domingo, 25 de julho de 2021

A democracia morre no fim deste enredo

O agressor da democracia não vai parar. É como o agressor da mulher que, após perdoado, volta a atacar e muitas vezes o fim é a morte da vítima. Quem me fez esse raciocínio foi uma autoridade da República. Todos os dias a democracia apanha do presidente Jair Bolsonaro. Os generais e os civis que o cercam reforçam suas atitudes ou tentam justificá-lo. Essa violência só vai parar no fim deste governo, mas deixará cicatrizes. Quando as instituições estão funcionando, ninguém precisa dizer em notas e declarações.

— O presidente fala uma coisa e na hora que aperta ele recua, igualzinho ao homem que agride mulher. O agressor recua, garante que a ama, algumas pessoas asseguram que ele vai mudar e a violência cresce. Um dia ele chegará com um revólver e vai matar a mulher. É dessa certeza que surgiu a Lei Maria da Penha — explicou a pessoa com quem eu conversei sobre as crescentes ameaças do presidente e dos generais que o seguem, da reserva ou da ativa, nessa mesma lógica de agredir e negar que agrediu, prenunciando outro ato que seja ainda mais forte.


Nesse último episódio, revelado pelo “Estadão”, o ministro da Defesa, Braga Netto, enviou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira, com o seguinte teor: “a quem interessar, se não tiver eleição auditável não terá eleição.” Foi dentro de uma escalada de agressões. Tudo se passou entre os dias 7 e 8 de julho. A nota do ministro da Defesa e dos comandantes militares tentando coagir a CPI do Senado foi no dia 7. No dia 8, Bolsonaro afirmou que ou vai ter o voto impresso ou não vai ter eleição, o general Braga Netto mandou o mesmo recado golpista, e o comandante da Força Aérea deu uma entrevista ao GLOBO elevando o tom da ameaça contida na nota, sendo em seguida apoiado pelo comandante da Marinha. O atentado foi combinado. Eram instituições funcionando. Com o objetivo de destruir a democracia.

O roteiro que se seguiu era previsível. Vieram os desmentidos com palavras ambíguas, as afirmações de que a democracia vai bem, e novo ataque do presidente. A nota de Braga Netto repetiu a ingerência em assuntos sobre os quais as Forças Armadas não têm que se pronunciar, ao defender o voto impresso que eles apelidaram de “auditável”. A quem disse que o ministro da Defesa estava invadindo a esfera política, Bolsonaro respondeu. “Quando vejo algumas autoridades tuitarem que isso é uma questão política, que certas pessoas não devem se meter nisso, quero dizer a vocês que isso é uma questão de segurança nacional. Eleições são uma questão de segurança nacional”, disse o presidente fechando aquele dia de debate sobre o recado do general. Isso autoriza as intervenções militares no tema que o presidente elegeu como pretexto. Todo golpe autoritário inventa seu pretexto. Esse é o de Bolsonaro. O de Donald Trump foram as acusações mentirosas de fraude. Ao fim, os trumpistas invadiram o Capitólio.

O agressor da democracia brasileira instalou cúmplices em postos estratégicos. Braga Netto é da reserva, mas a carreira militar é usada para ele sempre falar escudado nas Forças Armadas. Os atuais comandantes assumiram com o mandato de mostrar que os militares defendem o projeto político de Bolsonaro. Foram escolhidos para apoiar o agressor. O general Luiz Eduardo Ramos quando foi para o governo era da ativa e estava no comando do II Exército. Ele fez parte do canal dessa bolsonarização dos militares. O almirante Flavio Rocha, da SAE, está ainda na ativa. O projeto é deixar sempre a impressão de que as Forças Armadas vão agir para proteger Bolsonaro.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, e seus auxiliares diretos agiram várias vezes de forma contrária ao papel constitucional da PGR. O ministro André Mendonça teve atitudes e defendeu teses que feriam a Constituição. A Polícia Federal colocou seus documentos sob sigilo quando a publicidade tem que ser a regra numa República. Aras foi reconduzido, Mendonça foi indicado para a corte constitucional, um delegado da Polícia Federal é o ministro da Justiça. As agressões à democracia deixam cicatrizes. Algumas delas podem ser permanentes.

A democracia está sendo agredida. O agressor é o presidente da República. Ele tem ajudantes militares e civis. O maior risco é não ver o perigo, porque, como nos casos de violência contra a mulher, o fim pode ser a morte.

Alimento da baderna

A mentalidade anarquista do presidente age para destruir e desmoralizar as instituições e banalizar o desrespeito pessoal, funcional e institucional. Isso alimenta o fanatismo e terminará em violência
Santos Cruz,  general ex-ministro do governo Bolsonaro

Manifesto de igrejas evangélicas apoia o movimento 'Fora, Bolsonaro'

As igrejas evangélicas começam a abandonar Bolsonaro, que aposta na morte contra a vida. Mais de 40 movimentos e coletivos dessas igrejas assinaram, segundo o site Brasil 247, um manifesto denominado “Coalizão evangélica contra Bolsonaro”.


O manifesto é todo baseado em demonstrar que a política de Bolsonaro contradiz os textos evangélicos e será lançado em uma transmissão ao vivo da Frente Evangélica pelo Estado de Direito. O documento começa com um duro texto do Evangelho de João (10:10), que diz: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.

Todo o manifesto evidencia que a política de Bolsonaro que valoriza a destruição da vida e esquece os fragilizados e desamparados se opõe diretamente aos valores do cristianismo original, todos eles voltados para salvar vidas e resgatar o que o mundo despreza.

“Na contramão disso”, diz o texto, “vemos o (des)governo do presidente Jair Bolsonaro como um agir maligno, que já permitiu a morte desnecessária de mais de meio milhão de irmãos e irmãs em nosso querido Brasil”.

O texto dos evangélicos afirma, sem rodeios, que “Bolsonaro não esconde suas pretensões autoritárias de implantar novamente uma ditadura, tendo loteado seu Governo com milhares de militares, de quem espera apoio aos seus planos de opressão e poder, destruindo de vez a Constituição Federal de 1988, que promete ‘construir uma sociedade livre, justa e solidária, sem discriminação de raça, sexo, cor, religião ou quaisquer formas de discriminação’”.

O texto dos evangélicos destaca as “inúmeras ameaças de golpe feitas ao país, tanto pelo presidente Jair Bolsonaro como por alguns de seus aliados”, e afirma, com dureza, que Bolsonaro “veio para roubar, matar e destruir” e por isso, diz, “nos colocamos ao lado das inúmeras organizações que se movimentam em defesa do nosso povo e contra os avanços autoritários dos dominadores do poder”.

Uma das afirmações mais graves é quando assevera que Bolsonaro “governa à base de mentiras e manipulando o discurso do Evangelho” e acrescenta que “as vidas dos brasileiros, principalmente dos negros, dos pobres, dos indígenas, das mulheres, dos LGBTQIA+ e dos favelados estão sendo roubadas todos os dias”. Por tudo isso, os evangélicos, diz o manifesto, “em nome da vida e em nome de Jesus, clamamos pelo Fora Bolsonaro!”

O documento termina com uma citação da Bíblia, a de Provérbios 31.8, que diz:

“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”.

É a primeira vez no Brasil que toda uma série de grupos evangélicos levanta sua voz contra os abusos de um Governo e de um presidente que, dizendo-se cristão, age em total desacordo com os ensinamentos dos livros sagrados. Esses evangélicos desmascaram com o manifesto a farsa de um movimento político como o bolsonarismo, que em nome de Deus pisoteia todos os valores essenciais dos ensinamentos de Jesus.

O manifesto deverá ter ressonância não só no Brasil, mas no exterior, onde é acompanhada com interesse e preocupação a involução do movimento das igrejas evangélicas com a conduta genocida e golpista de Bolsonaro. É o início de uma ruptura que deverá ter reflexos nos próximos movimentos da política negacionista e golpista em que o Brasil se precipita, ameaçado a cada dia com um golpe militar que cerceia as liberdades conquistadas com tanto esforço por uma sociedade que apostou na democracia que hoje, como escreveu Jamil Chade neste jornal, “está mais ameaçada do que nunca”.

O fato de 40 grupos de igrejas evangélicas terem aderido ao “Fora, Bolsonaro”, acusando-o de governar contra a vida e a favor da morte e da democracia, é uma novidade importante, pois até agora o evangelismo parecia apoiar maciçamente o bolsonarismo, em clara contradição com os ensinamentos cristãos de que o líder golpista se serviu para atrair votos evangélicos, com o slogan “Deus acima de todos”.

A dissidência evangélica que parece ter tomado o caminho do “Fora, Bolsonaro” poderá ter repercussão nas próximas manifestações nacionais de protesto contra o genocida. Pode ser um precedente para que outras entidades continuem aderindo a esse movimento para arrancar do poder um presidente que se mostra cada vez mais radical em seus afãs autoritários e golpistas enquanto crescem as massas de brasileiros que mergulham na pobreza e até na miséria.

Este despertar das igrejas evangélicas, que começam a ver a contradição de um presidente que se proclama cristão enquanto toda a sua política se baseia em atropelar os ensinamentos da Bíblia, pode ser um germe de oposição capaz de contagiar outros grupos que estão se conscientizando de que o Brasil com Bolsonaro está mergulhando no abismo autoritário do desprezo pela vida e a cada dia se distancia mais dos princípios de democracia e liberdade cunhados na Constituição.
Juan Arias

O cheiro do golpista

Pode não ser verdade, mas é bem provável que seja. O episódio golpista que envolveu o general Braga Netto, ministro da Defesa, tem traços genuínos e cheiro de verdade. Só o “Estadão”, que publicou a matéria em que conta a ameaça às eleições feita pelo general, pode garantir a veracidade da informação. E o jornal não só garantiu como reafirmou sua convicção na correção da matéria. Todos os demais podem afirmar que ela é bem provável, ou muito provável, ou mais do que provável. O general tem sotaque de golpista, cacoete de golpista e é amigo e subordinado do golpista-mor da República. Só por um milagre ele próprio não seria um golpista potencial.

Braga Netto é também subserviente ao presidente de maneira absoluta. Parece um cão de guarda, com a diferença que o militar age por vezes por imitação. O cachorro só se manifesta se ordenado pelo dono. A ameaça do general teria ocorrido depois de inúmeras declarações de Bolsonaro no mesmo sentido. No dia 8 deste mês, o presidente reafirmou que poderia não haver eleição se ela não fosse auditável (que na linguagem golpista significa voto impresso). Bolsonaro falou no cercadinho do Alvorada ao grupo de cegos apoiadores que aplaudem e riem de todas as suas tolices. No mesmo dia, Braga teria mandado alguém avisar o presidente da Câmara que se a eleição não for com voto impresso e auditável não haverá eleição em 2022. Alguma dúvida?

Um acinte. Um abuso. Uma violência típica de generaleco de republiqueta. Pode não ter ocorrido, mas Braga já deu outras demonstrações de seu afeto ao golpismo. Na posse do comandante do Exército, no dia seguinte à sua própria posse na Defesa, o general disse que as Forças Armadas estariam prontas para garantir a manutenção do projeto escolhido nas urnas pelos brasileiros. Seria o mesmo se dissesse que os militares não aceitariam um revés que ameaçasse o mandato de Bolsonaro, o presidente que cometeu mais de 30 crimes de responsabilidade pelos quais poderia ser legalmente afastado. Sob qualquer ângulo que se veja, aquela declaração só poderia ser feita por um general golpista, querendo entrar com o seu coturno pesado num jogo para o qual não foi convidado.


Mais adiante, há duas semanas, publicou nota intimidando o presidente da CPI da Covid. Omar Aziz, para quem não se lembra, disse que a banda podre das Forças Armadas envergonham os bons militares. A nota, assinada por Braga e pelos comandantes militares, afirmou que Exército, Marinha e Aeronáutica “não vão aceitar ataques levianos”. Parecia querer dizer que militar ladrão não incomoda militar honesto, poderia ter acrescentado “somos todos companheiros de farda”. Francamente. Braga Netto terá que se entender ele mesmo com a CPI, afinal era chefe da Casa Civil e coordenador do grupo de combate à Covid quando ocorreram todos os equívocos que vêm sendo relatados na comissão. E que resultaram em milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

O desmentido do general à reportagem do “Estadão” foi solene, mas não definitivo. Ele deveria ter dito o que disse o vice Hamilton Mourão: “É lógico que vai ter eleição (mesmo sem o voto impresso). Quem é que vai impedir eleição no Brasil? Por favor, gente. Nós não somos uma república de banana”. Não, Braga preferiu manter-se general menor e voltou ao velho lenga-lenga de que as Forças Armadas estão “comprometidas com a estabilidade institucional do país e com a manutenção da democracia e da liberdade do povo brasileiro”, embora essas não sejam atribuições conferidas a elas pela Constituição. Até porque, sabe-se lá o que ele entende por liberdade do povo. Em nome dessa liberdade, outros generais já cometeram inúmeras atrocidades registradas pela História.

As armas dos desarmados

O Brasil tem o privilégio de não ter conflito com vizinhos, ou mesmo com países distantes, nem motivações imperialistas. Nosso Exército surgiu para consolidar o território nacional, Com exceção da guerra contra a invasão paraguaia e da heróica participação na defesa da democracia nos campos de batalha da Itália, nossos tanques de guerra, mesmo quando silenciosos, parecem apontar para os centros do poder civil, o Planalto, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal. A história mostra que nossas Forças Armadas se sentem um poder moderador, pronto para intervir diante da corrupção, de desmandos ou do que eles considerem desvios ideológicos dos políticos civis.


Com exceção da Abolição e da República, e da luta contra o fascismo na Europa, nossas Forças Armadas parecem estar sempre do lado das forças civis conservadoras que defendem o status quo contra a distribuição de riquezas e aumento nos direitos dos trabalhadores. Mas saíram delas líderes comunistas como Prestes e Lamarca, além de muitos oficiais, generais, almirantes e brigadeiros, presos, cassados e expulsos em 1964.

Se estes fossem maioria no comando, o poder moderador teria imposto um caminho contrário, como ocorreu em 1889, quando o golpe militar destituiu o imperador e implantou uma república. O problema de dar às Forças Armadas o poder de intervir não é a visão ideológica que seus comandantes têm, porque eles são substituídos e mudam, o problema é que eles já demonstraram que não são opção melhor do que os civis, seus métodos são muito piores do que os democráticos e não permitem correção de erros e rumos.

Entre 1964 e 1985, o Brasil viu que a calma imposta pelos quarteis contra a desordem civil não foi a solução para a construção da nação eficiente, justa e sustentável, caminhando para o progresso. Apesar de que a nossa tem demonstrado incompetência de gestão, preferência pelos ricos e privilégios e irresponsabilidade com recursos públicos, ela é um caminho histórico mais eficiente para acertar e para corrigir erros. Por mais que errem, como nas eleições de 2018, no longo prazo da história, 100 milhões de eleitores acertam mais do que meia dúzia de ditadores, sejam generais ou caciques civis.

Os desarmados acertam mais do que os armados, por argumentarem e aceitarem derrotas. Para os desarmados, perder um argumento é visto como grandeza, apertam a mão do vencedor e continuam em frente. Para o armado, perder um argumento é desonra e ele se sente rendido, não derrotado, e não aceita. Os generais Geisel e Figueiredo tiveram a grandeza de aceitar a perda do poder para os argumentos do frágil poder civil.

Os constituintes que assumiram o poder não souberam desarmar definitivamente as Forças Armadas dentro do território. Abriram mão de arma nuclear que ameaçaria possíveis ou ilusórios inimigos externos, mas deixaram que os tanques dos aviões e de guerra possam apontar para nossas instituições democráticas. Ameaçando interrompê-las sempre que os civis demonstram incompetência e descuidos com a coisa pública.

Muitos continuam acreditando no espírito público dos comandantes, mas este espírito pode ser prisioneiro do imediato e instigado a intervir, salvar a pátria no presente, embora condenando seu futuro. Eles afirmam que a culpa seria dos políticos que não souberam usar a democracia para servir ao país, e em nome de defendê-lo ameaçam a democracia. Por isto, se sentem no direito de ameaçar usando as armas que dispõem para conseguirem o que desejam, sem necessidade de usá-las. Até porque o perigo das armas não está apenas em serem usadas para matar ou assustar a vítima, mas em desmoraliza-la com a simples ameaça de seu uso.

Por isto o poder não deve se submeter a aceitar o uso de armas militares, nem mesmo apenas como chantagem de ameaças de uso delas. Aceitar a ameaça de uso de armas é pior do que ser vítima fatal delas, porque além de perder o rumo da história perde-se a honra e a forças da legalidade estas armas dos desarmados.

sábado, 24 de julho de 2021

A recorrente indústria das eleições no Brasil

Está na hora de redefinir como financiar campanhas eleitorais. O Congresso Nacional turbinou as máquinas da indústria de eleições no Brasil. Passou o Fundo Eleitoral para R$ 5,7 bilhões! E fez a sociedade aumentar sua rejeição aos políticos e a Política. É preciso voltar ao financiamento misto – público e privado – e adotar o sistema eleitoral distrital misto, que torna as campanhas mais baratas.

Há tempo, com a fragmentação partidária e a personalização das campanhas (induzida por nosso sistema eleitoral proporcional uninominal), as eleições viraram uma indústria de votos. No auge do marketing político, tornaram-se também um espetáculo midiático. A proibição do financiamento privado teria a finalidade de estancar a industrialização do espetáculo da democracia. Mas não estancou. Piorou.

O aumento dos Fundos Eleitoral e Partidário; das emendas individuais e de bancadas; e, agora, das emendas do Relator, são vistos pelos brasileiros como um escárnio. Os recursos dos fundos são “protegidos” pela metonímia de que são recursos públicos. Ora, não existe dinheiro público, existe dinheiro dos contribuintes. Aí é que está. Virou um ralo.


Estamos assistindo o fortalecimento do poder das oligarquias partidárias. Suprassumo, no Brasil do Século XXI, da Lei de Ferro das Oligarquias de Robert Michels, formulada para designar a estrutura oligárquica do Partido Social-Democrata alemão no início do Século XX. Ao mesmo tempo, estamos assistindo o esgotamento do nosso sistema eleitoral uninominal, que induz a proliferação de candidatos e a competição entre eles. Há, então, uma disputa ferrenha pelo controle dos recursos dos partidos pelas oligarquias partidárias. Está aí a raiz da indústria das eleições.

O escárnio dos Fundos e as emendas “secretas” escancararam, para a sociedade, a premência de reformas políticas. Não as reformas regressivas – como a do distritão –, que estão em andamento na Câmara. Mas, sim, a agenda da permanência da cláusula de barreira e da proibição de coligações proporcionais. – e, também, da mudança do sistema eleitoral, do regime de governo e da legislação partidária, para vigorar em 2026.

É preciso conter a retomada do avanço da indústria das eleições. E atacar o verdadeiro cerne da questão político-institucional no Brasil: (a) o sistema atual não permite a formação de maiorias estáveis de governo; e (b) não estimula graus razoáveis de representatividade da representação política, isto é, a aproximação entre eleitores e eleitos.

Na trilha de Montesquieu, há que se renovar sempre a qualidade das instituições. Pois as virtudes e vícios do Estado decorrem de deficiências institucionais, muito mais do que de virtudes e vícios dos seus dirigentes e dos cidadãos. A causa maior de nossos problemas está nas regras, e o efeito está nos indivíduos. Até agora, o debate focou apenas o efeito: os indivíduos. É preciso focar a causa: o sistema e suas regras.

Brasil vive momento mais perigoso de sua jovem democracia

Teremos eleições em 2022? A mera existência de uma pergunta como essa em pleno século 21 é um dos sintomas mais dramáticos da ameaça que a democracia brasileira atravessa.

Ao longo dos últimos meses, governo, milícia digital e cúmplices de um movimento autoritário disseminaram dúvidas sobre a legitimidade das urnas no país, contradizendo auditorias nacionais e internacionais. O objetivo nunca foi o de construir um sistema mais sólido.

Mas, assim como toda a estratégia do bolsonarismo, a meta é a de minar a credibilidade e desmontar a confiança popular sobre as instituições.


O projeto não é novo. A extrema-direita no Brasil iniciou os ataques contra a democracia ao colocar opositores, imprensa e sociedade civil como alvos de uma operação de destruição de reputações, além de borrar as fronteiras entre a Justiça e o Executivo.

Para esse grupo no poder, jamais houve um limite sobre o que era possível fazer para justificar a morte — inclusive no cadastro do SUS — de qualquer um que representasse um questionamento.

Ao disseminar mentiras como política pública, as autoridades buscaram retirar qualquer legitimidade dessas vozes.

Não faltaram ainda ofensivas para rever a história do Brasil, transformando o Golpe de 1964 em um ato a ser comemorado.

Enquanto isso ocorria, um avanço claro era feito para fechar qualquer tipo de canal para permitir a influência da sociedade civil na condução das direções do país. Operações para esvaziar a imprensa também passaram a ser recorrentes, com ataques verbais do presidente Jair Bolsonaro, a opacidade sobre decisões de estado, a lentidão de seus serviços de imprensa em dar respostas aos jornalistas e campanhas declaradas apelando à população para considerar a imprensa como inimigos.

Ao longo de dois anos e meio, o resultado foi a redução do espaço cívico, as dúvidas sobre informações apuradas de maneira profissional e a construção deliberada de um cenário de incertezas.

Agora, o palco está montado para uma guerra suja. Irresponsável e nefasto, Bolsonaro deixou de flertar com o autoritarismo. Hoje, ele é o golpe.

Não podemos esperar pelos tanques para agir. Eles talvez nunca virão. Mas a destruição da democracia, por um sistema sofisticado, está em curso.

Em 2022, viveremos a eleição mais importante de nossa jovem democracia. O que estará em jogo não é o destino de um candidato. Mas de uma nação. E, por isso, a luta diária por sua realização se confunde com a própria sobrevivência da liberdade. Não há mais tempo a perder.

Por que não faz sentido celebrar 'placar' de curados da covid

A questão já havia vindo à tona no ano passado, com o Ministério da Saúde — e muitos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro — enaltecendo uma obviedade: que o número de curados de covid-19 é maior do que o número de mortos pela doença. A CPI da Pandemia escancarou essa questão, com governistas exibindo plaquetinhas com o saldo total dos considerados recuperados, enquanto parlamentares da oposição costumam mostrar a quantidade de mortos.

Atualmente, de acordo com dados oficiais, o Brasil se aproxima dos 550 mil mortos em decorrência da epidemia, enquanto curados ultrapassam a marca dos 18 milhões. Em dois momentos recentes, o debate ganhou contornos midiáticos. Em depoimento prestado à CPI, a microbiologista Natalia Pasternak, fundadora do Instituto Questão de Ciência, atentou para o fato de que celebrar os curados é lembrar de uma doença que traz "dor, sofrimento e sequelas".

Na mesma toada, o epidemiologista Pedro Hallal, pesquisador na Universidade Federal de Pelotas, afirmou à CPI que exaltar o número total de recuperados seria algo semelhante a comemorar o gol da seleção brasileira no fatídico jogo em que o Brasil perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, na Copa de 2014.

"O intuito do meu comentário é [frisar] o fato de que existir muitos recuperados é consequência de ter existido muita gente infectada, o que já é má notícia por si só", comenta Hallal à DW Brasil.

Também à comissão parlamentar, a médica Nise Yamaguchi, que ficou conhecida por defender tratamentos sem comprovação científica contra a doença, exaltou que o Brasil "é um dos países que têm mais curados no mundo".

"Naturalmente é muito importante ter esse dado de recuperados, monitorá-lo, até para futuras análises se essas pessoas apresentam algum tipo de sequela após a infecção aguda gerada pelo [coronavírus] Sars-Cov-2", diz a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede Análise Covid-19.

"No entanto, para acompanhar e entender o andamento da pandemia, outros dados como a taxa de crescimento de casos e óbitos diários são mais informativos. Além disso, se temos um grande número de recuperados, é porque tivemos um grande número de pessoas infectadas. E com um grande número de pessoas infectadas, infelizmente vemos também um número intolerável e exacerbado de óbitos pela doença."


Hallal ressalta que estudos já indicam que muitos dos sobreviventes de covid-19 "vão ter sintomas de longa duração persistentes, alguns até com sequelas mais graves". "Esse é um motivo pelo qual comemorar o número de recuperados não faz sentido algum", afirma.

Mas, afinal, o que é estar curado dessa doença ainda tão desconhecida? Pesquisadora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a biomédica Karina Possa Abrahão ressalta que "a ciência ainda está descobrindo os desdobramentos" da covid-19.

"Curar é uma palavra filosoficamente debatida. O que é realmente curar?", reflete. "Se cura é o dia em que não existe mais o vírus Sars-Cov-2 no corpo do indivíduo, podemos dizer que a pessoa está curada em três semanas, embora haja relatos de infecção persistente. Então é um período curto, mas pode ser que a gente venha a entender que a cura seria a cura das sequelas, os danos residuais que afetam o organismo mesmo depois que o vírus foi eliminado pelo corpo."

E é aí que está o xis da questão. Ainda não se sabe com exatidão qual o percentual dos que apresentam problemas a médio e longo prazo, inclusive por se tratar de uma doença nova. Em março, a revista científica Nature Medicine trouxe uma compilação de dados apontando que o percentual de pacientes com sequelas pós-covid gira em torno de 10% a 30%.

O estudo cita fadiga, dor torácica, dificuldades respiratórias, distúrbios cognitivos e dores nas articulações e monitorou casos a partir de três semanas após o diagnóstico de covid-19. Parte dos avaliados apresentou essas sequelas de 4 a 12 semanas depois do diagnóstico; e parte seguiu com elas após as 12 semanas.

Especialistas frisam, contudo, que é preciso cautela ao analisar quaisquer estudos sobre o tema no momento, pelo fato de que em geral o acompanhamento só vem sendo feito com pacientes que chegaram a ser hospitalizados. Ainda não dá para mensurar o impacto futuro da doença naqueles que a desenvolveram de forma leve — e ficaram em casa — ou mesmo nos assintomáticos.

Pesquisadora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a fisioterapeuta Mirelle Saes alerta que o sistema de saúde precisa se preparar para o período pós-epidêmico levando em conta aqueles que seguirão precisando de tratamentos.

"Ainda não se tem conhecimento do tempo de persistência dos sintomas residuais da doença, nem de suas complicações a longo prazo. Algumas pesquisas, que avaliaram a presença de sintomas após um ano de infecção, identificaram sintomas persistentes em até 50% dos investigados", afirma ela, citando que estudos preliminares apontam que 10% daqueles que ficam com sequelas acabam morrendo pelo agravamento do quadro.

Saes diz que já é possível considerar que a covid se apresenta em duas formas: a aguda e a crônica. "Ainda se tem pouco conhecimento sobre a covid longa, a crônica, mas se acredita que seja uma doença multissistêmica, que ocorre após o período de infecção, que pode ser leve ou grave", diz. "Frente a isso, o sistema de saúde deve adotar medidas considerando que o paciente recuperado da infecção ainda pode apresentar a covid em sua forma crônica, com duração longa e incerta, e que exige cuidados contínuos e qualificados."

De fadiga a danos cardíacos, passando por problemas respiratórios, perda de olfato e anormalidades renais e gastrointestinais, são muito variados os quadros que têm surgido no pós-covid. Aqueles que passam um tempo intubados também apresentam dificuldades motoras.

"E já sabemos que em torno de 30% dos casos com sintomas acabam desenvolvendo alguma sequela neurológica por meses, como distúrbios do sono, dores de cabeça, problemas de memória, ansiedade, depressão e dificuldade de concentração", pontua Abrahão. "Há estudos preliminares, ainda não publicados, que mostram que indivíduos que tiveram covid aumentam a expressão de marcadores de prognóstico para o desenvolvimento de doenças como Parkinson e Alzheimer. Precisamos ficar atentos para o futuro."

Diversas iniciativas estão buscando compreender melhor essa situação. É o caso do Estudo Coalização Covid-19 Brasil, uma parceria entre hospitais e o Ministério da Saúde que tem monitorado as sequelas nos que foram ali hospitalizados. A pesquisadora Saes participa de um projeto chamado Sulcovid, que deve acompanhar 4 mil indivíduos pós-infecção — atualmente, estão na primeira etapa, em que os pacientes contraíram o vírus de três a seis meses atrás. Mas a ideia é repetir as entrevistas com 12 e 18 meses.

"Se considerarmos que 18 milhões de pessoas estão livres do vírus [no Brasil], consideradas curadas da fase aguda, e que destes, estima-se que pelo menos 30% apresentam sequelas, estamos falando de 5,4 milhões de pessoas com sintomas residuais da doença", diz a pesquisadora Saes. "Possivelmente, a quantidade é ainda maior, visto que casos leves da doença são subnotificados. O SUS precisará se organizar para acolher essa nova demanda."

"A gente ainda não conhece essa doença por completo”, enfatiza Abrahão. A Organização Mundial de Saúde (OMS) vem demonstrando preocupação com as sequelas da covid-19 desde pelo menos agosto do ano passado.

Abrahão prevê que o mundo sofrerá uma "segunda pandemia" no rescaldo da covid-19. "Vai ser a das doenças mentais, decorrentes não só das sequelas da covid, mas também do período de isolamento social, distanciamento e da crise econômica. Tem uma bomba-relógio para estourar em breve", acredita ela.

A cegueira da governação

Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. 

Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.
Padre António Vieira, "Sermões"

sexta-feira, 23 de julho de 2021

O absurdo observado por Ignácio de Loyola Brandão em 1961 virou o Brasil de 2021

“Não verás país nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão, publicado em 1981, é uma obra-prima da literatura do absurdo, que antecipa em 40 anos o nosso estranhíssimo Brasil enfermo de hoje.

Autores da literatura do absurdo têm o dom de ver nas minúcias da realidade e nas entrelinhas anômalas da vida cotidiana indícios de uma sociedade que, aparentemente, ainda não existe. E parece que não vai existir. Mas que está lá, na invisibilidade enganadora da falsa consciência do real, do que é ainda gestação de relações sociais e de mentalidades. Uma sociedade de contraste com tudo que estamos habituados a considerar uma sociedade “normal”.

Parece fantasia de escritor imaginoso. Cada vez mais, porém, essas obras são verdadeiras etnografias de transformações sociais que levarão a sociedades tão absurdas quanto suas antecipações literárias.

Em seu primeiro livro, “Depois do sol”, Loyola traz à luz de seus contos as revelações da noite da cidade de São Paulo. A noite como o inverso do dia, não apenas como o diferente, a sociedade oculta. Na antropologia brasileira, as realidades invertidas da noite de exu foram estudadas por Marco Aurélio Luz e Georges Lapassade, em “O segredo da macumba”. O que confirma a etnografia subjacente à literatura do absurdo.

O absurdo de “O outro lado do espelho”, de Lewis Carroll, é cada vez mais real. Alice, a personagem do livro, era real, existia e entendia a narrativa nele contida. As histórias de Franz Kafka são o absurdo naturalizado.


Na fábula política do avesso do avesso de “A revolução dos bichos”, de George Orwell, podemos, com facilidade, identificar sociedades que conhecemos, a começar da nossa, naquela conclusão fatídica: no baile de humanos com porcos, “já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

Em “Não verás país nenhum”, Loyola descreve uma estranha São Paulo, progressivamente corroída pelo absurdo de um sistema de dominação e de um modo de vida decorrente, aos quais as personagens se ajustam com pequena estranheza.

Souza, a personagem principal, aos poucos será diluído no emprego que não o emprega. Adelaide, sua mulher, esposa adjetiva e praticamente imaginária, revelará com o tempo que ela é, na verdade, o oposto da mulher pelo marido imaginada. Os habitantes da cidade enferma são realidades irreais, desencontradas consigo mesmas, conformadas no inconformismo meramente residual.

Loyola não pretendeu fazer sociologia, embora haja no livro um fundo de temas sociológicos, do tipo tratado pela sociologia fenomenológica, a que de certo modo analisa as relações sociais a partir do imaginário que lhes dá sentido.

O absurdo descrito no romance, com o tempo, foi se confundindo cada vez mais com a realidade. A invasão da casa-refúgio da classe média, de Souza, é patrocinada por um sobrinho de Adelaide, a esposa que se fora e já não existe. Estranhos passam a nela viver como se fosse sua própria casa. Estavam à vontade no que não era seu, enquanto Souza já não estava à vontade na casa que supunha sua. É o direito de propriedade que se esfuma.

A realidade da classe média vai se desgastando para passar a ser aquilo que era, uma fantasia cruel, um vazio. Uma classe cada vez mais excluída até o ponto de se tornar parte do monturo, do lixo da cidade. Ela se torna uma classe de descartáveis, sem lugar, seres que não são, confinados no nada, desprovida dos valores e privilégios da sociedade de consumo, de suas coisas cada vez mais inúteis como os móveis de apego simbólico levados para o lixão.

Sem objeto, os sociólogos têm sua cota de desfiguração na sociedade que se esvai. A transformação do modo de ser da sociedade do absurdo reduzido a pseudoconceitos. Eles começavam a se esmerar na conceituação sociológica que nada conceitua a não ser a superficialidade de uma sociedade já desprovida de práxis e de protagonismo histórico. A sociedade que é não sendo, a da alienação absoluta.

O absurdo observado por Loyola em 1961 tornar-se-ia a sociedade brasileira de 2021. O Brasil de hoje não é uma surpresa, um acidente, um erro de cálculo. Lentamente, há 60 anos, ele já estava sendo o que é hoje. O poder se tornou um jogo de aparências, um faz de conta, não raro um circo. O povo deixou de ser agente de sua própria história para se tornar espectador passivo e indiferente.

À luz da sociedade cinzenta da atualidade, das incertezas de agora, dos abusos do poder paralelo e oculto, das invisibilidades planejadas que nos manipulam e manipulam nossa própria vida, podemos reler “Não verás país nenhum” como obra de antecipação do Brasil de agora. Ninguém podia imaginar, porém, que a metamorfose ocorreria tão depressa e de maneira tão amplamente perturbadora.

Pensamento do Dia

 


Um Brasil sem futuro

Falta um ano para as eleições presidenciais, e só tem turbulência em volta. Mas, entre disparates golpistas, a Arena renascendo e os generais aloprados, temos outro problema grave. No longo prazo, talvez mais grave. Quem frequenta o circuito dos encontros com pré-candidatos, lê atento os jornais e conversa com políticos de todos os partidos logo percebe o tamanho. Quase nenhum dos principais líderes políticos vive no século XXI. Constroem suas ideologias, à direita ou à esquerda, sobre os alicerces de uma realidade que não mais existe. E isso quer dizer que, como está, não importa que grupo suceda a Bolsonaro. Governará o país sem um diagnóstico da transformação em curso.

Há exceções. Alguns deputados federais e mesmo senadores, um ou outro dirigente partidário, mesmo técnicos e acadêmicos que dão apoio às candidaturas. Mas são exceções e, quase sempre, gente com influência menor nos altos-comandos das legendas.

Isso não tem rigorosamente nada a ver com idade. Joe Biden é um político do tempo da Guerra Fria que já se candidatara à Presidência quando a internet apareceu, já concorrera duas vezes à Casa Branca quando se falou a sério de mudanças climáticas e, quase octogenário, redirecionou o Estado a toda no sentido da era em que vivemos.


Sua visão de EUA se traduz em dois pilares. Uma sociedade e uma economia que sejam digitais e verdes. As frentes para tocar esse projeto, no entanto, são muitas. Uma é dar infraestrutura ao país para que possa crescer nesse caminho. Isso quer dizer redes físicas de banda larga por toda parte. Também quer dizer subsídios, investimentos e incentivos para a conversão de antigos e criação de novos negócios. Mas também é um cuidado pesado com retreinamento de mão de obra. E, principalmente, a compreensão de que, se a operário basta o ensino médio, no século XXI um percentual maior da população precisa ter formação superior. Este é um século em que o PIB está relacionado ao número de cérebros bem-educados. País que não dá universidade a muita gente é país pobre.

Outra perna do trabalho é enfrentar os monopólios do Vale do Silício. Há motivos pontuais — a pandemia de desinformação, que abala democracias e faz morrer gente. Mas, no médio e longo prazos, é mais que isso. Com talentos e recursos financeiros concentrados em poucos grupos fortes demais, como é a natureza dos monopólios, a criação trava, o mercado congela, a inovação desaparece.

Operários em fábricas não voltarão mais. Toda a classe em cima da qual Karl Marx ergueu sua leitura de uma revolução futura deixará de existir. Afinal, “quarta era industrial” é metáfora, não descrição. A Era Industrial acabou. Assim como o tempo do combustível fóssil está terminando — sim, ele resistirá ainda um quê a mais, só que não muito. Bata na porta de uma petroleira, e a moça da recepção logo corrigirá: “Não, aqui somos uma empresa de energia”.

Isso não quer dizer que não exista mais necessidade de esquerda. O digital criou um tipo de precarização de serviços, com Ubers e Rappis, que precisa ser resolvido. Tampouco aponta para a extinção da direita — empresários precisam de mais apoio do que nunca para fazer a transição digital. É um processo complexo, difícil, inevitável — que, no Brasil, não está sendo feito em inúmeros setores. Isso torna o país ainda menos competitivo.

A conta da incompetência de todos os governos passados com educação chegou. Precisaremos resolver a educação pública de qualidade com urgência. Isso e um projeto econômico verde para a Amazônia são as prioridades do próximo Planalto. Só que formar daqui a 20 anos não bastará. Os empresários Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski vêm defendendo um programa de importação de cérebros. Estão certos, e é inevitável.

É o básico para qualquer governo pós-pesadelo.

Liberdade da vacina


Quanto mais pessoas vacinadas, mais livres seremos novamente
Angela Merkel

São todos cúmplices

Não resta espaço para dúvida de que o ministro da Defesa, general Braga Netto, mandou o recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), ameaçando caso o voto impresso não fosse aprovado.

Lira trucou a ameaça e, como o governo Jair Bolsonaro tem DNA golpista, mas é eminentemente composto de pessoas despreparadas e algo covardes, o presidente e seu general recolheram as ameaças, ao menos por ora, e o resultado foi que o PP e o Centrão avançaram algumas casas para tomar conta de tudo — se apossando de novo até de espaços dos militares.

Foi o Centrão que tirou o general Eduardo Pazuello da Saúde. Mantendo Roberto Dias, o assessor que o general e seu sub, o coronel Elcio Franco, não conseguiram demitir.

Agora é de novo um alto expoente do PP, seu presidente, Ciro Nogueira, que faz outro general pegar o quepe. Luiz Ramos, assim como Pazuello, verga a espinha e aceita ir para um ministério de menor importância.

O mesmo faz Paulo Guedes, ao bater continência para o capitão e para a ala política que já comanda a maior parte do Orçamento e aceitar perder um naco de seu “superministério” para acomodar outro demitido de luxo.


Para onde esses arranjos por baixo da mesa levam o Brasil? Para a esculhambação institucional e política a cada dia mais absoluta e para a constatação óbvia de que não temos um governo, mas uma bodega tocada à base de muita fisiologia, nenhum trabalho, zero planejamento e uma única ideia fixa: a reeleição cada vez mais difícil de alguém que nunca poderia presidir qualquer país.

Quem ameaçou, Braga Netto, e o aliado de quem foi ameaçado, Ciro Nogueira, dividirão a mesa às reuniões ministeriais como se nada tivesse acontecido. O resto das autoridades, aquelas a quem sempre cobro neste espaço, seguirão fingindo acreditar nos desmentidos frouxos, sem se dar conta de que, de bravata em bravata, vai-se corroendo a democracia a partir de dentro.

Está claro que Braga Netto não fala em nome do conjunto das Forças Armadas. Mas também resta evidente que a quantidade de golpistas que ousam dizer suas ideias em voz alta é maior hoje no meio militar que em 2018. Isso já é altamente nocivo para o ambiente político e institucional brasileiro. E nos cobrará um preço enorme.

Também é evidente que Lira, Nogueira e os demais “progressistas” — ah, as ironias das siglas partidárias — não vão com Bolsonaro para uma tentativa canhestra de invasão do Congresso, à Trump. Mas também é cristalino quanto ganharam poder e dinheiro do Orçamento, em múltiplas frentes, só para blindar o presidente e tentar ajudá-lo a se livrar da CPI da Covid e a emplacar seus nomes no Senado.

Além dos bilhões das emendas do relator, nome oficial do orçamento secreto cujo tesoureiro é Lira, agora há o fundão multiplicado. Será que Bolsonaro, agora que o PP deixou vazar a ameaça de Braga Netto e que Ciro Nogueira está de mudança para o Planalto, vai mesmo vetar a farra? Ainda mais diante da possibilidade de fusão de PSL, PP e DEM, partido que pode ser seu próprio destino numa cara campanha eleitoral no ano que vem? Difícil de acreditar nisso, hein?

Não espanta que Bolsonaro, diante desse cenário, declare seu amor filial ao Centrão. Nem mesmo surpreende que os militares, tirados por ele da caserna, comecem a demonstrar nostalgia da ditadura.

Mas chama muito a atenção o silêncio covarde dos que se diziam democratas, iam às ruas pedir o fim da corrupção — e agora se calam diante da escalada diária de mortes, ruína social e econômica e autoritarismo.

São industriais, integrantes do mercado, profissionais liberais e outros que apertaram 17 e agora não têm a coragem de admitir que elegeram o pior presidente do Brasil. São tão cúmplices quanto os fardados e o Centrão.

No Brasil, Robin Hood trabalha para os ricos

No país a que chamamos de Brasil, levou-se muito tempo, séculos, para os governantes se preocuparem minimamente com o desenvolvimento de seu próprio povo, particularmente com a maioria pobre e majoritariamente negra. No império, os negros eram proibidos de estudar. Depois da abolição da escravidão, em 1888, a proibição acabou, mas as poucas escolas construídas localizavam-se longe, muito longe, de onde viviam os negros dos grandes centros urbanos _ dificultar a mobilidade foi, aliás, um dos principais expedientes do apartheid sul-africano que tanto chocou o mundo de 1948 a 1991.


Na Ilha de Vera Cruz, o fim da escravidão como fator de acumulação de capital jamais foi aceito pelos “proprietários” de escravos. Barões do café e outros representantes das oligarquias rurais que detinham o poder econômico naquela época exigiram indenização pelo “prejuízo financeiro” imposto a eles pelo imperador Dom Pedro II. Insatisfeitos, ajudaram a acabar com a monarquia m 1889, pouco mais de um ano após a abolição, a fundar, por meio de golpe militar, uma República de araque (porque dominada por duas oligarquias de dois Estados), e a pressionar os presidentes do novo regime a importar mão-de-obra da Europa para embranquecer nossa classe trabalhadora.

Tanto ódio por outro ser humano condenou este país ao fracasso, à construção de uma sociedade profundamente injusta, desigual, racista, violenta com os mais pobres e com a maioria negra, irreconciliável. Um leitor indignado fez certa vez paralelo com os Estados Unidos para contestar a ideia de que o racismo, e não a taxa de juros, a péssima infraestrutura e o sistema tributário caótico, é o maior entrave ao desenvolvimento do Brasil. Ocorre que, nos EUA, os negros representam 12% da população; aqui, 56%, numa contagem subestimada.

Ora, se uma minoria branca e endinheirada não aceita conviver com a maioria negra e pobre, nós temos um problema, Houston. Negros americanos, descendentes como os do Brasil de africanos escravizados, lutam por direitos e igualdade desde sempre e, mesmo assim, foram submetidos a regimes de segregação racial, em alguns Estados, até a década de 1960. A segregação oficial foi banida, políticas afirmativas para tentar igualar oportunidades entre negros e brancos foram adotadas, iniciativas de compensação pelo horror sofrido durante séculos de escravidão e de segregação se tornaram realidade, mas, mesmo assim, a população negra americana continua sendo discriminada de maneira ignominiosa, talvez, pela maioria branca, em todos os setores da sociedade do país mais rico do mundo.

Aqui, a maioria da população, negra, oprimida por quase 400 anos de escravidão “oficial” e por outros 133 de discriminação dissimulada e, portanto, covarde, começou a se beneficiar de políticas afirmativas apenas neste século e restritas ao Estado.

Cotas de 10%, 20%, reservadas ao maior contingente populacional do país, são humilhantes e estão longe de resolver o problema secular que nos assola e nos impede se sermos uma nação.

As consequências do nosso péssimo começo _ não se pode falar nem em “contrato social”, afinal, como bem explica Luiz Guilherme Schymura, presidente do Ibre-FGV, não há contrato quando uma das partes é infinitamente mais beneficiada pelos recursos do Estado do que as outras _ estão aí, na paisagem urbana de nossos centros urbanos, na estagnação econômica que nos assola há 40 anos, na concentração de renda que relega 50 milhões à miséria e a mais de 100 milhões à pobreza e à falta de oportunidades para ascender e ter uma vida razoavelmente digna, na violência que tira a vida de cerca de 60 mil brasileiros todo ano, a maioria de pele negra ou parda. A Constituição de 1988 é, sem dúvida, o maior avanço que este país já teve na conformação de um arcabouço legal que nos permita começar a mudar essa paisagem. Desde então, os gastos sociais cresceram de forma significativa, mas os grandes problemas permanecem intocados.

Um deles é o domínio do orçamento público por interesses de grupos específicos, que curiosamente têm conseguido aumentar suas benesses nas últimas duas décadas, talvez, por saberem que, em algum momento, realizar-se-á em plena Brasília, localizada a mais de mil quilômetros do mar, o último baile da Ilha Fiscal (festa de gala que simbolizou o fim da monarquia, realizada no pequeno palácio, localizado na Baía da Guanabara).

"Não é segredo e tampouco exagero observar que muita gente enriqueceu no Brasil pela via da captura do Estado. Exemplos recentes incluem subsídios do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), desonerações tributárias, gastos tributários e outros. Essa forma de enriquecimento constitui um verdadeiro veneno social”, escreve Arminio Fraga ex-presidente do Banco Central, em seu sucinto e ao mesmo tempo iconoclasta estudo “Estado, Desigualdade e Crescimento no Brasil”.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

A volta dos que não partiram


A democracia brasileira é alvo de uma gravíssima ameaça, agora revelada. Ameaça armada, tentativa de amedrontar pelo terror
Renan Calheiros. senador (MDB-AL)

Militares golpistas em postos-chave têm tentado amedrontar o país

Os sinais de que um grupo de oficiais generais com ideias antidemocráticas se instalou em postos-chave no governo Bolsonaro aumentam a cada dia. É uma sequência de eventos. Só neste mês de julho houve a nota do ministro da Defesa, Braga Netto, com os comandantes militares, no dia sete, ameaçando a CPI, a entrevista do comandante da Aeronáutica, ao GLOBO, no qual o brigadeiro Carlos Almeida ameaçou claramente o Congresso e o país no dia oito. O comandante da Marinha o apoiou nas redes, no mesmo dia. E o presidente Bolsonaro, também no dia 8, afirmou que “ou vai ter eleição auditável ou não vai ter eleição”. 

É nesse contexto que é publicada nesta quinta-feira, 22, pelo "Estadão" a notícia de que o ministro Braga Netto, no mesmo dia 8, acompanhado dos comandantes militares, mandou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira. "A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleições.” Lira teria reagido indo ao próprio presidente para dizer que estaria com ele até o fim, mas que não contasse com ele nos planos de ruptura institucional. A informação das jornalistas Andreza Matais e Vera Rosa sacode o país hoje.

É claro que já preparam as notas de desmentido. O ministro Braga Neto, ao entrar agora de manhã no ministério da Defesa, disse: “é mentira, é invenção”, gritou de longe aos repórteres. Era previsível que diria isso. Mas é típico esse método: primeiro ameaçam, depois negam que o fizeram e repetem que estarão dentro das “quatro linhas da Constituição”. Hoje é o dia de falarem das quatro linhas. O problema é que esse grupo acha que está escrito nas quatro linhas que eles são o poder moderador. Não são. Como todas as instituições estão submetidos à Constituição.

Isso tudo é manobra para amedrontar o país e fazer com que as instituições recuem dando espaço para o bolsonarismo dominar inclusive as Forças Armadas. Há muitos que discordam de tudo isso dentro das Forças Armadas, mas quem está no comando foi colocado lá porque concorda com o projeto de Jair Bolsonaro que nunca foi, e jamais será, democrático. O caminho da venezuelização do Brasil fica mais claro a cada dia.

Só não entende os sinais quem desconhece a História do Brasil. Aqui houve duas longas ditaduras no século 20. A de Vargas foi garantida pelos militares, a outra foi feita pelos próprios militares que governaram o país por 21 anos rasgando a Constituição. É um caminho perigoso para as próprias Forças Armadas que deveriam conter os seus radicais que estão hoje dando o tom dos recados ameaçadores para o país. As instituições não podem subestimar os recados, os sinais, as notas, os tuítes, a tentativa de mais uma vez tutelar o poder civil no país.

O silêncio dos inocentes úteis baixou sobre os bolsonaristas de raiz

Os mais conhecidos devotos do presidente Jair Bolsonaro, aqueles donos de mandatos em Brasília e fora de lá, recolheram-se ao silêncio tão logo ficaram sabendo da troca do general Luiz Eduardo Ramos pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) na chefia da Casa Civil da presidência da República.


Nas redes sociais, entre bolsonaristas dos demais escalões, o silêncio também baixou. Deu-se por conta da perplexidade geral e, naturalmente, de falta de orientação sobre o que poderiam ou deveriam dizer, algo a ser corrigido nas próximas horas ou nos próximos dias. A orientação já está sendo elaborada.

O único devoto com mandato que se arriscou a dizer alguma coisa foi o deputado federal Bibo Nunes (PSL-RS) que, à Folha de São Paulo, dissertou sobre a dinâmica da política, as condições do tempo, a necessidade que Bolsonaro tem de apoio, e sua certeza de que o Centrão não comandará o governo federal.

Os filhos do presidente também emudeceram, até mesmo Eduardo, que na convenção do PSL de 2018, quando seu pai foi lançado candidato a presidente, provocou:

“Eu queria tirar foto de cada um dos senhores aqui, para saber se em 2019, quando o couro comer pra valer, vocês vão se deixar seduzir pelo discurso do Centrão ou se vão se manter firmes e fortes com Bolsonaro”.

A declaração de Eduardo envelheceu. A dicotomia Bolsonaro-Centrão deixou de existir.

Pensamento do Dia

 


O roteirista bêbado

O enredo do governo do presidente Bolsonaro parece ter sido escrito por um roteirista bêbado que, farto de ganhar a vida com trabalhos medíocres, resolveu, no meio do caminho, ter um ataque de sincericídio e reescrever a história como ela é, e não como a encomendaram.

Quando colocou com destaque aquele que seria um dos principais ministros do governo, o general Augusto Heleno, cantando “se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, sabia que era mentira, mas engoliu. Do meio para o fim, contou a verdade, e o senador Ciro Nogueira acabou nomeado ministro-chefe da Casa Civil, o ponto nevrálgico de um governo.

O general desapareceu do mapa, talvez envergonhado pelo papel que desempenhou na campanha presidencial. A Casa Civil, aliás, já era ocupada por um general da reserva, Luiz Eduardo Ramos, que também assumiu o governo para acabar com as negociatas políticas e terminou sendo responsável por elas.

Não devia ser tão flexível quanto a relação com o Centrão exige, pois não seria desembarcado do governo sem a menor complacência por Bolsonaro. Soube pelos jornais que sairia da Casa Civil e sentiu-se “atropelado por um trem”. Mas, como “um manda, e o outro obedece”, deve se satisfazer com uma sobra qualquer no governo.

O ministro Onyx Lorenzoni, depois do vexame que passou na televisão afirmando, dramaticamente, apelando até a Deus, que o documento apresentado pelo deputado Luis Miranda era falso, também não se envergonha de pular de ministério em ministério, desde que mantenha uma aparência de poder. Mesmo que essa aparência já não resista aos fatos.

Já foi ministro da Casa Civil, ministro da Cidadania e ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Agora, recriarão o Ministério do Emprego e Previdência só para ele, uma vingança bolada pelo roteirista bêbado, que havia anunciado no início do governo que seriam apenas 15 ministérios.

Os superministros também se foram. O ex-juiz Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública, foi defenestrado justamente por causa do combate à corrupção que alegadamente o levou ao ministério. O czar da economia, o liberal Paulo Guedes, engole sapos imensos para permanecer no governo. Compreensivo, topa até gastar mais em ano eleitoral, para reeleger seu chefe.

O roteirista está tentando dar o troco, colocando Moro de volta à cena política como possível presidenciável, o nome da terceira via. Mas não sei se conseguirá dar ares de credibilidade a uma mudança tão drástica, que já fez com que Moro fosse considerado “suspeito” por um Supremo Tribunal Federal que muda de posição da noite para o dia e festeja a chegada de um futuro ministro, André Mendonça, que abre processos antidemocráticos contra os adversários do presidente.

A prisão em segunda instância já foi bandeira de Bolsonaro, mas agora ser contra ela virou ponto positivo para o indicado. Essas mudanças já provocaram consequências graves, como a absolvição, soltura ou anulação de vários processos envolvendo políticos apanhados na Lava-Jato, e não sei se o roteirista conseguirá revertê-las a tempo.

Um deles, Ciro Nogueira, já chegou ao topo do governo que iria prendê-lo, e o roteirista imaginou um advogado exibicionista, suposto defensor das liberdades públicas, mas que se especializou em soltar ladrões, dizendo que os vários processos a que Nogueira responde não o impedem de assumir um dos cargos mais importantes da República. Mas aí já seria imaginação demais.

Nem tanto, pois mandar um vice-presidente da República, ainda por cima general, ir a Angola para, como missão oficial, defender a Igreja Universal das acusações de corrupção naquele país é além de qualquer criatividade. Acho que o roteirista quis se vingar e agora está perdido em seu roteiro bêbado.

Até colocar o ex-presidente Lula e o atual presidente Bolsonaro criticando ao mesmo tempo, como se tivessem combinado, a possibilidade de haver uma terceira via para o eleitorado brasileiro, ele colocou. Fica tão óbvio que os dois querem a mesma coisa, um contra o outro no segundo turno, que acho que o roteirista exagerou na dose.