domingo, 1 de setembro de 2019
Moro, patrimônio em chamas
Com um abraço cenográfico após afagos que culminaram na máxima “Moro é patrimônio nacional”, o presidente Jair Bolsonaro esforçou-se para parecer ter deixado de lado a beligerância que deflagrou há meses contra o seu ministro da Justiça. Isso se deu durante a cerimônia de lançamento do Em Frente Brasil, nome que já serviu a outros fins em outros governos e agora batiza o Programa Nacional de Enfrentamento à Criminalidade Violenta.
Mas qual o quê. No mesmo dia, o superintendente da Polícia Federal do Rio, Ricardo Saadi, um dos pomos da discórdia, foi exonerado.
Mais uma derrota na fila de dissabores de Moro, que, de recuo em recuo, ainda não conseguiu dizer a que veio.
Sucumbiu no projeto de flexibilização de posse e porte de armas, não conseguiu fazer andar sua proposta de combate à criminalidade no Congresso Nacional. Nem mesmo emplacar auxiliares de terceiro escalão, como bem diz o simbólico exemplo de Ilona Szabó, que ele queria e não foi autorizado a colocar na suplência do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.
E ainda tem de ouvir pitos públicos do chefe, como as suspensões das credenciais hierárquicas do ministro sobre a PF e da carta branca conferida no início do governo que agora Bolsonaro nega.
Quando trocou a toga pelo cargo de ministro, Moro tinha obrigação de saber que perderia brilho. Deixaria de ser o todo-poderoso juiz da operação Lava-Jato para se tornar subserviente ao presidente, persona que ele não podia alegar desconhecer. Perdeu poder, autoridade e autonomia, algo que só uma indesculpável ingenuidade ou um carreirismo deslavado seriam capazes de explicar. Ou os dois.
Como Moro apanha sem reagir, pululam como pulgas teorias extravagantes de que ele estaria se guardando para quando a eleição presidencial chegar. De que continuaria cultivando sua popularidade e de forma alguma pediria demissão, reservando ao presidente o ônus de um eventual afastamento.
Difícil crer em uma estratégia tão tortuosa, que pressupõe cuspir sobre o prato em que comeu. Ou seja, se tornar opositor de Bolsonaro na última hora e concorrer contra ele em 2022. Ato visto como traição, na maioria das vezes imperdoável, pelo eleitor.
Por mais que a aprovação popular resista já há lacunas no super-herói, abalado pelos vazamentos de mensagens com procuradores e, mais grave ainda, por não conseguir fazer andar investigações que envolvem a família do presidente. Talvez porque Bolsonaro passe por cima dele e dê ordens diretas aos órgãos responsáveis pelas apurações, o que o levaria para desconfortável campo da cumplicidade nada republicana.
Isso se traduz em fragilidade, imagem oposta à de robustez e força que Moro passava ao público quando suas sentenças condenavam corruptos à prisão.
A ingenuidade, que aqui beira a tolice, pode até embalar sonhos de vir a disputar votos, mas o servilismo a um patrão que faz dele gato e sapato leva à outra ponta: o desejo continua sendo a cadeira no Supremo Tribunal Federal. O assento vitalício valeria a submissão.
Mas também aí o ex-juiz de Curitiba deve se precaver. Bolsonaro não é propriamente um homem de palavra. Vive desdizendo os ditos, não raro dizendo que nunca disse o que disse.
E seu apreço por patrimônios é próximo de zero, como se viu recentemente no trato com a Amazônia, patrimônio universal, ou em relação a Angra, patrimônio natural que ele quer transformar em uma nova Cancún.
Moro seria mais um patrimônio ardendo em chamas. No caso, por autocombustão.
Bolsonaro volta a avacalhar o conceito de indulto
No Brasil, até o nobre conceito do indulto está sendo avacalhado. Nas últimas três décadas, todos os presidentes submetidos à Constituição de 1988 exercitaram seus pendores humanitários por meio do indulto de Natal. Mas há um limite depois do qual uma tradição pode se transformar em maldição. Em 2017, o que parecia natural virou imoral. O então presidente Michel Temer estendeu o indulto aos presos por corrupção. Agora, Jair Bolsonaro quer perdoar policiais condenados.
O indulto de Temer levou a suavização do castigo às fronteiras do escárnio, perdoando 80% das penas e 100% das multas. A Procuradoria-Geral da República recorreu na época. O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, levou o pé à porta, atenuando o absurdo por meio de uma liminar. Mas Temer acabou prevalecendo no plenário da Suprema Corte. Ficou entendido que o indulto é um ato discricionário do presidente. Ou seja: no limite, Bolsonaro pode fazer agora o que lhe der na telha.
Na campanha presidencial, Bolsonaro disse que o petista Fernando Haddad, se eleito, decretaria um indulto seletivo, só para abrir a cela de Lula, um malfeitor da política. Agora, o capitão ameaça recorrer à mesma seletividade para livrar da tranca os bandidos da polícia —civis e militares. Gente condenada, segundo ele, "por pressão da mídia".
Pela tradição, o indulto só pode beneficiar criminosos "não-violentos". Sob Temer, alegou-se que corrupção não é crime violento. Uma bobagem. Ao roubar verbas públicas, o corrupto mata metaforicamente nas macas dos hospitais sem recursos. Mata o futuro de crianças matriculadas em escolas precárias. Bolsonaro será ainda mais explícito. Promete soltar gente que puxou o gatilho.
Bolsonaro não aprende
Não obstante, chamam a atenção alguns casos, que se destacam pelo excesso de beligerância, intensidade e constância. O presidente da República parece ser um ponto fora da curva, aparentemente incapaz de aprender por qualquer das duas vias.
Hoje, não é mais um deputado do baixo clero, mas o líder máximo da nação, a oitava economia do planeta. As consequências de seus pronunciamentos impõem a todos os brasileiros uma fatura a pagar. O discurso e a postura do presidente constroem, ou destroem, a imagem do nosso país. A Amazônia desperta diferentes interesses internacionais. Dependemos de habilidade diplomática para manter a cobiça estrangeira à distância e a nossa soberania respeitada. Não será com ofensas, beligerâncias, fanfarronice, bravatas e falta de educação que defenderemos nossos interesses.
Ao atacar os líderes europeus, de forma impulsiva, o presidente compromete a imagem do país e coloca em risco nossos interesses comerciais. Ironias de cunho pessoal não só dificultam as relações, como despertam o rancor entre os chefes de Estado — o que, obviamente, não resultará em nada positivo para o Brasil. Pela evidente incapacidade de aprender, pela dor ou pelo amor, o presidente vem se incumbindo de destruir todas as relações diplomáticas tradicionalmente cultivadas pelo Brasil. Assim como fez com a deputada, insiste em oferecer, gratuita e desnecessariamente, toda a munição que interessa àqueles que têm os olhos voltados para a Amazônia. Muito em breve, o preço será pago por todos nós.
O mínimo que se espera do presidente da República é que tenha discernimento e compreenda o seu atual papel. E, nesse caso particular, que entenda que a Europa não é igual a Maria do Rosário.Gustavo Bebianno, ex-secretário-geral da Presidência
Ruídos de Bolxo x Moro, PF nas queimadas e a morte da lavoura do cacau
Há fogo, ainda, sob as cinzas, em meio a nuvens de fumaça que se diluem aos poucos na região da Amazônia Legal. Enquanto isso, nos desvãos da política , seguem os ruídos sobre a relação, do presidente Jair Bolsonaro com o seu ministro da Justiça e da Segurança, Sérgio Moro, no jogo de poder atual. Vale a pena acompanhar, com olhos bem abertos, o trabalho (e resultados) da PF, na investigação sobre a participação do crime organizado no chamado “Dia do Fogo”, em áreas emblemáticas da floresta. Determinação do Palácio do Planalto, prontamente acatada pelo ministro “patrimônio nacional”, no discurso do presidente, quinta-feira (29).
Indícios e pistas, revelados pela revista Globo Rural, apontam ações típicas de organizações bandidas, na propagação do grande incêndio que, entre outros desastres e prejuízos, municiou o presidente Macron, da França , nos ataques duros ao colega brasileiro e nos palpites sobre a questão ambiental e a soberania do Brasil na região estratégica. Errática tentativa de agradar ruralistas de seu país, e fazer acenos políticos à ruidosa esquerda francesa, que morde seu calcanhar desde a posse.
Isso faz o jornalista recordar outro episódio de “terrorismo ambiental”, originário também da mata amazônica, de conseqüências terríveis para a lavoura e a economia do cacau no sul baiano, com efeitos na política: a grande virada que fez o governo e o poder mudar de mãos na Bahia. A derrubada dos chamados “Barões do Cacau” e do “Carlismo” (de ACM, “o original”, no dizer de Mario Kertész).Tudo (ou quase) foi para as mãos do PT e suas linhas auxiliares.
<p>Era o escândalo da Vassoura de Bruxa. Praga transplantada por mãos criminosas, da Amazônia para a Mata Atlântica, e que matou a rica e histórica lavoura cacaueira, um dos carros-chefes das exportações do agronegócio do país, e força econômica maior e motriz da balança comercial baiana.. O jornalista vale – se da memória, de sua atuação profissional nas redações de A Tarde e sucursais do Jornal do Brasil e da Revista Veja, para alertar desmemoriados.
A Veja produziu, na época, ampla, bem apurada e polêmica reportagem sobre o bioterrorismo na zona do cacau. Investigação jornalística contundente, a partir de confissão de Luiz Henrique Franco Timóteo, então militante do PDT, de ter organizado ações para espalhar a praga nos cacauais sob as sombras das matas no rico sul do estado. Timóteo acusou pessoas e grupos organizados ligados ao PT de terem concebido e levado adiante o plano de disseminação do fungo da vassoura-de-bruxa da Amazônia, onde a praga é endêmica. Mais não conto. Está tudo nos arquivos dos jornais e revistas, nos inquéritos policiais e nos processos na justiça.
Agora a PF apura o que se esconde nas nuvens turvas do chamado “Dia do Fogo”, convocação criminosa, para promover queimadas na Amazônia, através de aplicativos de mensagens usados por agricultores, grileiros e grupos organizados atuando no meio do caos dos desmatamentos.
“A suspeita é de crime organizado, metido em ações violentas, corruptas e, às vezes, em conluio com policiais, políticos e agentes do Estado na região”, assinalou o experiente e bem informado jornalista Alex Ferraz, na Tribuna da Bahia . Bomba de poder destrutivo bem maior que o terrorismo biológico da Vassoura de Bruxa, que devastou a lavoura e a economia do cacau na Bahia. A conferir.
Indícios e pistas, revelados pela revista Globo Rural, apontam ações típicas de organizações bandidas, na propagação do grande incêndio que, entre outros desastres e prejuízos, municiou o presidente Macron, da França , nos ataques duros ao colega brasileiro e nos palpites sobre a questão ambiental e a soberania do Brasil na região estratégica. Errática tentativa de agradar ruralistas de seu país, e fazer acenos políticos à ruidosa esquerda francesa, que morde seu calcanhar desde a posse.
Isso faz o jornalista recordar outro episódio de “terrorismo ambiental”, originário também da mata amazônica, de conseqüências terríveis para a lavoura e a economia do cacau no sul baiano, com efeitos na política: a grande virada que fez o governo e o poder mudar de mãos na Bahia. A derrubada dos chamados “Barões do Cacau” e do “Carlismo” (de ACM, “o original”, no dizer de Mario Kertész).Tudo (ou quase) foi para as mãos do PT e suas linhas auxiliares.
<p>Era o escândalo da Vassoura de Bruxa. Praga transplantada por mãos criminosas, da Amazônia para a Mata Atlântica, e que matou a rica e histórica lavoura cacaueira, um dos carros-chefes das exportações do agronegócio do país, e força econômica maior e motriz da balança comercial baiana.. O jornalista vale – se da memória, de sua atuação profissional nas redações de A Tarde e sucursais do Jornal do Brasil e da Revista Veja, para alertar desmemoriados.
A Veja produziu, na época, ampla, bem apurada e polêmica reportagem sobre o bioterrorismo na zona do cacau. Investigação jornalística contundente, a partir de confissão de Luiz Henrique Franco Timóteo, então militante do PDT, de ter organizado ações para espalhar a praga nos cacauais sob as sombras das matas no rico sul do estado. Timóteo acusou pessoas e grupos organizados ligados ao PT de terem concebido e levado adiante o plano de disseminação do fungo da vassoura-de-bruxa da Amazônia, onde a praga é endêmica. Mais não conto. Está tudo nos arquivos dos jornais e revistas, nos inquéritos policiais e nos processos na justiça.
Agora a PF apura o que se esconde nas nuvens turvas do chamado “Dia do Fogo”, convocação criminosa, para promover queimadas na Amazônia, através de aplicativos de mensagens usados por agricultores, grileiros e grupos organizados atuando no meio do caos dos desmatamentos.
“A suspeita é de crime organizado, metido em ações violentas, corruptas e, às vezes, em conluio com policiais, políticos e agentes do Estado na região”, assinalou o experiente e bem informado jornalista Alex Ferraz, na Tribuna da Bahia . Bomba de poder destrutivo bem maior que o terrorismo biológico da Vassoura de Bruxa, que devastou a lavoura e a economia do cacau na Bahia. A conferir.
Aos amados, tudo
Basta de gols contra
Aparentemente, o presidente e seu círculo mais íntimo parecem não haver entendido que não estamos mais na Guerra Fria. Não há mais o confronto entre dois blocos ideológicos. Mesmo Trump, capitaneando uma relação comercial belicosa com a China e pensando em levantar muros na fronteira mexicana, não se pauta pela lógica bipolar de um mundo dividido entre esquerda e direita. Nem a China. E muito menos a Europa. Qual o sentido, pois, em fazer desaforos ao presidente da França e sua esposa, em ressuscitar um nacionalismo anacrônico parecido ao que aflorou (à época com maior razão) diante do projeto de um think tank americano, Hudson Institute, que nos anos 60 aventou a ideia estapafúrdia de transformar a Amazônia em um grande canal de navegação alternativo ao do Panamá?
A reação dos europeus ao aumento das queimadas na Amazônia responde a motivos distintos e não se deu de forma uniforme. Há uma preocupação genuína com questões que têm impactos globais (mudança climática e extinção da biodiversidade). Existem também razões menos universais, como a defesa de interesses protecionistas, e motivações circunstanciais, como o receio de derrotas em eleições locais a se realizar no próximo ano. Em lugar de reagir toscamente, negando dados empíricos e insultando cientistas e chefes de estado de outros países, deveríamos ter reagido prontamente para combater as queimadas e mostrar, na prática, o compromisso soberano do Brasil com a proteção do meio ambiente. Não há meio mais eficaz para desinflar a conjectura inaceitável sobre conferir um estatuto internacional à Amazônia.
Nessas horas precisamos de bom senso e racionalidade, virtudes difíceis em um país polarizado. Patriotismo não se mede por bravatas nacionalistas, sobretudo quando insultuosas. A proteção do bioma amazônico é, acima de tudo, do interesse do Brasil, um interesse coincidente com o dos demais países que compartilham esse bioma e também com o do planeta. Dadas as restrições fiscais, recursos do exterior são bem-vindos. Não nos falta capacidade para bem administrá-los, com transparência, e em parceria com a sociedade civil, que pode e deve ser aliada e não inimiga na preservação do meio ambiente e na realização de projetos de desenvolvimento.
Há queimadas que em parte são cíclicas, em parte são legais, mas em grande parte (é preciso avaliar o tamanho) são criminosas: derrubada ilegal de mata para queimá-la e transformar a floresta em pasto ou em áreas para grãos. Se nos faltasse terra, vá lá, caberia a discussão sobre o que fazer. Mas elas são abundantes e o agronegócio brasileiro, aquele que opera dentro da legalidade, não precisa depredar para ser competitivo. Ao contrário, só continuará a ser competitivo se não depredar, como prevê a Constituição e está estatuído nas leis.
Enquanto vozes lúcidas do agronegócio clamam por racionalidade, no Governo há quem insista em distorcer os fatos. Como se fosse pouco negar a validade de dados científicos, busca-se transformar vítimas em algozes. Nessa linha, aponta-se a demarcação de terras indígenas como o grande obstáculo para o desenvolvimento da Amazônia.
É essa retórica de desinformação, insulto e incentivo a práticas ilegais, reiterada ao longo de oito meses, a principal responsável pela crise atual. De um lado, ela abriu a porteira para que os interessados no desmatamento ilegal se sentissem autorizados a tocar fogo no cerrado e na floresta. De outro, deu o pretexto para que a defesa de interesses protecionistas se revestisse com a capa de legitimidade da preocupação ambiental. A retórica oficial tem sido danosa aos interesses do Brasil. Pode colocar em risco, até mesmo, o acordo do Mercosul com a União Europeia.
De positivo nesse quadro, só há dois pontos a destacar: primeiro, a reação rápida e vigorosa de vários setores da sociedade brasileira; segundo, a prontidão das Forças Armadas em responder à situação de emergência provocada pelo descontrole das queimadas na região amazônica.
Com tanto horror perante os céus, como disse um poeta, devemos aguentar firmes (imprensa, Congresso, Judiciários, líderes empresariais e da sociedade civil) para não deixar que arroubos personalistas e interesses familiares comprometam o futuro do país.
Creio que foi Octávio Mangabeira quem disse: a democracia é como uma plantinha tenra, precisa ser regada todos os dias para crescer. Trata-se agora de preservá-la. Como mostram muitos livros recentes sobre a crise da democracia, a forma moderna de corrompê-la não passa por golpes militares, mas por atos governamentais que, quando não encontram reação à altura, pouco a pouco lhe vão arrancando as fibras.
O preço da liberdade é a eterna vigilância. É preciso nos manter atentos e fortes para que as instituições do Estado continuem a cumprir, com independência, as obrigações impostas pela Constituição.
Quando o G7 salvou a Amazônia
O movimento do G7 foi feito no contexto da conferência Rio-92, na qual nasceram as convenções de Clima e Biodiversidade da ONU. Ele daria origem ao Programa Piloto de Proteção às Florestas Tropicais do Brasil, o PPG-7, que começou a operar em 1994. Até hoje considerado o maior caso de sucesso de cooperação internacional na área ambiental, o PPG-7 durou 15 anos e investiu 463 milhões de dólares, que ajudaram a criar 100 milhões de hectares de terras indígenas em unidades de conservação, e desenvolver tecnologias que provaram que manter floresta em pé não é incompatível com melhorar a vida das pessoas que moram nela. De um jeito muito real, o programa criou as condições para o Brasil reduzir a taxa de desmatamento entre 2005 e 2012.
Foi ali que surgiu parte da governança ambiental que ora é desmantelada por Jair Bolsonaro e seu antiministro do Meio Ambiente. Dois instrumentos particularmente importantes nasceram dentro do programa-piloto. Um deles foi a ideia de criar vastas extensões de áreas protegidas como barreiras à grilagem e ao desmatamento. Isso incluía o zoneamento ecológico-econômico dos Estados da Amazônia, a fim de identificar as áreas com maior aptidão agropecuária e as áreas com maior potencial de conservação.
O outro instrumento foi um sistema de licenciamento de propriedades rurais que consistia em mapear por satélite as áreas de vegetação nativa em cada fazenda. Batizado SLAPR, o sistema foi adotado com sucesso em Mato Grosso no fim do Governo FHC e expandido para outros Estados Amazônia no Governo Lula. Hoje ele vigora no país inteiro sob o nome de Cadastro Ambiental Rural, ou CAR. Ruralistas que apoiaram a decisão de Bolsonaro de rejeitar a “esmola” de 20 milhões de dólares oferecida pelo G7 na última segunda-feira se dizem fãs do CAR e do zoneamento.

O programa também testou os incentivos econômicos à manutenção da floresta, algo que o Brasil nunca conseguiu fazer funcionar na escala necessária. Manejo sustentável de madeira, cadeias produtivas de óleos e essências, açaí e castanha — tudo isso foi explorado. Colonos da Transamazônica, no Pará, aprenderam que um pé de copaíba em suas terras vale mais pelo seu óleo do que pela sua madeira.
Como o Governo sabia que não daria conta de executar todos os projetos iniciados com a doação do G7, o programa-piloto produziu mais uma inovação: entregou-se essa tarefa a organizações da sociedade civil. Os néscios que criticam a suposta profusão de ONGs na Amazônia fariam bem em entender que essas organizações foram chamadas pelo Estado para suprir a carência de Estado, em parceria com o Estado. O PPG-7 ajudou a criar uma capacidade de atuação de ONGs na Amazônia que se mostraria importante depois.
Foi por causa dessa capacidade que a Noruega entregou ao Brasil 1 bilhão de dólares de seu fundo soberano em 2007 com a condição de que parte dos projetos fossem executados por ONGs e com a tranquilidade de que o recurso seria aplicado naquilo a que se destinava. Ao tentar, de forma desonesta e truculenta, tirar as ONGs do Fundo Amazônia, o antiministro Ricardo Salles ignorou um histórico de mais de duas décadas de parceria bem-sucedida. É evidente que os doadores não topariam a patranha — os alemães, que doam para o fundo, foram os maiores contribuintes do PPG-7. Eles cooperam com ONGs no Brasil desde que Salles era um estudante do colegial e nunca tiveram problemas com isso.
O principal ganho do PPG-7, porém, foi imaterial: o programa ajudou a silenciar a paranoia soberanista que cercava qualquer ação estrangeira na Amazônia. Mostrou que cooperação em meio ambiente não é um jogo de soma zero e que, não, soldados de olhos azuis não vão desembarcar na região Norte e decretá-la zona internacional.
Evidentemente não se tratava de um surto de bondade do G7: era um dinheiro que os países ricos eram obrigados a doar de qualquer maneira como ajuda externa ao desenvolvimento — aliás, nunca cumpriram o compromisso firmado em 1992 de aumentar os repasses de 0,36% para 0,7% do PIB. E que encontrou destinação adequada na proteção de um ativo que preocupava a opinião pública nos países doadores. O Planalto, por sua vez, entendeu que o sucesso do programa ajudaria a calar a boca dos críticos que diziam que os brasileiros eram incapazes de cuidar da própria floresta.
Isso tudo, claro, era como raciocinavam os civis no governo.
Os militares nunca engoliram essa história de cooperação internacional e nunca deixaram de alimentar a psicose da invasão estrangeira, facilitada pelas ONGs, pelos índios e pelos padres. Sua volta ao poder em 2018 libertou todos os demônios enjaulados desde a Rio-92. E desta vez não vieram sozinhos, mas apoiados num casamento de conveniência com os setores mineiro e agropecuário que perderam o acesso livre às terras baratas na Amazônia.
Os discursos de ignorância calculada do general Heleno (que conhece a Amazônia muito bem) e o tuíte do general Villas-Boas que nomeia uma trupe de malucos como referências de “equilíbrio” na área ambiental mostra que essa gente não está brincando: querem retomar o controle dos destinos da região e continuar de onde seus antecessores pararam em 1985. Isso inclui apertar o cerco contra os indígenas e seus defensores, contra as ONGs e contra a Igreja Católica — e dar uma bicuda na cooperação internacional.
Dificilmente foi da própria cabeça que Bolsonaro tirou a ideia de mandar Angela Merkel pegar o repasse alemão do Fundo Amazônia e “reflorestar a Alemanha”. Em nenhuma outra situação um presidente com uma emergência ambiental a enfrentar deixaria 200 milhões dólares (o saldo do Fundo Amazônia, dez vezes mais que a “esmola” do G7) bloqueados por birrinha de seu ministro do Meio Ambiente, quando uma canetada poderia resolver a questão. O discurso surreal de Bolsonaro contra os índios nesta semana, o powerpoint vazado que resgata elementos do programa Calha Norte e o fato de estar circulando na Secretaria de Assuntos Estratégicos o clássico conspiratório militar A farsa ianomâmi, de Carlos Alberto Menna Barreto (1995), completam os sinais. Vem nacionalismo bruto por aí.
O que a turma verde-oliva e a ala psiquiátrica do Governo precisam entender é que o mundo, o Brasil e a Amazônia mudaram muito desde 1992. Há tecnologia de dados, comunicações e liberdade de imprensa. Há compromissos internacionais ratificados pelo Brasil contra a crise climática que demandam proteção da floresta. E, como o setor de couro acaba de descobrir, há um poder de pressão muito maior dos mercados globais sobre a economia brasileira. O caso do PPG-7 mostra que o desastre da política ambiental do país não se terá devido à falta de bons exemplos no passado.
sábado, 31 de agosto de 2019
Soldados de Caxias
Quem escreveu isso? Assim, ninguém. A primeira frase é do Partido da Causa Operária, um grupúsculo de ultraesquerda (e, nela, depois da “crise”, aparece uma “criada por Bolsonaro”).
Já a segunda é do general Edson Pujol, comandante do Exército, na Ordem do Dia lida no último dia 23. Mas as duas ficam bem juntas, abraçadas no ninho do nacionalismo. A nação, ensinou Benedict Anderson, é uma “comunidade imaginada”. O patriotismo nacionalista, registrou Samuel Johnson, é “o último refúgio dos canalhas”.

A invocação da soberania nacional é o refúgio clássico de governantes quando estrangeiros apontam rupturas dos compromissos internacionais assumidos pelo país, desrespeito às leis nacionais ou violações dos direitos dos cidadãos. Os canalhas perfilam-se à sombra da bandeira sempre que emergem temas diplomáticos globais, como as políticas ambientais e os direitos humanos. Nessas horas, a extrema direita e a esquerda tradicional revelam suas notáveis semelhanças. Então, uns e outros começam a empregar as palavras “imperialismo” e “colonialismo”.
Jimmy Carter assumiu a Presidência dos EUA em 1977 e lançou sua política de direitos humanos, afastando Washington das ditaduras militares do Cone Sul. Ernesto Geisel reagiu rompendo o acordo militar bilateral para “não sujeitar o Brasil à interferência externa”. O general Gregório Álvarez, homem-forte da ditadura uruguaia, tentou costurar um pacto com o Brasil para resistir à “subversão comunista” e ao “desrespeito dos EUA à soberania” dos dois países. Eles só não aplicaram o rótulo de “comunista” a Carter para reservar o espetáculo do ridículo à extrema direita bolsonarista.
A guerra de verdade toma, eventualmente, o lugar da guerra retórica. Leopoldo Galtieri deflagrou a Guerra das Malvinas, em 1982, para unir a Argentina em torno de uma sangrenta ditadura que submergia. “As Malvinas são argentinas —e os desaparecidos também.” A resposta da oposição evidenciou o dilema da esquerda, incapaz de se desvencilhar de seu discurso ritual anti-imperialista. No fim, a ditadura desabou —mas como resultado da humilhação militar.
Soldados de Caxias, soldados de Bolívar. O hino da “luta contra o imperialismo” acompanha as prisões e a tortura na Venezuela chavista. “Esses bandidos vão lá e falam mal do país e ganham milhares de dólares”: Nicolás Maduro utiliza, para as ONGs de direitos humanos, a mesma linguagem que Jair Bolsonaro usa para as ONGs ambientalistas. ONGs formam um universo heterogêneo, multifacetado. Mas, na retórica compartilhada pelo nacionalismo autoritário de direita e de esquerda, todas são agentes do “inimigo externo” pois podem representar contrapontos ao poder estatal.
No G7, com o plano de ajuda para combate a incêndios e reflorestamento, Emmanuel Macron deu um xeque ao rei, prendendo Bolsonaro no canto do tabuleiro diplomático. Depois, sua incauta sugestão de um estatuto internacional para a Amazônia ofereceu aos nacionalistas um atalho rumo ao “último refúgio”.
A Amazônia, no imaginário militar, é o “verde de nossas florestas”, uma das cores da bandeira, e o pilar setentrional da doutrina geopolítica de integração nacional. Os “soldados de Caxias” estão lá, nas largas faixas de fronteiras mortas, nos caminhos líquidos disputados pelo narcotráfico.
A Ordem do Dia de Pujol, tão parecida com o brado insignificante da Causa Operária, era ainda mais previsível que a próxima fagulha de incêndio. Nem por isso deixa de ser uma fuga para o “último refúgio”.Demétrio Magnoli
O milionário que comprou 7 milhões de hectares na Amazônia por causa do seu cordão umbilical
Aquela reportagem me deu dores de cabeça. A notícia havia sido dada pela imprensa brasileira. Eu a contei para o jornal lembrando que se tratava da aquisição de um território do tamanho da Holanda e da Bélgica juntas. Uma verdadeira loucura que transformou o empreiteiro brasileiro no maior latifundiário do planeta. No seu território, comprado por uma ninharia, corriam 28 rios e havia várias reservas indígenas e aldeia inteiras.

Eram terras do Estado que nunca poderiam ter sido vendidas. Foi preciso a intervenção do então ministro da Justiça, Renan Calheiros, do Governo de Fernando Henrique Cardoso. Verdade ou não, Rego também era acusado de envolvimento em episódios escabrosos como assassinatos, ocultação de cadáveres, atos de escravidão e formação de quadrilhas paramilitares. O novo dono daquela imensidade da Amazônia andava acompanhado então de 14 homens armados e o juiz do caso era escoltado dia e noite por dois policiais.
No território amazônico —que eu nunca soube como o milionário conseguiu adquirir, pois era oriundo de uma família muito pobre que havia enriquecido com contratos de obras de construção com o Estado— havia na época enormes tesouros naturais como reservas de diamantes, ouro e a maior reserva de mogno do planeta, então avaliada em 7 bilhões de dólares.
Meu artigo levou este jornal a publicar um editorial lembrando que, ainda que respeitada a soberania brasileira sobre a Amazônia, aquele santuário ecológico, de algum modo “era responsabilidade de todos” pela importância ambiental que constitui para toda a humanidade.
O empreiteiro e latifundiário Rego devia ter boas relações com o Governo, pois recebi uma carta do então embaixador brasileiro em Madri em que tentava me explicar quais publicações devia ou não consultar e apreciar para o meu ofício de correspondente
Respondi delicadamente que nunca teria me permitido explicar a um embaixador como devia exercer sua delicada missão de diplomata e que eu conhecia meu ofício, pois tinha 30 anos de profissão, dos quais mais de 20 como correspondente. Pouco depois o advogado do novo proprietário dos 7 milhões de hectares da Amazônia me telefonou, fazendo observações sobre minha reportagem. Disse-lhe que a melhor solução seria que ele me organizasse uma entrevista com Rego. Respondeu que ele não queria se encontrar pessoalmente comigo, mas que poderia conversar por telefone. Assim foi. Mostrou-se muito amável e tentou me convencer de que havia comprado legalmente aquele enorme território da Amazônia.
Perguntei-lhe por que queria comprar tanta terra. Respondeu: “Eu nasci lá e minha mãe enterrou o cordão umbilical naquela terra”. Voltei a perguntar-lhe se era necessário adquirir um território como a Bélgica e a Holanda juntas. E me respondeu com candura: “Já que decidi comprar, comprei tudo”.
O que o empresário milionário deveria ter então eram boas informações até dentro deste jornal em Madri. Ele me recriminou que eu tinha escrito o editorial em que se afirmava que a Amazônia era responsabilidade de todos e não apenas dos brasileiros. Expliquei-lhe que neste jornal os editoriais não têm autor. E que a responsabilidade final era do diretor e que ninguém sabia quem os escrevia. E ele respondeu com certo ar de orgulho: “Pois nós sabemos que foi o senhor”. Tinha razão, embora nunca soube como ele ficou sabendo.
Não fiquei surpreso, portanto, que ele tivesse amigos poderosos que o ajudaram a ser dono daquele tesouro de sete mil hectares de uma terra quase sagrada que é de todos os brasileiros e que ninguém tem o direito de se apropriar dela.
Tudo isso para lembrar aos jovens jornalistas brasileiros, aos quais dedico esta coluna, que há 20 anos a questão da Amazônia era tão quente fora do Brasil quanto os incêndios que hoje a destroem e que continua sendo tão mal administrada pelos governos como sempre. Será esta a vez em que a guerra na qual se meteu o presidente Jair Bolsonaro, como um elefante em uma loja de cristais, e que desafiou a diplomacia mundial, que o país tomará consciência do tesouro e da responsabilidade de que deve prestar contas não apenas aos brasileiros, mas ao mundo?
A cruzada do papa pelos povos da floresta
O encontro pode fazer do papa o maior anteparo à política de Bolsonaro para a Amazônia. Ao contrário do presidente francês, Emannuel Macron, contido por seus rivais europeus na comedida reunião do G-7, Jorge Bergoglio contará, no sínodo, com bispos de oito países (Brasil, Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guianas e Suriname) afinados em sua cruzada pela região.

Órgão consultivo do papa, o sínodo discute as ações da Igreja Católica em missões por ele definidas. A nuance de exército eclesiástico é relativizada pelo formato. O papa não participa do encontro e não está obrigado a seguir suas recomendações. No tema em questão, porém, somam-se bispos comprometidos com a região e um papa que, desde o início do seu pontificado, identificou, na questão ambiental, um tema transversal às disputas de cunho moral que dividem o clero.
Com habilidade, o papa cuida para que seu discurso não seja facilmente carimbado. Não se alinha à tese de "pulmão do mundo", que seria engrossada pelo presidente francês mais de um ano depois. Em Porto Maldonado, mostrou-se disposto a "romper com o paradigma histórico que considera a Amazônia como uma despensa inesgotável dos Estados, sem ter em conta os seus habitantes".
Para isso, deu nome a quase todos os bois da floresta, desde a "pressão de grupos econômicos por petróleo, gás, madeira, ouro e monoculturas agroindustriais" quanto o interesse de movimentos que, "a pretexto de conservar a floresta, se apropriam de grandes extensões de terra e a tornam inacessível aos povos nativos".
O sínodo, cujas reuniões preparatórias já entraram no radar da Agência Brasileira de Informações (Abin), não se limita às fronteiras da floresta. Ao fincar estaca no discurso ambiental, o papa também firma sua liderança contra a nova direita mundial e seus principais porta-vozes.
O mais estridente deles, Steve Bannon, conselheiro do bolsonarismo, disse, em entrevista recente ao "National Catholic Register", jornal católico e conservador dos Estados Unidos, que o papa transformou a Igreja Católica num partido político: "Ele [Jorge Bergoglio] hoje é parte do sistema global contra mudança climática. Não é nem mesmo um centro-esquerda, é da esquerda radical. Seu partido político apoia os Verdes, que, para mim, são, essencialmente, um movimento teológico".
Bannon, que busca legitimidade para se arvorar contra o papa em sua origem familiar de imigrantes operários irlandeses católicos da Virgínia, começou a alvejar o papa quando este, em discurso na linha de fronteira do México com os Estados Unidos, durante a campanha de Donald Trump em 2016, disse: "Uma pessoa que só pensa em construir muros, onde quer que estejam, e não em construir pontes, não é um cristão". Sua cruzada em defesa dos imigrantes levou ainda o primeiro-ministro italiano Matteo Salvini, outro consulente de Bannon, a tentar jogar os italianos contra o papa.
O marqueteiro de Donald Trump acusa o papa ainda de ser aliado chinês e partidário do braço católico do 'marxismo cultural', a Teologia da Libertação - "Ele é ao mesmo tempo jesuíta e peronista". Cativa, no episcopado e na política, aliados em torno da ideia de um novo cisma da Igreja, que teria por base as massas operárias que se movem, no mundo inteiro, pelo discurso contra imigrantes.
O cisma que hoje mais ameaça a Igreja Católica, no entanto, é avanço dos pentecostais e seus derivados. Depois de se expandirem dos Estados Unidos para o resto do mundo, tornaram-se ponta de lança da direita israelense sob o pretexto dogmático de que a volta de Cristo à Terra só será possível quando os judeus estiverem assegurados na terra prometida.
No Brasil, espalharam-se pela Amazônia como em nenhuma outra região do país. Foi no Norte que o PT perdeu, pela primeira vez em 20 anos, uma eleição presidencial. Nas contas do demógrafo José Eustáquio Diniz, dos seis Estados em que a proporção de votos evangélicos tem relação mais estreita com o apoio ao presidente Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018, quatro (Acre, Rondônia, Roraima e Amazonas), estão no Norte. Os outros dois Rio e Espírito Santo, Estados não nortistas de maior proporção evangélica.
Tem sede em Manaus, por exemplo, o Ministério Internacional da Restauração (MIR), denominação pentecostal que, em 2014, atuou decisivamente em favor de Marina Silva e, em 2018, bandeou-se para o bolsonarismo tendo a atual ministra Damares Alves como uma de suas principais interlocutoras no governo. Dos sete Estados em que o MIR tem sede, quatro (Amazonas, Rondônia, Roraima e Pará) estão no Norte.
Apesar de os primeiros registros de protestantes na Amazônia datarem do século XVI, com as incursões francesas de huguenotes no Maranhão, foi só com o pentecostalismo que, no início do século XX, os católicos passaram a ter, de fato, rivais na evangelização. A conquista se deu paulatinamente à exposição de populações indígenas e ribeirinhas ao avanço de mineradoras, madeireiras e pecuaristas numa região em que o escasso clero católico, há tempos, deixou de dar conta das aflições terrenas de seus fiéis.
Em artigo que esmiúça as práticas religiosas de povos tradicionais da Amazônia, dois antropólogos, Manoel Ribeiro de Moraes Junior e Donizete Rodrigues, associam o avanço do pentecostalismo à assimilação de rituais do curandeirismo e do xamanismo caboclo. As práticas exorcistas de purificação do corpo, as danças e uma atuação assistencial massificada aproximaria mais facilmente os pentecostais das populações indígenas aculturadas do que os católicos. O xamã e o pastor se confundem como operadores de ritos que se dizem capazes de curar, física e espiritualmente, os fiéis.
Para enfrentar o pentecostalismo caboclo e o exorcismo de Steve Bannon, o sínodo está disposto a enfrentar velhos dogmas católicos. O presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e prefeito emérito da Congregação para o Clero, em Roma, d. Claudio Hummes, já reconheceu que uma das soluções pensadas para fortalecer seus exércitos, numa região em que 70% das comunidades não recebem os sacramentos católicos, é a dispensa do celibato na ordenação de padres.
Arcebispo emérito de São Paulo e um dos cardeais mais próximos do papa Francisco, Hummes tem enfrentado ao longo de toda a preparação do sínodo as desconfianças do governo Bolsonaro. Como, além dos bispos e seus auxiliares, o sínodo contará também com representantes de comunidades indígenas e leigos envolvidos com o tema. O governo brasileiro pediu para ter assento no encontro mas o Vaticano não cedeu à presença de representantes oficiais de nenhum governo.
O sínodo enfrenta a retranca governista que o vê como um encontro anti-Bolsonaro destinado à internacionalizar a Amazônia, obsessão histórica dos militares brasileiros. Contra a ideia fixa, a Igreja exibe a Encíclica do Meio Ambiente, inspiradora do encontro de outubro. O texto data de 2015, quando o atual presidente ainda estava no início de seu último mandato como deputado federal e se limitava a brigar com o Ibama pela pesca em área preservada de Angra dos Reis (RJ). São abundantes, ainda, manifestações críticas à política ambiental de governos anteriores, como a do bispo emérito do Xingu, d. Erwin Kraütler, que se insurgiu a contra a construção da usina de Belo Monte - "É um monumento à insanidade" - pelos governos petistas.
O sucesso do sínodo dependerá mais da estratégia da Igreja em se fazer ouvir por aqueles que moram na Amazônia do que de seus embates com o governante de plantão. No discurso de Porto Maldonado, o papa despiu a igreja do discurso catequizante para abraçar a ideia de que são os povos da floresta que hoje têm ensinamentos para o clero: "Nós que não habitamos nestas terras, precisamos da vossa sabedoria e dos vossos conhecimentos para podermos penetrar - sem o destruir - o tesouro que encerra esta região, ouvindo ressoar as palavras do senhor a Moisés: 'Tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa'".
Ainda está pouco claro, porém, como se efetivaria a aproximação de um clero sem braços, ante a concorrência de denominações pentecostais mais próximas do bolsonarismo e da efervescência ritualística dos povos da floresta. Ainda que enfrente a concorrência de denominações pentecostais, o papa Francisco tem se distinguido pela aproximação com outras religiões, como demonstrou na busca de diálogo com o Islã.
O que não parece haver dúvidas é que, quando os bispos e as lideranças indígenas se reunirem a partir de 6 de outubro no Vaticano, durante um encontro que tomará três semanas de discussões e votações, os documentos lá produzidos serão um reforço a posições assumidas por um papa alvo de bombardeios dentro e fora da Igreja.
A força do papa como liderança capaz de denunciar a avidez de grupos econômicos sobre a Amazônia, a histeria de entidades conservacionistas que querem fazer dos povos da floresta prisioneiros de seu próprio infortúnio e os interesses de governantes que fazem da pauta ambiental joguete de suas disputas de poder depende, em grande parte, deste sínodo. A ver como o clero católico será capaz de colocar tudo isso, junto e misturado, no púlpito de suas igrejas.
A perda da esperança
Como se fosse uma síntese de suas convicções mais arraigadas, no mesmo episódio o presidente Bolsonaro menosprezou os problemas do meio-ambiente, embora tenha sido avisado pelos estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e entrou em conflito, direto e pessoal, com o presidente Emmanuel Macron, da França, país símbolo das liberdades individuais e dos direitos humanos, legados fundamentais do Ocidente à civilização.

Civilidade que não esteve presente no desacato à primeira-dama francesa, Brigitte Macron. Embora tenha dito que não a ofendeu, Bolsonaro apagou sua mensagem misógina do twitter, numa autoincriminação.
Aproveitando-se de uma demagogia ecológica de Macron, que tentou levar a discussão para o lado da internacionalização da Amazônia, Bolsonaro tirou da manga a carta do patriotismo que, como disse Samuel Johnson, numa versão amenizada, é o último refúgio dos sem argumentos.
Não era preciso, Macron foi isolado pelos demais líderes europeus de peso, como Angela Merkel, da Alemanha e Boris Johnson, da Inglaterra.
Talvez seja a faceta mais nauseante de seu comportamento como chefe de Estado o retrocesso que pretende impingir a uma sociedade que avançou em medidas sociais desde a Constituição de 1988, e nos últimos anos vem ampliando essas conquistas com decisões que nos colocaram no campo de valores comportamentais progressistas contemporâneos.
Falta ao presidente a compreensão de que é o representante de um país, e não de um restrito grupo de apoiadores que comungam seus pensamentos e se apresenta nas redes sociais de maneira acafajestada.
Bolsonaro não leva em conta alguns dos grandes legados das democracias ocidentais: separação da figura pessoal do governante, e suas próprias opiniões, do cargo institucional que representa; separação dos assuntos de Governo e de Estado; separação entre Estado e Religião, qualquer que ela seja. Cotidianamente vai de encontro a tudo isso.
Na visão de seus mentores, como Olavo de Carvalho, o espírito ocidental estaria sendo mitigado por uma política globalista, e é preciso reforçar a herança histórica, cristã, cultural, bem como o papel da família e do estado de direito a partir da tradição do liberalismo dos EUA.
Seria preciso resgatar o passado simbólico das nações ocidentais, mais calcado no imaginário representado por Trump do que pelas democracias européias.
Falando em seminário da Academia Brasileira de Letras, no encerramento de um ciclo coordenado pela escritora Rosiska Darcy de Oliveira intitulado “O que falta ao Brasil?”, o embaixador e ex-ministro Rubem Ricupero fez uma análise sobre o país às vésperas do bicentenário de sua independência.
Seu temor, registrado no título da palestra - Um futuro pior que o passado? – se baseia na história recente, cujo presente vê atingido por “desgraças simultâneas” que produziram o efeito equivalente ao da guerra “sobre uma sociedade até então poupada de catástrofes históricas, como derrotas e ocupações estrangeiras”.
Para Ricupero, “o Brasil jamais tinha passado por retrocesso tão destrutivo na vida das pessoas por meio do desemprego, do aumento da pobreza, do desalento. Nem experimentara nada equiparável ao profundo impacto depressivo dos escândalos de corrupção que destruíram a autoestima de todo um povo”.
Esse passado próximo, lamenta, não acabou de passar, é ainda o nosso presente. “Neste mesmo instante, ele continua a nos fazer sofrer na persistência da estagnação econômica, do desemprego, do retrocesso social, da barbárie das prisões, da corrupção, da destruição da Amazônia, da degradação dos homens que nos desgovernam”.
O que considera “a mais angustiante crise de nossa História”, Ricupero vê agravada “pelo advento de um governo retrógrado, cujo único programa reside na demolição sistemática do passado”.
Mas, o pior, analisa o ex-ministro Rubem Ricupero, é que “perdemos a esperança, isto é, a confiança de que o futuro nos trará remédio às agruras do presente, da mesma forma que antes o presente costumava superar problemas do passado”.
Capitão provoca a febre e reclama do termômetro
Chefe da maior fábrica de crises do Brasil, instalada no Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro especializou-se na produção de instabilidade política. Fornece ao mercado uma insegurança que desestimula investimentos e retarda a recuperação da economia. Nesta sexta-feira, o presidente queixou-se da forma como os jornais noticiaram o crescimento econômico miúdo (0,4%) do segundo trimestre.
Responsável pela febre que retarda a saída da crise, Bolsonaro implicou com o termômetro. Insinuou que os editores de Folha, Estadão e Globo formaram um conciliábulo para injetar pessimismo nas machetes: "Tudo combinado", disse o presidente aos repórteres, na saída do Alvorada. "O editor tem de aprender. Pelo menos não combina, pega mal. Não tem o que falar, não tem o que criticar. É obrigado a criticar. Então, tem o 'mas'".
Perguntou-se a Bolsonaro se ele considera que o pulinho de 0,4% registrado pelo IBGE no segundo trimestre é um crescimento acelerado. O capitão deu o braço a torcer: "Não é rápido. É lógico que é lento, a economia é igual a um transatlântico. Até na nossa casa, quando o pessoal está endividado aí, é devagar. É complicado recuperar".
O que espanta é a capacidade de Bolsonaro de criar do nada as crises que tornam mais lento o que já caminha devagar. A visão turva impede o presidente de enxergar o óbvio: a imprensa não é sócia da fábrica de crises do Planalto. Apenas leva às gôndolas a mercadoria que o governo fornece. Se, de repente, por milagre, o Planalto começar a produzir serenidade, as manchetes mudarão de assunto instantaneamente. Sem a necessidade de combinações.
O que é pior neste governo
A repulsa à ciência aparece de muitas formas. Quando ministros põem em dúvida aquilo que é consenso entre cientistas, como as mudanças climáticas, é um caso. Ou, então, quando o governo enxerga ideologia em números do IBGE, do Inpe, certamente outros exemplos virão. De uma forma mais ampla, porém, esta recusa da ciência põe em perigo o futuro econômico do Brasil. De duas formas.
A era digital, na qual entramos, é em essência aerada matemática. Os dois braços de avanços tecnológicos nos quais estamos mergulhando —em biotecnologia e em inteligência artificial —têm por pedestal uma matemática muito sofisticada. É ama temática do DNA e ama temática por trás dos softwares capazes de aprender.
Não bastasse, a conclusão de que vivemos um tempo de violentas mudanças climáticas se baseia em modelos matemáticos.
Nunca o Brasil precisou tanto de gente que conhece em profundidade matemática. E isso ocorre justamente quando temos um presidente da República que encontra, nos números, ideologia.
É em cima de conhecimento matemático que produziremos o PIB do futuro. É com base nele que temos a oportunidade de deixar de ser um exportador de commodities e cérebros para nos tornarmos cultivadores de cérebros e exportadores de tecnologia.
Nunca foi tão importante pegar instituições como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), as melhores universidades federais, estaduais e as PUCs e botar, nelas, todo gás. Concentrar nelas o melhor investimento.
Jamais foi tão relevante pegar experimentos como as Olimpíadas da Matemática e expandi-los, para que possamos descobrir desde cedo as melhores cabeças entre os brasileiros mais pobres, para que possamos —enquanto melhoramos o ensino público —pescar essa garotada e já dar ensino de excelência para eles desde cedo. Precisamos de qualidade em quantidade.
É a recusa dos números em plena era dos números que faz este governo olhar para a Amazônia e nela enxergar terra para pasto, para soja e minas diversas. Não vê a biodiversidade, a riqueza genética, a indústria farmacêutica do futuro, os bilhões e trilhões em patentes. Não se toca dos ciclos das chuvas, ignora que inteligência artificial em conjunto com edição genética permite produzir muito mais com muito menos terra.
Ao invés de promover o encontro entre iniciativa privada e professores universitários, de quebrar o preconceito da academia brasileira com o capitalismo do século XXI, o governo estimula o ódio à educação. Quando podia estar criando formas de estimular a geração de patentes e eliminar a burocracia para seu registro, tornar pesquisadores os grandes propulsores da nova riqueza nacional, o Planalto obscurantista os torna inimigos e, em estudantes, enxerga idiotas úteis.
O Vale do Silício existe por causa da Universidade de Stanford. Boston é um hub tecnológico por conta de Harvard e MIT, e Austin está chegando por causa da Universidade do Texas. A China investiu em formar matemáticos e hoje briga com os EUA. A Coreia do Sul. Quantos anos mais perderemos?
Em tempo: senhor presidente, diferentemente do que o senhor sugeriu e sua máquina de memes espalha, jamais fiz qualquer palestra para o governo federal. Muito menos pago pelo PT.
Transformar Amazônia em dinheiro súbito não é próprio de verdadeiros empresários e governos
No Brasil, no entanto, não é incomum que o governo e as autoridades, que devem fiscalizar e reprimir os crimes e as atividades antissociais, tenham sempre uma desculpa para o indesculpável. É o caso em relação às queimadas destrutivas do meio ambiente. Este é um momento particularmente significativo dessa violação do dever governativo.

Quando governantes acham que consumir o meio ambiente com a motosserra e as chamas é lícito, para assegurar os ganhos dos poucos em prejuízo dos muitos, e que disso depende o PIB, confessam que o dinheiro de poucos é mais importante do que a vida de todos. Quando dizem que o trabalho escravo, um item amazônico, não é escravo, confessam que a liberdade não é um valor essencial desta sociedade. O que dessa liberdade faz mera liberdade condicional.
Quando proclamam e asseguram que possam armar-se os que quiserem, especialmente no meio rural, onde é alta a violência dos que podem contra os que não podem, revogam o princípio de que é das Forças Armadas o monopólio da violência, para cumprir as leis e assegurar os direitos de todos. E os da própria nação, como sujeito coletivo da nacionalidade.
Os problemas destes dias são apenas a ponta flamejante de um conjunto de desorientações conexas que nos põem aquém da civilização. Estamos no rumo da desordem e da barbárie. Adeus, ordem e progresso.
Bravata e ignorância não resolvem problemas sociais e problemas ambientais. Além dos prejuízos econômicos que no curto prazo acarretará, a conduta brasileira em relação à questão ambiental afetará o setor produtivo, do lucro ao emprego. A desorientação do governo indica uma inclinação que, pelas consequências possíveis, poderá ser interpretada como genocida.
A pátria está em perigo. Atualizando a palavra do botânico Saint-Hilaire, que conheceu o Brasil inteiro como ninguém antes de o Brasil ser independente: ou o Brasil acaba com a saúva da criminalidade ambiental, ou a saúva da criminalidade ambiental acaba com o Brasil.
O empresariado brasileiro, não só o do agronegócio, tem não só o direito, mas o dever de se insurgir contra os negocistas desse novo capitalismo, o neocapitalismo do prejuízo que lhes virá. Capitalismo só vale um: o do lucro com responsabilidade social. O capitalismo é um sistema político de coadjuvantes, não só quem investe e lucra, mas também quem ajuda e quem trabalha. Ao que parece, é possível ganhar muito dinheiro, rapidamente, com a mentalidade anticapitalista desse neocapitalismo emergente, o do lucro de hoje no lugar do lucro de sempre.
A ignorância palavrosa produziu em poucas horas, nestes dias, para o capitalismo brasileiro, um retrocesso e um prejuízo cujo tamanho não será indicado pelos índices da bolsa. O liberalismo econômico de botequim gera uma democracia de bêbados, mas não supre nem sustenta a carência de inteligência e de prudência política e governativa.
Essa espécie de pacto com satanás, de que nos fala Guimarães Rosa, que disso soube como capanga de Manuelzão para aprender as coisas do sertão, como a que se esconde na ambição de dinheiro e de poder, é coisa de gente que não enxerga o que faz.
Disso, ouvi muito nos sertões do Brasil central, caboclos me demonstrando, tim-tim por tim-tim, cumaé que o coisa ruim, o pactário de encruzilhadas e cemitérios, ensina o muito do poder de ganhar em troca da alma do vivente, o prejuízo do finalmente. Mesmo quem não sabe que fez o pacto, está nele em pensamento, palavras e obras. O dinheiro existe para ser possuído e usado, e não para possuir as pessoas que o usam.
Aqueles que se omitem e debocham dos dramas do mundo, em nome do dinheiro fácil, parecem não saber dessas coisas e de seus silêncios ruidosos. Cada árvore tombada e queimada indevidamente, pensando o queimador que o que é de todos é só daquele um, é um ponto a mais para a cota de azeite fervente no tacho em que penam os que mandam derrubar a mata para endinheirar-se. Quando chegar a hora quente dos confins e dos confinamentos, o muito dinheiro não vai refrigerar o modo anticapitalista de ganhar e de gastar. É só esperar.
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