quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A derrota do otimismo

Quando a pandemia começou, tentei ver a situação pelo lado positivo. Foi muito difícil, mas havia alguns vagos fiapos aos quais nós, polianas inveteradas, podíamos nos agarrar: afinal, estávamos vivendo uma experiência rara, que passaria aos livros de História.

Qualquer pessoa de bom senso sabe que experiências históricas devem ser evitadas a todo o custo; mas também é sabido que pessoas otimistas por natureza, como é meu caso, não têm bom senso — as condições são excludentes.

O fato é que vimos imagens inéditas das grandes metrópoles inteiramente vazias; descobrimos pontos de luz e de solidariedade em vizinhos que cantavam nas janelas e tentavam transmitir coragem uns aos outros; vibramos com o aplauso coletivo para os heróis da área da saúde; aprendemos coisas que nem imaginávamos sobre vírus e transmissão de doenças.

Cheguei a escrever sobre a importância do nosso papel como testemunhas, e disse aos meus netos para prestarem muita atenção ao que acontecia à sua volta, porque, no futuro, os seus netos lhes farão perguntas sobre os tempos que vivemos.

Juntei aos poucos livros que já tinha sobre pragas e pandemias medievais uma pequena biblioteca sobre a Covid. Acho que nunca li tanto sobre um mesmo assunto em tão pouco tempo.


Ainda na semana passada, por exemplo, recebi “Plague, pestilence and pandemic: Voices from History”, de Peter Furtado, que traz depoimentos em primeira pessoa de gente que passou por pragas, pestes e pandemias, ou ouviu histórias de quem as havia enfrentado. Há relatos que vêm desde a Peste de Atenas em 430 a.C. — aquela que matou Péricles — até a Covid-19. Todos são previsivelmente parecidos, inclusive em relação aos propagadores de fake news, espécie tão antiga e maligna quanto os piores vírus. Abrindo as páginas ao acaso é impossível saber de que época ou de que peste se fala; a Humanidade não muda. A única diferença de nós para as vítimas de mil ou dois mil anos atrás é que nós já conhecemos a causa do que nos mata e, tendo desenvolvido vacinas, conseguimos nos proteger melhor. O livro é muito atualizado e bem pesquisado, ainda que vagamente desconjuntado e difícil de ler.

Enfim, fiz o que pude para não desanimar por completo, mas esta pandemia, como as demais, não tem aspectos positivos. No varejo, talvez seja possível apontar melhores hábitos de higiene ou a guinada do trabalho on-line mas, no atacado, a experiência é triste, traumática e assustadora.

No Brasil é, acima de tudo, profundamente exaustiva, porque além de brigar contra o vírus, temos também de brigar contra autoridades obscurantistas e debochadas e um presidente destituído de qualquer qualidade humana.

Não há otimismo que sobreviva a tanta estupidez.

Não há otimismo que sobreviva à perversidade contínua de um governo que faz de tudo, o tempo todo, para atrapalhar onde pode e destruir o que consegue.

Não há otimismo que sobreviva à gente precisar bater na mesma tecla, dia após dia, sem que nada aconteça.

Não há otimismo que sobreviva a um país que virou uma farsa.

'Esquecer seria o pior de tudo"

David Olère 
Para mim é incompreensível que nos nossos países, na Europa, exista gente que se identifica com os nazistas, com essa ideologia. Isso é mais do que um tapa na cara de milhões de vítimas, vítimas indefesas, cuja vida foi tirada sem qualquer escrúpulo. Para nós, sobreviventes, é inconcebível se identificar com essa ideologia
Leon Weintraub (96 anos), sobrevivente que perdeu 64 pessoas da família

Hoje é o Dia do Holocausto para que a humanidade jamais esqueça

Há 77 anos, no fim da Segunda Guerra Mundial, o Exército Soviético, depois de intensa luta, tomava e libertava Auschwitz, na Polônia, o maior e mais terrível campo de concentração nazista, no qual milhares de judeus foram assassinados.

Devido a esse fato histórico, 27 de janeiro é o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Essa data foi instituída pelas Nações Unidas e faz com que jamais esqueçamos os milhões de seres humanos que foram brutalmente assassinados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial para impor a insana ideologia política que haviam criado, a da supremacia ariana.

Há informações de que apenas em Auschwitz, na Polônia, cerca de 1,5 milhão de pessoas tenham sido exterminadas no período, tudo para atender à insanidade dos nazistas da propagada “supremacia étnica” ariana.

Esse triste período da humanidade é historicamente denominado Holocausto. Para os judeus, Shoah, palavra hebraica que significa, literalmente, “destruição, ruína, catástrofe”, é a expressão para denominar o aniquilamento metódico –perseguição, exclusão socioeconômica, expropriação, tortura, trabalho forçado, fome, prisão sem motivo e extermínio de seis milhões de judeus da Alemanha e da Europa ocupada entre 1933 e 1945 pelo regime nazista

Enfim, a prática e a contínua evolução da técnica do assassinato em massa de seres humanos objetivando um extermínio seletivo.

David Olère (1902-85), pintor de Auschiwitz, 

No período, os seis milhões de judeus assassinados – homens, mulheres e crianças – representavam 65% da população judaica europeia e 30% da população judaica mundial. O Holocausto tornou-se o símbolo representativo da barbárie do século XX.

Há diversas suposições que tentam explicar a ideia fixa dos nazistas de que o povo judeu era inferior e, portanto, deveria ser exterminado. Alguns até escreveram que a causa para a desmedida crueldade se deu por supostos fatos religiosos, já que judeus condenaram Jesus à morte – o que significa patente distorção da verdade, pois Jesus foi condenado pelos romanos. Jesus Cristo nasceu, viveu e morreu como judeu.

Porém, a teoria que mais parece merecedora de crédito é a que afirma que o objetivo do extermínio ocorreu devido à alta concentração de riqueza pelos judeus, principalmente pelo fato de muitos deles serem donos de instituições financeiras e empresas bem sucedidas. Assim, fica claro que o objetivo era tomar todos os bens dos judeus – em português claro: roubo, confisco.

O Holocausto não foi praticado de uma só vez, foi um processo doloso aplicado por etapas, sem Hitler ter levado em consideração que na Primeira Guerra Mundial cerca de 100 mil soldados judeus alemães lutaram pela Alemanha, tendo 12 mil morrido em combate.

A primeira etapa (1933/1935) foi a da identificação dos judeus, sua separação social e início da exclusão da vida pública, com medidas como proibição do exercício de profissões liberais, de frequência a escolas e universidades e de boicote contra lojas judaicas.

A segunda (1935/1938) foi a de isolamento e degradação dos judeus, etapa que se inicia com as Leis de Nuremberg. Os judeus deixavam se ser reconhecidos como cidadãos e eram proibidos de se casar com “arianos”. Se não obedecessem. eram punidos com a morte.

Na terceira fase (1938/1941), iniciada a partir da “Noite dos Cristais Quebrados” – a primeira chacina de judeus do século XX – assinala o princípio da violência física desmedida contra o povo judaico e o envio de seus membros para os campos de concentração.

Nessa fase, os judeus foram radicalmente expulsos da vida econômica e financeira na Alemanha. Todo o patrimônio foi confiscado pelo Estado alemão. Nesse período, começa a Segunda Guerra Mundial, a expansão do “espaço vital” da Alemanha nazista com a invasão de outros países, a forte elevação do número de vítimas, o aumento do número dos campos de concentração e também se inicia o confinamento dos judeus em guetos.

A quarta e última fase (1941/1945), é a denominada “Solução Final da Questão Judaica”: a do extermínio em massa dos judeus pelas “operações móveis de assassinato” formadas pela cruel SS (Schutzstaffel), nos campos de extermínio (Sobibor, Treblinka, Chelmno, Auschwitz e Majdanek) situados na Polônia, país onde se encontrava a maior concentração populacional judaica da Europa. Há registros que também consideram o campo de Jasenovac, na Croácia, como campo de extermínio.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A farsa presidencial

Presidente, posso falar um verso bíblico para o senhor? É aquele verso que o senhor diz que gosta muito, e eu também – é um dos meus favoritos. ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’. E a verdade é Jesus, a verdade é justiça, a verdade é honestidade. E sabendo disso, dá para considerar que o senhor é uma farsa presidente
Hadassa Gomes, 19 anos, estudante de jornalismo em Sorocaba (SP), no "cercadinho"

Quando tudo isso passar

A emergência da variante ômicron do Sars-CoV-2 trouxe o melhor e o pior em termos de expectativas para uma humanidade cansada após dois anos de perdas humanas, afetivas, cognitivas, econômicas.

Do lado positivo, a expectativa de que, sim, o novo modelo da peste pode indicar o caminho para algum tipo de normalização dada a sua avassaladora transmissibilidade e aparente comedimento em termos de impacto mortífero entre aqueles que estão vacinados.

O problema está no aparente, e falo com o amargor de quem perdeu um ente muito próximo que nem de longe poderia ser qualificado de negacionista. A alta atividade do patógeno leva, evidentemente, a mais casos e à maior probabilidade de oportunidades à Ceifadora.

Infelizmente não temos W.G. Sebald cá nos trópicos para, como fez o maior escritor alemão do pós-Guerra com uma Europa destroçada, descrever a perplexidade e impotência ante o tsunami que nos colheu.


A propósito, Sebald, cuja obra se assenta em quatro obras-primas e foi interrompida por uma morte estúpida aos meros 57 anos, em 2001, ora é escrutinado em uma instigante biografia da britânica Carole Angier, lançada recentemente.

Ela percorre os caminhos tortuosos da mente do escritor, aponta contradições éticas graves em seu trabalho acadêmico e registra a revolta com que os personagens de seus livros foram decalcados de histórias reais --basicamente, Sebald destruía sua matéria-prima e a remontava de uma forma ficcional crível e bela.

Com isso, ele trouxe as reflexões acerca da culpa coletiva de uma Europa sob o nazismo, que ele vira ausente em seu pai, que servira à Wehrmacht na Segunda Guerra Mundial.

Os fragmentos, muitas vezes colagens fotográficas ou palimpsestos mentais tirados da observação da topografia arquitetônica do continente, ganhavam vida para exprimir a dor vazia do Holocausto.

E, com sorte, transcender algo dela por meio da Grande Beleza, para agora roubar o título do filmaço de Paolo Sorrentino (nota aleatória, "A Mão de Deus", no Netflix, é imperdível).

Não temos um Sebald, embora ao menos no quesito de pecados na academia, a acusação mais séria de Angier, não nos faltem exemplos. O chororô criado acerca do método do alemão ao criar ficção parece, à primeira vista, só isso.

Já o impacto da Covid-19 num país governado por uma casta particularmente nefasta de lorpas é objeto para choro real. E não, não espezinharei a morte do negacionista ora elevado a merecedor de luto nacional.

Critiquem sua obra tola, combatam hagiografias, mas deixem a família do homem em paz. Falta-nos um Sebald para contar tudo isso ao porvir, na hipótese de Putin e Biden nos concederem a graça.

Pensamento do Dia

 


Olavo deixa órfãos Bolsonaro, seus devotos e a direita sem vergonha

É no que deu bater palmas para que maluco dançasse. Ex-simpatizante do Partido Comunista Brasileiro, o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho derivou mais tarde para a astrologia, o esoterismo, e morreu aos 74 anos como guru da direita brasileira que antes temia ser chamada pelo nome.

Décadas a fio, ela preferiu identificar-se como centro, tal era seu complexo de inferioridade, como se apenas à esquerda coubesse o papel de defensora de melhores condições de vida para os pobres e de mudanças estruturais. A direita também precisa que os pobres comam para que o capitalismo se expanda.

A esquerda jamais governou o Brasil desde que a democracia fez sua estreia por aqui. Pensou que poderia governar com a chegada ao poder de João Goulart, depois que Jânio Quadros renunciou à presidência da República. Não contava, porém, com o golpe militar de 64. Finalmente, deu pinta de que chegara com Lula e Dilma.

No caso de Lula, foi ele que cavalgou a esquerda, não o contrário. Dilma causou mais assombro à direita, e por isso acabou derrubada. A Lava Jato surgiu como a melhor oportunidade para que a direita se livrasse por muito tempo do risco de o PT voltar. É pela direita que se diz de centro que Lula pretende voltar.

Abriu-se então o espaço para que emergisse Olavo, um charlatão bom de bico, autor de alguns poucos livros de sucesso, e que fora morar nos Estados Unidos. Durante certo período, ele foi colunista de alguns dos mais importantes jornais e revistas do Brasil, ganhando fama de excêntrico, mas divertido.

Tinha pouco de conservador. Era um reacionário. Entenda-se por isso: retrógrado, antidemocrático, antiliberal. Saudado como o ideólogo da nova direita, logo se tornou um extremista, valendo-se de xingamentos, mentiras e ataques pessoais para disseminar as mais esdrúxulas teses e teorias conspiratórias.

E o fez em busca de protagonismo e também para ganhar dinheiro com os cursos on-line que oferecia, sintonizado com o que havia de pior na direita americana. Jornalista de ocasião, ele pregou a violência contra jornalistas que não compartilhavam suas ideias. Escreveu que a Terra era plana e que a Covid-19 não matava.

Deu sorte de estar no melhor da sua forma conspiratória quando viu ascenderem no Brasil o ex-capitão Bolsonaro e seus filhos – ele, um sindicalista militar sem rumo e prestes a se aposentar como deputado federal do baixo clero; os filhos, de futuro incerto, dependentes do pai para seguirem sua carreira política.

Sobre a mesa em que Bolsonaro gravou o primeiro discurso após a vitória havia um livro de Olavo: “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”. O idiota jamais leu aquele livro, sequer o de memórias do coronel torturador Brilhante Ulstra, seu herói. Mas, juntou-se à vontade de comer de um a do outro de servir.

Bolsonaro carecia de direção. Olavo, de alguém poderoso que ele pilotasse. O enlace durou menos do que Olavo imaginava. Mais esperto do que ele, Bolsonaro trocou sua companhia pela do Centrão para escapar do impeachment, governar como refém, e tentar se reeleger. Olavo morreu rompido com Bolsonaro.

A última batalha a ser travada entre os dois ficou para a posteridade. É quando se saberá quem irá sobreviver – o olavismo ou o bolsonarismo. Palpite: Olavo derrotará Bolsonaro.

Pacificação, governança, reconstrução

O professor Hussein Kalout costuma lembrar que o próximo presidente terá três desafios: pacificação, governança e reconstrução. Ele terá o desafio de pacificar o país, social e politicamente. Quebrar a polarização que divide o Brasil em polos divorciados, depois de cinco séculos de desigualdade social com cara de apartação, e de alguns anos com líderes, militantes e cidadãos separados em extremos sem diálogo.

Deverá também ser capaz de exercer governança que permita ao Brasil voltar a funcionar, depois da degradação de suas instituições, do imenso desequilíbrio fiscal, da corrupção, do corporativismo e da política sem espírito público. Fazer o país funcionar e o Estado ter eficiência é um desafio fundamental para o próximo presidente.

Precisará também iniciar a reconstrução do que vem sendo destruído ao longo dos anos de recessão econômica, sequestro e aparelhamento do Estado, atraso tecnológico, agravados pela estupidez revogatória do atual governo eliminando avanços do passado. Esses desafios seriam enfrentados mais facilmente se as forças políticas tivessem sido capazes de encontrar propostas, nomes, ideias e forças novas que permitissem, em 2022, um salto adiante, sem amarras com o passado. Mas isso não ocorreu.


Prisioneiras do radicalismo, do partidarismo e do imediatismo, nossas lideranças políticas não foram capazes de apresentar novidade nas eleições deste ano. Os 12 candidatos que se apresentam têm cara e propostas (ou falta de propostas) características do passado, dificilmente surgirão nomes capazes de trazer ares novos, passar confiança e seduzir o eleitorado, nas poucas semanas adiante, antes das eleições.

Tudo indica que o processo eleitoral chegará ao segundo turno entre Bolsonaro e Lula, e este último será o nome que o Brasil disporá para pacificar, exercer governança e reconstruir o país. Mas, para isso, ele precisará enfrentar dificuldades com a postura tradicional do partido.

Para pacificar, precisará superar o comportamento de parte da militância e da direção de dividir o Brasil entre o PT e o resto; ser capaz de atrair os que são tratados como inimigos por terem sido discordantes. Esta é uma eleição para o eleito se comportar como pacificador, não como vitorioso.

Lula passa essa visão quando dialoga com líderes de outras forças, mas é preciso mais que isso: uma postura de aceitação de outras forças, propostas e visões dos que desejam tirar o Brasil do abismo, mesmo discordando do PT. A pacificação é um desafio para vencer a eleição, de preferência no primeiro turno, e necessária para permitir a governança depois da posse.

Nesse desafio, o próximo presidente precisará ser pacificador e responsável. Não haverá governança com irresponsabilidade fiscal e inflação roubando salários de trabalhadores e aposentados, tampouco sem reformas em regras que isolam e emperram a economia brasileira; precisará liberar forças produtivas e barrar privilégios corporativos que impedem a distribuição da produção. A governança exigirá sensibilidade social para atender às necessidades das camadas pobres, mas também responsabilidade com os limites dos recursos, ecológicos ou fiscais. Seria uma tragédia vencer para acabar com o negacionismo de direita e substituí-lo por negacionismo de esquerda.

Para reconstruir, Lula precisa olhar para o futuro, escapando de visões obsoletas de alguns de seus aliados que se recusam a perceber a realidade do século 21, preferem continuar com ideias superadas, vendo o próximo governo como instrumento de desfazimento e não de construção. Não se constrói o futuro com nostalgia do passado.

A governança será fundamental para retirar o Brasil do atual abismo, reconstruindo nossa economia e nosso tecido social. Por isso, Lula não pode cair na tentação de revogar e desfazer para voltar a um passado superado, precisa avançar na construção de uma economia sólida e um tecido social justo.

A pacificação e a governança vão exigir comprometimento com a eficiência do Estado a serviço do país e do futuro. Para tanto, há uma palavra adicional, que serve de liga aos três desafios: confiança. Para pacificar, governar e construir, Lula e o PT precisam entender que o Brasil é maior do que qualquer partido e que o futuro não se constrói com nostalgias que negam a realidade.

Meu país ainda está aí

Meu país ainda existe. Um pouco envergonhado, se escondendo pelo cantos, mas está aí, não sumiu de vez não. Estão tentando acabar com ele no grito, na bala e na incompetência. Mas ainda respira, o meu país.


Está nas dobras das saias das mulheres que jamais se dobram. Em algum vão entre os tijolos de um bar, onde cinco amigos se reúnem há décadas. Num cruzamento perfeito na pelada na praia. Nas risadas dos moleques de cascão nos pés, que correm sem sentir dor, pisando em pedras como em folhas.

Está na música de Garoto e Pixinguinha. Nas árvores que florescem em pleno inverno. Numa tela de Portinari, carregada de um amarelo que envenena tanto quem pinta quanto quem olha. Na minhoca que se contorce, revelada pela enxada. Num verso seco de João Cabral. No porteiro do prédio que sabe cantar sambas que ninguém mais sabe, ele está.

No meu país, éramos tão magros. Viajávamos de carona em caminhão e dormíamos em redes nas casas de pescadores hospitaleiros. Conversávamos no escuro, e nos entendíamos mais no silêncio que nas palavras. Foi o que mais mudou. Meu país se drogou, inchou, se corrompeu, ficou violento. Mas ele há de voltar, tem que voltar, o mundo fica muito pobre sem o meu país.

Que um bicho grande (um gavião, de preferência) passe voando e dê uma bela cagada na cabeça de cada um que tenta destruir meu país. Chegará o dia em que todas as formigas sairão da terra para carregar em procissão, para o diabo que os carregue, os homens de arma, serra e fósforo na mão. Uma chuva trouxe seu antigo cheiro quente, úmido, de terra satisfeita. E se esse cheiro resiste, por que não a esperança?

Meu país é onde os marimbondos fazem suas casas apoiadas nos telhados das casas. O dos cachorros de rua vagabundos e pacíficos. Dos homens da roça que contam histórias enquanto enrolam a palha para pitar. O da música popular mais linda do mundo. Das fazedoras de doces no fogão a lenha, que cozinham em silêncio os segredos bem guardados. Da paçoca, da farofa, da cocada e do pastel de vento.

Um violão triste é como luta o meu país. No jogo da capoeira, mais dança que briga, é como luta o meu país. O das casas de cinco cores na fachada – sem contar as das janelas. O dos sorrisos de marfim nas peles pretas. Das maritacas que nos fios berram as últimas fofocas. O das nascentes dos rios, antes que o esgoto as alcançassem, e o das matas de cem tons de verde, antes que as serras elétricas as descobrissem.

Meu país resiste. Mas por ora, prefere se refugiar no porão, no escuro, amoitado, escondendo os dejetos, quase morto de desgosto. Sai muito raramente, apenas para nos sinalizar que ainda está. Veste uns trapos de cores esmaecidas, que nos causam dor e revolta.

Devolvam meu país, filhos desnaturados do meu país.
Cássio Zanatta

Brasil: Assim surge um “novo” clientelismo

O desenlace do ciclo político da Nova República, que aconteceu após três décadas de sua existência, tem sido acompanhado pelo rearranjo institucional que aponta para a formação de outra República no Brasil. As suas principais características, ainda que aprisionadas durante o período pós-ditadura, ganharam rapidamente maior dimensão desde o curso do golpe de Estado iniciado ao final das eleições presidenciais de 2014, quando o candidato derrotado e sua base partidária não aceitaram a derrota.

Como se fosse uma espécie de Revolução de 1930 ao inverso, as forças derrotadas a partir da segunda metade da década de 2010 tomaram corpo suficiente para levar avante a desconstrução do acordo político da Nova República, estabelecido pela Constituição de 1988. Resumidamente, o fortalecimento republicano da burocracia através do Regime Jurídico dos servidores públicos civis, autarquias e das fundações públicas, da unificação e transparência do orçamento público e da representação democrática em partidos políticos nacionais.

Mas o que aconteceu, contudo, com o desenrolar de distintos governos, foi a fragilização dos compromissos constitucionais previamente estabelecidos ao longo do próprio ciclo político da Nova República. Assim, o regime jurídico único dos serviços públicos foi sendo dilapidado pela força da terceirização, da desestatização e da gestão privatizada da administração pública.


O orçamento público foi conduzido sem contemplar a unidade à seguridade social, assim como a asfixia imposta pelo presidencialismo de coalizão ao executivo fez do parlamento, em vez de representante político da nação, tomador e gestor de recursos públicos. Emendas impositivas de vários tipos, até orçamento secreto, têm sido práticas crescentes a destoar da perspectiva constitucional de unidade e transparência orçamentária.

Por fim, o desmonte do sistema partidário de representação política foi seguido pelo desaparecimento de lideranças nacionais, favorecendo a continuidade e a formação de novas oligarquias regionais. O aparecimento do chamado Centrão, ainda no governo Sarney (1986-1990), e das bancadas suprapartidárias (ruralistas, do boi, da bala, da bíblia e outras) originadas no processo constituinte, concederam artificialidade e descrédito crescentes para grande parte dos partidos políticos no Brasil.

É diante disso que se começa a perceber a reconfiguração da outra República atualmente em marcha. Um verdadeiro museu de imensas novidades que convergem com as experiências já adotadas durante o Império (1822-1889) e a República Velha (1889-1930). Da monarquia parece provir, por exemplo, o experimento do Poder Moderador, cada vez mais exercido atualmente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em suas tentativas de reequilibrar as disputas entre os três poderes republicanos: executivo, legislativo e judiciário.

Da República Velha provém o esforço de recuperar o arranjo institucional que sustentou o sistema político daquela época. Ou seja, o tripé do poder assentado no mandonismo, clientelismo e coronelismo.

Desde o governo Temer (2016-2018), acentuado pelo de Bolsonaro, que o mandonismo tem sido mais acentuado pela prática da ocupação dos cargos públicos. Por não mais interessar os critérios mínimos republicanos como a competência técnica e a eficiência profissional, ganharam significância as indicações políticas fundamentadas no compromisso a quem manda, seja em cargos públicos civis ou não.

Assim, a desorganização provocada no interior da administração pública se alastrou. Os escândalos que se tornam públicos parecem revelar apenas a ponta do iceberg de negociatas e ilegalidades permitidas pelo mandonismo atual.

Por outro lado, o clientelismo tem avançado simultaneamente ao desmonte das políticas públicas de Estado. Seja na educação, ciências e tecnologia, agropecuária, economia, assistência social, entre outras, o governo opera cada vez mais atendendo às clientelas, não ao cidadão em geral. A destruição do programa Bolsa Família, entre outras políticas públicas, parece indicar o quanto o roteiro tradicional da eleição prévia de clientelas pelo governo de plantão visa atender a continuidade eleitoral a ser retribuída através do voto.

Nesse sentido, o coronelismo renovado se estabelece pela apropriação e comando do orçamento público em favor dos chefes de oligarquias regionais. No ano de 2021, por exemplo, cada um dos deputados federais, fora o orçamento secreto e outras iguarias orçamentárias, teve à sua disposição o valor de 16 milhões de reais de emenda impositiva a conectar poderes locais, clãs e distritos eleitorais, capazes de reproduzir as tradicionais oligarquias regionais.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Loja de conveniência

Emendas parlamentares pagas em 2021: R$ 25,1 bilhões. Dois mil e vinte um: o ano em que a pandemia nos mastigou de cabo a rabo — e a turma mamando e distribuindo tetas de paróquia em paróquia, o ano em que Rodrigo Pacheco envernizou a formalização do orçamento secreto.

Independentemente do alcolumbre da vez, o pacto que une governo Bolsonaro e o consórcio entre Progressistas, de Ciro Nogueira e Arthur Lira, e PL, de Valdemar da Costa Neto, não foi firmado para sutilezas. E todos os pachecos estão — serão — contemplados.

Previsão para 2022: R$ 37 bilhões, aí contidos os intocáveis mais de R$ 16 bilhões em emendas do relator. Valor que já considera os vetos miúdos de Bolsonaro, para pouco além de R$ 3 bilhões, montante que fica bem longe dos cerca de R$ 9 bilhões necessários à recomposição dos gastos obrigatórios que o Congresso, em parceria com o Planalto, propositalmente subestimou.

Foi sancionada, porém, a rubrica — da ordem de R$ 1,7 bilhão — que planta a projeção de reajuste salarial seletivo para as categorias do funcionalismo federal que compõem a base de apoio do bolsonarismo. E agora se especula sobre se parte dos bilhões vetados por Bolsonaro servirá para bancar aumento mais amplo. Alguém duvida? Falei em parte dos bilhões porque é provável que uma fatia da grana sirva à necessidade de se remontar o valor do Fundo Eleitoral àquele originalmente inscrito na LDO: R$ 5,7 bilhões, em vez dos pouco menos de R$ 5 bilhões que um puxadinho acomodara na LOA.


Para onde quer que se olhe, prioridades definidas, a galera sai ganhando. Jair “o Parlamento está muito bem atendido conosco” Bolsonaro já disse: “Hoje em dia estão todos ganhando”.

Um leitor me perguntou por que não escrevo sobre as eleições. Respondo: não faço outra coisa aqui senão falar da pré-campanha desde há muito deflagrada. E hoje de novo; dedicando-me particularmente à cobertura do governo Bolsonaro, sobretudo a partir de suas escolhas econômicas, em sua dimensão única: a de uma máquina dirigida tão somente à busca — irresponsável — do presidente pela reeleição, meta para a qual trabalha incondicionalmente o ministro da Economia.

Não me parece haver “sobre as eleições” mais importante do que a investigação acerca da forma como o governo e seus sócios no Parlamento —com o aval de Paulo Guedes — têm manejado dinheiros públicos e sacrificado a disciplina fiscal em função do objetivo de permanecer no poder. Não haverá algo mais relevante, com maiores impactos sobre o cidadão, do que a execução, ainda a meses das eleições, de um Orçamento, destelhado o teto de gastos, concebido e erguido sobre dois pilares, o corporativista e o eleitoreiro, conforme já expressaram a PEC dos Precatórios e seu tripé do esculacho fiscal, e agora sob a gestão patrimonialista de Ciro Nogueira.

E então, arrombada a porteira, chegamos à PEC dos Combustíveis, cuja pretensão consiste em baixar a inflação no trimestre que antecederá as eleições. Zeram-se os tributos federais, arma-se pressão sobre os governadores e alcança-se, com sorte, queda ínfima dos preços nas bombas. Com sorte porque não se pode descartar a chance de essa margem ser embolsada pela cadeia produtiva, ou mesmo anulada pelo aumento da cotação do barril de petróleo no mercado internacional.

Ninguém quer falar sobre câmbio apreciado; e sobre quanto disso — a verdadeira vilania a descontrolar o custo do combustível no Brasil — será produto do combo instabilidade institucional gerada por Bolsonaro mais incompetência de Guedes e Campos Neto.

Todo esse conjunto eleitoreiro a contratar mais inflação no futuro e a estabelecer o descalabro fiscal como escolha de governo. Depois da farra com as despesas disparada pela PEC dos Precatórios, a zorra com as receitas a partir da PEC dos Combustíveis, erigida sobre uma tal folga na arrecadação promovida pelo imposto inflacionário. O governo à vontade para renunciar a R$ 50 bilhões e ainda jogando mais areia sobre o aterro em que jaz a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Mais uma emenda à Constituição que não exigiria contrapartida à perda de receita. Está na moda. É como vamos. Mais uma vez informados de que Guedes — “sem participar das tratativas” — não se opõe ao beiço na arrecadação. Está mesmo contente com a mágica que a inflação fez na mitigação do déficit. E avalia que não dá para “cruzar os braços”. Algo precisa ser feito para que o chefe seja competitivo. A escolha: o rombo nas contas públicas por uma maquiagem inflacionária que role a bomba adiante — mais uma vez — e não atrapalhe Bolsonaro até outubro.

Em sua coluna no portal Metrópoles, Igor Gadelha dá conta de um Guedes desanimado com o processo por meio do qual o governo a que serve o teria vertido de Posto Ipiranga em loja de conveniência. Desanimado, mas ainda fiador do cálculo eleitoreiro segundo o qual a degradação inflacionária será mais deletéria para a popularidade do capitão do que a ruína fiscal. E teremos as duas.

Foi Guedes quem se transformou em loja de conveniência.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Uma história do futuro

Epidemias virais como a de Covid-19 dependem um pouco do acaso para começar. É preciso que a mutação certa apareça na hora e local certos. As de bactérias são mais previsíveis. Graças ao fenômeno da resistência, há, neste exato momento, bactérias trocando plasmídeos no corpo de algum paciente e assim forjando uma linhagem de patógenos capazes de debelar nossas defesas farmacológicas. Plasmídeos são moléculas "soltas" de DNA, que podem codificar resistência a agentes antimicrobianos e se transmitem mesmo entre bactérias não aparentadas.

Se uma linhagem de E. coli desenvolveu resistência à ciprofloxacina, por exemplo, pode passar essa característica a uma cepa de, digamos, S. aureus. Médicos já precisam lidar todos os dias com essas variantes resistentes. Um estudo do governo britânico estima que, em escala global, elas já causem 700 mil mortes por ano e, se nada for feito, em 2050, responderão por 10 milhões de óbitos anuais.


Há alguma incerteza em relação a esses números, mas não em relação ao movimento e suas implicações. É que o fenômeno do surgimento de resistência pode ser descrito como uma das leis da biologia. Elas não têm a mesma precisão das equações da física quântica, mas seu valor preditivo está bem estabelecido. E a resistência não vale só para antibióticos mas também para herbicidas, pesticidas e até quimioterápicos contra o câncer.

Rob Dunn, em "A Natural History of The Future", apresenta essa e outras leis da biologia e antecipa o que devemos esperar se mantivermos os padrões que caracterizam o Antropoceno.

A boa notícia é que a vida não está ameaçada. Mesmo que o planeta esquente 4° C e espalhemos venenos por todos os lados, algumas espécies prosperarão. O problema é que serão espécies que não nos interessam, como bactérias resistentes e mosquitos transmissores de arboviroses, cujo nicho ecológico aumenta com o aquecimento global.

Brasil rico

 


O perigo das teorias da conspiração

Para Hélio Angotti Neto, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, a prova de que as vacinas contra a Covid não funcionam está no fato de que elas são recomendadas por entidades médicas e de que a indústria farmacêutica financia estudos a respeito de sua eficácia.

Com a hidroxicloroquina, acontece o contrário: como especialistas negam a sua eficácia e os testes sobre ela não são “predominantemente financiados pela indústria”, Angotti Neto a considera o remédio realmente útil para combater a pandemia.

Minha proposta neste post é levar Angotti Neto a sério.

Calma. Não são as declarações do médico olavista sobre vacinas e o “kit covid” que eu proponho levar a sério, mas apenas a possibilidade de que ele acredite de verdade no que está dizendo: que laboratórios e instituições científicas do mundo todo estão mentindo para os 8 bilhões de habitantes da Terra, com a finalidade de ganhar dinheiro, ou até mesmo realizar um plano ainda mais sinistro…

Dando crédito a Angotti Neto nesse sentido específico, entramos no mundo lisérgico das teorias da conspiração, onde parecem viver, em desassossego perpétuo, grandes fatias do bolsonarismo.

Alguém vai perguntar: para que fazer isso? A razão é simples, segundo um dos mais conhecidos estudiosos da “mente conspiratória”, o filósofo inglês Quassim Cassam, da Universidade de Warwick: teorias da conspiração se tornaram perigosas.


Pode até ter existido um tempo em que elas não passavam de maluquices sem consequências, mas episódios como a invasão do Capitólio por adeptos da seita Q-Anon e o falatório do movimento antivacina em meio à pandemia mostram que não é mais assim.

Além de perigosas, teorias da conspiração não podem ser combatidas apenas com informação técnica. Não adianta tirar do bolso o melhor estudo de todos os tempos para embasar um argumento, se o seu interlocutor acha que os autores do estudo são desonestos e têm objetivos malignos.

Sim, gente que pensa desse jeito existe mesmo. Em 2014, pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, ouviram americanos a respeito de suas percepções sobre o trabalho científico. O resultado mostrou que as pessoas que mais rejeitam os consensos da ciência sobre temas como vacinas ou aquecimento global não são aquelas que têm menos informação sobre esses assuntos, mas as que desconfiam dos cientistas e acreditam que há motivações secretas por trás do seu trabalho.

Uma das linhas de estudo sobre o pensamento conspiratório vai em busca das causas psicológicas e cognitivas que fazem uma pessoa olhar o mundo desse jeito. Cassam contribui com essas investigações, especialmente as que dizem respeito aos “vícios intelectuais”.

Ele afirma que há um padrão de pensamento comum na origem de todas as teorias da conspiração. Esse padrão tem cinco elementos: ele é pré-moderno (“há um punhado de pessoas que controla o mundo”), esotérico (“há causas inimagináveis por trás de tudo”), especulativo (baseado em conjecturas e não em conhecimento), amadorístico (não se importa com as fontes da informação), e “do contra” (“se é óbvio, não pode ser verdade”).

Mas, em “Conspiracy Theories” (2021), Cassam apresenta uma sexta característica das teorias da conspiração, que ele considera fundamental: elas sempre têm um objetivo ideológico.

“O fato de uma pessoa acreditar sinceramente em teorias da conspiração não é incompatível com o fato de aquilo ser propaganda”, diz o autor. “A função real da teoria é promover uma agenda política.” Segundo pesquisas citadas no livro, essa agenda em geral é extremista.

Nada disso deve surpreender um leitor brasileiro. São explicações estruturadas de coisas que já ficaram claras intuitivamente, depois de três anos de bolsonarismo.

Tendo em vista o conjunto de traços do conspiracionismo, Cassam menciona três armas que precisam ser usadas em conjunto para combatê-lo. A primeira é a educação. Eliminar os vícios intelectuais que tornam as pessoas mais inclinadas ao conspiracionismo deve ser uma das tarefas do ensino.

As outras duas armas são para uso em discussões concretas. É preciso ser obstinado e refutar cada informação errada divulgada pelos teóricos da conspiração, pois isso evita que os erros se propaguem. Além disso, é preciso questionar, sempre, o pensamento político e os propósitos de um conspiracionista.

“A batalha contra as teorias da conspiração não acaba nunca”, diz Cassam.

Pois é. As loucuras do bolsonarismo terão de ser refutadas e denunciadas até o final de seu mandato.

E depois talvez venham outras, sobre as artimanhas do imperialismo, ou sobre como os Estados Unidos usaram a Lava Jato para derrubar um governo de esquerda.

Se for assim, a batalha continua. Esperemos que não.

Um quase Brasil

Em uma foto que viralizou, Tawy Zo’é, um jovem indígena, carrega nas costas Wahu Zo’é, seu pai. O médico Erik Jennings, sob o impacto da imagem, tratou de registrá-la sem saber ainda que o filho carregara o pai durante uma caminhada, floresta adentro, de seis horas. O motivo de tamanho sacrifício? Vacinar o idoso contra a Covid-19. O fato ocorreu no norte do Pará, onde vive a etnia Zo’é, que, segundo o médico, não teve nenhum dos seus infectado pelo vírus.


Em seu livro mais recente, “As doenças do Brasil” (Biblioteca Azul), o português Valter Hugo Mãe narra uma história que se passa em um território indígena à época em que os portugueses começaram a explorar o interior. A grande sacada de Mãe é a de promover a aliança entre um indígena mestiço (mãe indígena estuprada por um branco), de nome Honra, e um negro, o Meio da Noite. Até se chegar ao pacto que levará os dois a lutarem contra os brancos em defesa dos “abaeté”, muitas arestas são aparadas: Honra tem de se sentir indígena, perder a culpa de ser também branco; Meio da Noite, que havia sido capturado e poupado da morte, tem de ser reconhecido como humano pelos indígenas. Além disso, um deve confiar no outro, uma dificuldade quando a língua que serve aos dois não é a de nenhum deles, mas a do homem branco. No romance, a linguagem é radical (me faz pensar em Guimarães Rosa), e serve ao propósito de Mãe escrever a partir dos valores e modos de ver o mundo dos autóctones. Assim, diálogos entre eles e os rios ou os animais é uma coisa dada, natural, não é magia, nada disso. Leio o livro como se ele viesse nos dizer que, se respeitados os habitantes originais ou se indígenas e negros houvessem se aliado desde sempre, o Brasil seria outro. Talvez o mundo fosse outro.

Havia lido, antes de Mãe, “Viva o povo brasileiro” (Nova Fronteira), de João Ubaldo Ribeiro. Ora com ironia, ora em delírio, sempre com senso estético apurado, Ribeiro pincela caminhos que poderiam dar em um Brasil diferente do que temos. Pessimista, ele deixa claro que o que vinga em nossa história é um país cujo futuro é o paredão da rua sem saída. O livro foi lançado na década de 1980, ainda na ditadura, momento que justificava o pessimismo. Mas a abertura já acontecia, algum lume de otimismo estava aceso, o que não foi suficiente para o livro ser alegre, apesar de divertido (sabemos rir de nossas mazelas). De todo modo, se, com suas revoltas, os negros houvessem forjado mudanças de fato, se lideranças femininas multiplicassem-se história afora, se tivéssemos respeitado as religiões de matriz africana, se os dissidentes brancos — ou seja, aqueles que entendem que desfrutam de privilégios inimagináveis e estão dispostos a abrir mão deles — fossem em número, o Brasil agônico não teria triunfado.

Assisti aos cinco episódios de “O canto livre de Nara Leão” (Globoplay), de Renato Terra. Com seus 13, 14 anos, Nara se enturmou com uma moçada de Copacabana que tinha talento especial para a música. Foram eles que, na casa da futura cantora, “inventaram” a bossa nova. Quando seu namorado Ronaldo Bôscoli a trocou por Maysa, Nara abandonou a turma e voltou os olhos para o samba. Ela conta então que, aos 15 anos, descobriu que havia favela, pobre e fome no Brasil, começando assim a sua conscientização política. De voz mansa, mas assertiva, Nara não deixou de se posicionar. Quando em entrevista disse que o exército (já no poder) não servia para nada — ela já estava na mira por protagonizar, com Zé Keti e João do Vale, o espetáculo “Opinião” —, passou a ser perseguida. Então casada com Cacá Diegues, mudou-se para a França. Na volta, aproximou-se da turma do Ceará que chegava ao Rio no começo da década de 1970 e, em seu disco “… e que tudo mais vá pro inferno”, gravou Roberto e Erasmo, o que irritou antigos parceiros, como Dori Caymmi e Edu Lobo. A diversidade e a independência a ajudaram a construir uma carreira sólida, de qualidade e curta (Nara morreu aos 47 anos, em 1989). O documentário joga luz num momento terrível, a ditadura, e mostra como sempre houve, da parte dos artistas, resistência. Nara foi uma liderança entre os que resistiram.

O indígena carregando o pai horas a fio para se vacinar é fiapo de um Brasil potente. Os livros de Mãe e Ubaldo, a vida de Nara (e o documentário de Terra) estão cheios de outros fiapos de potência.

Mas o Brasil não existe, o que existe é um quase Brasil.
Alexandre Brandão

As fake news que alimentam o racismo

Não é de hoje que fake news invadem nosso cotidiano.

No início, elas pareciam ser mais uma brincadeira de mau gosto, fanfarronices da famosa "galera do fundão", que viam nessas notícias falsas uma forma de "descontração". Entretanto, rapidamente as fake news revelaram sua verdadeira face: uma forma espúria e perigosa de fazer política, usada a serviço de um projeto de sociedade muito bem delineado.

Em meio a notícias falsas, eleições foram definidas, e a ciência passou a ser abertamente confrontada por uma enxurrada de mentiras, que repetidas, compartilhadas e retuitadas à exaustão se tornaram verdades para um número significativo de pessoas.


Tudo isso misturado à onda egoico-narcisista potencializada pelas redes sociais, que permite que indivíduos transformem suas opiniões (muitas vezes infundadas) em verdades incontestáveis. "O que eu penso, o que eu acho" tem valido mais do que séculos de conhecimento acumulado. Uma dinâmica perigosa, que coloca à prova a vida coletiva.

Terraplanistas de plantão – que, é preciso dizer, sempre existiram – tiveram suas vozes amplificadas, disputando com astrônomos e astrofísicos qual seria o verdadeiro formato do planeta Terra. O movimento antivacina cresceu de maneira assombrosa, justamente quando a humanidade foi sangrada por uma pandemia que parece não ter fim – e mesmo com vacinas eficientes disponíveis para boa parte da população.

Mas não são apenas as chamadas ciências duras que estão sendo injuriadas pelas fake news. Dinâmicas sociais, relações de poder e fatos históricos também entraram nesse balaio das notícias que são falsas e propositadamente mentirosas. E, como era de se esperar de um país formado pela desigualdade e exclusão racial, no Brasil, o racismo também se tornou um desses temas passíveis de terem sua existência questionada. Além de comprovar que a Terra é redonda e defender o "Zé Gotinha", por essas bandas também se tornou necessário vociferar que a escravidão existiu e foi profundamente violenta e que não, não existe racismo reverso.

É profundamente cansativo ter que lidar com essa dinâmica negacionista. E o cansaço não se dá pela suposta falta de informação daqueles que propagam as fake news. Não estamos numa cruzada educativa, combatendo a ignorância gestada por décadas. Estamos tendo que nos posicionar e confrontar um projeto político que se aproveita da desinformação de muitos para perpetuar uma sociedade cada vez mais desigual. Um país que precisa voltar a combater a fome e o medo dela. Que precisa repensar e viabilizar a vida dos jovens, ao mesmo tempo que deve assegurar a dignidade dos aposentados. Um país que precisa parar de destruir suas florestas e rios, caso queria continuar a existir num futuro próximo. Um país que continua matando a torto e a direito a sua população negra e mestiça, nessa política de morte abertamente instaurada.

Nesta semana, dois episódios ganharam significativa repercussão. O primeiro deles foi um artigo sem nenhum tipo de fundamentação científica, que defendia que negros podiam sim ser racistas contra brancos, validando a existência do racismo reverso. O outro foi uma fala infeliz de uma "nova celebridade" de reality show argumentando que a escravização de africanos nas Américas se deveu à sua maior eficiência, que por sua vez, era consequência da maior força física das populações negras que viviam na África.

Não me interessa tanto discutir as autorias dessas falas, que foram muito bem criticadas ao longo da semana. Mas sim chamar a atenção para o fato de ambas terem sido divulgadas em dois dos maiores veículos de comunicação do país, que, em tese, se apresentam como apoiadores da luta antirracista e combatentes das fake news. Qual é o ganho em propagar em rede nacional ideias e premissas falsas sobre a lógica do racismo e a justificação da escravização de africanos?

Muitos diriam que esse tipo de artigo e de fala geram polêmica, o que significa lucro para os dois veículos. E tais pessoas estão cobertas de razão. Mas é preciso ir além. Porque essa polêmica sempre tem endereço certo: a desqualificação dos movimentos negros e a diminuição do peso estrutural do racismo. Há uma liberdade outorgada em desqualificar a luta antirracista sob o manto de um debate democrático que nunca existiu.

Fake news sustentam o ideal de mundo ultraconservador, que dentre outras coisas, alimenta a estrutura racista que há tanto nos ordena. Propagá-las, sob qualquer pretexto, é abraçar uma terra plana, na qual a humanidade continua sendo enxergada de forma desigual e hierarquizada.

O marketing é um retrocesso para a espécie e deveria parar de mentir

Se uma propaganda vende pra você um carro e faz você sentir que, comprando este carro, pode ir a uma cachoeira de difícil acesso —no caso de um carro ter tração nas quatro rodas—, ela não está mentindo. Mas se um comercial de banking diz que se você abrir uma conta no banco X, você será o tipo de jovem que deixará “sua marca no mundo”, ele está mentindo.

Qual a diferença entre um comercial e outro? Por que um deles mente e o outro não? A diferença está no alcance da promessa. Alcançar cachoeiras difíceis é algo de pequeno impacto na percepção que alguém tem de si mesmo, da sua vida, da sua personalidade e das suas expectativas.

Quando dizemos a um jovem que ele, comprando um produto X, deixará uma marca no mundo, estamos mentindo sobre seu futuro: quase zero por cento da humanidade deixa alguma marca no mundo —algumas delas péssimas—, ao passo que embutir essa expectativa como estilo de vida tem um custo altíssimo em termos do cotidiano que alguém vive.

Parte da pré-história e da história da nossa espécie foi gasta num esforço descomunal para fazermos a diferença entre realidade e fantasia, por motivos, principalmente, de sobrevivência. Mas essa questão da sobrevivência nos escapa da consciência hoje.

Pavel Constantin 

Por exemplo, nossos ancestrais, idênticos a nós, passaram quase o tempo todo de suas vidas com fome e hoje as maiores frescuras do mundo se relacionam a comida. Só a fartura sustenta a frescura com alimentação.

Quando o mundo faz a guinada que está fazendo, e o marketing assume a liderança das narrativas, assumimos que existem em nós super-heróis, mitos, deuses e deusas, demônios e efeitos sobrenaturais, o que, evidentemente, não existe. Brincamos com danos psicológicos e sociais empacotados ​pra presente.

O marketing é um retrocesso cognitivo na evolução da espécie. O Homo sapiens sem uma cognição aguçada é como um pássaro com a asa quebrada.

No momento em que o marketing se fez disciplina existencial, passando a vender estilos de vida, identidades sexuais e outras, valores morais, projetos políticos —aqui a mentira é facilmente detectada para quem tem olhos pra ver— e significados para a vida, ele passou a se constituir numa percepção de realidade de alto risco, estragando a capacidade de fazermos a diferença entre fato e ficção. É como se o mundo fosse um eterno Carnaval em que a Quarta-Feira de Cinzas nunca chega.

O capitalismo avançado apenas quer vender. Tendo saturado as sociedades ricas de produtos materiais, ele passa a vender produtos imateriais, e, com esse passo, ele opera uma ruptura metafísica, digamos, em que optamos por viver num mundo em que nós mesmos somos mera ficção — a melhor ficção possível, claro, mas nem por isso, menos irreal.

Todas as realidades psíquicas passam pelo crivo da fantasia e saem do outro lado como a “melhor versão de mim mesmo”. Mentira. Posso me reinventar. Mentira. Deixarei minha marca no mundo. Mentira. A prosperidade é uma questão de assertividade. Mentira: a esmagadora maioria foi, é e continuará sendo pobre.

A maior chance é que você envelhecerá só e que terá tido uma vida absolutamente irrelevante, se a sociologia estiver certa. O arquétipo da mentira aqui é que você seja uma pessoa diferente, especial, única. Mentira. Você é apenas banal. Esse arquétipo tem a parceria dos pais, que são os primeiros a comprar o marketing de “deixar uma marca no mundo”.

Muitos profissionais da área não têm a mínima ideia de tudo isso porque a formação é muito fraca. Munidos de teorias psicológicas miseravelmente comportamentais, reforçam apenas os mecanismos fantasiosos na relação com a realidade e com nós mesmos. Com a entrada do digital, o processo eleva sua agressividade mitológica ao nível da vida privada como mercadoria e do sujeito como commodity.

Por outro lado, o marketing poderia ser de fato “disruptivo” e elevar o nível da reflexão, como alguns profissionais têm tentado, e parar de mentir. Muitos adultos estão ávidos por pessoas que mintam menos para eles. Estão cansados de serem tratados como retardados mentais.

domingo, 23 de janeiro de 2022

A Covid e os bilionários

Foi o próprio Fórum Econômico Mundial que alertou: a cada 26 horas o mundo ganha um novo bilionário e a cada quatro segundos morre uma pessoa por conta da desigualdade, Choca, mas não surpreende. O capitalismo mostrou todas as suas garras desde o começo da pandemia. As estatísticas são terríveis e reveladoras. Mais de 17 milhões de pessoas morreram, isso contando por baixo e os 2755 bilionários do mundo viram sua fortuna crescer durante a pandemia mais do que nos últimos 14 anos.

Isso nos dá ideia de como interessa a certos grupos mais selvagens a continuidade da pandemia. Ser contra as máscaras e a vacina passa a fazer sentido diante desses números. Segundo levantamento do jornal o Globo, a ONG Oxfam calculou que a fortuna dos 10 mais ricos do mundo dobrou de 700 bilhões de dólares para 1,5 trilhão, 99% da população teve perda de renda, 160 milhões de pessoas foram empurradas para a pobreza e o Brasil ganhou 10 bilionários enquanto a fome aumentou a níveis de 17 anos atrás. Foi neste período que começou a ser combatida com o Bolsa Família, agora extinto e o governo Lula conseguiu tirar o país do mapa da fome.


Os bens de luxo voltaram a ser disputados por esses mais ricos e os ossos pelos mais pobres. Vivemos uma situação em que a miséria não causa mais nenhum efeito naqueles que se aproveitam justamente dessa desigualdade vergonhosa para ficarem mais ricos. Só há uma solução para essa discrepância e até mesmo as organizações internacionais como a Oxfam sugerem taxar as grandes fortunas, agora com a pandemia, ainda maiores. A mesma pesquisa diz que se os dez homens mais ricos do mundo perdessem 99,99% da sua riqueza, continuariam mais ricos que 99% da população. Não dá nem para calcular esses números à luz do humanismo, mas é verdade.

Além de ser uma opção política, a taxação das grandes fortunas, e mais a instituição da renda básica do ex-senador Eduardo Suplicy, passam a ser determinantes para a mudança desse quadro e passa a ser determinante também a mudança de orientação, começando aqui pelo Brasil, dessa política.

É uma tarefa longa, mas se continuarmos andando para trás como vem acontecendo vai ficar cada dia mais difícil. Acabar com a pandemia ou transformá-la numa endemia é a tarefa inicial, mas deve vir acompanhada de uma transformação política e econômica. Mais pandemias virão e é fundamental estarmos preparados, pelos menos com menos desigualdade, para enfrentarmos novamente essa seleção nada natural da vida. As eleições estão aí para concretizar essa mudança.

Ficamos nós

Já se passaram 75 anos desde que W.H.Auden escreveu o ambicioso poema “A era da ansiedade”, obra com dimensão de livro (200 e tantas páginas, dependendo da edição) que lhe rendeu o que talvez seja, até hoje, o Prêmio Pulitzer mais citado e menos lido da história. A obra em seis partes transcorre num bar nova-iorquino onde quatro desconhecidos discorrem sobre a vida, suas tormentas, perdas e sonhos. Descrito assim, soa a leitura fácil. Na verdade, excetuando estudiosos e privilegiados, a maioria de quem nela mergulha abandona a empreitada já na primeira parte (a signatária inclusive) — e vai procurar versos menos barrocos, menos alegóricos do poeta. Talvez, numa nova tentativa...

Mas foi justo com essa obra mamute de 1947, que versa sobre a teimosia humana em se entender como gente depois da Segunda Guerra, que Auden cunhou o que nos define hoje. Vivemos uma era da ansiedade continuada, pandêmica, agarrados ao que éramos sem saber se resta tempo para mudar. Num dos versos mais cativantes do poema, o personagem Quant diz que o mundo também precisaria de um bom banho , além de uma semana de descanso, para se recuperar do que fazemos com ele.

Vivemos aos sobressaltos, alternando espasmos de assombro com as catástrofes da hora. Sequer temos tempo para digerir as várias dores, coletivas ou privadas, que a todo momento disputam nossa atenção. A ansiedade surda, pesada e pegajosa que dá poucos sinais de se dissolver sozinha ora nos coloca em alerta máximo à espera de um Godot, ora nos prostra em estado de sonambulismo cívico para poder digerir o que passou. Isso não é viver, convenhamos.

Retirantes, Cândido Portinari

Merece admiração irrestrita quem consegue manter o foco e não se dispersa com o jorrar ininterrupto de notícias que se empilham e nos tapam a visão. Foi muito impactante assistir ao recente descarrego emocional do coordenador da Agência Humanitária e Ajuda Emergencial da ONU, Martin Griffiths, durante entrevista concedida ao site Democracy Now. “Um milhão de crianças sofrendo de desnutrição extrema! Um milhão de crianças!”, disse Griffiths com indignação incontida. Números são sempre abstratos quando em escala tão enorme, mas 1 milhão de crianças à beira da inanição num país de 23 milhões de habitantes nada tinha de abstrato. Ele referia-se ao alerta de que, a prosseguirem as sanções econômicas dos Estados Unidos contra o novo regime de Cabul, e a retenção de fundos afegãos pelo Banco Mundial com a volta do Talibã ao poder, ali poderão morrer, só este ano, mais civis que durante os 20 anos de guerra.

Menos de cinco meses atrás, estávamos todos grudados nas imagens do dramático desenrolar do abandono à própria desgraça daquele povo. Hoje, a pauta é outra. Sempre foi assim, apenas a notícia corria em ritmo mais lento. Parecia haver uma hecatombe ambiental aqui, um terremoto devastador acolá, alguma chacina macabra alhures, pensávamos compreender. Foi a instantaneidade e disseminação planetária do fluxo noticioso que nos desenraizou do viver de ontem, sem ainda aprendermos a viver no amanhã. Quanto ao presente, o sentimos em suspenso.

A ensaísta franco-cubano-americana Anaïs Nin, no primeiro volume do seu “Diário (1931-1934)”, se debruçou sobre outro tipo de desperdício humano: transitar por um mundo em que você hiberna pensando estar a viver e onde a ausência de prazer e alegria pode parecer uma doença inócua. “Milhões vivem assim (ou morrem assim ) sem sabê-lo”, escreveu. Trabalham em escritórios. Dirigem carros. Passeiam no parque em família. Criam os filhos. Por vezes, até acordam graças a algum tratamento de choque — o encontro com alguém, a descoberta de um livro, a mágica de ouvir uma canção —e são salvos da morte. Mas alguns nunca despertam.

Preâmbulo longo para conclusão telegráfica: entrou em estado vegetativo terminal o presidente da República que nem piscou para a despedida da mulher-raiz da alma nacional, Elza Soares. Ela, ao contrário, deixa uma teimosa sinfonia de permanecer viva para sempre.

Opção pelo conformismo

Neste ano em que o Brasil completa seu bicentenário, Darcy Ribeiro completaria 100 anos de idade. É dele a frase: “Ou nos indignamos, ou nos conformamos”. Durante nossa história, nos conformamos com a escravidão, com a corrupção, com a desigualdade, com o desflorestamento, a deseducação, com a persistência da pobreza. Nos conformamos com estas tristes características da economia e da sociedade, e não construímos um país com eficiência, justiça e sustentabilidade. Por 350 anos, a escravidão das pessoas era tão aceita que o fato não era percebido como uma anormalidade moral.

Agora, no nosso bicentenário, vemos como normal a realidade que nos transmite a televisão: lado a lado a fome que maltrata e mata 20 milhões de pessoas famintas, e notícias de que somos o celeiro do mundo, o maior exportador de alimentos; ao lado também de farta propaganda de alimentos para convencer quem já come a comer mais; e também programas de culinária,novelas e reality shows onde os personagens passam parte do tempo esbanjando comida, ao redor de mesas ou em frente de geladeiras e fogões.

Diante deste quadro, Darcy diria: “Ou nos conformamos, ou nos indignamos com a simultaneidade da fome com o excesso de comida. Aparentemente, a opção brasileira continua pelo conformismo. Salvo para grupos de pessoas de boa vontade, que as televisões também mostram, exercendo a generosidade de levar comida para alguns dos que não têm. Graças a estas pessoas e empresas que não se conformam, centenas de de pessoas recebem comida uma ou outra vez, durante um dia ou outro dia. Mas estes gestos pessoais de boa vontade que alimentam alguns não são capazes de transformar o país para que a fome não ocorra em nosso território.

No conjunto, a sociedade brasileira optou pelo conformismo, que mantém as perversidades tão toleradas que nem são percebidas como imorais. Tanto quanto a escravidão era aceita, “porque os escravos são negros”, a educação de qualidade é negada porque “a criança é pobre”, a fome ao lado da gastronomia porque “uns têm, outros não”. As pessoas se conformam com a realidade injusta moralmente, até absurda logicamente, mas real e permanente porque aceita como uma opção coletiva pelo conformismo.