terça-feira, 14 de julho de 2020

O interesse amazônico

Henry Ford estava de bom humor no dia 9 de janeiro de 1928 na inauguração da Exposição Industrial Ford acompanhado pelo filho Edsel e pelo amigo Thomas Edison, em Nova Iorque. Ele comemorava o lançamento do Ford modelo A, que substituiu o famoso modelo T. Na entrevista coletiva, anunciou que havia obtido a concessão da área de 14.568 quilômetros quadrados, tamanho semelhante ao estado do Tennessee, nas margens do rio Tapajós, afluente do Amazonas, a mil quilômetros do oceano Atlântico.

Ali surgiu a Fordlândia.

O interesse estrangeiro pela Amazônia é antigo. Desde que Francisco Orellana, em 1542, desceu o rio a partir de Quito, no Equador, até Belém do Pará, olhos europeus revelaram cobiça por aquela área. Franceses por exemplo manifestaram interesse em tomar o Amapá. Ingleses andaram por toda a região até descobrir o látex, quando encontraram um grupo de índios praticando esporte parecido com o futebol. A novidade era a bola que tinha elasticidade e quicava no solo sem perder sua forma original.

Os ingleses encontraram as mudas da seringueira, que foram contrabandeadas para a Malásia, região com clima tropical semelhante ao amazônico. A borracha asiática exterminou a produção brasileira que proporcionou período de extraordinário crescimento às cidades de Manaus e Belém. Mas, Henry Ford decidiu que ele produziria a borracha para equipar seus carros.

O primeiro ato de sua conquista da Amazônia foi promover um incêndio devastador. Ele precisava abrir espaço para fazer a sua plantação e construir a Fordlândia. Apesar do vultoso investimento, deu tudo errado. Depois da morte de Henry Ford, seu neto Henry Ford II devolveu as terras ao governo do Pará.

Miguel Villalba Sánchez
A floresta constitui uma espécie de desafio a aventureiros de todos os matizes. Ela provê ingredientes importantes para a medicina no mundo, além de animais exóticos, peixes diferentes e culinária sensacional. Sua paisagem é única no ocidente. Não há nada igual. Aos trancos e barrancos ela foi preservada. Nas grandes planícies norte-americanas o homem branco exterminou flora e fauna e acabou com os indígenas. O general Custer dizia que índio bom é índio morto.

Agora a pressão vem de outra forma. O vice-presidente Hamilton Mourão organizou reunião com investidores estrangeiros. Sugeriu que eles financiem projetos na área de meio ambiente no Brasil. Os empresários, no entanto, não se comprometeram a investir e pediram que o governo mostre resultados no combate ao desmatamento da Amazônia.

Entre os projetos apresentados aos investidores estavam alguns financiados por meio do Fundo da Amazônia, o Floresta Mais e o Adote um Parque, pelo qual serão ofertados mais de cem parques nacionais para empresas privadas interessadas em manter e conservar esses espaços.

O governo brasileiro é largamente criticado pela sua política de meio ambiente. Grandes fundos investidores enviaram mensagem a embaixadas brasileiras manifestando preocupação com o avanço do desmatamento na Amazônia. Empresários brasileiros perceberam que estrangeiros ameaçam retaliar produtos brasileiros no exterior por causa da falta de defesa do meio ambiente. O assunto é delicadíssimo. Fazendeiros norte-americanos não hesitam em afirmar que ‘farms here, forest there’. Fazendas aqui, florestas lá. Mais claro impossível.

O vice-presidente da República Hamilton Mourão é o presidente do Conselho Nacional da Amazônia. Ele organizou encontro virtual com dez dos maiores investidores, que possuem cerca de US$4,5 trilhões em caixa. Abriu-se a mesa de negociação. A única medida objetiva foi a promessa de proibir queimadas no período da seca, ou 120 dias, tanto na Amazônia quanto no Pantanal.

As duas partes têm suas razões. Mas, o vice-presidente, que conhece bem a Amazônia precisará de muita habilidade para caminhar neste território. O interesse nacional tem muito dinheiro por trás. Há garimpeiro porque há ouro. E os estrangeiros não defendem a Amazônia só para fotografar jacaré. Há interesse econômico.

A Secretaria de Comunicação Social (Secom) prepara campanha de relações públicas com a agência Hill+Knowlton na Europa para melhorar a imagem do Brasil junto aos veículos de imprensa europeus preocupados com a gestão das políticas de meio ambiente no Brasil. A agência pretende colocar como porta-voz do governo brasileiro o notório ministro Ricardo Salles. Difícil dar certo. No projeto de comunicação há previsão de entrevista do ministro Ernesto Araújo, adversário da globalização. No momento de recuperação da economia brasileira, o risco é enorme. O Brasil não precisa passar por essa pandemia de obscurantismo.

O general Mourão arranjou uma boa briga.
André Gustavo Stumpf

Um sentido para a tragédia

Marco De Angelis
O Brasil chegou a 72.100 mortos por covid-19 no fim de semana passado, de acordo com os dados oficiais. Este morticínio sem precedentes na história recente do País será reduzido a um buraco de dor e indignação na alma nacional se dele a Nação não for capaz de extrair algum sentido e unir todas as suas forças para empreender as mudanças necessárias à melhoria da qualidade de vida de milhões de cidadãos desassistidos e, assim, tornar esta terra um lugar menos hostil para viver com pouco ou quase nenhum dinheiro.

Todos foram atingidos pela pandemia, é fato, mas ela se mostrou particularmente cruel para as camadas mais pobres da sociedade, tanto do ponto de vista sanitário como econômico. Aos milhões de desvalidos cuja renda advém do trabalho informal não foi dado se proteger da exposição ao novo coronavírus por meio do trabalho remoto. Ou mesmo quando empregados formalmente, muitos exercem funções que não permitem o chamado home office. Muito longe disso.

As péssimas condições de habitação dos cerca de 20 milhões de brasileiros que vivem nas favelas País afora nem sequer tornam fisicamente possível a prática do distanciamento social, tão preconizada pelas autoridades sanitárias como forma eficaz de conter o avanço da covid-19. A propósito, em maio o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou relatório mostrando que no ano passado havia no País 5,12 milhões de habitações nos chamados “aglomerados subnormais”, termo técnico para as velhas favelas. O número é 60% maior do que o apurado no Censo de 2010 (3,22 milhões de lares), dando a dimensão de nossa decadência social na última década e, agora, do altíssimo risco sanitário a que estão expostos os que vivem em condições sub-humanas.

Em que pese o inquestionável valor do Sistema Único de Saúde (SUS), sem o qual a história da pandemia de covid-19 no Brasil certamente seria outra, muitíssimo mais sombria, também são os mais pobres que estão sujeitos às limitações de atendimento pelo sistema público de saúde quando adoecem.

A pandemia expôs mazelas intratadas há muitas décadas. Passa da hora de a Nação unir esforços para superá-las. Do contrário, um quadro que hoje já se revela desumano haverá de piorar muito no momento pós-pandemia, quando todos os seus efeitos nocivos serão sentidos em sua inteireza. Um estudo conduzido pela Organização das Nações Unidas (ONU) indica que a pandemia jogará cerca de 15 milhões de brasileiros na pobreza, ou seja, o segmento que vive com uma renda inferior a US$ 5,50 por dia. Na América Latina, alertou o secretário-geral da ONU, António Guterres, serão 45 milhões vivendo nestas condições após a fase mais aguda da pandemia.

A sociedade e as três esferas de governo precisam olhar com muito mais atenção para os milhões de brasileiros que estão alijados da cidadania e da dignidade por falta de meios de sustento. Se parece ser consensual que em muitas localidades já não é possível acabar com a existência das favelas, é mais do que hora de adotar políticas públicas que assegurem a seus moradores as condições que lhes permitam viver com segurança, inclusive segurança patrimonial, por meio da regularização dos títulos de propriedade nesses locais. É imperioso também pensar em soluções urbanísticas para mitigar os riscos à vida nas favelas, não só os riscos relacionados à violência urbana, urgentes, sem dúvida, mas também os relativos às residências com pouca ou nenhuma resistência a intempéries e expostas a toda sorte de ameaças sanitárias.

A Nação precisa encontrar um sentido transformador na pandemia. Em conversa com Luciano Huck, publicada pelo Estado, Thomas Friedman, do New York Times, alertou que “pandemias financeiras e biológicas expõem governos que não estão à altura do desafio”. É responsabilidade de cada cidadão refletir sobre isso.

Pensamento do Dia


Killer parasite, Brady Izquierdo Rodríguez

Gilmar se antecipa à estratégia bolsonarista

O mais recente episódio de confrontação entre os poderes, a ameaça do Ministério da Defesa de representar judicialmente contra Gilmar Mendes, originou-se da estratégia do ministro do Supremo Tribunal Federal de levantar barreiras à escalada com a qual o presidente Jair Bolsonaro busca responsabilizar a Corte, governadores e prefeitos pelos danos à saúde dos brasileiros e à economia do pais.

Já corria 1h30 do debate promovido no sábado à tarde pelo Instituto de Direito Privado (IDP), do qual é sócio, quando o ministro disse que não seria mais possível tolerar o que se passa no Ministério da Saúde: “É péssimo para a imagem das Forças Armadas. O Exército está se associando a este genocídio”.

Gilmar Mendes foi secundado por dois dos palestrantes, o médico Drauzio Varella, que disse que a entrada dos militares no Ministério da Saúde “não honra as Forças Armadas do Brasil”, e pelo ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, para quem a intervenção de militares na Pasta, substituindo todo o corpo técnico, é tão ou mais sério que uma intervenção do governo na Polícia Federal. O general Eduardo Pazuello, que responde pela Pasta desde 15 de maio, com a saída do ex-ministro Nelson Teich, preencheu todo o segundo escalão com nomes egressos das Forças Armadas.

A resposta do Ministério da Defesa veio, por nota, na tarde do domingo. Nesta nota, assinada pela assessoria de comunicação, a Pasta se limita a prestar informações sobre o envolvimento das Forças Armadas no combate à pandemia, como, por exemplo, o contingente de 34 mil militares, maior, como costumam lembrar, do que aquele enviado à Segunda Guerra Mundial.

Nesta segunda, porém, veio uma nota mais dura. Assinada pelo ministro Fernando Azevedo e Silva, além dos três comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, os signatários, nesta segunda nota, se dizem “indignados” pelos comentários do ministro do Supremo: “Trata-se de uma acusação grave, além de infundada, irresponsável e, sobretudo, leviana”.

O texto cita a lei do genocídio (2.889), de 1956, para dizer que se trata de crime “gravíssimo”, no âmbito nacional, como na justiça internacional, o que, “é de pleno conhecimento de um jurista”. A nota conclui pela afirmação de que as Forças Armadas, incluindo a Marinha, o Exército e a Força Aérea, “estão completamente empenhadas justamente em preservar vidas”. E informa que o Ministério da Defesa encaminhará representação ao Procurador-Geral da República para a “adoção das medidas cabíveis”.


O presidente Jair Bolsonaro não se manifestou, mas o vice, Hamilton Mourão, que já subscreveu críticas ao Supremo Tribunal Federal, reagiu com a linguagem do polo, esporte do qual é adepto: “Gilmar Mendes não foi feliz. Ele cruzou a linha da bola. Atribuir essa culpa ao Exército é forçar uma barra”.

Apesar de dura, a resposta da Defesa se destaca por não incluir o comandante-em-chefe ao lado das Forças Armadas, no empenho em preservar vidas, e citar um recurso a um instrumento da democracia (representação judicial), em contraposição às ameaças veladas que o ex-comandante do Exército, Eduardo Villas-Boas, fazia ao Supremo.

Apesar da nota dura, a cúpula das Forças Armadas já havia concluído que uma parte da fatura da pandemia cairia em seu colo. Por isso, a permanência do general Pazuello como ministro-interino desagrada a instituição. Um general próximo ao comandante Edson Leal Pujol diz que o Exército não responde pela decisão do general de aceitar o cargo.

Pazuello está sendo pressionado a tomar o mesmo rumo do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Eduardo Ramos, que gostaria de encerrar sua carreira como comandante militar do Leste, no Rio, mas irá para a reserva antes do que desejava. A transferência deverá ser efetivada até sexta-feria. Restaria ainda Flávio Rocha, almirante quatro estrelas da Marinha, que hoje exerce o cargo de secretário de Assuntos Estratégicos, subordinado diretamente à Presidência da República.

A nota marca ainda uma reaproximação do ministro da Defesa e dos comandantes militares, estremecidos desde que Azevedo e Silva referendou, em nome deles, a participação do presidente em manifestações de apoio em plena pandemia. Desta vez, foram os comandantes que fizeram questão de subscrever a nota em resposta ao ministro do Supremo.

Indagado se Pujol voltaria a receber Gilmar Mendes, como o fez há um mês, um general do gabinete do comandante disse: “O ministro está em Portugal e nós estamos aqui trabalhando pelo povo brasileiro”.

Desde ontem, Azevedo e Silva e o ministro Dias Toffoli, a quem assessorava antes de ir para o governo Bolsonaro, têm discutido uma forma de pacificar a tensão entre Supremo e Forças Armadas, a partir da percepção comum de que Gilmar Mendes exagerou nas tintas.

De Portugal, onde não fez mais declarações, o ministro tem dito a quem o procura para comentar o episódio, que já havia alertado, no plenário do Supremo, sobre a armadilha que Bolsonaro preparara para as Forças Armadas, ao usá-las para um papel, no Ministério da Saúde, que nenhum médico ou profissional que preze por sua reputação, se presta a cumprir.

A opinião foi referendada, no Valor, por Maria Elizabeth Rocha, ministra do Superior Tribunal Militar: “É cômodo para o presidente escolher militares para compor o alto escalão, preenchendo lacunas que, politicamente, talvez ele não conseguisse manejar. São pessoas que nunca vão confrontá-lo, pois ele é o chefe supremo das Forças Armadas”.

Gilmar Mendes tampouco está isolado na sua Corte. O ministro Luis Roberto Barroso já disse que o presidente Jair Bolsonaro, ao povoar o governo de militares, está levando o Brasil a uma “chavização” da política, o seja, transformando o país numa Venezuela de Hugo Chávez.

Desde que chegou a Portugal, Gilmar Mendes tem ficado impressionado com as referências negativas da imprensa europeia ao Brasil. Chegou a comentar que o presidente Jair Bolsonaro não deve pisar na Europa sob o risco de ser notificado pelo Tribunal Penal Internacional.

É na reação a este cerco que o ministro firmou convicção de que Bolsonaro jogará, cada vez mais, sobre o Supremo e os governadores, a responsabilidade pelos crimes da pandemia. Bolsonaro nunca aceitou a decisão da Corte de que a União não podia impor aos Estados as diretrizes para o combate à covid-19, como o uso da cloroquina, uma vez que a Constituição prevê a gestão compartilhada para o Sistema Único de Saúde.

No Supremo não se descarta que governadores que hoje se veem prejudicados por uma distribuição sem critérios técnicos dos recursos da Saúde, venham a interpelar a Corte com uma Ação de Preceito Fundamental, contra o Ministério. Foi sob este fogo cruzado que os militares, pela presença de um general da ativa no comando da Pasta, se colocaram.

Ao acusar os militares de terem se deixado usar pelo presidente no que chamou de “genocídio”, o ministro pagou pra ver o que será a reação fardada quando a acusação for formalizada contra o presidente. Na nota, os militares saem em defesa da corporação mas não estendem a blindagem ao presidente.

Tem método



A estupidez dos políticos brasileiros não é aleatória, não ocorre ao acaso
Leandro Narloch

Com quem as Forças Armadas preferem se associar

Fica combinado assim: este é o governo que mais emprega militares da ativa e da reserva desde o fim da ditadura de 64, mas nem por isso as Forças Armadas o apoiam ou com ele se confundem. As Forças Armadas são uma instituição do Estado.

O fato de serem militares todos os ministros com gabinetes no Palácio do Planalto não quer dizer nada, tampouco que o presidente seja um ex-capitão afastado do Exército por indisciplina, e o vice-presidente um general da reserva.

Há quase 3 mil militares em demais escalões da administração pública federal – só no Ministério da Saúde, comandado por um general de brigada, são mais de 20. Fez-se uma versão branda da reforma da Previdência só para beneficiar os militares. Mas, e daí?


Quer dizer nada. Como nada quer dizer um reajuste salarial que está sendo concedido aos oficiais das três armas no momento em que falta ao governo dinheiro para gastar com a pandemia que já matou quase 73 mil brasileiros e infectou mais de 1,8 milhão.

Por sinal, quando assumiu o Ministério da Saúde como ministro interino, o general Eduardo Pazuello, especialista em logística, herdou 14 mil mortos dos que o antecederam no cargo. Tentou esconder os números sobre mortos e contaminados.

Não se acanhou de regulamentar o uso da cloroquina no tratamento de doentes, embora no resto do mundo a droga tenha sido desprezada porque não serve para a cura do vírus. A remessa de remédios e equipamentos aos Estados também não funcionou.

Do contrário, o coronel, braço direito do general, não teria orientado governadores e secretários de Saúde a irem às compras mesmo pegando preços superfaturados. Aconselhou-os a pagarem o quanto for, denunciando depois os vendedores à justiça.

É por tais razões que as Forças Armadas reagiram com uma dura nota assinada por seus três comandantes, além do general que é ministro da Defesa, à crítica do ministro Gilmar Mendes de que o Exército associou-se ao genocídio do Covid-19.

“Comentários dessa natureza, completamente afastados dos fatos, causam indignação. É uma acusação grave, além de infundada, irresponsável e, sobretudo, leviana. O ataque gratuito a instituições de Estado não fortalece a democracia”, diz a nota.

Gilmar não atacou o Exército. Atacou o governo por associar sua imagem à imagem do Exército na política genocida de combate ao coronavírus. O Ministério da Defesa pedirá à Procuradoria-Geral da República “a adoção de medidas cabíveis” contra Gilmar.

Há poucos meses, os militares se revoltaram com a comparação feita pelo ministro Celso de Mello, colega de Gilmar no Supremo Tribunal Federal, entre o momento que o Brasil atravessa com o momento que antecedeu a ascensão do nazismo na Alemanha.

Se apenas o governo tivesse ficado furioso com a comparação feita por Celso e a crítica feita por Gilmar, seria compreensível. Mas por que as Forças Armadas reagiram tão mal às palavras dos dois ministros se elas nada têm a ver com o governo?

A continuarem a tomar as dores de um governo que não apoiam nem representam, reforçarão as suspeitas de que o apoiam, sim, de que com ele se identificam, e de que essa história de “instituições do Estado”, como está na Constituição, não passa de letra morta.

Hora do toque de retirada

Pode-se criticar o tom do comentário, mas o juiz Gilmar Mendes tem razão na essência da crítica ao envolvimento das Forças Armadas, sobretudo o Exército, na anarquia governamental de Jair Bolsonaro. 

O erro original foi cometido na campanha de 2018, quando o então deputado, ex-capitão paraquedista, informou ao Forte Apache — o QG do Exército em Brasília— sobre o plano de saltar da planície política para o topo do poder no Planalto. 


Um dia, talvez, seja resgatada a memória das conversas e a extensão do respaldo do comando do Exército ao candidato. Sabe-se que nem tudo obedeceu ao protocolo, mas há reconhecimento da eterna gratidão do beneficiário em discurso: “Obrigado, comandante (Eduardo) Villas Bôas. O que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por (eu) estar aqui.” 

O generalato sabe o que fez nas quatro estações eleitorais de 2018 ao abstrair o passado do ex-capitão, preso e processado por anarquia pelo Exército 33 anos antes, por um plano de bombas na Vila Militar, no Rio. 

O projeto era reescrever o passado, a história do regime militar de 1964, numa nova hegemonia fardada, com aumento do orçamento total (de 1,5% para 2% do PIB). Permitiu-se a Bolsonaro enquadrar o governo numa moldura militarista e transformar as Forças Armadas em peças do seu jogo predileto, a confusão institucional. É eloquente a imagem do comício no portão do Forte Apache, com o presidente incitando aliados que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo.

O resultado está na ocupação da Saúde, com laboratórios militares (R$ 520 milhões para produzir 1,2 milhão de doses de cloroquina) engajados na politização de um vírus, moldada para a campanha de reeleição. 

Pode-se ver exagero do juiz Gilmar Mendes ao dizer que “o Exército está se associando a esse genocídio” (o desgoverno na pandemia). Se há crime — no caso, gravíssimo — será revelado em breve. Nada oculta o óbvio: as Forças Armadas se meteram numa confusão institucional com Bolsonaro. É hora do toque de retirada.

Imagem do Brasil derrete no exterior e salienta “crise ética e de falência de gestão” com Bolsonaro

A notícia de que o presidente Jair Bolsonaro contraiu a covid-19 deu a volta ao mundo, repercutindo nos principais veículos internacionais, que ressaltaram o histórico de declarações negacionistas do presidente brasileiro sobre a pandemia do coronavírus. Desde o início da crise sanitária, a cobertura sobre o comportamento de Bolsonaro, que defende que há um alarmismo sobre a pandemia e que o coronavírus é uma “gripezinha”, tem ganhado mais espaço no noticiário internacional e acelerado um desgaste da imagem do Brasil no exterior, segundo um estudo da consultoria Curado & associados.


O levantamento, que analisou as publicações de sete veículos internacionais de diferentes linhas editoriais, mostrou que essa percepção negativa do país piorou do primeiro trimestre para o segundo, e mostra uma “crise ética e de falência de gestão” do Governo. O tema da pandemia foi responsável por 68% do total da cobertura negativa no segundo trimestre, seguido pela cobertura da demissão do ex-ministro de Justiça Sergio Moro (10%) e da devastação da Amazônia (8%). O estudo mostra que a cobertura da gestão brasileira da covid-19 pela imprensa internacional cresceu 146% no segundo trimestre.

“A cobertura da crise sanitária agravou a percepção de um Governo irresponsável, de uma gestão sem liderança, cheio de declarações negacionistas sobre a doença. A notícia sobre o presidente ter testado positivo para o coronavírus, por exemplo, teve ampla cobertura pela forma desrespeitosa em que ele fez o anúncio”, diz Olga Curado sócia-fundadora da consultoria. Após informar que tinha contraído a doença durante entrevista coletiva com jornalistas no Palácio da Alvorada, o presidente tirou a máscara que usava. O mandatário brasileiro também seguiu insistindo que a infecção pelo novo vírus só é perigosa para idosos e pessoas com doenças prévias. Entre os veículos pesquisados estão o francês Le Monde, a revista inglesa The Economist, a alemã Der Spiegel e a edição espanhola do EL PAÍS.

A consultora ressalta, no entanto, que, desde o ano passado, as críticas sobre as políticas ambientais de Bolsonaro também permeiam bastante o noticiário e que vários veículos já projetam os impactos econômicos das ações do Governo. Em 23 de junho, por exemplo, três jornais, The Guardian, The New York Times e The Washington Post fizeram reportagens sobre alertas de “investidores de trilhões de dólares” ao Brasil pelas políticas de “desmantelamento” da Amazônia. Naquele dia, instituições financeiras responsáveis pela gestão de mais de 4 trilhões de dólares enviaram uma carta ao Governo Bolsonaro avisando sobre o risco de retirada de investimentos no país caso não houvesse uma ações mais efetivas para controlar o desmatamento. Depois, o empresariado nacional aumentou o coro sobre o tema com um manifesto semelhante assinado por 38 companhias, entre elas pesos pesados como o Banco Itaú, o maior da América Latina, Santander, e empresas ligadas ao agronegócio, como o braço brasileiro da Cargill.

A pressão dos estrangeiros acendeu um alerta vermelho no Planalto, que marcou uma reunião por videoconferência com representantes dos fundos, na última quinta-feira, 9, comandada pelo vice-presidente Hamilton Mourão, responsável pelo Conselho Nacional da Amazônia. Na sexta, foi a vez de Mourão receber o movimento brasileiro. “Em nenhum momento investidores se comprometeram com investimento, eles querem ver resultados, querem ver a redução de desmatamento”, disse Mourão, após o encontro online com investidores. O vice-presidente brasileiro admite a necessidade de combater ilegalidades na Amazônia, mas defende, assim como Bolsonaro, que há um exagero na percepção sobre destruição da região. “A floresta está em pé, muitos colocam que a floresta está queimando”, disse. Na mesma sexta-feira, 10, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou a maior alta de desmatamento para o mês de junho desde 2015, apesar de uma ação militar, comandada por Mourão, ter entrado na Amazônia em maio para combater o desmatamento.

No início do mês, em discurso na Cúpula do Mercosul, o mandatário brasileiro já tinha reclamado de “visões” no exterior que, segundo o seu entendimento, são “distorcidas” e não refletem o real esforço do Governo, sobretudo em temas como a defesa da região amazônica e o relacionamento com povos indígenas. Num esforço para continuar as negociações do acordo do bloco com a União Europeia, o presidente afirmou que seguirá o diálogo com diferentes interlocutores para desfazer essas opiniões. Segundo fontes diplomáticas europeias consultadas pelo EL PAÍS, se os resultados práticos de redução dos índices de desmatamento não aparecerem rapidamente, há um risco do acordo entres os blocos não sair do papel.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A vergonha no outro mundo

Agora, quem morre não vai ser bonito no mundo dos mortos. O parente pode passar o resto da vida no outro mundo com vergonha
Takumã Kuikuro, indígena da aldeia Ipatse, uma das 109 que acomodam pelo menos 16 etnias no Xingu

Sobre as ofensas de uma classe abastada

Com economia de adjetivos de fazer inveja a Graciliano Ramos, Jane Loureiro, da Vigilância Sanitária carioca, assim respondeu à indagação sobre o teor dos insultos recebidos de gente rompida com o restante da humanidade: “A maneira com a qual se ofende uma mulher”.

Com dignidade sociológica, acrescentou: “Ofensas de uma classe abastada, que a gente acha que tem respeito e educação”.

A ocasião: a reação iracunda de frequentadores de um bar, na Barra da Tijuca — núcleo impávido do bolsonarismo de raiz —, à ação da Vigilância, no zelo das regras mínimas de proteção diante da pandemia. Gente que bem sabe como “se ofende uma mulher”.


Na mesma noite, Flavio Graça, superintendente da mesma Vigilância e no mesmo bairro, viu-se diante de dois exemplares do horror pátrio e pétreo a qualquer fumaça de igualdade: um casal indignado com tratamento dispensado, que envolveu o emprego da palavra “cidadão”.

O apego atávico a marcas de distinção faz do termo uma imposição de rebaixamento. Cada um, afinal, deve ser chamado pelo que o distingue: daí o aceitável uso do termo “elemento” para os tidos por inferiores.

O casal colérico exibiu sua distinção, mas, no dia seguinte, perdeu os empregos. Ao que parece, há lapsos de vigília no sono dos deuses.

A frase de Jane Loureiro dá o que pensar. Em um de seus mais importantes poemas — "A flor e a náusea", de 1945 — Carlos Drummond de Andrade inscreveu o seguinte verso: “Sob a pele das palavras há cifras e códigos”.

Sob a epiderme da frase de Jane não há somente cifras e códigos, mas a exibição do abismo civilizatório no qual nos precipitamos sob o consulado inominável da extrema-direita.

Por certo, a vociferação de impropérios misóginos está inscrita na geologia dos nossos hábitos nacionais. Da mesma forma, lá estão a pequena e medíocre arrogância, a alucinação de superioridade e o direito autoconcedido de tomar satisfação dos discrepantes e inferiores.

O que agora se acrescenta, é que todos possuem um Chefe e um exemplo, algo que lhes dá unidade e direção. Tornam-se, assim, operadores da obra de desconstrução dos filamentos civilizatórios mínimos que, mal ou bem, vínhamos acumulando.

Fascismo? Necropolítica? Autoritarismo? Outro nome? Qual? Dar um nome é supor que há uma forma. E o bolsonarismo não tem forma alguma; não faz sistema; é pura obra de destruição; sequer merece um nome para chamar de seu.

É constituído por práticas díspares, potências de degradação dos ambientes nos quais são engendradas. Obra que exige tanto iniciativas pelo alto quanto ações e comportamentos na base: negar água potável aos indígenas e humilhar fiscais sanitários; ofender uma mulher.

Cada um faz a sua parte: o Chefe e seus alegres acólitos, protagonistas de uma liberdade, enfim conquistada, de causar danos aos demais. E daí?
Renato Lessa

A descoberta da escrita

Tentava escrever e eles surgiam, levando todo o material. Confiscavam e sumiam. Sem satisfações, mas também sem recriminações. Não diziam nada, olhavam e recolhiam o que estava sobre a mesa.

Tentou mudar de casa, não adiantou. Eles chegavam apenas a caneta tocava o papel. Como se aquele toque tivesse a capacidade de emitir um sinal, perceptível somente por eles, como o infra-som para um cachorro. Levaram todos os papéis. E quando ele tentou comprar, as papelarias não venderam sem a requisição oficial. Nenhum tipo de papel, nada. Caderno, cada criança tinha direito a cotas estabelecidas. Desvio de cadernos era punido com degredo perpétuo. Rondou as padarias e descobriu que o pão era embrulhado em plásticos finos, transparentes. E quando quis comprar um jornal, viu que as margens não eram brancas, vazias. Agora, havia nelas um chapado preto, para impedir que se escrevesse ali. Uma noite, altas horas, escreveu nas paredes. E pela manhã descobriu que eles tinham vindo e caiado sobre o escrito. Escreveu novamente. Caiaram, outra vez. Na terceira, derrubaram as paredes. Ele procurava caixas, aproveitar as áreas internas. Eles tinham pensado nisso, antes. As partes internas eram cheias de desenhos, ou com tintas escuras sobre as quais era impossível gravar alguma coisa. Experimentou panos brancos, algodão cru, cores leves como o amarelo, o azul claro. Eles também tinham pensado. As tintas manchavam o pano, borravam, as letras se confundiam.

Eles não proibiam, prendiam ou censuravam. Pacientemente, vigiavam. Controlavam. Dia a dia, minuto, segundos. Impediam que ele escrevesse. Sem dizer nada, simplesmente tomando: objetos, lápis, canetas, cotos de carvão, pincéis, estiletes de madeira, o que ele inventasse.

Dois, cinco, doze anos se passaram. Ele experimentou fabricar papel, clandestinamente, em porões e barracos escondidos no campo. Eles descobriram, arrebentavam as máquinas, destruíam as matérias-primas.

Ele tentou tudo: vidros, madeira, borracha, metais. Percebia, com o passar do tempo, que eles não eram os mesmos. Iam mudando, se revezando. Constantes, sempre incansáveis, silenciosos.

Deixou o tempo correr. Fez que tinha desistido. Só pensava, escrevia dentro da própria cabeça tudo o que tinha. Esperou dois anos, cinco, doze. Quando achou que tinha sido esquecido, colocou o material num carro.

Tomou estradas para o norte, regiões menos povoadas. Cruzou pantanais, sertões, desertos, montanhas. Calor, frio, umidade. Encontrou uma planície imensa, a perder de vista. Onde só havia pedras. Ficou ali. Com martelo e cinzel, começou a escrever. Gravando bem fundo nas pedras imensas os sinais. Ali podia trabalhar, sem parar.

E o cinzel formava, lentamente, as, bês, cês, dês, pês. Traços. Palavras, desenhos.
Ignácio de Loyola Brandão, "O Homem do Furo na Mão e outras histórias"

Pensamento do Dia


Um presidente limitado pelo egocentrismo

Era o Jair Bolsonaro que todos conhecem: nada de humildade. Em vez disso, ostensivamente bem-disposto, ele anunciou para representantes da mídia previamente escolhidos que havia testado positivo para covid-19.

A pergunta central não foi feita por eles: como assim ele próprio anuncia isso, distante apenas alguns palmos dos jornalistas, com os microfones embaixo do seu nariz?

Bolsonaro, como "atleta", pode até não se sentir doente, mas ele, contaminado, é um risco para a saúde de outras pessoas. Mas nem os jornalistas nem Bolsonaro deram importância para isso, o que diz muito sobre o estágio de normalidade da doença no Brasil. E assim Bolsonaro transformou o anúncio de que está com covid-19 num show.

Ainda mais assustador: o presidente disse acreditar que já esteve contaminado bem antes, sem tê-lo percebido. Aqui a pergunta salta aos olhos: se é assim, por que desde o início da pandemia ele se encontra com pessoas nas ruas e em manifestações? Por que ele se reuniu com membros do governo e ministros? Por que foi festejar na embaixada dos EUA? E sempre sem máscara?

A resposta a essas perguntas só pode ser que o Brasil é governado por um homem cuja irresponsabilidade tem traços criminosos. A vida dos outros não lhe interessa, pois Bolsonaro só pensa em Bolsonaro. E não vai ser a contaminação pelo novo coronavírus que vai mudar isso – o que, em outras pessoas, teria despertado algo como empatia pelo sofrimento de outros doentes. Mas, para Bolsonaro, enquanto ele estiver se sentindo bem, isso é a prova de que a covid-19 não é perigosa e de que tudo está bem.

É verdade que a covid-19 não é o fim do mundo. Mas a doença teve e têm graves consequências para muitas pessoas e suas famílias. É fatal que o presidente esteja de novo passando a impressão de que se trata apenas de uma gripezinha, que pode ser curada rapidamente e sem efeitos colaterais, simplesmente tomando hidroxicloroquina (o que é desaconselhado por agências de saúde no mundo inteiro).

Pois o comportamento de Bolsonaro é imitado. Assim como, a partir dele, uma agressividade monstruosa penetrou no debate público brasileiro – palavrões e ameaças viraram algo normal –, é possível acompanhar como os apoiadores de Bolsonaro imitam seu "mito" no cotidiano e ignoram as recomendações das autoridades de saúde ou até mesmo as descumprem com um orgulho idiota. Se apenas a saúde deles estivesse em jogo, tanto faz. Mas se trata também da vida dos outros.

Há regras sociais que todos respeitam. Por exemplo parar no sinal vermelho. Quem não faz isso corre o risco de ser multado. O mesmo deveria valer para as regras durante uma pandemia, por exemplo, que todos acatem o comprovadamente sensato uso de máscaras. Mas não é assim que funciona no Brasil, pois cada cidadão cria suas próprias regras e faz o que acha que é certo. E assim age também o presidente, que nem infectado consegue entender a gravidade da situação.

Bolsonaro é um cidadão, mas é também o chefe de Estado, então é necessário avaliá-lo por outras medidas. Portanto, é errado apenas compadecer-se dele e lhe desejar boa recuperação. A extrema direita brasileira está explodindo de raiva e indignação por causa de um texto de Hélio Schwartsman na Folha de S. Paulo, no qual ele deseja a morte de Bolsonaro para salvar a vida de mais brasileiros.

Mas foi o bolsonarismo que tornou essa retórica normal no Brasil. Na Alemanha há um ditado muito apropriado: So wie man in den Wald hineinruft, so schallt es wieder hinaus ("O grito que se lança na floresta ecoa de novo para fora", com o sentido de "O que se deseja aos outros retorna para nós mesmos").

Por isso, é hora de relembrar algumas frases de Bolsonaro. Em 2015, por exemplo, sobre Dilma Rousseff: "Espero que o mandato dela acabe hoje, infartada ou com câncer, ou de qualquer maneira."

Ou desejando uma guerra civil com as palavras "matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar para fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente."

Na campanha de 2018, Bolsonaro gritou histericamente: "Vamos fuzilar a petralhada."

Salta aos olhos a quantas pessoas ele desejou a morte ao longo da sua carreira política. Foi ele quem tornou normal esse linguajar no Brasil. O famigerado "e daí?!" quando lhe perguntaram sobre os milhares de brasileiros mortos por covid-19 é uma consequência disso.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro é hipersensível. Quando fala do atentado a faca, lágrimas lhe vêm aos olhos. Elas são a expressão de um egocentrismo implacável.

Agora ele faz propaganda descarada da hidroxicloroquina, que supostamente teria lhe ajudado, apesar de não haver nenhuma prova de que ela realmente funciona. Sabe-se, porém, que esse medicamento pode provocar arritmia cardíaca. Se os brasileiros começarem a imitá-lo, poderia se chamar isso de um atentado à população.

A doença de Bolsonaro e a sua reação frívola, quase alegre, mostram como a morte se tornou normal no Brasil – nas estradas, por violência, por doenças.

O presidente não levou a covid-19 a sério desde o início. Agora ele tenta usar o próprio exemplo para mostrar que sempre teve razão. O egocentrismo desse homem violento tomou uma nação inteira como refém.
Philipp Lichterbeck

Cólera e algoritmo

O Facebook jogou Bolsonaro no mar com sua rede de 88 contas.

Ele é o primeiro presidente gestado no mundo virtual. Isso explica muito sua ascensão. Mas explica também as redes sociais.

O Facebook foi pressionado pelos anunciantes. A rede pode se desfazer dos discursos de ódio mais grosseiros. É difícil manter as pessoas presas na coleira eletrônica só para consultar os “likes”, numa incessante busca de reconhecimento.

A verdade, além de ser em certos momentos tediosa, propaga-se muito lentamente. Mark Twain disse: “Uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade leva o mesmo tempo para calçar os sapatos.” Esta citação está no livro “Os engenheiros do caos”, de Giuliano da Empoli. Ele disseca as eleições influenciadas por algoritmos, medo, fake news e teorias da conspiração.

Bolsonaro está na lista. Embora o autor não o compare com os outros, é possível dizer que é menos sofisticado do que o Movimento 5 Estrelas, na Itália, que é controlado diretamente por uma empresa digital, que detém inclusive as senhas dos candidatos eleitos.


Da mesma forma, Bolsonaro não teve os recursos do grupo que conduziu a campanha do Brexit e mergulhou num oceano de informações, produzindo com elas milhões de mensagens pessoais, de acordo com as tendências do destinatário. O Brexit protege a caça para o caçador, defende os animais para o ecologista.

Bolsonaro é apenas um avatar dessa arquitetura caótica. Como os outros, aspira a uma democracia direta, investe contra um sistema, mergulha em todos os temas que possam gerar barulho e rancor, mente e desmente com facilidade e orgulha-se de suas gafes que o identificam com o homem comum.

Poderia escrever muito sobre como se elegeu e como era quase impossível para a política tradicional neutralizá-lo. Ele transitava num universo especial que muitos ignorávamos, ou simplesmente rejeitávamos.

Mas o tempo e o espaço são curtos para descrever a gênese. O importante é saber como nos desfazemos dele. A proposta de uma frente democrática é apenas um verniz institucional. Funciona para acalmar as forças tradicionais, relevando o passado e olhando para a frente.

Mas a verdadeira batalha para combater Bolsonaro tem de ser travada no universo em que ele venceu, com atores e a lógica do mundo digital. Isso significa usar fake news, teorias conspiratórias ou disseminar o ódio? Certamente não. Mas não será fazendo tediosos comícios eletrônicos que vamos romper a barreira. Será necessário usar a criatividade, a irreverência e a alegria, novas formas mais compatíveis com esse mundo revolucionado pela internet.

O livro de Da Empoli conclui sua análise com um trecho do discurso de John Maynard Keynes, após a Primeira Guerra, endereçado a jovens liberais na sua summer school: “Quase toda a sabedoria dos nossos homens de Estado foi erigida sobre pressupostos que eram verdadeiros numa época, ou parcialmente verdadeiros, e que o são cada dia menos. Nós devemos inventar uma sabedoria para uma nova época. E, ao mesmo tempo, se queremos reconstruir algo de bom, vamos precisar parecer heréticos, inoportunos e desobedientes aos olhos dos que nos precederam.”

O autor de “Os engenheiros do caos” afirma que vivemos uma política quântica em que a realidade objetiva não existe. Cada coisa se define provisoriamente em relação a outra coisa, cada observador determina sua própria realidade.

Discordo parcialmente. O exemplo que ele usa como típico da época não me é estranho. É uma frase de Zuckerberg: se nos interessamos pelo esquilo agarrado na árvore mais do que pela fome na África, o algoritmo dará um jeito de nos bombardear com a história de roedores do bairro e eliminar o que se passa do outro lado do mundo.

Aos 18 anos, foi a minha primeira lição de jornalismo no livro de Fraser Bond: “Se morre um cão na nossa rua, isso é mais importante que um terremoto na China.”

Pois bem: comeram um morcego por lá no final de 2019, e o mundo está virado. Ainda há necessidade de conectar o discurso coletivo com o maior número de bolhas.

Segundo Da Empoli, na política quântica não tem mais valor essa frase de Daniel Patrick Moynihan: “Cada um tem direito às próprias opiniões, mas não aos seus próprios fatos.”

Pelo menos alguns fatos deveriam ser propriedade coletiva, para tornar possível a sobrevivência no caos.

O Brasil começa a colocar Bolsonaro de joelhos?

Às vezes, a luz chega antes do amanhecer. Com Bolsonaro o Brasil começou a entrar no túnel escuro das ameaças à democracia. De repente, quase em um passe de mágica, o presidente que era como um novo ditador, esmurrando a cada instante os valores da democracia, zombando dela, parece ter se convertido em um pacífico Francisco de Assis.

Cálculo? Medo? Cansado de ser encurralado dentro e fora do país? Não importa. A verdade é que os presságios que se adensavam sobre a morte da democracia parecem ter se dissipado por um momento. Bolsonaro, pela primeira vez, fala de diálogo, de reconciliação e defende, assustem-se, a democracia.


Ainda não sabemos se essa aparente conversão de Bolsonaro será apenas um parêntese para recuperar forças e voltar à carga com suas armas de morte. Uma coisa é certa. Bolsonaro, neste momento, se viu de repente posto duplamente de joelhos. Pelos militares que parecem ter conseguido refrear seus ímpetos golpistas ameaçando sair do Governo e deixá-lo sozinho, e pela importante pesquisa do Datafolha, segundo a qual 75% dos brasileiros apostam hoje na democracia, enquanto esmagadores 91% consideram a política das fake news, tão queridas, usadas e abusadas pelas hostes de Bolsonaro, como contrárias e ofensivas à democracia.

Revelam também o desejo de derrotar o autoritarismo do presidente os diferentes e importantes movimentos a favor da democracia que, na linha das Diretas Já, estão aparecendo entre pessoas de todas as categorias culturais e sociais. E a isso se une ainda o medo de Bolsonaro dos fantasmas que assombram e ameaçam toda a sua família, desde o assassinato de Marielle até a recente prisão de Queiroz, aquele que guarda tantos segredos que devem estar tirando o seu sono.

Ao que parece, Bolsonaro teria confidenciado recentemente a alguns amigos que estava começando a se cansar de tantas brigas. Não sabemos se se trata de cansaço ou de medo. Dá na mesma. Não acredito realmente em uma conversão de um presidente incapaz de arrependimentos, pois seus delírios de autoritarismo e suas nostalgias de velhas ditaduras e práticas abomináveis de tortura ainda estão vivos nele. O importante é que parece que os astros estão se unindo para deter o braço suicida de suas loucuras de rupturas democráticas e que está pedindo diálogo até mesmo a seu inimigo mortal, o Supremo Tribunal Federal.

Os movimentos de resistência à barbárie e a união de todas as forças democráticas contra obscurantismos políticos, culturais e sociais foram muitas vezes vitoriosos na conturbada história da humanidade. E com todos os horrores e ameaças de hoje à democracia, o mundo está melhor do que ontem. É mentira o dito de que “os tempos passados eram melhores”. Pelo contrário, sempre foram piores do que hoje, embora nos custe admitir isso. Se não, digam o que eram os direitos das mulheres apenas 100 anos atrás. O que era a defesa dos direitos humanos, as guerras que assolavam a Europa, a miséria da maior parte do mundo, a pobreza da medicina e as mortes por fome e desnutrição.

Se o mundo de hoje ainda nos horroriza, é porque perdemos a memória do que foi a história. Isso não justifica a pobreza, a violência nem as violações dos direitos humanos ainda vivos em tantos lugares do mundo. Mas, na sua totalidade, o mundo é hoje, como nos lembram cientistas e sociólogos, mil vezes mais habitável do que no passado.

É verdade que a humanidade sempre caminhou aos tropeções entre luzes e trevas, mas nunca houve uma consciência maior do que hoje em favor das liberdades e dos direitos humanos. Não estamos no céu, mas também não estamos no inferno que um dia foi a Humanidade.

Tomara que o novo pesadelo que vive o Brasil, de ser governado por um presidente com nostalgia de um passado de horrores que queremos esquecer, acabe logo, e que este país possa retomar o caminho de paz que havia conquistado e que era aplaudido pelos países mais avançados. Tomara que os jovens brasileiros que não conheceram a barbárie das ditaduras, que no Brasil são milhões e que hoje apostam na democracia, sejam o novo fermento de esperança contra o obscurantismo em que o país tinha começado a entrar.

Demasiado otimista? Talvez, mas minha idade me permite sonhar para que meus netos possam desfrutar do Brasil que merecem e que ninguém tem o direito de lhes roubar. Deixem-me sonhar uma vez com as estrelas. Vivi quando criança uma terrível guerra civil e depois uma cruel ditadura de 40 anos. Deixem-me sonhar para as crianças e jovens brasileiros o que a vida me negou.

Associação criminosa

O Exército está se associando a esse genocídio
Gilmar Mendes, ministro do STF

O valor da presidência

Como chefe de Estado e de governo, o presidente da República é o eixo central do sistema político brasileiro. Além das atribuições formais das quais está incumbido por força das leis e da Constituição, a ele compete definir os grandes rumos que o País vai tomar durante sua gestão e, com muita habilidade política, coordenar a execução das políticas públicas por seus ministros e dialogar com as diversas forças vivas da Nação – todas, não só as que o elegeram. Sempre, claro, em harmonia com os Poderes Legislativo e Judiciário.

Ainda mais importância tem a figura presidencial durante graves crises como a que ora o País atravessa, a confluência de crises econômica, política e social com a maior emergência sanitária deste século, o que eviscerou mazelas há muito intratadas. Nesta hora grave, aos aspectos formais da liderança se soma o valor intangível do reconhecimento dos cidadãos na plena capacidade de seu presidente para uni-los e liderá-los durante um momento tão difícil.

Desde o início do mandato, o presidente Jair Bolsonaro tem se mostrado muito distante dessas duas dimensões da Presidência da República. Até aqui, parece alheio à sua responsabilidade de governar o País, voltado que está para questões menores que dizem respeito aos grupos setoriais que lhe dão apoio e à família. Um interino segue à frente do Ministério da Saúde há mais de 50 dias, a despeito do fato de o Brasil ser um dos países mais duramente atingidos pela pandemia de covid-19. Nada mais distante de um esboço de governo do que este fato.

 

Para o bem dos brasileiros, o Congresso não tem faltado ao País. Nove em cada dez medidas para enfrentamento da pandemia foram de iniciativa do Poder Legislativo, uma das principais delas a aprovação do pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 aos milhões de trabalhadores informais que de uma hora para outra viram sua renda sumir. Pela proposta do Poder Executivo, convém lembrar, o auxílio seria de apenas R$ 200, um terço do valor aprovado pelos parlamentares. Também foram do Congresso as iniciativas de autorizar a prática da telemedicina como mais uma medida para facilitar o isolamento social e frear a disseminação do novo coronavírus e a destinação de uma ajuda financeira aos Estados e municípios no valor de R$ 60 bilhões.

Como essas, a esmagadora maioria das medidas de combate à pandemia no Brasil é fruto da iniciativa do Congresso, não do Palácio do Planalto. O governo federal só conseguiu aprovar um projeto de lei de sua iniciativa, o que autorizou medidas de isolamento e dispensa de licitações públicas durante a vigência do estado de calamidade pública. O levantamento foi feito pelo Estado.

O presidente Jair Bolsonaro editou 49 medidas provisórias (MPs) no período da pandemia, mas apenas 3 foram avalizadas pelos parlamentares: a MP 931, que concedeu mais prazo para as empresas realizarem suas assembleias ordinárias; a MP 932, que cortou pela metade a contribuição empresarial para manutenção do Sistema S; e a MP 936, que permitiu redução de jornada e salários no setor privado no curso da pandemia – medida que foi prorrogada.

O vácuo de ação do governo federal é corolário do descaso do presidente Bolsonaro pela gravidade da doença desde a primeira hora. Some-se a isto a sua inapetência para governar, o que se pôde observar já nos primeiros meses de mandato. “Na pandemia, (o desgoverno) ficou mais evidente, mas já não era diferente antes”, disse ao Estado o relator do projeto de ajuda financeira aos entes federativos, deputado Pedro Paulo (DEM-RJ).

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), lembrou que até agora o Planalto não enviou à Casa propostas para o Brasil do pós-pandemia, período que será ainda mais desafiador do que a atual fase. Jair Bolsonaro parece fazer uma clara opção por se abster da responsabilidade de governar o Brasil de todos e de lançar as bases do que virá a ser o Brasil do futuro. Ao agir assim, não faz outra coisa a não ser degradar o valor da Presidência.

sábado, 11 de julho de 2020

No Brasil do 'amigo'


Memórias da milícia

Se a longa história da palavra tivesse a duração de uma partida de futebol, só aos 43 minutos do segundo tempo "milícia" ganharia o sentido que inunda o noticiário policial e se infiltra no político.

Ao desembarcar no português do século 14, tinha a acepção que herdara do latim "militia": campanha de guerra, serviço militar. Logo surgiria uma distinção entre miliciano e militar, uma rusga no seio da família do patriarca latino "miles" (soldado).

A distinção era semântica e de classe. Formada por cidadãos informalmente armados, não por profissionais, às vezes nem dinheiro para comprar garruchas a milícia tinha. Ficava bem abaixo dos militares na pirâmide social.

Consta que o sentido de força auxiliar de segurança surgiu no século 17 no francês "milice": "tropa de cidadãos recrutados nas comunidades para reforçar o exército regular". Recrutados por quem?

Pelo Estado, claro. As milícias tiveram na Revolução Francesa e nas guerras de independência do Novo Mundo um viés libertário, mas o Estado sempre deu um jeito de se apropriar de seu ardor.


Preservada em formol, aquela rebeldia original sustenta o direito às armas consagrado na Segunda Emenda à Constituição americana --relíquia do tempo do mosquetão na era do AR-15.

Findos os tumultos de outrora, a história tendeu ao estabelecimento de Estados nacionais garantidores de ordem interna. É verdade que às vezes se dá o oposto, mas desde então, na maioria das ocasiões, o cidadão ocidental médio tem feito escolhas políticas que acredita capazes de lhe garantir paz para tocar a vida sem precisar matar uma mosca.

Assim, domesticadas no século 19 como guardas nacionais e forças auxiliares, as milícias tiveram em diversos países uma carreira oficial, ainda que subalterna. No caso brasileiro, o papel de polícia constava entre suas funções --na manutenção da "ordem pública" e na captura de escravos fugidos, por exemplo.

Quando, em 1918, o sociólogo Max Weber definiu o Estado como o detentor do monopólio da violência, as milícias já vinham sendo descartadas como elementos de política de segurança em todo o mundo.</p>

Transmutaram-se em burocráticas forças policiais, do lado civil, ou foram extintas, do lado militar. Se a Segunda Emenda preserva o espírito miliciano setecentista, seu colega brasileiro do século 19 mora no título do clássico "Memórias de um Sargento de Milícias" (1854), de Manuel Antônio de Almeida.

Órfã do Estado, a milícia voltou no século 20 a velhas zonas de voluntarismo e ilegalidade. Às vezes em sentido figurado, passou a designar grupos de militantes de causas variadas.

Essa é a história geral. A milícia brasileira do século 21 é diferente, específica. Diz o dicionário "Houaiss": "grupo armado de pessoas, geralmente com formação militar, paramilitar ou policial, que atua à margem da lei em algumas comunidades carentes, pretensamente para combater o crime".

O dicionário informa ainda que a acepção surgiu em torno de 2007 (há registro dela dois anos antes em reportagem de "O Globo") e que se trata de um uso carioca (hoje nacionalizado).

Como a diferença faz fronteira com a semelhança, as milícias de hoje ecoam as de antigamente na função de polícia, na opressão aos descendentes daqueles mesmos escravos e no apoio discreto --ou nem tanto-- recebido de um Estado degradado que acha boa ideia abrir franquias daquilo que, como ensinou Weber, é sua própria razão de ser.
Sérgio Rodrigues

E olha o 'amigo' do rei livre


Ladrão de galinha ir para a cadeia e ladrão amigo do rei para prisão domiciliar (leia-se mansão) é sinônimo de impunidade. Infelizmente juízes se utilizam de brechas nas leis para favorecer algunsEduardo Bolsonaro, Dec 18, 2017