sábado, 18 de junho de 2022
Os cinco nomes do marechal
Naquele longínquo 31 de março de 1964, estagiando num jornal, eu sofria com a inexperiência e a timidez. Quando sobreveio o golpe, tomei coragem e perguntei a um político importante quem, ao ver dele, seria o presidente da República. A resposta veio em três segundos: o Exército só aceitará cinco nomes, Humberto Carlos de Alencar Castello Branco.
Para mim, todo golpe é ruim. Abomino todos os regimes de exceção. Mas antes ter um Castelo Branco, que pairava metros acima dos demais, que muitos outros que nada tinham entre as orelhas. Castelo garantia que a intervenção militar seria de curta duração, dois ou três anos para acabar com o comunismo e a corrupção e implantar algumas reformas na economia.
Pouco tempo antes, chegara ao Brasil o brasilianista Alfred Stepan, que iria fazer uma tese sobre os militares. Tornamo-nos amigos até o recente falecimento dele. Stepan admirava Castelo e não tardou a conseguir acesso à alta oficialidade. Mas, sobre a promessa de Castelo de manter o Exército no poder por um curto período, Stepan não acreditava que ele lograsse tal proeza. Outros oficiais-generais lhe haviam dito precisamente o contrário. Não devolveriam o poder aos civis em menos de 20 anos.
Meus leitores, se os tenho, devem estar impressionados com a exatidão da ciência política. Stepan acertara em cheio. Castelo errou redondamente. Fato é, entretanto, que nos 56 anos decorridos desde aqueles diálogos, este campo de estudos que nos orgulhamos em denominar ciência foi posto em xeque pelo menos umas 50 vezes. Por isso insisto em perscrutar o futuro, fazendo entrevistas, revirando estatísticas ou pacientemente observando o voo dos pássaros, como faziam os antigos adivinhos romanos.
No momento, vejo somente tênues indícios de uma intervenção militar, nada além disso, e así quiera Diós que permanezca! Mas cá, na planície, fora da caserna e do governo, volta e meia vemos milhões de energúmenos vociferando por um novo 31 de março de 1964. Tal ideia lhes ilumina a cabeça e os faz saltitar de alegria. Creem piamente que o verde das fardas livrará nosso país de suas mazelas e desavenças. Em seus momentos de maior devaneio, cogitam que alguns tanques nas ruas trariam de volta nossa tradição de ameno convívio, acabariam com as desordens, nos livrariam da corrupção e do paradeiro econômico, da inflação e de tudo mais que nos desengrandece aos olhos do mundo civilizado.
É possível; tudo é possível. Nos espaços siderais da imaginação, tudo é possível. Alguns chegam mesmo a crer que paraísos políticos, uma vez estabelecidos, não se desfazem. Que a uma elite sábia e honrada se segue outra, esquecendo-se de que, na antiga Roma, governantes sábios e justos foram sucedidos por dementes como Nero, Calígula e Cômodo.
O leitor por certo percebeu que estou falando do desvario de umas poucas mentes doentias, confiante em que males de tal ordem não estão a nos espreitar. No fundo, sinto-me despreocupado, mas sentiria um alívio ainda maior se três espectros vez por outra não me atormentassem. Primeiro, sabemos que o Brasil e a América Latina são as mais perfeitas estufas do populismo, e que populismo, por definição, é um modo de agir político sempre propenso a atropelar as instituições. Em todas as latitudes, populistas são aqueles que não encontram conforto nos limites institucionais da democracia e conclamam o que entendem por “povo” para derrubá-la.
Segundo, a oferta de populistas aumentou. Em épocas pretéritas, os portadores de tal DNA populista apresentavam-se um de cada vez, apoiados por meia dúzia de policiais, e os golpes assemelhavam-se a meras operações de despejo. Foi o que se passou na Argentina em 1928, quando o desmiolado general Uriburu derrubou o presidente Yrigoyen e deu início à sucessão de tragicomédias que transformou a outrora próspera nação pampeana na caricatura que dela resta. No rastro da multiplicação de populistas, nós, brasileiros também teremos no dia 2 de outubro uma oportunidade de ouro de também nos transformarmos numa caricatura da quase caricatura que sempre fomos.
Se recaírmos na polarização iniciada em 2018, estará redondamente enganado quem pensar que acordaremos do pesadelo quando a Justiça Eleitoral der por encerrada a contagem dos votos. Se o enredo deste ano for o mesmo de 2018, seremos forçados a recordar que, comparada à situação de hoje, a de 1964 foi apenas um festival de blefes, uma peça de segunda personificada por artistas do gogó: Carlos Lacerda, de um lado, e o indefectível Almirante Aragão, do outro.
Seria tudo muito engraçado se nós também não nos tivéssemos transformado numa caricatura moderna daquela que antigamente já éramos. Hoje, nada mais parece nos impressionar. Pobres sempre fomos, mas, ao fim da Segunda Guerra, não era comum presenciarmos indivíduos disputando uma vaga para dormir debaixo de algum viaduto, ou para chegar primeiro na cata de restos de comida. A própria violência tornou-se mais violenta, gratuita e cruel.
Para mim, todo golpe é ruim. Abomino todos os regimes de exceção. Mas antes ter um Castelo Branco, que pairava metros acima dos demais, que muitos outros que nada tinham entre as orelhas. Castelo garantia que a intervenção militar seria de curta duração, dois ou três anos para acabar com o comunismo e a corrupção e implantar algumas reformas na economia.
Pouco tempo antes, chegara ao Brasil o brasilianista Alfred Stepan, que iria fazer uma tese sobre os militares. Tornamo-nos amigos até o recente falecimento dele. Stepan admirava Castelo e não tardou a conseguir acesso à alta oficialidade. Mas, sobre a promessa de Castelo de manter o Exército no poder por um curto período, Stepan não acreditava que ele lograsse tal proeza. Outros oficiais-generais lhe haviam dito precisamente o contrário. Não devolveriam o poder aos civis em menos de 20 anos.
Meus leitores, se os tenho, devem estar impressionados com a exatidão da ciência política. Stepan acertara em cheio. Castelo errou redondamente. Fato é, entretanto, que nos 56 anos decorridos desde aqueles diálogos, este campo de estudos que nos orgulhamos em denominar ciência foi posto em xeque pelo menos umas 50 vezes. Por isso insisto em perscrutar o futuro, fazendo entrevistas, revirando estatísticas ou pacientemente observando o voo dos pássaros, como faziam os antigos adivinhos romanos.
No momento, vejo somente tênues indícios de uma intervenção militar, nada além disso, e así quiera Diós que permanezca! Mas cá, na planície, fora da caserna e do governo, volta e meia vemos milhões de energúmenos vociferando por um novo 31 de março de 1964. Tal ideia lhes ilumina a cabeça e os faz saltitar de alegria. Creem piamente que o verde das fardas livrará nosso país de suas mazelas e desavenças. Em seus momentos de maior devaneio, cogitam que alguns tanques nas ruas trariam de volta nossa tradição de ameno convívio, acabariam com as desordens, nos livrariam da corrupção e do paradeiro econômico, da inflação e de tudo mais que nos desengrandece aos olhos do mundo civilizado.
É possível; tudo é possível. Nos espaços siderais da imaginação, tudo é possível. Alguns chegam mesmo a crer que paraísos políticos, uma vez estabelecidos, não se desfazem. Que a uma elite sábia e honrada se segue outra, esquecendo-se de que, na antiga Roma, governantes sábios e justos foram sucedidos por dementes como Nero, Calígula e Cômodo.
O leitor por certo percebeu que estou falando do desvario de umas poucas mentes doentias, confiante em que males de tal ordem não estão a nos espreitar. No fundo, sinto-me despreocupado, mas sentiria um alívio ainda maior se três espectros vez por outra não me atormentassem. Primeiro, sabemos que o Brasil e a América Latina são as mais perfeitas estufas do populismo, e que populismo, por definição, é um modo de agir político sempre propenso a atropelar as instituições. Em todas as latitudes, populistas são aqueles que não encontram conforto nos limites institucionais da democracia e conclamam o que entendem por “povo” para derrubá-la.
Segundo, a oferta de populistas aumentou. Em épocas pretéritas, os portadores de tal DNA populista apresentavam-se um de cada vez, apoiados por meia dúzia de policiais, e os golpes assemelhavam-se a meras operações de despejo. Foi o que se passou na Argentina em 1928, quando o desmiolado general Uriburu derrubou o presidente Yrigoyen e deu início à sucessão de tragicomédias que transformou a outrora próspera nação pampeana na caricatura que dela resta. No rastro da multiplicação de populistas, nós, brasileiros também teremos no dia 2 de outubro uma oportunidade de ouro de também nos transformarmos numa caricatura da quase caricatura que sempre fomos.
Se recaírmos na polarização iniciada em 2018, estará redondamente enganado quem pensar que acordaremos do pesadelo quando a Justiça Eleitoral der por encerrada a contagem dos votos. Se o enredo deste ano for o mesmo de 2018, seremos forçados a recordar que, comparada à situação de hoje, a de 1964 foi apenas um festival de blefes, uma peça de segunda personificada por artistas do gogó: Carlos Lacerda, de um lado, e o indefectível Almirante Aragão, do outro.
Seria tudo muito engraçado se nós também não nos tivéssemos transformado numa caricatura moderna daquela que antigamente já éramos. Hoje, nada mais parece nos impressionar. Pobres sempre fomos, mas, ao fim da Segunda Guerra, não era comum presenciarmos indivíduos disputando uma vaga para dormir debaixo de algum viaduto, ou para chegar primeiro na cata de restos de comida. A própria violência tornou-se mais violenta, gratuita e cruel.
Bolsonaro, um presidente treinado para matar e imune à dor alheia
Sabe quantas vezes Bolsonaro referiu-se pelo próprio nome ao indigenista Bruno Pereira e ao jornalista Dom Phillips desde que os dois desapareceram no último dia 5 e os seus corpos finalmente foram encontrados 11 dias depois?
Nenhuma. Repetindo: nenhuma vez Bolsonaro os chamou pelo próprio nome. Nem mesmo no comentário que fez ao pé da nota oficial da Funai publicada no Twitter lamentando a morte de Bruno. O comentário anódino limitou-se a duas linhas:
“Nossos sentimentos aos familiares e que Deus conforte o coração de todos”.
Familiares de quem? Sabe-se de quem porque o comentário está apenso à nota. Não fosse a morte do jornalista inglês, Bolsonaro não teria lamentado a de Bruno, como não lamentou a de Maxciel Pereira dos Santos, servidor da Funai, assassinado há dois anos.
Bolsonaro usou a expressão “esse inglês” para não dizer o nome de Dom Phillips, e “os dois” ou “ambos” para não dizer o nome deles. Comentou a nota da Funai porque foi aconselhado a fazê-lo por gente preocupada em que ele não ficasse totalmente mal na foto.
O que vai na mente escura e pantanosa do presidente do Brasil? O que o leva a não se importar com a vida dos outros? Verdade que ele foi treinado para matar, como já disse, e quem mata por profissão deve ser mais ou menos imune à dor que provoca.
“Morram os que tiverem de morrer”, ele disse durante a pandemia da Covid ao prescrever cloroquina para os que não quisessem ficar doentes. “Não sou coveiro.” Imitou uma pessoa arfando por falta de ar. Em Manaus, cerca de 30 morreram por falta de oxigênio.
Em 1998, como deputado federal, proclamou:
“Competente foi a cavalaria norte-americana que dizimou os índios no passado livrando-se de um problema”.
Eleito e empossado presidente, debochou:
“Dizem que a Dilma foi torturada e que fraturaram a mandíbula dela. Traz o raio X para a gente ver o calo ósseo. Olha que eu não sou médico, mas até hoje estou aguardando o raio X”.
O que o leva também a enxergar conspiração em tudo e no que não existe? De novo, sua formação militar. Sem inimigos, como os militares estariam prontos para ir à guerra em defesa do seu país? Os nossos não sabem o que é uma guerra há muito tempo.
Então, inventam inimigos internos para combater. Foi assim em 1964, quando suprimiram a democracia porque o comunismo a ameaçava. Contraditório, não? Sob o comando do ex-capitão, parte dos militares vê outra vez a democracia em perigo. Culpa do PT.
Antes de se eleger presidente, os generais tratavam Bolsonaro com o desdém reservado no passado às vivandeiras de quartéis. Agora, o exaltam com entusiasmo (nada a ver com o Viagra). Quem mudou? Os generais ou Bolsonaro? Os generais se rebaixaram.
Nenhuma. Repetindo: nenhuma vez Bolsonaro os chamou pelo próprio nome. Nem mesmo no comentário que fez ao pé da nota oficial da Funai publicada no Twitter lamentando a morte de Bruno. O comentário anódino limitou-se a duas linhas:
“Nossos sentimentos aos familiares e que Deus conforte o coração de todos”.
Familiares de quem? Sabe-se de quem porque o comentário está apenso à nota. Não fosse a morte do jornalista inglês, Bolsonaro não teria lamentado a de Bruno, como não lamentou a de Maxciel Pereira dos Santos, servidor da Funai, assassinado há dois anos.
Bolsonaro usou a expressão “esse inglês” para não dizer o nome de Dom Phillips, e “os dois” ou “ambos” para não dizer o nome deles. Comentou a nota da Funai porque foi aconselhado a fazê-lo por gente preocupada em que ele não ficasse totalmente mal na foto.
O que vai na mente escura e pantanosa do presidente do Brasil? O que o leva a não se importar com a vida dos outros? Verdade que ele foi treinado para matar, como já disse, e quem mata por profissão deve ser mais ou menos imune à dor que provoca.
“Morram os que tiverem de morrer”, ele disse durante a pandemia da Covid ao prescrever cloroquina para os que não quisessem ficar doentes. “Não sou coveiro.” Imitou uma pessoa arfando por falta de ar. Em Manaus, cerca de 30 morreram por falta de oxigênio.
Em 1998, como deputado federal, proclamou:
“Competente foi a cavalaria norte-americana que dizimou os índios no passado livrando-se de um problema”.
Eleito e empossado presidente, debochou:
“Dizem que a Dilma foi torturada e que fraturaram a mandíbula dela. Traz o raio X para a gente ver o calo ósseo. Olha que eu não sou médico, mas até hoje estou aguardando o raio X”.
O que o leva também a enxergar conspiração em tudo e no que não existe? De novo, sua formação militar. Sem inimigos, como os militares estariam prontos para ir à guerra em defesa do seu país? Os nossos não sabem o que é uma guerra há muito tempo.
Então, inventam inimigos internos para combater. Foi assim em 1964, quando suprimiram a democracia porque o comunismo a ameaçava. Contraditório, não? Sob o comando do ex-capitão, parte dos militares vê outra vez a democracia em perigo. Culpa do PT.
Antes de se eleger presidente, os generais tratavam Bolsonaro com o desdém reservado no passado às vivandeiras de quartéis. Agora, o exaltam com entusiasmo (nada a ver com o Viagra). Quem mudou? Os generais ou Bolsonaro? Os generais se rebaixaram.
É coveiro, sim
Em 2020, no auge da Covid, Jair Bolsonaro preferia passear de jet ski a visitar os hospitais abarrotados e solidarizar-se com os profissionais que arriscavam a vida. Enquanto brasileiros morriam por falta de oxigênio, Bolsonaro imitava uma pessoa lutando para respirar. Já então eram-lhe oferecidas vacinas, que ele desprezava em função da cloroquina. E, quando os cemitérios tiveram de abrir covas rasas para comportar milhares, ele celebrou essa tragédia com uma frase: "E daí? Não sou coveiro".
Agora Bolsonaro terá de ser coveiro. Está diante de dois mortos que o mundo não deixará insepultos: o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. Queira ou não, são seus mortos, assassinados pelos exploradores, traficantes e pistoleiros a quem ele entregou a Amazônia. Por "ele", leiam-se Bolsonaro ele mesmo, seu cínico vice-presidente Hamilton Mourão, presidente decorativo do Conselho Nacional da Amazônia, e o ex-ministro Ricardo "Boiada" Salles.
Bruno e Dom foram mortos a tiros, esquartejados, possivelmente incendiados e enterrados na floresta. Não se sabe a que se reduziram seus corpos —ou "remanescentes humanos", como foram chamados pelas autoridades. É insuportável imaginar que dois seres humanos, até há pouco na plenitude de suas forças e virtudes, sejam neste momento material de laboratório e, pior ainda, em Brasília, não muito longe do homem que os responsabilizou pela própria morte chamando-os de "aventureiros" e "excursionistas".
Seja o que tiver restado deles, mesmo que uma unha, terá de ser entregue às suas famílias e sepultado —Bruno, aqui mesmo, e Dom, quem sabe em seu país. Era o que Bolsonaro mais temia: a prova física do crime. A partir de agora, ninguém mais, em qualquer parte, poderá dizer que o desconhece.
Os coveiros da Covid eram heróis. O coveiro da Amazônia pode ser chamado de muita coisa — você escolhe.
Agora Bolsonaro terá de ser coveiro. Está diante de dois mortos que o mundo não deixará insepultos: o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. Queira ou não, são seus mortos, assassinados pelos exploradores, traficantes e pistoleiros a quem ele entregou a Amazônia. Por "ele", leiam-se Bolsonaro ele mesmo, seu cínico vice-presidente Hamilton Mourão, presidente decorativo do Conselho Nacional da Amazônia, e o ex-ministro Ricardo "Boiada" Salles.
Bruno e Dom foram mortos a tiros, esquartejados, possivelmente incendiados e enterrados na floresta. Não se sabe a que se reduziram seus corpos —ou "remanescentes humanos", como foram chamados pelas autoridades. É insuportável imaginar que dois seres humanos, até há pouco na plenitude de suas forças e virtudes, sejam neste momento material de laboratório e, pior ainda, em Brasília, não muito longe do homem que os responsabilizou pela própria morte chamando-os de "aventureiros" e "excursionistas".
Seja o que tiver restado deles, mesmo que uma unha, terá de ser entregue às suas famílias e sepultado —Bruno, aqui mesmo, e Dom, quem sabe em seu país. Era o que Bolsonaro mais temia: a prova física do crime. A partir de agora, ninguém mais, em qualquer parte, poderá dizer que o desconhece.
Os coveiros da Covid eram heróis. O coveiro da Amazônia pode ser chamado de muita coisa — você escolhe.
A Amazônia não é brasileira
São tolos e mal informados os que pensam que a Amazônia é brasileira. Não. A floresta não pertence ao Brasil ou Colômbia, Venezuela, Peru, Equador e Guianas. Sua imensidão territorial se estende por estes países e colônias, mas sua importância ultrapassa toda e qualquer fronteira. Parece que vai demorar muito ainda até que se perceba que para salvar o mundo será necessária uma política globalmente estruturada para defender a Amazônia. Pode ser tarde. Por ora, quem tenta proteger a floresta de seus algozes são homens bons como Bruno Pereira e Dom Phillips. E estes são sistematicamente sabotados por governos ou assassinados por pessoas com interesses contrariados.
O que Bruno e Dom buscavam não era uma utopia, um sonho, um ideal. Eles lutavam por uma causa possível. A Amazônia tem solução. A primeira e mais urgente é entender que, embora não se questione as soberanias dos países amazônicos sobre seus territórios, é fundamental que haja participação mundial na defesa da floresta. Participação com recursos, equipamentos e homens. Não se trata de um território qualquer. Ao contrário. A simples busca pelos corpos e do barco de Bruno e Dom mostrou como é intrincada e complexa a região. Tampouco se pode ignorar a sua dimensão.
Países como Brasil, Venezuela e Colômbia, que mal conseguem controlar o crime nas suas grandes cidades, tornam-se ainda mais impotentes diante da enormidade da floresta. Vejam os exemplos do tráfico e das milícias em comunidades como Alemão e Rio das Pedras, ou em Petare, a maior favela venezuelana. A Comuna 13, berço do traficante Pablo Escobar em Medellín, foi durante anos região inexpugnável pelo Estado colombiano. Se até aí os Estados nacionais ou locais são incapazes, imagine na Amazônia.
No caso do Brasil, além da falta de recursos, falta boa vontade do governo federal para agir contra os crimes cometidos na floresta e contra ela. Jair Bolsonaro é o maior incentivador da bandidagem instalada na Amazônia. O presidente defende garimpeiros, madeireiros, grileiros e os que querem expandir a fronteira agrícola para o interior da floresta. O mesmo presidente que defende o marco temporal para reduzir os territórios indígenas e ataca o Supremo dizendo que não acatará sua decisão se ela lhe contrariar.
Foram muitos os sinais em favor dos crimes e de criminosos ecológicos emitidos pelo governo Bolsonaro. Um dos mais eloquentes foi a fala do ex-ministro Ricardo Salles naquela reunião ministerial em que pediu que o presidente aproveitasse que o foco da imprensa estava na Covid para “passar a boiada”, desmontando onde fosse possível o arcabouço legal em favor do meio ambiente. Se grandes criminosos ambientais sentem-se confortados pela política do vale-tudo governamental, o mesmo ocorre com pés de chinelo como os irmãos Amarildo e Dos Santos, assassinos de Bruno e Dom.
Claro que Bolsonaro é culpado por estas mortes pelas razões expostas, mas é evidente também que crimes anteriores contra ativistas como o seringalista Chico Mendes e a irmã Dorothy Stang também devem ser atribuídos à frouxidão dos governos da sua época. O seringalista do Acre foi assassinado por outros dois pés de chinelo, o pequeno agricultor Darly Alves dos Santos e seu filho Darci. O assassinato da irmã em Anapu foi encomendado também por um pequeno fazendeiro que se sentia acima da lei.
Chico Mendes, que virou mártir e hoje empresta seu nome para um órgão do Ministério do Meio Ambiente (ICMbio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), morreu no governo Sarney, em 1988. Dorothy Stang foi assassinada ainda no primeiro mandato de Lula, em 2005. Obviamente, Lula e Sarney não estimulavam garimpeiros e madeireiros nem atacavam indígenas. Sarney demarcou 67 reservas e Lula, 79. Mas faltaram a ambos recursos, equipamentos e homens para defender estes territórios e a própria Amazônia. Por isso a importância de abrir a floresta a todos os que estiverem dispostos a trabalhar para salvar o mundo.
O que Bruno e Dom buscavam não era uma utopia, um sonho, um ideal. Eles lutavam por uma causa possível. A Amazônia tem solução. A primeira e mais urgente é entender que, embora não se questione as soberanias dos países amazônicos sobre seus territórios, é fundamental que haja participação mundial na defesa da floresta. Participação com recursos, equipamentos e homens. Não se trata de um território qualquer. Ao contrário. A simples busca pelos corpos e do barco de Bruno e Dom mostrou como é intrincada e complexa a região. Tampouco se pode ignorar a sua dimensão.
Países como Brasil, Venezuela e Colômbia, que mal conseguem controlar o crime nas suas grandes cidades, tornam-se ainda mais impotentes diante da enormidade da floresta. Vejam os exemplos do tráfico e das milícias em comunidades como Alemão e Rio das Pedras, ou em Petare, a maior favela venezuelana. A Comuna 13, berço do traficante Pablo Escobar em Medellín, foi durante anos região inexpugnável pelo Estado colombiano. Se até aí os Estados nacionais ou locais são incapazes, imagine na Amazônia.
No caso do Brasil, além da falta de recursos, falta boa vontade do governo federal para agir contra os crimes cometidos na floresta e contra ela. Jair Bolsonaro é o maior incentivador da bandidagem instalada na Amazônia. O presidente defende garimpeiros, madeireiros, grileiros e os que querem expandir a fronteira agrícola para o interior da floresta. O mesmo presidente que defende o marco temporal para reduzir os territórios indígenas e ataca o Supremo dizendo que não acatará sua decisão se ela lhe contrariar.
Foram muitos os sinais em favor dos crimes e de criminosos ecológicos emitidos pelo governo Bolsonaro. Um dos mais eloquentes foi a fala do ex-ministro Ricardo Salles naquela reunião ministerial em que pediu que o presidente aproveitasse que o foco da imprensa estava na Covid para “passar a boiada”, desmontando onde fosse possível o arcabouço legal em favor do meio ambiente. Se grandes criminosos ambientais sentem-se confortados pela política do vale-tudo governamental, o mesmo ocorre com pés de chinelo como os irmãos Amarildo e Dos Santos, assassinos de Bruno e Dom.
Claro que Bolsonaro é culpado por estas mortes pelas razões expostas, mas é evidente também que crimes anteriores contra ativistas como o seringalista Chico Mendes e a irmã Dorothy Stang também devem ser atribuídos à frouxidão dos governos da sua época. O seringalista do Acre foi assassinado por outros dois pés de chinelo, o pequeno agricultor Darly Alves dos Santos e seu filho Darci. O assassinato da irmã em Anapu foi encomendado também por um pequeno fazendeiro que se sentia acima da lei.
Chico Mendes, que virou mártir e hoje empresta seu nome para um órgão do Ministério do Meio Ambiente (ICMbio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), morreu no governo Sarney, em 1988. Dorothy Stang foi assassinada ainda no primeiro mandato de Lula, em 2005. Obviamente, Lula e Sarney não estimulavam garimpeiros e madeireiros nem atacavam indígenas. Sarney demarcou 67 reservas e Lula, 79. Mas faltaram a ambos recursos, equipamentos e homens para defender estes territórios e a própria Amazônia. Por isso a importância de abrir a floresta a todos os que estiverem dispostos a trabalhar para salvar o mundo.
sexta-feira, 17 de junho de 2022
Incompetência estratégica
“É uma região inóspita, afastada de tudo”, declarou o vice-presidente Hamilton Mourão, nove dias depois do desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, na Terra Indígena Vale do Javari. Mourão já se disse descendente de indígenas; ele é gaúcho de Porto Alegre, mas seu pai é amazonense. Hoje general da reserva, foi comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva em São Gabriel da Cachoeira (Amazonas), de 2005 a 2008, e preside há dois anos o Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL). Deveria saber que na região onde a dupla sumiu vivem mais de 190 mil pessoas. Como assim “inóspita”?
O Conselho Nacional da Amazônia Legal foi reativado em fevereiro de 2020, vinculado à vice-Presidência da República. Originalmente, o órgão foi criado em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, embora nunca tivesse mostrado ao que veio. Tudo leva a crer que devia ter continuado assim: as três missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) promovidas pelas Forças Armadas no combate a crimes ambientais na Amazônia consumiram R$ 550 milhões e não reduziram o desmatamento na maior floresta tropical do mundo. Muito ao contrário, só em maio último, foram abaixo 1.180km² de verde, a maior destruição para este mês desde 2016. Essa dinheirama equivale a quase seis vezes o orçamento do Ibama em 2020 para fiscalização e licenciamento ambientais, e gestão da biodiversidade.
Os militares também se aboletam na Funai: eles ocupam as chefias de 19 das 39 coordenações regionais da fundação, contra duas de servidores públicos, como o Bruno Pereira – as demais foram tomadas por policiais militares e federais, ou por funcionários de cargos comissionados. Desde 2017 já se sabia que o crime organizado estava tomando conta da região onde o jornalista e o indigenista desapareceram; *mas de lá para cá, a situação só piorou.
“As duas pessoas entram numa área que é perigosa sem pedir uma escolta, sem avisar efetivamente as autoridades competentes e passam a correr risco, né?”, disse Mourão sobre o episódio. “Se o lugar onde a gente trabalha é perigoso e precisa de escolta armada, tem uma coisa muito errada aí. E a culpa não é nossa”, rebateu a antropóloga Beatriz Matos, mulher de Bruno.
A autoproclamada eficiência militar virou lenda do Boitatá? Como esquecer a desastrosa passagem de outro general, Eduardo Pazuello, pelo Ministério da Saúde, no auge da pandemia de Covid-19? Considerado especialista em logística, esqueceu-se de abastecer os hospitais da capital amazonense com cilindros de oxigênio. Seu, digamos, descuido levou os hospitais da cidade a entrarem em colapso e pelo menos 31 pessoas à morte, em dois dias. Quando foi efetivado ministro da Saúde, em 16 de maio de 2020, o Brasil contabilizava 233 mil casos e 15.633 mortes por Covid-19; ele deixou o cargo em 15 de março do ano seguinte com mais de 11,5 milhões de infectados, e cerca de 280 mil mortos.
Depois de sair do Ministério da Saúde, Pazuello foi designado para chefiar a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Executivo. O que nos leva a pensar: será que não é incompetência, mas estratégia? Para Ailton Krenak, não há dúvida: “Quando os sujeitos do governo falam em preocupação acerca da soberania, eles ocultam a má intenção de entregar todo esse território e virar as costas para a morte de Yanomami, a violência contra o corpo de crianças indígenas, o ataque contra lideranças e defensores dos que estão sendo assassinados semanalmente”.
Não é a natureza hostil que oferece perigo no Vale do Javari, mas os invasores e sua ganância, que se espalham como ervas daninhas – com a indisfarçável negligência ou até cumplicidade do poder público. “Vemos agora o último assalto a uma região do mundo com muita riqueza”, reflete Krenak. O que fazer? O autor do best-seller “Ideias para adiar o fim do mundo” aconselha: “A coisa está virulenta. Não se sabe mais de onde pode sair um ataque. Mas a gente vai superar esse momento. Não dá para nos desencorajarmos. Precisamos não cultivar a mentira e não nos associarmos a versões fajutas da realidade”. Que a verdade seja a nossa arma.
O Conselho Nacional da Amazônia Legal foi reativado em fevereiro de 2020, vinculado à vice-Presidência da República. Originalmente, o órgão foi criado em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, embora nunca tivesse mostrado ao que veio. Tudo leva a crer que devia ter continuado assim: as três missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) promovidas pelas Forças Armadas no combate a crimes ambientais na Amazônia consumiram R$ 550 milhões e não reduziram o desmatamento na maior floresta tropical do mundo. Muito ao contrário, só em maio último, foram abaixo 1.180km² de verde, a maior destruição para este mês desde 2016. Essa dinheirama equivale a quase seis vezes o orçamento do Ibama em 2020 para fiscalização e licenciamento ambientais, e gestão da biodiversidade.
Os militares também se aboletam na Funai: eles ocupam as chefias de 19 das 39 coordenações regionais da fundação, contra duas de servidores públicos, como o Bruno Pereira – as demais foram tomadas por policiais militares e federais, ou por funcionários de cargos comissionados. Desde 2017 já se sabia que o crime organizado estava tomando conta da região onde o jornalista e o indigenista desapareceram; *mas de lá para cá, a situação só piorou.
“As duas pessoas entram numa área que é perigosa sem pedir uma escolta, sem avisar efetivamente as autoridades competentes e passam a correr risco, né?”, disse Mourão sobre o episódio. “Se o lugar onde a gente trabalha é perigoso e precisa de escolta armada, tem uma coisa muito errada aí. E a culpa não é nossa”, rebateu a antropóloga Beatriz Matos, mulher de Bruno.
A autoproclamada eficiência militar virou lenda do Boitatá? Como esquecer a desastrosa passagem de outro general, Eduardo Pazuello, pelo Ministério da Saúde, no auge da pandemia de Covid-19? Considerado especialista em logística, esqueceu-se de abastecer os hospitais da capital amazonense com cilindros de oxigênio. Seu, digamos, descuido levou os hospitais da cidade a entrarem em colapso e pelo menos 31 pessoas à morte, em dois dias. Quando foi efetivado ministro da Saúde, em 16 de maio de 2020, o Brasil contabilizava 233 mil casos e 15.633 mortes por Covid-19; ele deixou o cargo em 15 de março do ano seguinte com mais de 11,5 milhões de infectados, e cerca de 280 mil mortos.
Depois de sair do Ministério da Saúde, Pazuello foi designado para chefiar a Secretaria de Assuntos Estratégicos do Executivo. O que nos leva a pensar: será que não é incompetência, mas estratégia? Para Ailton Krenak, não há dúvida: “Quando os sujeitos do governo falam em preocupação acerca da soberania, eles ocultam a má intenção de entregar todo esse território e virar as costas para a morte de Yanomami, a violência contra o corpo de crianças indígenas, o ataque contra lideranças e defensores dos que estão sendo assassinados semanalmente”.
Não é a natureza hostil que oferece perigo no Vale do Javari, mas os invasores e sua ganância, que se espalham como ervas daninhas – com a indisfarçável negligência ou até cumplicidade do poder público. “Vemos agora o último assalto a uma região do mundo com muita riqueza”, reflete Krenak. O que fazer? O autor do best-seller “Ideias para adiar o fim do mundo” aconselha: “A coisa está virulenta. Não se sabe mais de onde pode sair um ataque. Mas a gente vai superar esse momento. Não dá para nos desencorajarmos. Precisamos não cultivar a mentira e não nos associarmos a versões fajutas da realidade”. Que a verdade seja a nossa arma.
Amazônia: holding do crime
Ali tem o Código Penal completo. Na verdade ali virou uma grande holding criminosa. Existe no crime organizado o fenômeno da convergência. Quem extrai madeira ilegal atua junto com o garimpeiro. O trafico de drogas começa a colaborar. O traficante vira madeireiro, o madeireiro vira traficanteAlexandre Saraiva, delegado da Polícia Federal
Dom e Bruno, vítimas de um Estado disfuncional
A Amazônia sempre foi um lugar perigoso para ativistas. Em 1988, Chico Mendes, líder sindical dos seringueiros, foi assassinado a tiros em Xapuri, no Acre. Em 2005, a religiosa Dorothy Stang, ativista social vinda dos Estados Unidos, foi morta em Anapu, no Pará. Outras dezenas de ativistas pagaram com a própria vida por lutarem contra a devastação da Amazônia e por uma sociedade mais justa no norte selvagem do Brasil.
Nesta quarta-feira, o presidente Jair Messias Bolsonaro mencionou Dorothy, dizendo que ninguém culpou o governo do PT pela morte de Dorothy Stang. Ele acha injustas as críticas que está recebendo pelos comentários infelizes que fez sobre Dom Phillips e Bruno Pereira, e pela situação precária de segurança no oeste amazônico.
Para começar, durante os governos de Lula e Dilma, havia SIM muitas críticas de ambientalistas e ativistas sociais em relação a como o governo petista tratava a Amazônia. "Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia", disse Dom Erwin Kräutler, em 2012, se referindo à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. O bispo do Xingu também cobrava o governo petista paraense pelo mau desempenho da Justiça estadual em resolver o caso de Dorothy.
Havia também muita frustração por parte do Movimento Sem Terra pelo lento avanço da reforma agrária na região Norte durante os governos petistas. Mas, por outro lado, o governo Lula teve em Marina Silva uma ministra do Meio Ambiente capaz de fortalecer os órgãos de fiscalização na região. Assim, as altas taxas de desmatamento começaram a cair, a partir do primeiro governo Lula, de quase 28 mil quilômetros quadrados por ano em 2004 para 4,5 mil em 2012.
Havia, naquela época, um discurso forte de vontade de preservar a Amazônia. E de pôr ordem na região. O governo Michel Temer abandonou, então, a preservação da floresta em troca de votos da bancada ruralista. Sem ela, Temer não teria terminado seu mandato. Com Bolsonaro, os ventos mudaram de vez. Desde que ele surgiu no cenário político, passou a espalhar seu veneno verbal contra indígenas, ativistas e movimentos sociais. Ele confunde políticas liberais com liberar geral – para garimpeiros, madeireiros, caçadores e fazendeiros.
A partir de 2018, ano em que Bolsonaro alcançou destaque nacional e se elegeu presidente, as viagens para a Amazônia mudaram. Encontramos garimpeiros sem medo da fiscalização, e, ao mesmo tempo, fiscais com medo dos garimpeiros. Cartazes de apoio a Bolsonaro são onipresentes na Amazônia, ao lado das fazendas onde se desmata e se queima a floresta sem medo de punições. Com o governo Bolsonaro, as multas ambientais se foram, levadas pela boiada.
A Amazônia virou uma terra sem lei. Abandonada pelo governo que deveria pôr ordem lá. Aliás, vale lembrar que Bruno Pereira tinha sido exonerado do seu cargo na Funai depois de organizar uma megaoperação contra garimpeiros. Aparentemente, um governo que se diz conservador e de direita não gosta de conservar nem de pôr ordem.
Assim, quem hoje em dia manda em regiões como o Vale do Javari são grupos criminosos, até internacionais, com narcotraficantes vindos do Peru, da Colômbia e da Venezuela fazendo negócios em terras brasileiras. Cadê o Exército brasileiro, que tanto fala da soberania sobre a Amazônia? Está, aparentemente, ocupado em fiscalizar urnas eletrônicas em vez de combater crimes. Cadê a ordem e o progresso?
Quantas vezes ouvimos o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, denunciar ONGs e ativistas estrangeiros por supostamente quererem roubar a Amazônia. Até suspeitava-se que Heleno teria mandado grampear bispos católicos antes do Sínodo sobre a Amazônia, em 2019. Errou o alvo. Buscou comunistas atrás das árvores, mas não viu os narcotraficantes.
Os inimigos do país não são os bispos, nem os fiscais, nem os ativistas ambientaos ou os indígenas. É o crime organizado, que, sob o governo Bolsonaro, se sente livre para se expandir. Não só na Amazônia, aliás, mas também em cidades como Rio de Janeiro, onde cada vez mais áreas estão sob o domínio da milícia.
O Brasil nunca será uma Venezuela, repete Bolsonaro. Bom, pode não ser uma Venezuela, mas cada vez mais, o Brasil parece estar a caminho de se tornar um narco-Estado como o México ou a Colômbia. Uma terra sem lei.
Dom Phillips e Bruno Pereira lutavam contra essa degradação do Brasil. Tarefa que deveria ser do próprio Bolsonaro e seu governo. Por seus serviços pelo Brasil, Dom e Bruno ganharam nada menos que o desprezo presidencial.
Thomas Milz
Nesta quarta-feira, o presidente Jair Messias Bolsonaro mencionou Dorothy, dizendo que ninguém culpou o governo do PT pela morte de Dorothy Stang. Ele acha injustas as críticas que está recebendo pelos comentários infelizes que fez sobre Dom Phillips e Bruno Pereira, e pela situação precária de segurança no oeste amazônico.
Para começar, durante os governos de Lula e Dilma, havia SIM muitas críticas de ambientalistas e ativistas sociais em relação a como o governo petista tratava a Amazônia. "Lula e Dilma passarão para a História como predadores da Amazônia", disse Dom Erwin Kräutler, em 2012, se referindo à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. O bispo do Xingu também cobrava o governo petista paraense pelo mau desempenho da Justiça estadual em resolver o caso de Dorothy.
Havia também muita frustração por parte do Movimento Sem Terra pelo lento avanço da reforma agrária na região Norte durante os governos petistas. Mas, por outro lado, o governo Lula teve em Marina Silva uma ministra do Meio Ambiente capaz de fortalecer os órgãos de fiscalização na região. Assim, as altas taxas de desmatamento começaram a cair, a partir do primeiro governo Lula, de quase 28 mil quilômetros quadrados por ano em 2004 para 4,5 mil em 2012.
Havia, naquela época, um discurso forte de vontade de preservar a Amazônia. E de pôr ordem na região. O governo Michel Temer abandonou, então, a preservação da floresta em troca de votos da bancada ruralista. Sem ela, Temer não teria terminado seu mandato. Com Bolsonaro, os ventos mudaram de vez. Desde que ele surgiu no cenário político, passou a espalhar seu veneno verbal contra indígenas, ativistas e movimentos sociais. Ele confunde políticas liberais com liberar geral – para garimpeiros, madeireiros, caçadores e fazendeiros.
A partir de 2018, ano em que Bolsonaro alcançou destaque nacional e se elegeu presidente, as viagens para a Amazônia mudaram. Encontramos garimpeiros sem medo da fiscalização, e, ao mesmo tempo, fiscais com medo dos garimpeiros. Cartazes de apoio a Bolsonaro são onipresentes na Amazônia, ao lado das fazendas onde se desmata e se queima a floresta sem medo de punições. Com o governo Bolsonaro, as multas ambientais se foram, levadas pela boiada.
A Amazônia virou uma terra sem lei. Abandonada pelo governo que deveria pôr ordem lá. Aliás, vale lembrar que Bruno Pereira tinha sido exonerado do seu cargo na Funai depois de organizar uma megaoperação contra garimpeiros. Aparentemente, um governo que se diz conservador e de direita não gosta de conservar nem de pôr ordem.
Assim, quem hoje em dia manda em regiões como o Vale do Javari são grupos criminosos, até internacionais, com narcotraficantes vindos do Peru, da Colômbia e da Venezuela fazendo negócios em terras brasileiras. Cadê o Exército brasileiro, que tanto fala da soberania sobre a Amazônia? Está, aparentemente, ocupado em fiscalizar urnas eletrônicas em vez de combater crimes. Cadê a ordem e o progresso?
Quantas vezes ouvimos o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, denunciar ONGs e ativistas estrangeiros por supostamente quererem roubar a Amazônia. Até suspeitava-se que Heleno teria mandado grampear bispos católicos antes do Sínodo sobre a Amazônia, em 2019. Errou o alvo. Buscou comunistas atrás das árvores, mas não viu os narcotraficantes.
Os inimigos do país não são os bispos, nem os fiscais, nem os ativistas ambientaos ou os indígenas. É o crime organizado, que, sob o governo Bolsonaro, se sente livre para se expandir. Não só na Amazônia, aliás, mas também em cidades como Rio de Janeiro, onde cada vez mais áreas estão sob o domínio da milícia.
O Brasil nunca será uma Venezuela, repete Bolsonaro. Bom, pode não ser uma Venezuela, mas cada vez mais, o Brasil parece estar a caminho de se tornar um narco-Estado como o México ou a Colômbia. Uma terra sem lei.
Dom Phillips e Bruno Pereira lutavam contra essa degradação do Brasil. Tarefa que deveria ser do próprio Bolsonaro e seu governo. Por seus serviços pelo Brasil, Dom e Bruno ganharam nada menos que o desprezo presidencial.
Thomas Milz
quinta-feira, 16 de junho de 2022
Governo parece aceitar uma Amazônia sob domínio de criminosos
No segundo mês de mandato, Jair Bolsonaro mandou avisar que estava declarando "guerra ao crime organizado". O presidente enviou ao Congresso uma mensagem que replicava o marketing da campanha eleitoral e dizia que o governo não teria "pena nem medo de criminoso".
O próprio Bolsonaro faz questão de desmoralizar esse esforço fajuto de propaganda –com os típicos traços de crueldade de seu discurso. Nesta quarta (15), o presidente praticamente responsabilizou o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips por terem desaparecido na Amazônia.
Bolsonaro disse que a dupla fazia "uma excursão" pelo Vale do Javari e apontou que os dois ficaram em perigo porque "resolveram entrar numa área completamente inóspita sozinhos, sem segurança". Como se os assassinos não fossem os únicos culpados, ele acrescentou que era "muito temerário" andar pela região sem estar preparado.
O monitoramento da Amazônia é um desafio para qualquer governo, mas Bolsonaro abriu mão de qualquer empenho. Ele reconheceu que grupos criminosos circulam livremente na região e afirmou que Pereira e Phillips podem ter sido mortos porque incomodavam quem pratica atividades ilegais. "Lá tem tudo o que se possa imaginar", disse.
Dias antes, o vice-presidente Hamilton Mourão havia usado o mesmo tom resignado para falar daquele pedaço da Amazônia. "É uma região inóspita, afastada de tudo", descreveu. "Do lado peruano, uma série de ilegalidades acontecem. Do nosso lado, também. As duas pessoas entram numa área que é perigosa sem pedir uma escolta, sem avisar efetivamente as autoridades competentes, e passam a correr risco, né?"
Mourão e Bolsonaro preferiram não lembrar que a ocupação da área pelo crime organizado também é consequência de décadas de ausência do Estado. Um governo que diz defender a todo custo a soberania e a proteção do território parece mais do que conformado em ver a Amazônia como uma terra sem lei.
O próprio Bolsonaro faz questão de desmoralizar esse esforço fajuto de propaganda –com os típicos traços de crueldade de seu discurso. Nesta quarta (15), o presidente praticamente responsabilizou o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips por terem desaparecido na Amazônia.
Bolsonaro disse que a dupla fazia "uma excursão" pelo Vale do Javari e apontou que os dois ficaram em perigo porque "resolveram entrar numa área completamente inóspita sozinhos, sem segurança". Como se os assassinos não fossem os únicos culpados, ele acrescentou que era "muito temerário" andar pela região sem estar preparado.
O monitoramento da Amazônia é um desafio para qualquer governo, mas Bolsonaro abriu mão de qualquer empenho. Ele reconheceu que grupos criminosos circulam livremente na região e afirmou que Pereira e Phillips podem ter sido mortos porque incomodavam quem pratica atividades ilegais. "Lá tem tudo o que se possa imaginar", disse.
Dias antes, o vice-presidente Hamilton Mourão havia usado o mesmo tom resignado para falar daquele pedaço da Amazônia. "É uma região inóspita, afastada de tudo", descreveu. "Do lado peruano, uma série de ilegalidades acontecem. Do nosso lado, também. As duas pessoas entram numa área que é perigosa sem pedir uma escolta, sem avisar efetivamente as autoridades competentes, e passam a correr risco, né?"
Mourão e Bolsonaro preferiram não lembrar que a ocupação da área pelo crime organizado também é consequência de décadas de ausência do Estado. Um governo que diz defender a todo custo a soberania e a proteção do território parece mais do que conformado em ver a Amazônia como uma terra sem lei.
Na Amazônia, o coração das trevas
O assassinato dos heróis amazônidas Bruno Pereira e Don Philipps (já se deve falar assim) em plena atividade nas investigações que realizavam sobre atividades ilegais nas remotas regiões do vale do Javari no extremo oeste da Amazônia, além da comoção mundial que suscitou, trouxe para nós com evidência solar o projeto de capitalismo pirata que serve de bússola de orientação do governo Bolsonaro, apresentado sem subterfúgios em reunião ministerial de infausta memória nos idos de junho.
Foi nela que se alardeou o programa de desmatamento sistemático da floresta para fins de expansão do agronegócio, abrindo passagem para a boiada, na expressão do seu ministro do Meio Ambiente, na presença patibular da sua ministra da Agricultura, quando também foram ouvidas manifestações escandalosas de teor predatório das nossas instituições e dos valores cultivados por que há de melhor em nossas tradições nacionais.
O que o país e o mundo não sabiam até o desfecho trágico do assassinato dos amazônidas Bruno e Don era que havia homens com têmpera de heróis que, mesmo desprotegidos e desprovidos de recursos, porfiavam em defesa da floresta e dos seus povos enfrentando riscos mortais, denunciando, mesmo que com baixo poder de vocalização à opinião pública, nacional e estrangeira, os crimes de lesa pátria que ali se praticavam.
A execução criminosa deles destampou para horror universal – alguém já lembrou propósito o Coração das Trevas de J.Conrad – a crueldade a que estavam expostos os naturais da região, particularmente os indígenas, objetos da exploração predatória exercida por uma rede de pequenos interesses que estavam na ponta a serviço de grossos interesses capitalistas, envolvendo inclusive setores do narcotráfico e da traficância de armas, em movimentos expansivos que visavam por sob controle grande parte dos imensos recursos naturais ali disponíveis.
A ocupação criminal daquela região não pode ser encoberta pela razão cínica de que ali o Estado estava a léguas de distância, embora ele contasse com um histórico de presença, mesmo que rudimentar, malbaratada que foi pela ação do governo Bolsonaro em sua política de abrir uma estrada real para a passagem de boiadas, pastos, mineração, das madeireiras e tudo que pudesse ser convertido em objeto de lucro pela ação de caçadores da fortuna, agentes da livre iniciativa na linguagem do nosso governante, num capitalismo flibusteiro renomeado com o solene nome de defesa da soberania nacional.
Será desse lugar remoto da floresta que pela ação destemida de intelectuais locais aliados a indígenas e a segmentos da população amazônida, conscientes da necessidade de interlocução com a opinião pública nacional e estrangeira e com círculos universitários, especialmente os vinculados às universidades da Amazônia, que vai ter partida o movimento até então o mais significativo, pela ressonância externa e interna que provoca, na estratégica questão ambiental para a democracia brasileira.
Dali desvela-se a trama que põe a nu as redes dos interesses do nosso capitalismo autoritário, na antiga conceituação do antropólogo Octávio Velho, cujas raízes estiveram e estão radicadas no mundo agrário solidamente defendidas pelos aparelhos repressivos à disposição dos movimentos expansivos do capital entre nós. Emancipar a região das fronteiras amazônicas do crime organizado, protegê-la por um Estado democrático no que pode vir a ser a missão da iniciativa atual do Senado em instituir uma comissão para averiguar o que se passa no vale do Javari, pois que é de lá que deveremos decifrar o projeto sinistro em curso de assentar no país uma nova floração para o capitalismo autoritário.
O trágico episódio que vitimou nossos bravos amazônidas, trazendo para o centro da agenda do mundo civilizado os temas dominantes no cotidiano de resistência em que viviam, é exemplar do papel transformador que a convicção fundada nos ideais de justiça é capaz de operar.
Foi nela que se alardeou o programa de desmatamento sistemático da floresta para fins de expansão do agronegócio, abrindo passagem para a boiada, na expressão do seu ministro do Meio Ambiente, na presença patibular da sua ministra da Agricultura, quando também foram ouvidas manifestações escandalosas de teor predatório das nossas instituições e dos valores cultivados por que há de melhor em nossas tradições nacionais.
O que o país e o mundo não sabiam até o desfecho trágico do assassinato dos amazônidas Bruno e Don era que havia homens com têmpera de heróis que, mesmo desprotegidos e desprovidos de recursos, porfiavam em defesa da floresta e dos seus povos enfrentando riscos mortais, denunciando, mesmo que com baixo poder de vocalização à opinião pública, nacional e estrangeira, os crimes de lesa pátria que ali se praticavam.
A execução criminosa deles destampou para horror universal – alguém já lembrou propósito o Coração das Trevas de J.Conrad – a crueldade a que estavam expostos os naturais da região, particularmente os indígenas, objetos da exploração predatória exercida por uma rede de pequenos interesses que estavam na ponta a serviço de grossos interesses capitalistas, envolvendo inclusive setores do narcotráfico e da traficância de armas, em movimentos expansivos que visavam por sob controle grande parte dos imensos recursos naturais ali disponíveis.
A ocupação criminal daquela região não pode ser encoberta pela razão cínica de que ali o Estado estava a léguas de distância, embora ele contasse com um histórico de presença, mesmo que rudimentar, malbaratada que foi pela ação do governo Bolsonaro em sua política de abrir uma estrada real para a passagem de boiadas, pastos, mineração, das madeireiras e tudo que pudesse ser convertido em objeto de lucro pela ação de caçadores da fortuna, agentes da livre iniciativa na linguagem do nosso governante, num capitalismo flibusteiro renomeado com o solene nome de defesa da soberania nacional.
Será desse lugar remoto da floresta que pela ação destemida de intelectuais locais aliados a indígenas e a segmentos da população amazônida, conscientes da necessidade de interlocução com a opinião pública nacional e estrangeira e com círculos universitários, especialmente os vinculados às universidades da Amazônia, que vai ter partida o movimento até então o mais significativo, pela ressonância externa e interna que provoca, na estratégica questão ambiental para a democracia brasileira.
Dali desvela-se a trama que põe a nu as redes dos interesses do nosso capitalismo autoritário, na antiga conceituação do antropólogo Octávio Velho, cujas raízes estiveram e estão radicadas no mundo agrário solidamente defendidas pelos aparelhos repressivos à disposição dos movimentos expansivos do capital entre nós. Emancipar a região das fronteiras amazônicas do crime organizado, protegê-la por um Estado democrático no que pode vir a ser a missão da iniciativa atual do Senado em instituir uma comissão para averiguar o que se passa no vale do Javari, pois que é de lá que deveremos decifrar o projeto sinistro em curso de assentar no país uma nova floração para o capitalismo autoritário.
O trágico episódio que vitimou nossos bravos amazônidas, trazendo para o centro da agenda do mundo civilizado os temas dominantes no cotidiano de resistência em que viviam, é exemplar do papel transformador que a convicção fundada nos ideais de justiça é capaz de operar.
Quem Bolsonaro culpa pela morte de Bruno Pereira e Dom Phillips
Garimpeiros ilegais que roubam a riqueza das reservas indígenas? Ele já foi um deles quando era soldado. Sempre os elogia. Garimpeiros, legais ou ilegais, votam em Bolsonaro.
Pescadores ilegais que contrabandeiam milhares de toneladas de peixes para países vizinhos? O Ibama finge que não os vê. Votam em Bolsonaro, assim como milicianos, traficantes.
Grileiros de terras indígenas demarcadas ou não? Grileiros de quaisquer tipos de terra na Amazônia? Essa gente sabe ser agradecida. Bolsonaro é seu padrinho, e por isso vota nele.
Desmatadores que trabalham para empresas nacionais ou internacionais, não ganham lá grande coisa, mas o que ganham dá para viver? Bolsonaro anistia suas multas. Eles votam nele.
O crime organizado, nacional e transnacional, que hoje atua em boa parte da Amazônia de vez que a presença do Estado é nenhuma? Por que Bolsonaro o culparia? São parceiros.
Descarte-se os militares. São poucos. Os oficiais contam os dias que faltam para sair dali. Sonham com postos no litoral. Dizem que a Amazônia é nossa, mas sabem que não é. Apoiam Bolsonaro.
Vou dar uma pista de quem Bolsonaro culpa pela morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, radicado no Brasil há muito tempo, casado com uma brasileira.
Na Flórida, Estados Unidos, depois de pedir ao presidente Joe Biden ajuda americana para se reeleger, Bolsonaro disse ao comentar o 7º dia de buscas aos dois desaparecidos:
“Eles, quando partiram, as informações que temos é que não foi acertado com a Funai. Acontece, né. As pessoas abusam, né”.
Quer outra pista para descobrir a resposta à pergunta sobre quem Bolsonaro aponta como responsável pelo assassinato bárbaro dos dois? Lá vai. Há 48 horas, Bolsonaro declarou:
“Já se levanta o comportamento deles na área, se era querido ou não. Lamento terem saído da forma como saíram, duas pessoas em terras desprotegidas. Tudo tem ali, até pirata”.
Última pista antes da revelação que você intui ou já sabe: ontem à tarde, a poucas horas de agentes federais descobrirem aonde estavam enterrados pedaços dos corpos, Bolsonaro disse:
“Um inglês e um brasileiro que sabiam dos perigos da região. […] Estão me culpando agora. Quando mataram a Dorothy Stang ninguém culpou o governo, era de esquerda”.
Bingo! Sim, Bolsonaro culpou Bruno Pereira e Dom Phillips pela própria morte. Não poderia ter sido mais claro ao dizer por fim:
“Esse inglês era malvisto, fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental, então, naquela região que é bastante isolada, muita gente não gostava dele. Ele tinha que ter mais que redobrada atenção para consigo próprio e resolveu fazer uma excursão.”
Fique sabendo o mundo que quem defende a Amazônia corre risco de morrer no Brasil de Jair Messias Bolsonaro.
Pescadores ilegais que contrabandeiam milhares de toneladas de peixes para países vizinhos? O Ibama finge que não os vê. Votam em Bolsonaro, assim como milicianos, traficantes.
Grileiros de terras indígenas demarcadas ou não? Grileiros de quaisquer tipos de terra na Amazônia? Essa gente sabe ser agradecida. Bolsonaro é seu padrinho, e por isso vota nele.
Desmatadores que trabalham para empresas nacionais ou internacionais, não ganham lá grande coisa, mas o que ganham dá para viver? Bolsonaro anistia suas multas. Eles votam nele.
O crime organizado, nacional e transnacional, que hoje atua em boa parte da Amazônia de vez que a presença do Estado é nenhuma? Por que Bolsonaro o culparia? São parceiros.
Descarte-se os militares. São poucos. Os oficiais contam os dias que faltam para sair dali. Sonham com postos no litoral. Dizem que a Amazônia é nossa, mas sabem que não é. Apoiam Bolsonaro.
Vou dar uma pista de quem Bolsonaro culpa pela morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, radicado no Brasil há muito tempo, casado com uma brasileira.
Na Flórida, Estados Unidos, depois de pedir ao presidente Joe Biden ajuda americana para se reeleger, Bolsonaro disse ao comentar o 7º dia de buscas aos dois desaparecidos:
“Eles, quando partiram, as informações que temos é que não foi acertado com a Funai. Acontece, né. As pessoas abusam, né”.
Quer outra pista para descobrir a resposta à pergunta sobre quem Bolsonaro aponta como responsável pelo assassinato bárbaro dos dois? Lá vai. Há 48 horas, Bolsonaro declarou:
“Já se levanta o comportamento deles na área, se era querido ou não. Lamento terem saído da forma como saíram, duas pessoas em terras desprotegidas. Tudo tem ali, até pirata”.
Última pista antes da revelação que você intui ou já sabe: ontem à tarde, a poucas horas de agentes federais descobrirem aonde estavam enterrados pedaços dos corpos, Bolsonaro disse:
“Um inglês e um brasileiro que sabiam dos perigos da região. […] Estão me culpando agora. Quando mataram a Dorothy Stang ninguém culpou o governo, era de esquerda”.
Bingo! Sim, Bolsonaro culpou Bruno Pereira e Dom Phillips pela própria morte. Não poderia ter sido mais claro ao dizer por fim:
“Esse inglês era malvisto, fazia muita matéria contra garimpeiros, questão ambiental, então, naquela região que é bastante isolada, muita gente não gostava dele. Ele tinha que ter mais que redobrada atenção para consigo próprio e resolveu fazer uma excursão.”
Fique sabendo o mundo que quem defende a Amazônia corre risco de morrer no Brasil de Jair Messias Bolsonaro.
quarta-feira, 15 de junho de 2022
Demos o golpe, e agora?
Num exercício de quiromancia política, pode-se dizer que são mínimas as chances de um golpe nos dias seguintes a uma possível vitória de Lula nas próximas eleições. Mesmo assim, essa afirmação é temerária quando o presidente da República sopra ventos golpistas, e o ministro da Defesa, ex-comandante do Exército, repreende o Tribunal Superior Eleitoral.
Admita-se, portanto, que existem pessoas preferindo um golpe. Para quê?
Em 1968, quando o general Costa e Silva baixou o Ato Institucional nº 5, o Brasil vivia um raro processo de radicalização. Grupos armados de esquerda praticavam atos terroristas. Pelo menos 11 bancos foram assaltados. Em junho, seis meses antes da edição do AI-5, um hospital militar foi atacado, e uma bomba explodiu diante do Quartel-General do Exército em São Paulo, matando um soldado. Em julho, terroristas executaram um major alemão supondo que ele era um oficial boliviano. Em outubro, foi assassinado um capitão americano que vivia em São Paulo.
Noutra ponta, com o terrorismo da direita, militares lotados no Centro de Informações do Exército punham bombas em teatros e livrarias vazias. Espancavam-se atores, e um maluco que se dizia ligado a um general praticou pelo menos 14 atentados em São Paulo. Quatro pessoas foram sequestradas no Rio e levadas clandestinamente para quartéis.
Esse clima não existe hoje. Também não existem os sinais de recuperação da economia, prenunciando o que viria a ser o Milagre Brasileiro.
Recuando um pouco mais, chega-se a 1964, quando um governo ruinoso associou-se à indisciplina militar de marinheiros rebelados. Isso não existe hoje. Acima de tudo, não existe o projeto de uma elite autoritária, porém cosmopolita e reformista. Sabendo o que fazia, o general Castello Branco entregou a gestão da economia a Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões.
Hoje, o que há no bufê é um presidente que, depois de flertar com a indisciplina de policiais militares, demitiu três presidentes da Petrobras para derrubar o preço dos combustíveis, e um ministro da Economia que, com uma inflação de dois dígitos, sugere o congelamento voluntário de preços aos supermercados.
Existem pessoas que flertam com um golpe. Para fazer o quê? O que está na mesa é um autoritarismo retrógrado que, pela força da gravidade, se aproximará do velho salvacionismo latino-americano. O coronel Hugo Chávez era um oficial moralista e aventuroso. Eleito presidente, inventou o bolivarianismo, e deu no que deu.
A carta dos golpes do século passado saiu do baralho. Vale lembrar o que escreveu o general Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 20 de março de 1964:
— Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos. Destinam-se a garantir os poderes constitucionais e sua coexistência.
(Naquele tempo, não existiam milícias nas cidades e nas matas do Brasil. Hoje, as milícias dominam bairros em algumas cidades e associam-se ao crime na Amazônia, infiltrando-se na agenda dos agrotrogloditas.)
Como disse o general Hamilton Mourão em julho de 2018, quando o ex-capitão Jair Bolsonaro cavalgava os sonhos da direita nacional: “Existe certo radicalismo nas ideias, até meio boçal”.
Passaram quatro anos, e a boçalidade avançou.
Admita-se, portanto, que existem pessoas preferindo um golpe. Para quê?
Em 1968, quando o general Costa e Silva baixou o Ato Institucional nº 5, o Brasil vivia um raro processo de radicalização. Grupos armados de esquerda praticavam atos terroristas. Pelo menos 11 bancos foram assaltados. Em junho, seis meses antes da edição do AI-5, um hospital militar foi atacado, e uma bomba explodiu diante do Quartel-General do Exército em São Paulo, matando um soldado. Em julho, terroristas executaram um major alemão supondo que ele era um oficial boliviano. Em outubro, foi assassinado um capitão americano que vivia em São Paulo.
Noutra ponta, com o terrorismo da direita, militares lotados no Centro de Informações do Exército punham bombas em teatros e livrarias vazias. Espancavam-se atores, e um maluco que se dizia ligado a um general praticou pelo menos 14 atentados em São Paulo. Quatro pessoas foram sequestradas no Rio e levadas clandestinamente para quartéis.
Esse clima não existe hoje. Também não existem os sinais de recuperação da economia, prenunciando o que viria a ser o Milagre Brasileiro.
Recuando um pouco mais, chega-se a 1964, quando um governo ruinoso associou-se à indisciplina militar de marinheiros rebelados. Isso não existe hoje. Acima de tudo, não existe o projeto de uma elite autoritária, porém cosmopolita e reformista. Sabendo o que fazia, o general Castello Branco entregou a gestão da economia a Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões.
Hoje, o que há no bufê é um presidente que, depois de flertar com a indisciplina de policiais militares, demitiu três presidentes da Petrobras para derrubar o preço dos combustíveis, e um ministro da Economia que, com uma inflação de dois dígitos, sugere o congelamento voluntário de preços aos supermercados.
Existem pessoas que flertam com um golpe. Para fazer o quê? O que está na mesa é um autoritarismo retrógrado que, pela força da gravidade, se aproximará do velho salvacionismo latino-americano. O coronel Hugo Chávez era um oficial moralista e aventuroso. Eleito presidente, inventou o bolivarianismo, e deu no que deu.
A carta dos golpes do século passado saiu do baralho. Vale lembrar o que escreveu o general Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 20 de março de 1964:
— Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos. Destinam-se a garantir os poderes constitucionais e sua coexistência.
(Naquele tempo, não existiam milícias nas cidades e nas matas do Brasil. Hoje, as milícias dominam bairros em algumas cidades e associam-se ao crime na Amazônia, infiltrando-se na agenda dos agrotrogloditas.)
Como disse o general Hamilton Mourão em julho de 2018, quando o ex-capitão Jair Bolsonaro cavalgava os sonhos da direita nacional: “Existe certo radicalismo nas ideias, até meio boçal”.
Passaram quatro anos, e a boçalidade avançou.
Enquanto corria a barca de Niterói para o Rio
Em memória de Moraes Moreira e para Edson Nunes
Andei muito de bicicleta, bonde, ônibus, trem e — acreditem — cavalo e mula, mas, acima de tudo, de barca.
A barca com duas frentes (ferryboat) que ligava Niterói ao Rio, mas que nós, niteroienses, concebíamos mais como nos ligando ao Rio de Janeiro, que era a capital da República.
“Pegar a barca para o Rio” era visitar o melhor do Brasil. Voltar para Niterói era retornar ao lado pequeno da Cidade Maravilhosa.
Ir ao Rio e voltar a Niterói salientava a emoção entre o “estar em casa” e o “sair de casa” e esperar inseguro uma condução.
A antiga divisão central entre os espaços de senhores e escravos — ambos, porém, submetidos a um sistema do mais ou menos nobre — fez com que a rua e seus pontos de mobilidade, as “paradas” de bonde e ônibus e a estação das barcas, no caso niteroiense, fossem — como continuam sendo — lugares de ansiedade.
Quando fui ao Rio sozinho pela primeira vez, recebi uma bíblia de conselhos relativos aos perigos dos espaços abertos onde não se é conhecido. Neles, “tudo pode acontecer” e “se pode encontrar qualquer um”. Em espaços de extremado anonimato e sem saber quem é quem, corre-se o risco da “falta de educação” ou de coisa muito pior. E depois ficamos espantados com o “você sabe com quem está falando?” e as balas perdidas...
No caso das barcas, um comportamento tipo “salve-se quem puder” era rotineiro quando os portões se abriam. Havia uma corrida para a barca, cuja fila existia apenas na compra da passagem. Lembro-me da sofreguidão para encontrar lugar em barcas muitas vezes vazias.
O traço distintivo de ir ao Rio era que a cidade só permitia por mar a passagem entre casa e rua, entre o mundo gratuito da casa e o universo do trabalho da rua. Não havia meios alternativos, e a dependência da barca era total, o que fazia com que a distância Niterói-Rio fosse social e simbolicamente acentuada.
Felizmente, foram tempos passados. Hoje, os engarrafamentos da Ponte e a infernal ausência de transporte público tornaram tudo pior.
Todos esses gargalos provocaram uma revolta que muitos pensaram ser o estopim de uma revolução nessa então ansiosa, mas pacata, estação das barcas da Praça Arariboia de Niterói.
Num estudo clássico de Edson Nunes, “A Revolta das Barcas: populismo, violência e conflito político” (que tive o prazer de prefaciar), revela-se detalhadamente como esse local de passagem transformou-se em praça de guerra na manhã de sexta-feira, dia 22 de maio de 1959.
Notei uma aglomeração naquele dia ao descer do ônibus de Icaraí que me levou às “barcas” — de onde eu seguiria de lotação para a Cancela (São Cristóvão), cruzando a pé a Quinta da Boa Vista para o Museu Nacional (que pegou fogo), onde, na então Divisão de Antropologia, eu iniciava um estágio com os professores Castro Faria e Roberto Cardoso de Oliveira. Imediatamente me avisaram que havia uma greve, e estavam faltando barcas para o transporte regular dos milhares de passageiros. Voltei para casa e segui como pude a rebelião.
Rebelião que muitos esperavam fosse o estopim de uma revolução socialista, e outros tomavam como mera rebeldia e abuso “do povo”, incentivado por “elementos políticos” estranhos ao espírito nacional.
Foi esse evento violento — um “quebra-quebra” — que Edson Nunes revela como sendo tecido, além do perene problema do transporte urbano, por forças políticas que envolviam sindicatos grevistas e governantes. Estes, pertencendo a coligações partidárias com ideologias opostas, tiveram que assistir, abafar e resolver.
O estudo revela como essa ambiguidade promoveu uma paralisação que culminou na estatização dos serviços e num ataque, com laivos de uma inversão carnavalesca, à residência dos proprietários das barcas. Depois de infindáveis reuniões, os órgãos oficiais restabeleceram esse serviço essencial e exclusivo. Depois da revolta em que todos ganharam, menos o usuário-cidadão — o povo —, esse eterno perdedor no Brasil.
Roberto DaMatta
O faminto
Era uma vez um faminto. Passando um dia diante de uma morada singularmente grande, ele se dirigiu às pessoas que se aglomeravam nos degraus da escadaria, perguntando a quem pertencia aquele palácio. “A um rei dos povos, o mais poderoso do Universo” responderam. O faminto foi então até os guardiães postados no pórtico de entrada e pediu uma esmola em nome de Deus. “Donde vens tu?” perguntaram os guardiães, “então não sabes que basta te apresentares ao nosso amo e senhor para teres tudo quanto desejas?” Animado pela resposta, o faminto, embora um tanto ressabiado, transpôs o pórtico, atravessou o pátio espaçoso que se seguia à entrada, assim como o jardim sombreado de vigorosas árvores, e logo alcançou o interior do palácio, passando de aposento em aposento, todos grandes, de paredes muito altas, mas despojados de qualquer mobília; sem se deixar perder no labirinto daquela estranha moradia, ele acabou por chegar a uma ampla sala revestida de azulejos decorados com desenhos de flores e folhagens que compunham agradavelmente com a enorme taça de alabastro plantada no meio da peça, de onde jorrava água fresca e docemente rumorejante; um tapete de veludo bordado com arabescos cobria parte desta sala, onde, recostado em almofadas, estava sentado um ancião de suaves barbas brancas, a face iluminada por um sorriso benigno. O faminto avançou para o ancião de barbas formosas, saudando-o: “Que a paz esteja contigo!” “E contigo a paz, a misericórdia e as bênçãos de Deus!” respondeu o ancião inclinando ligeiramente a fronte. “Que desejas, pobre homem?” “Ó meu senhor e amo, peço-te uma esmola em nome de Deus, pois estou tão necessitado a ponto de cair de fome.” “Por Deus!” exclamou o ancião “é possível que eu esteja numa cidade onde um ser humano tenha fome como dizes? É intolerável!” “Que Deus te abençoe e abençoada seja tua santa mãe” disse o faminto em reconhecimento aos sentimentos do ancião. “Fica aqui, pobre homem, quero repartir contigo o pão e que te sirvas do sal da minha mesa.” E logo o ancião bateu palmas e ao jovem serviçal que se apresentou ordenou que trouxesse o gomil com a bacia. E disse pouco depois para o faminto: “Hóspede amigo, chega-te mais perto e lava as mãos”. E o próprio ancião levantou-se, dobrou o corpo para a frente, e fez com nobreza o gesto de esfregar as mãos debaixo da água que era supostamente derramada de um gomil invisível. O faminto ficou sem saber o que pensar da encenação que seus olhos viam e, como o ancião insistisse, ele deu dois passos e fez também de conta que lavava as mãos. “Ponham a toalha. Depressa!” ordenou o ancião aos servidores “e não demorem em trazer-nos o que comer, que este pobre homem está quase a desfalecer de fome.” Vários servos começaram a ir e vir, como se pusessem a mesa e a cobrissem com numerosos pratos. O faminto, dobrando-se de dor, pensou com seus botões que os pobres deviam mostrar muita paciência diante dos caprichos dos poderosos, abstendo-se por isso de dar mostras de irritação. “Senta-te a meu lado” disse o ancião “e trata de honrar a minha mesa.” “Ouço e obedeço” disse o faminto sentando-se no tapete ao lado do ancião, frente à mesa imaginária. “Senhor meu hóspede, minha casa é a tua casa e minha mesa é a tua mesa. Não faças cerimônia, come enquanto estiveres no apetite.” E como o ancião o estimulasse a acompanhá-lo, o faminto não se fez esperar, logo simulando também tocar nos supostos pratos, espetar bons nacos, e, movendo o queixo, mastigar e engolir a comida inexistente. “Que me dizes deste pão?” perguntou o ancião. “Este pão é bem alvo e muito bom, nunca na vida comi outro que mais me soubesse” respondeu prontamente o faminto, sem forçar sua gentileza. “Que prazer tu me dás, ó senhor meu hóspede! Mas penso que não mereço esses elogios, senão que dirás tu das iguarias que estão à tua esquerda, este assado com recheio de arroz e amêndoas, este peixe em molho de gergelim, ou estas costelas de carneiro! E que dirás do aroma?” “O aroma é embriagador tanto quanto o aspecto e o paladar divinos.” “Não posso deixar de reconhecer que o senhor meu hóspede está animado da maior indulgência para com a minha mesa, por isso mesmo vais provar agora da minha própria mão um bocado incomparável” disse o ancião, simulando tirar entre as pontas dos dedos um bocado da travessa e chegá-lo aos lábios do faminto, dizendo: “Deves mastigar bem!”. O faminto estendeu os lábios para que o bocado lhe fosse introduzido na boca, mastigando-o bastante em seguida, fechando até os olhos de deleite para dar maior realidade à sua representação: “Excelente!” exclamou em acabamento. “Ó meu hóspede amigo, pelo modo como falas bem se vê que és pessoa de gosto, habituado a comer à mesa de príncipes e de grandes; come mais, e que te faça bom proveito.” “Estou satisfeito, já provei de todos os pratos, não posso mais” disse o faminto sorrindo em agradecimento, e mal contendo as dores da sua terrível fome. O ancião então bateu palmas e quando vieram os servos disse: “Podem trazer a sobremesa”. Os jovens servos romperam numa azáfama, agitando os braços em gestos variados e com certo ritmo, depois de tantos outros rápidos e precisos que significavam levantar uma toalha e pôr outra, embora nada fosse mudado. Finalmente o ancião ergueu a mão e eles se retiraram. “Dulcifiquemo-nos” disse o ancião com algum preciosismo “vamos aos doces: esta torta empolada de nozes e romãs, com certo ar épico, parece muito capaz de nos tentar. Prova um bocado, hóspede amigo, é em tua honra que ela há de ser partida. Tens aqui a calda almiscarada, talvez queiras mesmo polvilhá-la... Come, come, não faças cerimônia.” E o ancião dava o exemplo, imolando colherada sobre colherada, com apetite e requinte, numa encenação tão perfeita, como se saboreasse uma torta de verdade. E o faminto o imitava com arte, embora a fome mais do que nunca lhe contraísse o estômago. “Geleias? Frutas? Tens aqui tâmaras secas, tâmaras em licor, passas... De que é que mais gostas? Por mim prefiro a fruta seca à fruta preparada pelo confeiteiro, não se perdeu o sabor nativo. Tens de provar também esses figos acabados de colher da árvore. Não? E os pêssegos? Talvez prefiras ameixas... Tens aqui, come, come, Deus é clemente com os humanos!” O faminto, que à força de mastigar em falso tinha a boca e a língua e os maxilares cansados, ao passo que o estômago lhe gritava cada vez mais alto, respondeu à insistência continuada do ancião: “Estou satisfeito, senhor, não quero mais nada!”. “É estranho! Pela fome que te trouxe até aqui, hóspede amigo, admira que te saciasses tão depressa; de qualquer forma, foi uma honra dividir minha mesa contigo. Mas ainda não bebemos...” disse o ancião com um leve traço de zomba lhe percorrendo os lábios, e logo bateu palmas e a esse sinal acorreram adolescentes de braços graciosos em suas túnicas claras, e simularam levantar a toalha, pôr outra, e plantar em cima taças e copos de toda a ordem. E o anfitrião, encenando sempre, encheu as taças, oferecendo uma ao faminto que a recebeu com vênia amável, levando-a em seguida aos lábios: “Que vinho sublime!” exclamou ele fechando de novo os olhos e estalando a língua. E mais vinho foi derramado nas taças, e outros supostos vinhos foram trazidos, de muitas espécies e sabores. Um e outro entremeavam a consumação, entregando-se ao jogo instável dos embriagados, pendulando lentamente a cabeça e o meio-corpo, além de muitos outros trejeitos, até que todas as garrafas fossem provadas. E depois de ter deitado tanto vinho nos copos, o ancião interrompeu subitamente a falsa bebedeira, e, assumindo sua antiga simplicidade, a fisionomia de repente austera, falou com sobriedade ao faminto com quem dividira imaginariamente sua mesa: “Finalmente, à força de procurar muito pelo mundo todo, acabei por encontrar um homem que tem o espírito forte, o caráter firme, e que, sobretudo, revelou possuir a maior das virtudes de que um homem é capaz: a paciência. Por tuas qualidades raras, passas doravante a morar nesta casa tão grande e tão despojada de habitantes, e está certo de que alimento não te há de faltar à mesa”. E naquele mesmo instante trouxeram pão, um pão robusto e verdadeiro, e o faminto, graças à sua paciência, nunca mais soube o que era fome.
(Como podia o homem que tem o pão na mesa, o sal para salgar, a carne e o vinho, contar a história de um faminto? como podia o pai, Pedro, ter omitido tanto nas tantas vezes que contou aquela história oriental? terminava confusamente o encontro entre o ancião e o faminto, mas era com essa confusão terapêutica que o pai deveria ter narrado a história que ele mais contou nos seus sermões; o soberano mais poderoso do Universo confessava de fato que acabara de encontrar, à custa de muito procurar, o homem de espírito forte, caráter firme e que, sobretudo, tinha revelado possuir a virtude mais rara de que um ser humano é capaz: a paciência; antes porém que esse elogio fosse proferido, o faminto — com a força surpreendente e descomunal da sua fome, desfechara um murro violento contra o ancião de barbas brancas e formosas, explicando-se diante de sua indignação: “Senhor meu e louro da minha fronte, bem sabes que sou o teu escravo, o teu escravo submisso, o homem que recebeste à tua mesa e a quem banqueteaste com iguarias dignas do maior rei, e a quem por fim mataste a sede com numerosos vinhos velhos. Que queres, senhor, o espírito do vinho subiu-me à cabeça e não posso responder pelo que fiz quando ergui a mão contra o meu benfeitor”.)
Raduan Nassar, "Lavoura Arcaica"
(Como podia o homem que tem o pão na mesa, o sal para salgar, a carne e o vinho, contar a história de um faminto? como podia o pai, Pedro, ter omitido tanto nas tantas vezes que contou aquela história oriental? terminava confusamente o encontro entre o ancião e o faminto, mas era com essa confusão terapêutica que o pai deveria ter narrado a história que ele mais contou nos seus sermões; o soberano mais poderoso do Universo confessava de fato que acabara de encontrar, à custa de muito procurar, o homem de espírito forte, caráter firme e que, sobretudo, tinha revelado possuir a virtude mais rara de que um ser humano é capaz: a paciência; antes porém que esse elogio fosse proferido, o faminto — com a força surpreendente e descomunal da sua fome, desfechara um murro violento contra o ancião de barbas brancas e formosas, explicando-se diante de sua indignação: “Senhor meu e louro da minha fronte, bem sabes que sou o teu escravo, o teu escravo submisso, o homem que recebeste à tua mesa e a quem banqueteaste com iguarias dignas do maior rei, e a quem por fim mataste a sede com numerosos vinhos velhos. Que queres, senhor, o espírito do vinho subiu-me à cabeça e não posso responder pelo que fiz quando ergui a mão contra o meu benfeitor”.)
Raduan Nassar, "Lavoura Arcaica"
Bolsonaro e o escafandrista do bar do Antonio’s, no Leblon
Como discordar de Bolsonaro quando ele diz, como disse, ontem, a um grupo de empresários paulistas:
“Eu não tinha nada para estar aqui na presidência. Nem levo jeito. Nasci para ser militar. Entrei na política meio por acaso”.
Dá para discordar do que disse em seguida, referindo-se à sua eleição há quatro anos:
“Deus botou a mão sobre o Brasil”.
Se tivesse posto, a pandemia não teria recebido passe livre do governo para matar mais de 667 mil pessoas, nem haveria 33,4 milhões de famintos, nem a situação do Brasil teria piorado.
Acostumamo-nos com o que diz e faz Bolsonaro por mais estúpido que seja. E mesmo que ele não se reeleja, a naturalização da estupidez será o seu maior legado, para desgraça do país.
Conta a lenda que nos anos 1970, um escafandrista, vestido com sua pesada roupa de mergulho, entrou no bar e restaurante Antonio’s, reduto da boemia carioca, no Leblon. Sentou-se a uma mesa de canto, tirou a máscara e pediu um chope.
As outras 12 mesas estavam ocupadas, o alarido era grande, mas todos fingiram não ver o escafandrista. Depois de algum tempo, o jornalista João Saldanha, irritado com a indiferença coletiva diante do inusitado, subiu numa cadeira e falou em voz alta:
“Gente, tem um escafandrista entre nós e isso não é normal”.
Ninguém disse nada e a vida seguiu.
Gente, não é normal que Bolsonaro tenha pedido ajuda americana para derrotar Lula em outubro próximo. E logo no seu primeiro encontro com o presidente Joe Biden.
Bolsonaro apoiou a reeleição de Trump e sua tentativa de dar um golpe que culminou com a invasão do prédio do Congresso. Foi um dos últimos chefes de Estado a parabenizar Biden pela vitória.
Será que ele imaginava ouvir de Biden que os Estados Unidos apoiariam sua reeleição? Biden mudou de assunto. A informação vazou e foi publicada, deixando Bolsonaro mal na foto.
Gente, não é normal que de Los Angeles, onde se reuniu com Biden, Bolsonaro tenha voado a Orlando e liderado uma motociata na companhia de um blogueiro foragido da justiça brasileira.
Anderson Torres, ministro da Justiça, assistiu à cena. Para não ser preso por ordem do Supremo Tribunal Federal, o blogueiro fugiu com a ajuda de um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, o Zero Três.
Gente, também não é normal que Bolsonaro vá sábado a Manaus para outro passeio. Manaus é o coração da Amazônia onde desapareceram o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips.
Pertences dos dois já foram achados, mas seus corpos, não. O crime chocou o mundo, menos a Bolsonaro, que chamou Pereira e Phillips de aventureiros e culpou-os pelo que aconteceu.
Não, gente, não é normal que um presidente da República proceda dessa forma. Seu despreparo para o cargo que ocupa não justifica tamanho desamor pela vida alheia.
Das sete vezes em que Bolsonaro se elegeu deputado federal, cinco foram pelo voto eletrônico que ele agora quer desacreditar. Pelo voto eletrônico, elegeu-se presidente.
Dia sim, outro também, Bolsonaro apregoa que não haverá eleições se as urnas não puderem ser auditadas. Ele sabe que elas podem e serão auditadas, mas seu propósito é tumultuar o país.
Está à procura de um acordo por debaixo do pano com a Justiça. Topa aceitar o veredito popular, seja qual for, desde que em caso de derrota não seja preso, nem seus filhos.
Gente, uma coisa dessas definitivamente não é normal. E de nada adianta fingir que não vemos.
“Eu não tinha nada para estar aqui na presidência. Nem levo jeito. Nasci para ser militar. Entrei na política meio por acaso”.
Dá para discordar do que disse em seguida, referindo-se à sua eleição há quatro anos:
“Deus botou a mão sobre o Brasil”.
Se tivesse posto, a pandemia não teria recebido passe livre do governo para matar mais de 667 mil pessoas, nem haveria 33,4 milhões de famintos, nem a situação do Brasil teria piorado.
Acostumamo-nos com o que diz e faz Bolsonaro por mais estúpido que seja. E mesmo que ele não se reeleja, a naturalização da estupidez será o seu maior legado, para desgraça do país.
Conta a lenda que nos anos 1970, um escafandrista, vestido com sua pesada roupa de mergulho, entrou no bar e restaurante Antonio’s, reduto da boemia carioca, no Leblon. Sentou-se a uma mesa de canto, tirou a máscara e pediu um chope.
As outras 12 mesas estavam ocupadas, o alarido era grande, mas todos fingiram não ver o escafandrista. Depois de algum tempo, o jornalista João Saldanha, irritado com a indiferença coletiva diante do inusitado, subiu numa cadeira e falou em voz alta:
“Gente, tem um escafandrista entre nós e isso não é normal”.
Ninguém disse nada e a vida seguiu.
Gente, não é normal que Bolsonaro tenha pedido ajuda americana para derrotar Lula em outubro próximo. E logo no seu primeiro encontro com o presidente Joe Biden.
Bolsonaro apoiou a reeleição de Trump e sua tentativa de dar um golpe que culminou com a invasão do prédio do Congresso. Foi um dos últimos chefes de Estado a parabenizar Biden pela vitória.
Será que ele imaginava ouvir de Biden que os Estados Unidos apoiariam sua reeleição? Biden mudou de assunto. A informação vazou e foi publicada, deixando Bolsonaro mal na foto.
Gente, não é normal que de Los Angeles, onde se reuniu com Biden, Bolsonaro tenha voado a Orlando e liderado uma motociata na companhia de um blogueiro foragido da justiça brasileira.
Anderson Torres, ministro da Justiça, assistiu à cena. Para não ser preso por ordem do Supremo Tribunal Federal, o blogueiro fugiu com a ajuda de um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, o Zero Três.
Gente, também não é normal que Bolsonaro vá sábado a Manaus para outro passeio. Manaus é o coração da Amazônia onde desapareceram o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips.
Pertences dos dois já foram achados, mas seus corpos, não. O crime chocou o mundo, menos a Bolsonaro, que chamou Pereira e Phillips de aventureiros e culpou-os pelo que aconteceu.
Não, gente, não é normal que um presidente da República proceda dessa forma. Seu despreparo para o cargo que ocupa não justifica tamanho desamor pela vida alheia.
Das sete vezes em que Bolsonaro se elegeu deputado federal, cinco foram pelo voto eletrônico que ele agora quer desacreditar. Pelo voto eletrônico, elegeu-se presidente.
Dia sim, outro também, Bolsonaro apregoa que não haverá eleições se as urnas não puderem ser auditadas. Ele sabe que elas podem e serão auditadas, mas seu propósito é tumultuar o país.
Está à procura de um acordo por debaixo do pano com a Justiça. Topa aceitar o veredito popular, seja qual for, desde que em caso de derrota não seja preso, nem seus filhos.
Gente, uma coisa dessas definitivamente não é normal. E de nada adianta fingir que não vemos.
segunda-feira, 13 de junho de 2022
Chamadas a dar ideias, Forças Armadas querem ser fiscais e superiores ao TSE
O TSE acolheu muito mais do que se imaginava das sugestões das Forças Armadas para a eleição. Acolheu seis totalmente, e quatro parcialmente. O levantamento divulgado pelo tribunal é uma resposta ao ofício do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, em que o general fez ameaças e exigências ao TSE.
A única sugestão dos militares rejeitada foi a divulgação das listas de abstenções e os dados de óbitos, o que, segundo o TSE, violaria a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.
Sendo que nas 88 perguntas e nesta nota divulgada na sexta-feira, usam um tom absolutamente inconveniente, dando ordens ao tribunal. Em um trecho, em negrito, o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira diz que 'cabe destacar que uma premissa fundamental é que secreto é o exercício do voto, e não sua apuração'.
Não há apuração secreta. Quem disse isso para ele foi o presidente da república em mais de uma das suas mentiras. Querem dar ares de verdade à afirmação do presidente de que o voto é apurado numa sala escura com seis pessoas.
A carta é cheia de minúcias para parecer que é técnica, mas não é. É uma discussão política e perigosa. No item 19, o general faz um referência ao artigo 142 da Constituição, que na interpretação do governo atual e de juristas de extrema-direita, dá poderes às Forças Armadas como poder moderador. E não é isso. Não há poder sobre os poderes.
E, no final, ameaça ainda mais. Disse que "não interessa concluir o processo eleitoral sob a desconfiança dos eleitores. Eleições transparentes são questões de soberania nacional e de respeito aos eleitores".
Somando tudo isso, mostra que o general está ameaçando a justiça eleitoral brasileira. A expressão perfeita foi usada ontem pelo jornalista Bernardo Mello Franco, que disse que ele colocou a faca no peito do TSE.
Essa nota e esse comportamento são inaceitáveis. As Forças Armadas não são fiscais das eleições. Elas têm um trabalho importante, fundamental de logística das urnas, porque esse é um país continental.
Muitos apontam que o erro foi o ministro Roberto Barroso em ter feito o convite para as Forças Armadas integrarem a comissão de transparência das eleições.
A única sugestão dos militares rejeitada foi a divulgação das listas de abstenções e os dados de óbitos, o que, segundo o TSE, violaria a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.
As Forças Armadas não entraram nessa conversa com boas intenções. Desde que foram chamados para participar de um conjunto de outras entidades da sociedade para oferecer sugestões. Eles distorceram o sentido do convite de dar sugestões e acham que o TSE acate as ideias como se fossem ordens. Elas colocaram, nessa nota, como um poder acima do Tribunal, passando a cobrar que tudo que disseram seja aceito.
Sendo que nas 88 perguntas e nesta nota divulgada na sexta-feira, usam um tom absolutamente inconveniente, dando ordens ao tribunal. Em um trecho, em negrito, o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira diz que 'cabe destacar que uma premissa fundamental é que secreto é o exercício do voto, e não sua apuração'.
Não há apuração secreta. Quem disse isso para ele foi o presidente da república em mais de uma das suas mentiras. Querem dar ares de verdade à afirmação do presidente de que o voto é apurado numa sala escura com seis pessoas.
A carta é cheia de minúcias para parecer que é técnica, mas não é. É uma discussão política e perigosa. No item 19, o general faz um referência ao artigo 142 da Constituição, que na interpretação do governo atual e de juristas de extrema-direita, dá poderes às Forças Armadas como poder moderador. E não é isso. Não há poder sobre os poderes.
E, no final, ameaça ainda mais. Disse que "não interessa concluir o processo eleitoral sob a desconfiança dos eleitores. Eleições transparentes são questões de soberania nacional e de respeito aos eleitores".
Somando tudo isso, mostra que o general está ameaçando a justiça eleitoral brasileira. A expressão perfeita foi usada ontem pelo jornalista Bernardo Mello Franco, que disse que ele colocou a faca no peito do TSE.
Essa nota e esse comportamento são inaceitáveis. As Forças Armadas não são fiscais das eleições. Elas têm um trabalho importante, fundamental de logística das urnas, porque esse é um país continental.
Muitos apontam que o erro foi o ministro Roberto Barroso em ter feito o convite para as Forças Armadas integrarem a comissão de transparência das eleições.
Barroso teve boa fé, o problemas é que os militares já estavam com más intenções. Já estavam ao lado do presidente da república, que tem feito ameaças às eleições. Acho que mesmo se não tivessem sido chamados, fariam essas mesmas confusões. Então esta distorção é evidentemente culpa é das Forças Armadas e não do ministro Barroso.
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