padaria vizinha, foi morto com um paralelepípedo. Um comerciante português atingiu um menor de idade ao atirar contra a multidão, sendo posteriormente linchado.
Após um jovem de 14 anos ser ferido durante tiroteio, o dono de uma boate foi atacado a pedradas e todos os móveis do estabelecimento empilhados na rua e incendiados.
"Nós ouvimos a quantidade de pessoas que vinham na frente, gritando 'Quebra! Quebra!', e os outros que vinham atrás já saqueando tudo, quebrando todas as portas", recordou a aposentada Maria Concebida, em entrevista sobre suas memórias daquele 5 de julho, ao documentário 1962: O Ano do Saque (2014), de Rodrigo Dutra e Victor Ferreira.
"Onde tivesse uma porta fechada que fosse de comércio, quebrava. E carregava de tudo. Então meu marido [falou]: 'Eu vou entrar, porque nós vamos passar fome'", contou Concebida.
"Nós levamos arroz, feijão e farinha. Era a única coisa mais fácil para carregar. Não roubava as coisas de dentro das casas, não. Era só alimento. No fim, os bebuns começaram a carregar as outras coisas: cachaça, bebida, tudo."
A greve geral e a onda de saques sem precedentes estamparam as capas e páginas internas de todos os jornais na sexta-feira, 6 de julho de 1962.
Sob a manchete "Explosão popular no Estado do Rio: 700 vítimas e dano de 1 bilhão", o Jornal do Brasil reportava: "O Palácio do Ingá [então sede do Governo Fluminense] informou ontem à noite que 42 pessoas morreram, e 700 foram feridas em quatro Municípios do Estado do Rio, onde a população se revoltou e, ganhando as ruas, invadiu um a um todos os armazéns, empórios e mercadinhos, num saque sistemático que causou prejuízos de Cr$ 1 bilhão [1 bilhão de cruzeiros]. (...) A manifestação foi a maior dessa espécie já verificada no País."
José Cláudio, da UFFRJ, conta que muitos estabelecimentos comerciais da Baixada nunca se recuperaram desse episódio.
Num relatório interno, a Associação Comercial e Industrial de Duque de Caxias concluiu que 30% dos comerciantes saqueados não se restabeleceram, 50% voltaram em condições precárias e apenas 20% retornaram em condições normais, cita o professor, em seu livro.
"Os processos de indenização eram complexos, pois eram necessárias regularizações e documentações para acessar. Então os comerciantes mais dinâmicos, mais organizados, mais poderosos conseguiram obter recursos volumosos e reestruturam seus mercados. É quando surgem supermercados como Sendas e Casa da Banha", diz Marlúcia, do CRPH/DC, sobre o processo de concentração do varejo em grandes redes, após a onda de depredação.
Outra consequência do levante popular de 5 de julho foi um reforço na segurança por parte dos comerciantes através de grupos armados.
"O delegado convocou voluntários para o policiamento da cidade. Estes, em grupo de 12, formariam a Brigada de Defesa da Família Caxiense. Surgia assim uma força paramilitar da qual faziam parte muitos jovens que pertenciam a famílias abastadas da cidade", escreve José Cláudio.
Eronides Batista, presidente da Associação Comercial, assim justificou a criação da milícia, em reportagem da revista Fatos & Fotos, de 21 de julho de 1962:
"Milícia é forma de expressão. Não há comando militar. Eles apenas procuram evitar novos saques e perturbações; e até hoje não houve incidentes entre eles e o povo. Nós não somos favoráveis, é evidente, à fome. Mas não somos responsáveis por ela", defendeu Batista.
O professor da UFFRJ avalia que essa milícia nascente é diferente por exemplo, do grupo de Tenório Cavalcanti, político de Caxias conhecido como o "Homem da Capa Preta", vestimenta que usava para esconder a submetralhadora que sempre carregava, chamada Lurdinha.
"Cavalcanti tinha um grupo de capangas, mas de âmbito privado, pessoal. O que acontece em 1962, que é a indicação de algo diferenciado, é a formação de grupos de vigilantes, homens que vão pegar em armas para proteger o comércio, muitos deles ligados à classe média, como a Turma do Esculacho", cita José Cláudio.
Ele destaca que muitos desses "playboys armados" se projetam politicamente a partir de sua ação nas milícias, caso, por exemplo de Hydekel de Freitas, genro de Tenório Cavalcanti, que depois se tornaria prefeito de Duque de Caxias e deputado federal.
"Surge daí a ideia da formação de uma estrutura de segurança contra uma ameaça que são os próprios populares da cidade, ao passarem necessidade e fome. É o embrião de uma estrutura apoiada pelo Estado, financiada pelos comerciantes e tendo por trás um apoio político que a mantém", diz o pesquisador, sobre os paralelos com a milícia atual.
Mas os resultados da greve geral não foram apenas negativos. Foi dessa mobilização da classe trabalhadora que nasceram conquistas como o 13º salário.
Para José Claudio, passados 60 anos, as desigualdades sociais do país se intensificaram, com um fator inédito: a pandemia, que penalizou mais as camadas vulneráveis. Ele cita ainda a volta da inflação e da fome, como elementos que permitem um paralelo entre agora e então.
"Mas, naquela época, havia um movimento popular e grupos sindicais muito fortes, que queriam modificações na sociedade. Esses grupos estavam se organizando e se movimentando. Hoje, não há um movimento forte por parte das camadas populares para sanar as desigualdades sociais e uma organização política desses grupos dentro do campo da esquerda", avalia o sociólogo.
"Ao contrário, há um crescimento de grupos de extrema direita. Movimentos que querem manter essa população controlada a partir de discursos conservadores, moralistas e que apoiam o extermínio, como 'bandido bom é bandido morto'."
Para José Cláudio Souza Alves, da UFFRJ, inflação e fome são pontos comuns entre 1962 e 2022, mas contexto político é bastante diferente
O pesquisador observa que as milícias e os grupos de extermínio se mantiveram ao longo da ditadura militar, aprofundando suas relações políticas, econômicas e territoriais.
"Eles começam a se eleger nos anos 1990, como vereadores, prefeitos e deputados estaduais nessa região da Baixada. Até que, a partir de meados dos anos 1990, as milícias vão se configurar como são hoje, uma estrutura mais ampla, com vários mercados de bens e serviços que eles vão monopolizar nas áreas que controlam", diz o professor.
"O poder desses grupos hoje é muito mais expressivo do que aquele grupo da Turma do Esculacho, que pegava em armas. Hoje já superamos isso em muito: são mais de 2 milhões de habitantes atingidos pela milícia somente no Rio de Janeiro, 14 municípios com presença maciça de milicianos, um território de 348 km quadrados onde eles estão atuando e, na cidade do Rio, 57% do território ocupado por grupos criminais está na mão de milícias. Então isso mudou muito e, a meu ver, piorou muito, daquele momento para o atual."
sexta-feira, 22 de julho de 2022
Besta do Apocalipse
Você que se solidarize com essas pessoas, tá ok?Jair Bolsonaro se negou a prestar solidariedade às famílias dos 19 mortos na chacina policial no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro
Dar mais quatro anos de mandato a Bolsonaro para quê?
Você já se perguntou por que Bolsonaro quer mais quatro anos de mandato? Para fazer o quê, e por quem? Lembra-se se ele já disse por que quer mais quatro anos?
Não vale responder com o que você suponha que ele queira fazer, mas com o que ele tem dito ou já disse. Não vale citar frases vagas, do tipo fazer o país crescer e todos os brasileiros serem felizes.
Você pode não gostar de Lula, Ciro Gomes, Simone Tebet, mas faz ideia do que eles desejariam fazer se fossem eleitos. Lula, pelo que já fez em dois governos; Ciro e Simone pelo que prometem.
E Bolsonaro? Ao se eleger há quatro anos, ele dizia que, primeiro, era preciso “destruir o sistema” para depois reconstruí-lo. Nunca deixou claro o que era o “sistema”, nem o que poria no lugar dele.
Se por “sistema” entenda-se o modo como a economia era conduzida, nada mudou. As reformas que ele prometeu fazer não fez. A da Previdência foi deixada pronta por Michel Temer.
Se por “sistema” entenda-se o modo como a política em geral era conduzida antes dele, nada também mudou, a não ser para pior. Hoje, o Congresso dispõe do Orçamento Secreto, uma aberração.
Os militares, antes recolhidos aos quartéis, entraram no governo e voltaram a se meter com o que não deveriam. São mais de 6 mil. A democracia chega mais fraca e ameaçada ao cabo de quatro anos.
E a vida das pessoas melhorou? Como melhorou se a Educação foi desmontada, a Saúde também, a inflação cresceu, e 60 milhões de brasileiros acordam todos os dias sem saber o que vão comer?
Que novos programas sociais foram criados? Ou que programas sociais existentes foram ampliados ou reformados? Esmola para comprar a reeleição não é programa social, é só esmola.
Pense bem: mais quatro anos de Bolsonaro para quê? Para ele corrigir os erros que cometeu? Ou, por não reconhecer, cometer outros? Ou para tentar avançar na obra de destruição do país?
A reconstrução do “sistema” – quem sabe? – ficaria para um terceiro mandato, se não dele se a Constituição não fosse emendada, de um dos filhos ou de um seguidor fanático.
O Brasil, hoje, é menos ou mais respeitado pelos demais países? Seu presidente é menos ou mais ouvido pelos líderes mundiais? E suas sugestões são menos ou mais acatadas?
Em que parte do mundo um chefe de governo convoca embaixadores estrangeiros para dizer que o sistema eleitoral do seu país não é confiável? Um sistema pelo qual ele foi eleito?
Sem convocar embaixadores, Donald Trump foi além: recusou-se a aceitar a derrota e tentou dar um golpe, estimulando a invasão do Congresso. Bolsonaro é uma cópia mal feita de Trump.
Se isso nada disso envergonha você, é porque você sempre foi bolsonarista, e não sabia. E agora que sabe, não se incomoda. Passe bem enquanto puder.
Não vale responder com o que você suponha que ele queira fazer, mas com o que ele tem dito ou já disse. Não vale citar frases vagas, do tipo fazer o país crescer e todos os brasileiros serem felizes.
Você pode não gostar de Lula, Ciro Gomes, Simone Tebet, mas faz ideia do que eles desejariam fazer se fossem eleitos. Lula, pelo que já fez em dois governos; Ciro e Simone pelo que prometem.
E Bolsonaro? Ao se eleger há quatro anos, ele dizia que, primeiro, era preciso “destruir o sistema” para depois reconstruí-lo. Nunca deixou claro o que era o “sistema”, nem o que poria no lugar dele.
Se por “sistema” entenda-se o modo como a economia era conduzida, nada mudou. As reformas que ele prometeu fazer não fez. A da Previdência foi deixada pronta por Michel Temer.
Se por “sistema” entenda-se o modo como a política em geral era conduzida antes dele, nada também mudou, a não ser para pior. Hoje, o Congresso dispõe do Orçamento Secreto, uma aberração.
Os militares, antes recolhidos aos quartéis, entraram no governo e voltaram a se meter com o que não deveriam. São mais de 6 mil. A democracia chega mais fraca e ameaçada ao cabo de quatro anos.
E a vida das pessoas melhorou? Como melhorou se a Educação foi desmontada, a Saúde também, a inflação cresceu, e 60 milhões de brasileiros acordam todos os dias sem saber o que vão comer?
Que novos programas sociais foram criados? Ou que programas sociais existentes foram ampliados ou reformados? Esmola para comprar a reeleição não é programa social, é só esmola.
Pense bem: mais quatro anos de Bolsonaro para quê? Para ele corrigir os erros que cometeu? Ou, por não reconhecer, cometer outros? Ou para tentar avançar na obra de destruição do país?
A reconstrução do “sistema” – quem sabe? – ficaria para um terceiro mandato, se não dele se a Constituição não fosse emendada, de um dos filhos ou de um seguidor fanático.
O Brasil, hoje, é menos ou mais respeitado pelos demais países? Seu presidente é menos ou mais ouvido pelos líderes mundiais? E suas sugestões são menos ou mais acatadas?
Em que parte do mundo um chefe de governo convoca embaixadores estrangeiros para dizer que o sistema eleitoral do seu país não é confiável? Um sistema pelo qual ele foi eleito?
Sem convocar embaixadores, Donald Trump foi além: recusou-se a aceitar a derrota e tentou dar um golpe, estimulando a invasão do Congresso. Bolsonaro é uma cópia mal feita de Trump.
Se isso nada disso envergonha você, é porque você sempre foi bolsonarista, e não sabia. E agora que sabe, não se incomoda. Passe bem enquanto puder.
O sentido do bolsonarismo
O Brasil político tem perdido um tempo enorme com assuntos adjetivos da crise pela qual passa o país, tal o complexo cruzamento de realidades sociais e políticas desencontradas que ganharam corpo e visibilidade a partir do dia 1º de janeiro de 2019.
O bolsonarismo vitorioso é consequência do lento agrupamento da diversidade de anomalias e contradições que foram desdenhadas pelos partidos de motivação social. Tornou-se ele um aglomerado de resíduos antidemocráticos da democracia frágil, o negativo que encontrou sua lógica no conjunto de irracionalidades que deu vida à sua política do absurdo. Um sistema criado para assegurar o primado de uma política de crescimento econômico sem compromisso com o desenvolvimento social. Seu objetivo tem sido o de assegurar ganhos de Primeiro Mundo num país de Terceiro Mundo. A explosão da miséria, da fome, do desemprego detonaram esse modelo econômico.
Só lentamente tem conseguido o Brasil político definir como atuar, nas eleições e também depois delas, como uma frente democrática contra o autoritarismo e a herança maldita que dele ficará.
Temos tratado o bolsonarismo como assunto menor e não como gravíssima anomalia em nosso processo político. Referimo-nos aos bolsonaristas como caricaturas do que deveria ser o político e não como aquilo que são: caricaturas ativas que tiveram êxito na usurpação do poder e no desmonte das conquistas sociais.
Não cuidamos de decifrá-lo, conhecer-lhe a origem, os fatores, o enraizamento na sociedade, a ação corrosiva contra as estruturas frágeis da democracia, as alianças de interesses antissociais que neles se corporificam. O bolsonarismo não está sozinho na crise e na agonia. O sistema partidário também está.
As esquerdas, do mesmo modo, não estão a salvo. Os grupos e partidos políticos se determinam reciprocamente. Elas precisam retornar à dialética e rever-se criticamente para identificar quais são as contradições do momento histórico e a implícita práxis social do possível, transformadora.
O nosso grande desafio é o de assumir que o bolsonarismo, para ser superado, tem que ser estudado e conhecido como o que é, esdrúxulo objeto de conhecimento. A falta de seriedade do bolsonarismo tem que ser estudada a sério como problema, social e político, como eficaz máquina de limitação e empobrecimento da cidadania e de transformação do Brasil numa sociedade carneiril.
É ele expressão tardia e extemporânea de uma estratégia política que remonta ao período final da Segunda Guerra Mundial, quando já estava em andamento a Terceira Guerra. Uma estratégia que se tornará a da geopolítica do universo de poder em que estão inseridos países como o nosso. Não mais a do confronto de potências. Mas a do confronto do Estado repressivo e armado contra a sociedade, para tratá-la como inimigo interno porque abriga os que perfilham carências sociais e de expressão política que podem conduzi-la a uma coalizão possível de interesses e sujeitos capaz de mudar a vida e superar contradições.
O bolsonarismo revela nossa alienação política, nossa dificuldade para contrapor uma ação política consequente a políticos de anedota.
No bolsonarismo se reflete a alteração da realidade dos confrontos militares decorrente da explosão das bombas atômicas no Japão. Com ela a função dos militares encolheu. A definição de inimigo e o modo de combatê-lo é outra. O inimigo, praticamente no mundo todo, é hoje um inimigo inventado. E uma das funções dos militares na atualidade é a de inventá-lo ou a de supô-lo para combatê-lo. Os reais novos inimigos, por outro lado, como a produção e o tráfico de drogas, que aniquilam a vida de suas vítimas e nisso a sociedade inteira e o próprio capitalismo, vicejam porque as forças de segurança não os têm como centro de referência de sua formação.
No cumprimento de sua função de desmantelar a sociedade e disseminar a desordem permanente, o bolsonarismo é expressão de uma realidade política propositalmente criada com o objeto de instituir a insegurança, a incerteza e o medo como mediações permanentes da instabilidade política. E nesse sentido militarizar as instituições e a competência cidadã da sociedade.
É o que fragiliza a certeza necessária ao desenvolvimento das utopias de superação de tudo que nos tornamos naquilo que deixamos de ser. Somos hoje parte de um sistema político e de uma economia mundializados que têm os seus gestores, seus cúmplices, sua tecnologia, sua capacidade de desmonte das bases sociais e políticas que fazem do homem comum autor de sua própria história. Impedidos de nos saciarmos do que a realidade possibilita até o limite do subestimado possível. Para vencer iniquidades e misérias.
O bolsonarismo vitorioso é consequência do lento agrupamento da diversidade de anomalias e contradições que foram desdenhadas pelos partidos de motivação social. Tornou-se ele um aglomerado de resíduos antidemocráticos da democracia frágil, o negativo que encontrou sua lógica no conjunto de irracionalidades que deu vida à sua política do absurdo. Um sistema criado para assegurar o primado de uma política de crescimento econômico sem compromisso com o desenvolvimento social. Seu objetivo tem sido o de assegurar ganhos de Primeiro Mundo num país de Terceiro Mundo. A explosão da miséria, da fome, do desemprego detonaram esse modelo econômico.
Só lentamente tem conseguido o Brasil político definir como atuar, nas eleições e também depois delas, como uma frente democrática contra o autoritarismo e a herança maldita que dele ficará.
Temos tratado o bolsonarismo como assunto menor e não como gravíssima anomalia em nosso processo político. Referimo-nos aos bolsonaristas como caricaturas do que deveria ser o político e não como aquilo que são: caricaturas ativas que tiveram êxito na usurpação do poder e no desmonte das conquistas sociais.
Não cuidamos de decifrá-lo, conhecer-lhe a origem, os fatores, o enraizamento na sociedade, a ação corrosiva contra as estruturas frágeis da democracia, as alianças de interesses antissociais que neles se corporificam. O bolsonarismo não está sozinho na crise e na agonia. O sistema partidário também está.
As esquerdas, do mesmo modo, não estão a salvo. Os grupos e partidos políticos se determinam reciprocamente. Elas precisam retornar à dialética e rever-se criticamente para identificar quais são as contradições do momento histórico e a implícita práxis social do possível, transformadora.
O nosso grande desafio é o de assumir que o bolsonarismo, para ser superado, tem que ser estudado e conhecido como o que é, esdrúxulo objeto de conhecimento. A falta de seriedade do bolsonarismo tem que ser estudada a sério como problema, social e político, como eficaz máquina de limitação e empobrecimento da cidadania e de transformação do Brasil numa sociedade carneiril.
É ele expressão tardia e extemporânea de uma estratégia política que remonta ao período final da Segunda Guerra Mundial, quando já estava em andamento a Terceira Guerra. Uma estratégia que se tornará a da geopolítica do universo de poder em que estão inseridos países como o nosso. Não mais a do confronto de potências. Mas a do confronto do Estado repressivo e armado contra a sociedade, para tratá-la como inimigo interno porque abriga os que perfilham carências sociais e de expressão política que podem conduzi-la a uma coalizão possível de interesses e sujeitos capaz de mudar a vida e superar contradições.
O bolsonarismo revela nossa alienação política, nossa dificuldade para contrapor uma ação política consequente a políticos de anedota.
No bolsonarismo se reflete a alteração da realidade dos confrontos militares decorrente da explosão das bombas atômicas no Japão. Com ela a função dos militares encolheu. A definição de inimigo e o modo de combatê-lo é outra. O inimigo, praticamente no mundo todo, é hoje um inimigo inventado. E uma das funções dos militares na atualidade é a de inventá-lo ou a de supô-lo para combatê-lo. Os reais novos inimigos, por outro lado, como a produção e o tráfico de drogas, que aniquilam a vida de suas vítimas e nisso a sociedade inteira e o próprio capitalismo, vicejam porque as forças de segurança não os têm como centro de referência de sua formação.
No cumprimento de sua função de desmantelar a sociedade e disseminar a desordem permanente, o bolsonarismo é expressão de uma realidade política propositalmente criada com o objeto de instituir a insegurança, a incerteza e o medo como mediações permanentes da instabilidade política. E nesse sentido militarizar as instituições e a competência cidadã da sociedade.
É o que fragiliza a certeza necessária ao desenvolvimento das utopias de superação de tudo que nos tornamos naquilo que deixamos de ser. Somos hoje parte de um sistema político e de uma economia mundializados que têm os seus gestores, seus cúmplices, sua tecnologia, sua capacidade de desmonte das bases sociais e políticas que fazem do homem comum autor de sua própria história. Impedidos de nos saciarmos do que a realidade possibilita até o limite do subestimado possível. Para vencer iniquidades e misérias.
A cada reeleição, nova devastação
Mal refeito da devastação que Dilma Rousseff se permitiu perpetrar, para se reeleger em 2014, o Brasil se vê mais uma vez assolado pela sanha devastadora de um presidente irresponsável, disposto a se reeleger a qualquer custo, como se não houvesse amanhã. Não há país que aguente a recorrência de devastações de tais proporções, a cada oito anos.
Embora só faltem cerca de 70 dias para as eleições, os danos mais graves do desastroso projeto de reeleição de Bolsonaro ainda parecem estar por vir. Mas os estragos já constatados compõem um quadro assustador de demolição institucional.
Do ponto de vista estrito da política econômica, já no final do ano passado, o governo escancarou seu descompromisso com a preservação do regime fiscal. Alarmado com seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto, o presidente não relutou em promover injustificável calote de dívidas judiciais e uma mudança oportunista na regra de correção do teto de gastos, para viabilizar, às pressas, a concessão do Auxílio Brasil e outras expansões de dispêndio, em 2023.
A invasão da Ucrânia, no começo deste ano, foi o que bastou para nova escalada de inconsequências na condução da política econômica. Tendo percebido que, mesmo com demissões em série de presidentes da Petrobras, não conseguiria mudar a política de alinhamento de preços internos de combustíveis a preços internacionais, o Planalto continua determinado a passar por cima da legislação que protege a empresa de ingerências do governo.
Em paralelo, o presidente, articulado com o Centrão, patrocinou a imposição de reduções arbitrárias na cobrança de ICMS pelos estados e novo e vasto pacote de medidas eleitoreiras que, a menos de 90 dias do primeiro turno, reajusta em 50% o pagamento mensal do Auxílio Brasil e concede subsídios a caminhoneiros e taxistas.
Tudo por meio de PEC, com base em fantasioso estado de emergência, para driblar restrições impostas pela legislação fiscal e eleitoral. E com maciça conivência da oposição.
A esse desmantelamento dos arcabouços de regras fiscais e eleitorais, vem-se sobrepondo novo surto de ataques do Planalto à lisura do processo eleitoral, com deplorável envolvimento de oficiais de alta patente das Forças Armadas e patética e constrangedora pregação do próprio presidente ao corpo diplomático acreditado em Brasília.
Ao eleitorado, resta escolher a que forças políticas entregar a Presidência, em janeiro de 2023. Às que, agora, vem devastando o país? Ou às que o devastaram na última reeleição?
O PT perdeu a oportunidade de dar ao país uma demonstração convincente de que já não comunga com a irresponsabilidade fiscal que vicejou no último governo petista. É lamentável que o partido tenha preferido votar em peso, tanto no Senado como na Câmara, pela aprovação da escabrosa proposta de emenda à Constituição patrocinada pelo governo.
Mesmo sabendo que a aprovação favoreceria Bolsonaro, o PT não escondeu a matreira satisfação com que ajudou a desmantelar o aparato de controle fiscal montado pelo governo Temer, para lidar com o descalabro que lhe foi deixado pela presidente petista.
No governo, ainda há quem se agarre ao jogo do contente e continue insistindo que, não obstante todos os excessos eleitoreiros dos últimos meses, o quadro fiscal continua sob controle. A verdade, contudo, é que esse suposto controle, à base de calote dos precatórios, está fadado a se esvair como uma miragem, quando o aumento do Auxílio Brasil de R$ 600 se mostrar irreversível e cessarem os efeitos benéficos sobre as contas públicas que têm decorrido da aceleração da inflação, do adiamento de reajustes da gigantesca folha de pagamentos do governo e do desempenho inusitado da arrecadação, na esteira da alta de preços de commodities.
E, esvaída a miragem, o novo governo constatará que já não poderá contar com qualquer ancoragem fiscal crível. E que a gestão das contas públicas estará ao sabor de negociações desalentadoramente desequilibradas com um Congresso tão ou mais irresponsável do que o atual.
Embora só faltem cerca de 70 dias para as eleições, os danos mais graves do desastroso projeto de reeleição de Bolsonaro ainda parecem estar por vir. Mas os estragos já constatados compõem um quadro assustador de demolição institucional.
Do ponto de vista estrito da política econômica, já no final do ano passado, o governo escancarou seu descompromisso com a preservação do regime fiscal. Alarmado com seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto, o presidente não relutou em promover injustificável calote de dívidas judiciais e uma mudança oportunista na regra de correção do teto de gastos, para viabilizar, às pressas, a concessão do Auxílio Brasil e outras expansões de dispêndio, em 2023.
A invasão da Ucrânia, no começo deste ano, foi o que bastou para nova escalada de inconsequências na condução da política econômica. Tendo percebido que, mesmo com demissões em série de presidentes da Petrobras, não conseguiria mudar a política de alinhamento de preços internos de combustíveis a preços internacionais, o Planalto continua determinado a passar por cima da legislação que protege a empresa de ingerências do governo.
Em paralelo, o presidente, articulado com o Centrão, patrocinou a imposição de reduções arbitrárias na cobrança de ICMS pelos estados e novo e vasto pacote de medidas eleitoreiras que, a menos de 90 dias do primeiro turno, reajusta em 50% o pagamento mensal do Auxílio Brasil e concede subsídios a caminhoneiros e taxistas.
Tudo por meio de PEC, com base em fantasioso estado de emergência, para driblar restrições impostas pela legislação fiscal e eleitoral. E com maciça conivência da oposição.
A esse desmantelamento dos arcabouços de regras fiscais e eleitorais, vem-se sobrepondo novo surto de ataques do Planalto à lisura do processo eleitoral, com deplorável envolvimento de oficiais de alta patente das Forças Armadas e patética e constrangedora pregação do próprio presidente ao corpo diplomático acreditado em Brasília.
Ao eleitorado, resta escolher a que forças políticas entregar a Presidência, em janeiro de 2023. Às que, agora, vem devastando o país? Ou às que o devastaram na última reeleição?
O PT perdeu a oportunidade de dar ao país uma demonstração convincente de que já não comunga com a irresponsabilidade fiscal que vicejou no último governo petista. É lamentável que o partido tenha preferido votar em peso, tanto no Senado como na Câmara, pela aprovação da escabrosa proposta de emenda à Constituição patrocinada pelo governo.
Mesmo sabendo que a aprovação favoreceria Bolsonaro, o PT não escondeu a matreira satisfação com que ajudou a desmantelar o aparato de controle fiscal montado pelo governo Temer, para lidar com o descalabro que lhe foi deixado pela presidente petista.
No governo, ainda há quem se agarre ao jogo do contente e continue insistindo que, não obstante todos os excessos eleitoreiros dos últimos meses, o quadro fiscal continua sob controle. A verdade, contudo, é que esse suposto controle, à base de calote dos precatórios, está fadado a se esvair como uma miragem, quando o aumento do Auxílio Brasil de R$ 600 se mostrar irreversível e cessarem os efeitos benéficos sobre as contas públicas que têm decorrido da aceleração da inflação, do adiamento de reajustes da gigantesca folha de pagamentos do governo e do desempenho inusitado da arrecadação, na esteira da alta de preços de commodities.
E, esvaída a miragem, o novo governo constatará que já não poderá contar com qualquer ancoragem fiscal crível. E que a gestão das contas públicas estará ao sabor de negociações desalentadoramente desequilibradas com um Congresso tão ou mais irresponsável do que o atual.
Direito de eleição ou direito de taição?
Como em tantos outros países, as pessoas votam, mas não elegem. Votam em um, governa outro: governa o cloneEduardo Galeano
Cuidado com a aritmética!
Êta!...Então a eleição está ganha!. Lula tem 42 por cento da preferência do eleitorado nacional e Bolsonaro 36 por cento, apontam as pesquisas. Não é bem assim. Pesquisas divulgadas com antecedência tem o mesmo propósito de uma propaganda explícita. Pretende fazer o eleitor acreditar que aquele candidato já está eleito. Uma falsa indução. A premissa condutora é a de” não se vota em candidato previamente derrotado”. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por alguma conveniência, faz de conta que não vê.
Nada mais enganoso que essa aritmética absolutizada, mesmo que esteja assinada por um grande instituto de pesquisa. Existem mais de 100 no Brasil. Alguns copiando os resultados dos outros, e alguns vendendo opiniões. Assim, foi em eleições anteriores e, nesta próxima, não parece diferente.
As indicações de resultados prévios entre Aécio e Dilma, Bolsonaro e Haddad e em alguns estados marcaram grandes enganos das pesquisas. O candidato que lidera as pesquisas, na maioria dessas disputas é quase sempre atropelado no final, embora até o última momento as pesquisas o indiquem como potencial vencedor. Em geral, os institutos de pesquisa concentram-se em dois dos candidatos com melhores resultados, com vistas a um segundo turno ou não. Há pesquisas tendenciosas cujas conclusões vem acompanhadas da afirmação - verdadeira pregação - de que” Não haverá nem segundo turno!".
Esquecem-se dos votos dos candidatos pouco citados, dos votos nulos e brancos - já chegaram a 20 % dos votantes -, dos indecisos que podem mudar o voto na última hora (está ainda em 4 %) e dos ausentes. Somados chegam a milhões de eleitores. Existem estudos no campo da política eleitoral, mostrando que, o número de votos perdidos pelo eleitorado é maior que os conquistados pelos eleitos: em geral, mais de 50 %. Dir-se-ia que se trata de uma performance democrática.
Fiquem atentos. Pesquisas indicam tendências, dificilmente apontam, por antecipação, vitoriosos. Ajudam a nortear campanhas. Elas se aproximam de alguns resultados, mas não conseguem captar no cenário real os acasos e as incertezas no comportamento humano. Nunca se sabe tudo da pesquisa, embora, por exigência do TSE, ao serem registradas, as pesquisas são obrigadas a revelar os métodos usados, o período e os objetivos a serem alcançados.
Os maiores interessados em conhecer resultados prévios das pesquisas eleitorais são os empresários, atentos ao futuro da economia e, por extensão, dos seus negócios. Mal concluída uma eleição, os políticos distribuem os cargos para os cabos eleitorais, e já estão preocupados com a próxima. Os empresários não são assim. Para eles, cada eleição é um drama ou uma solução para os investimentos. Por isso, financiam pesquisas eleitorais, como álibi, para conhecer as tendências e fazer projeções sobre a nova política econômica. Daí aqueles financiamentos de campanha tentando fortalecer os candidatos que mais compactuam com seus propósitos empresariais ou os que mais tem chance de sair vitoriosos das eleições.
Os empresários não estão nem aí para os partidos. O fulano, sendo eleito, vai abrir a economia à busca do desenvolvimento, conceder estímulos e isenções fiscais; o outro vai exercer um controle fiscal rigoroso para equilibrar as contas públicas e os empresários e empreendimentos em andamento serão suas vítimas. A equação é simples. O resto é pantomina. Por isso as mudanças no Brasil são lentas: Primeiro o meu, depois o do Abreu.
Após a eleição de Obama nos Estados Unidos, amparada nas redes sociais digitais, houve grandes mudanças na estrutura das campanhas, mas por aqui centenas de candidatos ainda dependem da propaganda analógica e dos Correios para comunicar-se com os eleitores. Se este for o caso, não confie que terá êxito. As pesquisas tem seus problemas e nos Correios existe uma militância não expressa que interrompe qualquer processo eleitoral. Ninguém sabe, ninguém viu: o certo e que a correspondência eleitoral - pesquisas, cartas, folders, santinhos e até cartazes costumam não chegar, ou se chegam, os prazos já venceram. Existem regras, manuais operacionais, mas os servidores são distópicos, agem organicamente, quase sempre em sentido contrário, acho que nem sempre por opção ideológica, mas disposição mesmo para o trabalho. Tem regras e ritmos próprios.
Na verdade, pesquisas eleitorais são mesmo é um bom negócio, quando não trabalham para candidatos caloteiros. Quase todos o são. Se perdem a eleição, não pagam as contas. A Rede Globo conseguiu, certa vez, financiamento para acompanhamento prévio do resultado das eleições presidenciais no Brasil, fazendo boca de urna (proibida) nas maiores cidades do País. Usou duas estratégias: selecionou aqueles colégios eleitorais mais representativos e ouviu o eleitor no momento em que ele acabava de dar seu voto. Resultado: acertou em cheio, e divulgou o resultado no mesmo dia, usando inclusive seus comentaristas políticos para dar legitimidade pública. Onde chegamos: o sistema Globo esteve próximo de dirigir o País. Seus proprietários, diretores, repórteres, atores e atrizes ainda são cortejados por aí
Foi o maior vexame para o TSE, que demorava quase uma semana para anunciar os resultados das eleições. Digamos que esses eventos não mais seriam possíveis, e que as pesquisas que estão sendo divulgadas até agora são todas duvidosas: Lula tem 42 % dos votos; Bolsonaro, 36%, Ciro tem 9%, a Tebet (de um dos maiores partidos do País) 4%. O Data Folha divulgou recentemente uma nova provocação: 12 %, pelo menos, do eleitorado decide mesmo em quem votar quando está, de fato, em frente ao desafio de uma urna. Fiquem espertos. Até aqui a aritmética não bateu.
Nada mais enganoso que essa aritmética absolutizada, mesmo que esteja assinada por um grande instituto de pesquisa. Existem mais de 100 no Brasil. Alguns copiando os resultados dos outros, e alguns vendendo opiniões. Assim, foi em eleições anteriores e, nesta próxima, não parece diferente.
As indicações de resultados prévios entre Aécio e Dilma, Bolsonaro e Haddad e em alguns estados marcaram grandes enganos das pesquisas. O candidato que lidera as pesquisas, na maioria dessas disputas é quase sempre atropelado no final, embora até o última momento as pesquisas o indiquem como potencial vencedor. Em geral, os institutos de pesquisa concentram-se em dois dos candidatos com melhores resultados, com vistas a um segundo turno ou não. Há pesquisas tendenciosas cujas conclusões vem acompanhadas da afirmação - verdadeira pregação - de que” Não haverá nem segundo turno!".
Esquecem-se dos votos dos candidatos pouco citados, dos votos nulos e brancos - já chegaram a 20 % dos votantes -, dos indecisos que podem mudar o voto na última hora (está ainda em 4 %) e dos ausentes. Somados chegam a milhões de eleitores. Existem estudos no campo da política eleitoral, mostrando que, o número de votos perdidos pelo eleitorado é maior que os conquistados pelos eleitos: em geral, mais de 50 %. Dir-se-ia que se trata de uma performance democrática.
Fiquem atentos. Pesquisas indicam tendências, dificilmente apontam, por antecipação, vitoriosos. Ajudam a nortear campanhas. Elas se aproximam de alguns resultados, mas não conseguem captar no cenário real os acasos e as incertezas no comportamento humano. Nunca se sabe tudo da pesquisa, embora, por exigência do TSE, ao serem registradas, as pesquisas são obrigadas a revelar os métodos usados, o período e os objetivos a serem alcançados.
Os maiores interessados em conhecer resultados prévios das pesquisas eleitorais são os empresários, atentos ao futuro da economia e, por extensão, dos seus negócios. Mal concluída uma eleição, os políticos distribuem os cargos para os cabos eleitorais, e já estão preocupados com a próxima. Os empresários não são assim. Para eles, cada eleição é um drama ou uma solução para os investimentos. Por isso, financiam pesquisas eleitorais, como álibi, para conhecer as tendências e fazer projeções sobre a nova política econômica. Daí aqueles financiamentos de campanha tentando fortalecer os candidatos que mais compactuam com seus propósitos empresariais ou os que mais tem chance de sair vitoriosos das eleições.
Os empresários não estão nem aí para os partidos. O fulano, sendo eleito, vai abrir a economia à busca do desenvolvimento, conceder estímulos e isenções fiscais; o outro vai exercer um controle fiscal rigoroso para equilibrar as contas públicas e os empresários e empreendimentos em andamento serão suas vítimas. A equação é simples. O resto é pantomina. Por isso as mudanças no Brasil são lentas: Primeiro o meu, depois o do Abreu.
Após a eleição de Obama nos Estados Unidos, amparada nas redes sociais digitais, houve grandes mudanças na estrutura das campanhas, mas por aqui centenas de candidatos ainda dependem da propaganda analógica e dos Correios para comunicar-se com os eleitores. Se este for o caso, não confie que terá êxito. As pesquisas tem seus problemas e nos Correios existe uma militância não expressa que interrompe qualquer processo eleitoral. Ninguém sabe, ninguém viu: o certo e que a correspondência eleitoral - pesquisas, cartas, folders, santinhos e até cartazes costumam não chegar, ou se chegam, os prazos já venceram. Existem regras, manuais operacionais, mas os servidores são distópicos, agem organicamente, quase sempre em sentido contrário, acho que nem sempre por opção ideológica, mas disposição mesmo para o trabalho. Tem regras e ritmos próprios.
Na verdade, pesquisas eleitorais são mesmo é um bom negócio, quando não trabalham para candidatos caloteiros. Quase todos o são. Se perdem a eleição, não pagam as contas. A Rede Globo conseguiu, certa vez, financiamento para acompanhamento prévio do resultado das eleições presidenciais no Brasil, fazendo boca de urna (proibida) nas maiores cidades do País. Usou duas estratégias: selecionou aqueles colégios eleitorais mais representativos e ouviu o eleitor no momento em que ele acabava de dar seu voto. Resultado: acertou em cheio, e divulgou o resultado no mesmo dia, usando inclusive seus comentaristas políticos para dar legitimidade pública. Onde chegamos: o sistema Globo esteve próximo de dirigir o País. Seus proprietários, diretores, repórteres, atores e atrizes ainda são cortejados por aí
Foi o maior vexame para o TSE, que demorava quase uma semana para anunciar os resultados das eleições. Digamos que esses eventos não mais seriam possíveis, e que as pesquisas que estão sendo divulgadas até agora são todas duvidosas: Lula tem 42 % dos votos; Bolsonaro, 36%, Ciro tem 9%, a Tebet (de um dos maiores partidos do País) 4%. O Data Folha divulgou recentemente uma nova provocação: 12 %, pelo menos, do eleitorado decide mesmo em quem votar quando está, de fato, em frente ao desafio de uma urna. Fiquem espertos. Até aqui a aritmética não bateu.
Quem não te conhece, que te compre!
Não confio em ti, general. Proclamastes a República em nome do povo e deixastes o povo fora das urnas. Não aceitastes que mulher votasse. Excluístes os analfabetos, ou seja, quase todo mundo. Não bastasse, continuastes açoitando negros nos quartéis.
Falas em nome do povo, mas morres de medo do voto popular. Na República Velha, inventastes de salvar estados cujos governantes eleitos não te agradavam.
Depois, defendestes o voto secreto dizendo que todos os males advinham do sistema eleitoral. Derrubastes o presidente eleito, mudastes o sistema político e, por pressão, aceitastes o voto da mulher. Mas persististes deixando o povo longe das urnas.
Achando pouco, inventastes mentira deslavada para impor uma ditadura e negar a manifestação da vontade coletiva. Empurrastes goela abaixo da sociedade uma Constituição copiada da Polônia fascista.
Quando não conseguistes mais manter a ditadura, destes duas opções ao povo: eleger um de farda de azul ou outro, verde-oliva. E te espantastes com a votação dos que queriam mudança social. Impusestes a clandestinidade aos que levantavam bandeiras populares.
Depois quisestes destituir um velho caudilho transformado em ídolo do povo. O homem queria um país com ciência, tecnologia, indústria e direitos sociais. Com teus aliados de sempre, atazanastes de tal forma o velho que ele se matou. Tirou de tua boca o gostinho de vê-lo injustamente preso como ladrão.
Em seguida, mais uma vez, repudiastes o veredito das urnas. Só o contragolpe de um colega sensato asseguraria posse ao eleito.
Renitente é tua sanha contra o voto. Derrubastes de novo o presidente da República e impusestes 21 anos sem eleições livres. Distribuístes porrada sem piedade! Os que te contestavam, mandavas matar ou mofar na cadeia.
Quando fostes obrigado a acatar eleições, mesmo indiretas, quebrastes a cara, teu candidato dançou.
Engolistes a seco a decisão do Constituinte de 1988 que garantiu o voto do analfabeto. Que fajutice este regime republicano que proclamastes: os mais humildes esperaram cem anos para ter direito de votar. Como tens medo de urna, general!
Os brasileiros começaram se acostumar a votar e, à sorrelfa, tramastes contra as eleições. Em conluio com malandros de paletó e juízes pequenos, articulastes a derrubada de uma mulher honesta e a prisão de um líder popular.
Exibistes tua força usando um celular. Admirável! Nem precisastes deixar a tropa de prontidão.
Finalmente, arranjastes um bufão para a cadeira presidencial. Avalizastes seu governo. E que ao babaca fossem imputados os teus desígnios, hein? Muitos imaginam candidamente que os males provêm de tua marionete atrabiliária. Mais sandices ele diga, melhor para desvincular as imagens de seu fabricante. És bom em manobras que chamas de “psicossociais”.
Mas, com esta patuscada de contestar urna eletrônica, te arriscas a estragar o resto de consideração que ainda deténs diante de alguns incautos.
O que pretendes? Arruaça, baderna? Programas a comoção social para atacares de mantenedor da lei e da ordem? Queres o país em chamas para justificar a saída da tropa às ruas? Que palhaçada! Que vontade incontida de mando!
Finges nada ter a ver com a tragédia anunciada. Há quem diga que não quebrarás a institucionalidade. Quem não te conhece, que te compre. Abandonarás o vício de vida inteira?
Segura tua alergia à vontade do povo. Contenha teu medo das urnas. Pare de bancar o falso salvador da pátria.
Cuida de tua obrigação. Prepara-te para matar estrangeiro cobiçoso e deixa o povo brasileiro, que te sustenta, escolher seu rumo!
Falas em nome do povo, mas morres de medo do voto popular. Na República Velha, inventastes de salvar estados cujos governantes eleitos não te agradavam.
Depois, defendestes o voto secreto dizendo que todos os males advinham do sistema eleitoral. Derrubastes o presidente eleito, mudastes o sistema político e, por pressão, aceitastes o voto da mulher. Mas persististes deixando o povo longe das urnas.
Achando pouco, inventastes mentira deslavada para impor uma ditadura e negar a manifestação da vontade coletiva. Empurrastes goela abaixo da sociedade uma Constituição copiada da Polônia fascista.
Quando não conseguistes mais manter a ditadura, destes duas opções ao povo: eleger um de farda de azul ou outro, verde-oliva. E te espantastes com a votação dos que queriam mudança social. Impusestes a clandestinidade aos que levantavam bandeiras populares.
Depois quisestes destituir um velho caudilho transformado em ídolo do povo. O homem queria um país com ciência, tecnologia, indústria e direitos sociais. Com teus aliados de sempre, atazanastes de tal forma o velho que ele se matou. Tirou de tua boca o gostinho de vê-lo injustamente preso como ladrão.
Em seguida, mais uma vez, repudiastes o veredito das urnas. Só o contragolpe de um colega sensato asseguraria posse ao eleito.
Renitente é tua sanha contra o voto. Derrubastes de novo o presidente da República e impusestes 21 anos sem eleições livres. Distribuístes porrada sem piedade! Os que te contestavam, mandavas matar ou mofar na cadeia.
Quando fostes obrigado a acatar eleições, mesmo indiretas, quebrastes a cara, teu candidato dançou.
Engolistes a seco a decisão do Constituinte de 1988 que garantiu o voto do analfabeto. Que fajutice este regime republicano que proclamastes: os mais humildes esperaram cem anos para ter direito de votar. Como tens medo de urna, general!
Os brasileiros começaram se acostumar a votar e, à sorrelfa, tramastes contra as eleições. Em conluio com malandros de paletó e juízes pequenos, articulastes a derrubada de uma mulher honesta e a prisão de um líder popular.
Exibistes tua força usando um celular. Admirável! Nem precisastes deixar a tropa de prontidão.
Finalmente, arranjastes um bufão para a cadeira presidencial. Avalizastes seu governo. E que ao babaca fossem imputados os teus desígnios, hein? Muitos imaginam candidamente que os males provêm de tua marionete atrabiliária. Mais sandices ele diga, melhor para desvincular as imagens de seu fabricante. És bom em manobras que chamas de “psicossociais”.
Mas, com esta patuscada de contestar urna eletrônica, te arriscas a estragar o resto de consideração que ainda deténs diante de alguns incautos.
O que pretendes? Arruaça, baderna? Programas a comoção social para atacares de mantenedor da lei e da ordem? Queres o país em chamas para justificar a saída da tropa às ruas? Que palhaçada! Que vontade incontida de mando!
Finges nada ter a ver com a tragédia anunciada. Há quem diga que não quebrarás a institucionalidade. Quem não te conhece, que te compre. Abandonarás o vício de vida inteira?
Segura tua alergia à vontade do povo. Contenha teu medo das urnas. Pare de bancar o falso salvador da pátria.
Cuida de tua obrigação. Prepara-te para matar estrangeiro cobiçoso e deixa o povo brasileiro, que te sustenta, escolher seu rumo!
quinta-feira, 21 de julho de 2022
Corrupção bolsonarista, capítulo 6
Victor Nunes Leal, maior ministro da história do STF, escreveu "Coronelismo, Enxada e Voto", clássico de interpretação do Brasil. Militares não suportavam sua inteligência jurídica e seu desprezo à delinquência armada. Foi sequestrado por sargentos revoltosos em 1963 e aposentado na marra pelo AI-5 em 1968.
O livro de Nunes Leal descreveu o sistema eleitoral corrupto da primeira República, fundado na barganha entre o poder privado local, do coronel, e o poder público central. Vitórias eleitorais dependiam da pobreza, da força bruta e do dinheiro. A representação política resultante, baseada no mando e na obediência, retroalimentava o sistema patrimonialista.
Eleições no Brasil tornaram-se gradualmente mais competitivas e democráticas a partir de 1988. Mas Jair Bolsonaro veio para resgatar nossa pré-modernidade eleitoral à máxima potência. Todos os seus atos na disputa eleitoral reavivam a tradição do consórcio entre poder privado rudimentar e um governo incivil e insubmisso à lei. Com tecnologia do século 21.
Andreas Schedler, especialista sobre autoritarismo eleitoral, descreve o "menu de manipulação" usado por autocratas. Entre outras coisas, eleições "justas e livres" precisam prevenir a intimidação do eleitor, a compra do voto e a tutelagem do processo. Além de proteger a capacidade de cidadãos conhecerem as alternativas.
O autocrata brasileiro corrompe cada um desses pilares da alternância democrática.
Primeiro, o Secretão deu ao governo ferramenta de compra de voto de parlamentares venais. Até da oposição. Assim conseguiu aprovar reforma constitucional extravagante no seu conteúdo e no seu procedimento (PEC Kamikaze). Violou princípios de integridade eleitoral e do processo legislativo. Com o Auxílio Brasil, distribui feijão a quem tenta sobreviver, mas só até dezembro. E distribui prata para quem tem poder de ajudar o governo.
O auxílio, justificado sob pretexto jurídico espúrio da "emergência", não serve para tirar ninguém da pobreza. Almeja que o pobre faminto sobreviva para votar. Não faz política pública, não constrói ponte para o desenvolvimento nem abre horizonte para que cada um escolha como viver. O miserável planeja, quando muito, onde buscar comida no dia seguinte. O governo lhe oferece uma fila da sopa. Depois de dezembro, nem isso.
Segundo, Bolsonaro promove ataque diuturno às urnas, ao TSE e ao STF. Deslegitima a competição que ele venceu no passado e pretende disputar nesse ano. Não tem prova nem convicção sobre qualquer fraude, apenas medo de perder e interesse de continuar onde está.
O assédio leva ao limite da resistência a governança eleitoral. O TSE, diante da marginalidade serial, sequer teve força e coragem de concluir inquérito que apura ataque às urnas. E prepara segurança de guerra para sobreviver, mais uma vez, ao 7 de setembro insuflado pelo candidato cuja elegibilidade segue de pé. O que dizer da ilicitude da reunião com embaixadores, onde avisou que eleição no Brasil não merece ser respeitada?
Terceiro, faz campanha que customiza desinformação e ódio em disparos massivos por via digital. E ainda financiado por recurso não sabido nem declarado. Passou impune em 2018, não tem razão para fazer diferente em 2022. Daí seu incômodo com as modestas medidas tomadas por Telegram e Whatsapp para mitigar a prática.
Bolsonaro nos empobreceu: derrubou PIB per capita de US$ 9150 para US$ 7500 e a renda média do brasileiro. Pobres pagam 2000% a mais de imposto de renda em razão da simples falta de correção da tabela do IR. Extinguiu programa alimentar, 33 milhões de pessoas passam fome. Pandemia e guerra não explicam a magnitude da tragédia, mostram economistas.
Bolsonaro nos embruteceu: não bastasse a cultivada indiferença às mortes da pandemia, multiplicadas por ostentatória omissão estatal, armou "maioria de bem" para lutar "contra o mal". O "bem" já está matando.
Bolsonaro achatou nossa liberdade: todos os índices globais de erosão democrática destacam o Brasil no topo. Sem exceção. Mas o liberticídio continua a ser defendido, veja só, em nome da liberdade. Não exatamente a sua liberdade, eleitor.
O projeto de empobrecimento, embrutecimento e autocratização seria, para muita gente, recompensado com o fim da corrupção. Como se corrupção diminuísse com aumento do PIBB, o Produto Interno da Brutalidade Brasileira.
A corrupção está aí, vitaminada, remoçada. Contamina essas eleições como nenhuma outra desde 88. Bolsonaro empenha orçamento contra a democracia e o autogoverno coletivo. Depende do dinheiro, da força bruta e da pobreza esse novo coronelismo. Como o velho.
O papel das Forças Armadas na corrupção bolsonarista? Terá capítulo só seu.
O livro de Nunes Leal descreveu o sistema eleitoral corrupto da primeira República, fundado na barganha entre o poder privado local, do coronel, e o poder público central. Vitórias eleitorais dependiam da pobreza, da força bruta e do dinheiro. A representação política resultante, baseada no mando e na obediência, retroalimentava o sistema patrimonialista.
Eleições no Brasil tornaram-se gradualmente mais competitivas e democráticas a partir de 1988. Mas Jair Bolsonaro veio para resgatar nossa pré-modernidade eleitoral à máxima potência. Todos os seus atos na disputa eleitoral reavivam a tradição do consórcio entre poder privado rudimentar e um governo incivil e insubmisso à lei. Com tecnologia do século 21.
Andreas Schedler, especialista sobre autoritarismo eleitoral, descreve o "menu de manipulação" usado por autocratas. Entre outras coisas, eleições "justas e livres" precisam prevenir a intimidação do eleitor, a compra do voto e a tutelagem do processo. Além de proteger a capacidade de cidadãos conhecerem as alternativas.
O autocrata brasileiro corrompe cada um desses pilares da alternância democrática.
Primeiro, o Secretão deu ao governo ferramenta de compra de voto de parlamentares venais. Até da oposição. Assim conseguiu aprovar reforma constitucional extravagante no seu conteúdo e no seu procedimento (PEC Kamikaze). Violou princípios de integridade eleitoral e do processo legislativo. Com o Auxílio Brasil, distribui feijão a quem tenta sobreviver, mas só até dezembro. E distribui prata para quem tem poder de ajudar o governo.
O auxílio, justificado sob pretexto jurídico espúrio da "emergência", não serve para tirar ninguém da pobreza. Almeja que o pobre faminto sobreviva para votar. Não faz política pública, não constrói ponte para o desenvolvimento nem abre horizonte para que cada um escolha como viver. O miserável planeja, quando muito, onde buscar comida no dia seguinte. O governo lhe oferece uma fila da sopa. Depois de dezembro, nem isso.
Segundo, Bolsonaro promove ataque diuturno às urnas, ao TSE e ao STF. Deslegitima a competição que ele venceu no passado e pretende disputar nesse ano. Não tem prova nem convicção sobre qualquer fraude, apenas medo de perder e interesse de continuar onde está.
O assédio leva ao limite da resistência a governança eleitoral. O TSE, diante da marginalidade serial, sequer teve força e coragem de concluir inquérito que apura ataque às urnas. E prepara segurança de guerra para sobreviver, mais uma vez, ao 7 de setembro insuflado pelo candidato cuja elegibilidade segue de pé. O que dizer da ilicitude da reunião com embaixadores, onde avisou que eleição no Brasil não merece ser respeitada?
Terceiro, faz campanha que customiza desinformação e ódio em disparos massivos por via digital. E ainda financiado por recurso não sabido nem declarado. Passou impune em 2018, não tem razão para fazer diferente em 2022. Daí seu incômodo com as modestas medidas tomadas por Telegram e Whatsapp para mitigar a prática.
Bolsonaro nos empobreceu: derrubou PIB per capita de US$ 9150 para US$ 7500 e a renda média do brasileiro. Pobres pagam 2000% a mais de imposto de renda em razão da simples falta de correção da tabela do IR. Extinguiu programa alimentar, 33 milhões de pessoas passam fome. Pandemia e guerra não explicam a magnitude da tragédia, mostram economistas.
Bolsonaro nos embruteceu: não bastasse a cultivada indiferença às mortes da pandemia, multiplicadas por ostentatória omissão estatal, armou "maioria de bem" para lutar "contra o mal". O "bem" já está matando.
Bolsonaro achatou nossa liberdade: todos os índices globais de erosão democrática destacam o Brasil no topo. Sem exceção. Mas o liberticídio continua a ser defendido, veja só, em nome da liberdade. Não exatamente a sua liberdade, eleitor.
O projeto de empobrecimento, embrutecimento e autocratização seria, para muita gente, recompensado com o fim da corrupção. Como se corrupção diminuísse com aumento do PIBB, o Produto Interno da Brutalidade Brasileira.
A corrupção está aí, vitaminada, remoçada. Contamina essas eleições como nenhuma outra desde 88. Bolsonaro empenha orçamento contra a democracia e o autogoverno coletivo. Depende do dinheiro, da força bruta e da pobreza esse novo coronelismo. Como o velho.
O papel das Forças Armadas na corrupção bolsonarista? Terá capítulo só seu.
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