segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Governar

Os garotos da rua resolveram brincar de Governo, escolheram o Presidente e pediram-lhe que governasse para o bem de todos.


– Pois não – aceitou Martim. – Daqui por diante vocês farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais dois de vocês formarão a minha segurança. Januário será meu Ministro da Fazenda e pagará meu lanche.

– Com que dinheiro? – atalhou Januário.

– Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro por dia para a caixinha do Governo.

– E que é que nós lucramos com isso? – perguntaram em coro.

– Lucram a certeza de que têm um bom Presidente. Eu separo as brigas, distribuo tarefas, trato de igual para igual com os professores. Vocês obedecem, democraticamente.

– Assim não vale. O Presidente deve ser nosso servidor, ou pelo menos saber que todos somos iguais a ele. Queremos vantagens.

– Eu sou o Presidente e não posso ser igual a vocês, que são presididos. Se exigirem coisas de mim, serão multados e perderão o direito de participar da minha comitiva nas festas. Pensam que ser Presidente é moleza? Já estou sentindo como este cargo é cheio de espinhos.

Foi deposto, e dissolvida a República.
Carlos Drummond de Andrade. "Contos Plausíveis"

O governo Bolsonaro é uma fonte constante de más notícias

O governo Bolsonaro é uma fonte constante de más notícias. Se uma vacina contra a Covid-19 é um bem para todos, pois evita o contágio mesmo dos que não acreditam nele, é um contrassenso que se proíba o passaporte sanitário para aprovação de um projeto na Lei Rouanet. Pobres produtores de cultura do país! Além do desgastante conflito com os homens dos serviços de cultura, ainda terão que enfrentar agora os dispositivos tolos que vão impedir que façam o que desejam fazer com seus filmes, livros, poemas, canções, peças de teatro, novelas e tudo mais.

Como escreveu Gregório Duvivier, hoje não é exagerado dizer que o presidente não suporta os brasileiros. Não só ele nos odeia, como tenta acabar com a gente de todas as formas. É como se passasse o tempo pensando em como cortar nossa onda e zerar nosso entusiasmo, até que nos tornemos um núcleo de pensamento domesticado que não lhe dê mais trabalho como fonte de ideias novas. E essa campanha liderada pelo presidente contra a vacinação é simultânea à sua campanha pelo armamento civil. “O vírus pode estar partindo — os fuzis vão ficar”, diz Gregório Duvivier.


O ódio sem motivo evidente e, claro, típico da direita que se espalha pelo mundo, não é mais resultado de ideologia evidente e clara. Há poucos dias, soubemos de mais uma alegre aventura de jovens Talibãs, que mataram três músicos sem religião que tocavam no casamento de um casal de amigos de escola. Do jeito que estão indo essas ideias pelo mundo afora, temo pelo que pode acontecer no Brasil com o fim da pandemia além, espero!, do fim do governo Bolsonaro, outro criador (às vezes inconsciente) de certos mitos do mal.

Eurípedes Alcântara, aqui mesmo no Globo, escreveu que “temer o outro, maximizar os riscos trazidos pelo desconhecido, é parte de nossa natureza”. Por isso têm tanto valor religiões, filosofias e obrigações trazidas pelo convívio em sociedade quando ajudam a superar esse pecado original da espécie, fazendo da colaboração e não da competição, o grande recurso que nos trouxe até aqui como uma mesma gente.

Depois de uma pandemia em que nos afastamos compulsoriamente uns dos outros, durante tanto tempo, a volta será sempre a de uma magna e dolorosa dúvida sobre como trataremos e seremos tratados pelos seres humanos em volta de nós, mesmo aqueles que já foram nossos amigos de fé. Já escrevi aqui, nessa mesma coluna, que os dois sentimentos humanos que mais desenvolvemos, nesse período longe da ciranda humana que sempre nos cercou e nos tirou para dançar durante tempos “normais”, foram a solidão e a solidariedade. Foi a primeira que nos levou à segunda, como única forma decente de sobrevivência.

Faz parte da tradição utópica da humanidade pensar que, sempre que um galo canta, o sol vai se levantar para que o dia nasça. Porém, o mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer o sol nascer; mas em que seu canto anuncia a existência do sol, que ainda está por nascer. A felicidade vai estar sempre no futuro e nós a encontraremos amanhã. Essa é a ideia básica da vida humana, é isso que nos faz ir em frente. O abraço de Bolsonaro ao casal von Storch, que veio da Alemanha para afagá-lo como novo líder de uma nova direita internacional nascente e vagabunda, é um sintoma desse futuro sem garantias.

Gosto de ler colunas de jornal com notícias do passado, elas podem nos ajudar a compreender o presente. Na primeira página do Correio da Manhã do dia 12 de agosto de 1937, podia-se ler que os fascistas haviam desfilado em Roma, sob cartazes em que Benito Mussolini, o líder do fascismo, declarava: “Só um povo armado é forte e livre”. O mesmo que Bolsonaro disse em Brasília, quando liberou a importação de armas no país.

A vaca do Brasil

 


Bolsonaro cortou despesa com servidor civil e gastou mais com militar

Jair Bolsonaro disse que reajustaria o salário de todos servidores federais. Ministros e governismo em geral disseram que não há dinheiro. Bolsonaro levou invertida até do centrão. Claro: se saísse o aumento, não sobraria nada para financiar emendas parlamentares extras.

Bolsonaro então quer dar aumento pelo menos para militares e policiais federais. Sempre teve mentalidade de vereador das milícias e sindicalista militar.

O gasto federal com salários de servidores civis (na ativa) caiu sob Bolsonaro. Desde o começo de 2020, quanto este governo passou a ter força maior sobre o Orçamento, essa despesa diminuiu 8% em termos reais (descontada a inflação; gasto anualizado), de fato um espanto. A despesa com o pessoal militar na ativa aumentou 5,5%, porém.

A baixa da despesa civil se deve à combinação de redução de quadros com congelamento salarial. Pode até ser que o enxugamento tenha a ver com algum plano de aumento de eficiência, não mero arrocho improvisado (este jornalista não encontrou análise independente que faça balanço do período).

Por que a despesa com o pessoal militar da ativa aumentou? Porque receberam aumento especial de Bolsonaro. Por que não houve enxugamento por outras vias? Cerca de 6 mil militares fazem um extra no governo. Não deve estar faltando gente nas Forças Armadas.

Bolsonaro cumpre partes essenciais de seu programa. Dá dinheiros e boca rica para militares. Faz propaganda da ditadura militar e de torturadores. Quer levar esse revisionismo bárbaro até para provas de vestibular.


Prometeu que ocuparia o governo com os bucaneiros da floresta, sua versão da doutrina militar da "soberania nacional" sobre a Amazônia. Missão cumprida. O país regrediu 15 anos no controle do desmatamento, fora a razia nas instituições de preservação ambiental.

Levou uma década para o país conter parte do bota-abaixo amazônico. Quando Lula da Silva (PT) tomou posse, 2003, iam para o chão 25 mil quilômetros quadrados de floresta por ano. Em 2014, eram 5 mil quilômetros quadrados, ainda um horror, mais que o triplo da área da cidade de São Paulo. Nos últimos 12 meses, se foram 13 mil quilômetros quadrados, outro ano de recorde bolsonarista. De quebra, o governo escondeu os números para Bolsonaro não causar ainda mais revolta na reunião do clima na Escócia.

Isso é coisa de ditadura, como foi coisa de ditadura esconder o número diário de mortes na epidemia por tempo bastante para que não aparecessem no "Jornal Nacional" da Globo, em 2020, ideia dos generais da morte do Planalto e da Saúde. Os meios de comunicação se juntaram e passaram a publicar a estatística, como fazem até hoje.

A educação está sob o comando de obscurantistas e fanáticos que desmontam o ministério e se dedicam a barrar perguntas de vestibular com motivos que parecem os dos censores da ditadura militar. O Ministério Público e o Tribunal de Contas da União enfim vão dar uma olhada nas atrocidades do ministério.

Quando se fala em polícia no governo Bolsonaro, ou se trata de incentivo a motim ou de investigação sobre interferências indevidas. Programa de segurança pública? É um cadáver que Sergio Moro levou consigo quando foi posto para fora do governo. Não nasceu outro.

Os oficiais-generais que ficaram nos quarteis agora se dizem "decepcionados" com Bolsonaro, que não eram bolsonaristas, apesar da esteira que leva generais do Alto Comando do Exército ao Planalto. Agora são moristas.

Sim, este é também um governo do partido militar, na boquinha e na ideologia, sócio do centrão. Os generais ficaram quietos. Tentam sair de fininho da casa que ajudaram a explodir. Levam intactos os aumentos de salário.

Bolsonaro e a extinção da espécie humana

Bolsonaro disse no Oriente Médio que a Amazônia não pega fogo porque é uma floresta úmida. E disse tranquilamente, apesar de tantas evidências colhidas por satélites e depoimentos visuais.

Em vez de repetir que Bolsonaro é cínico e mentiroso, continuo tentando entender como essas barbaridades acontecem.

Quando li “Guerra pela eternidade”, de Benjamin R. Teitelbaum, pensei em articular um roteiro de estudo que pudesse explicar para mim fenômenos como a vitória de Trump e Bolsonaro, para mencionar apenas dois nomes.

A impressão que tenho é que a extrema direita, apesar de ter apenas um milionésimo da capacidade de formulação da esquerda, compartilha com ela, ao que me parece, duas ilusões essenciais: que a História tem um sentido e que há atores predestinados a realizá-la. O sentido e os atores não coincidem, uma vez que uma se dedica a impulsionar o rumo da História; outra, a neutralizar sua trajetória materialista.

Steve Bannon manifestou sua simpatia pelos americanos do interior, como se houvesse nas suas convicções e modo de vida grandes qualidades a valorizar; Olavo de Carvalho, por sua vez, admiração por fervorosos grupos religiosos.</p>
<p>O ex-chanceler Ernesto Araújo defendia abertamente uma espécie de recomeço universal em que os valores espirituais prevalecessem e via em Trump a encarnação do herói que conduziria essa batalha.

Essas ilusões sobre o rumo da História acabaram romantizando o homem comum, marginalizado pela globalização e pela modernidade.

Não vou discutir o sentido da História. Mas a romantização do homem comum, “gente como a gente” que diz besteiras sinceras, é muito perigosa. Acaba confundindo o homem comum com o idiota que diz que a pandemia é uma gripezinha e que a Amazônia não queima porque é úmida.

Recentemente, Ernesto Araújo, numa alusão ao filme “Matrix”, disse que Bolsonaro tomou a pílula azul e se tornou base do Centrão. Tomar a pílula azul significa decidir viver com as ilusões do sistema. O ex-chanceler disse ainda que, nas eleições, a maioria tomou a pílula vermelha, o que significa enxergar a realidade e fazer a grande transformação.

Vermelha, Araújo? Por muito menos, os militares em 1964 mandaram queimar o romance “O vermelho e o negro”, de Stendhal.

Isso serve apenas para confirmar a hipótese que inspirou este texto.

Os que viam em Bolsonaro o líder de uma revolução espiritual que sacudiria as bases do materialismo na verdade não tomaram a pílula vermelha, mas sim um poderoso ácido amarelo, um Califórnia Sunshine, e começam a despertar de sua viagem.

Bolsonaro sempre foi um deputado fisiológico, e seus aliados no mundo religioso são vorazes pastores que, só em Angola, retiraram US$ 120 milhões por ano, transferindo-se para a África do Sul.

Bolsonaro designou um deles para gerir essa fortuna na África do Sul, na condição de diplomata brasileiro. Os sul-africanos simplesmente rejeitaram essa indicação.

Não me agrada criticar sonhadores que vislumbram um futuro luminoso, em que o homem não vai mais explorar o homem. O mesmo vale para aqueles que veem a glória nas tradições do passado, livres das amarras de um materialismo brutal.

Quando muito intensas, essas fantasias produzem aberrações como Kim Jong-un ou Bolsonaro.

É apenas muito preocupante ver tanta gente dançando diante do abismo, no momento em que não perderam o contato com a dura realidade. Lutam, sem grande êxito, não para levar a humanidade a uma dessas visões de paraíso, mas para salvá-la dos próprios erros acumulados.

Os seres humanos sempre foram limitados e não se deram conta dos limites dos próprios recursos naturais. As ilusões que levam idiotas ao poder simplesmente agravam seriamente o perigo real: a extinção de todos nós, sonhadores ou modestos realistas.
Fernando Gabeira

Brasil: a iminência do apocalipse ou a redenção democrática?

Era o segundo governo de Lula. Num almoço de mulheres no Fasano, a dona de uma rede nacional de shopping centers dizia que eles nunca haviam vendido tanto quanto naqueles anos. O governo era criticado pelos seus opositores por favorecer os bancos, e os banqueiros pareciam amar Lula, com quem confraternizavam onde estivessem. A indústria brasileira tinha seu representante na vice-presidência, José Alencar Gomes da Silva, e as federações patronais também pareciam contentes.

Lula não perseguia a mídia, seu governo anunciava, privilegiando os grandes grupos de imprensa, não havia retaliações aos divergentes, como hoje vemos acontecer. Nos governos de Dilma, sequer foi encaminhado ao Congresso o projeto de regulação da mídia, formatado por Franklin Martins ao fim do segundo mandato de Lula, condizente com o que é feito nos países do mundo todo.

Lula é um conciliador por natureza. É altamente considerado pelos chefes de estado do resto do mundo, é admirado, visto como um igual. Semana passada, em Bruxelas, ele mereceu aplausos de pé, longos e sucessivos, em encontro do Parlamente Europeu com lideranças latino americanas. Mereceu recepção de chefe de estado no Elysée, com a marcha da guarda do palácio, e o presidente Macron descendo os degraus para ir busca-lo (e uma hora depois levá-lo) no carro. É bem visto pela mídia internacional, inclusive pelas publicações de economia. Por que esse ódio da mídia corporativa brasileira contra ele? Esse apagamento? Esse silêncio a seu respeito? Por que estavam sendo destinados a ele apenas breves momentos, em canais por assinatura, às altas horas da noite, e quando isso acontecia? E isso só foi revertido no sétimo dia da agenda da viagem de Lula, depois da grande grita nas redes sociais, da indignação, e da chacota feita, comparando a vasta cobertura da visita pelos jornais estrangeiros e a cobertura Zero pela mídia brasileira.

Atribuem a Lula um radicalismo que ele, na prática, nunca demonstrou. Lula não é um radical. Não é comunista. É um liberal, falando francamente. Alguns o identificam como Liberal Periférico. Sua política externa é afinada com as dos demais países. Respeitado por todos. Até George W. Bush gostava dele! Em poucos dias na Europa, foi recebido pelo vencedor das eleições na Alemanha, Olaf Scholz, esteve com o líder da Social Democracia, Martin Schulz, foi aclamado no Parlamento Europeu, elogiado por Zapatero como “o que mais combateu a pobreza”, trocou ideias com o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, foi recepcionado com batucada brasileira pelos alunos do Instituto SciencesPo, em Paris, onde almoçou com a Prefeita. Depois da França, participa hoje de seminário de Cooperação multilateral e recuperação pós-covid, em Madri, e tem agenda com o primeiro-ministro.

Lula não sai procurando briga, não dá banana e joga a casca no chão, não desanca país dos outros, negocia com todos. Internamente, é bom para o nosso povo, se compadece dos pobres. Não politiza temas sérios, como Saúde, Cultura, Educação. Desenvolveu políticas socais mínimas, sem “exagero”, podia ser muito mais – o Bolsa-Família, como diriam os americanos, eram “peanuts” em nosso orçamento. E mesmo assim suas políticas públicas trouxeram notáveis benefícios sociais e econômicos, foram copiadas em vários países, se tornaram referência.

O saldo de seu Minha Casa Minha Vida foram casas para milhões de brasileiros, e novas grandes fortunas para poucos, como Rubens Menin, dono da MRV Engenharia, proprietário da CNN Brasil, o também mineiro Ricardo Gontijo, dono da Direcional Engenharia, os donos da Construtora Tenda, mineira também, os da Rossi Residencial, alguns desses empresários declarados admiradores de Bolsonaro.

As ditas pautas identitárias, responsabilizadas por parte da rejeição ao PT, foram muito mais de Dilma do que de Lula. Assim como foi o relatório da Comissão da Verdade, que tanto enraiveceu os militares de pijama do Clube Militar.

Lula jamais perseguiu os diferentes, nem exigiu fidelidade ideológica aos que prestam serviços ou vendem serviços ao governo. Muito menos àqueles que recorrem aos financiamentos e incentivos de bancos públicos.

É simplismo achar que essa aversão se deve ao preconceito da burguesia por Lula ter sido um sindicalista, operário, nordestino, de origem muito pobre?


A lenda de que o PT inventou a corrupção no Brasil foi tão repetida que se tornou verdade. Sabemos que os casos de corrupção no Brasil remontam a Pero Vaz de Caminha, quando os portugueses davam espelhinho e recebiam pepitas de ouro. E sabemos que, no ranking da corrupção dos partidos políticos brasileiros, o PT é um dos melhores colocados, isto é, está em penúltimo lugar. Sem esquecer que foi o PT que criou o Portal da Transparência e os mecanismos que permitiram investigações e punições de casos de corrupção. Por que isso é ignorado? Por que as impropriedades, vamos chamar assim, da Lava Jato, de Sergio Moro, do TRF-4 são ignoradas? As delações e provas falsas? Os processos contra Lula, comprovadamente mais ocos do que cheque voador? E ainda a ironia de as notas fiscais das reformas do dito “tríplex do Lula” e do sítio, ambos em São Paulo, serem do comércio de Curitiba…

Sergio Moro se lança como terceira via, fazendo soar as fanfarras de sua fada madrinha, a Globo, com o muito provável respaldo do alto oficialato das Forças Armadas, simpáticas ao ex-juiz sob suspeição e agastadas com Bolsonaro – o embrulho veio muito pior do que a encomenda.

Generais não deverão poupar apoio ao maringaense, até porque nesses casos há acordos de parte a parte. Dos militares, apoio do tipo que Villas Boas deu ao Mito. De Moro, provavelmente, a promessa de não lhes retirar regalias, cargos e rendimentos adquiridos nos últimos anos.

Moro surge na disputa para roubar parte do eleitorado de Bolsonaro, não a fatia dos fanáticos, mas a da burguesia cheirosa, que apertou 17 pela ojeriza ao PT. Todavia, com todo o foguetório global, o “juiz ladrão” (royalties para o deputado Glauber Braga) dificilmente chegará aos dois dígitos no percentual das urnas. E como os generais não são de terceirizar o poder (quando há “clima” para o golpe), quem subiria a rampa seria um deles.

E por que essa eleição de 2022 se reveste de cores dramáticas, como se fosse iminência de um apocalipse ou única possibilidade de redenção democrática para o Brasil?

Porque ainda há, porque nos assombra, a possibilidade de uma reeleição de Bolsonaro. Mesmo que sua popularidade decline, mesmo que ele carregue mais de 600 mil mortes nas costas, mesmo que ele nos submeta a vexames locais, internacionais, interestelares, até. Tudo é tão sem sentido no Brasil de hoje, tão ficcional, que até o impossível é possível. Vide a eleição do completo desconhecido Witzel, no Rio de Janeiro. Que forças subterrâneas se moveram para isso?

A atual polarização direita x esquerda esvaziou o raciocínio político dos brasileiros, tornando simplórias as suas mentes. A razão deu lugar à paixão. Essa radicalização não existia, surgiu a partir de Bolsonaro, fazendo, da escolha política, uma torcida de futebol. Torcem por Bolsonaro, como quem torce pelo Vasco. Ninguém deixa de ser Flamengo porque ele perde um campeonato. Ou dois, ou três, ou 10. A escolha do time “do coração” é um estado de espírito, é aleatória ou é por influência de terceiros. E depois que se decide por ele, esqueçam, porque o torcedor não muda de jeito nenhum.

Daí que os 20 e poucos por cento de fanáticos bolsonaristas não vão mudar de preferência, porque o que está posto não é a ideologia nem a coerência, é a camisa do time. E eles escolheram a da Seleção Brasileira de Futebol!

Não é o projeto de Bolsonaro para o Brasil que conta, porque nem projeto ele tem, jamais apresentou um, sequer isso lhe cobraram. Bolsonaro não precisa cumprir, porque nada prometeu. Nada de bom. Prometeu armar todo mundo, acabar com o horário de verão e retirar os “pardais” do trânsito. Isso ele fez. Declarou que os filhos vinham em primeiro lugar, e que o filet mignon seria pra eles. Isso também tem cumprido ao pé da letra.

Nós nos tornamos um país de ignorantões, liderado por um ignorantão mor. Para quê escolas, se a burrice se tornou padrão? Para quê Enem, se até ele, que é burro, entende mais do que a comissão de mestres? Pra quê verdade, se as fake news são muito mais saborosas? Pra quê livros de História, se livros têm letras demais?

Sabemos das pretensões de Bolsonaro apenas pelas declarações feitas à imprensa nos tempos de deputado. “Se eu fosse presidente da República daria golpe no mesmo dia”. “O Congresso não vale pra nada”. “Sonego tudo que for possível. Se puder não pagar nota fiscal eu não pago, porque o dinheiro vai para o ralo, vai para a sacanagem”. “O voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar quando partirmos para uma guerra civil, fazendo o que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil. Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra, morrem inocentes.”

Podiam ser piores as intenções? Depois da incitação ao uso de armas e da sua liberação, inclusive as de grande porte, em grande quantidade, a última novidade é a aprovação pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados de um Projeto de Lei que permite o porte de arma para os praças das Forças Armadas – suboficial, subtenente, sargento, cabo, soldado e marinheiro – representantes de forte extrato de fanatizados pelo Mito. Somem-se a eles os milicianos, os posseiros, os invasores de terras, os garimpeiros ilegais, e agora sabemos que até narcotraficante foragido, o “Grota”, ligado ao PCC, é favorecido pelo Governo Bolsonaro com 18 autorizações para garimpar. Quantos “Grotas” têm merecido favores desse governo? Dezenas? Centenas? Milhares? Quantos chefes de bando? Quantos “Comandos”, facções do crime? Já virou até meme nas redes sociais a quantidade de bandidos, contrabandistas, delinquentes, fraudadores, marginais, ladrões, pilantras flagrados, que, quando conferimos seus perfis nas redes sociais, são bolsonaristas declarados.

Dar um golpe, provocar uma “guerra civil” é declarada obsessão de Bolsonaro, para quem “só Deus” o tira da cadeira. Não é o voto, não são as urnas, não é a preferência da maioria. Só uma força superior. E se não houver nova fakeada? E se ele for obrigado a participar de um debate? E se, mesmo com toda a manipulação dos algoritmos, através das fake News, dos votos de cabresto dos milicianos, das ordens expressas dos padres e pastores aos fiéis ele não consiga ser eleito? E se Lula vencer, como tudo indica? Bolsonaro irá recorrer à “força superior” das armas desse exército de transviados e obcecados, que é de fato dele?

Talvez a saída seja colocar uma imaginária faixa amarela de “interditado”, dividindo a porção do Brasil doente, intoxicado pelo bolsonarismo, da porção do Brasil são, e tocar a vida e a campanha no país real, com propostas verdadeiras e factíveis, com projetos de amanhã. Acreditar que a ordem Democrática pode ser recuperada, as instituições resgatadas, e que o Brasil ainda pode ser reconstruído, sejam seus atuais controladores os milicianos ou o mercado financeiro, o narconegócio ou o agronegócio, a bancada evangélica ou a bancada da bala, os latifundiários grileiros ou as federações patronais com suas pautas anti-trabalhador, a mídia corporativa ou a indústria de fake News, o punitivismo lavajatista de falsos catões ou a esbórnia das malas de dinheiro, os entreguistas de nossa soberania ou os militares impatriotas, o PCC ou o Comando Vermelho.

Vamos colocar nossa energia no candidato de nossas esperanças, conscientes que, mais do que nunca, só sairemos desse impasse em que nos encontramos elegendo um Congresso comprometido com um projeto político que favoreça a Nação brasileira, não apenas as conveniências pessoais, paroquiais, e muito menos os compromissos religiosos obscurantistas de cada um.

O povo brasileiro é aberto e fraterno – a gente até deixou de acreditar nisso. O brasileiro abraça as novidades com ternura e fôlego. Assume agilmente as transformações sociais, tecnológicas, de costumes. O vento renovador que bate leve lá fora, aqui é ventania. Assim, fomos dos primeiros a oficializar as uniões homoafetivas, nosso ensino é aberto e criativo, assim como é a atividade cultural. A contribuição científica brasileira é reconhecida internacionalmente. Nos grupos sociais mais progressistas, caminhamos muito contra o racismo, o machismo, os preconceitos em geral. Nossa capacidade de trabalho é indiscutível.

Todos os dias, aprendemos no manual da sobrevivência. Não vamos mais delegar a uma burguesia preconceituosa, burra, inculta, iletrada até, o leme de nosso futuro. E vamos querer de volta tudo que foi construído pelo povo e vendido na bacia das almas.

sábado, 20 de novembro de 2021

Não me decifraste, devorei-te!

Desde a mais longínqua antiguidade, sempre fomos instados a nos conhecermos – nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo. Mas essa injunção sempre foi dirigida muito mais a indivíduos que à sociedade como um todo.

No mundo atual, pelo menos do ponto de vista econômico, quem quiser conhecer a “totalidade” de um país tem a seu dispor uma quantidade astronômica de informações nos sites do IBGE e do Banco Central, e em entidades internacionais como o Banco Mundial e o FMI. Porém, se pela expressão “totalidade” quisermos designar uma sociedade consciente de si e, em tese, capaz de agir de forma coordenada, precisamos ir além da economia e indagar o que são as elites, nos seus diferentes segmentos. Nesse sentido mais amplo, no Brasil, a responsabilidade de conhecer o todo e suas elites, e de avaliar o quanto estas sabem de si mesmas, cabe basicamente à área de ciências humanas das universidades, cuja qualidade nem sempre corresponde à relevância de tal obrigação.


Abro, aqui, um parêntese para frisar que estou empregando o termo elite no sentido sociológico, sem qualquer conotação com aristocracias com posições fixas na escala social e até mesmo por laços de consanguinidade, como era o caso na Europa durante o século 19. No Brasil atual, o termo elite designa apenas o pequeno número de indivíduos que ocupa os ápices (alta administração, empresariado, etc.) das diversas pirâmides de que é formada a sociedade.

O ponto ressaltado de forma abstrata no parágrafo anterior adquire uma importante relevância prática quando a inconsciência de tais elites diz respeito à aproximação de ameaças gravíssimas, capazes de comprometer o futuro do País por um dilatado período histórico. Peço licença para me referir mais uma vez a um ponto que tenho aqui martelado insistentemente. O Brasil é um exemplo perfeito de país aprisionado no que se tem denominado “armadilha do baixo crescimento”, vale dizer, um país que precisará de muitos anos para duplicar sua renda anual média por habitante, que em nosso caso já é atrozmente medíocre. Se nossa renda atual crescer 3% ao ano – projeção por enquanto delirante –, só conseguiremos duplicá-la num período de quase 25 anos – uma geração inteira. Essa concisa indicação deve ser suficiente para o leitor se dar conta de que estamos num beco quase sem saída, uma vez que o marco institucional de nossa democracia (os Três Poderes) é de uma patética debilidade e não tem, abaixo dele, um universo de elites que o ancore, balize e inspire.

Em 1989, quando vivíamos a intensa expectativa da primeira eleição presidencial direta “após 29 anos”, Amaury de Souza e eu fizemos uma pesquisa com 500 membros da elite, em seus diferentes segmentos. Exploramos extensamente a questão da inflação, à época dominante, dos restos do patrimonialismo, cuja liquidação os entrevistados só podiam conceber por meio de reformas liberais enérgicas, e, em particular, a “dos riscos a que o Brasil estaria exposto se não conseguisse reduzir substancialmente as desigualdades regionais e de renda no prazo de dez anos”. Relembro, aqui, alguns dos resultados da pergunta, levando em conta somente os entrevistados que escolheram a alternativa “muita chance ou quase certeza”: 63% responderam

“um estado crônico de convulsão social” e outros 63% mencionaram a “inviabilização de uma economia de mercado”. É certo que somente 7% – e posso imaginar o alívio dos militares ao constatar quão diminuto era então esse número – preocupavam-se com a “quebra da unidade territorial do País”.

Em 1994, apenas cinco anos após nosso estudo, a Harvard Business School publicou um estudo de notável audácia e grande sucesso, coordenado por Hamish Mcrae, intitulado The World in 2020 – Power, Culture and Prosperity.

A tentativa de antever como seria o mundo 26 anos mais tarde deu ensejo a alguns erros egrégios – inclusive sobre a China, cujo avanço os autores claramente subestimaram – e a alguns acertos dignos de nota. Sobre o Brasil e a Argentina, as 300 páginas do livro fizeram uma única referência, o suficiente para acertarem na mosca. Afirmaram que nós e nuestros vecinos poderíamos usufruir um período de considerável prosperidade, desde que – atenção! – mantivéssemos um nível razoável de estabilidade política, com uma administração pública competente e imune à corrupção. O Brasil, com recursos maiores que os da Argentina, poderia exercer um impacto extraordinário no continente, se, a exemplo da Argentina, conseguisse sustentar uma década de estabilidade, seriedade na máquina pública e corrupção sob controle.

Observem que os autores delinearam um futuro que de fato não se materializou, nem na Argentina nem no Brasil, nos 26 anos decorridos desde a publicação do livro, período por coincidência praticamente igual ao que estimei como necessário para superarmos a nossa “armadilha do baixo crescimento”. Ou seja, é bem possível que mais uma geração viverá patinando no mesmo lugar, ou num lugar bem pior, com mais violência e araçatubas.

O Almirante Negro e os Heróis Nacionais

Não me atrai a consagração de heróis ou heroínas da pátria. O herói de hoje pode ser o vilão de amanhã, haja vista as recentes imagens de monumentos derrubados por manifestantes, revoltados com o brutal assassinato de George Floyd, por um policial branco. Também temo discursos patrióticos emocionados, que procuram um inimigo a ser combatido pelos "filhos" da pátria. A história está repleta de patriotas genocidas e eles ainda estão por aí.

Mas se existe um Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, um campo de disputas deve ser aberto para grupos sociais diversos reivindicarem seus nomes preferidos. Difícil será a unanimidade entre todos, todas e todes.

Mas quem merece o título? E por quê? Posições político-ideológicas, racistas, etnocêntricas, sexistas, religiosas e nacionalistas aparecem nesses momentos em discursos geralmente conflitantes. Daí a importância da democracia na contenção de injustiças.


Em 28 de outubro último, um desses conflitos ocupou o debate que aprovou o PLS n.º 340/2018, na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado. O líder da Revolta da Chibata, João Cândido Felisberto, foi indicado para o Livro de Heróis e Heroínas da Pátria.

Era filho de um ex-escravo e uma escrava, nascido de ventre livre em 1880. Trabalhou na fazenda onde nasceu, perambulou e chegou à Escola de Aprendizes Marinheiros. Formou-se em 1895, logo após oficiais da Marinha comandarem a Revolta da Armada, que destruiu vários prédios e navios da fazenda nacional.

Embora elogiado por superiores, juntou-se a outros marinheiros incomodados com a falta de um projeto coerente e moderno para a Marinha. Faltava educar colegas indisciplinados, aumentar o soldo, punir oficiais violentos e extinguir os castigos corporais, sobretudo a chibata. Daí por diante oficiais passaram a odiá-lo e a persegui-lo até sua morte.

Oficiais se posicionaram contra qualquer lembrança do Almirante Negro, nem sempre de forma "civilizada". Em 1934, o jornalista Aparício Torelly afirmou ter sido sequestrado por "oficiais da Marinha", espancado e largado em lugar remoto. A razão foi publicar matérias enaltecendo a revolta no seu jornal. Caso fossem identificados, aqueles oficiais hoje entrariam na lista dos "Predadores da Liberdade de Imprensa" da organização internacional Repórteres Sem Fronteiras. O almirante Oliveira Bello, anos depois, referiu-se a João Cândido como "criatura imperfeita, por complexos originais [...] individualidade destituída de propriedade e fibras para reagir, lutar e vencer". Perda de tempo, citar outras ações e falas como essas. O certo é que esses oficiais procuravam apagar João Cândido e a Revolta da Chibata da História.

Em 2008, o marinheiro e seus colegas foram anistiados, e um monumento a João Cândido pôde ser instalado em frente a uma base da Marinha no centro histórico do Rio de Janeiro. Mais treze anos se passaram, e o Senado aprovou o PLS n.º 340 de 2018. A Marinha enviou uma nota aos senadores reprovando o Projeto. Argumentou que os marinheiros não haviam esgotado "outras formas de persuasão e convencimento", além de quebrarem a hierarquia e a disciplina militares. Daí, a Marinha não reconhecer "o heroísmo das ações daquele movimento e o [considerar] uma rebelião".

Instituições militares impedem diálogos francos e abertos entre indivíduos de patentes diferentes. Os limites são definidos em regulamentos militares, que ordenam quem inicia e encerra a conversa. Ultrapassar o superior hierárquico pode ser punido por insubordinação.

Havia 22 anos da abolição, em 1910. Muitos oficiais nasceram em casas-grandes ou sobrados com serviçais negros e negras. A formação familiar, os valores e costumes expostos e acionados cotidianamente, e a identidade na cor da pele punham negros e brancos em condições sociais e políticas desiguais.

A cidadania republicana não visou incluir negros e negras no pós-abolição. O recente retrocesso na política de demarcação de territórios quilombolas demonstra que a república não é a mesma para todas as cores.

A cidadania republicana foi racializada para evitar que egressos do cativeiro gozassem dos mesmos espaços de poder que a elite branca e poderosa da época. Impediu marinheiros de votarem, enquanto oficiais militares tornaram-se deputados federais e até presidentes, através do voto ou da bala.

Se havia uma cidadania racializada entre os civis, perseguindo negros com teorias eugênicas, algo ainda mais grave existia na Marinha, na qual milhares de negros ocupavam as patentes mais baixas, não podendo ser oficiais e sendo "corrigidos" por castigos corporais. Um dos revoltosos de 1910 chegou a afirmar que a Marinha parecia uma fazenda de escravos.

João Cândido venceu seus oponentes brancos, tornou-se um Mestre Sala dos Mares nas engenhosas estrofes de João Bosco e Aldir Blanc e tem seu nome cada vez mais lembrado. Vários meninos negros terão mais um herói negro ao lado de Zumbi dos Palmares, caso o projeto de lei seja aprovado na Câmara dos Deputados. Estamos de olho.

O poder e a troça

H
á vários casos de reis que ficaram bobos, mas não há notícia de uma só corte onde o bobo chegasse a rei. É a sua inaptidão para o poder que garante a impunidade do bobo. Quanto mais forte o rei, mais irreverente o bobo. E há uma sutil cumplicidade entre o poder e a troça. Sempre desconfiei das razões de César para ter a seu lado o infeliz cujo único encargo na vida era cochichar ao ouvido do imperador, nos seus momentos de glória, “Não esqueças, és mortal”. Formidável é o reverso do arranjo. Nas suas piores depressões, César tinha este consolo insuperável: pior do que aquele imbecil ao pé de seu ouvido ele nunca seria.

Quanto mais forte o poder, mais impune o bobo. Num sistema que não teme o ridículo o bobo é o homem mais livre e mais inconsequente da corte. Seu único risco ocupacional é o rei não entender a piada. A consciência do império, como o tal que frequentava a orelha de César, é um bobo que subiu na vida. Com pouco mais tempo de serviço chegará a filósofo, um pouquinho mais e se aposenta como oráculo. Cada vez mais longe do poder, portanto. Não foram os sábios epigramas de Hamlet que derrubaram o rei. Que eu me lembre, foi um florete com a ponta envenenada. O que não é piada.

A troça só preocupa o poder bastardo, que tem dúvidas sobre a própria legitimidade. O estado totalitário é uma paródia da monarquia absoluta, e quem denunciar a farsa, denuncia tudo. Nesse caso toda piada tem a ponta envenenada, todo bobo é uma ameaça. O alvo principal da irreverência nunca é o poder, é a reverência em si. Um poder secular que exige respeito religioso está exposto ao ridículo por todos os lados. O rei não está apenas nu, não é nem rei. Não é certo dizer que nenhuma ditadura tem senso de humor. Pelo contrário, têm um senso agudo do ridículo. Entendem todas as piadas. Mil vezes a respeitosa atenção de uma junta de coronéis modernos do que a distraída condescendência das antigas cortes, é o que qualquer bobo lhe dirá, minutos antes de ser fuzilado.

Luis Fernando Verissimo

Quanto custa a pobreza?

A sombria indiferença social de muitos patronos e defensores deste modelo econômico, que arrasta o país para a incerteza e o abismo, justifica as perguntas que se lhes deve fazer. E, também, fazê-las aos cúmplices que, de vários modos, políticos e não políticos, lhes garantem a inacreditável sobrevida. Indiferença que indica a nenhuma preocupação com as vítimas deste subcapitalismo. Vítimas que são potenciais atores de um desenvolvimento econômico e social apenas possível. Aqui a indiferença terá custos históricos muito altos.

Quanto custa um faminto à economia, à sociedade e ao Estado? Não estou falando da ajuda financeira tópica que sequer sacia sua fome. Mas dos desdobramentos da fome e da pobreza nos diferentes âmbitos da realidade por ela afetados.

Quanto custa um desempregado? Um subempregado? Uma pessoa em situação de rua, um desesperançado? Um ser humano indevidamente doente porque não teve os meios para alimentar-se corretamente e evitar doenças e deficiências evitáveis que têm preço a curto e a longo prazo? Quanto custa à economia e à sociedade um doente cuja doença por muito menos poderia ter sido prevenida? Quanto custa à economia e à sociedade o barateamento dos custos do que não pode nem deve ser barato? Por que não poupar no que é desnecessariamente caro para aplicar na vida que é cara mas necessária?


Nesta sociedade tudo tem preço, mesmo o ar expirado dos sem-máscara que pode matar outros. Todos pagamos por esse crime, o da ignorância prepotente. Quanto custa ao país a irresponsabilidade dos que violam as medidas de segurança de todos e, ignorantes, proclamam o que não sabem, a ciência que não conhecem, a medicina que subestimam? Quanto custa ao país e a todos a “medicina” do palpite tolo? Quanto custa à sociedade e à própria economia a vida daqueles em cuja formação a sociedade investiu muito, da amamentação à educação, e que sucumbem quando poderiam ter sobrevivido para devolver ao país o que custaram? Quanto custa ao sistema econômico um morto inadimplente?

Quanto custa a agonia dos que padecem as insuficiências sociais do Estado irresponsável? Quanto custa à sociedade, às famílias e até ao Estado a morte dos que morrem antes do tempo? Quanto custa à condição humana a politicagem matadora? Quanto de subdesenvolvimento econômico é devido aos excessos e desperdícios da política do poder pelo poder, do lucro pelo lucro?

Quanto custam os problemas sociais da subvida na pseudo-habitação que se espalha pelas grandes cidades? Quanto de futuro do país e da sociedade inteira custa o modo de vida de milhões de pessoas que vivem à margem dos padrões normais e civilizados porque carecem dos meios para viver como os demais?

Quanto custa viver sem esperança na ausência de meios para tê-la? Pois é preciso ter ao menos a certeza de um dia de amanhã para ter esperança. No Brasil, não há, para milhões de pessoas, nem mesmo a certeza do dia de hoje. Amanhecer sem o café fumegando na caneca de lata. Sem o pão bíblico da primeira refeição, mesmo que seja o pão duro catado no lixo, o pão que restou do excesso de boca dos que têm mais do nela cabe.

Quanto custa ao país o Estado omisso e perdulário, em relação a essas questões? Quanto custa a todos nós a mamata dos que dispõem mais do que o necessário para legislar e governar?

Somos o oposto de países cuja economia se organiza com base nos pressupostos civilizados de que a vida e o bem-estar são capitais sociais, são lucro quando não são utilizadas para dar prejuízo lucrativo.

Porque todo desvalimento dessa humanidade tem um preço. Não só pelo prejuízo que ela involuntariamente dá, nos custos que de sua situação injusta e anômala decorrem. Mas pela riqueza que não cria, pelos bens que não compra nem consome, pelo ganho que não gera, porque sem emprego produtivo, sem trabalho.

Quanto custa o subcapitalismo brasileiro ao capitalismo que pode ser e não é? Quanto custam às empresas os empresários que não o são porque orientados por ideologias subcapitalistas lucrativas agora e causadoras de prejuízos definitivos amanhã, do agora sem o depois, do lucro sem compromisso social com o próprio futuro e o futuro da imensa maioria? Quanto?

Quanto custará ao Brasil sem futuro o olhar dos olhos arregalados de espanto e incerteza de crianças acomodadas pelas mães desvalidas sobre restos de jornais nos degraus da catedral de São Paulo em noite de garoa e frio? Dos quais não corre nem mesmo a lágrima invisível do choro para dentro da alma, de crianças que já não sabem como é que se chora? Que desse modo se descobrem personagens de pátria nenhuma, de sonho nenhum, os ninguéns do Brasil de hoje e de amanhã? São filhas do Brasil deitado em berço esplêndido.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A tragédia que não será divulgada

O ano é 2023

Depois de um ano de paralisação e mais dois de instabilidade, Cristina, dez anos, menina feliz até o início de 2020, assistiu com olhos confusos ao fechamento da escola e ao consequente distanciamento dos colegas. Por algum motivo, – ainda a ser sondado através de muita terapia –, tão logo se afastou do convívio com seus iguais, passando o dia apenas entre adultos e notícias trágicas, ficou em seu quarto, cabisbaixa, sem ânimo para fazer qualquer coisa. Cristina, antes estudiosa, perdeu a concentração e se sentia tomada de desagrado constante.

Ainda na metade de 2020, o diagnóstico de depressão infantil chocou os pais da criança alegre. Hoje Cristina lida há quase três anos com a doença. E ninguém imagina sua origem.

 

Depois de um ano de paralisação e mais dois de instabilidade, Carla, trinta anos, ex-vendedora em uma loja de roupas, foi demitida aos vinte e sete, depois de cinco trabalhando para a mesma empresa. Nos difíceis anos posteriores, após sofrer com taquicardia, boca seca, pensamentos acelerados e insônia persistente, soube que possuía um doloroso transtorno de ansiedade, nunca antes sequer cogitado. Hoje, Carla, há quase três anos desempregada e mãe de uma criança de cinco, procura controlar por meio de medicação os desejos de ataque à própria vida. A razão do desequilíbrio ninguém desconfia.

Depois de um ano de paralisação e mais dois de instabilidade, Alfredo, 40 anos, dono de um pequeno comércio, até março de 2020 via o empreendimento crescer, prover empregos, garantir a mantença sua, da esposa grávida e de mais dois filhos pequenos. Após meses de prejuízo e de reiterados fechamentos, viu-se obrigado a demitir e lacrar, definitivamente, as portas do sonho. Desde então, Alfredo é despertado todas as noites por um terror nomeado transtorno do pânico; a madrugada é o momento em que um monstro interno deixa-se transparecer através da dor no peito e da sensação de falta de ar. A gênese da doença? Ninguém sabe.

Antônio, 90 anos, é bisavô de Cristina, amigo da família de Carla e ex-cliente de Alfredo. Ser humano sensível e empático, tomou para si a dor de todos eles e de mais milhões de depressivos, ansiosos e transtornados psíquica e emocionalmente. Ele nunca, em seu quase centenário, viu uma tão imensa avalanche de doenças silenciosas e sem causas admitidas ou divulgadas. Sofre pela morte interna dos parentes, conhecidos e dos desconhecidos a quem nunca se dará um parecer antes do suicídio.

Durante um bom tempo, Antônio assistiu todos os dias aos desdobramentos de uma pandemia. Achou legítimo que noticiassem: o povo precisa saber o que acontece. Só não entende a explicação para, no ano seguinte às diárias tragédias, silenciarem quanto a enfermidades excruciantes e de causas ignoradas…

Pensamento do Dia

 


O Mefisto do Brasil

Nesta semana, tive que pensar na obra-prima alemã Fausto, de Johann Wolfgang von Goethe. Nele, Mefisto, o diabo, diz em certo momento: "O Gênio sou que sempre nega! / E com razão; tudo o que vem a ser / É digno só de perecer / Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais / Por isso, tudo a que chamais / De destruição, pecado, o mal / Meu elemento é, integral".

A essência deste Mefisto, então, é a destruição. Ele se deleita em demolir o que outros criaram. Ele é um cínico.

O governo Bolsonaro aboliu há poucos dias o Bolsa Família sem nenhuma necessidade e o substituiu por um programa chamado Auxílio Brasil. Ele vai durar um ano, até depois das próximas eleições, o que, naturalmente, não é coincidência. É a tentativa de Bolsonaro de "comprar" votos.

O Bolsa Família foi um dos programas governamentais de maior sucesso na história do Brasil. Não apenas salvou milhões de pessoas (especialmente mulheres e crianças) da fome e da pobreza extrema, mas deu-lhes, no melhor dos casos, a oportunidade de ascender socialmente. O Bolsa Família foi elogiado pelas Nações Unidas e recomendado a outros países. Foi um programa social que deu certo − e o Brasil era admirado internacionalmente por essa conquista.

Após 18 anos, portanto, não havia motivo nenhum para abolir o Bolsa Família. Bolsonaro provavelmente acabou com o programa por pura maldade e ciúme. Bateria com seu caráter mefistofélico. Em 2019, ele disse nos EUA: "Nós temos é que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa".

O Bolsa Família naturalmente não é a única coisa positiva que Bolsonaro destruiu. O desmatamento da floresta amazônica está atingindo novos recordes dramáticos. A principal razão disso é o desmantelamento sistemático de Ibama, ICMBio e Funai − órgãos que faziam um excelente trabalho até Bolsonaro chegar ao poder.

O seu governo está destruindo a ciência. Mais recentemente, cortou R$ 600 milhões, o que corresponde a 87% das verbas para a área. Especialistas já alertam para um colapso da pesquisa no país. "Estamos à beira de um apagão da ciência", diz, por exemplo, a presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

Com as nomeações de vários ministros incompetentes e ideologizados para a pasta da Educação, o sistema educacional brasileiro foi ainda mais enfraquecido do que já era. Agora, o Enem passa por uma profunda crise por causa da interferência política de Bolsonaro. Da mesma forma como o Bolsa Família e o trabalho engajado do Ibama, o Enem era parte de um Brasil que deu certo.

A fé na democracia brasileira foi prejudicada gravemente pelo próprio presidente pelas teorias conspiratórias infundadas de que o sistema de votação eletrônico do país teria sido supostamente manipulado. Será ainda necessário mencionar que as urnas eletrônicas no Brasil também têm prestado um serviço fiável e rápido ao longo dos anos? As eleições no Brasil decorrem muito mais eficientemente do que nos EUA. Mas Bolsonaro também queria acabar com elas.

As políticas de família e de mulheres foram torpedeadas pela pastora evangélica radical Damares Alves como ministra. Damares esvaziou as verbas para combate à violência contra a mulher e usou apenas metade do dinheiro para ações de proteção e igualdade de direitos. Não usou nenhuma das verbas para políticas LGBT em 2020. Em vez disso, praticou nepotismo ao convidar amigos dela para viagens oficiais e gastar a verba de vocês, queridos contribuintes!

Por último, mas não menos importante: Bolsonaro não só enfraqueceu o sistema público de saúde do Brasil, relativamente bom para um país em desenvolvimento, diante da pandemia, mas também é responsável pela morte de milhares de brasileiros. Foi isso que constatou a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a pandemia. Bolsonaro não se importa – mas também não se espera outra coisa de um homem que chegou a desejar a morte violenta de 30 mil brasileiros.

Em três anos, Bolsonaro arruinou completamente a reputação internacional do Brasil. Já não se é mais invejado no exterior por morar no Brasil. As pessoas dizem: "Ah, Brasil, onde elegeram este louco que está destruindo a Amazônia e dizendo um monte de grosserias".

A destruição das relações internacionais do Brasil é a razão pela qual Bolsonaro não visita os EUA ou a Europa. Ninguém quer recebê-lo. Em vez disso, viaja às ditaduras árabes, onde suas piadas homofóbicas pegam bem.

O Brasil estava muito longe de ser perfeito, claro, mas havia conseguido construir coisas notáveis em muitas áreas: Bolsa Família, Ibama, Inpe, SUS, Enem, uma reputação internacional como mediador e como um país amigável e tolerante.

O cínico Bolsonaro tem feito de tudo nos últimos três anos para destruir essas conquistas. Está em sua natureza, ele não pode evitar. Ele é como o diabo Mefisto do Fausto de Goethe. "Por isso, tudo a que chamais / De destruição, pecado, o mal / Meu elemento é, integral."
Philipp Lichterbeck

O touro, o gado e a boiada que passa

Uma réplica cafona e dourada do Charging Bull, a escultura de bronze que desde o fim dos anos 1980 foi implantada na frente da Bolsa de Nova York, virou alvo de protestos e memes nos últimos dias. Poucas coisas poderiam ser uma síntese mais acabada do momento de completa dissonância cognitiva por que passa o Brasil.

A “obra de arte” (sic) foi “presente” de um economista que se autointitula Tourinho de Ouro. Logo não é presente, mas autopropaganda. Foi paparicada por expoentes do mercado financeiro brasileiro.

O touro, vejam só, é considerado um símbolo de pujança e confiança do mercado em ganhos e altas realizações.



Mas, no momento, os investidores estão fugindo do Brasil, ressabiados pela inflação descontrolada, pelo calote nos precatórios, pelo desemprego recalcitrante e pelo desajuste fiscal deflagrado pelo governo Bolsonaro.

Os mesmos entusiastas que postaram selfies com o touro cafona fazem um spinning job — como nós, jornalistas, chamamos o trabalho de passar em off informações e análises — mostrando os efeitos devastadores que haveria no curto, médio e longo prazos com a aprovação da PEC dos Precatórios, na esperança de que a imprensa faça por eles o trabalho de tentar frear a proposta no Senado.

É graças à condescendência excessiva e à covardia de setores como o empresarial e financeiro com os descalabros de Bolsonaro, não só na área econômica, mas na destruição de toda e qualquer política pública no país, que rumamos sem nenhum freio visível para o estouro da boiada.

Enquanto os mauricinhos de gel e colete de náilon da Faria Lima se congratulam em torno de um símbolo da nossa sabujice, como esse touro, Bolsonaro vai arrebentando com os marcos de responsabilidade fiscal construídos ao longo de sucessivos governos.

Além de escancarar o cinismo e a falta de visão da realidade por parte do mercado, o boi anabolizado grita o escárnio da ostentação dourada num país em que a fome voltou a ser uma realidade para milhões de brasileiros.

Não à toa virou, e tomara que seja para sempre, um ponto de realização de protestos dos movimentos sociais.

Bolsonaro acaba de implodir o Bolsa Família, política social permanente de transferência de renda, para colocar em seu lugar um auxílio — nome paternalista, antigo, que já remete a favor, a beneplácito político-eleitoreiro — provisório, mal-ajambrado, cuja fonte de receita ainda é incerta, além de flagrantemente inconstitucional.

Cadê o gado faria-limer para protestar contra isso, que claramente piorará ainda mais os indicadores tanto fiscais quanto sociais do país, à custa apenas de um capricho e de um ato desesperado de um presidente incapaz de se reeleger?

Enquanto aqueles que detêm o PIB e o poder de influenciar politicamente o Congresso não se derem conta de que essa postura bovina em relação ao governo os levará ao precipício junto aos mais pobres, a boiada seguirá passando.

Bolsonaro, animado pelo aval que teve da Câmara para a PEC criminosa da pedalada nos precatórios, já fala em reajuste indiscriminado de salários para servidores. Paulo Guedes faz que não escuta e sai louvando os benefícios do congelamento de salários! Parece que o ministro da Economia acredita que, se fizer o jogo do contente, o presidente desistirá de arrombar o cofre. Pensamento mágico.

Os promotores do touro de fibra de vidro pintado de dourado berrante são os mesmos que calculam em mais de R$ 1 trilhão o rombo que o calote nos precatórios legará até 2036. Não é preciso ser expert em finanças para entender o que isso representa em relação a programas como o Auxílio Brasil. E, ainda assim, a boiada passa, enquanto avançamos dia a dia no ridículo e no descrédito.
Vera Magalhães

Pequeno canalha

O pior canalha é o pequeno canalha. O anão moral. Medíocre, dissimulado, frustrado, morre de inveja dos que têm atributos que lhe faltam, o que é muito comum. Perdedor em tudo e inconformado com a sua sina de perdedor faz-se canalha para purgar os pequenos demônios da inveja que corroem suas entranhas.


É capaz de cometer todas as pequenas perversidades que conhece para sublimar o sofrimento que o destino biológico lhe impõe. A falta de neurônios acompanhada da indigência cultural do meio são condições ideais para o surgimento do pequeno canalha.

Um homem sem atributos, fisicamente mal dotado, de inteligência mediana, desagradável no aspecto e na voz metálica, compreende a sua limitação e se rebela contra todos que lhe pareçam mais aquinhoados pela sorte.

Imaginem um professor de literatura que almeja a glória do grande escritor. Ele tenta realizar seu sonho, escreve contos e os transforma em livro. Espera aplausos e o máximo que colhe é a indiferença. Agastado com as críticas que lhe revelam a absoluta falta de talento, devolve na mesma moeda. Transforma-se em crítico e produz laxativas apreciações sobre a literatura alheia.

Tenta mais uma vez. Produz um romance. Vira motivo de chacota. Seus personagens são pífios, tão vazios e desinteressantes quanto ele. Vai à loucura e chega a pensar no suicídio. Mas o pequeno canalha não tem coragem nem dignidade para tanto. Logo atribui ao mundo as suas mazelas. Ou seria a síndrome de Adison a responsável pela sua falta de inspiração? Não. A síndrome de Adison só explica a impotência sexual e manchas na pele que parecem vitiligo.

Fracassado, aposta tudo em relatos sobre a vida doméstica e as agruras de sua mãe no segundo casamento. Quer provocar lágrimas, só consegue o riso dos poucos leitores que imaginam a pobre senhora em esforços para cumprir os deveres sexuais exigidos por um marido de hábitos toscos da vida rural. Há nobreza no sofrimento dessa mulher que se submete de todas as formas para garantir proteção ao filho.

À noite, insone, atormentado, pergunta-se porque é assim piegas e medíocre. Põe em dúvida sua convicção religiosa. Deus não pode ter sido tão cruel ao lhe dar menos em tudo, do tamanho do pênis aos neurônios da região frontal.

O pequeno canalha sofre. Gostaria de se diferenciar na multidão. Ser reconhecido por algo que só ele tenha produzido. Nada. Aos poucos só é notado pelas pequenas canalhices que cometeu. Resta-lhe a fuga. Covarde para encerrar sua grotesca participação de forma definitiva, procura um lugar onde possa parecer mais culto para satisfazer o pequeno ego com as glórias da província. E se distrai em exercícios para conceber um epitáfio que lhe louve na morte o que gostaria de ter realizado em vida.
Fabio Campana (Revista Ideias- 2011)

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Brasil: o absurdo normal

Atitudes, situações e posições absurdas tornaram-se “normais”; este é um dos graves problemas brasileiros, raramente tratado por candidatos. São, por certo, questões espinhosas, mas se sequer se trata delas, como superá-las?

É absurdo que a certos criminosos seja garantida uma elevada renda vitalícia; aqui, isso tornou-se “normal”. Não é absurdo que há décadas paguemos “normalmente” ca
rro e motorista para milhares de pessoas cujas rendas – pagas por nós – são elevadas? Não é absurdo que o dinheiro dos nossos impostos seja dilapidado em centenas de usos cujo objetivo principal é eleger os já eleitos? É “normal” que parte desses gastos seja desviada? Não é absurdo que “roubo” seja chamado de “desvio”?

“Normalmente” votamos numa pessoa e elegemos outra; absurdo, não? Parece “normal”, mas é absurdo parlamentares viajarem semanalmente entre suas bases e Brasília.

Ordem e conselhos “normalmente” deveriam defender o exercício da profissão, mas tornou-se “normal” o absurdo de defender profissionais, por suspeitos que sejam.

É “normal” o absurdo de parlamentares ficarem com parte dos salários de seus muitos assessores e nada lhes acontecer? A lentidão da Justiça, tão “normal”, não é um absurdo?


Parece que a lógica é: se magistrados que cometem crimes são “normalmente” “punidos” com aposentadoria bem remunerada, e liberdade para advogarem, por que deveria um eleito ser punido por roubar recursos públicos?

Como construir um país decente se essas questões sequer são postas para que candidatos a cargos públicos as respondam e digam o que pretendem fazer para tornar anormal esses absurdos?

O absurdo de 10% da população se apropriar de 43% da renda nacional tornou-se “normal”; combater essa absurdidade deveria ser “normal”, mas para muitos parece absurdo. É “normal” o absurdo de os governos não terem políticas eficazes para mudar essa realidade?

Exportar toneladas de grãos para alimentar porcos e frangos, e deixar a fome grassar aqui entre humanos é “normal”?

Há muitos outros aspectos “normais” da nossa realidade que são de total absurdez. Vale lembrar alguns: furar filas, o ônibus não passar nos horários previstos, lixo espalhado pelas ruas, milhares de assassinatos não esclarecidos! E há mais, muitos mais, mas não há espaço para listá-los todos.

As pessoas que praticam “normalmente” atos absurdos, que os aceitam como “normais” e por interesse pessoal evitam tratar desses temas, não se tornam também elas antissociais ou sociopatas? E não são elas que “normalmente” nos governam?

Uma reforma política ampla, essencial para tornar anormais essas absurdidades, só ocorrerá se feita pelo voto, para substituir os atuais sociopatas por pessoas dispostas a enfrentar temas espinhosos.

Estamos em vésperas de eleições. O seu candidato já se manifestou sobre esses temas? Não? Então procure outro!

Brasil da mão armada

 


Inflação é ruim, mas é pior no Brasil

Confrontada com uma inesperada e acelerada taxa de inflação, a sociedade brasileira vê-se diante de uma grande incógnita: até quando e até quanto vai o atual processo de aumento dos preços?

A pergunta é difícil de responder, pois a única certeza que se tem hoje é de que o preço a pagar implica sacrificar o PIB de 2022. Não à toa, as previsões de crescimento para o ano que vem caíram para abaixo da marca de 2% e isso deveria acender um sinal de atenção, pois deixa no ar a incerteza sobre a reação do governo diante de uma provável queda de popularidade em um ano de eleições.

Ou seja, do ponto de vista político institucional o horizonte de curto e de médio prazos revela-se absolutamente nebuloso. Do ponto de vista econômico, as mais pessimistas previsões poderão ser atenuadas pela melhoria das condições que têm afetado os preços da energia e o fornecimento de matérias-primas que atrapalham o processo produtivo.


É claro que muito do que se vive é resultado da pandemia, um fenômeno desconhecido há muitas gerações, com efeitos econômicos imprevisíveis. Não era plausível imaginar no auge da proliferação do covid-19 que de uma hora para outra, ainda em meio a um quadro de casos de contaminação, aqueles níveis de inflação tão baixos capturados até o início deste ano iriam galgar patamares cada vez mais altos com a rapidez que temos visto. Em apenas dez meses, o IPCA em doze meses pulou de 4,56% para 10,67% (o mesmo índice, curiosamente, colhido no final de 2015, quando a deterioração política levou ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff).

O governo faz questão de enfatizar que a inflação não ressurgiu apenas no Brasil. De fato, ela está presente em vários países. Em alguns tem quebrado recordes, como é o caso dos Estados Unidos, onde o IPC subiu 6,2% em outubro, o maior nível em trinta e um anos. As características da economia brasileira, no entanto, fazem com que aqui a inflação tenha consequências piores.

Primeiro, deve ser destacada a questão da indexação, pois muitos preços ainda sofrem reajuste par e passo com a inflação passada. Depois do Plano Real, que acabou com a indexação formal dos salários (cerca de 60% dos preços) os contratos indexados automaticamente diminuíram bastante, mas ainda são relevantes, a começar pelo orçamento público que usa a inflação para corrigir tanto a arrecadação como os gastos. Mensalidade escolar, aluguéis e salário mínimo são outros preços atrelados umbilicalmente ao comportamento dos índices de preços.

Segundo, ainda que a indexação formal esteja mais restrita, a economia continua a conviver com o efeito da inércia sobre os preços. Tem a ver com aquele raciocínio de que as margens de lucro precisam ser garantidas a qualquer custo, o que leva a repassar a variação inflacionária para os preços finais. Isso é comum no setor de serviços onde não podem ser substituídos através da importação, se bem que ao câmbio atual nem mesmo os produtos físicos têm a alternativa da concorrência com os importados.

O IPCA do setor de serviços tem subido consistentemente desde o início deste ano. No acumulado de doze meses, passou de 1,51% em janeiro para 4,92% em outubro, com alta significativa nos serviços mais intensivos em trabalho. Ainda que não indexados, alguns salários têm sido reajustados em linha com a inflação passada, muito embora isso ainda não represente o grosso das atividades sindicalizadas.

Essas peculiaridades dificultam os prognósticos para a inflação e a situação se agrava ainda mais quando se introduz o fator expectativa na equação, algo que tem a ver com a percepção dos indivíduos e do mercado com respeito às variáveis que influenciam na alta dos preços.

A conjugação de fatores que lidam também com o subjetivo em um quadro de tantas incertezas e um regime de câmbio flutuante não ajudam a tarefa do BC.

Edmar Bacha, um dos poucos economistas que melhor conhece as idiossincrasias brasileiras, considera que a identificação das expectativas para o manejo da política monetária é uma questão quase impossível de ser solucionada porque não se sabe como são formadas. Essa dificuldade transparece nas equações do Banco Central que usam o componente das expectativas correlacionado à inflação passada. O fato objetivo é que o futuro da inflação na era Bolsonaro está exclusivamente nas mãos do BC e Bacha não tem dúvidas de que a autoridade monetária conseguirá segurar a alta dos preços mesmo com a possibilidade de provocar recessão.

“A questão é a que custo isso será feito e se será politicamente sustentável”, enfatiza ele, que não está de todo pessimista porque a economia ainda não entrou em processo de dominância fiscal - quando o aumento dos juros impacta a dívida pública a ponto de restringir a atuação do BC. “Tem risco de entrar, mas ainda não há indicação disso”, complementa.

A péssima distribuição de renda do país representa uma situação característica da qual o Brasil talvez seja o representante máximo e explicita outro motivo que faz a inflação ter efeito pior no país em comparação com outros.

A massa de gente que sobrevive com renda baixa, equivalente a cinco vezes a população de Portugal, sofre mais com a inflação do que o pessoal das camadas mais altas de renda, como se sabe. Dado o nível da pobreza, o impacto é gigantesco, com reflexos negativos no próprio crescimento pela retração da capacidade de consumir. De acordo com o IPEA, a inflação acumulada em doze meses para quem tem renda de até R$ 1.808 por mês atingiu 11,4% em outubro. Nessa perspectiva, o auxílio família tende a virar pó rapidamente.

Por tudo isso, nada indica que a trajetória econômica em 2022 seja um passeio reconfortante.

‘O presidente Jair Bolsonaro é nocivo à economia do Brasil’

Em setembro de 2019 Paulo Guedes, ministro da Economia do Brasil, disse ao Congresso que poderia “fazer história” mantendo o Orçamento sob controle, acrescentando que “a classe política não deveria correr atrás dos ministros, implorando por dinheiro”. Agora, Guedes está apoiando uma dissimulada tentativa do governo de contornar o limite constitucional para os gastos públicos estabelecido em 2016, que foi um passo crucial para endireitar as finanças do país. Ele e Jair Bolsonaro, o presidente, conduzem o país não apenas a um retorno à incontinência fiscal, como também a outras mazelas econômicos que têm castigado o Brasil: aumento da inflação, altas taxas de juros e baixo crescimento. E as travessuras orçamentárias, por sua vez, criaram incerteza sobre o futuro do principal programa social do país.

Nas eleições de 2018, a aliança de Bolsonaro com Guedes, economista do livre mercado, contribuiu muito para persuadir empresários a apoiarem um ex-oficial do exército de extrema direita que nunca antes havia mostrado interesse pela economia liberal. Guedes prometeu uma reforma radical do inchado e ineficiente Estado brasileiro. Mas essa promessa resultou apenas em alguma economia no setor previdenciário, autonomia legal para o Banco Central e pequenas simplificações regulatórias. Agora o ímpeto por reformas deu lugar à corrida de Bolsonaro por dinheiro para comprar apoio político e popularidade.

Para evitar o impeachment por causa de sua má gestão da pandemia e dos crimes de sua família (o que eles negam), Bolsonaro se aliou ao Centrão, uma grande coalizão de conservadores congressistas. Quando a covid-19 atacou, o governo declarou “estado de calamidade”, permitindo-lhe oferecer grandes auxílios temporários, apesar do limite de gastos. Em 2020, a pobreza diminuiu no Brasil, contrariando a tendência regional, e a popularidade de Bolsonaro aumentou. Em março, o governo ganhou uma emenda constitucional de emergência, abrindo um buraco no teto de gastos, para permitir que pelo menos alguns pagamentos continuassem. Agora, a queda no índice de aprovação do presidente está reduzindo sua chance de um segundo mandato nas eleições do próximo ano.

Uma nova emenda constitucional abriria mais dois buracos. Permitiria ao governo atrasar pagamentos de precatórios judiciais (tais como as restituições de tributos cobrados em excesso). Além disso, exploraria a recente subida nos preços, indexando o orçamento à inflação anual de dezembro (provavelmente superior a 10%) em vez da de junho (8,4%). Essas mudanças dariam ao governo uma soma extra de R$ 100 bilhões (US $ 18,2 bilhões) para usar no próximo ano, avalia Marcos Mendes, ex-assessor econômico do Senado.

Parte desse dinheiro iria para o Auxílio Brasil, o reformulado programa de combate à pobreza que sucederá o Bolsa Família, o bem-sucedido esquema de combate à pobreza lançado em 2003 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas trará mais complexidade e incerteza, observa Marcelo Neri, especialista em pobreza da Fundação Getúlio Vargas. O governo elevou a média do benefício permanente em 18%, para R$ 217 por mês. No entanto, Neri aponta que a inflação havia corroído 32% de seu valor real desde 2014. Bolsonaro também prometeu um bônus temporário, de modo que todas as 17 milhões de famílias no programa receberão pelo menos R$ 400 por mês, mas apenas até dezembro de 2022. Não por acaso, isso acontece logo após as eleições.

Outra grande parte do dinheiro extra iria para causas menos dignas, incluindo cerca de R$ 18 bilhões para financiar obscuras emendas orçamentárias que permitem a execução de contratos públicos superfaturados a congressistas em troca de seu apoio a Bolsonaro. Essas foram algumas inovações idealizadas pelo Centrão. Esta semana, a maioria do Supremo Tribunal Federal considerou essas cláusulas secretas como ilegais. Isso não impediu que a Câmara dos Deputados aprovasse a emenda constitucional. Não está claro se isso será aprovado no Senado.

De qualquer maneira, haverá custos. A derrota colocaria em dúvida o financiamento do Auxílio Brasil no futuro. Mas seria uma vitória de Pirro. Quatro dos mais antigos assessores de Guedes renunciaram no mês passado porque se opuseram à emenda (a versão oficial foi por “motivos pessoais”). A preocupação com a política fiscal é o “principal combustível da inflação”, diz Zeina Latif, economista de São Paulo. O objetivo do teto de gastos era travar o implacável aumento dos gastos públicos que satisfaz os privilegiados, já que não são redistributivos nem eficientes para superar os gargalos que freiam o crescimento. Esse enfraquecimento mostra que Bolsonaro não é ruim apenas para o meio ambiente, para os direitos humanos e para a democracia, mas também para a economia do Brasil.
The Economist

Lero-lero de milico

O povo brasileiro acordou no dia 15 de novembro de 1889 cheio de esperança com o futuro do País. A República havia chegado e nosso destino como Nação mudava de rumo
Hamilton Mourão celebrando a Proclamação da República
* A tal Proclamação se deu no Ministério da Guerra sem qualquer participação popular. O povo só começou a saber da deposição de D. Pedro II no fim da tarde daquele dia e apenas os jornais no dia seguinte noticiam a queda do Império