quarta-feira, 27 de abril de 2022

Pensamento do Dia

Ivailo Tsvetkov (Bulgária)

 

A luz do Sol desinfeta as urnas

Com seu conhecimento da História da República e com sua experiência no poder, Fernando Henrique Cardoso adverte há tempos contra crises que saem do nada. A maior delas foi a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Colocou o país na borda de uma guerra civil, sem motivo nem propósito. Jânio tinha um golpe na cabeça, é verdade, mas a maquinação estava só na cabeça dele, como se viu. 

Jair Bolsonaro alimenta uma crise semelhante e colocou no tabuleiro conflitos com o Supremo Tribunal Federal e com a Justiça Eleitoral. Para quê? Afora a vontade de permanecer no governo, não se conhece seu projeto para reduzir o desemprego ou a inflação.

Em poucos dias, surgiram dois focos críticos. 

Um é o perdão concedido ao deputado Daniel Silveira. Como o alcance da medida não afeta a inelegibilidade do cidadão, a encrenca desemboca num falso problema. A menos que o Congresso aprove uma lei mudando a regra, o que será jogo jogado.

O segundo foco surgiu com a nota do ministro da Defesa, general Paulo Sérgio de Oliveira, vendo “ofensa grave” numa afirmação “irresponsável” do ministro Luís Roberto Barroso. O magistrado havia dito que as Forças Armadas vêm sendo orientadas para duvidar das urnas eletrônicas.


Barroso não ofendeu as Forças Armadas, basta ler o que ele disse. Elogiou-as. Ademais, a suspeição contra o processo eletrônico de votação é arroz de festa na retórica do presidente Bolsonaro. 

O ministro da Defesa lembrou em sua nota que as Forças Armadas têm assento na Comissão de Transparência das Eleições (CTE) e “apresentaram propostas colaborativas, plausíveis e exequíveis, no âmbito da CTE, calcadas em acurado estudo técnico realizado por uma equipe de especialistas, para aprimorar a segurança e a transparência do sistema eleitoral, o que ora encontra-se em apreciação naquela Comissão”.

O nó da questão está no final da frase: “ora encontra-se em apreciação naquela Comissão”.

Fica a suspeita de que foram apontadas vulnerabilidades na coleta dos votos e na sua totalização. Esse debate pode ser feito já ou depois da eleição. Se for deixado para depois, importa-se a encrenca criada por Donald Trump nos Estados Unidos. É melhor fazê-lo logo. Como ensinou o juiz americano Louis Brandeis em 1913, “a luz do Sol é o melhor desinfetante”.

O homem fracassou

O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até morrer, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo. 


(...) O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.

O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: ‘Senhoras e senhores, eu sou um canalha’”. 

E, em tom eloquente: 

- Não há nada que fazer pelo ser humano: o homem já fracassou.
Nelson Rodrigues, entrevista ao repórter J. J. Ribeiro, do jornal O Opiniático

Indulto engatilhado

Os milicianos têm método. Em sua expansão territorial no Rio, saindo da zona oeste em direção à zona sul, eles oferecem guaritas de segurança nas ruas. Após a recusa, vem a onda de furtos e roubos de celulares e carros, os quais —por milagre!— são encontrados intactos no dia seguinte. Cria-se a situação e, com ela, nova oferta de proteção, ameaçadoramente irrecusável. É o teatro do crime.

Em Brasília encena-se no momento o teatro do golpe. O deputado Daniel Silveira —ex-PM que rasgou a placa em homenagem a Marielle Franco— sabia desde sempre que seria condenado pelo STF e poderia pegar longo tempo de prisão e perder os direitos políticos. Mesmo assim, fez o jogo do chefe, pois também sabia que o indulto estava engatilhado. A bela palavra "graça" nunca foi tão aviltada.

Em arranjo disposto nos mínimos detalhes, Silveira —que nas últimas semanas conversou diversas vezes com Bolsonaro e os generais do Planalto— nem disfarçou suas intenções. Ao contrário, agiu da maneira mais exibicionista possível, recusando-se a usar tornozeleira, dizendo que não aceitaria a decisão do Supremo e exigindo um julgamento no Superior Tribunal Militar.

As costas quentes estendem-se até o presidente da Câmara, Arthur Lira, que não levou ao plenário um parecer do Conselho de Ética sugerindo a suspensão do mandato de Silveira. Para os tolos ou para os golpistas (ambos navegam no mesmo barco), o deputado continuou vestindo a fantasia de defensor das liberdades de opinião.

Sem conseguir aproximar-se significativamente de Lula, o líder das pesquisas, e com rejeição de 60%, Bolsonaro está vendo o caminho da reeleição se fechar. Não tem como explicar a corrupção no governo, o desemprego, a inflação, a fome. Resta-lhe manter as milícias digitais incendiadas, afrontar, ao lado das Forças Armadas, o STF, adversário preferido, e tumultuar o país. Os sobressaltos estão aí. Virão outros.

O mito do império euro-asiático que justifica a guerra

Os euro-asiáticos não tiveram uma vida fácil até à chegada ao poder de Vladimir Putin, um oficial do KGB saudoso do poder soviético e desejoso de fazer voltar a Rússia ao seu destino histórico. Deram-lhe a justificação ideológica para exercer o poder e, sobretudo, para iniciar um novo processo de expansão a partir de Moscovo.

Todos os opinadores, académicos, jornalísticos ou simplesmente espectadores, tentam responder à pergunta fundamental: o que se passa na cabeça de Putin? Será um narcisista, um nacionalista ressabiado, ou um louco? Mas Putin, seja qual for a sua persona, representa a actualidade de uma ideia secular, o euro-asianismo.

Euro-asianismo? Quem ouviu falar deste conceito? No entanto, aberta ou sub-repticiamente, as teorias euro-asiáticas influenciaram toda a História da Rússia, subjacentes aos quatro regimes que o país conheceu, o czarismo, o comunismo, a (breve espécie de) democracia e, agora, a república ditatorial.

Putin pode ter motivações pessoais – o seu próprio poder e a reconstituição do poder da Rússia estalinista – e um perfil psicológico mórbido, mas representa a continuação de uma ideia imperial que vem do tempo dos czares.

Por detrás da vaidade, Putin tem ideias concretas sobre o seu papel na História da Rússia e, por extensão, do Mundo. Há quem lhe chame de “Kremlin centrismo” e, na actualidade, de “putinismo”; basicamente, o conceito é que Moscovo deve ter um papel central na política e na ideologia internacionais, contrariando a decadência civilizacional representada pela Europa e o domínio militar dos Estados Unidos.


Vários intelectuais teorizaram sobre este conceito, nomeadamente Lev Gumilyov (1912-1992), Alexander Prokhanov (n. 1938) e Aleksandr Dugin (n.1962), entre outros que seria entediante citar.

Em termos de leitura da História, esta corrente acredita, primeiro, que a situação geográfica de Moscovo a coloca no centro do continente euro-asiático e, segundo, que os russos e russófilos têm um papel fundamental a defender os valores autocráticos e deístas que são a única garantia de sobrevivência da Civilização.
(Pensei bem antes de usar o adjectivo “deísta”, porque a teoria ultrapassa o conceito de “cristão”, embora o inclua. Contudo, é uma corrente abertamente anti-semita e anti-muçulmana.)

Nesta ordem de ideias, o perigo principal vem da Europa, porque rejeita qualquer influência da Rússia e porque criou uma cultura liberal e construiu uma sociedade de abundância que são extremamente atraentes. É o diabo sedutor da decadência, que vive no luxo e permite todos os comportamentos.

Os Estados Unidos também são o inimigo, por várias razões; protegem a decadência europeia com o seu poderio militar, e impõem ao mundo o conceito degenerado da democracia, tentando cercar e conter a expansão das boas ideias civilizacionais centralizadas no Kremlin.

A realidade inevitável do Grande Império Euro-Asiático tem sido contrariada, ao longo dos séculos, pela formação de Estados independentes e, depois de 1789, imbuídos duma filosofia igualitária e permissiva que vê o euro-asianismo como uma selvajaria autoritária e regressiva.

Se pensa que estou a exagerar nesta visão apocalíptica, tente ver a televisão russa (o que é muito difícil actualmente, mas aparece irregularmente nas redes sociais) os debates entre os defensores da grande Rússia e da integração da Europa – a Ucrânia é apenas o começo – na ordem social “correcta”. Vivem num mundo paralelo mirabolante.

Se percebe francês, leia o artigo de Laure Mandeville, jornalista especializada no Leste europeu e que foi corresponde do jornal “Le Figaro” em Moscovo, entre 1997 e 2000. Ela relata em pormenor estes argumentos surreais e violentos a que os russos são expostos diariamente. Um exemplo: “O estalinismo não foi um acidente, mas antes um elemento orgânico do nosso destino de potência global”, escreveu o jornalista Pastoukhov na Novaia Gazeta.

Ou seja, esta filosofia ultrapassa as questões de regime. Estaline foi apenas um elo na cadeia de expansão do Império Euro-Asiático, não interessa se usou o comunismo como método. A Rússia estava no bom caminho, afirmando-se como potência de peso mundial e, através do Comintern, espalhando as boas ideias pelos países capitalistas decadentes. O facto de o regime soviético ser anti-capitalista não passava de um capítulo no percurso; na realidade o que interessava era a expansão do império. Em geral, os pensadores euro-asiáticos não são, ou não foram, comunistas. Gumilyov esteve preso décadas e sofreu todas as agruras de quem vivia sob o poder de Estaline e não pensava em conformidade.

Os euro-asiáticos não tiveram uma vida fácil até à chegada ao poder de Vladimir Putin, um oficial do KGB saudoso do poder soviético e desejoso de fazer voltar a Rússia ao seu destino histórico. Deram-lhe a justificação ideológica para exercer o poder e, sobretudo, para iniciar um novo processo de expansão a partir de Moscovo.

Pastoukhov e outro jornalista, Dmitri Bykov, publicaram artigos anunciando o nascimento duma forma de “fascismo neoestalinista” capaz de desencadear uma guerra civil contra os russos “europaisados” que não concordavam com a orientação putinista, ou seja, um novo terror. Na agência de informação oficial russa, a RIA Novosti, um artigo propõe que a Ucrânia seja “desnazificada e des-europeinisada” (a palavra não existe, mas percebe-se). Os dirigentes devem ser “liquidados” e uma grande parte da população, que é constituída por “nazis passivos”, desejosos de ser independentes e europeus, devem ser “castigados” para “expiar os seus pecados contra a Rússia”.

É verdade, estas coisas foram escritas, são ditas e publicadas diariamente.
Quanto à miséria em que vive a generalidade do povo russo, é porque decidiram sacrificar o seu bem-estar em nome do destino histórico do país. A verdade é que as sondagens mostram que a grande maioria dos russos está ao lado de Putin e a sua popularidade aumentou desde que começou a invasão da Ucrânia. Poderia dizer-se que é porque só têm acesso à propaganda oficial; contudo, há outro valor que os anima: o reconhecimento do seu país como uma potência capaz de subjugar os ingratos que ousaram sair da sua esfera de influência.

Pode acreditar-se no destino inevitável do império euro-asiático, ou pode achar-se que estão todos malucos; a verdade, real e evidente, é que a máquina da História está em andamento e não vai por um caminho jovial e bucólico. As teorias imperiais – há outras, como sabemos – são mirabolantes como teorias, mas quando começam a ser praticadas só trazem desgraça e sofrimento, tanto para as vítimas como para os agressores.

O Armagedão não é uma profecia aterradora; é a realidade perante os nossos olhos.
José Couto Nogueira

Indulto para o Brasil

Faltam 166 dias para ser decretada anistia ampla, geral e irrestrita alcançando todos os brasileiros que abominam métodos, ações e palavras do atual Presidente da República. Será a remissão das doenças políticas, econômicas e sociais disseminadas desde 2018.

Falta muito, se pesarmos os males causados ao País diariamente pelo inominável. Pelos olhos de Poliana, personagem de Eleanor Porter, depois de três anos e quatro meses de desgoverno, falta pouco. Em 02 de outubro, a gente vai se vingar, sendo feliz de novo.


Indubitável que o futuro presidente terá muito trabalho para alforriar nossa alegria confiscada. Será árdua sua missão para descosturar alinhavos tortuosos do sujeito. Precisará de ajuda, muito apoio político. Carece dar ponto sem nó. A desgraça foi posta. Os estragos foram muitos.

Nosso indulto tem que vir a tempo de evitar uma hecatombe. Há poucas dúvidas de que teremos Lula versus o inominável. A terceira via parece se desmanchar no ar. Nesse início de semana, não conseguiu sequer agendar um jantar de tratativas. Votos nulos e brancos não ajudarão a vitória da civilidade em 2022.

Enquanto não chega o dia D das eleições, e o indulto da paz não é decretado, ninguém espera sentado para ver o circo pegar fogo, como quer e prega o atual PR. No cercadinho, nessa segunda, afrontou mais uma vez o Supremo. Disse que seu indulto ao deputado condenado a oito anos em regime fechado, é constitucional e será cumprido.

Desafiador, disse que “só Deus o tira da cadeira” de presidente da República e incitou seguidores: “povo armado jamais será escravizado”. O que quer esse sujeito senão afrontar o estado de direito? Enfraquecer o Judiciário? E, mais uma vez, conclama indiretamente a escora dos militares para um possível golpe contra a justiça eleitoral.

Bem provável que Deus dê uma mãozinha para arrancar, pelas vias legais, o inqualificável da cadeira. É testemunha da desgraceira que vivemos. Enquanto isso, o País conta com a Justiça Eleitoral para frear a verborragia fascista. Nesse fim-de-semana, Barroso, ex-presidente do TSE, acusou manipulação das Forças Armadas contra a lisura das eleições. O Ministro da Defesa reagiu. Negou orientação da tropa contra o pleito.

Nesse caso, pé atrás. Melhor se fiar em quem? Em Deus. Quem sabe, Exu? Orixá do bem, chamado para abrir caminhos e superar dificuldades.

Laroie, Exu.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

As motivações de Bolsonaro para seguir a esticar a corda com o STF

Jair Bolsonaro não tem dia nem hora para arrumar uma crise com o Supremo Tribunal Federal (STF). Anunciou o decreto de indulto ao aliado Daniel Silveira (PTB-RJ) num feriado de 21 de Abril.

E, na noite de um domingo, ontem, o Ministério da Defesa, por ordem do presidente, divulga uma nota abrindo nova frente com o tribunal ao reagir a declarações do ministro Luís Roberto Barroso, que afirmou que as Forças Armadas são orientadas a atacar o sistema eleitoral.

Bolsonaro ficou possesso na tarde de ontem. Além das declarações do ministro do STF, viu noticiado ainda uma decisão de Barroso determinando que a Polícia Federal analise provas da CPI da Covid contra o presidente da República.

E, na fala de Barroso sobre o ataque dos militares ao sistema eleitoral, irritou profundamente o presidente o ministro ter citado com elogios generais que deixaram o governo como incômodos para o Planalto. Lembrando a frase:

“Não se deve passar despercebido que militares profissionais admirados e respeitadores da Constituição foram afastados, como o general Santos Cruz, o general Maynard Santa Rosa, o próprio general Fernando Azevedo. Os três comandantes, todos, foram afastados. Não é comum isso, nunca tinha acontecido” – afirmou Barroso.

Bolsonaro segue apostando que a quebra de braço contra o STF o garantirá, ao menos, um lugar no segundo turno da eleição. Além de servir como combustível para sua base.

Eleições, jornalismo e o cordão sanitário

Um cordão sanitário na vida política! A experiência tomada da medicina para conter a contaminação da sociedade por notícias falsas e desinformação. Foi a saída encontrada em Portugal para barrar o discurso de ódio da extrema direita e as ameaças à lei e ao sistema democrático. Um movimento que deve ser olhado com atenção, no Brasil, diante do cenário em que vivemos.

A campanha eleitoral antecipa o desafio que o jornalismo terá pela frente numa disputa que se anuncia marcada pelo desrespeito às regras e pela desinformação. Como, na verdade, já aconteceu na eleição do presidente Jair Bolsonaro em 2018. Kit gay, orgias, Ursal… que fake news teremos de desmentir?

Cobrir, fiscalizar e denunciar aparecem entre as atribuições do jornalismo. O exercício da atividade se dá com base em valores e num código de ética profissional. O respeito aos fatos, a obrigação de checar todos os lados da notícia. O avanço das redes sociais, no entanto, permite a comunicação direta com o público, sem a intermediação das mídias tradicionais, jornais e revistas, rádios e TVs. Nas redes não há condutas definidas — minha casa, minhas regras; não há compromisso de ouvir qualquer outro lado. Na campanha difamatória, nem sequer se encontrará o emissor, o responsável, escondido atrás de perfis falsos e robôs.

No jornalismo profissional existem inúmeras iniciativas para conter a enxurrada de notícias falsas. A Agência Lupa, o consórcio Fato ou Fake, projetos como o Comprova, Verifica e muitos outros, que, na pandemia, ajudaram a salvar vidas.


O alcance das notícias falsas, porém, é enorme — e a resposta é quase sempre reativa, quando as mentiras já se espalharam pelas redes sociais. É preciso que o esforço não se resuma aos compromissos do jornalismo profissional, mas envolva toda a sociedade. Essa é a proposta de iniciativas como a Rede Nacional de Combate à Desinformação, que conquista adesões nas universidades, centros de pesquisa e instituições com responsabilidade social. De todas as áreas, medicina, engenharia, Direito, filosofia…

O que nos leva a Portugal. Lá, os partidos democráticos, de direita ou esquerda, se uniram numa iniciativa republicana no Parlamento: repudiam, denunciam e neutralizam qualquer ato, discurso ou proposta que propague mentiras, ameaças à democracia ou defendam ações criminosas de qualquer tipo. A ação se tornou conhecida como “cordão sanitário” — na epidemiologia, uma barreira criada para impedir a proliferação de agente infeccioso. Nenhum ataque que possa representar crime fica sem resposta.

O desafio da sociedade é que empresas, entidades e organizações afirmem seu compromisso ético com a informação, como um direito de todo cidadão, sem o qual será impossível formar juízo sobre qualquer tema e escolher livre e conscientemente o destino do país. Vale para igrejas, empresas, instituições, times de futebol, todas as representações que contam com mídias próprias e devem afirmar seu valores. O pacto com a democracia é a melhor vacina.

Generais e Bolsonaro, a pior ameaça ao Brasil

Cada vez mais se estreita a aliança entre as Forças Armadas e o atual presidente da República. Esse elo é a mais séria ameaça a nossas instituições e a nossa democracia. Esse tal Daniel Silveira, deputado desordeiro, golpista, ofensivo e brutamontes condenado pelo Supremo a oito anos de prisão por querer “a cabeça de ovo do Alexandre de Moraes numa lixeira”, não passa de mero figurante. Tão ridículo que fez rir a vice-procuradora-geral da República ao ler suas ameaças. 

Daniel Silveira é a cópia marombada do amigo Eduardo Bolsonaro – o mesmo que ironizou a tortura sofrida pela jornalista Míriam Leitão, dizendo ter “pena da cobra”. Nada do que Daniel pensa e faz é diferente do que pensam e fazem o presidente e seus filhos. Quebrar a placa da Marielle. Elogiar o AI-5. Recusar máscaras e tornozeleira. Ofender policiais mulheres. Exigir destituição dos ministros do STF. Tudo mais do mesmo. 


A diferença entre Daniel Silveira e Jair Bolsonaro é o grau de ameaças a Alexandre de Moraes, inimigo público de ambos. O deputado foi condenado não por chamar o juiz de “marginal”, mas porque o ameaçou fisicamente. O presidente exige o impeachment do juiz e não cessa de provocá-lo: “O Alexandre de Moraes falou que quem desconfiar do processo eleitoral vai ser cassado e preso. Ô Alexandre, eu tô desconfiado. Vai me prender? Vai cassar meu registro?” 

Onde? Em que país minimamente civilizado um presidente eleito destrata dessa maneira um ministro do Supremo que nem o ameaçou de nada? Alexandre de Moraes vai comandar a Justiça Eleitoral na campanha. A democracia comporta essa falta de decoro e compostura? Eu sei, decoro e compostura inexistem na casa dos Bolsonaro. Os filhos foram deseducados assim. É um tabefe na cara das famílias brasileiras essa grosseria cotidiana. 

Mas o tabefe virou soco na última semana. Uma luz amarela acendeu no país. Revelados pelo GLOBO, os áudios comprovando que o Superior Tribunal Militar conhecia e discutia as torturas e sevícias a presos na ditadura – sem poupar as grávidas – foram uma viagem dolorosa na máquina do tempo. O Brasil ainda estava chocado com os áudios quando levou outra paulada: a indiferença, a ironia, a crueldade, o escárnio, a ignorância de nossos militares diante desse resgate histórico. 

Se algo ficou claro com a falta de arrependimento e empatia dos generais, é que não deveriam ter sido anistiados. Mas o buraco atual é mais em cima. Não são livros de armas de fogo ou deputados de baixa estirpe que devem nos atemorizar. A ameaça vem da comunhão entre as Forças Armadas e Bolsonaro. Todos fãs explícitos de torturadores como o coronel Brilhante Ustra. Entre imunidade e impunidade, não é só uma letra que faz a diferença.

Faz dois anos já. Publiquei aqui a coluna “Bolsonaro fala uma verdade”. Escrevi. 

As Forças Armadas estão sim com ele. Os militares o apoiam. Não em bloco uníssono. E não em todas as barbaridades. Mas na essência. Os militares do Planalto estão inebriados com o poder e com a revisão histórica do golpe de 1964 e da ditadura. Só ingênuos insistirão na tese de que os generais podem puxar o tapete vermelho de um capitão inculto, indisciplinado e autoritário ao extremo. Eles se usam mutuamente. De autoridade os militares entendem. De alinhamento total, também. Detestam que os outros poderes não batam continência para eles. 
Isso publiquei em maio de 2020.

Quanta responsabilidade temos todos em 2022. Nós e nossos filhos. Obrigada, Míriam.
Ruth de Aquino 

domingo, 24 de abril de 2022

Dilema do diabo

No inferno deve haver um lugar à parte para os medíocres, e o próprio Satã, contemplando a presa inerte, tridente erguido, deverá indagar de si mesmo um tanto perplexo: ‘Que farei com isto, se até o sofrimento em sua presença diminui de intensidade?
Lúcio Cardoso, "Crônica da Casa Assassinada"

As duas faces do general

Você lembra que Hamilton Mourão era o Mozão? Foi no início do governo, quando ele, em público e sobretudo no trato com a imprensa, assumiu ares de homem cordial e ganhou o apelido que desfazia a imagem de general linha-dura. O candidato a vice-presidente —que antes falava em "autogolpe" para evitar a "anarquia generalizada"— passou a representar o poder moderador, a sombra de um estadista preocupado com os destinos do país, garantia de que a presença do Exército no Palácio do Planalto iria conter a natureza autoritária de Bolsonaro. Era uma farsa. Quem acreditou nela dorme todos os dias com a ameaça do golpe batendo à porta.


O que Mourão, quando de novo é candidato (irá disputar uma vaga no Senado pelo Rio Grande do Sul), mostra quem é o verdadeiro Mozão. Só seus cabelos negros como a asa da graúna não mudaram.

Sua atuação era digna de aplausos. Se durante a pandemia, o presidente exibia a carantonha limpa, o vice cobria o rosto com a máscara do Flamengo, democrático, povão. O general se apresentava como alguém dotado de cérebro. Se Bolsonaro dizia que "o nazismo era um movimento de esquerda", ele rebatia: "De esquerda era o comunismo". Homem sem ódios ou ressentimentos, tirou uma foto sorrindo ao lado de FHC nos EUA, para provocar o atrito ensaiado com a chamada ala ideológica. O filho 02 disse que Mourão queria derrubar o pai, e o deputado Marco Feliciano chegou a entrar com pedido de impeachment contra ele.

São uns artistas. Quando presidia o Clube Militar e tramava com seus pares entrar para a política aproveitando a onda bolsonarista, Mourão já exaltava o Golpe de 64 e o coronel Brilhante Ustra. Não surpreende que faça piada com tortura.

"Eu não posso usar meu Viagra, pô?" Nem no Posto Seis de Copacabana, onde se reúnem os generais de pijama para jogar dama, a frase teria graça. Bolsonaro e Mourão governam o Brasil no modo esculacho.

Brasil de stand up

 


Bolsonaro é Sylvio Frota

À primeira vista, o desgraçado indulto que Jair Bolsonaro concedeu ao deputado Daniel Silveira foi visto pelo presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco, como um ato normal que não pode ser contestado. Depois, em entrevista ao GLOBO, disse que ele fragiliza a justiça penal, mas é legítimo. Antes do decreto ser assinado, o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira, já havia enviado ofício ao Supremo Tribunal Federal em favor de Silveira, pedindo que a Corte defina que apenas o Congresso pode cassar o seu mandato. Os chefes da Câmara e do Senado, que deveriam defender as instituições e a democracia que as duas Casas sustentam, condenando com veemência a afronta de Bolsonaro, se posicionaram de maneira dúbia, com espinhas dobradas.

Pacheco e Lira foram condescendentes e são cegos. Não conseguem enxergar que mantida esta escalada, mais adiante os alvos da ira antidemocrática do presidente serão eles e seus pares. Bolsonaro se coloca acima da Constituição ao decretar que o Supremo Tribunal errou e indultar Silveira. E o que os presidentes das casas legislativas fazem? Nada. Apenas Pacheco fez uma breve ponderação, passando o pano sobre o ato que chamou de constitucional e que, segundo ele, tem de ser acatado pelo STF. O que houve, além da afronta ao Supremo, foi um insulto ao Congresso, mas seus líderes abaixaram a cabeça. Um dia podem ser obrigados a baixá-las para serem cortadas pelo presidente golpista.


Bolsonaro, todos sabem, é um candidato a autocrata que defende a ditadura de 1964 e faz reverência a torturadores, como o seu herói Brilhante Ustra. Se fosse mais velho e não tivesse sido expulso do Exército por baderna, certamente estaria entre a tigrada que desceu o pau nos porões do regime. Provavelmente teria se conflagrado contra o presidente Ernesto Geisel e apoiado o general Sylvio Frota na tentativa de golpe que o ministro do Exército quis aplicar contra a abertura do regime, em 1977. Bolsonaro, não tenham dúvida, seria da linha dura da ditadura.

Se consumar o golpe que vem tentando desde 7 de setembro do ano passado, sua prática será absolutista. Não ouvirá ninguém. Se fosse moderado, cassaria alguns ministros do Supremo e parlamentares da oposição. Mas, não, Bolsonaro é Sylvio Frota. O golpista empoderado fecharia o Congresso e o STF, rasgaria a Constituição e governaria como um monarca totalitário. Pacheco, Lira e outros parlamentares do Centrão que apoiam o governo, a maioria por razões fisiológicas, não conseguem ver o óbvio. Aparentemente, a proximidade dos cofres públicos embaça a visão.

O objetivo de Bolsonaro é evidente. Obviamente ele não está indultando um presidiário que cumpriu parte da sua pena, que se comportou exemplarmente durante o encarceramento, que tem família para criar. Ele está beneficiando um criminoso aliado do seu agrupamento fascistóide de maneira a provocar o Supremo, gerando uma crise institucional que beneficia seu projeto golpista. Ele quer um óbice do STF para alegar que seus poderes constitucionais estão sendo violados. Por isso, para reforçar a posição do tribunal, os líderes do Congresso deveriam se manifestar de maneira firme e inequívoca contra o indulto. Não foi o que se viu.

Se com seus poderes hoje balizados pela Constituição Jair Bolsonaro já governa cercado por generais, imaginem se o seu golpe vingar. Seguirá escolhendo sempre generais que pensam como ele, os linha dura, agressivos, autoritários (Braga, Ramos, Heleno) e os lambe botas (Pazuello). Os mais inteligentes, independentes e éticos (Santos Cruz, Rêgo Barros) foram defenestrados do governo e continuarão fora do jogo. Será com aqueles, além dos zeros que o acompanham nas suas barbaridades, que o ditador vai compartilhar o poder e o butim se deflagrar com êxito um golpe. Aí, não sobrará muita coisa para Lira, Pacheco e o resto da turma.

Voltem aos Quartéis

Durante 21 anos de regime militar, as Forças Armadas foram temidas e criticadas, mas havia respeito, temeroso e indignado. Depois desse período, as Forças Armadas se recolheram aos quarteis e ao respeito somou-se admiração. Em 2018, um capitão e um general foram eleitos e levaram o Exército de volta ao poder, comprometendo as FFAA. Os eleitos representam seus partidos, não as instituições a que pertencem. Mas os soldados – Presidente, Vice-Presidente e os muitos militares – que foram eleitos em 2019 optaram por comprometer o Exército, a Marinha e a Aeronáutica nos erros do novo governo.

Em consequência, a partir de 2019, nossas Forças Armadas começaram a degradar sua imagem, em função do destempero irresponsável de um presidente despreparado para o cargo; da incompetência de ministros incompetentes para gestão; da falta de empatia diante do sofrimento dos doentes e mortos pela epidemia e dos mortos sob tortura durante a ditadura; diante também dos desperdícios de gastos com compras desnecessárias e até ridículas; por suspeitas de corrupção e conivência com ameaças às instituições democráticas e pelo desprezo diante de nossas riquezas naturais e nossos povos indígenas.

O governo militar eleito está degradando a imagem militar muito mais do que o governo militar golpista, tanto dentro quanto fora do país. Depois de quase quatro anos de governo, a imagem das FFAA está desgastada e ridicularizada, debochada em alguns momentos. Isto não é bom para o Brasil.

Um país com nossa dimensão precisa de FFAA fortes, preparadas, profissionais, bem equipadas e, sobretudo respeitada pela população, uma instituição de todos, sem partidarismo e sem comprometimento com os erros do governo do momento, passageiro como todos governos.

Por isto, o Brasil precisa retomar confiança e respeito por seus soldados, e não há outra forma, salvo eles se descomprometerem com os erros do governo e retornarem aos quarteis.

As FFAA não deveriam ser um partido, mas parece que se preparam para disputar eleição com uma chapa puro sangue militar. Se perderem, voltarão aos quarteis rejeitadas; se ganharem, ficarão mais quatro anos com o atual presidente, e a desmoralização será ampliada. Se decidirem apoiar ruptura na ordem democrática, poderão ficar mais tempo, adiarão a saída, mas sairão do poder com a imagem ainda mais desgastada, como mostra a experiência no Brasil e em todas partes.

Todo cidadão, civil ou militar, tem direito de se candidatar, mas sem levar as FFAA como reféns de líderes ou seus partidos. O Brasil precisa de seus soldados respeitados, profissionalizados na caserna. Se forem patriotas, voltem aos quarteis.

Distopia (trecho)

Para Mussa José Assis
Como será o amanhã...!?
um itinerário sem destino?
um calendário de incertezas?
O que restará dessa anêmica biosfera...!?
do fluxo agonizante das nascentes...
das bandeiras hasteadas pela vida!?
Dia a dia e esse palco inquietante...!
esse escasso oxigênio,
essa delgada água,
esse termômetro assustador.
Ano a ano e a ampulheta do caos escorrendo lentamente nossas vidas...!
nessa paisagem devorada,
nesse carbono letal,
nesse mapa pontilhado pela morte.


Como será o planeta do amanhã...!?
Um mar sem arquipélagos?
um oceano de migrantes?
uma praia de naufrágios?
Falo de uma temperatura cruel,
de paisagens derretidas,
de uma frota de icebergs navegando os sete mares.

Como será a terra do amanhã!?
um campo calcinado?
uma lavoura sinistra?
Que sabor terão os frutos na próxima estação?
que surpresas nos escondem os segredos da ciência?
o que colheremos da alquimia da ganância?
Falo de patentes criminosas,
de sementes suicidas,
dessa dinastia de flores virulentas polinizando a vida
e desse bizarro contrabando germinando sobre a terra.

Como será teu amanhã!?
um teclado de emoções?
um híbrido palpitar?
Com que apetite digitarás as tuas ânsias
degustando essa cultura cibernética?
digerido pelos circuitos virtuais,
pelo marketing neurológico das partículas,
por esse “chip” instalado no teu cérebro,
processando uma ordem dogmática: conecte, “navegue”, consuma...
Com que senha abrirás teu coração?
haverá um ícone para a solidariedade?
um link para a compaixão?
Qual a fronteira entre tu mesmo e a máquina?
quem são essas moléculas engenhosas?
esses átomos amestrados
a devassar teu íntimo recanto de criatura?

Como será nosso amanhã!?
Uma bússola sem norte?
um insulto à liberdade?
com que farol iluminaremos nosso rumo
acuados pela ousadia da violência
e sitiados pelo próprio livre-arbítrio?
Aqui e acolá as estreitas fronteiras do pânico...
esse semáforo que não abre...
esse alguém que te observa...
esse olhar engatilhado...
uma abordagem indigesta
e o cronômetro do pavor computando teu destino.
No roteiro dantesco da sobrevivência
reabres dia a dia tua agenda...,
é o teu cotidiano decomposto,
essa incerteza diária de chegar...
essas balas que assobiam no perímetro dos teus passos.

Como será nosso amanhã!?
Um mundo sem idioma?
um cântaro de fel?
Falo de um território dominado por estranhas hierarquias,
por facções tatuadas com os signos da maldade,
pelos mercenários do vício
enriquecidos pelos lucros homicidas.
Falo de uma legião de vítimas,
de uma síndrome cruel e invencível,
de criaturas e sonhos em farrapos.
Falo dos “juízes” da vida e da morte,
de sentenças e chacinas,
de um comando sinistro e impassível.
Falo da cidadania encurralada pelas milícias do ódio
e de um mercado inexorável do extermínio.

Como será o amanhã!?
um shopping de entretenimentos?
uma oficina de vaidades?
um imenso bazar de grifes e mesmices?
Quem sabe..., uma alameda “fashion”...
onde desfilam as esbeltas silhuetas da ilusão,
estampadas, dia a dia, nas páginas coloridas do glamour.
Ou, talvez, um teatro de incautos “marionetes”...
encenando a sensualidade e o acinte
na pública ribalta do hedonismo!

Como será o amanhã?
Um santuário virtual do “encanto”?
uma cidadela da luxúria?
Falo da explícita pedagogia do erotismo,
seus ícones, seus balcões,
suas vitrines pontocom.
De suas telas insinuantes,
seu varejo literário,
e sua indigesta ditadura musical.
Falo da sodomia on-line,
de devassadas alcovas eletrônicas
e desse promíscuo ritual de fantasias.

E pergunto, perplexo, pela pátria do amanhã...
e falo das paisagens sedutoras do poder,
desse cheiro putrefato que chega do planalto.
Falo de uma oficial voracidade...
dessa doméstica fauna de homens públicos,
...essa nossa biodiversidade insustentável.
Falo da ascensão vertiginosa da esperteza,
dessa inumerável galeria de “celebridades”,
trajadas com as fisiológicas legendas do poder.
Falo do escândalo nosso de cada dia,
da nação envergonhada por quadrilhas palacianas,
por dossiês sonegados e pelos crimes arquivados.
Falo dessa insultante presunção de inocência,
dessa triste balada da alma humana,
dançando pela culpa absolvida
e gargalhando com escárnio da justiça.

O que sobrará enfim desse perene banquete...!?
para onde caminha essa infantil humanidade...
embriagada pelo licor das ilusões
e indiferente à dor dos desgraçados?
Quem sabe reste um naco qualquer de fraternidade
para ser digerido com um gole de esperança...
um “cardápio” para os filhos da miséria,
uma migalha perene...
para saciar essa fome que janta, na calçada, o nosso lixo remexido.

E eis porque falo de uma alarmante geografia de lágrimas,
de uma favela planetária
de uma legião mundial de parias.
Falo de criaturas açoitadas pela vida
de um mundo que “não dorme e que não come”
que “não lê e não escreve”...
Como saciar tanta sede de justiça?
como conter essa fome parindo seus herdeiros?
Manoel de Andrade, "Cantares"

O clube dos moinhos de vento

A imigração certamente não é o problema mais sério da França. Todos os dias chegam à União Europeia trabalhadores de várias nacionalidades e qualificações. Segundo estudos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE – o clube dos países ricos –, os imigrantes movimentam a economia em países onde a população está envelhecendo. A seleção de futebol que ganhou a Copa do Mundo é o emblema da nova França multicultural.

O segundo turno entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen será hoje – e a imigração foi tema no debate eleitoral francês. “Le Pen suavizou seu discurso, mas sua posição histórica – fechar as fronteiras francesas – atentaria contra um dos princípios básicos da União Europeia, que é a livre circulação de pessoas”, diz o cientista político Andrei Roman, entrevistado no minipodcast da semana. Ele é CEO do Atlas, empresa de análise de dados que atua em eleições em vários países.

O Brasil tem problemas seriíssimos – inflação, corrupção, pobreza – e a falta de liberdade de expressão não está entre eles. O tema, no entanto, ganhou relevância ao longo desta semana. Em decisão “pedagógica”, como observou o Estadão em editorial, o Supremo Tribunal Federal condenou o deputado federal Daniel Silveira a oito anos e nove meses de cadeia, “por usar de violência ou grave ameaça para impedir o exercício dos Poderes”.


Para atiçar uma discussão falaciosa sobre liberdade de expressão, o presidente Jair Bolsonaro peitou o STF ao quebrar uma promessa de campanha e conceder indulto ao deputado criminoso. De acordo com o editorial do Estadão, “não existe liberdade de expressão para atacar a democracia”.

Um traço comum entre Brasil e França é a existência de políticos que usam a tática de desviar o assunto para temas irrelevantes, mas com apelo popular – os “moinhos de vento”. 60% dos franceses se preocupam com a imigração, segundo pesquisa do Atlas. “Os benefícios econômicos não são óbvios para grande parte dos eleitores, e a direita radical usa isso”, diz Roman.

É uma tática disseminada. Na Hungria e na Polônia, candidatos à presidência inventaram um complô internacional LGBTQIA+. Viktor Orbán e Andrzej Duda venceram seus pleitos usando esse discurso. A última pesquisa do Atlas, no entanto, aponta uma vitória de Macron por 53 a 47. Mais uma vez os franceses deverão fugir do radicalismo.

As eleições de outubro dirão se Bolsonaro terá sucesso ao desviar a campanha dos problemas sérios. Qualquer que seja o resultado do pleito, a democracia perde quando o debate foge dos fatos e abraça o universo ficcional dos moinhos de vento.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Os cínicos e os burros

Não, o assunto não morreu. Nem pode. Confrontado com os áudios em que antigos juízes do Superior Tribunal Militar reconheceram a prática de tortura na ditadura militar, o tosco atual presidente do STM, general Luís Carlos Gomes Mattos, disse, "Eles não estragaram a minha Páscoa". Na véspera, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, foi ainda mais grosseiro: "Os caras já morreram tudo, pô. Vai trazer os caras de volta do túmulo?". O deboche e a crueldade são iguais, mas não a personalidade de cada um.

Mourão é cínico, assim como seus colegas de farda Augusto Heleno e Braga Netto. Sabem que Jair Bolsonaro está desmontando o país, com resultados que revoltariam até os generais da ditadura. Mas já não têm saída exceto seguir com ele, ao lado de cínicos profissionais como Augusto Aras, Marcelo Queiroga, Paulo Guedes, Arthur Lira, Silas Malafaia e outros juízes, políticos e evangélicos.


Já Gomes Mattos é apenas burro. Faz parte do time de Luiz Eduardo Ramos, Eduardo Pazuello, Marcos Pontes e outros fardados que veem Bolsonaro como um iluminado. Ao dizer que "só varrem um lado, não varrem o outro", admitiu que nos dois lados há coisa a varrer. Mas tanto os cínicos quanto os burros estão fazendo vista grossa a algo importante e óbvio.

Sob Bolsonaro, qualquer desclassificado no governo pode pregar o armamento da população contra a "criminalidade de Estado". Isso significa a incitação a que civis peguem em armas para, ao comando de Bolsonaro ou dos zeros, desafiar os governadores, os tribunais e, se preciso, o próprio Exército.

O que esses generais acharão da ideia de dividir a força armada da nação com uma turba acima da lei, com ideias particulares de ordem e poder? Irão à sua caça, para prendê-los e torturá-los, como seus heróis fizeram contra os inimigos no passado? Ou se sujeitarão a bater continência para gente como Daniel Silveira?

Democracia iliberal é piada

A mais imperfeita das democracias é sempre mais justa do que a mais sofisticada das ditaduras.
 Nós queremos uma muito melhor democracia, mas democracia, não queremos aventuras ou seduções de democracias ditas iliberais, ou seja, ditaduras dissimuladas. Reafirmemos, pois, os valores os princípios democráticos e pratiquemo-los no dia a dia. Evitemos as condutas que enfraqueçam aqueles valores e princípios. Previnamos o seu desrespeito. Combatamos a sua violação. Reformemos a justiça onde e quando e como tal se revele necessário, sem messianismos, que são próprios de instituições débeis ou frágeis, mas com instituições fortes e prestigiadas e, sobretudo, com cidadania exemplar.
Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, na sessão solene de abertura do ano judicial no Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa

Nós, os bobos

A cena – fictícia, por favor – tem lugar num restaurante sem encantos, há coisa de duas décadas. Três comensais conversam em tom contido; não querem ser ouvidos pelos clientes das outras mesas e muito menos pelo garçom. São dois homens, ambos parlamentares, e uma mulher. Detentora de um cargo de relevo no Executivo, ela escuta o interlocutor de cabelos escuros, o mais jovem, que, semblante contraído, conta que há denúncias de propina em repartições da cidade. Sua retórica tem escola, embora pouco mais que sussurrada. Ela se mantém insondável. O outro, silente, assiste à preleção com ares de resignação disciplinada, feito a Mona Lisa de bigodes.

Numa pausa polida, a dama pede licença e se dirige ao toalete. Pronto, era a deixa que o mais velho esperava para pôr o colóquio em pratos limpos. Pousando a mão sobre o antebraço do moço, o senhor calmo o encara com serena segurança: “Ela sabe”. Ambos emudecem. “Ela sabe de tudo.” Os dois se entreolham sob o rumorejo do ambiente e o tilintar dos talheres triscando a louça. Quando a senhora retorna, a pauta é outra. Falam do clima, de um aniversário na família, do amigo que recebeu um diagnóstico de câncer. “Me passa o sal, por favor?” A comida pesa na boca de um dos três, que mastiga como se fosse alface a certeza rançosa de que lhe coube o papel de bobo.


Agora, mudemos a chave. Passemos da ficção para a realidade. Deixemos para trás os tempos idos, um tanto hipotéticos, e vamos nos fixar no presente, nos nossos problemas gritantes. Voltemos nossa atenção para outra conversa, não mais num restaurante insosso, mas na esfera pública: escutemos o diálogo da imprensa com a elite brasileira. Não descuidemos dessa tortuosa interlocução, porque aí, também, existe gente no papel de mané.

Todos os dias, o noticiário traz fatos eloquentes que atestam a desumanidade do governo federal, o deboche que o presidente dedica à vida de seus conterrâneos, as políticas intencionais de devastação ambiental (algumas vezes com um ministro em pessoa vistoriando madeira empilhada), a corrosão milicienta que come por dentro as instituições democráticas, o tráfico de influência e, por fim, o cinismo com que militares tornados políticos gargalham dos crimes de tortura, assassinato e ocultação de cadáver praticados durante a ditadura militar. Está tudo aí, na nossa cara. Manchetes que deveriam chocar a opinião pública passam como se fossem o aviso de uma frente fria que vai se aproximando do Rio Grande do Sul.

A imprensa profissional insiste, e seu trabalho árduo cai no vazio, como um folheto com ofertas de supermercado que é esquecido no fundo da caixa de correio das residências elegantes da capital. O que teria de ser desesperador se tornou irrelevante. Nada mais é capaz de despertar a “ira santa” dos que estão por cima.

Aos poucos, a consciência do jornalista começa a ouvir uma advertência que vem não se sabe bem de onde, mas vem: “Eles sabem, meu rapaz. Eles sabem de tudo, minha cara”. A advertência continua: “Eles sabem, e não se incomodam, querem que isso continue. É melhor você não ficar mais amolando com esta conversa negativa. Chega de notícia ruim. Vê se arranja aí uma história edificante pra contar”.

O discurso da imprensa, desde as revoluções liberais no século 18, tem na mira o cidadão ciente de seus direitos. É para ele que os jornais sempre falaram. O jornalismo se distingue de todas as outras formas de relato não por ter títulos, leads e legendas, mas por eleger como seu destinatário o titular do direito à informação. Em poucas palavras, o jornalismo se define por aquele a quem se dirige – e “aquele a quem se dirige”, neste caso, é a fonte do poder, razão pela qual tem o direito e o dever de estar informado.

Agora, a velha receita, tão simples quanto cristalina, entra em crise. O cidadão ciente dos direitos, antes encarregado de fiscalizar o poder, vai gradativamente renunciando ao posto – a começar da elite. Vozes endinheiradas admitem que vão reeleger o presidente da República. A desculpa é não permitir o que chamam de “volta da corrupção”. Reclamam de desvios que ocorreram em governos passados. Ocorre que aquelas condutas lamentáveis, criminosas, foram apuradas, julgadas e muita gente foi parar na cadeia. Nós tínhamos um Estado preparado para enfrentar os ilícitos. Agora, no governo que aí está, também há denúncias de subtrações dolosas, mas o pior é que estão nos tungando, além do erário, o próprio aparelho de Estado. Atenção, senhoras e senhores que não têm mais ouvidos cívicos: estão pilhando a precária democracia que tínhamos. Diante dos olhos da Nação, instituições vêm sendo adulteradas em suas finalidades e passam a buscar metas opostas à sua razão de ser. Corrupção? Ora, não há corrupção maior do que essa, nem mais destrutiva.

A tal elite não liga. Alegando medo dos fantasmas do passado, vai se preparando para fortalecer o fanatismo antidemocrático que já está no poder e sufragar a maior de todas as corrupções. A imprensa fala sozinha, feito boba.

Pensamento do Dia