domingo, 6 de outubro de 2019

Como envelhecer mais rápido

Com apenas nove meses de mandato, o presidente Jair Bolsonaro deixa a sensação de que seu governo envelhece muito rápido. Na política, percepção é decisiva para quase tudo, sendo absoluta para a construção da imagem. O governo começa a dar um cansaço na sociedade por causa de decisões intempestivas e polêmicas, motivadas por razões ideológicas de cunho ultraconservador e religioso, sem que os resultados apregoados para a economia aconteçam no tempo que os eleitores esperavam. Já não estamos falando dos 100 dias de governo, estamos nos aproximando do fim do ano. Os setores em mais evidência na Esplanada são os que colecionam problemas; os mais focados nos resultados trabalham em silêncio obsequioso.

Bolsonaro tem culpa nesse cartório, porque protagoniza polêmicas nas quais o governo não tem a menor chance de sair ganhando. Transforma em gigantes adversários que combatiam à sombra, como o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, no caso da morte do pai, Fernando Santa Cruz, durante o regime militar, e o quase nonagenário cacique caiapó Raoni, que virou do dia para a noite um forte candidato ao Nobel da Paz. Sua implicância preconceituosa com artistas, ambientalistas, ativistas dos direitos humanos, jornalistas e gays não acrescenta absolutamente nada ao desempenho positivo de seu governo, somente aumenta a fricção com setores que formam opinião pública na velha e nas novas mídias.


Nicolau Maquiavel já dizia que o sucesso do príncipe depende da virtù e da fortuna. Quando a fortuna muda, certas virtudes viram defeitos que podem até ser fatais. Indiscutivelmente, Bolsonaro é um homem bafejado pela sorte, sua própria sobrevivência à facada em Juiz de Fora na campanha eleitoral serve de exemplo. Além de milagroso (Bolsonaro acredita nisso piamente), o episódio foi decisivo para que o “mito” se tornasse imbatível na eleição. Nesse quesito, portanto, não há adversidade. Exemplo de ambiente favorável ao governo é a blindagem patrocinada pelo Congresso ao ministro da Economia, Paulo Guedes, entre outras coisas, com a aprovação da reforma da Previdência, que deve ser concluída neste mês.

O problema é a virtù mesmo. Em certa passagem das Mil e Uma Noites, o vizir diz à filha Xerazade: “Aquele que não prevê as consequências dos seus atos não pode conservar os favores do século”. É aí que mora o perigo para Bolsonaro. Seu problema não é a oposição, ainda que sua retórica procure manter a polarização com a esquerda tradicional e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cumpre pena em Curitiba, por considerar a estratégia eleitoral mais segura para a reeleição. Exemplo: a política ambiental, na qual o governo corre atrás dos prejuízos e continuará correndo por um bom tempo. Agora, sua política indigenista agride o grande legado do marechal Cândido Rondon, dos irmãos Villas Boas e de Darcy Ribeiro, entre outros. E pode reverter o crescimento da população indígena no Brasil, que é a medida do sucesso da estratégia de demarcação de suas terras.

Nesse rumo, é previsível o aumento de casos de suicídios, mortes por doenças e assassinatos de líderes indígenas em conflitos violentos com madeireiros e garimpeiros. Se isso de fato ocorrer, aliado à redução da população indígena, estará caracterizado um genocídio. Bolsonaro subestima a repercussão internacional que isso pode ter, assim como o papel do índio na formação da identidade nacional. Não se dá conta de que todo brasileiro fala a língua dos índios, na nossa culinária, na toponímia e até mesmo no hábito de tomar dois ou mais banhos por dia. No Brasil, as famílias miscigenadas são a maioria, raras não têm o arquétipo de uma “tataravó” índia que pitava no quintal e fazia beiju.

Mas o ponto mais fraco de Bolsonaro ainda é a economia. Herdou 13 milhões de desempregados e uma curva ascendente de desigualdade, na qual apenas 2,7% das famílias acumularam 20% do total da renda entre os anos de 2017 e 2018, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na sexta-feira. As famílias brasileiras tiveram uma renda média de R$ 5.426,70, porém, 23,9% delas viviam com um orçamento mensal de até dois salários mínimos. Esse percentual corresponde a um contingente com cerca de 44,8 milhões de pessoas em 16,5 milhões de famílias. Por possuírem os mais baixos valores recebidos, representam apenas 5,5% da renda nacional, ainda que as transferências governamentais respondam por 19,5% do total de renda do brasileiro.

Focada no equilíbrio fiscal, na desregulamentação do trabalho e na simplificação tributária, a política econômica de Bolsonaro aposta no mercado para enfrentar os problemas do trabalho e da renda, sem se dar conta de que o “tatcherismo” se esgotou e agravou a desigualdade no mundo. O melhor exemplo é a Inglaterra, país desenvolvido, cuja renda média está abaixo dos indicadores da União Europeia, que ainda tem regiões de médio ou baixo desenvolvimento. No seu livro Desigualdade, o que pode ser feito?, o economista britânico Anthony B. Atkinson mostra que é impossível combater a desigualdade sem a intervenção do governo e a mobilização da sociedade, isto é, poupadores, investidores, trabalhadores e empregadores. Acontece que o envelhecimento precoce do governo abriu esse debate e antecipou a principal agenda eleitoral de 2022, ao lado da defesa da democracia.

As duas classes

Existem duas classes sociais: a dos não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem
Milton Santos, brasileiro Nobel de Geografia

Dona Solange não morreu

Solange Hernandes foi a censora mais temida da ditadura militar. Chefe da Divisão de Censura de Diversões Públicas, decidia o que podia e o que não podia ser exibido no teatro, no cinema e na televisão. A tesoura estatal podava toda obra que, aos olhos dela, atentasse contra a moral e os bons costumes. Críticas ao regime, nem pensar: eram cortadas na raiz.

Na Nova Era, o governo quer voltar a dar a última palavra na produção cultural. A censura, extinta pela Constituição de 1988, ressurge nas formas de veto ideológico e asfixia econômica.

Um dos primeiros atos do bolsonarismo foi a extinção do Ministério da Cultura. De lá para cá, acumulam-se tentativas de interferência nas artes.

O presidente já anunciou que deseja impor um “filtro” à produção cinematográfica. “Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine”, ameaçou. Ele acusou o órgão de financiar “filmes pornográficos” e defendeu que o cinema brasileiro passe a exaltar “heróis brasileiros”. “Nem na ditadura isso ocorreu”, reagiu o diretor Bruno Barreto, que rodou “Dona Flor e Seus Dois Maridos” em pleno governo Geisel.

Em agosto, a Ancine suspendeu um edital que havia selecionado séries sobre sexualidade e diversidade de gênero. Com o veto, quatro produções perderam o direito a captar recursos no mercado. “Conseguimos abortar essa missão”, festejou o presidente, em live para seus seguidores.

Em outra frente, o governo implodiu a Lei Rouanet, principal mecanismo de financiamento do setor. O teto para a captação de recursos despencou de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão. O Planalto não apresentou nenhum estudo econômico que justificasse o corte.

A tesoura chegou até ao Itamaraty. A embaixada em Montevidéu vetou a exibição de um documentário sobre Chico Buarque. O chanceler Ernesto Araújo disse que a obra não era de “interesse” do governo.

A censura federal faz escola. Em Porto Alegre, a Câmara Municipal cancelou uma exposição com charges críticas a Bolsonaro. No Recife, a Caixa Cultural tirou de cena uma peça contra o autoritarismo. No Rio, o prefeito Marcelo Crivella enviou fiscais à Bienal do Livro para apreender um gibi com beijo gay.

A blitz do bispo ainda não tinha ocorrido quando Fernanda Montenegro posou para a revista “Quatro Cinco Um” fantasiada de bruxa, prestes a ser queimada numa fogueira de livros. O desconhecido Roberto Alvim, diretor de artes cênicas da Funarte, reagiu com fúria. Chamou de “sórdida” e “mentirosa” a maior atriz brasileira, que faz 90 anos na semana que vem.

Antes de assumir o cargo, Alvim convocou “artistas conservadores” a criarem uma “máquina de guerra cultural” para combater quem pensa diferente. Essa mentalidade macarthista está por trás do sistema de censura prévia instituído na Caixa Econômica Federal. A “Folha de S.Paulo” revelou que funcionários do banco passaram a vasculhar posições políticas e postagens em redes sociais antes de definir patrocínios.

Na nova cruzada autoritária, o diretor da Funarte e seus pares parecem buscar a notoriedade de Dona Solange, que virou personagem de músicas de Leo Jaime e Rita Lee. A chefe da DCDP não está mais por aqui, mas seus discípulos chegaram ao poder.

Paisagem brasileira

Araquem Alcântara

Falta rumo

Há dias nos quais escrever é um prazer. Nem sempre: hoje, por exemplo, este artigo me custou bastante. Por quê? Cansaço de uma noite mal dormida me fez sentir a velhice, o que em mim é raro. Mas há também motivos que nada têm a ver comigo. Dá certo desalento voltar aos temas que têm dominado o noticiário do cotidiano nacional: os enganos repetitivos (na verdade as crenças) do governo atual; a morte absurda de crianças alvejadas à bala ; as árvores que queimam na Amazônia e alhures, tanto por motivos cíclicos, como pela devastação criminosa em busca de discutível lucro... E por aí vamos, de pequenas e grandes tragédias à estagnação das ideias.


Por trás do “mesmismo” do dia-a-dia, vão se formando nuvens um tanto menos habituais e que podem trazer-nos maiores aborrecimentos. A mais difusa e também a mais ameaçadora delas diz respeito ao “estado do mundo”. Desde que Kissinger convenceu Nixon a normalizar a relação dos Estados Unidos com a China e os chineses, levados por Deng Xiao-Ping, se dedicaram a construir o “socialismo harmonioso “ (seja lá o que isso signifique), as apreensões de uma nova guerra mundial sumiram do mapa. A antiga União Soviética desabara, Cuba estava contida, a Coreia do Norte ameaçava mais a do Sul do que o mundo, a guerra entre a índia e o Paquistão se acalmara. Restava apenas o “Oriente Médio” e o norte da África como palcos de guerra, com os americanos bombardeando e conquistando o Iraque, a Europa fazendo o mesmo na Líbia. Crises que pareciam muito longínquas de nós, brasileiros.

Dava a impressão de que a “nova a ordem mundial”, por certo assimétrica, conteria suas desavenças nos limites das Nações Unidas, com uma ou outra ação militar “corretora”, sem abalar as estruturas internacionais de diálogo. São elas que começam a se romper no atual decênio. As ideias representadas por Trump encontram eco na realidade de uma China que de “copiadora” passou a criadora de novas tecnologias e até mesmo de uma Coreia do Norte, cujos mísseis ameaçam chegar à costa do Pacífico da América do Norte. Sem falar no renascimento da Rússia como potência militar que cobra seus “direitos” de vassalagem, incorpora a Criméia, invade terras da Ucrânia e produz temor nos nórdicos.

Neste novo quadro assistimos, ao mesmo tempo, a uma verdadeira revolução nas técnicas e nas relações produtivas. O mundo contemporâneo emprega cada vez mais tecnologias poupadoras de mão de obra e criadoras de grandes volumes de bens e serviços que se transformam em lucros nas mãos de poucos (inteligência artificial, robôs, revoluções na microbiologia, novas técnicas agrícolas e assim por diante). Em conjunto, elas permitem o prolongamento das vidas humanas, oferecem pouco emprego e, dado o regime social prevalecente, criam não mais “exércitos de reserva”, mas excedentes de mão de obra dispensáveis para o aumento da produção. Em suma um mundo bem diferente do sonho tanto dos liberais quanto dos marxistas.

Provavelmente é isso que, subconscientemente, está por trás a da reação “irracional” dos coletes amarelos na França, da desconfiança generalizada quanto à democracia representativa, da vontade de voltar ao isolamento, com o Brexit ou com a guerra comercial de Trump. Enfim com a ascensão de novos pretensos “homens fortes” que, pulando as instituições, voltariam a fazer o “bem do povo”.

Fossem só razões ideológicas e já seria um momento tenso. Mas há mais: os mercados financeiros mundiais começam a dar sinais preocupantes, refletindo a inquietação política e, sobretudo, a diminuição da produção, com a demanda fraca. Para responder à prolongada e profunda crise de 2008, os bancos centrais dos países desenvolvidos reduziram os juros dramaticamente e inventaram o “quantitative easing” (com injeções maciças de dinheiro nas economias). Que fazer agora se uma nova crise se apresentar, ainda que não tão grave como a anterior? Ora, os juros já estão baixos (em muitos lugares, são negativos). E a situação fiscal dos governos ricos não é de folga, limitando o arsenal de medidas para estimular a economia. No Brasil, ainda é possível reduzir os juros, mas o desaguisado das contas públicas deixa o Estado exaurido e sem capacidade para “puxar” os investimentos. Os sinais de nova crise lá fora se somam às dificuldades de sair dela aqui dentro.

É neste contexto que se torna imperioso, como eu costumava dizer quando exerci o governo, definir rumos. Mais do que isso: convencer o povo de que os rumos propostos são bons para o país e para as massas, sobretudo, para os mais pobres.

De uma coisa estou convencido: há que se colocar um ponto final na dinâmica de polarização que tomou conta do país. Até o STF se deixou enredar nela: os juízes discutem e brigam pelo adjetivo, dando ao país a impressão de que, uma vez mais, o formalismo vai se impor à substância. Quando não parecem não se dar conta das repercussões mais amplas das decisões tomadas.

Não nos esqueçamos de que os presidentes que marcaram nossa história recente (falando só dos que já estão mortos) agregaram, não dissolveram. Juscelino, mesmo enfrentando duas sublevações militares (as revoltas de Jacareacanga e Aragarças), pacificou o país e modernizou o setor produtivo e a infraestrutura do Brasil, somando capital nacional e estrangeiro.

E mesmo Vargas, apesar de ter chefiado um governo forte, repressivo mesmo, e que teve seus momentos de tensão, soube incorporar as massas urbanas e definir um rumo para a economia, nas condições da época. Percebeu que a guerra se aproximava e, embora houvesse negaceado com o Eixo, terminou por juntar-se aos Aliados. Cobrou preço, entretanto: a siderúrgica foi feita com empréstimos dos americanos.

Será que estaremos condenados nas próximas eleições presidenciais a votar em polos agarrados a ideologias mofadas? Ou teremos capacidade para unir o centro democrático e progressista para retomar, com a vitória nas urnas, o rumo de grandeza que o país necessita e merece.
Fernando Henrique Cardoso

Laranjal do PSL ganha um conteúdo presidencial

O caso do laranjal do PSL mudou de patamar. Fez escala na caixa registradora da campanha de Jair Bolsonaro. Ganhou, portanto, um conteúdo presidencial. De repente, a inexplicável permanência de Marcelo Álvaro Antônio no cargo de ministro do Turismo ganhou uma incômoda explicação.

Notícia veiculada pela Folha neste domingo informa que a Polícia Federal suspeita que parte da verba desviada de candidaturas femininas fakes pode ter abastecido um caixa dois compartilhado entre o ministro e o presidente nas eleições de 2018. Quer dizer: além de lavar as mãos, Bolsonaro pode ter ajudado a fazer desaparecer o sabonete.

A PF dispõe de um depoimento e uma planilha que apontam para a existência da caixa clandestina mútua. Haissander Souza de Paula, ex-assessor parlamentar de Álvaro Antônio, coordenador da campanha dele a deputado federal por Minas Gerais, disse em depoimento acreditar que "parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro".

Sintomaticamente, o diretor-geral da Polícia Federal, delegado Maurício Valeixo — aquele que Bolsonaro ameaçara de demissão —, esteve com o presidente no final da tarde de sexta-feira. A conversa ocorreu nas pegadas da revelação de que o ministro do Turismo fora indiciado pela PF e denunciado pelo Ministério Público.

O encontro não estava agendado. Mas o Planalto incluiu o nome de Valeixo na agenda presidencial, às 17h. Na véspera, o próprio ministro do Turismo tivera uma longa conversa com o presidente. Depois, foi confirmado no cargo. Se quiser salvar as aparências, Bolsonaro terá de afastar o ministro. Ou convencê-lo a sair.

Tarimbado em escândalos, o brasileiro vai adquirindo uma certa prática. Adapta-se à lógica da política. No fundo, sabe como tudo vai acabar, pois o Brasil não é mais um país imprevisível. Tornou-se tristemente previsível. Nele, os a maioria dos políticos opera na base do "um por todos, todos por huuummmmm".

Messias milagroso

A gente não vai perseguir ninguém, mas o Brasil mudou. Com dinheiro público não veremos mais certo tipo de obra por aí. Isso não é censura, isso é preservar os valores cristãos, é tratar com respeito a nossa juventude, reconhecer a família
Jair Bolsonaro

A instalação da loucura

Mia Couto tinha o microfone na mão, e falava sobre a importância de escutar o outro, quando um homem se ergueu entre o público que enchia o auditório da Livraria da Travessa, no Shopping Leblon, no lançamento d’ “O terrorista elegante”, livro que escrevemos a quatro mãos. O homem reivindicou a sua filiação à extrema direita, gritou alguma coisa sobre Bolsonaro (não entendi se contra ou a favor), e abandonou a sala, fazendo a saudação nazi, empurrado pelas vaias da plateia.


Horas mais tarde, jantando num boteco próximo, recordamos outros eventos tumultuosos. Enfrentei muitos, sobretudo em Angola, durante os anos mais sufocantes da ditadura. No lançamento d’ “O ano que Zumbi tomou o Rio”, em 2002, o mítico Comandante Juju, pai de Ondjaki, também ele escritor, pediu a palavra: “Desculpe”, disse com delicadeza, “mas vou fazer uma provocação”. Poderia ter dito, com a mesma delicadeza: “Desculpe, mas vou dar-lhe um tiro”. O livro, disse, era “uma mentira muito bem escrita”. E acrescentou: “Você mente deliberadamente ou por ignorância?”

Logo a seguir, o poeta Ruy Duarte de Carvalho levantou-se aos gritos, avançando contra mim na intenção de me espancar, o que teria feito, com grande competência, se outros escritores não o interceptassem a meio do percurso. Meses mais tarde, compareci ao lançamento de um livro de Ruy. Ele abraçou-me. Desculpou-se: “Sabes como é, emociono-me.” Ruy, que morreu na Namíbia em 2010, deixou uma obra poderosa, originalíssima, na qual a poesia e a antropologia confluem num mesmo amor pelos povos nômades do extremo sul de Angola.

Pouco antes desse episódio, um jornal muito popular, o “Folha 8”, publicara uma pretensa investigação sobre o meu passado, tentando provar que em 1975, no início da guerra civil, eu teria sido violado por um batalhão de guerrilheiros. A notícia circulou durante anos e ainda hoje, vez por outra, alguém se aproxima de mim com um ar pesaroso: “Lamento aquilo que lhe aconteceu, lá atrás, mas você tem de ultrapassar isso. O que passou, passou.” Ultrapassar? Foi um batalhão, caramba!

O que Mia estava tentando dizer, no momento em que foi interrompido, é que a situação atual no Brasil nos lembra muito os meses da instalação da loucura, em Angola e Moçambique, pouco antes do início das respetivas guerras civis: a divisão da sociedade e das famílias; a impossibilidade do diálogo; a deslegitimação das instituições; a propagação de boatos e de notícias falsas; a normalização do absurdo.

Acredito, como Mia Couto, que a única forma de contrariar o alastramento da insensatez e da violência passa por restabelecer o diálogo. Por muito difícil que possa parecer, é imperioso parar e ouvir o outro. Nenhum político é tão mau, ou tão bom, que justifique que, por divergências quanto à sua maldade, ou bondade, um filho deixe de falar com o seu pai. Nada justifica uma guerra civil.

Em Angola, depois que a guerra terminou, testemunhei muitas vezes a aproximação entre pessoas que haviam combatido umas contra as outras. Assisti ao espanto de antigos inimigos no instante em que se descobriam próximos, partilhando os mesmos gostos e paixões, rindo das mesmas piadas. “Afinal éramos família e não sabíamos” — disse-me um general. Infelizmente, entre o início da loucura e o regresso da sensatez, milhares e milhares de pessoas desapareceram no processo.
José Eduardo Agualusa

sábado, 5 de outubro de 2019

Reunião no Vaticano trata Amazônia como problema mundial

"Estamos todos preocupados com os grandes incêndios que se desenvolveram na Amazônia. Oremos para que, com o empenho de todos, sejam controlados o quanto antes." Com essas palavras, o papa Francisco se posicionou, em agosto passado, sobre as queimadas na maior floresta tropical do mundo.

A partir deste domingo, ele recebe representantes da Igreja e da sociedade civil no Vaticano para o Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, cujo tema da reunião até 27 de outubro é "Amazônia – Novos caminhos para a Igreja e uma ecologia integral".

A destruição ambiental no gigantesco bioma de 7,5 milhões de quilômetros quadrados não é o tema principal oficial. A escassez de padres, que provavelmente será combatida pelo relaxamento do celibato, bem como novas formas de evangelizar o vasto território, estarão em primeiro plano. Mas é claro que, pelo menos desde a encíclica ambiental Laudato Sí, publicada pelo papa em 2015, ficou claro que ele está preocupado com a destruição ambiental e as mudanças climáticas.

Nesta quinta-feira, ele afirmou no Vaticano que a proteção dos direitos humanos e do meio ambiente na Amazônia não é apenas uma questão que diz respeito a somente um povo ou nação, "mas a todo o mundo". "Por exemplo, a Amazônia que queima não é apenas um problema daquela região, é um problema mundial", apontou o pontífice.

Em Brasília, capital do país que abriga dois terços da Floresta Amazônica em seu território, se verá se as palavras papais encontraram ouvidos. Pois, durante meses, o governo do presidente Jair Messias Bolsonaro tem se mostrado preocupado com uma suposta ingerência de potências estrangeiras na Amazônia brasileira.

E isso inclui o Vaticano. "Achamos que isso é interferência em assuntos internos do Brasil", declarou em fevereiro último o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, diante das esperadas discussões sobre os direitos dos povos indígenas e a proteção ambiental na Amazônia. Consta que Heleno ordenou até mesmo que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) espionasse as reuniões dos bispos.

Barco-hospital Papa Francisco navega no Amazonas atendendo ribeirinhos
Na quinta-feira, o cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e relator da assembleia episcopal, deixou claro mais uma vez que o Vaticano não questionaria a soberania do Brasil. "Sobre isso, há até uma declaração oficial dos bispos brasileiros: a soberania brasileira é intocável. O que não quer dizer que o resto do planeta não possa falar nada sobre o que acontece na Amazônia."

O presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Dom Roque Paloschi, confirma tal posição da igreja. "Nós concordamos plenamente que não é missão do Vaticano interferir num país. A missão da Igreja é anunciar o reino e denunciar tudo aquilo que impede a vida e a dignidade de todos e da criação", afirma o arcebispo metropolitano de Porto Velho (RO) em conversa com a DW.

"O sínodo vai ter o profundo respeito a cada país, a autonomia e soberania de cada país, e não estamos preocupados com esse ou aquele governo. Tanto que o sínodo foi convocado em outubro de 2017, quando não se tinha previsão de que Jair Bolsonaro seria o atual presidente do Brasil", lembra Paloschi. "Nossa preocupação é buscar os novos caminhos para a Igreja e viver essa ecologia integral."

O arcebispo diz, no entanto, que não se pode evitar, de maneira nenhuma, destacar a crescente violência contra os povos indígenas no Brasil. Um relatório do Cimi, divulgado há apenas alguns dias, lista 135 assassinatos de indígenas em 2018 e uma onda de invasões a terras indígenas desde o início de 2019.

"Nós podemos dizer que a situação é desesperadora e humilhante e, acima de tudo, revela uma irresponsabilidade por parte dos governos, que têm alimentado esta onda de incêndios, queimadas, para se efetuar a invasão e ocupação de terras públicas e, de modo muito especial, se aproveitar e ocupar terras indígenas já demarcadas e homologadas", afirma o arcebispo de Porto Velho.

O papel da Igreja como defensora do meio ambiente ameaçado e dos direitos de indígenas e quilombolas também recebe destaque dentro da sociedade civil. "O Conselho Missionário Indigenista (Cimi) e a Pastoral da Terra (CPT) chegam aonde quase o Estado não chega. E o CPT até leva ajuda jurídica a estas populações, faz intermediação de conflitos, principalmente em disputa de terra, coisa que este governo não faz. Este governo incita o conflito", conta à DW Marcio Astrini, do Greenpeace Brasil.

"A mensagem de paz da Igreja é importante, para mostrar que o que está acontecendo não é tolerável e que a gente precisa de um ambiente menos estressado, menos ácido, menos tóxico", aponta Astrini. "O papa tem falado muito da Amazônia, ele é um dos maiores líderes mundiais. Mas infelizmente, enquanto o Papa está rezando pela Amazônia, nos temos, como umas semanas atrás, o Chefe da Casa Civil fazendo reuniões com garimpeiros, que invadiram reservas indígenas."

Na quinta-feira, foi anunciado que, ainda em outubro, o governo vai apresentar uma proposta para regulamentar a exploração de minérios em áreas indígenas. Além disso, na terça-feira, Bolsonaro prometeu a representantes dos garimpeiros que iria defender os interesses deles, incluindo a legalização dos garimpos na Amazônia.

Ele afirmou que o interesse de potências estrangeiras não é a proteção das pessoas e do meio ambiente. "O interesse na Amazônia não é no índio nem na porra da árvore. É no minério", afirmou Bolsonaro.

Bolsonaro não tem a menor ideia da Amazônia, disse o bispo emérito Erwin Kräutler, há alguns dias. A Igreja deve lutar contra os esforços do governo para que a Amazônia seja explorada por empresas nacionais e estrangeiras, afirmou na ocasião Kräutler, que liderou a enorme Prelatura Territorial do Xingu de 1981 a 2015. "É o compromisso da Igreja de contribuir para a defesa e preservação da Amazônia."

O bispo franciscano alemão Johannes Bahlmann enfatiza que certamente se pode encontrar um denominador comum com o governo Bolsonaro em projetos concretos. O bispo da Diocese de Óbidos foi a força motriz por trás do navio-hospital Papa Francisco, que foi enviado para a Amazônia há algumas semanas, o que para Bahlmann é um exemplo concreto de como a Igreja pode ajudar o povo da região amazônica.

No Vaticano, a questão da saúde também estará na agenda do Sínodo para a Amazônia. Com o navio-hospital, a Igreja já havia percorrido novos caminhos, afirma Bahlmann. Segundo ele, isso despertou o interesse do governo. O Ministério da Saúde, conta, não só elogiou o projeto franciscano, como também "expressou o desejo de construir mais diversos navios de assistência hospitalar - por isso é algo muito positivo. "
Deutsche Welle

Bolsonaro e a política do ressentimento

O historiador americano Francis Fukuyama voltou ao centro do debate da ciência política no ano passado, ao publicar, algumas semanas antes da eleição de Jair Bolsonaro, um livro em que defende que, por trás da eleição de líderes populistas de direita mundo afora, está o ressentimento de grupos que viram sua dignidade afrontada. Embora o fenômeno Bolsonaro não seja abordado em Identidade — A demanda por dignidade e a política do ressentimento (tradução livre, o livro ainda não tem previsão de lançamento no Brasil), o presidente é personagem das aulas de Fukuyama sobre democracia desde 2017, quando ele tratava da ascensão da direita populista em diferentes países. O professor, que dirige na Universidade Stanford, na Califórnia, o Centro de Democracia, Desenvolvimento e Estado de Direito, coloca Bolsonaro na mesma linhagem que o americano Donald Trump, o russo Vladimir Putin, o húngaro Viktor Orbán, o turco Recep Erdogan e o filipino Rodrigo Duterte. Em uma conversa recente que tivemos em sua sala em Stanford, Fukuyama disse ver na eleição de Bolsonaro a mesma política do ressentimento que levou seus equivalentes ao poder. O “Brasil acima de tudo” resumiria a aposta na volta de um nacionalismo idealizado em grande parte nos anos da ditadura, em que valores conservadores tinham um peso maior, a elite política e econômica nacional não havia assaltado os cofres do país (pelo menos não com seus atos publicamente conhecidos) e a violência urbana não era uma ameaça tão grande a propriedades e vidas.


Fukuyama contou que não teria escrito Identidade se não fosse Donald Trump. Veio dali a maioria de seus insights no livro. As pesquisas para entender as razões do voto dos americanos em Trump mostram que muitos dos que optaram pelo cabelo alaranjado do bilionário recordavam tempos em que viam seus lugares na sociedade mais seguros. A expectativa era que, por meio de suas ações, Trump fosse capaz de “make America great again”.

Embora distantes no tempo e no espaço, os sentimentos que os eleitores rurais dos Estados Unidos nutrem pelas elites das costas Leste e Oeste americanas e seus “amigos na grande mídia”, e de como se veem excluídos por eles, em muito se assemelham à forma como os apoiadores de Putin veem a arrogância e o desdém das elites ocidentais para com a Rússia. Putin explora essa demanda por dignidade que parte dos russos sente ao falar de como a Europa e os Estados Unidos se aproveitaram da fraqueza da Rússia durante os anos 1990 para levar a Otan até suas fronteiras. Ele também detesta a atitude de superioridade moral dos políticos ocidentais e, como disse certa vez numa conversa com Barack Obama, não quer ver a Rússia ser tratada como um ator regional fraco, mas como uma potência mundial.

Na Hungria, Viktor Orbán declarou em 2017 que seu regresso ao poder marcava o ponto em que os húngaros haviam “decidido recuperar o país”, “recuperar a estima” neles próprios e o que chamou de “nosso futuro”, expresso em uma crítica à União Europeia e à imigração. Seu partido, o Fidesz, entende que a identidade nacional húngara se baseia na etnicidade húngara, em risco diante da integração do continente e da mistura com outros povos.

Fukuyama também vê no surgimento de Osama Bin Laden um exemplo da política do ressentimento e lembra os relatos da mãe do terrorista, que descrevera uma cena em que Bin Laden, com 14 anos, aos prantos, assistia na TV à Palestina humilhada. Mais tarde, a cólera pela humilhação dos muçulmanos galvanizou o engajamento de centenas de jovens que se voluntariaram para lutar ao lado da Síria em nome de uma religião que eles acreditavam ser atacada e oprimida ao redor do mundo. A recriação do Estado Islâmico traria de volta a glória de uma civilização islâmica do passado, com sua dignidade restabelecida.

No livro, Fukuyama vê muitos integrantes da classe média global como os ressentidos, que “apontam um dedo acusador para cima, às elites, para as quais são invisíveis, mas também para baixo, para os pobres, que eles acham que não são merecedores e estão sendo indevidamente favorecidos”.

No Brasil, do qual o cientista político não trata em seu livro, o ressentimento contra a inclusão de pobres fica evidente em muitos dos discursos críticos ao Bolsa Família e ao acesso inédito a alguns bens de consumo garantido pelos anos do PSDB e do PT no poder. Houve, sim, quem se incomodasse em ver universidades antes exclusivas serem compartilhadas por bolsistas do ProUni e outros tantos que não gostaram de dividir voos com pessoas que só viajavam de ônibus.

O ressentimento contra os crescentes direitos de minorias, como os homossexuais, está expresso em propostas que tramitam no Congresso, a exemplo da criação do Dia do Orgulho Hétero, e em falas como a do presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio de Noronha, que em dezembro de 2017 disse que “heterossexual agora está virando minoria”, que “não tem mais direito nenhum”.

Tudo isso constitui uma parte considerável da massa que votou em Bolsonaro. É claro que não se pode ignorar que muitos votaram acreditando na promessa de um país menos corrupto ou pelo simples desejo de querer algo diferente do PT. Mas, entre os muitos que queriam algo diferente do PT, existiam os que queriam retornar às glórias de um passado que, ao menos na cabeça deles, existiu. Algumas manifestações de bolsonaristas em redes sociais deixam explícita essa visão. “Hoje o povo brasileiro dá um novo grito de independência. O Brasil se liberta da servidão a um partido, a uma ideologia e a um sistema que nada fizeram senão sugar as energias da nação e perverter a sociedade”, escreveu o assessor internacional de Bolsonaro, Filipe Martins, no dia da vitória do presidente no segundo turno.

O discurso de Bolsonaro na ONU também foi na mesma linha, ao falar de como estavam em risco, antes de sua eleição, os “valores familiares e religiosos”. Falou ainda na perseguição a cristãos e sobre como haveria, também antes de sua chegada ao poder, uma “ideologia perversa” infiltrada na cultura, na educação e na mídia, indo “contra a célula mater de qualquer sociedade saudável, a família”, “pervertendo até mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica”.

O livro de Fukuyama aponta ainda outro alvo dos ressentidos: o politicamente correto — que Bolsonaro também atacou em seu discurso na ONU. E lembra como, nascido a partir da reivindicação de políticas identitárias de esquerda, o politicamente correto, ou melhor, sua negação, tornou-se uma pauta identitária da direita. Ser politicamente incorreto passou a ser uma marca do que é ser de direita. “Trump foi um praticante perfeito da ética de autenticidade que define nossa era: pode ser mendaz, malévolo, preconceituoso ou pouco presidencial, mas pelo menos diz o que pensa”, escreveu, numa frase em que o sujeito poderia ser perfeitamente, em vez de Trump, um certo brasileiro.

Brasil do futuro


Amanhã será outro dia

Às vezes eles aparecem atirando, intimidando, matando, como tigres enfurecidos. Podem, porém, chegar de mansinho, deslizando sem fazer barulho, como cobras. São os milicianos. Em todos os casos, oferecem proteção contra males considerados insuportáveis: bandidos comuns e traficantes. As milícias têm longa tradição no país. Nas zonas rurais, outrora, apareciam sob a forma de jagunços e capangas. Aterrorizavam os que lutavam contra a violência exercida pelos que tudo tinham e podiam: os senhores de terra. Nas cidades, existia o fenômeno dos chamados justiceiros: faziam justiça com as próprias mãos, torturando e matando, e não foram poucos os momentos em que pelo menos parte da sociedade os cobria com respeito e fama.


Nos anos da ditadura, sob a sombra da cumplicidade do Estado, e também nos anos que se seguiram, sob o regime democrático, continuaram, no campo, a barbarizar posseiros, pequenos proprietários e nações indígenas. Nas cidades, constituíram os “esquadrões da morte”. Investigavam, prendiam, julgavam, condenavam e executavam.

Depois da Constituição de 1988, os governos eleitos pelo povo, infelizmente, não estimaram a gravidade do processo. Imersos e envolvidos em jogos conciliatórios, pareciam não ver a cobra se agigantando.

Nos anos recentes, no quadro da deliquescência do Estado, sobretudo em bairros populares, nas periferias das grandes cidades, a cobra cresceu e engordou. Já começa a se aproximar dos bairros de classe média e de gente abastada. Sua principal oferta, como sempre, é proporcionar segurança. Um paradoxo, pois, sob o domínio do arbítrio, o que reina é a insegurança. Pouco a pouco, assenhoram-se de outros serviços: gás de botijão, água mineral, eletricidade, internet, transporte alternativo. Impõem preços de monopólio e intimidam e matam os que protestam. Na etapa atual, em novas metástases, almejando o poder político legal, começaram a eleger vereadores e deputados, aproximando-se de áreas centrais do poder.

De sorte que as milícias se tornaram hoje uma das principais ameaças à democracia brasileira. É o que nos diz Cid Benjamin, em “O Estado policial”, muito mais que um livro, um manual de sobrevivência nestes tempos sombrios.

O autor relaciona, analisa e interpreta este e outros perigos. Começando pelos dispositivos legais. Entre outros, os mais temíveis: a Lei de Segurança Nacional que, desde sua primeira edição, em 1935, não tem feito mais do que proteger o Estado contra a cidadania. E a Lei das Organizações Criminosas, editada por uma distraída Dilma Rousseff, criminalizando os movimentos populares e ameaçando os que se atreverem a desafiar a Ordem.

A internet e seus instrumentos — celulares, computadores, notebooks e tablets — merecem capítulo próprio. Promessas de liberdade entrelaçadas com mecanismos de controle que podem fazer desta geração a última a dispor de privacidade e liberdade. Como e quando usar ou não estas engenhocas, evitando-se a queda nas malhas de eventuais perseguidores, eis o desafio. Como driblar câmeras, microfones e outros mecanismos de vigilância que se somam a técnicas mais antigas: as infiltrações policiais, o uso de “cachorros”, os dedos-duros a serviço, e as “montarias”, que podem, sem querer, levar à perda os próprios companheiros.

Nestas engrenagens, menção especial merece a tortura, velha tradição nacional, política de Estado ao tempo das ditaduras, recurso permanente contra negros e pobres, estes suspeitos de sempre.

Em linguagem acessível e convincente, sem deixar de recorrer, às vezes, ao humor, antítese da sinistrose, Cid Benjamin discute caminhos e opções, oferece dicas, gingas de corpo, rotas de fuga. Trata-se de defender as lideranças e os movimentos populares de ataques que já vêm sofrendo e que podem ainda piorar. Mas os prognósticos do autor são otimistas. Vai passar. E lembra o poeta: amanhã será outro dia. O recurso dos que mantêm esperança: o futuro será melhor. O problema, como advertiu Tocqueville, é que o futuro sempre chega tarde demais.

Sobrevida de ministro suspeito apodrece governo

Em matéria de moralidade, Jair Bolsonaro conseguiu transformar o erro num hábito. O presidente não perde a oportunidade de perder oportunidades. Quando o ministro apareceu no noticiário como responsável pelo laranjal de candidaturas femininas fakes, o presidente alegou que não afastaria ministro com base em notícia de jornal. Quando a Polícia Federal abriu investigação, disse que inquérito não era sentença. Agora vieram o indiciamento da PF e a denúncia do Ministério Público à Justiça. O ministro foi formalmente acusado de falsidade ideológica, apropriação indébita e associação criminosa. Mas o capitão alega que é preciso aguardar o desfecho do processo.

Em política, quem escolhe o momento exato economiza muito tempo. Nesse escândalo do laranjal do PSL, Bolsonaro dormiu no ponto. O tempo de que o presidente dispunha para afastar o ministro não existe mais. Agora só existe o passar do tempo. E quanto mais o tempo passa, quanto maior for a sobrevida concedida ao ministro, maior será também o processo de apodrecimento do próprio governo.

Eu costumo dizer que, nas questões éticas, Bolsonaro opera em duas velocidades, ambas insultuosas. O presidente é intelectualmente lento e moralmente ligeiro. A lentidão intelectual faz com que Bolsonaro demore a perceber que sua inação faz do discurso de campanha um estelionato eleitoral. A ligeireza moral leva Bolsonaro a tratar os auxiliares em litígio com a lei com a mesma condescendência que dispensa ao filho Flávio Bolsonaro, encrencado num caso de peculato e lavagem de dinheiro.

Nesse contexto, o ministro Sergio Moro, que funcionaria como filtro moral do governo, ganha um novo sentido para permanecer no Ministério da Justiça. O ministro incorpora-se à paisagem de Brasília como uma espécie de atração turística. Ministros encrencados, como o do Turismo —que não é o único, diga-se—, frequentam as reuniões ministeriais ao lado de Moro como se estivessem no mirante das cataratas do Iguaçu. Sabem que é perigoso. Mas o perigo é apenas presumido.

Como ousa?

A fuga da realidade no discurso de Bolsonaro na Assembleia-Geral da ONU causou apreensão. Como o chefe de Estado brasileiro é capaz de produzir, perante representantes de 192 países, um pot-pourri cujos assuntos desconexos têm um elemento comum: a fantasia?

Por sua fala, vive-se uma cruzada em defesa dos cristãos contra os invasores de almas para sequestrar Deus e destruir a família, carregados de ideologias. Além da convocação para a guerra santa, o presidente disse sobre a Amazônia: “Ela não está? sendo devastada e nem consumida pelo fogo, como diz mentirosamente a mídia. Cada um de vocês pode comprovar o que estou falando agora”.

Não pretendo alistar-me no exército de Bolsoleone na luta contra os imaginários destruidores dos valores ocidentais cristãos, mas aceito o desafio de saber o que acontece na Amazônia. Os relatos de órgãos oficiais e de ONGs, há décadas monitorando a região, preocupam.


Já em 1981 o geógrafo Antonio Giacomini Ribeiro (Acta Amaz. vol.11 n.º 2 Manaus) observava que o envio de umidade para a atmosfera decorria principalmente da evapotranspiração, antes da chuva, por intensa atividade de fotossíntese e na chuva antes de a água atingir o solo. E alertava o geógrafo que a criação das nuvens tipo “u cumulus esfarrapadus”, propícias para chuvas, ocorre na floresta densa e nem sequer se dá em áreas de campo e desmatamentos.

Esse fato é importante, pois se constatou, ao longo do tempo, que a Amazônia produz metade de suas próprias chuvas, formando um ciclo hidrológico fechado, cabendo a pergunta de Elton Alisson, da Fapesp: qual seria o nível de desmatamento a partir do qual o ciclo hidrológico amazônico se degradaria?

Respondem a essa pergunta os renomados professores Thomas Lovejoy e Carlos Nobre, na revista Science Advance e no site de notícias Virtù. Explicam que a Floresta Amazônica depende do ciclo hidrológico que ela mesma produz, havendo dessarte um nível de desmatamento além do qual esse ciclo perde força a ponto de não mais produzir a chuva necessária para a vida dos ecossistemas da floresta tropical.

Lovejoy, então, esclarece que ele e Carlos Nobre, diante de circunstâncias naturais e de intervenção humana, reavaliaram para baixo a porcentagem de desmatamento a partir da qual o ecossistema amazônico passaria do ponto de não retorno, sendo o tipping point entre 20% e 25%. E o pior: “O ponto de não retorno está sendo atingido. Esta situação uma vez instalada não pode mais ser revertida. Uma vez quebrado o ciclo hidrológico, o ecossistema amazônico entra em colapso e não mais pode ser recuperado por medidas de preservação”, havendo o perigo iminente de a Amazônia vir a ter apenas vegetação típica do cerrado e, por ricochete, causando seca no Sudeste.

Com a participação de cientistas brasileiros e estrangeiros, coordenado pelo climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência e Tecnologia, pesquisa sobre o clima na Amazônia e o que pode acontecer pelo desmatamento em grande escala (Frontiers in Earth Science, com o título Changes in Climate and Land Use Over the Amazon Region) concluiu: “Os efeitos combinados da seca e do desmatamento, juntamente com o fogo, podem ampliar os impactos e causar o colapso do ecossistema da floresta tropical” (www.cemaden.gov.br/impactos-na-amazonia).

Entre 1o de janeiro e 29 de agosto de 2019 o Inpe detectou 45.256 focos de calor no bioma Amazônia, o maior já registrado desde 2010. Esse aumento expressivo de focos, comparado a anos anteriores, se verificou em praticamente todas as categorias fundiárias; e apesar da proteção ambiental as unidades de conservação em 2019 mostraram aumento surpreendente, com o dobro dos focos registrados em relação à média dos últimos oito anos, com concentração em determinadas unidades, como a Floresta Nacional do Jamanxim.

Conforme noticia a WWF Brasil, na Amazônia 31% dos focos de queimadas registrados até agosto deste ano localizavam-se em áreas que eram floresta até julho de 2018, conclusão essa fruto da análise feita sobre focos de queimadas no bioma, com base em séries históricas de imagens de satélite e em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Outro dado trazido pela WWF Brasil é significativo: a área com alertas de desmatamento em agosto foi de 1.394 km2, um valor 120% maior que o do mesmo mês em 2018. Somente nos oito primeiros meses de 2019 a área total com alertas de desmatamento foi de 6 mil km2, 62% mais do que o observado no mesmo período em 2018.

Conforme matéria do site G1, Ane Alencar, uma das maiores especialistas em incêndios na Floresta Amazônia, diretora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, diz: as queimadas aumentaram por causa do desmatamento, “é uma relação direta”, pois, quando se desmata uma área para pastagem ou agricultura, cabe se livrar daquela biomassa. Essa ligação entre desmatamento e queimada é acentuada em outra entrevista, disponível em https://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/o-governo-nao-pode-espalhar-o-fogo-na-amazonia/.

Em setembro, com atuação do Exército, reduziu-se um pouco a queimada, mas o desmate, ação ilegal que antecede o fogo, persiste elevado.

Estes dados impõem recorrer à expressão de Greta Thunberg: como ousa, presidente?

O futurismo chegou atrasado ao Brasil

O futurismo foi um movimento artístico criado pelo poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti em 1909, com um manifesto explosivo publicado na primeira página do jornal francês “Le Figaro”. Os futuristas detestavam tudo que consideravam velho, antigo e passado — museus, bibliotecas, tradições, academias, o culto à beleza e à natureza — e adoravam as novidades do século XX — as multidões, o automóvel, a velocidade, as fábricas, as máquinas, o avião, o cinema, a fotografia — “assim como no século XXI somos deslumbrados com as tecnologias digitais”, como observa Jason Tércio na esplêndida biografia do modernista Mário de Andrade, “Em busca da alma brasileira”.

Surpreendia no futurismo, além de suas pinturas, desenhos, textos e músicas incompreensíveis, o encanto pelo militarismo, as armas, o patriotismo e a guerra, em contradição com a sua proposta de uma nova arte, contra tudo que aí está. É bizarro que um movimento radicalmente libertário e anárquico glorificasse a força bruta, a disciplina e a xenofobia contra o humanismo, o racionalismo e o iluminismo. Esses italianos deviam estar muito loucos, o haxixe, a cocaína e o ópio eram livres na Europa da Belle Époque...


Donald Trump não sabe, mas é um futurista. Seu desprezo pelas artes, pela natureza, pela história e pela cultura combinam com seu belicismo, seu militarismo, seu ultranacionalismo e sua intolerância autoritária. O futurismo americano se nutre da fartura econômica.

No Brasil endividado, o futurismo chegou atrasado, 110 anos depois do manifesto de Marinetti, que, não por acaso, veio ao Brasil em 1936 para fazer conferências e propaganda do fascismo como representante do governo Mussolini.

Nosso futurismo é passadista, com revisões históricas falsificadas, nostalgia autoritária, guerra à liberdade individual, devoção ao Estado, crença em teorias anticientíficas e mitos religiosos, no poder das armas e do militarismo, confirmando a máxima do professor Pedro Malan: “No Brasil até o passado é incerto.”
Nelson Motta

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Brasil na jaula


Propaganda sobre pacote de Moro chega tarde

A solenidade de lançamento da campanha publicitária sobre o pacote anticorrupção e anticrime organizado de Sergio Moro ocorreu numa conjuntura crivada de ironias. A primeira ironia é que o governo tenta esboçar o futuro do combate ao crime numa hora em que o Supremo Tribunal Federal se ocupa de desfazer sentenças passadas. Ao discursar, Bolsonaro privilegiou a segurança pública, não a corrupção. E rendeu homenagens aos policiais que matam mais. Moro, sem desprezar o tema da violência, deu ênfase à necessidade de aprimorar o combate à corrupção.

A campanha do governo fala de mudanças legislativas para melhorar ações futuras. O problema é que a recente decisão do Supremo de reconstituir o passado de sentenças já julgadas transforma a campanha oficial num novo exemplo de dinheiro público jogado pela janela. E faz de Sergio Moro um orador de conversa mole.



Os planos que o ministro pretendia aprovar no Congresso em seis meses tornam-se ainda mais oníricos quando se recorda que o seu chefe é um presidente da República cujo filho, Flávio Bolsonaro, foi superblindado por duas liminares do Supremo, uma do ministro Dias Toffoli, outra de Gilmar Mendes. Liminares que suspenderam processo em que o primeiro-filho era investigado por suspeita de peculato e lavagem de dinheiro.

Num cenário assim, o presidente tende a se aliar ao bloco de culpados e cúmplices do Congresso que esvazia o pacote de Moro e trama para desligar investigações da tomada. Para retirar o seu projeto do limbo, Moro teria de dialogar no Congresso com gente que merece interrogatório, não diálogo. Isso num momento em que a atuação do próprio ministro como ex-juiz da Lava Jato está sob questionamento. Num ambiente assim, é impossível ser otimista em relação ao futuro do combate à corrupção no Brasil.

Incentivo de Bolsonaro à matança policial ofende vítimas de tiroteios

Jair Bolsonaro lançou oficialmente seu programa de incentivo à carnificina generalizada. Num evento para divulgar a campanha publicitária do pacote de projetos do ministro Sergio Moro, o presidente ignorou quase todas as propostas objetivas e disse, basicamente, que a polícia deveria matar mais.

A ampliação das circunstâncias em que agentes armados podem atirar sem sofrer punição é uma conhecida fixação de Bolsonaro. Além de refletir um desprezo total pela inteligência nas políticas de segurança pública, o discurso ofende vítimas de violência policial, de balas perdidas e de grupos de extermínio.

O presidente falou por dez minutos na cerimônia realizada nesta quinta. Gastou 40 segundos com ações efetivas do governo, como a transferência de presos perigosos para regimes de isolamento. No resto do tempo, exaltou o bangue-bangue.


Bolsonaro reclamou da prisão de policiais acusados de excessos em operações. Disse que visitou alguns e concluiu: "Tinha culpado? Tinha, mas também tinha muito inocente".

Seu histórico mostra que ele não sabe fazer essa distinção. No evento, falou com orgulho das homenagens que já fez a agentes de segurança. Um dos agraciados, em 2005, foi o policial Adriano Nóbrega. Ele acabara de ser condenado por assassinar um homem que havia denunciado PMs por extorsão. 

Hoje, é apontado como chefe do maior grupo de matadores de aluguel do Rio.
O presidente diz que a lei aplicada aos policiais deve ser mais branda para que "seja temida pelos marginais, e não pelo cidadão de bem". Ele poderia dizer como enquadra a menina Ágatha Félix, que levou um tiro nas costas durante uma operação há 13 dias. A revista Veja revelou que PMs tentaram roubar a bala que a matou para evitar punições.

A flexibilização das regras não dá segurança a policiais sérios, pois a lei já protege quem mata em legítima defesa. Por outro lado, a mudança pode amparar quem usa farda para praticar crimes e agentes que atiram primeiro para perguntar depois.

A verdade apud Bolsonaro

Era uma vez um país onde o presidente da República descobriu que bom mesmo era a campanha, os palanques, as palmas, os Vivas!, a alegria de ouvir ‘Mito!, Mito! Mito!’.

Governar, ficar atrás de uma mesa de trabalho, se aborrecendo com decisões que tinha que tomar, lendo e aguentando as críticas que recebia, achou muito chato. Um trabalho pra lá de maçante. Não era bem isso que ele pretendia quando fez o possível e o impossível para ser eleito.

Então ele armou um palanque no portão do palácio onde residia e por onde passava, diariamente, ao sair de casa e onde encontrava, sempre, admiradores entusiasmados e turistas encantados com o fato de estar vendo e ouvindo o presidente da República. O palanque passou a ser seu lugar favorito. Se fosse possível, ele passaria ali o dia todo... Nada lhe seria mais simpático.

Logo a Imprensa descobriu que ali era o melhor local para encontrar o presidente e ficar sabendo como andava seu humor. Aquele passou a ser o ponto de encontro, dos mais animados, do capitão com a Imprensa, sempre ágil em descobrir novidades.



Anteontem, ao passar por esse palanquete, os jornalistas logo viram que o humor do capitão estava dos mais amargos. Foi assim que ele se dirigiu aos representantes da Imprensa: "não vou falar com vocês enquanto vocês não noticiarem o que de verdade aconteceu na abertura da Assembleia-Geral da ONU". 

Pausa: o que será que ele quis dizer com isso? Será que ele se esqueceu que tudo foi filmado e transmitido ao vivo e que os brasileiros puderam ver e ouvir tudo que ele disse? Será que ele deseja que a Imprensa crie uma nova narrativa, que fuja inteiramente da realidade?

Bem, por mais que seus filhos e seus apoiadores desejem isso, de coração, vai ser difícil conseguir, pois há testemunhas de peso. Além dos representantes de todos os países que lotavam o plenário da ONU, a imprensa estrangeira viu, ouviu, traduziu e filmou tudo o que ele disse e sabe perfeitamente o quanto ele foi agressivo e infeliz ao falar em nome do Brasil.

Foi, sem dúvida, o pior pronunciamento de um chefe de Estado brasileiro ali, naquela ocasião que tem tudo para ser o momento mais iluminado do Brasil na ONU. Basta olhar a expressão dos chefes de Estado mesmerizados pelo som de seus fones de ouvido.

A cada nova frase do discurso, eu ficava tensa à espera de vaias, ou de abandono do plenário, ou de risos incontroláveis. Mas a diplomacia tem essa grande vantagem: ensina como deve ser o comportamento diante de todo tipo de discurso, do mais brilhante ao mais infeliz. O máximo que se permite é o tipo de aplauso de Angela Merkel, as quatro palmas lentas e de uma ironia inconfundível.

Bolsonaro atacou os governos brasileiros que o antecederam e gabou-se de tirar o Brasil das garras do socialismo; condenou países, que não nominou, a respeito de suas opiniões sobre a Amazônia; acusou a ONU, que o recebia com fidalguia naquele momento, de “perverter a identidade biológica” quando foi a favor da diversidade de gênero.

Tudo isso após alegar que traria a verdade ao plenário da ONU. Pena que ele pouco tenha lido, sobretudo a obra magnífica da Winston Churchill. Pois se tivesse lido saberia que “A verdade é incontestável. A maldade pode atacá-la, a ignorância dela escarnecer, mas ao fim, lá estará ela, impávida.”

A História, no futuro, nos dirá se essa campanha estendida no palanque do portão do Alvorada foi boa ou má para o Brasil e para seu presidente, o ex-capitão do Exército.

Um dia, assim espero, o capitão Bolsonaro encontrará a verdade neste pensamento de Fernando Pessoa: “Eu sou aquilo que perdi”.

Pensamento do Dia