domingo, 9 de fevereiro de 2020

Por que gente com cabeça no lugar engrossa a cruzada contra as artes?

Ninguém acusa a ciência de elitismo. A não ser o populista que, no lugar da educação, e apoiado pelas elites econômicas mais oportunistas e inconsequentes, oferece a Terra plana ou o “design inteligente” como solução para a ignorância.

Então, por que gente com a cabeça aparentemente no lugar continua a engrossar a cruzada de demagogos contra as artes? Por que insistem em confundir exceção com “elitismo cultural”? Afinal, o que esperam da arte? Que confirme crenças, gostos, consensos e hegemonias? Que não seja uma forma de reflexão e conhecimento?

Se fosse assim, praticamente nada do que consideramos artisticamente excepcional existiria. Não haveria Herman Melville e o maior romance americano; não haveria Kafka nem Clarice Lispector. Também não haveria Godard, autor da máxima que, apesar de surrada, continua a deitar luz pelo caminho: “A cultura é a regra; a arte é a exceção”.

Ao contrário do que pretende o projeto ideológico bolsonarista (com o apoio de elites ignaras e suicidas), arte não tem nada a ver com ideologia. Tem a ver com a força e a vulnerabilidade da contradição como resistência à criação de consensos. Tem a ver com a produção de diferença, com a exceção como condição de possibilidade do pensamento e da reflexão, na contramão de crenças e sofismas.

Vem daí a urgência de fomentar e proteger, como um bem social de todos (e não de “elites culturais”), a arte que não se vende nem se paga, aquela que não agrada nem serve ao mercado. Isso não significa que ela seja necessariamente boa ou ruim, apenas que a arte que serve ao mercado não precisa da proteção do Estado. Como podem explicar os economistas liberais, ela se autorregula.

Ao contrário das aparências mais rasteiras, a Terra não é plana. É difícil para quem nunca tirou os pés do chão contrariar suas impressões diárias e imediatas. Mas será essa dificuldade justificativa suficiente para se contentar com o conforto do erro (e suas consequências)?

Num dos seus textos mais misteriosos (“O Ovo e a Galinha”), Clarice Lispector escreve sobre a impossibilidade de ver o ovo pela primeira vez. Só vê o ovo, e o entende, quem já o viu, e isso já não é entender, é reproduzir o erro, a inércia ou a “naturalidade” de uma função irrefletida. Como é que se vê o ovo pela primeira vez? É com essa dificuldade que lida a arte de verdade ou de exceção. Ela não quer ser representação de consensos nem ilustração do que queremos ver. Ela não é confirmação de nada.

Nem crença nem função, nem ideologia nem moral, essa arte encara a dúvida, a contradição e o desconforto de não entender, como condição fundamental do próprio conhecimento, da descoberta e da ampliação do entendimento do mundo.

Sem dúvida e sem contradição não há conhecimento. Mas dúvida e contradição não costumam produzir prazer —pelo menos não à primeira vista. Nada nelas é natural e confortável. E por isso precisam ser fomentadas e defendidas. Não porque correspondam ao que queremos crer, mas justo pelo contrário, porque nos confrontam com a diferença, com o outro, o que não tem nome, com o que nos causa repulsa, o que não podemos ver em nós.

Quando Bolsonaro diz que “cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós”, não está apenas exprimindo um racismo abjeto mas também, na sua miséria intelectual, o projeto suicida de erradicação da diversidade cultural.

Homogeneização e extinção —autoextermínio, para surpresa dos “agentes homogeneizadores”— costumam andar de mãos dadas. A natureza é inequívoca: a sobrevivência das espécies está ligada à diversidade. A monocultura empobrece o solo. Um corpo sem anticorpos não sobrevive fora de bolhas estéreis.

Poeta e cineasta excepcional, Pier Paolo Pasolini também foi um combativo adversário do fascismo, em especial daquele que se manifesta onde menos se espera, com outros nomes. Em sua última entrevista, horas antes de ser assassinado, Pasolini falava do perigo de um sistema cultural e educacional consumista, capaz de fazer todo mundo desejar as mesmas coisas, e assim matar o desejo.

O maior desafio da cultura é fomentar o outro, a exceção. E é esse o paradoxo de um projeto ideológico uniformizador como o do bolsonarismo, não só para a cultura mas para o país. Combater o outro (na educação, na ciência e nas artes) é estrangular-se. É criar um país fraco, vulnerável, monotemático, infértil, para corresponder à miséria do pensamento do seu líder. É esse, aliás, o projeto ao qual os fascismos estão condenados inadvertidamente. Mas é isso o que desejamos para nós?
Bernardo Carvalho

Weintraub é ministro só dele mesmo

O bolsonarismo não inova ao reservar no governo espaços para especialistas e delimitar áreas destinadas a quem trata de forma direta da execução de projetos relacionados a objetivos políticos e ideológicos do grupo no poder. O Ministério da Economia, de Paulo Guedes, por exemplo, enfrenta questões objetivas. Por exemplo, das reformas, em que estão em jogo pontos fundamentais relacionados à estabilidade econômica, ao crescimento e à geração de empregos.

Bolsonaro e filhos, porém, reservaram temerariamente cargos importantes também para ideólogos orgânicos da extrema direita. Entre eles, o economista e professor Abraham Weintraub, o segundo ministro da Educação do governo, substituto de Ricardo Vélez, de perfil semelhante. Um sério erro. Weintraub tem se destacado pela absoluta incompreensão da importância do cargo. Dedica-se a travar a chamada “guerra cultural”, um tipo de briga de rua no mundo virtual.


Os erros crassos de ortografia de Weintraub são menos graves do que a sua incapacidade de administrar o MEC num momento em que o Brasil precisa acelerar projetos para impulsionar a educação, quando persiste grande evasão no ensino médio, existe um contingente preocupante de analfabetos funcionais, e os cuidados com a primeira infância, cruciais para uma boa formação, continuam sendo negligenciados.

Os problemas que se repetem no Enem foram enfrentados de forma canhestra, e restou um forte golpe na já debilitada confiabilidade no exame, a única porta de entrada de milhões de jovens para o ensino superior. Além de gerenciar o reparo do Enem, por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), ligado ao MEC, o ministro precisa cuidar da implementação do currículo único (a partir da Base Nacional Comum Curricular) e da reforma do ensino médio, aprovada no Congresso, e da qual nada se fala no MEC de Weintraub. E é preciso encaminhar proposta ao Congresso da renovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que vence este ano. É a única fonte de recursos para a grande maioria das secretarias de Educação de estados e municípios.

Especialistas dizem que o MEC tem de ser um polo de aglutinação técnica e política, para fazer um trabalho amplo e constante de estimulação junto a governadores e prefeitos, cujos secretários e professores são os responsáveis por melhorar o ensino em cada sala de aula. Este é um papel estratégico do MEC.

Weintraub não consegue exercê-lo. Não procura dialogar. É apenas um militante de causas extremadas. Não tem perfil para o cargo. Não pode transitar na Câmara dos Deputados, devido à compreensível repulsa do presidente da Casa, Rodrigo Maia, e não apenas deste: acaba de chegar ao STF pedido de impeachment do ministro encaminhado por deputados e senadores. Não transita no meio universitário, nem tem diálogo com a comunidade de especialistas no setor, está isolado no MEC, bajulado apenas pelo presidente Bolsonaro e filhos. Weintraub é só ministro dele mesmo. O MEC está à deriva, e a educação também.

É isto um homem?

O que acontece a essa gente que no meio de uma pandemia só se preocupa com as cotações da Bolsa? Essa gente que mesmo no meio da miséria mais desmoralizante ainda pensa que seu catre é melhor que o catre alheio? Que raio de humanidade é essa que não sente, não vê, não ouve, senão o que lhe chega ao pé da porta, o que lhe fisga o nervo, o que lhe quebra o osso, o que lhe subtraem do próprio bolso? Pertence de fato à espécie humana essa gente armada até os dentes, que não enxerga o outro a não ser como um alvo? Que tipo de gente é essa que se fotografa sobre o lombo de um cadáver como um prêmio angariado, que chama de esporte a uma matança, de erro a um estupro, de incidente a duzentos e cinquenta assassinatos? Que espécie é essa imune a toda lei, toda Constituição, toda justiça, a quem é dado o poder de matar, e, não lhe fosse dado, tomaria à força e assim igualmente mataria? Que bicho maldito é esse que não se reconhece bicho, mas se regozija em ser maldito, em nada se importando, quem sabe mesmo se divertindo, se o que lhe sai da boca é crime, e o que lhe sai das mãos, mais crime, de que elemento é feito isto que empesteia a terra e o ar e água por onde passa, que desgraça uma floresta, que arrasa uma cidade, que tipo de ser é este, afinal? É isto um homem?
Mariana Ianelli

Pensamento do Dia


Treinamento para naufrágio

A Humanidade não desaparecerá com uma explosão, mas com um suspiro, vaticinou T. S. Eliot num dos seus poemas mais conhecidos. Penso naqueles versos sempre que surgem notícias de um novo vírus assassino. 

Não creio, contudo, que o anunciado apocalipse silencioso venha a ter como protagonista a nova estirpe de coronavírus, detectada na cidade chinesa de Wuhan nos últimos dias de 2019. 

O surto revelou o melhor e o pior do regime chinês. A burocracia enferrujada do aparelho de Estado atrasou a resposta à epidemia, enquanto o pensamento totalitário dominante no Partido Comunista explica a tentativa inicial de ocultação da mesma. Durante dias, as redes sociais chinesas registraram reclamações de populares enfurecidos com o seu próprio governo, algo muito raro, desde logo porque a internet é vigiada e controlada pelas forças repressivas do regime.

Logo a seguir, porém, os chineses deram um show de organização, disciplina e capacidade de mobilização, isolando grandes cidades, controlando o pânico, e construindo um enorme hospital em apenas dez dias. Nenhum outro país conseguiria algo semelhante. O diretor da Organização Mundial de Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, elogiou as autoridades chinesas, afirmando que as medidas adotadas para combater o vírus em seu epicentro são a melhor maneira de impedir a disseminação daquele. 

Suprema ironia, a principal ameaça à sobrevivência da Humanidade — para além da própria Humanidade — é representada por entidades invisíveis aos nossos olhos e tão rudimentares que ainda hoje se discute a sua natureza: são ou não seres vivos?


Em criança fiz várias viagens de navio, intercontinentais. Lembro-me das sessões de treinamento para um eventual naufrágio. A buzina tocava e todos os passageiros se reuniam no convés. O mais importante, diziam-nos, era controlar o pânico, manter a disciplina, obedecer às instruções da tripulação, e ajudar quem mais precisasse. 

A gripe comum mata mais de 600 mil pessoas todos os anos. A nova estirpe do coronavírus detetada em Wuhan matou até agora perto de 500 pessoas. Não será o apocalipse, mas é certamente um alerta, a buzina chamando os passageiros para o convés do navio. Temos de estar preparados para quando o naufrágio acontecer. Sabemos o que é necessário: rapidez de resposta, transparência, partilha de conhecimentos, colaboração entre todos os países e instituições de pesquisa, calma, organização e disciplina. 

A possibilidade de aparecimento de vírus perigosos aumenta todos os dias, devido à movimentação cada vez mais rápida de cada vez mais gente, ao crescimento das grandes cidades, à destruição de ecossistemas ou ao aquecimento global. Então, sim, acontecerá. Mais dia menos dia, o navio irá naufragar. Sobreviveremos se soubermos aprender com as lições do presente, o que inclui vencer não apenas o coronavírus, mas também a xenofobia que lhe está associada. 

A menos que um simples vírus seja, afinal, mais inteligente do que nós.
José Eduardo Agualusa

Acabou de recomeçar

O monstro finalmente derrotado começava a dar lugar à monstruosidade dos vencedores
Antonio Tabucchi, "Tristano morre"

Bolsonaro confirma sentença de morte da Amazônia

Em um só documento, Jair Bolsonaro confirmou as acusações estrangeiras e brasileiras aos seus propósitos destrutivos para a Amazônia, atestou serem mentirosas afirmações suas na Mensagem ao Congresso sobre 2019-2020, e expôs o país a graves reações internacionais.

Tudo isso em uma sentença de morte da Amazônia sob a forma de projeto mandado ao Congresso: a abertura da região, inclusive das reservas indígenas e dos parques nacionais, a toda exploração empresarial.

O desmatamento amazônico, preocupação de numerosos países e de cientistas das alterações climáticas, é incentivado sob disfarce no projeto. A oferta da área florestal à pecuária, explicitada no texto, pressupõe o desmatamento preliminar para a formação de pastos.

E em imensas extensões, porque a criação de gado com lucratividade em escala empresarial, ali, recomenda grandes rebanhos, dado o oneroso transporte aos distantes centros de distribuição e exportação.


A abertura das reservas indígenas à exploração empresarial, por sua vez, encobre o transtorno total das relações do Estado com a população indígena. E das políticas indigenistas mais ou menos equivalentes em todos os governos pós-ditadura militar, exceto o atual.

Os indígenas perdem o domínio das terras que lhes são reconhecidas, e do próprio ambiente: seu único direito de contestar a exploração, diz o projeto, incide sobre o garimpo primitivo. Para o mais, devem satisfazer-se com a retribuição financeira admitida pelo empreendimento.

Isso é de uma radicalidade feroz como poucas vezes terá sido, se alguma vez o foi, em disposição de governo. Daí não se pode esperar senão um processo ainda mais celerado e acelerado de extirpação da cultura indígena. E de vidas que a têm sustentado, apesar da pressão de convívios forçados e dissolutos.

Esse projeto pode explicar uma das motivações básicas da ligação de velhos militares a Bolsonaro, exibida desde a campanha eleitoral pelo general Villas Bôas, então comandante do Exército e hoje conselheiro do governo.

Na primeira década da ditadura, anos 1970, a questão indígena recebeu relevância nas Forças Armadas e, por indução delas, na imprensa. De elaborações simplistas, surgira o delírio de que estrangeiros — sobretudo os Estados Unidos — ambicionavam apossar-se da Amazônia, e a maneira de evitá-lo seria difundir a ocupação econômica da região.

Uma fantasia precursora da ministra Damares Alves, pois acaba-se com a riqueza florestal da Amazônia e sua importância para o mundo, e ninguém mais desejará possuí-la. A teoria ainda prevalece. E cumpre mais um papel.

Por décadas, a obsessão foi a guerra com a Argentina. Uma das promoções do general Amaury Kruel, contei aqui há muitos anos, foi pelo plano de Estado-Maior por ele feito para o caso dessa guerra. O Rio Grande do Sul tornou-se uma concentração de recursos do Exército e da FAB por causa da obsessão.

O primeiro porta-aviões, Minas Gerais, ruína inglesa que acabou custando uma loucura monetária, foi comprado porque a Argentina tinha o seu. Com o presente, Juscelino apagou a ira golpista na Marinha. Com as crises econômicas, a Argentina perdeu a posição onírica para a Amazônia.

Outro indicador da origem e da impulsão atual do projeto anti-Amazônia: é claro que não foi ocasional a simultaneidade entre a proposta mandada ao Congresso e o vazamento de um alegado estudo contra intenções hostis da França para a Amazônia.

Estão vendo? Precisamos ocupar a nossa Amazônia — e, quem sabe, talvez também a de vizinhos — antes que algum aventureiro o faça, como já disse nossa pobre história. Mas não se pode dizer que o “estudo militar” seja medíocre: não passa de idiota.

Também dos últimos dias, a Mensagem ao Congresso é uma combinação de mentiras e cinismo. Entre elas, a dedicação do governo à sustentabilidade ambiental. Ao que me consta, jamais um governo ousou propor um projeto tão obstinado e minucioso contra o meio ambiente, a vida como criação da natureza e o conjunto do país. Nenhuma reação internacional, seja onde e qual for, será desproporcional ou surpreendente.

Por que os poderes religiosos e políticos temem tanto a sexualidade?

No Brasil, enquanto o presidente Bolsonaro mistura em seus discursos Deus, sexo e poder, sua ministra da Mulher, Damares Alves, clama a favor da castidade dos jovens. Por que será que o poder religioso e o poder político temem tanto o exercício livre da sexualidade? De acordo com antropólogos e psicólogos se deve ao fato de que ninguém é mais difícil de dominar pelo poder do que uma mulher e um homem felizes. E é a sexualidade, exercida sem tabus e medo, uma das maiores fontes de felicidade.

Enquanto os deuses antigos do paganismo eram mais liberais com sexo, a partir da chegada do monoteísmo e concretamente do cristianismo influenciado por Paulo de Tarso, o exercício da sexualidade com sua força de libertação, começou a ser considerada como pecado e a mulher como a tentação do homem. Para isso foi retomado o mito de Eva, que tentou o homem fazendo-o desobedecer a Deus.

Desde então, as igrejas cristãs relegaram a mulher como perigosa ao homem e foi até afastada dos mistérios do culto dos quais os homens se apossaram. Elas foram relegadas da hierarquia da Igreja. E na vida, como sentenciou São Paulo, “submetida em tudo ao homem”, até no exercício da sexualidade.


Todos os poderes, do religioso ao político, à medida em que se tornavam mais autoritários e ditatoriais, foram alérgicos a uma sexualidade vivida em liberdade. No mundo político essa tentação de controlar a sexualidade das pessoas foi um pecado que tentou a direita e a esquerda, assim como o preconceito para que a mulher chegasse ao poder.

Lembro aqui no Brasil, quando Lula designou como candidata a sua sucessão sua ministra Dilma Rousseff, respondeu a um amigo que lhe perguntou por que havia escolhido uma mulher: “Porque ela é mais homem do que nós dois juntos”. No outro extremo, hoje Bolsonaro, além de seu pouco apreço pela mulher e o feminino, está usando em seus discursos e conversas uma linguagem que degrada a sexualidade. Do famoso vídeo com a cena do golden shower, do Carnaval passado, a suas já famosas comparações da política com relacionamentos, está banalizando a força que o sexo exerce na vida humana. E, ao mesmo tempo, adere às consignas de sua ministra, a pastora evangélica Damares, que advoga pelo exercício da castidade entre as jovens para não ficarem grávidas antes da maturidade.

Se a Igreja já tentou legislar até sobre a posição em que os casais deveriam fazer sexo somente para procriar, e chamou de “partes sujas” os órgãos da reprodução, hoje a presidência de Bolsonaro nos acostumou a fazer chacota sobre o assunto, como a de comparar suas relações com o Congresso com dois casados que às vezes não se entendem, mas que “acabam dormindo juntos sob os mesmo lençóis”. E sua maneira de tratar a nomeação da secretária da Cultura, a atriz Regina Duarte, como sua “namorada” e a de dizer que como “o ato ainda não foi consumado”, ainda pode deixá-la fora do poder.

Os maiores tiranos da história tiveram medo do sexo e o ridicularizaram, talvez para exorcizá-lo. Lembro quando o general e ditador Franco decidiu que as mulheres não podiam ir à praia de biquíni, já que isso atentava contra a moralidade. Imediatamente surgiram as piadas e ironias. Um guarda civil se aproximou de uma jovem estrangeira que tomava sol em uma praia e lhe disse: “Senhorita, você não pode ficar aqui com um maiô de duas peças”. E a jovem lhe respondeu com humor: “Então, seu guarda, me diga se prefere que eu tire a parte de cima ou a de baixo”.

A Igreja também sempre teve medo da mulher, a eterna tentadora, e de seus seios. Lembro que em uma viagem do papa Paulo VI a Uganda, na África negra, ao aterrissar o avião o religioso era esperado por um grupo de jovens mulheres para fazer uma dança ritual em sua homenagem. Na África as mulheres costumam andar com os seios descobertos com toda a naturalidade, mas os organizadores da viagem papal pensaram que não era de bom tom aquelas jovens se apresentarem ao Papa com os seios descobertos e as obrigaram a colocar um sutiã. Quando os fotógrafos se aproximavam elas cobriam com as mãos, envergonhadas, não os seios e sim os sutiãs.

Esse problema não resolvido do poder com o sexo se deve a que não existe nada mais machista do que ele. E essa é uma das grandes batalhas da libertação da mulher realizada nesse momento no mundo. A mulher sabe que só adquirirá o papel que lhe pertence na sociedade da mesma forma que o homem quando o sexo deixar de ser um tabu e ela deixar de ser vista como objeto de tentação e pecado. Nada dá mais medo hoje aos poderes políticos e religiosos do que esse movimento de libertação dos gêneros. Que a sexualidade é livre como o ar e o sol e ninguém, nem o poder religioso e o civil têm direitos sobre tal liberdade. Os tabus sobre o sexo foram e continuam sendo criados pelo poder masculino para submeter a mulher e os que ousarem fazer uso da liberdade de gênero no exercício da sexualidade.

Exigir no século XXI que as jovens brasileiras abracem a castidade por medo de ficar grávidas antes do tempo é ignorar que a fisiologia e a natureza fizeram com que a mulher muito jovem já possa procriar para assegurar-se o direito à prole e que hoje, no pior dos casos, existem substitutivos à castidade para evitar gravidezes não desejadas.

Um teólogo da libertação colombiano me disse uma vez que é curioso que a Igreja tenha criado o dogma da Imaculada Conceição para exaltar a castidade já que, dessa forma, a virgem Maria pôde ficar grávida e ter Jesus por obra e graça do Espírito Santo sem precisar fazer sexo. E me dizia: “Não há maior desprezo pelo exercício da sexualidade, uma das forças motoras da Humanidade sem a qual nenhum de nós existiria começando pelos Papas”.

Esse medo ancestral das igrejas à sexualidade também explica o sacerdócio celibatário obrigatório e as pressões contra o papa Francisco, o menos machista dos Papas da idade moderna, que não só começou a abrir no Sínodo sobre a Amazônia a possibilidade de padres casados, como chegou a dizer que a Igreja precisava com urgência de uma “nova teologia da mulher”, que seria o último grande tabu da Igreja, como o é seu afastamento da hierarquia.

A guerra contra Francisco já está aberta. Das insinuações a que talvez esteja com câncer de cérebro a que traiu o papado por não querer se chamar Papa. Como os primeiros cristãos, de fato, preferiu desde o primeiro dia se chamar simplesmente “bispo de Roma” e até renunciou aos palácios vaticanos para morar no quarto de uma simples pensão para padres. Francisco é o primeiro Papa que não só não vê a mulher como inimiga e tentadora e o sexo como pecado, como acredita serem imprescindíveis para que a Igreja não fique fora da História.

Pode existir heresia maior?

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Pensamento do Dia


Pandemía do arbítrio representa ameaça maior que o agente biológico do coronavírus

A China isolou uma dúzia de metrópoles, 30 ou 40 milhões de habitantes, da província de Hubei. As “medidas extraordinárias diante de um desafio extraordinário”, na descrição elogiosa da Organização Mundial da Saúde (OMS), seriam política e legalmente impossíveis em nações democráticas.

Os EUA proibiram a entrada de estrangeiros que passaram recentemente pela China —e receberam (justas) críticas do regime chinês e da OMS.

Um vírus novo, misterioso, ameaçador entrou na circulação sanguínea de uma tirania totalitária e de um governo xenófobo. A pandemia do arbítrio representa ameaça maior que o agente biológico da doença.

Conceitualmente, o gesto americano não se distingue da “medida extraordinária” chinesa. Se Xi Jinping colocou em quarentena uma província inteira, por que Donald Trump não teria razão ao impor quarentena a um país inteiro? A OMS, que cumpre funções úteis, é um órgão político. Sua glorificação do confinamento compulsório em massa reflete o objetivo de, finalmente, ser admitida como parceira do regime chinês.

Até o momento, o coronavírus provocou menos de mil óbitos, quase todos na China. Segundo estimativas do Centro de Controle de Doenças dos EUA, 8.400 americanos morreram de influenza sazonal só na metade inicial deste inverno. A taxa de letalidade da epidemia de Sars (2002-2003) foi de 9,6%.

Na atual epidemia, estimativas iniciais apontam 2%, uma taxa que cairá bastante pois o número de infecções é fortemente subestimado. No fim, talvez revele-se menor que a das gripes comuns. A política, não a epidemiologia, guia as reações da China e dos EUA.


Do fracasso no combate à Sars, o regime chinês extraiu a decisão de que a humilhação jamais se repetiria. “O coronavírus é um teste do sistema chinês e de sua capacidade de governo”, proclamou Xi Jinping.

Por isso, depois de perseguir o médico que identificou as primeiras manifestações do vírus, o aparato de controle social moveu-se na direção contrária, para proteger a sacrossanta imagem da China. O isolamento de Hubei não evita a difusão do vírus, mas mostra que o Grande Irmão pode tudo.

O hospital erguido em dez dias figurou na mídia mundial como campanha de propaganda do regime totalitário. Enquanto as escavadeiras operavam, centenas de milhares de chineses gripados interpretavam o sentido da mensagem oculta e enfileiravam-se diante de hospitais, intercambiando vírus diversos.

O sistema de saúde de Hubei inclina-se quase exclusivamente para o combate ao coronavírus. Nessas semanas, quantos chineses morrem, por falta de atendimento adequado, de outras moléstias?

“Leprosos” —é assim que a China classifica tacitamente todos os residentes de Hubei. Assim, também, os EUA classificam implicitamente todos os chineses —mas não apenas eles. Sob justificativas genéricas de segurança nacional, Trump baniu, em 2017, a entrada de cidadãos de sete países e, agora, adiciona seis países à lista negra.

O coronavírus não é um ebola. O banimento de chineses não deriva do saber científico: funciona como “normalização” da xenofobia.

A quarentena interna de Hubei e a quarentena externa da China cobrarão um preço econômico incalculável, deprimindo a expansão do PIB chinês e, por consequência, do PIB global. Vida é, antes de tudo, emprego e renda. Qual é o impacto das “medidas extraordinárias” na mortalidade difusa, ao longo do tempo?

O coronavírus não pode ser tratado como algo insignificante pois talvez seja transmitido por indivíduos assintomáticos. A saúde pública exige políticas específicas de contenção: quarentenas focalizadas, restrições de aglomerações, suspensões localizadas de atividades produtivas.

China e EUA preferiram, porém, o caminho do arbítrio estatal ilimitado. O pânico, a histeria servem a Xi Jinping e Trump. Você conhece algum “inimigo do povo” mais perfeito que um vírus?
Demétrio Magnoli

E na ditadura Vargas....

Também, na época, nazistas faziam fogueira com livros
Aos dezenove dias do mês de novembro de 1937, em frente à Escola de Aprendizes Marinheiros, nesta cidade do Salvador e em presença dos senhores membros da comissão de buscas e apreensões de livros, nomeada por ofício número seis, da então Comissão Executora do Estado de Guerra, composta dos senhores capitão do Exército Luís Liguori Teixeira, segundo-tenente intendente naval Hélcio Auler e Carlos Leal de Sá Pereira, da Polícia do Estado, foram incinerados, por determinação verbal do sr. coronel Antônio Fernandes Dantas, comandante da Sexta Região Militar, os livros apreendidos e julgados como simpatizantes do credo comunista (...)

Tendo a referida ordem verbal sido transmitida a esta Comissão pelo sr. Capitão de Corveta Garcia D'Ávila Pires de Carvalho e Albuquerque e a incineração sido assistida pelo referido oficial, assim se declara para os devidos fins.

Os livros incinerados foram apreendidos nas livrarias Editora Baiana, Catilina e Souza e se achavam em perfeito estado.

Por nada mais haver, lavra-se o presente termo, que vai por todos os membros da Comissão assinado, e, por mim segundo tenente intendente naval Hélcio Auler, que, servindo de escrivão, datilografei. (assinados)

Luís Liguori Teixeira, Cap. Presidente (Ata ordenando a queima de livros em Salvador)

Um secretário de Educação absolutamente inadequado

Rondônia foi premiada com um secretário de Educação que é uma figura extraordinária! Você, leitor, leu a lista de livros que ele queria que fossem recolhidos das escolas estaduais? Ainda bem que algum funcionário mais atilado percebeu que aquela lista era uma bofetada no país!

Com o argumento de que os livros listados tinham conteúdo inadequado às crianças e adolescentes, o secretário Suamy Vivecananda Lacerda de Abreu não teve pejo em incluir em seu memorando livros como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Os Sertões”, duas das maiores obras literárias assinadas por brasileiros!

Curiosamente, o secretário, apesar de confirmar a existência do documento, declarou que o mesmo não passava de um rascunho! Segundo o secretário, foram técnicos que redigiram o “rascunho” cujo teor ele não aprova, apesar de tê-lo assinado. Mais curioso ainda: para defender os técnicos, o secretário disse que eles foram levados a agir devido a uma denúncia que os livros continham palavrões!

Gostaria que o senhor Lacerda de Abreu mostrasse em qual capítulo, em quais páginas tanto de “Os Sertões” quanto de “Memórias Póstumas”, seus honoráveis técnicos encontraram palavrões.

O mesmo digo de “O Processo”, de Franz Kafka e de "Contos de terror, de mistério e de morte”, de Edgar Allan Poe, dois clássicos da literatura universal que também figuravam na lista da secretaria.

Segundo a indefectível lista, 19 livros de Rubens Fonseca, 8 de Carlos Heitor Cony e 3 de Nelson Rodrigues também deviam ser recolhidos. Bem, nesses podemos encontrar, aqui ou ali, palavras de baixo calão que não destoam. e sim enriquecem, o tema escolhido pelo autor. São livros que só honram nossa literatura. Mas cá pra nós, seria o caso desses livros serem adotados por escolas básicas?

Francamente, senhor secretário Suamy Vivecananda Lacerda de Abreu. Parece que tudo em sua secretaria deve ser revisto. A começar pela escolha dos técnicos.

A lista, ainda bem, foi cancelada e os livros nela contidos não serão recolhidos. Torço para que façam parte da Biblioteca Pública Estadual de Rondônia.

Nem por isso a notícia deve ser ignorada. Ao contrário, devemos falar muito nela, para que nunca mais isso se repita, em nenhuma Secretaria de Cultura de nenhum estado brasileiro.

O guarda da esquina

O caso é conhecido e já entrou para a história política brasileira. Em 13 de dezembro de 1968, o governo Costa e Silva decretou o Ato Institucional 5, e na reunião ministerial, o único voto contrário foi do vice-presidente Pedro Aleixo, que alegou, premonitoriamente: “o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina”.

A censura a livros em Rondônia é o típico caso de o guarda da esquina sentir-se autorizado a cometer abusos de autoridade, não mais pelo AI-5, revogado ainda na ditadura militar com Geisel, mas pelo exemplo do ministro da Educação e do próprio presidente Jair Bolsonaro.

Não se pode dizer que há uma ordem direta deles para que atitudes desse tipo sejam tomadas, mas palavras do líder são levadas a sério pelos liderados mais afoitos ou com menos bom senso.

A mesma coisa aconteceu com o meio-ambiente. O ex-presidente do Instituto Nacional de Pesquisas (INPE) Ricardo Galvão, em pleno debate sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, disse que não tinha dúvidas de que foi a leniência do governo Bolsonaro com o desmatamento que fez com que ele crescesse no primeiro ano de governo. As críticas de Bolsonaro às ONGs que defendem a Amazônia também teriam dado respaldo aos grileiros que atuam na região.

O “guarda” no momento na Prefeitura do Rio, bispo Crivella, já censurou histórias em quadrinhos com beijo gay, alegadamente para proteger nossas crianças. Quando ainda era próximo politicamente do governo Bolsonaro, o “guarda” governador de São Paulo João Dória mandou recolher uma cartilha com material escolar de ciências para alunos do 8º ano do Ensino Fundamental da rede estadual.

A cartilha tratava de conceitos de sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual. Também trazia orientações sobre gravidez e doenças sexualmente transmissíveis. As duas decisões foram revogadas pela Justiça.

O “guarda” no governo de Rondônia, Coronel Marcos Rocha (PSL), ex-chefe do Centro de Inteligência da PM do Estado e ex-secretário de Educação de Porto Velho, mandou recolher dezenas de livros das bibliotecas das escolas públicas, entre eles clássicos da literatura brasileira como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, “Os Sertões” de Euclydes da Cunha, e “Macunaíma”, de Mario de Andrade.

Também estava querendo proteger nossas crianças e adolescentes de “conteúdos inadequados”. Alegadamente, a decisão foi tomada por um técnico sem a autorização do secretário de Educação, Suamy Lacerda de Abreu. O memorando incluía 43 livros de autores brasileiros e estrangeiros, que deveriam ser devolvidos pelas escolas ao Núcleo do Livro Didático da secretaria estadual da Educação.

A medida, como não poderia deixar de ser, provocou protestos de instituições regionais, como a OAB de Rondônia, e nacionais, como a Academia Brasileira de Letras (ABL), que tem como missão a defesa da cultura nacional. Eis a nota:

“A Academia Brasileira de Letras vem manifestar publicamente seu repúdio à censura que atinge, uma vez mais, a literatura e as artes. Trata-se de gesto deplorável, que desrespeita a Constituição de 1988, ignora a autonomia da obra de arte e a liberdade de expressão.

A ABL não admite o ódio à cultura, o preconceito, o autoritarismo e a autossuficiência que embasam a censura. É um despautério imaginar, em pleno século XXI, a retomada de um índice de livros proibidos. Esse descenso cultural traduz não apenas um anacronismo primário, mas um sintoma de não pequena gravidade, diante da qual não faltará a ação consciente da cidadania e das autoridades constituídas”.

São tantas as críticas do governo, e do próprio Bolsonaro, à cultura, são tantas as referências ao que denominam esquerdização na literatura, no cinema, no teatro, tantas denúncias de supostas imoralidades, que os guardas da esquina estão se sentindo empoderados pelos novos tempos.

O bendito teto

Em 2019, sete dos oito órgãos que compõem o Poder Judiciário e os dois que constituem o Ministério Público romperam o teto de gastos em R$ 2,450 bilhões. A infração não acarretará sanções, já que o excedente foi compensado pelo Executivo, mas revela a falta de compromisso do Poder Judiciário e do Ministério Público em relação ao equilíbrio das contas públicas. A partir deste ano, contudo, esse compromisso terá de ser assumido a gosto ou contragosto, uma vez que os demais Poderes não poderão contar com o Executivo para cobrir seus excessos.

O Poder Judiciário executou R$ 2,36 bilhões acima do teto. O maior estouro foi o da Justiça do Trabalho, que gastou R$ 1,63 bilhão além do seu limite. Em seguida vieram a Justiça Federal (R$ 514 milhões), Justiça Militar (R$ 97 milhões), Justiça do Distrito Federal (R$ 80 milhões), Supremo Tribunal Federal (R$ 70 milhões), Justiça Militar da União (R$ 6,62 milhões) e Conselho Nacional de Justiça (R$ 3,8 milhões). Além disso, o Ministério Público da União ultrapassou o teto em R$ 90,05 milhões.

Os tetos foram estabelecidos em 2016 pela Emenda Constitucional 95, que prevê os limites de gastos para os próximos 20 anos. Nos últimos três anos eles foram sistematicamente rompidos. Ocorre que a Emenda previu uma regra de transição, pela qual o Executivo poderia compensar os excessos até 2019. A partir deste ano, contudo, os Poderes precisarão se enquadrar aos seus respectivos tetos, caso contrário serão proibidos de conceder reajustes, criar cargos, alterar estruturas de carreira, contratar pessoal e realizar concursos públicos.


Em média, 85% dos gastos desses órgãos são com pessoal e seus benefícios (auxílio-saúde, moradia, alimentação, etc.). Tudo somado, as despesas obrigatórias perfazem 89% dos gastos. Os 11% restantes cobrem infraestrutura (luz, limpeza, manutenção, etc.), além de investimentos em inovação e outras despesas discricionárias. É sobre elas que recairão os cortes, com o risco de prejudicar a prestação de serviços à população.

Segundo projeções da Instituição Fiscal Independente do Senado, em 2020 o Ministério Público precisará reduzir cerca de 10% dos seus gastos discricionários e o Judiciário quase 6%. Mas alguns órgãos precisam realizar cortes particularmente dramáticos. A Justiça do Trabalho, por exemplo, precisa reduzir em quase 40% seus gastos não obrigatórios. Como essas estimativas foram feitas em meados de 2019, quando a expectativa de quebra do teto era menor, os cortes devem ser ainda maiores. Para ter uma ideia, à época previa-se que a Justiça do Trabalho estouraria o teto em R$ 1,119 bilhão. Na prática, o estouro foi de R$ 1,63 bilhão.

Este desrespeito sistemático da Justiça em relação aos limites impostos pela Constituição evidencia a necessidade de reformar amplamente a máquina pública. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 186/19, não à toa denominada PEC Emergencial, é essencial para se garantir o cumprimento dos dois principais dispositivos constitucionais de equilíbrio fiscal: o teto de gastos e a “regra de ouro”, segundo a qual o governo não pode “realizar operações de crédito que excedam o montante de despesas de capital” (art. 167, III). A PEC, em tramitação no Congresso, autoriza o corte de despesas obrigatórias, a principal ameaça ao cumprimento do teto, sempre que a despesa corrente superar 95% da receita corrente.

Além disso, é indispensável para a sustentabilidade do Estado a implementação de reformas administrativas que adaptem o serviço público às necessidades e contingências do tempo presente, a começar pela eliminação de privilégios, em especial os acumulados pela sua elite, justamente o Judiciário e o Ministério Público. Entre 2013 e 2018, enquanto a massa salarial dos empregados do setor privado encolhia 0,7%, os vencimentos e benefícios dos agentes públicos cresceram 12%. Em boa hora vem se impor sobre suas cabeças este teto, forçando-os a pôr os pés no chão.

Brasil da Besta


Coronavírus no Planalto

Jair Bolsonaro pode até agradar e ser paparicado por aquela parcela de eleitores que o apoia até mesmo quando ele ataca homossexuais e enaltece torturadores. Mas cresce de modo contínuo uma outra parte que prefere dele não se aproximar. Primeiro foram os policiais que, irritados com a reforma da Previdência, o chamaram de traidor. Depois, a turma do agronegócio começou a se afastar para não ser contaminada pela pauta contra-ambiental do presidente. Inúmeros parlamentares e governadores, que foram eleitos na sua onda, hoje não querem aparecer ao seu lado em razão de seu estado de permanente beligerância.

Na semana passada, Bolsonaro recebeu no Planalto alguns músicos sertanejos, e sua assessoria divulgou uma lista acrescida de 22 nomes que não estiveram presentes. Foi uma gritaria. Justamente os mais importantes, como Bruno e Marrone e César Menotti e Fabiano, mandaram avisar que não foram ao beija-mão. Muitos não estão mais dispostos a associar suas imagens à errática política cultural do presidente. Pode parecer bobagem, mas não é. Os sertanejos se associaram a Bolsonaro desde cedo, ainda na campanha, em razão de sua raiz no interior do país e pela proximidade com o agronegócio.

Mesmo entre os músicos dos grandes centros sem viés ideológico há um contingente de profissionais cada vez incomodado com o governo que se lixa para a cadeia produtiva da música. São milhares de pessoas que vivem, alimentam suas famílias, colocam seus filhos nas escolas, pagam impostos, contribuem com a Previdência e que têm suas pautas ignoradas pelo governo. Um grupo do Rio fracassou quando tentou organizar uma comitiva para ir a Bolsonaro fazer lobby contra a Medida Provisória que isenta hotéis de recolher direitos autorais em seus quartos.


Ancestralmente próximos do capitão, os garimpeiros também ameaçam pular fora. Dizem que estão sendo perseguidos pelo governo que lhes prometeu apoio. Nem o projeto que autoriza mineração e geração de energia em terra indígena os anima. Segundo líderes garimpeiros, em algumas reservas a mineração se dá em acordo com líderes tribais há quase meio século. O projeto apresentado na terça-feira, segundo eles, vai ser bombardeado e pode atrapalhar os garimpos que hoje funcionam com o aval e a participação de comunidades indígenas.

Os garimpeiros dizem que os índios mundurucus, do Amazonas, convivem com eles há quatro décadas e participam da mineração com dragas próprias. As maiores reservas de diamante no Brasil ficam nas terras dos índios cinta largas, entre Rondônia e Mato Grosso, que as exploram. Os caiapós-xicrins, de Tocantins, estão no garimpo há 30 anos e têm aviões e maquinário próprio, além de gado e área de pastagem. Eles citam também garimpos tucanos, na fronteira com Colômbia e Venezuela, e macuxis, da reserva Raposa Serra do Sol. O que eles queriam era a regularização dessas reservas, mas a fiscalização do governo ignora os entendimentos e parte para cima deles “com virulência”, reclamam os garimpeiros.

A proposta de Bolsonaro incomoda os três lados da questão. Irrita ambientalistas, que enxergam no projeto carta branca para a degradação das reservas; aos índios, que perdem a autonomia sobre seu território; e aos garimpeiros, que temem que a chancela de Bolsonaro crie mais dificuldades do que resultados positivos. Na apresentação do projeto, Bolsonaro reconheceu que o texto vai ser objeto de ataques de ambientalistas. E disse: “Se puder, confino os ambientalistas na Amazônia”. Dá para entender por que tanta gente quer distância.


Expo de armas
A Tabacaria Africana, uma das mais tradicionais charutarias do Centro do Rio, permitiu que se realizasse nos seus salões uma reunião, aparentemente ilegal, de donos de armas. Um frequentador chegou ao local, num sábado à tarde, há cerca de um mês, e se deparou com um grupo de cerca de 20 homens que expunham suas armas sobre as mesas da tabacaria. Esses homens manipulavam as armas, comparavam umas com outras, parecia que negociavam entre eles. O charuteiro de fim de semana que viu a cena não pôde garantir se eles comercializavam ou apenas exibiam suas armas, porque, assustado, se mandou do lugar rapidinho.

Política Tributária
Já se viu de tudo na formulação do emaranhado de impostos que assombra o Brasil, mas fazer política tributária na porta do Palácio da Alvorada, empurrado por um grupo de adoradores que vai lá apenas para bater continência ao presidente, foi a primeira vez.

Privatizar a Cedae
São inúmeras as razões que pode-se listar em favor da privatização da Cedae, mas uma delas é imbatível e ficou cristalina (ao contrário da água que a empresa fornece) com a crise de abastecimento atual. Se associações de moradores do Rio se reunissem e movessem uma ação contra a Cedae, e a Justiça obrigasse a empresa a indenizar os usuários pela péssima qualidade do serviço prestado, quem iria pagar a conta? Pois é, seríamos você, eu e todos os nossos vizinhos. A conta seria paga pelo contribuinte fluminense. Pagaríamos para nós mesmos. Agora, se a Cedae pertencesse a um desses megaempresários chineses ou a uma grande empresa privada brasileira, a conta da indenização pelo desastre não seria de nossa responsabilidade. Embora os cidadãos do Rio nada tenham a ver com a má gestão da empresa, a responsabilidade pecuniária pelo desastre hoje é deles. É nossa.

Boa medida
Não era necessário esperar tanto, mas, enfim, parece estar saindo do papel projeto que acaba com a reserva de mercado para empreiteiras brasileiras sobre as obras públicas de infraestrutura. Em março, o megaescândalo que expôs a rede de corrupção das empreiteiras brasileiras completa seis anos, e a Odebrecht e companhia ainda hoje têm exclusividade sobre obras nacionais. As estrangeiras só podem operar no Brasil se tiverem filiais nacionais.

Prerrogativas
As prerrogativas de foro foram criadas ainda na Grécia antiga para proteger a função pública e garantir a punição em instância superior de crime praticado pela pessoa que a ocupe. Aos poucos o foro especial virou foro privilegiado e no Brasil é sinônimo de impunidade. Por aqui, onde já vimos quase tudo, surgiu um novo caso, o do deputado Wilson Santiago (PTB-PB). O parlamentar, que se apropriou de R$ 1,2 milhão dos cofres públicos, foi mantido na função pelos seus pares na Câmara, apesar de seu afastamento ter sido determinado pelo ministro Celso de Mello. PT, PCdoB, PSOL, MDB e DEM votaram a favor de Santiago. Pois é.

Hospital em Dez dias
Na China, o governo chinês ergueu um hospital em dez dias para atender as vítimas do coronavírus, que já matou mais de 500 pessoas. No Brasil, onde 754 pessoas morreram por dengue no ano passado, os hospitais estão sendo destruídos há dezenas de anos.

Vampiro, fora
Não foram necessários crucifixos, dentes de alho e estacas de madeira. Bastou um peteleco de um senador para que o deputado Luiz Vampiro (MDB-SC) desistisse da cadeira de líder do governo na Assembleia de Santa Catarina. O que está por trás disso é uma guerra entre o governador-bombeiro Carlos Moisés e os filhos do presidente Bolsonaro (eles outra vez). O fato é que Vampiro estava fechando com o governador desafeto dos meninos quando lhe cortaram as asinhas.

Piromania à vista!

A aversão a livros é uma patologia perigosa. Esse tipo de moléstia exige reação vigorosa. Sob pena de assistirmos a uma escalada de restrições em que nem o catálogo telefônico estará a salvo da crítica literária de autoridades de plantão.
 
O brasileiro se espanta cada vez menos. É como se as pessoas suprimissem dos seus hábitos o ponto de exclamação. Perde-se a noção da importância do espanto. Mas há ocasiões em que o horror é essencial à preservação da sanidade
Josias de Souza

Voltem lá, idiotas, e proíbam a poesia

Voltem lá, idiotas, e recolham também os livros mais perigosos de todos. Vocês esqueceram de botar na lista de proibidos os versinhos falso-inocentes que se escondem por dentro dos livros de poesia. São os piores. Falam de amor - mas não enganam mais ninguém. Todos devassos, perversos e, de redondilha em redondilha, estão imbuídos apenas do projeto internacional de acabar com a família brasileira. Mais adiante, aguardem, vão tomar posse da Amazônia.

Vamos acabar com Machado de Assis e também com o Carlos Heitor Cony, todos realmente perigosíssimos para a formação da juventude brasileira. À fogueira com eles. Mas quem foi que esqueceu de prender o decassílabo heroico, de colocar na lista de excomungados didáticos o Manuel Bandeira, aquele pernambucano que sugeriu ir todo mundo para o vale-tudo da cama do rei em Pasárgada?


Voltem lá, idiotas, e não deixem o soneto dar a cara nas escolas porque ele é tão perigoso quanto um conto do Rubem Fonseca e em cada um dos seus versos há também o estímulo mais irresponsável ao sexo na adolescência. O Macunaíma preguiçoso do Mário de Andrade, a bonitinha mas ordinária do Nelson Rodrigues – são personagens que de fato não ajudam a construir um novo país, e fazem muito bem em estar na lista de proibidões. Mas quem não viu o mal cívico que se esconde nas pedras e mais pedras que o Carlos Drummond de Andrade jogou pelo caminho? Subversivamente, elas estimulam uma trava no progresso e não torcem para que o país vá em frente. O Brasil já tirou os pardais das estradas, vai tirar essas pedras da poesia também.

O único poeta na lista de 43 malditos foi Ferreira Gullar, mas o maranhense escancarou suas intenções já no título do livro – “Poema sujo”. Falta gente na fogueira. Fabrício Carpinejar, Elisa Lucinda, Olavo Bilac. Há muitas gerações o poeta é um notório fingidor. Foi um deles que disse, “é capaz de fingir tão completamente que finge ser dor o que deveras sente”. Não se deve acreditar neles. Por isso, ouçam esta voz de comando e voltem lá, seus idiotas. Prendam todo o Mário Quintana, um velhinho desses, de índole songamonga, que usa da falsa ingenuidade para propagar o ódio. Foi ele que um dia, sobre os que lhe atravancavam o caminho, escreveu revoltado: “eles passarão/eu passarinho”.

É muita poesia para uma hora dessas e o Brasil não tem tempo, precisar minerar as terras indígenas. Voltem lá, cretinos. Façam uma lista só de poetas. Impeçam Murilo Mendes de continuar dizendo que “o mundo começava nos seios de Jandira”, quando todos sabem que a Terra agora é plana. Não se esqueçam de Vinicius de Moraes, Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto e demais destruidores da pátria nacional. Morte aos alexandrinos, decassílabos sáficos e todos os que praticam rimas parnasianas, modernistas e afins.

A poesia é o inimigo que se esconde atrás das nuvens, usa flores e corações para passar ideias que nem ela sabe direito quais são. Perigosíssima. Propaga pelas palavras um contágio de imaginação e liberdade que quarentena nenhuma segura. À fogueira com ela e seus despropósitos. Depois, só depois, cuidem do coronavírus.

O bolsonarismo autofágico

Na mitologia grega, Urano, deus supremo surgido após o caos, uniu-se a Gaia para gerar uma descendência. Porém, temeroso da traição dos filhos, os Titãs, enterrou-os no ventre da esposa. “Aqui mando eu e ninguém mais!”, dizia. Gaia, farta da tirania, propôs a um dos filhos, Cronos, que depusesse Urano e governasse o universo. Munido da foice dada pela mãe, Cronos castrou o progenitor e imperou sobre seu sangue.

Cronos, como o pai, bradava: “Aqui mando eu e ninguém mais!”. Sabendo que teria filhos, virtuais traidores, ordenou à mãe, Reia, que lhos entregasse para os devorar, um a um. Desse fado se salvou apenas Zeus, que a mãe ardilosamente substituiu por uma pedra, engolida sem que o genitor notasse. Mais tarde, também Zeus se voltou contra o pai, fê-lo regurgitar os irmãos e, ao lado deles, expulsou Cronos - que retornaria para a fatídica guerra dos Titãs, quando foi derrotado pelos deuses do Olimpo e enviado novamente às profundezas - desta feita não por seu pai, mas por seu filho.

A paranoia conspiratória desgraçou deuses, suscitando ressentimento e vingança. Cronos acreditou escapar do destino infligido ao pai, devorando os filhos. Não contava, porém, com o embuste da esposa, que lhe custou a derrota. Não é mesmo possível controlar tudo; mais sábio é não cevar inimigos, mormente dentre os tão próximos.



O Brasil também tem seu mito. Como deuses gregos, Bolsonaro alimenta paranoias conspiratórias sobre traições, sendo levado a devorar não os filhos (ao menos por ora), mas todo e qualquer aliado visto como ameaça. O problema das paranoias é que sugerem perigos até quando não existem, gestando inimigos onde havia amigos, atraindo mágoa e desforra. Assim, geram profecias autocumpridas, em que o oponente imaginário é transformado em antagonista real por ações que a imaginação provoca.

Ao final de janeiro, perícia da Polícia Federal atestou que mensagens depreciativas sobre o presidente, atribuídas em maio de 2019 ao general Carlos Alberto dos Santos Cruz, foram forjadas. Embora a prudência recomendasse suspeitar disso desde o princípio, Bolsonaro cismou com seu secretário de Governo, preferiu crer na montagem e, incitado pela prole, despachou o general.

Ainda em janeiro, outro capítulo das altercações entre presidente e ministro da Justiça. Cabreiro com a popularidade e as ambições de Sergio Moro, Bolsonaro ensaiou mutilar o ministério em prol do qual o ex-juiz abandonou a carreira de magistrado, seduzido pelo poder que teria ao acumular as atribuições de segurança pública. Percebendo que o passo em falso poderia não apenas lhe enfraquecer, mas robustecer ainda mais o subordinado-aliado-adversário, Bolsonaro recuou. Ato contínuo, voltou-se a discutir a indicação de Moro para o Supremo Tribunal Federal. Não que ministros do STF estejam impedidos de ingressar na política eleitoral, deixando a corte (e talvez a usando como novo trampolim), mas é uma aposta que o presidente pode arriscar.

Embora as escaramuças com Moro ocorram desde o início, com o presidente volta e meia lhe desautorizando com a frase dos deuses paranoicos - “Quem manda sou eu!” -, os conflitos intestinos do bolsonarismo vão além disto. Antes mesmo da posse, o aliado de primeira hora, Magno Malta, foi escanteado na formação da equipe. Com menos de dois meses de gestão, foi-se Gustavo Bebianno, estrategista principal das articulações eleitorais do mito, defenestrado da Secretaria-Geral da Presidência por estímulo do filho 02, Carlos.

Bebianno foi o primeiro membro do gabinete a cair pela teia de intrigas, mas não o último enredado por ela. Além do já mencionado Santos Cruz, quatro meses depois, também o vice-presidente, Hamilton Mourão, virou alvo constante das invectivas de Bolsonaro e filhos - ao ponto de ter em novembro o presidente dito ao “príncipe”, Luiz Phillippe de Orleans e Bragança, que o vice deveria ser ele, “e não esse Mourão aí”.

Em meio a tais confusões, Bolsonaro se viu às turras com o PSL, partido pelo qual se elegeu. Menos de dois meses após a agremiação dirigida por Luciano Bivar ter expulsado por unanimidade mais um neodesafeto presidencial, Alexandre Frota, o servil Bivar virou alvo, pois estaria “queimado pra caramba”. Deflagrou-se acirrada disputa pelo controle da legenda (com seus polpudos recursos), culminando na saída de Bolsonaro para criar sua (e só sua) Aliança pelo Brasil.

Vale notar que, além de Bivar, um dos que celebraram a expulsão de Frota foi o outrora aliado, senador Major Olímpio. Porém, no meio tempo, também Olímpio se desentendeu com a família presidencial - 01, 02 e 03. E quem briga com os filhos vira desafeto do pai e é expulso do Olimpo. Ipso facto, a ex-líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, desgostosa com a expulsão de Frota, também se tornou desavinda da família - assim como tantos outros parlamentares do partido, dentre os quais o então líder do PSL, Delegado Waldir - que fez o gesto de pistolinha ao lado de Bolsonaro na assinatura do decreto das armas. Depois, jurou “implodir o presidente”, segundo Waldir, um “vagabundo”.

Outro imolado em público foi o outrora presidente do BNDES, Joaquim Levy. Após anunciar, em junho passado, que a cabeça do funcionário estava a prêmio, Bolsonaro afirmou: “Eu já estou por aqui com o Levy”. Um dia depois foi apresentada sua demissão e ele se juntou ao ex-presidente dos Correios, general Juarez Cunha, na lista de expurgados.

Na visão do chefão, Levy se negou a abrir a “caixa-preta do BNDES”. Para cumprir tão hercúlea missão, nomeou Gustavo Montezano, amigo de balada do filho 03, Eduardo. Pois que, após sete meses e R$ 48 milhões gastos na auditoria, o parça de 03 anunciou nada encontrar. Insatisfeito com a busca inútil, de que não desistia, Bolsonaro se referiu a Montezano como “o garoto lá”. Cronos, deus do tempo, já conta os dias do infante no cargo. Claro, sem esquecer de Onyx Lorenzoni, aliado de primeira hora, fritado como se fosse um hambúrguer do Eduardo, desmembrado como o Cavaleiro Negro de Monty Python - que não obstante, teima em lutar.
Cláudio Gonçalves Couto

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

A aposta na energia solar contra a indústria do petróleo na Amazônia equatoriana

Alimentada por energia elétrica, uma canoa desliza silenciosamente rio acima em uma paisagem de nuvens luminosas que são refletidas no espelho d'água. A bordo está uma equipe de jovens indígenas achuar. Eles voltam para casa depois de participar de um treinamento em instalação e controle de painéis solares que ocorreu no rio Kapawari, um afluente do rio Pastaza na Amazônia equatoriana, perto da fronteira com o Peru.

Técnicos indígenas instala os painéis solares no teto do novo barco, no rio Capahuar
A canoa solar mal vibra. As vozes se escutam de proa à popa e, na confluência dos dois rios, alguns botos emergem para respirar, confiantes e próximos, devido ao ruído quase zero emitido pela canoa solar. Essa cena, que parece ficção, é completamente real. Isso é possível graças a um grupo de pessoas corajosas, que defende a floresta e enfrenta a indústria do petróleo, que tanto afetou a Amazônia equatoriana.

Petróleo significa a sentença de morte deste território, como aconteceu com os povos huaorani, mais ao norte. Competindo com o petróleo, a mineração, o desmatamento e a caça ilegal são ameaças esmagadoras para comunidades relativamente isoladas, como Sharamentsa, de aproximadamente 70 indivíduos localizados a cerca de 30 quilômetros ao norte de Capawari, à beira do próprio rio Pastaza.

Mas, em vez de lamentar o triste destino do extrativismo, renunciar ou fechar os olhos ao irremediável, os jovens dessa comunidade estão despertos. Eles se levantam e lutam para defender a floresta que encarna seu futuro e o de seus filhos. Eles sabem que a vida depende disso.

Nantu, como milhares de outros jovens indígenas de todo o Equador, atendeu ao chamado de seus líderes para enfrentar um governo disposto a se curvar às demandas do FMI e abrir ainda mais as portas aos interesses das grandes empresas extrativas transnacionais. Ao amanhecer, junto com 15 companheiros armados com lanças e vestidos com suas cintas tradicionais, Nantu embarcou em uma longa viagem de canoa rio acima para depois ir de caminhão até Quito, a centenas de quilômetros da comunidade.

“No país houve uma revolta indígena para enfrentar os empréstimos. Eles nos venderam, venderam nossos recursos. E eles estão expandindo os poços de petróleo”, diz Nantu. “Eles estão nos roubando, sem que percebamos. É por isso que nos levantamos para defender o que é nosso, nossos territórios”.

Essa expedição a Quito não foi uma mobilização pontual ou isolada. Não. Nantu (31 anos), junto assim como outros jovens da sua geração, está liderando um projeto futuro para sua comunidade. Ele sabe que o destino depende do que ele e seu povo façam, e não apenas um terreno milagrosamente preservado da floresta equatoriana, mas também em parte o futuro da bacia amazônica e, consequentemente, de um dos pulmões do planeta, hoje mais ameaçado.


Os achuar ainda têm a oportunidade de evitar o desastre que seus irmãos huaorani viveram mais ao norte, dizimados pela indústria do petróleo. Nantu sabe disso. Ele entende que, ou constrói uma alternativa ou vai acabar devorado pelo inexorável avanço da voracidade das indústrias de petróleo, madeira e mineração.

Uma estrada que parte de Puyo e que já penetrou dezenas de quilômetros no território do povo vizinho shuar está prestes a entrar no território achuar. “A estrada é um veneno”, diz José, parceiro de Nantu, que acrescenta: “A estrada não nos respeita, é imposta a nós pela cidade. É um meio terrestre muito perigoso para nós”.

Dada essa consciência lúcida, o envolvimento de Nantu, há vários anos, no desenvolvimento de canoas movidas a energia solar é fundamental para ter argumentos capazes de interromper o progresso dessa estrada letal.

O projeto, desenvolvido pela Fundação Kara Solar, com sede em Quito, é de grande ambição: conectar nove comunidades no território achuar por canoas de transporte coletivo movidas a energia solar. É um projeto com forte componente de pesquisa e desenvolvimento e projeção revolucionária para a região amazônica, principalmente para territórios indígenas.

Sua visão é a de uma Amazônia povoada por canoas solares que potencialmente substituirão dezenas de milhares de canoas que estão queimando milhares e milhares de metros cúbicos de gasolina todos os anos em motores de explosão.

Substituir essa tecnologia, que é pelo menos tão antiga quanto a dos motores elétricos de ímãs, mas que depende de um ciclo econômico absurdo e ineficiente, é o sonho que a Kara Solar tem. Oliver Utne, seu fundador, resume em uma frase: “Colaborações sustentadas e verdadeiramente interculturais podem criar soluções tecnológicas que atendem às comunidades indígenas, em vez de destruí-las”.

É incontestável que o
ciclo da gasolina é absurdo. O petróleo é extraído graças a um investimento formidável em vias de acesso e transporte de máquinas pesadas de extração em direção à floresta que contém os grandes depósitos. Tubulações caras são construídas que canalizam o hidrocarboneto fóssil para a costa e o embarcam em superpetroleiros movidos a diesel para refinarias localizadas milhares de quilômetros ao norte, na Califórnia.

Depois de refinado, é transportado de volta ao porto equatoriano, armazenado em grandes tanques de combustível para posterior distribuição em navios-tanque, também movidos a diesel, aos postos de gasolina. De lá, ele é carregado em tambores e transportado em caminhões e carros para aeronaves leves ou canoas movidas por motores Yamaha de dois ou quatro tempos, ou pequenas embarcações. Na forma de gasolina, o hidrocarboneto volta para a floresta, para o local de onde foi extraído.

Nantu entende que esse processo não para, a menos que seja com uma defesa fechada do território e construção de uma alternativa. Ela trabalha, por exemplo, em um projeto que instalará sistemas de energia alternativa muito mais amigáveis, com uma economia verde e circular de proximidade e subsistência. A harmonia de qualquer desenvolvimento com o ecossistema atual é essencial para Nantu.

Na floresta, que Nantu conhece bem, há recursos suficientes para a comunidade viver com tranquilidade e em equilíbrio. Existem frutas, raízes, fibras, caça, pesca e plantas medicinais. Contém solo fértil onde abrir pequenos pomares de subsistência para o cultivo do essencial. Madeira para casas, canoas, combustível.

"A floresta é vida para nós", diz Nantu. Uma floresta tão fértil e preservada quanto a do sudoeste equatoriano fornece generosamente. "É o mercado e a farmácia", diz ele, também são o pulmão e a fonte.

É o lugar de Arutam, a entidade sagrada que habita as cachoeiras, que abrange as diferentes forças que compõem a visão de mundo desses povos indígenas, para quem o sol, a água, a fertilidade e a própria selva governam a vida espiritual e proporcionam a subsistência material de uma comunidade que era nômade até muito recentemente.

Como qualquer projeto de P&D, as duas canoas solares que existem hoje apresentaram problemas técnicos e acidentes neste território hostil. O rio é vivo, sujeito à enchentes e reduções periódicas, experimenta uma corrente considerável que as canoas devem ser capazes de superar e também apresenta redemoinhos a serem superados, obstáculos como árvores afundadas, bancos de areia e solo rochoso.

A superfície do toldo deve ser otimizada para acomodar a área de superfície máxima das células fotovoltaicas sem comprometer a estabilidade do barco. É necessário melhorar a durabilidade e a capacidade de armazenamento das baterias, torná-las mais leves, substituir o chumbo por lítio idealmente sem custos.

A lista é longa, mas o processo está bem avançado. Na próxima fase do desenvolvimento, por exemplo, é prevista a instalação de estações de carregamento solar ao longo do itinerário das canoas, daí a importância de treinar os sete jovens achuar que participam do programa Kara Solar, conseguir fazer com que se apropriem da tecnologia, para que eles desenvolvam sua própria maneira de gerenciar o sistema. Estes são programas de “treinamento intercultural” ensinados entre pares, que também são instruídos por técnicos indígenas, ou seja, de indígena para indígena. Isso é fundamental para o aprendizado rápido e para o desembarque adaptado de tecnologias nos territórios.

É essa combinação entre o desenvolvimento de tecnologias e sociedades verdes que preserva uma visão de mundo descolonizada e um sistema de vida quase exclusivamente integrado a um território praticamente virgem, o que torna esse projeto excepcional.

Os achuar mantêm uma forma de assembleia de tomar decisões. Reúnem em grandes casas comunitárias e preservam rituais como beber chicha (uma bebida à base de mandioca mastigada e fermentada) ou wayusa —uma infusão que causa vômitos, purifica e fortalece diante de dias difíceis de trabalho, um ritual que fazem antes do sol nascer.

Preocupada com o futuro de uma população em crescimento, a comunidade está gradualmente introduzindo alguma diversificação em termos econômicos em Sharamentsa, que aponta para sua sustentabilidade além da autossuficiência. Já existe um projeto de ecoturismo, com duas cabines com capacidade total para 24 visitantes, gerenciadas pela comunidade, e um projeto alimentar equilibrado, com usina de energia solar. Mas a principal e iminente ameaça é, sem dúvida, a proximidade da estrada.

Nantu tem uma reclamação direta para o governo de Quito: “Eu diria ao governo para não realizar projetos sem consultar as nacionalidades. Que ele realize projetos consultando os povos, que são os donos dos territórios. Que pare de expandir as fronteiras do petróleo, pare de expandir as estradas que chegam a todos os cantos da Amazônia. Isso é super perigoso para nós”.

Em um momento vital de plenitude, Nantu lidera com sua geração uma comunidade jovem, equilibrada e em evolução. Ele está ciente de que as mudanças que estão ocorrendo no clima e como o aquecimento global afeta o território e o mundo. “Há variação de atividade aqui na floresta. O ciclo de floração mudou de data, estamos falando de um a dois meses. As chuvas são muito intensas e o sol é muito forte”.

O jovem Nantu tem uma visão para o futuro de seus cinco filhos. Imagina uma Amazônia capaz de ser economicamente autossuficiente, com centros de turismo comunitário gerenciados pelos próprios indígenas, com canoas solares gerenciadas pelos próprios achuar, com estações de carregamento ao longo do rio. Uma Amazônia sem estradas, capaz de proteger a selva, água limpa e ar puro. Para ele, para o seu povo e para toda a humanidade.